Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA III                                  




frica do
sculo VII ao XI
EDITOR MOHAMMED EL FASI
EDITOR ASSISTENTE I. HRBEK




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  III
          frica do sculo VII ao XI
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  III
frica do sculo
VII ao XI
EDITOR MOHAMMED EL FASI
EDITOR ASSISTENTE I. HRBEK




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, III: Africa from the seventh to the eleventh century. Paris:
UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1988. (Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Tradutores: David Yann Chaigne, Joo Bortolanza, Luana Antunes Costa, Lus Hernan de Almeida
Prado Mendoza, Milton Coelho, Sieni Maria Campos
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso e atualizao ortogrfica: Ilunga Kabengele
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil



      Histria geral da frica, III: frica do sculo VII ao XI / editado por Mohammed El Fasi.
             Braslia : UNESCO, 2010.
            1056 p.

          ISBN: 978-85-7652-125-9

           1. Histria 2. Histria medieval 3. Histria africana 4. Culturas africanas 5. frica
      6. Isl I. El Fasi, Mohammed II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao
      IV. Universidade Federal de So Carlos


Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
SUMRIO                                                                                             V




                                      SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XIX
Apresentao do Projeto .................................................................XXV

Captulo 1 A frica no contexto da histria mundial .............................. 1
Captulo 2 O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano ...... 39
Captulo 3 Etapas do desenvolvimento do Isl e da sua difuso na
            frica .................................................................................... 69
Captulo 4 O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII... 113
Captulo 5 Os povos do Sudo: movimentos populacionais ................. 143
Captulo 6 Os povos falantes de banto e a sua expanso ...................... 169
Captulo 7 O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio
            Fatmida (1171) .................................................................. 197
Captulo 8 A Nbia crist no apogeu de sua civilizao ....................... 233
Captulo 9 A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere ...... 267
Captulo 10 A independncia do Magreb............................................. 293
VI                                                                                 frica do sculo VII ao XI



Captulo 11        O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o
                   Norte e o Sul...................................................................... 327
Captulo 12        O advento dos fatmidas ................................................... 369
Captulo 13        Os almorvidas.................................................................. 395
Captulo 14        Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental .............. 431
Captulo 15        A regio do Chade na qualidade de entroncamento ......... 509
Captulo 16        A zona guineana: situao geral (captulo redigido
                   em 1977) ............................................................................ 537
Captulo 17        A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e
                   a Costa do Marfim ............................................................ 569
Captulo 18        Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e
                   a Casamncia) .................................................................... 619
Captulo 19        O chifre da frica ............................................................. 653
Captulo 20        As relaes da Etipia com o mundo muulmano............ 671
Captulo 21        A costa da frica Oriental e as ilhas Comores ................. 685
Captulo 22        O interior da frica Oriental .......................................... 721
Captulo 23        A frica Central ao norte do Zambeze ............................ 753
Captulo 24        A frica Meridional ao sul do Zambeze .......................... 779
Captulo 25        Madagascar ....................................................................... 799
Captulo 26        A dispora africana na sia .............................................. 825
Captulo 27        As relaes entre as diferentes regies da frica............... 861
Captulo 28        A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores .. 881

Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de
uma Histria Geral da frica ............................................................931
Dados biogrficos dos autores do volume III .....................................933
Abreviaes e listas de peridicos ......................................................937
Referncias bibliogrficas .................................................................945
ndice remissivo .............................................................................1021
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                                   frica do sculo VII ao XI



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                              frica do sculo VII ao XI



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
Cronologia                                                                XI




                        CRONOLOGIA




   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
        Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
         present), tendo como referncia o ano de +1950; nesse caso, as datas so
         todas negativas em relao a +1950.
        Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas so
         simplesmente precedidas dos sinais - ou +.
   No que diz respeito aos sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de
Cristo" so substitudas por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
     Exemplos:
    (i) 2300 B.P. = -350
    (ii) 2900 a.C. = -2900
         1800 d.C. = +1800
    (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
          sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                        XIII




                             LISTA DE FIGURAS




Figura 1.1   O Velho Mundo em 230/845 .............................................................................. 19
Figura 2.1   Representao da Meca........................................................................................ 44
Figura 2.2   Representao de Medina .................................................................................... 45
Figura 2.3   Pgina do Coro em escritura kufique, sculo IX (Abbasia, Iraque) .................... 48
Figura 2.4   A expanso do Estado Islmico ........................................................................... 62
Figura 3.1   As regies islamizadas aproximadamente no ano 500/1100 ................................ 71
Figura 3.2   Um elemento em detalhe do minbar (em cedro esculpido) da mesquita de
            Kayrawn .............................................................................................................. 76
Figura 3.3 Um As regies islamizadas aproximadamente no ano 900/1500 ......................... 95
Figura 5.1 A frica do Oeste no sculo XI......................................................................... 146
Figura 5.2 A mesquita de Tegdaoust/Awdghust, aps escavaes e trabalhos de
            conservao dos muros ....................................................................................... 158
Figura 6.1 A expanso banta ............................................................................................... 173
Figura 6.2 Objeto cermico da antiga idade do ferro (Urewe) ............................................ 185
Figura 6.3 Objeto cermico da antiga idade do ferro (Urewe) ............................................ 185
Figura 6.4 Plantao de bananas em Rutare, Ruanda ......................................................... 186
Figura 6.5 Exemplo de reconstituio de um forno da antiga idade do ferro em Ruanda .. 188
Figura 6.6 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Kabuye XXXV ......................... 189
Figura 6.7 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Nyaruhengeri I ........................ 189
Figura 6.8 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Gisagara VI.............................. 190
Figura 6.9a a c Perfis de fornos da antiga idade do ferro reconstitudos ............................. 191
Figura 7.1 O Egito rabe .................................................................................................... 202
XIV                                                                                                  frica do sculo VII ao XI



Figura 7.2  A mesquita Ibn Tln, no Cairo ........................................................................ 212
Figura 7.3  Mesquita fatmida do sculo XI. Detalhe da fachada ........................................ 212
Figura 7.4  Tmulo da poca fatmida, em Fustt ................................................................ 213
Figura 7.5  Egito: vaso (fatmida) de cermica lustrada, do sculo X ................................... 223
Figura 7.7  Bb al-Nasr: uma das portas da muralha da cidade fatmida ............................. 228
Figura 7.8  Mesquita al-Djuysh. Vista geral do lado leste................................................. 229
Figura 8.1  A Nbia crist .................................................................................................... 236
Figura 8.2  O edifcio da mesquita no velho Dongola, estado atual ..................................... 240
Figura 8.3  O palcio real do velho Dongola, transformado em mesquita em 1317 ............ 240
Figura 8.4  Retrato de Kyros, bispo de Faras (866-902) ...................................................... 242
Figura 8.5  Plano do stio cristo de Debeyra-Oeste (24-R-8) ............................................ 243
Figura 8.6  Plano de Kasr al-Wizz, conjunto monstico nbio ............................................ 243
Figura 8.7  Clice em vidro encontrado na catedral de Faras............................................... 248
Figura 8.8  Retrato de Marianos, bispo de Faras (1005-1036)............................................. 254
Figura 8.9  Arquitetura das igrejas nbias, segundo perodo ................................................ 259
Figura 8.10   Arquitetura das igrejas nbias, terceiro perodo ............................................... 262
Figura 8.11   Transepto norte da catedral de Faras e grande pintura mural policromtica,
              representando a Natividade (aproximadamente do ano 1000) ..........................263
Figura 9.1 A conquista do Magreb pelos rabes ................................................................. 275
Figura 9.2 Parte das fortificaes bizantinas da cidade de Tebessa ..................................... 280
Figura 10.1 Vista geral do vale no qual foi erguida a cidade de Fez ................................... 305
Figura 10.2 Minarete da mesquita de Karwiyyn de Fez ................................................... 306
Figura 10.3 A Kubba Baradiyyin em Marrakesh: detalhe da ornamentao da cpula....... 308
Figura 10.4a e b O ribt de Ss........................................................................................... 313
Figura 10.5 O grande tanque de Rakda, nas proximidades de Kayrawn.......................... 314
Figura 10.6 Porta e arcos cegos da fachada oeste da mesquita de Crdova ........................ 323
Figura 11.1 O Saara ............................................................................................................ 331
Figura 11.2 Mesquita do sculo X, na cidade de Tozeur, Djarid ......................................... 349
Figura 11.3 Um dos osis do Mzb .................................................................................... 353
Figura 12.1 O Magreb na primeira metade do sculo V/XI ............................................... 371
Figura 12.2 Vista panormica da pennsula de Mahdiyya (nos anos 1970) ........................ 377
Figura 13.1 O imprio almorvida: cidades e monumentos ................................................ 396
Figura 13.2 Marrakesh: escavaes no primeiro palcio almorvida ................................... 410
Figura 13.3a Ornamentos almorvidas: detalhes de uma porta em bronze (Fez) ............... 415
Figura 13.3b Ornamentos almorvidas de uma porta da poca,
               com aldraba em bronze (Fez) ......................................................................... 416
Figura 13.4 Os pases da bacia do Senegal na poca almorvida......................................... 422
Figura 13.5a Cunho monetrio almorvida e instrumentos de gravao em moedas ......... 426
Figura 13.5b Peas de moeda almorvida em ouro.............................................................. 426
Figura 14.1 A zona desrtica a ser atravessada: mapa atual das isoietas .............................. 435
Lista de Figuras                                                                                                                   XV


Figura 14.2 Itinerrios descritos por Ibn Hawkal ............................................................... 441
Figura 14.3 Um exemplo de cermica moldada in loco, imitando potes importados
              do Magreb (data provvel: sculos X-XII) ....................................................... 459
Figura 14.4 Oficinas monetrias de cunhagem de ouro s vsperas da tomada do
              poder pelos fatmidas ....................................................................................... 463
Figura 14.5 Cunhagem de dirrs no Magreb ocidental durante o perodo idrsida ............ 464
Figura 14.6 Cunhagem do ouro no mundo muulmano ocidental aps 910 ...................... 465
Figura 14.7 Tegdaoust/Awdghust: pesos em vidro fatmidas............................................. 467
Figura 14.8 Cunhagem em ouro dos almorvidas. Oficinas de cunhagem .......................... 470
Figura 14.9 Tegdaoust/Awdghust: fios de ouro produzidos com uma pedra de
              filetagem ........................................................................................................... 472
Figura 14.10 Tegdaoust/Awdghust: meios lingotes de ouro encontrados em
                escavaes ....................................................................................................... 472
Figura 14.11 Corrente de prata descoberta nas escavaes de Tegdaoust/Awdghust ........ 476
Figura 14.12 Itinerrios de al-Bakr; parte ocidental .......................................................... 478
Figura 14.13 Itinerrios de al-Idrs; parte ocidental ........................................................... 481
Figura 14.14 Os pontos do trfico transaariano, sculos IX-XI .......................................... 486
Figura 14.15 Tegdaoust/Awdghust: lamparina a leo com reservatrio decorado com
                impresses pivotantes ..................................................................................... 489
Figura 14.16 Tegdaoust/Awdghust: caneca em vidro importada, talvez da Ifrkiya ou
                do Egito (?) .................................................................................................... 490
Figura 14.17 Zonas de produo do ouro na frica Ocidental........................................... 496
Figura 14.18 Tegdaoust/Awdghust: um exemplo indito de estatueta antropomrfica ..... 502
Figura 14.19 Tegdaoust/Awdghust: uma das balanas descobertas, restaurada pelo
                Museu do Ferro, em Nancy ............................................................................ 506
Figura 15.1 Objetos em bronze provenientes das escavaes de Houlouf........................... 517
Figura 15.2 Jarro de pr-apresentao humana proveniente de Houlouf ............................ 517
Figura 15.3 O outeiro de Deguesse, no extremo norte de Camares .................................. 518
Figura 16.1 A zona guineana: lugares mencionados no texto ............................................. 539
Figura 16.2 Representao grfica, vista superior, do stio de Wassu .................................. 550
Figura 16.3 Dois crculos de pedra de Wassu, com linhas frontais mais ou menos
              completas no leste ............................................................................................ 551
Figura 16.4 A pedra em lira de Ker-Batch.......................................................................... 552
Figura 16.5a a h As escavaes de Igbo-Ukwu ................................................................... 558
Figura 16.5a Pingente miniatura em bronze representando uma cabea, vista de perfil ..... 558
Figura 16.5b Pingente em bronze representando uma cabea decorada de carneiro ........... 558
Figura 16.5c Crnio de leopardo em bronze, montado sobre uma haste de cobre .............. 558
Figura 16.5d Pingente em bronze, representando um pssaro e dois ovos, com crtalos
                e amarraes em pequenas correntes de fio de cobre ..................................... 558
Figura 16.5e Pedestal cilndrico em bronze ......................................................................... 559
Figura 16.5f Taa em bronze sobre pedestal ........................................................................ 559
XVI                                                                                                  frica do sculo VII ao XI



Figura 16.5g   Animal sobre uma concha em bronze ............................................................ 559
Figura 16.5h   Taa de bronze em forma de croissant ........................................................... 559
Figura 17.1   Cidades e stios mencionados no texto ............................................................ 570
Figura 17.2   Grupos lingusticos, povos e reinos mencionados no texto .............................. 572
Figura 17.3   Cermica decorada com pintura, proveniente das escavaes realizadas
              em Nyarko, nos arrabaldes da metrpole comercial de Begho, Repblica
              de Gana ........................................................................................................... 580
Figura 17.4 Cermica com engobo e gravura feita com rolete, proveniente das
              escavaes realizadas em New Buipe, Repblica de Gana,
              sculos VII-IX...................................................................................................582
Figura 17.5 Cermica decorada por estampagem, proveniente das escavaes realizadas
              em New Buipe, Repblica de Gana, sculos VII-IX.........................................582
Figura 17.6 (7 e 8) Cermicas com bordas salientes, ricamente decorada,
                       do perodo II, proveniente de Nkukoa Buoho, proximamente a
                       Kumasi, c. 500-1200 ..............................................................................584
Figura 17.7 (9, 10 e 11) Materiais da cultura "neoltica" de Kintampo, do perodo I,
                            proveniente de Nkukoa Buoho, prxima a Kumasi,
                            c. -1500/-500 .................................................................................584
Figura 17.8 Os ceramistas dangme do stio da Idade do Ferro de Cherekecherete,
              nas plancies de Accra (Gold Coast), sucessores dos povos da Idade do
              Ferro do sculo VII ao sculo XI, fabricavam cermica decorada,
              representando cabeas de animais domsticos e de seres humanos,
              modeladas e estilizadas......................................................................................587
Figura 17.9 Cabea de terracota proveniente de uma figura oni (rei),
              exumada em Ita Yemoo, regio de Ife, 26,3 cm de altura ..................................595
Figura 17.10 Cabea de terracota proveniente de estatueta representando talvez uma
                rainha, revelada em Ita Yemoo, regio de Ife, 23,1 cm de altura .....................596
Figura 17.11 Cabea de terracota encontrada prxima da rota de Ifewara, regio de Ife,
                22,5 cm de altura ............................................................................................597
Figura 17.12a a f Objetos encontrados durante as escavaes de Igbo-Ukwu..................... 606
Figura 17.12a Pingentes de bronze, com forma de cabeas de elefantes, provenientes
                 do depsito de objetos reais, altura: 7,4 cm ...................................................606
Figura 17.12b Tema ornando um basto de comando, proveniente do depsito de
                 objetos reais, altura: 14,5 cm..........................................................................606
Figura 17.12c Pingente de bronze, com forma de cabea de carneiro, proveniente
                 do depsito de objetos reais, altura: 8,9 cm....................................................606
Figura 17.12d Pote em bronze envolvido por cordas, com base de bronze servindo
                  como altar. Depsito de objetos reais, 30,48 cm de comprimento ................607
Figura 17.12e Pote de forma redonda, proveniente do depsito de objetos reais,
                 altura: 29 cm ..................................................................................................607
Figura 17.12f Pote de terracota, muito decorado, proveniente da descarga de
                 Igbo-Ukwu, altura: 40,6 cm ...........................................................................607
Figura 18.1 frica do Oeste: grandes regies fsicas ........................................................... 622
Lista de Figuras                                                                                                                XVII


Figura 18.2 Famlias lingusticas da frica do Oeste  mapa simplificado indicando
              algumas das principais lnguas ......................................................................... 624
Figura 18.3 Os manden e as suas lnguas ............................................................................ 627
Figura 18.4 Movimentos populacionais na alta Guin ....................................................... 634
Figura 19.1 O chifre da frica ............................................................................................ 655
Figura 19.2 Interior da igreja de Tcherqos (Saint Cyriacus), em Agowo,
              sculos IX-X da Era Crist .............................................................................. 656
Figura 19.3 Evangelho de Abba Guerima, com a figura de So Marcos, sculo XI ........... 665
Figura 19.4 Moeda do rei Armah, sculo VII da Era Crist............................................... 668
Figura 21.1 Escavaes no stio de Manda.......................................................................... 693
Figura 21.2 Cermica descoberta em Mro Deoua, em Comores ........................................ 696
Figura 21.3 Velha mesquita shrz de Domoni Anjouan, nas ilhas Comores,
              sculo XI .......................................................................................................... 697
Figura 22.1 As principais sociedades da frica Oriental do sculo VII ao IX .................... 723
Figura 23.1 Culturas arcaicas da frica Oriental e Austral................................................. 755
Figura 23.2 Stios arqueolgicos da frica Central............................................................. 758
Figura 23.3 Tumba do Kisaliano antigo (sculo VIII-X). Stio de Kamilamba................... 760
Figura 23.4 Tumba do Kisaliano clssico (sculo X-XVI). Stio de Sanga.......................... 761
Figura 23.5 Cermica e pulseira em marfim, de Sanga ....................................................... 764
Figura 23.6 Cermica do estilo luangua, proveniente do abrigo rupestre de Makwe,
              leste da Zmbia ................................................................................................ 773
Figura 23.7 Cermica moderna de estilo lungwebungu. ..................................................... 775
Figura 24.1 Alguns dos grupos tnicos definidos pelo estilo de cermica na frica
            Austral, entre 700 e 900...................................................................................... 780
Figura 24.2 Grupos tnicos e movimentos populacionais na frica Austral,
              entre 950 e 1000 .............................................................................................. 782
Figura 24.3 Organizao espacial dos pastores bantos. A casa do chefe encontra-se
              geralmente no alto de um declive, atrs do ptio dos homens e do
              estbulo ............................................................................................................ 787
Figura 24.4 Planta de K2, por volta de 1050. A estrela designa o ptio dos homens. ......... 793
Figura 24.5 Esquema de Mapungubwe em 1075 e 1150 .................................................... 795
Figura 25.1 Madagascar e as ilhas Comores ....................................................................... 801
Figura 25.2 Caneleira: Cinnamomum Zeylanicum ............................................................. 806
Figura 26.1 A batalha dos cls, de Khamsa de Nizm, um manuscrito datada de
              866/1461. Bagd .............................................................................................. 835
Figura 27.1 As relaes entre as diferentes regies da frica do sculo VII ao XI ............. 862
Figura 27.2 De um acampamento ao outro. Transumncia de pastores no Sahel
              maliano, arredores de Gumbu do Sahel ........................................................... 865
Figura 28.1a a g As diferentes raas de gado na frica ....................................................... 887
Figura 28.2 Casa de tijolo cru: cmodo abobadado ............................................................ 893
Figura 28.3a e b A produo de estatuetas de terracota existia no territrio da atual
                   Repblica do Nger entre os sculos VI e X ............................................. 897
XVIII                                                                                              frica do sculo VII ao XI



Figura 28.4 Busto feminino de terracota (escavaes de 1972; sondagem de
              J. Devisse em Kumbi Saleh). Engobo ocre ....................................................... 898
Figura 28.5 Pavimento em cacos: canto de um ptio trazido  luz em Ita Yemoo,
              na regio de Ife. A escala est em ps .............................................................. 899
Figura 28.6 Joia filigranada encontrada em Tegdaoust, Mauritnia .................................... 900
Figura 28.7 Pingentes em cornalina, colares em prolas de cornalina e objetos de
            vidro provenientes da cmara funerria de Igbo-Ukwu ...................................... 902
Figura 28.8 Colares de prolas coloridas provenientes do depsito de objetos reais em
              Igbo-Ukwu....................................................................................................... 902
Figura 28.9a a c Tecidos descobertos nas grutas de Tellem, no Mali................................... 907
Figura 28.9a Desenho de reconstituio da tnica trapezoidal (Z9) proveniente da
                gruta Z, sculos XII-XIII da Era Crist ........................................................ 907
Figura 28.9b Tnica de algodo trapezoidal (C71-186-I) proveniente da gruta C
                (sculos XI-XII da Era Crist ........................................................................ 907
Figura 28.9c Crnio tellem (2337-N51), coberto por uma toca de algodo (C20-2)
               proveniente da gruta C, sculos XI-XII da Era Crist ................................... 907
Figura 28.10 Fusaiolas descobertas em Tegdaoust .............................................................. 908
Figura 28.11 Cuba de ndigo no norte da Costa do Marfim .............................................. 908
Figura 28.12 Produo de sal, Walata: caravana vinda da sebkhra de Idjl (Mauritnia),
               com uma carga de barras de sal ....................................................................... 910
Prefcio                                                               XIX




                           PREFCIO
                    por M. Amadou Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por sociedades
que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados desde
as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius, Maurice
Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no africanos,
ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no podiam ser
objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e documentos
escritos.
    Se a Ilada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a "Idade Mdia"
europeia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XX                                                              frica do sculo VII ao XI



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado
como uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse
reforar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingustica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras,
e destinado ao trabalho forado, o africano veio a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior: a de
negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos africanos
no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria, em cuja apreciao das
realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e
dos intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, tm
se esforado em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e
abertura de esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues 
fontes africanas originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os
prprios africanos sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em
bases slidas, a historicidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                                 XXI



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra,
preocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos
e metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes
abusivas criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal,
bem como em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.
Eles esforaram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor
acompanhar a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade
sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questes
metodolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame
das fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e 
articulao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies
internacionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o
propsito de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao
da obra: apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e
rabe, assim como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o
hawsa, o peul, o yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para
o alemo, russo, portugus, espanhol e chins 1, alm de edies resumidas,
destinadas a um pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.


1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahi-
     li, peul e portugus; o volume II, em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano,
     kiswahili, peul e portugus; o volume III, em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV, em ingls,
     rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o volume V, em ingls e rabe; o volume VI, em ingls,
     rabe e francs; o volume VII, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII, em ingls
     e francs.
XXII                                                          frica do sculo VII ao XI



    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e
nove membros, composto por africanos e no africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso
citar primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da
histria das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos
dias atuais, reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da
humanidade, palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria,
ocorrida no perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na
frica, especificamente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes
mais brilhantes do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que,
at recentemente desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para
a reconstituio da histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus
diferentes povos no tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a
viso africana do mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam
as culturas e as instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional
encarregado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus
coordenadores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado
uma luz original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando
todo dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro,
essa "sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da
histria dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras
vivas, no momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante
no progresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas
consequncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural;
as relaes entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de
descolonizao e de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de
pessoas ainda vivas e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes
foram abordadas com grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor
cientfico, o que constitui um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o
balano de nossos conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas
sobre as culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria
geral da frica tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as
sombras, sem dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
Prefcio                                                                                                XXIII



    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicos amide utilizados
na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo
trabalho histrico de valor, para mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cientfico
Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de
aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre certos
aspectos do passado da frica. Esses trabalhos, publicados na coleo UNESCO
 Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a constituir, de modo til,
um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo desdobrar-se- na
elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade
histrica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente
com as Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos
afrodescendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em
um agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, em
maior ou menor grau, segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar
e agir de certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao
norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies
culturais herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive,
elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos
elementos mais importantes da populao.



2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; n. 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4  A historiografia da frica Meridional;
     n. 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6 
     Etnonmias e toponmias; n. 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n.
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; n. 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; n. 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11  Lbia Antiqua; n. 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXIV                                                           frica do sculo VII ao XI



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido de que os esforos dos povos da frica para conquistar
ou reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar
suas especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica
renovada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde os
primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada com
vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de certos
pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era necessrio,
para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra de
histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica e de
outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente africano e
dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso mais precisa
acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao progresso geral da
humanidade. Essa obra dever ento contribuir para favorecer a cooperao
internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas aspiraes
por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto muito
sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do
Comit Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes
volumes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publicar
essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela merece,
em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
Apresentao do Projeto                                                  XXV




     APRESENTAO DO PROJETO
                        pelo Professor Bethwell Allan Ogot
                 Presidente do Comit Cientfico Internacional
                 para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros
responsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
     Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
     A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVI                                                            frica do sculo VII ao XI



       subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
       da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e
       so analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias
       multilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio
       da frica para o desenvolvimento da humanidade.
      A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das ideias
       e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela fundamenta-se sobre
       uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradio oral e a
       expresso artstica.
      A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu
       interior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
       maneira atravs da qual os autores africanos veem sua prpria civilizao.
       Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
       dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
       para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando os
       fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de
       examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
       alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
       atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
       em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
       uma concepo particular dos valores humanos.
   O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhes
de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreendendo
aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos, mapas e
desenhos tracejados).
   Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
   Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros
do Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo,
todos eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles se encarregam da
elaborao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                  XXVII



da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comit ou,
entre duas sesses do Comit, ao Conselho Executivo.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes
captulos so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua
crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido
ao exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico
Internacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou originais,
solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de um
captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especfico da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo, etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a
comunidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece
XXVIII                                                          frica do sculo VII ao XI



sua chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
tarefa tal qual a redao de uma histria da frica, que cobre no espao todo um
continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando, todavia,
as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio, estudiosos
pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tradies histricas.
Trata-se de um empreendimento continental, internacional e interdisciplinar,
de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante
aos elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                             Bethwell Allan Ogot
                                                         Em 8 de agosto de 1979
                                    Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                   para a redao de uma Histria Geral da frica
A frica no contexto da histria mundial                                      1



                                           CAPTULO 1


                       A frica no contexto da
                          histria mundial
                                            Ivan Hrbek




    Um extraterrestre que tivesse visitado o Velho Mundo no incio do sculo
VII da era crist e, posteriormente, a ele voltasse cinco sculos mais tarde  apro-
ximadamente em 1100  facilmente concluiria com as suas observaes que a
totalidade dos seus habitantes brevemente tornar-se-ia muulmana.
    Por ocasio da sua primeira visita, a comunidade que se reunira em Meca,
pequena cidade perdida na imensido de desertos da Arbia, em torno do pre-
gador da nova religio, o profeta Maom, no totalizava sequer uma centena de
membros, os quais eram obrigados a enfrentar a crescente hostilidade dos seus
compatriotas. Cinco sculos mais tarde, os fiis do isl se haviam disseminado
sobre um territrio que se estendia das margens do rio Ebro, do Senegal e do
Nger, no Oeste, at as margens dos rios Syr-Daria e Indus, no Leste, e avanava
ao Norte at o Volga, em pleno corao do continente euro-asitico, atingindo
ao sul a costa oriental da frica.
   Na poro central deste territrio, os muulmanos constituam a maioria
da populao, ao passo que, em algumas regies da sua periferia, eles estavam
entre os dirigentes ou em meio aos comerciantes, dedicados a sempre empurrar
mais alm as fronteiras do Isl. Sem dvida, o mundo islmico j perdera nesta
poca a sua unidade poltica: dividido em numerosos Estados independentes,
ele inclusive fora obrigado a ceder terreno em algumas regies (no Norte da
Espanha, na Siclia e, at o final do perodo considerado, em uma pequena parte
2                                                             frica do sculo VII ao XI



da Palestina e do Lbano), contudo, ele no deixava de representar uma cultura
e uma civilizao relativamente homogneas cuja vitalidade estava longe de ser
esgotada.
    Entrementes, o isl cessara de constituir uma religio exclusivamente rabe;
a nova f lograra aliar e assimilar os mais diversos elementos tnicos para fundi-
-los no crisol de uma comunidade cultural e religiosa nica. Nascido sob o sol
ardente da pennsula arbica, o isl soubera aclimatar-se a diferentes latitudes
e junto a povos to distintos quanto os camponeses da Prsia, do Egito e da
Espanha, os nmades berberes somalis e turcos, os montanheses afegos e cur-
dos, os prias da ndia, os comerciantes soninqus e os dirigentes do Knem.
Numerosos dentre estes povos se haviam tornado, por sua vez, ardentes defen-
sores do isl, retomando a flmula das mos dos rabes e propagando a f em
novas direes.
    Perante um xito to resplandecente, o nosso extraterrestre no poderia dei-
xar de demonstrar-se to impressionado quanto os numerosos historiadores que
no hesitaram em qualificar como "era islmica" este perodo contido entre os
sculos VII e XI, qui mais alm. Certamente, os povos muulmanos no domi-
naram o conjunto do planeta e tampouco exerceram uma influncia poltica,
religiosa ou cultural decisiva sobre o restante do mundo; a expresso deve ser
tomada num sentido totalmente relativo: dentre as diferentes reas culturais da
poca, o mundo islmico foi a mais dinmica e progressiva em certo nmero de
domnios da atividade humana. Evidentemente, seria inexato passar em silncio
pelas transformaes ocorridas em outras regies ou subestimar as realizaes de
outros povos na frica, sia e Europa durante o mesmo perodo, haja vista que
nestas regies j se desenhavam algumas tendncias anunciadoras da evoluo
ulterior, as quais certamente influenciariam os destinos do mundo.


    A ascenso da civilizao islmica
    A conquista rabe apresenta numerosas similaridades com as outras ten-
tativas do mesmo tipo identificadas pela histria, entretanto, ela se distingue
igualmente destas ltimas em mltiplos aspectos. Primeiramente, embora ins-
pirados por um ensinamento religioso, os rabes no esperavam, em princpio,
que os povos conquistados se convertessem  sua comunidade religiosa, mas eles
lhes permitiam conservar as suas prprias crenas. Com o passar de algumas
geraes, todavia, a maior poro das populaes urbanas convertera-se ao isl
e mesmo os no-convertidos tendencialmente adotavam o rabe, transformado
A frica no contexto da histria mundial                                      3



em lngua veicular de uma cultura comum. O imprio rabe fora edificado
por um exrcito de guerreiros nmades, porm esta fora armada tinha  sua
frente mercadores citadinos j familiarizados com as culturas dos territrios
ocupados. Contrariamente a outros imprios nmades, o imprio fundado pelos
rabes soube por muito tempo preservar a sua unidade; enquanto os mongis,
por exemplo, haviam adotado as lnguas e os sistemas religiosos dos territrios
ocupados, os rabes, a seu turno, impuseram a sua lngua e a sua autoridade aos
diversos povos que eles haviam dominado.
    As conquistas rabes dos sculos VII e VIII tiveram dois efeitos marcantes
e durveis. O mais imediato e espetacular foi a criao de um novo grande
Estado na bacia mediterrnea e no Oriente Mdio. O segundo, mais lento e
tumultuoso, embora igualmente importante, foi o florescimento de uma nova
cultura no interior deste Estado.
    O Estado rabe constitura-se em um verdadeiro imprio com uma rapidez
raramente igualada na histria. Um sculo aps o seu surgimento no cenrio
mundial, os rabes eram os senhores de um territrio estendido dos Pirineus,
na fronteira com a Frana, ao Pamir, na sia Central. A Espanha, a frica do
Norte, o Egito, o antigo Imprio Bizantino, ao Sul das montanhas de Toros,
e o Imprio Persa, ao Leste, estavam desde ento ligados a um mesmo reino
imperial, to vasto quanto fora o Imprio Romano em seu apogeu.
    Durante pouco mais de um sculo, os conquistadores rabes lograram pre-
servar a coeso dos territrios dominados. Na segunda metade do sculo VII,
diferentes regies comearam a lhes escapar, ao passo que os muulmanos no-
-rabes reivindicavam os seus direitos com vistas a compartilharem o poder pol-
tico e administrativo. No Oeste, a Espanha, a frica do Norte e, posteriormente,
o Egito retomariam progressivamente a sua independncia, engajando-se em
trajetrias distintas. No Leste, diversas dinastias de origem persa ou turca (de
cultura persa) entraram em cena e rapidamente estenderam o seu domnio s
regies orientais do califado. Ao final do sculo XI, o Imprio rabe perdera h
muito tempo a sua grandeza passada. Ele se desmembrara em um extraordinrio
mosaico de pequenos Estados, poderes regionais e dinastias rivais, dos quais
somente um pequeno nmero era de origem rabe.
    Assim sendo, o Imprio rabe dos primeiros conquistadores cedera lugar ao
mundo muulmano da Idade Mdia: mundo, e no mais imprio, pois consti-
tudo de Estados politicamente autnomos e frequentemente hostis, conquanto
conscientes de uma identidade comum que os diferenciava das outras regies
do globo; muulmano, e no somente rabe, pois fundado em uma f comum,
muito mais que sobre laos tnicos.
4                                                               frica do sculo VII ao XI



    O segundo resultado durvel da conquista rabe foi a criao, no seio do
Isl, de uma nova civilizao. Os conquistadores rabes haviam construdo o seu
imprio graas  nova f islmica e s suas proezas militares; entretanto, a cultura
destes homens do deserto era, antes, simples e rudimentar. Comparado ao rico
legado clssico  helenstico ou persa  dos pases conquistados, o aporte cultural
dos rabes aparentava ser assaz limitado. Ele foi todavia importante em muitos
aspectos. Com efeito, alm da sua religio, os rabes transmitiam a sua lngua,
a qual se tornaria a principal lngua administrativa, literria e cientfica de todo
o mundo muulmano, e ofereciam a sua poesia e as suas concepes estticas.
    A civilizao rica e original que caracterizou o mundo muulmano em seu
apogeu era uma sntese de diversas tradies dos povos que se ligaram ao Isl
ou viveram sob o seu domnio. Herdeira das conquistas materiais e intelectuais
dos povos do Oriente Mdio e do Mediterrneo, ela igualmente tornara seus
e assimilara numerosos traos de origem indiana e chinesa, para a difuso dos
quais ela posteriormente contribuiria.
    Seria errneo conceber a civilizao muulmana como um simples con-
junto dspar de emprstimos culturais. Certamente, em um primeiro momento,
numerosos elementos estrangeiros foram adotados sem qualquer transformao,
porm eles seriam progressivamente combinados a outros elementos, amplifica-
dos e desenvolvidos at a adoo de formas originais, alimentando e estimulando
a criatividade muulmana nos planos cientfico, artstico e tecnolgico. Deste
modo surgiu uma civilizao especificamente muulmana, refletindo o novo
universalismo e a nova ordem social.


    Fatores geogrficos e econmicos
    O florescimento desta civilizao tornou-se possvel graas a um conjunto
de fatores favorveis, dialeticamente ligados entre si. O Imprio Muulmano foi
edificado em uma regio que era o bero da mais antiga civilizao do mundo.
Os conquistadores rabes ali haviam encontrado uma cultura e uma economia
urbanas derivadas de uma secular tradio da qual, muito rapidamente, eles sou-
beram tirar proveito, estabelecendo-se nas urbes pr-existentes, mas, igualmente,
fundando numerosas e novas cidades. Foi justamente em funo do seu car-
ter urbano que o mundo muulmano e a sua civilizao distinguiram-se mais
vigorosamente do Ocidente cristo, no incio da Idade Mdia. A existncia, no
seio do Imprio Muulmano, de numerosas cidades fortemente povoadas teve
consequncias considerveis no conjunto da sua economia e, particularmente, no
A frica no contexto da histria mundial                                      5



mbito das relaes comerciais existentes com outras partes do Velho Mundo.
Era no prprio cerne do imprio que se encontravam os mais importantes
centros econmicos e culturais. Na mesma poca, a Europa Ocidental oferecia
um quadro bem distinto, caracterizado por uma disperso em comunidades
rurais e por uma atividade comercial e intelectual reduzida  sua mais simples
expresso. O desenvolvimento econmico e social do mundo muulmano seguiu,
portanto, orientaes gerais diametralmente opostas quelas que caracterizaram,
na mesma poca, a histria da Europa.
    A ligao ao Imprio Muulmano de um nmero to grande de pases favo-
receu o desenvolvimento das atividades comerciais a um ponto tal que no teria
sido atingido quando a regio era politicamente dividida. Se contarmos a partir
dos ltimos anos do sculo VII at o final do sculo XII, o Imprio Muulmano
funcionou como uma zona de livre comrcio. Os bens produzidos em uma
das suas regies estavam rapidamente disponveis nas outras, de modo que os
mesmos hbitos de consumo eram compartilhados por populaes numerosas
e diversas, espalhadas em um vasto territrio. Situado a meio caminho entre o
Oriente e o Ocidente, o mundo muulmano igualmente contribuiu para difun-
dir as inovaes tcnicas junto aos povos circunvizinhos. O incremento das
trocas comerciais, entre as diferentes partes do Imprio Islmico e alm das
suas fronteiras, estimulou as produes locais destinadas a novos mercados.
Ele tambm conferiu novo impulso s descobertas e s aplicaes tcnicas na
esfera da navegao, por exemplo, em campos conexos tais como a construo
naval, a astronomia e a geografia, assim como no tocante s prticas comerciais
e bancrias.
    O crescimento econmico esboado no sculo VIII e ocorrido durante vrios
sculos deve-se em grande parte ao afluxo de metais preciosos nas regies cen-
trais do Oriente Prximo. Os primeiros dinares de ouro foram cunhados ao
final do sculo VII pelos omadas; eles circulavam essencialmente nas antigas
provncias bizantinas, enquanto as regies situadas mais a Leste continuaram
por muito tempo a utilizar as tradicionais moedas de prata. No sculo IX, o
aumento da quantidade de ouro disponvel provocou uma perturbao no sis-
tema monetrio do Imprio Muulmano: os pases onde, desde tempos imemo-
rveis, somente haviam circulado moedas de prata, adotaram uma dupla moeda
e em todas as regies orientais do califado comeou-se a cunhar dinares de ouro.
No Oeste a situao era diferente: sobretudo em razo do difcil acesso a minas
de ouro, o Magreb e a Espanha muulmana permaneceram por longo perodo
ligados  moeda de prata. A situao no evoluiria seno no sculo X, quando se
desenvolveram as importaes de ouro proveniente do Sudo Ocidental e, sob
6                                                               frica do sculo VII ao XI



os almorvidas, o dinar tornara-se uma moeda internacionalmente reconhecida1.
A emisso em grandes quantidades de excelentes moedas em ouro e prata teve
muitas repercusses na vida econmica dos pases muulmanos. O crescimento
do consumo de diversos bens estimulou a produo, mas, simultaneamente,
desencadeou uma alta brutal nos preos.
    Do ponto de vista geogrfico, o Imprio Muulmano igualmente estava
em vantagem graas  sua posio no corao do Velho Mundo. Dominando a
regio da pennsula, ela prpria situada entre as duas reas martimas do Medi-
terrneo e do Oceano ndico, os muulmanos dispunham de um trunfo decisivo
no que tange ao comrcio com os territrios mais distantes. Em virtude da sua
prpria imensido, das costas do Atlntico s fronteiras chinesas, o mundo
muulmano era a nica grande rea cultural que se mantinha em contato direto
com cada uma das suas congneres  Imprio Bizantino, a Europa Ocidental, a
ndia e a China. A sua situao geogrfica igualmente lhe permitia estabelecer
laos com vastas zonas fronteirias e com novos povos  nas plancies fluviais
da Eursia, na sia Central, no Sahel sudans, alm do Saara, e no Sudeste
Asitico. Justamente, foi nestas regies que prosseguiu a expanso do Isl, aps a
primeira onda de conquistas, principalmente ao longo das grandes rotas comer-
ciais terrestres  a via das estepes, dos desertos e dos osis que interligava a sia
Central  frica Ocidental  e martimas  a rota conduzindo aos pases situados
s margens do Oceano ndico e no Extremo Oriente.
    Esta posio central conduzia o mundo muulmano a servir como interme-
dirio  ou ponte  entre todas as outras regies do Velho Mundo. Juntamente
com as mercadorias transportadas por terra ou pelo mar, circulava relevante
nmero de ideias e conceitos, bem como inovaes tecnolgicas e cientficas.
Algumas novidades no eram aceitas seno pelos muulmanos; entretanto, elas
eram em sua maioria adotadas nas regies justapostas ao imprio. Frequente-
mente,  difcil saber como ou em quais momentos estes aportes culturais ou
tcnicos aconteceram, porm a sua realidade no poderia ser questionada. Assim
sendo, o papel foi um dos primeiros importantes produtos que vieram da China
para a Europa, passando pelos territrios muulmanos. Inveno originalmente
chinesa, ele fora introduzido no Imprio Muulmano por prisioneiros de guerra
chineses trazidos a Samarkand, em 751. Estes papeleiros chineses ensinaram aos
muulmanos as suas tcnicas de fabricao e Samarkand tornou-se a primeira
cidade produtora de papel fora da China. Esta atividade foi posteriormente


1   Conferir C. CAHEN, 1981.
A frica no contexto da histria mundial                                        7



retomada em Bagd, em seguida na Arbia, na Sria e no Egito, assim como,
finalmente, no Marrocos (sculo IX) e na Espanha muulmana (na primeira
metade do sculo X). Nesta ltima regio, a cidade de Jtiva (Shtiba em rabe)
tornou-se o principal centro de fabricao de papel e, a partir dali, no sculo
XII a tcnica foi introduzida na Catalunha, primeira regio europeia a produzir
papel. Desnecessrio sublinhar o considervel impacto exercido, sobre a cultura e
a civilizao em geral, pela difuso de uma dentre as mais importantes invenes
da humanidade.
    Do mesmo modo no tocante s matemticas, a numerao decimal inventada
na ndia foi muito prontamente adotada (desde o sculo VIII) pelos muulma-
nos  os quais denominavam algarismos indianos aqueles que ns consideramos
algarismos arbicos  e transmitida ao mundo ocidental entre o final do sculo
IX e a metade do sculo X. A adoo da numerao decimal pelos muulmanos
tornou possvel o desenvolvimento da lgebra, ramo das matemticas que, at
ento, no constitura objeto de nenhum estudo srio e sistemtico. Sem as bases
da lgebra, as matemticas e as cincias naturais modernas no teriam visto o dia.


    O mundo islmico e a frica
   Vejamos agora qual foi o impacto do mundo muulmano e da sua civili-
zao sobre a frica e os povos africanos. Ns abordaremos, em um primeiro
momento, as regies do continente africano que se encontraram assimiladas ao
Imprio Muulmano ao final da primeira onda de conquistas, a saber, o Egito
e a frica do Norte, antes de nos interessarmos pelas regies que sofreram, de
um modo ou de outro, a influncia do Isl ou dos povos muulmanos, sem terem
sido politicamente anexadas a nenhum dos grandes Estados islmicos da poca.
   A histria do Egito islmico entre o sculo VII e o final do sculo XI 
aquela, fascinante, de uma importante provncia, embora relativamente afastada
do califado, transformada em centro do potente imprio dos fatmidas, origi-
nalmente simples celeiro, posteriormente principal entreposto comercial entre o
Mediterrneo e o Oceano ndico, espcie de primo pobre do mundo muulmano
no plano das atividades intelectuais, transformada em um dos grandes centros
culturais rabes. Em mltiplas ocasies, o Egito exerceu influncia no destino de
outras partes da frica; ele foi o ponto de partida da conquista rabe do Magreb,
no sculo VII, em seguida da invaso hill, no sculo XI. A primeira teve como
efeito islamizar a frica do Norte e a segunda arabiz-la. Foi a partir do Egito
que os bedunos rabes iniciaram o seu movimento rumo ao Sul e penetraram
8                                                            frica do sculo VII ao XI



progressivamente na Nbia, abrindo deste modo a via para o declnio dos seus
reinos cristos e para a arabizao do Sudo niltico. Embora o Egito tenha
cessado, durante este perodo, de ser uma terra crist e a maioria da sua popula-
o se tenha convertido ao isl, o patriarcado de Alexandria continuava a con-
trolar as igrejas monofisistas da Nbia e da Etipia, constituindo-se em alguns
momentos no instrumento da poltica egpcia nestes pases.
    No se deve perder de vista o fato do Egito ser o destino final de elevado
nmero de escravos negros da frica que foram importados da Nbia (segundo
o clebre tratado [bakt]), da Etipia e do Sudo ocidental e central. Em meio
a esta triste mercadoria humana, havia um certo Kfr que finalmente tornar-
-se-ia o verdadeiro chefe do pas. Outros, aos milhares, tornar-se-iam militares,
exercendo considervel influncia em matria de poltica interna. Contudo, em
sua maioria eles foram empregados em tarefas modestas e subalternas.
    Seria necessrio aguardar os sculos XII e XIII para que o Egito realmente
desempenhasse um papel de primeira ordem, colocando-se como campeo do
isl frente aos cruzados ocidentais e aos invasores mongis; todavia, ele no
seria capaz de faz-lo sem a consolidao poltica e econmica dos sculos
precedentes.
    No Magreb, os conquistadores rabes enfrentaram a tenaz resistncia dos
berberes e somente ao final do sculo VII lograram submeter as principais
regies. A maioria dos berberes converteu-se ento ao isl e, malgrado o ressen-
timento que lhes inspirava a dominao poltica rabe, eles tornaram-se ardentes
partidrios da nova f, contribuindo para propag-la do outro lado do estreito de
Gibraltar e alm do Saara. Os guerreiros berberes compunham a grande parte
dos exrcitos muulmanos que conquistaram a Espanha sob os omadas, como
as tropas aglbidas que arrancaram a Siclia dos bizantinos e as foras fatmidas
que conduziram vitoriosas campanhas no Egito e na Sria.
    A frica do Norte ocupava uma posio-chave no mundo muulmano, pol-
tica e economicamente. Precisamente do Magreb lanou-se a conquista da
Espanha e da Siclia, cujas repercusses so conhecidas na histria do Mediter-
rneo Ocidental e da Europa.
    O Magreb foi um importante elo entre vrias civilizaes, constituindo-se
como campo de retransmisso para diversas influncias que circulavam nos
dois sentidos. Sob o domnio muulmano, esta regio da frica esteve nova-
mente ligada a uma economia de importncia mundial, na rbita da qual ela
desempenhou um papel de primeiro plano. No curso do perodo estudado, ela
conheceu um novo crescimento demogrfico, uma considervel urbanizao e
uma retomada da prosperidade econmica e social.
A frica no contexto da histria mundial                                            9



    Do ponto de vista religioso, os berberes exerceram uma dupla influncia.
Antes de tudo, as suas tradies democrticas e igualitrias levaram-nos muito
cedo a aderirem quelas das seitas do isl que pregavam estes princpios. Embora
o kharidjisme berbere tenha sido esmagado aps um florescimento que durou
vrios sculos e conquanto no tenha sobrevivido seno em algumas comuni-
dades, o esprito de reforma e de populismo permaneceu como parte integrante
do isl magrebino, como testemunham os grandes movimentos dos almorvidas
e dos almorades, assim como a multiplicao das confrarias sufis.
    A segunda grande contribuio dos berberes  ao Isl mas, igualmente, 
frica  foi introduzir a religio muulmana ao Sul do Saara. As caravanas de
comerciantes berberes que atravessavam o grande deserto em direo s regies
mais frteis do Sahel e do Sudo no transportavam somente mercadorias: elas
propagavam novas concepes religiosas e culturais que encontraram eco no seio
da classe dos mercadores antes de seduzir as cortes dos soberanos africanos2. Uma
segunda onda de islamizao do cinturo sudans reproduzir-se-ia no sculo XI
com a ascenso dos almorvidas, movimento religioso autenticamente berbere. A
influncia do isl berbere e das suas aspiraes reformistas jamais desapareceu no
Sudo: ela ressurgiria com particular vigor no momento das jihad do sculo XIX.
    Esta abertura para o Saara e para a zona sudanesa conferia  frica do
Norte uma particular importncia para a economia do mundo muulmano.
Quando o ouro sudans comeou a afluir rumo  costa mediterrnea em quan-
tidades cada vez maiores, ele provocou uma ascenso econmica que permitiu a
numerosas dinastias muulmanas reinantes no Oeste abandonarem a moeda de
prata em proveito da moeda em ouro. A explorao das minas de sal do Saara
intensificou-se, em resposta  crescente demanda da frica subsaariana por
esta indispensvel substncia mineral. Segundo respeitados recentes trabalhos,
as trocas com a frica subsaariana provavelmente constituram, durante vrios
sculos, o ramo mais frutuoso do comrcio exterior do Imprio Muulmano3.
    A zona sudanesa ocidental  uma das regies da frica que, no tendo sido
submetida pelos rabes nem por qualquer outro povo muulmano, jamais fez
parte do califado; no entanto, ela no deixou de sofrer influncias muulmanas
sempre mais fortes em razo dos contatos comerciais e culturais, sendo final-
mente integrada, at certo ponto, ao sistema econmico do Isl. A situao
era sensivelmente a mesma na costa oriental da frica, apresentando todavia
importantes diferenas.

2    A difuso do isl  estudada com maior detalhamento no captulo 3, a seguir.
3    E. ASHTOR, 1976, pp. 100-102.
10                                                           frica do sculo VII ao XI



    Desde a Antiguidade, a costa leste era frequentada pelos mercadores vindos
do Sul da Arbia e da Prsia para ali realizarem o seu comrcio. Aps a ascenso
do Isl e a fundao do Imprio Islmico, uma vasta rede comercial controlada
por muulmanos, em sua maioria rabes ou persas, estabeleceu-se no Oceano
ndico; interligando as margens do Golfo rabe-Prsico4 e (posteriormente)
do Mar Vermelho  ndia,  Malsia,  Indonsia e  China do Sul, esta rede
estendia-se igualmente at a costa oriental da frica, aos Comores e a certas
partes de Madagascar. A prosperidade das cidades costeiras pertencentes a esta
rede estava, em larga medida, ligada  situao econmica geral de toda a rea
do Oceano ndico e, particularmente, dos pases muulmanos. Alm disso, em
virtude da contnua expanso econmica que caracterizou o perodo estudado,
sobretudo quando os fatmidas comearam a desenvolver as suas relaes comer-
ciais com os pases do Oceano ndico, os estabelecimentos da costa oriental
africana foram chamados a desempenhar um papel ainda mais importante com
as suas exportaes de ouro, ferro, peles e de outros produtos. Esta situao no
somente assegurou a prosperidade material, mas, igualmente e de modo indireto,
o florescimento da religio e da cultura islmicas: estavam assim lanadas as
bases que, nos sculos seguintes, permitiriam a ecloso da cultura suali.
    A rpida expanso do Isl certamente causou dano considervel  economia
da Etipia, barrando-lhe o acesso ao Mar Vermelho e monopolizando o comr-
cio com as regies circunvizinhas. Ela igualmente teve repercusses polticas: o
pas dividiu-se e a autoridade central do Estado foi enfraquecida por mais de
dois sculos. A supremacia muulmana nas regies costeiras teve como consequ-
ncias suplementares o deslocamento, para o Sul, do centro de gravidade poltico
da Etipia, alm de uma expanso mais marcante nesta direo. As regies do
Sul tornaram-se ento um novo foco a partir do qual a Etipia crist renasceria
no sculo XI. A partir do sculo X, uma nova onda de islamizao ganhou o
interior do pas onde penetravam os mercadores muulmanos das ilhas Dahlak
e Zayl', ao passo que os primeiros Estados muulmanos eram fundados ao Sul
do seu atual territrio. As condies essenciais estavam assim reunidas para que
nos sculos seguintes o Isl e a cristandade se encontrassem engajadas em uma
longa luta pelo domnio da regio etope.
    O impacto que a ascenso do Imprio Islmico teve sobre a frica ao longo
dos cinco sculos estudados poderia assim ser resumido: a face mediterrnea
do continente  desde o istmo de Suez at o estreito de Gibraltar  e a costa


4    O "Golfo Prsico", segundo denominao oficial.
A frica no contexto da histria mundial                                      11



atlntica adjacente encontraram-se totalmente integradas ao mundo islmico.
Estas regies deixaram para sempre de ser terras crists e, inclusive, viriam a
servir de base para novos avanos do Isl, na Espanha e na Siclia, por um lado,
e no Saara e na zona sudanesa ocidental, por outra parte.
    No nordeste da frica, a expanso do Isl desencadeou o enfraquecimento
dos Estados nbio e etope, sem que estes pases fossem contudo submetidos.
Enquanto a Nbia passava progressivamente para o controle econmico e pol-
tico do Egito muulmano e os rabes nmades penetravam em seu territrio
at conseguirem provocar a sua descristianizao, a Etipia conservava a sua
independncia poltica e cultural, embora fosse conduzida a adaptar a sua pol-
tica externa a um ambiente circunvizinho de mais em mais dominado pelos
muulmanos.
    O Saara e vastas regies do Sudo estavam neste perodo abertos ao comrcio
e ligados deste modo  esfera econmica muulmana, no seio da qual as suas
principais exportaes  o ouro e os escravos  desempenharam um crescente
papel. A religio e a cultura islmicas difundiram-se ao longo das rotas comer-
ciais e integraram-se progressivamente s culturas africanas.
    Na frica oriental, a expanso do comrcio muulmano desempenhou um
papel comparvel, com a grande diferena que os mercadores muulmanos
limitaram as suas atividades aos estabelecimentos costeiros, deixando o inte-
rior das terras fora das influncias islmicas. Entretanto, a crescente demanda
dos pases muulmanos e da ndia pelo ouro do Zimbbue aparenta tambm
ter provocado mudanas inclusive na regio do Zambeze. Algumas partes de
Madagascar e das Comores igualmente foram ligadas  grande rede comercial
do Oceano ndico.
    Assim sendo, durante os cinco primeiros sculos da era islmica, vastas regi-
es do continente africano sofreram, direta ou indiretamente, as influncias
do novo Imprio Muulmano. Para algumas regies, foi a oportunidade para
romperem o seu isolamento passado e abrirem-se a outras culturas atravs de
intercmbios e emprstimos. A converso ao isl das classes dirigentes de certos
Estados da frica Ocidental e de localidades costeiras da frica Oriental criou
laos entre estes Estados e regies com o mundo muulmano. Na frica do
Oeste, onde existiam Estados anteriores  penetrao do Isl, o desenvolvimento
do comrcio norte-africano aparenta ter constitudo um elemento essencial para
a sua transformao em vastos imprios5.


5    J. D. FAGE, 1964, p. 32.
12                                                                                frica do sculo VII ao XI



    Os contatos estabelecidos entre o mundo muulmano e a frica tropical
tm outro mrito: os relatos dos gegrafos e historiadores rabes constituem um
conjunto de informaes nicas e indispensveis sobre estas regies6. Sem eles,
ns saberamos muito menos a respeito ou ignoraramos quase totalmente o que
foi a poltica, a economia e a cultura de numerosos povos africanos durante todo
um perodo crucial da sua histria. Trata-se de um aspecto da interao entre o
mundo muulmano e a frica que no convm esquecer.


     A frica e a Europa medieval na era das transies
     poca durante a qual, na longnqua Arbia, o profeta Maom comeava a
pregar a nova religio, a pennsula   qual denominamos Europa  que avana
a Oeste da enorme massa do continente euro-asitico era dividida em trs
grandes zonas, muito distintas quanto ao seu nvel de desenvolvimento geral: o
Imprio Bizantino; as antigas provncias romanas da Europa Ocidental, desde
ento sob o domnio de diversos povos germnicos; e, finalmente, as regies
situadas a Leste do Reno e ao Norte do Danbio, onde viviam povos germnicos
e eslavos, dentre os quais muitos ainda buscavam um lugar para permanente
estabelecimento.

     O Imprio Bizantino
   Somente o Imprio Bizantino podia pretender continuar a tradio greco-
-romana e constituir um Estado digno deste nome, em outros termos, um
Estado dotado de uma administrao eficaz, de uma economia monetria prs-
pera e de uma vida cultural altamente desenvolvida em numerosas reas. Tendo
sobrevivido s reviravoltas provocadas pelas primeiras migraes em massa, no
sculo VI, o imprio lograra  sob Justiniano  recuperar a sua supremacia na
maior parte do Mediterrneo central e ocidental, novamente transformado em
mar interno bizantino. A partir das suas provncias da sia e do Egito, partes
do imprio menos afetadas que outras pelas migraes, os bizantinos tentaram
reabrir as rotas comerciais em direo ao Oriente, tanto por via terrestre (refe-
rente  grande rota da seda, rumo  China), quanto pelo mar (referente quela
do Mar Vermelho, rumo  ndia). Todavia, estas tentativas chocaram-se com
outra grande potncia da poca, o imprio persa dos sassnidas, cujo domnio era


6    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. I, captulo 5, para uma avaliao destas fontes.
A frica no contexto da histria mundial                                      13



exercido em toda a parte central dos territrios irano-semticos, com exceo da
extremidade sria do crescente frtil. Uma luta incessante ops os dois imprios
desde a segunda metade do sculo VI at a tera parte do sculo VII, bizantinos
e persas alternando vitrias at que os segundos impuseram-se definitivamente
sobre os primeiros.
    Esta rdua luta esgotara financeiramente os dois adversrios e os seus exr-
citos, ao ponto de torn-los incapazes de resistir aos assaltos lanados algum
tempo depois pela nova fora dinmica  os rabes muulmanos. Os ataques
rabes provocaram a queda do Imprio Sassnida e arrancaram de Bizncio
algumas das suas mais preciosas provncias: a Sria e o Egito durante a primeira
onda de conquistas, em seguida a frica do Norte, aproximadamente ao final
do sculo VII.
    Ao longo dos sculos XI e X, a luta entre rabes e bizantinos reduziu-se pro-
gressivamente a engajamentos fronteirios na sia Menor e ao Norte da Sria,
enfrentamentos que em nada comprometiam o equilbrio de foras. O Imprio
Bizantino pde, contudo, tirar proveito da desagregao poltica do califado
oriental para reconquistar certas regies da Sria e da Mesopotmia.
    Quando os rabes perderam toda influncia poltica, os turcos seljcidas
os substituram e prosseguiram a expanso muulmana na sia Menor, onde
anexaram definitivamente grande parte do territrio aproximadamente ao final
do sculo XI. Esta nova ofensiva muulmana foi uma das causas principais das
cruzadas.
    O Imprio Bizantino cessou de exercer qualquer verdadeira influncia na
frica no curso do sculo VII. O Egito foi rapidamente perdido e as tentati-
vas espordicas realizadas para reconquist-lo pelo mar fracassaram; algumas
pores do litoral norte-africano permaneceram todavia sob controle bizantino
at o final do sculo e guerras intestinas interromperam as ofensivas rabes por
vrias dcadas. A Igreja Ortodoxa bizantina jamais fora muito poderosa nas
provncias africanas: os egpcios permaneciam fortemente ligados  doutrina
monofisista e as populaes urbanas da frica do Norte  Igreja Romana. As
conquistas muulmanas privaram em definitivo a Igreja Ortodoxa da fraca influ-
ncia da qual ela gozara nos sculos precedentes. Embora a Nbia no tenha
jamais pertencido ao Imprio Bizantino, as influncias culturais e religiosas
deste imprio ali permaneceram relativamente fortes, mesmo aps a conquista
do Egito pelos rabes, particularmente na Makuria, o mais central dentre os
trs Estados cristos da Nbia que, contrariamente aos dois outros, adotara o
culto ortodoxo (melkita). A administrao era calcada no modelo bizantino, as
classes superiores vestiam-se  moda bizantina e falavam grego. Porm, estes
14                                                                            frica do sculo VII ao XI



laos com a cultura e a religio bizantinas paulatinamente enfraqueceram-se
e, ao final do sculo VII, o rei de Makuria introduziu o monofisismo em seu
Estado, desde ento unido  Nobdia do Norte7. Esta evoluo teve como efeito
a reaproximao deste reino com o Egito copta e, parcialmente, com a Sria e
a Palestina, onde alguns cristos da Nbia encontravam eco para as suas con-
vices monofisistas.
    Em sua luta contra a Prsia, os bizantinos haviam buscado aliar-se  Eti-
pia  crist, embora monofisista. A expanso rabe barrou-lhe o acesso ao Mar
Vermelho e imps um termo aos seus intercmbios comerciais com a ndia,
tornando tal aliana, pela mesma ocasio, impossvel e v. Identificando-se de
mais em mais com o Estado e o povo etopes, o cristianismo monofisista, hostil
s outras crenas crists tanto quanto ao isl, encontrou a sua prpria identidade
que, nem no plano teolgico ou no plano da expresso artstica ou literria, nada
devia aos modelos bizantinos.

     A Europa Ocidental
    Caso dedicarmos a nossa ateno s provncias ocidentais do antigo Imp-
rio Romano, ou seja, ao que se convencionou denominar Europa Ocidental,
encontraremos s vsperas do perodo considerado uma situao totalmente
diferente daquela dos bizantinos. Entre os sculos IV e VII, todos os territrios
situados a Oeste do Reno e ao Sul dos alpes, aqui includas algumas partes das
ilhas britnicas, haviam acompanhado o desenrolar das grandes migraes dos
povos germnicos.
    Estes movimentos migratrios haviam criado na Europa Ocidental um
estado de extrema devastao; eles haviam provocado o declnio das cidades
e todas as atividades comerciais estavam desde ento concentradas localmente
em pequenas aglomeraes. A civilizao da Europa Ocidental deixara de ser
uma civilizao urbana para tornar-se uma civilizao de pequenas comunidades
agrcolas que no mantinham entre si seno restritas relaes.
    Esta desorganizao generalizada da vida social entre os sculos V e X trans-
formara a Europa em um aglomerado de pequenos territrios voltados para si
mesmos. As populaes viviam praticamente nas florestas e nas plancies, onde
lutavam desesperadamente pela sobrevivncia at a prxima colheita. Possuir a
garantia do seu alimento cotidiano era o privilgio de alguns grandes e podero-


7    No que se refere  religio ortodoxa e ao monofisismo na Nbia, conferir UNESCO, Histria Geral da
     frica, vol. II, captulo 12 e vol. III, captulo 8.
A frica no contexto da histria mundial                                    15



sos personagens. Estas sociedades no eram de forma alguma capazes de seguir
o modelo das civilizaes urbanas da Antiguidade.
    Nestes tempos de turbulncia, o comrcio local e as trocas com as regies
mais remotas dificilmente podiam se desenvolver. As tendncias autrcicas
prevalentes em todos os nveis haviam provocado o progressivo desapareci-
mento dos intercmbios comerciais e da economia fundada na moeda. Em
consequncia da rarefao das peas de moeda, o pagamento dos bens e dos
servios indispensveis acontecia por intermdio de produtos agrcolas e a
terra e os impostos cobrados relativos a ela constituam  com a guerra  a
principal fonte de riqueza e poder. Os camponeses dedicados ao trabalho nas
terras estavam engajados, de bom grado ou  fora, em diferentes tipos de
relaes contratuais com os seus senhores, aos quais deviam ceder uma poro
sempre mais importante da sua produo, em troca da segurana e da proteo
contra o inimigo local ou estrangeiro. Deste modo, lentamente implantava-
-se o sistema feudal que marcaria a histria da Europa durante numerosos
sculos vindouros.
    No sculo VII, enquanto o Imprio Bizantino era obrigado a lutar para
rechaar invasores vindos do Norte e do Sul, a Europa Ocidental, at ento sem
ameaar nenhuma potncia externa, foi capaz de se reorganizar em territrios
mais ou menos estveis. A Oeste, os visigodos controlavam toda a pennsula
ibrica; a Glia e os territrios adjacentes encontravam-se sob o domnio dos
francos merovngios e a Inglaterra acompanhava a fundao dos reinos anglo-
-saxes. Ao final do sculo, a Itlia estava em mos dos bizantinos ao Sul e
dos lombardos (novos invasores germnicos) ao Norte. Ao longo dos sculos
seguintes, todos os povos germnicos da Europa Ocidental converteram-se 
religio catlica, de modo que malgrado as suas divises tnicas, polticas e
econmicas, esta parte do continente encontrara no sculo VII um elemento
de unidade religiosa e cultural.
    No sculo VIII, a conquista rabo-berbere da Espanha visgota arrancou
do Ocidente latino uma considervel poro do seu territrio. Os francos con-
seguiram bloquear a progresso das tropas muulmanas na Glia, contudo, as
incurses e invases rabes prosseguiram no litoral meridional da Frana e da
Itlia durante mais de dois sculos, contribuindo para fazer reinar um clima de
insegurana generalizada no Mediterrneo. Ao final do sculo VIII, todavia,
uma primeira ao de unificao poltica da Europa Ocidental  no renovada
por muito tempo  foi conduzida com xito pelos carolngios. Os predecesso-
res de Carlos Magno haviam unificado os territrios francos dos Pirineus at
o Reno e rechaado os ataques de outros povos germnicos vindos do Leste.
16                                                           frica do sculo VII ao XI



Carlos Magno (768-814) integrou a maioria dos germnicos orientais ao seu
reino e conteve os eslavos a Leste do Elba. A metade ao Norte da Itlia e certos
territrios do Norte da Espanha igualmente caram sob domnio dos francos,
no havendo surpresa na coroao de Carlos Magno, tornado o mais poderoso
monarca do Ocidente latino, como imperador em 800. Numerosas regies da
Europa Ocidental todavia escapavam ao seu imprio: as ilhas britnicas, a maior
parte da Espanha (sob domnio muulmano) e o Sul da Itlia, ainda em mos
bizantinas e dos lombardos.
    Conhecemos a tese defendida a propsito de Carlos Magno pelo histo-
riador belga Henri Pirenne; ela provocou animados debates concernentes s
consequncias do advento do Imprio Muulmano na histria da Europa
Ocidental8. Em substncia, Pirenne sustenta terem sido em menor grau as
invases das "tribos brbaras germnicas do sculo V" que teriam imposto um
termo  supremacia comercial de Roma na bacia mediterrnea, comparativa-
mente ao maior peso atribudo  constituio do Imprio Muulmano neste
processo. Privando os bizantinos da frica do Norte e das suas provncias
orientais, os rabes teriam provocado uma rachadura definitiva entre Oriente
e Ocidente. A Europa Ocidental teria ento sido obrigada a voltar-se sobre
si mesma e sobre os seus prprios recursos, assim como a economia mar-
tima dos merovngios teria cedido lugar, sob os carolngios, a uma economia
continental e circunscrita s terras, deixando o Ocidente atormentado, em
meio  pobreza e  barbrie. Segundo Pirenne, "sem Maom, no haveria
Carlos Magno". O fundador do Imprio Ocidental aparece sob esta tica
como tendo encarnado o recuo, mais que uma nova grandeza, e o seu reino
como marco de uma ruptura nos destinos do Ocidente latino. Seria necessrio
esperar o final do sculo X para que o surgimento de uma nova civilizao
urbana colocasse um termo a esta estagnao, lanando definitivamente as
bases da sociedade moderna.
    Embora finalmente rejeitada pela maioria dos historiadores, esta tese teve o
mrito principal de atrair a ateno sobre alguns importantes problemas relativos
s transformaes econmicas da Idade Mdia e  ascenso do feudalismo no
Ocidente. Em suplemento, ela levou os historiadores a tomarem conscincia do
impacto que a expanso dos rabes e o seu domnio na frica do Norte tivera
sobre o desenvolvimento da Europa, tema por demasiado tempo negligenciado.




8    H. PIRENNE, 1937; A. F. HAVIGHURST, 1958.
A frica no contexto da histria mundial                                     17



    A questo relativa a saber se as conquistas rabes tiveram como efeito
cortar qualquer acesso ao Mediterrneo e interromper totalmente os inter-
cmbios comerciais entre a Europa e as mais longnquas regies ou somente
diminuir o volume destes ltimos  justamente o contedo da controvrsia
, esta interrogao aparenta ser secundria em relao  principal fraqueza
da tese de Pirenne, consistente em atribuir consequncias to graves a esta
interrupo das trocas. Por mais volumoso ou lucrativo que ele tenha sido, o
comrcio com os pases longnquos no desempenhou na vida social e eco-
nmica da Europa Ocidental o papel decisivo que Pirenne lhe atribui. A sua
interrupo no podia portanto provocar uma perturbao to profunda no
sistema econmico. Os latifndios autrcicos que ameaaram a prpria exis-
tncia dos centros urbanos do Imprio se haviam constitudo bem antes das
conquistas germnicas e rabes.
    O duradouro impacto das conquistas rabes e islmicas sobre a Europa est
menos ligado aos enfrentamentos militares ou  interrupo do comrcio euro-
peu no Mediterrneo que ao longo domnio muulmano exercido na Espanha
e na Siclia. As inovaes trazidas a estas regies favoreceram a introduo de
novos mtodos, tcnicas e culturas agrcolas, bem como de novos conceitos 
notadamente cientficos e filosficos  em uma Europa mais atrasada que o
mundo islmico nestas reas. Embora o Renascimento europeu tenha comeado
mais tarde  a partir do sculo XIII , os fundamentos que o tornaram possvel
foram lanados no momento em que a civilizao islmica estava em seu apogeu,
ou seja, entre os sculos VIII e XII.

    A Europa Oriental e Setentrional
    No restante da Europa  alm das antigas fronteiras romanas do Reno e do
Danbio  as migraes rumo ao Oeste das "tribos germnicas" haviam aberto
a via para a expanso eslava que se realizou em duas direes principais: ao Sul
do Danbio, rumo aos Blcs e ao Oeste, nos territrios onde hoje encontram-
-se a Polnia, a Tchecoslovquia, a Hungria e a Repblica Democrtica Alem.
Nos Blcs, os ancestrais dos iugoslavos e blgaros haviam cruzado o Danbio
no sculo VI, em seguida haviam atacado as provncias bizantinas da Europa,
onde se estabeleceram progressivamente, alterando completamente os dados
polticos e tnicos.
18                                                                                  frica do sculo VII ao XI



   Os povos eslavos desempenhariam durante vrios sculos, para o mundo
muulmano, o mesmo papel que os povos da frica negra: servir como reserva-
trio de escravos9. Vtimas das guerras e invases incessantes realizadas contra
eles, sobretudo pelos seus vizinhos germnicos, ou de suas prprias querelas
intestinas, eles eram guardados cativos para servirem de mo-de-obra, no
somente na Europa, mas igualmente nos pases muulmanos. Aqueles que
haviam sido feitos prisioneiros na Europa Central eram importados na Espa-
nha muulmana, passando pelo reino franco, e aqueles capturados nos Blcs
eram mais frequentemente vendidos para nos norte-africanos pelos venezia-
nos. Chamados alSakliba (no singular, alSaklab) pelos rabes, eles eram
empregados no exrcito, na administrao ou, caso castrados, nos harns10. Na
Espanha muulmana, o termo alSakliba designou rapidamente por extenso
todos os escravos europeus, qual fosse a sua origem, ao passo que ele conservava
o seu significado primitivo no Magreb e nos Egito dos fatmidas. Foi no Egito
que os eslavos dos Blcs desempenharam um importante papel, participando
como soldados e administradores na consolidao e na expanso do Imprio
Fatmida11. O mais clebre dentre eles foi Djawhar que, aps ter conquistado o
Egito, fundou O Cairo e a Universidade al-Azhar. Embora rapidamente assimi-
lados no plano tnico e cultural pela sociedade rabe muulmana do Magreb e
do Egito, contudo, eles contriburam nos sculos X e XI para modelar a histria
destas regies da frica Setentrional.
   Uma vez convertidos ao cristianismo, a maioria dos povos eslavos foi con-
siderada como naes europeias "civilizadas", ao mesmo ttulo que as outras e
deixaram de fornecer escravos vendidos ao estrangeiro. Ao final do sculo XI, a
Bomia, a Polnia, a Crocia, a Srvia e a Bulgria j eram Estados constitudos,
ao passo que, mais a Leste, o reino de Kiev realizava a unificao da maioria
dos eslavos orientais.
   Do sculo VII ao sculo X, outros povos estrangeiros ao mundo mediterrneo
apareceram na Europa: os vikings (ou normandos), invasores, conquistadores
e mercadores aventureiros que, vindos da Escandinvia em seus navios tecni-


9     significativo que, em todas as lnguas da Europa Ocidental, o termo a designar "escravo" (sklave, slave,
     esclavo, escravo etc.) derive do etnnimo atravs qual diversos povos eslavos se autodesignavam. Isso leva
     a pensar que, na poca da formao das lnguas nacionais da Europa, ou seja, precisamente durante o
     perodo ora estudado, os prisioneiros de guerra eslavos provavelmente constitussem a maior parte dos
     escravos utilizados na Europa Ocidental.
10   A castrao era proibida pelo direito muulmano; entretanto, j era praticada na Europa, principalmente
     na cidade de Verdun, qualificada por Reinhard Dozy como verdadeira "fbrica de eunucos".
11   Consultar a seguir o captulo 12.
A frica no contexto da histria mundial                    19




figura 1.1   O Velho Mundo em 230/845. [Fonte: I. Hrbek.]
20                                                           frica do sculo VII ao XI



camente muito avanados, atacavam as regies costeiras, alcanando inclusive
chegar mais alm, subindo pelos cursos d'gua. Os seus ataques e incurses
prosseguiram durante vrios anos, causando importantes devastaes e fazendo
reinar um clima de insegurana generalizada em numerosos pases, dentre os
quais as ilhas britnicas e a Frana. Alguns normandos (chamados alMdjs
pelos rabes) chegaram at a Espanha muulmana e inclusive at o Marrocos.
Na Europa do Leste, os vikings (l conhecidos pelo nome Varyag) agiram ora
como saqueadores, ora como comerciantes, instalando as suas fbricas ao longo
dos rios russos. Descendo o Volga, eles atingiram o Mar Cspio e entraram
em contato com os pases do califado; quando no estavam a pilhar o litoral
da Transcaucsia, eles iam comercializar at Bagd, trocando peles, espadas e
escravos.
    Caso excetuarmos as suas incurses  j mencionadas  no litoral mar-
roquino em 858 ou 859, episdio sem desdobramentos, os normandos no
tiveram nenhum contato direto com a frica antes do sculo XI. Um grupo
de normandos estabeleceu-se de modo permanente no Norte da Frana (na
Normandia), onde fundaram um potente Estado. Estes mesmos normandos
conquistaram a Inglaterra em 1066 e ergueram outro reino no Sul da Itlia. A
partir dali, eles iniciaram a conquista da Siclia, ento muulmana, da qual se
serviram como base para prosseguirem a sua expanso, dirigida em parte rumo
 frica do Norte. Durante todo um sculo, os normandos estabelecidos na
Siclia desempenharam um importante papel na histria poltica da frica do
Norte muulmana.
    A Europa Ocidental foi profundamente marcada pelas incurses muulma-
nas no Sul e pelos reides dos normandos ao Norte. Tornou-se quase impossvel
opor uma resistncia organizada e centralizada a ataques to bruscos, realizados
em tantas frentes. A responsabilidade de organizar a defesa recaiu portanto sobre
os senhores locais que, por conseguinte, tornaram-se cada vez mais indepen-
dentes dos soberanos, reis e imperadores dos quais eles eram, em princpio, os
vassalos e, muito amide, ainda mais ricos e poderosos que estes ltimos. Esta
diminuio progressiva da autoridade central j se esboara desde a segunda
metade do sculo IX e acentuava a tendncia, j existente, ao esfacelamento
feudal.
    No sculo XI, a Europa novamente tornara-se uma regio relativamente
segura, as invases e migraes haviam cessado de constituir um perigo e uma
fonte de perturbaes, assim como em vastas partes do continente, o mapa das
etnias comeou a tomar a sua forma mais ou menos definitiva. Doravante, as
modificaes no traado das fronteiras polticas, o surgimento ou desapare-
A frica no contexto da histria mundial                                         21



cimento de tal ou qual reino, resultaro muito mais do jogo das rivalidades e
ambies dinsticas que de migraes de povos inteiros.
    No seria inexato qualificar o perodo da histria europeia que vai do sculo
VII ao sculo XI como era de transio ou mutao, haja vista que ele correspon-
deu ao surgimento de uma nova Europa, profundamente diferente da Europa
da Antiguidade.
    Novas naes que, no tendo pertencido  esfera de influncia greco-romana,
eram consideradas como estrangeiras ao conjunto europeu, encontraram seu
lugar assim que adotaram o cristianismo e os seus valores culturais e aderiram
ao sistema poltico comum. O continente estava politicamente e sobretudo eco-
nomicamente dividido em incontveis pequenas unidades que, a partir do sculo
XI, tomaram contudo conscincia, primeiramente de modo vago e em seguida
com progressiva nitidez, da sua solidariedade religiosa e cultural, notadamente
perante o mundo muulmano. Esta tomada de conscincia no foi entretanto
assaz forte a ponto de impor um termo s querelas entre as Igrejas Ortodoxa e
Catlica ou de evitar o grande xiismo da metade do sculo XI.
    O sculo XI igualmente marca o final de uma poca de transio no campo
econmico: a servido era desde ento o modo de produo dominante da
Europa medieval, onde prevaleciam por outro lado relaes de vassalagem, de
modo que a estrutura sociopoltica desta regio era propriamente de tipo feudal.
Em certas partes da Europa Ocidental e Setentrional, a longa estagnao da
agricultura chegara ao seu final com a introduo da carroa pesada, do campo
sem cercado, da alternncia trienal de culturas, inovaes que, em conjunto ou
separadamente, permitiram melhorar os mtodos de produo de alimentos.
Novas tcnicas igualmente surgiram na esfera da produo artesanal: utilizao
de mquinas hidrulicas para servirem s profisses ligadas  tecelagem ou os
martelos e foles das forjarias, graas aos quais foi possvel uma melhoria quan-
titativa e qualitativa do ferro e dos utenslios de ferro produzidos. O transporte
por via terrestre foi facilitado pela inveno do timo que permitia utilizar longas
carroas e melhor atrelar os cavalos; progressos tambm foram realizados em
matria de construo naval.
    Fenmeno de equivalente importncia, as cidades conheceram um novo
desenvolvimento aps uma decadncia de vrios sculos. Foi na Itlia onde
ele foi o mais espetacular, com o revigoramento especialmente dos portos de
Veneza, Amalfi, Pisa e Gnova. Os mercadores destas cidades costeiras se
haviam empenhado, mesmo antes do sculo X, a estabelecer laos com o Imp-
rio Bizantino, assim como com os pases muulmanos da frica do Norte e do
Oriente Mdio, para onde eles exportavam madeira para construo, metais e
22                                                             frica do sculo VII ao XI



escravos, e de onde eles compravam produtos de luxo, como artigos em seda e
especiarias, bem como linho, algodo, leo de oliva e sabo. No sculo XI, as
repblicas mercadoras italianas j dominavam o comrcio do Mediterrneo.
Veneza, a mais ativa dentre estas repblicas, obtivera do imperador bizantino o
privilgio de comercializar livremente com todos os portos bizantinos e exerceu
um quase-monoplio sobre os transportes martimos, de modo que Bizncio
tornou-se uma colnia comercial dos venezianos.
    No sculo XI, a Europa Ocidental, no devendo mais enfrentar as numerosas
invases que durante muito tempo haviam ameaado a sua existncia, tornara-se
potente o suficiente a ponto de abandonar a sua postura defensiva e preparar-se
para passar  ofensiva.
    A ofensiva comeou na Siclia: entre 1060 e 1091, os normandos retomaram
a totalidade da ilha dos ocupantes rabes e ali fundaram um poderoso Estado, a
partir do qual eles se lanaram ao ataque sobre o litoral e as cidades da frica do
Norte. Em 1805, Toledo, uma das principais cidades muulmanas da Espanha,
caia nas mos dos cristos. Embora a interveno dos almorvidas e almoradas
berberes tenha permitido bloquear a ofensiva crist durante mais de um sculo, a
data da conquista de Toledo marca o verdadeiro incio da reconquista, os muul-
manos da Espanha encontraram-se desde ento acuados na defensiva.
    Ao final do sculo XI, a primeira cruzada  primeira expedio desta enver-
gadura em terra estrangeira, da qual participaram diversos povos da Europa 
obtivera igualmente as suas primeiras vitrias, com a conquista de Jerusalm e
de algumas outras cidades do Levante. Durante cerca de duzentos anos, os euro-
peus (chamados francos pelos seus adversrios muulmanos), cujo autntico zelo
religioso dos primeiros tempos rapidamente cedera lugar s ambies de ordem
muito mais material dos senhores feudais e mercadores italianos, tentaram trazer
o Mediterrneo Oriental para a sua esfera de influncia. Porm, em que pese
a multiplicao das cruzadas, os muulmanos enfraqueceram progressivamente
os Estados latinos do Levante com as suas contra-ofensivas e lograram, ao final
do sculo XII, expulsar os ltimos cruzados da Palestina. Simultaneamente, o
Imprio Bizantino, objeto da cobia e da hostilidade dos ocidentais, tornara-se
a principal vtima das cruzadas, ao final das quais ele sairia muito enfraquecido.
Os verdadeiros vencedores desta luta duas vezes secular foram os muulmanos
e as repblicas italianas, as quais se tornaram importantes potncias econmicas
e comerciais.
    Nas pginas precedentes, levantamos provas amplas acerca das diferentes
consequncias que a presena muulmana nas costas meridionais do Mediter-
rneo, ou seja, na frica do Norte, tivera em relao  Europa Ocidental. Sem
A frica no contexto da histria mundial                                                               23



subscrever plenamente a tese de Pirenne,  histrica e aparentemente para ns
incontestvel que, aps a conquista rabe da frica do Norte, a bacia mediterr-
nea deixou de pertencer a uma nica grande rea cultural, tal como fora o caso
no milnio precedente, encontrando-se esta regio dividida em duas zonas, uma
europeia (ou crist) e outra rabo-berbere (ou muulmana), cada qual possuidora
desde ento da sua prpria cultura e do seu prprio destino.
    Para a Europa Ocidental, a frica tornara-se parte integrante do mundo muul-
mano: justamente desta regio foi de onde efetivamente se haviam originado as
principais incurses e as grandes invases, assim como diversas influncias e novas
ideias. Quando, posteriormente, laos comerciais mais estreitos estabeleceram-se
entre as duas margens do Mediterrneo, os europeus descobriram uma frica
ainda muulmana. No surpreende, portanto, que a frica tenha sido considerada
como o principal adversrio da cristandade e que os seus habitantes, qual fosse
a sua raa, tenham sido julgados e tratados em consequncia12. A ausncia de
qualquer contato entre a Europa e a parte da frica que se encontrava fora da
esfera muulmana no podia seno confortar uma viso das mais deturpadas do
continente, ainda mais especialmente no tocante s suas populaes negras. Certos
trabalhos recentes, notadamente os de J. Devisse e F. de Medeiros13, demonstraram
claramente como esta ignorncia e a errnea identificao da frica negra ao Isl
haviam conduzido os europeus a considerarem os negros da frica como seres
inferiores, encarnando o mal e o pecado. A atitude negativa, os preconceitos e a
hostilidade dos europeus visvis dos povos de raa negra surgiram desde a poca
medieval, antes de serem mais tarde reforados pelo trfico e pela escravatura.


     A frica, a sia e o Oceano ndico
   Considerando que o papel desempenhado pelo Oceano ndico na histria
da frica j foi analisado em seus principais aspectos no volume II da presente
coleo14, particularmente do ponto de vista geogrfico e oceanogrfico, ns
nos ateremos neste captulo a examinar os fatos significativos ocorridos entre
os sculos VII e XI.


12   O termo "mouro" (bem como outros derivados do latim mauri) serviu por muito tempo a designar,
     simultaneamente, os muulmanos e os negros; a distino entre "mouros brancos" e "mouros negros"
     (Blackamoors em ingls) no seria feita seno posteriormente; conferir J. DEVISSE, 1979a, pp. 53-54 e
     notas da pgina 220.
13 Ibid., p. 47 e seguintes e passim; F. de MEDEIROS, 1973.
14   Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 22.
24                                                                     frica do sculo VII ao XI



    No curso das duas ltimas dcadas, alguns colquios de especialistas e certo
nmero de trabalhos coletivos foram consagrados ao estudo das relaes entre as
diferentes regies do Oceano ndico15; todos dedicaram sobretudo ateno aos
problemas no resolvidos e derivaram orientaes para as pesquisas ulteriores,
em detrimento do aporte de respostas definitivas s numerosssimas questes que
subsistem e interessam no mais alto grau  histria da frica e das ilhas adjacentes.
    Os problemas pendentes so particularmente numerosos no que se refere
ao perodo estudado no presente volume. A principal dificuldade deve-se ao
fato, fruto de um singular concurso de circunstncias, da documentao da qual
dispomos sobre este perodo da histria do Oceano ndico e das relaes entre
os pases situados em seu entorno ser das mais escassas, contrariamente quela
disponvel sobre as pocas anteriores e ulteriores.
    Independentemente de certos paralelismos das culturas materiais, ela con-
siste atualmente em algumas relaes, frequentemente de segunda-mo, redigi-
das a partir do sculo X por autores muulmanos, bem como em um pequeno
nmero de descobertas arqueolgicas de objetos de origem asitica, feitas em
pontos dispersos do litoral e das ilhas da frica Oriental. Esta situao ainda 
agravada pela insuficincia de materiais histricos concernentes ao Sul da ndia
e ao Sudeste Asitico, cuja histria durante este perodo  bem menos conhecida
que aquela dos pases islmicos situados a Oeste da ndia. Outra dificuldade diz
respeito  datao: certamente, encontramos na frica plantas cuja origem asi-
tica  indiscutvel e algumas lnguas africanas  em particular o suali  contm
grande nmero de palavras emprestadas da ndia; no entanto,  difcil determi-
nar com preciso a poca na qual estes aportes teriam acontecido. Quanto s
outras questes e problemas que restam a resolver, basta lanar o olhar sobre a
longa lista que deles produzem os autores do relatrio da reunio da UNESCO
sobre as relaes histricas atravs do Oceano ndico16 para medir a amplitude
das pesquisas que conviria empreender antes de formar uma viso mais ntida
dos contatos estabelecidos entre os diferentes pases desta rea.

     O comrcio muulmano
   Ns mostramos acima a importncia da posio ocupada pelo Imprio Isl-
mico nas relaes entre os continentes, tampouco aqui retomaremos as questes


15   Conferir principalmente D. S. RICHARDS (org.), 1970; M. MOLLAT, 1971; Colquio de Saint-
     -Denis, 1972; H. N. CHITTICK e R. I. ROTBERG (org.), 1975; UNESCO, 1980.
16   UNESCO, 1980.
A frica no contexto da histria mundial                                                                     25



ligadas aos diferentes fatores que contriburam para assegurar-lhe a supremacia
nos domnios econmicos, comercial, da navegao etc.
    Contrariamente ao Mediterrneo, o Oceano ndico foi por via de regra
uma zona de paz. To longe quanto recuemos no tempo, as relaes comerciais
entre os povos do oceano, conquanto no tenham sido igualmente favorveis
a todas as partes, no foram contudo seno raramente perturbadas por guer-
ras. Os interesses econmicos permanentes aparentam ter predominado em
detrimento das ambies polticas passageiras e os imperativos econmicos
aparentam ter vencido as rivalidades entre Estados. Na bacia mediterrnea, no
incio da Idade Mdia, as potncias muulmana e crist estavam engajadas em
uma luta incessante e, embora os contatos comerciais no tenham jamais sido
totalmente interrompidos, o estado de guerra no era, de modo geral, propcio
aos intercmbios. Em contrapartida, a expanso do Isl no Oceano ndico no
teve nenhuma incidncia sobre as atividades comerciais dos rabes e persas, em
razo do cuidado dos mercadores em no comprometerem os laos comerciais
com um excessivo proselitismo.
    Contudo, isso no significa que as relaes com o Oceano ndico tenham
sido idlicas. Alm do trfico de escravos, gerador de frequentes enfrentamentos
e de violncias, a pirataria causava srios problemas, em larga escala e durante
todo o perodo estudado, sem jamais  devemos sublinhar  atingir as dimenses
que ela tomara no Mediterrneo, onde era exacerbada e at fortalecida pelos
antagonismos religiosos.
    Outros fatores negativos viriam perturbar as atividades outrora sempre prs-
peras dos muulmanos. Na segunda metade do sculo IX, dois acontecimen-
tos afetaram profundamente o comrcio no Oceano ndico. O primeiro foi a
grande revolta dos zandj na regio sul do Iraque e do Golfo rabo-Prsico, entre
252/866 e 270/88317. Alguns dos mais importantes portos  Basra, Ubulla, Aba-
dan  foram devastados e Bagd teve a sua ligao cortada com o mar. Aque-
les dentre os mercadores residentes nas cidades, sobreviventes aos massacres,
refugiaram-se no interior das terras ou em outros portos e muitas embarcaes
foram perdidas. O comrcio martimo foi interrompido nesta regio durante
mais de quinze anos, por falta de capitais, mercadorias e navios.
    Quase simultaneamente, um segundo golpe foi dado no comrcio muul-
mano quando as tropas do rebelde chins Huang Ch'ao saquearam Canto em
265/878, massacrando um nmero considervel de comerciantes estrangeiros,


17   Conferir, a seguir, o captulo 26 e, para a dupla datao, reportar-se  cronologia no incio desta obra.
26                                                           frica do sculo VII ao XI



sobretudo originrios dos pases muulmanos. Aparentemente, todavia, certo
nmero dentre eles teve a sua vida salva, pois que o autor a quem devemos o
relato deste desastre nota que os rebeldes pressionaram os capites rabes, afe-
taram os mercadores com taxas ilegais e apropriaram-se dos seus bens18.
    Duas calamidades desta ordem no poderiam deixar de atingir a navegao
comercial muulmana. Os portos situados na extremidade do Golfo Prsico
conheceram um perodo de declnio e, mais a Leste, os muulmanos preferiram
doravante fazer escala em Kalah (na costa oeste da pennsula malaia), porto 
poca ligado ao Imprio rvijya em Sumatra (conferir mais adiante p. 48), e
ali encontrar seus homlogos chineses.
    A despeito das catstrofes do sculo IX e das tendncias monopolizadoras
dos soberanos de rvijya, o comrcio muulmano desenvolveu-se progressi-
vamente e recobrou lentamente a sua importncia passada. Os desastres ocor-
ridos no sculo X  o saqueio de Basra pelos karmates da Arbia Oriental em
308/920, o incndio de toda a frota de Oman, em 330/942, pelo soberano de
Basra, por ela sitiada, ou ainda o terremoto que destruiu Srf, em 366/977 
sequer lograram interromper o trfego dos navios muulmanos nas rotas do
Oceano ndico.
    No sculo seguinte, o declnio do califado abssida no Oriente Mdio e a
simultnea ascenso dos fatmidas na frica do Norte marcaram um ponto capi-
tal de inflexo para o comrcio muulmano. A secular concorrncia entre a rota
com destino ao Golfo Prsico e aquela do Mar Vermelho chegou ento ao seu
fim e a segunda dentre elas, durante muitos sculos de papel menos relevante no
tocante ao comrcio no Oceano ndico, suplantou definitivamente a primeira.
    At o momento, interessamo-nos pelo papel desempenhado pelos rabes e
persas muulmanos no conjunto de relaes estabelecidas no Oceano ndico.
Falta-nos agora examinar a posio que ocuparam outros povos  africanos,
indianos, indonsios e chineses. Em que medidas eles tomaram parte nestas
relaes? Os aportes culturais e materiais dos trs ltimos dentre eles para a
frica, teriam eles resultado de contatos diretos ou indiretos?
    Todas estas questes remetem a este outro problema: no seramos ns leva-
dos a superestimar o papel desempenhado pelos muulmanos no Oceano ndico
pelo simples fato de a maior parte dos testemunhos e documentos dos quais
dispomos se reportar s suas atividades? Somente um minucioso estudo de todos
estes elementos de informao disponveis poderia permitir-nos chegar a uma


18   G. F. HOURANI, 1951, pp. 77-79.
A frica no contexto da histria mundial                                      27



concluso; de imediato, a descoberta de certos fatos e aspectos novos ajuda-nos
a melhor compreendermos o papel dos povos no-muulmanos no Oceano
ndico. Esta reavaliao todavia no aparenta recolocar em questo a tese da
preponderncia global dos muulmanos nesta regio.
   No cabe espanto em razo desta supremacia do comrcio muulmano no ter
nada de fortuita: ela  o reflexo do dinamismo de toda a estrutura socioeconmica
do mundo muulmano  poca, assim como da sua situao geogrfica favorvel,
no cruzamento dos continentes. Nenhuma das reas culturais do Velho Mundo
pde, como vimos, manter nesta poca contatos durveis com todas as demais; a
rea islmica foi a nica que construiu uma verdadeira rede comercial entre con-
tinentes. Eis que o perodo compreendido entre os sculos VII e XI corresponde
precisamente ao momento no qual este comrcio com outros continentes atingia
o seu pleno desenvolvimento ou, ao menos, a sua maior expanso.

     O comrcio chins
    Vejamos agora o ocorrido com as outras naes. Interessaremo-nos primeira-
mente  China, pela razo principal de um determinado nmero de trabalhos j
terem sido consagrados s atividades dos chineses no Oceano ndico e aos seus
contatos com a frica19. Na Antiguidade e na Idade Mdia, as relaes entre a
China e as outras grandes regies do Velho Mundo  a ndia, a sia Ocidental
e a bacia do Mediterrneo  eram quase totalmente fundadas na exportao,
essencialmente da seda e, mais tarde, da porcelana.
    Embora os chineses possussem o saber e os meios tcnicos exigidos para
empreenderem longas viagens atravs do Oceano ndico desde a poca da dinas-
tia dos Tang (618-906), os seus navios mercantes no se aventuraram alm da
pennsula malaia. Esta ausncia dos chineses no Oceano ndico explica-se por
razes de ordem cultural e institucional20. Ao longo dos sculos que imediata-
mente precederam a ascenso do Isl, a ilha do Ceilo (atual Sri Lanka) era o
principal entreposto comercial entre a China e a sia Ocidental. Os navios do
reino de Champa ou dos Estados indonsios iam igualmente longe a Oeste at
o Ceilo; alm disso, o comrcio com o Ocidente estava nas mos dos persas e
dos axumitas.
    Os chineses no conheciam o Oceano ndico seno atravs dos relatos dos
indianos, persas e, posteriormente, dos intermedirios rabes. As descries


19   Consultar J. J. L. DUYVENDAK, 1949; T. FILESI, 1962, 1970.
20   Wang GUNGWU, 1980.
28                                                                        frica do sculo VII ao XI



fragmentadas da frica e dos africanos encontradas na literatura chinesa apa-
rentam retomadas de relatos muulmanos. Os chineses foram portanto levados a
considerar os africanos como sujeitos de soberanos muulmanos e as suas terras
como uma parte do Imprio rabe21. Era fcil para eles adquirirem os produtos
africanos que eles desejavam e apreciavam junto aos mercadores estrangeiros que
se dirigiam aos portos chineses em seus prprios navios.
    Entre os produtos da frica que chegavam  China, os mais importan-
tes eram o marfim, o mbar cinza, o incenso e a mirra, assim como os escra-
vos zandj22. Em seu famoso relato do ataque de Kanbal (Pemba) pelo povo
Wkwk, em 334/945-946, Ibn Lks reporta que os chineses igualmente eram
compradores de carapaas de tartaruga e peles de pantera23.
    Acreditou-se por um momento que a histria da frica Oriental poderia
ser reconstituda a partir de porcelanas chinesas24. Com efeito, uma enorme
quantidade de porcelanas chinesas foi descoberta nas cidades costeiras da frica
Oriental, o que leva a pensar que elas constituiriam uma poro importante
das exportaes chinesas para a frica. Lascas fortemente similares quelas da
costa oriental foram igualmente descobertas na Somlia e no Sul da Arbia.
Toda a poro ocidental do Oceano ndico pode, portanto, ser considerada
como uma rea homognea no que diz respeito a esse tipo de exportao25.
Todavia, estas porcelanas chinesas so praticamente todas posteriores ao sculo
XI. Do mesmo modo sucede com as peas de moedas chinesas descobertas na
costa. Os elementos dos quais dispomos assim sugerem que embora a China
tenha desde muito tempo importado mercadorias africanas, ela no teria, por si
mesma, exportado os seus produtos em grande quantidade seno aps o sculo
XI. Como j foi dito, os intercmbios entre a China e a frica no se faziam
atravs de contatos diretos, eles aconteciam pela rede comercial estabelecida no
Oceano ndico pelos muulmanos.

     O comrcio indiano
   O papel da ndia no Oceano ndico, especialmente durante o primeiro mil-
nio da era crist, permanece ainda a ser precisado, no tocante notadamente 


21   Ibid.
22   Conferir o captulo 26 do presente volume.
23   Buzurg IBN SHAHRIYR, 1883-1886; conferir igualmente o captulo 25 da presente publicao.
24 Sir Mortimer WHEELER, citado por G. S. P. FREEMANGRENVILLE, 1962a, p. 35.
25 Ibid.
A frica no contexto da histria mundial                                                          29



posio dos indianos no comrcio internacional e no referente s suas influncias
nas diferentes partes desta regio. A ausncia quase total de documentos de
origem indiana concernentes ao perodo que nos interessa no facilita em nada
a elucidao deste complexo problema.
    Uma das primeiras constataes que se impe  o contraste impressionante
existente entre as regies orientais e ocidentais do Oceano ndico do ponto
de vista das influncias indianas. Em todo o Sudeste Asitico, as influncias
culturais da ndia so manifestas, no plano material tanto quanto no plano
espiritual, mesmo se, em algumas regies, elas tenham sido posteriormente
suplantadas pelo Isl. No outro extremo do Oceano, no encontramos nada
que possa comparar-se ao Borobudur, s antigas epopeias javanesas inspiradas
no Rmyana, ao hindusmo balins, aos aportes do snscrito a diversas lnguas,
para no citarmos seno alguns exemplos. Tudo acontece como se os indianos
houvessem traado uma linha de Norte a Sul atravs do Oceano ndico e deli-
beradamente escolhido interessarem-se somente ao que estivesse a Leste desta
linha. Este restringimento ao Leste deve ter se produzido aproximadamente
na metade do 1o milnio, haja vista que os documentos no faltam durante os
primeiros sculos da era crist e atestam a vinda regular de navios indianos s
costas ocidentais do oceano, bem como as influncias indianas na Etipia e
inclusive na Nbia, porm, como observou a justo ttulo D. K. Keswani26, este
glorioso perodo da navegao martima indiana no durou por muito tempo.
Assim sendo, o impacto da cultura indiana foi infinitamente mais fraco nesta
parte da frica comparativamente ao desdobrado no Sudeste Asitico. Mais
tarde, no momento da ascenso das cidades costeiras da frica Oriental, os
indianos comearam a desempenhar um papel de mais em mais importante em
relao ao comrcio entre a frica e a ndia; entretanto, seria ento tarde demais
para que a cultura indiana exercesse uma influncia mais profunda sobre esta
sociedade j islamizada.
    Entre os sculos VII e XI, as relaes entre a frica e a ndia aparentam ter
atingido o seu mais baixo nvel27. No entanto, ocorriam contatos, sobretudo de
ordem comercial. Em todos os tempos, um dos principais produtos africanos
exportados para a ndia foi o marfim. O comrcio do marfim j fora florescente
na Antiguidade e raras so as fontes rabes que no o mencionam quando


26   Consultar D. K. KESWANI, 1980, p. 42.
27   Alguns documentos indicam piratas indianos em ao nesta poca. A partir de Socotra, entretanto,
     raramente os piratas contribuem para propagar os valores culturais. Al-MUkADDAS, 1877, p. 14;
     al-MAS'D, 1861-1877, vol. III, pp. 36-37; conferir G. F. HOURANI, 1951, p. 80.
30                                                                    frica do sculo VII ao XI



descrevem a costa oriental da frica. Al-Mas'd (falecido em 345/956) nota
que o marfim da frica Oriental era destinado a ser exportado para a ndia e a
China, acrescentando que Om era o seu principal entreposto. Isso confirma o
que j havamos sugerido, a saber, a no existncia de contatos diretos,  poca,
entre a frica e a ndia28. Em respeito aos outros produtos de exportao, no
possumos nenhum elemento informativo relativo a este perodo, porm no se
deve esquecer que as famosas indicaes fornecidas por al-Idrs (falecido em
549/1154) sobre as exportaes de ferro africano para a ndia dizem respeito, ao
que tudo indica, a uma poca mais remota, ou seja, ao perodo que nos interessa.
O ferro africano desempenhou um importante papel no desenvolvimento de
um dos ramos do artesanato indiano: a fabricao de lminas de ao. Aparen-
temente, trata-se de um dos raros casos em que a frica tenha exportado algo
distinto de produtos brutos: com efeito, no era o mineral que se exportava, mas,
provavelmente, ferro j tratado em forma de gusas29.
    Enquanto nas pocas ulteriores numerosos escravos importados da frica
alcanaram uma posio elevada na ndia, nada similar aconteceu durante o
perodo considerado. Certo nmero de escravos foi provavelmente importado
para a ndia, passando pela Arbia ou pela Prsia, mas nenhum documento ou
elemento qualquer surgiu em confirmao at o momento. Faltam-nos igual-
mente informaes sobre os possveis movimentos populacionais em sentido
inverso, da ndia rumo  frica. Numerosas tradies orais da costa e das ilhas
adjacentes frequentemente mencionam um povo chamado Debuli (ou Wade-
buli) que, acredita-se, teria chegado  costa antes mesmo dos Shrz, ou seja,
antes do sculo XII. O seu nome  associado a algumas construes antigas. Ele
seria derivado daquele prprio ao grande porto de al-Daybul (Dabhol) situado
na foz do Hindus30. A data da sua chegada  costa  motivo de grande contro-
vrsia, algumas tradies situam-na antes da converso das cidades costeiras ao
isl, outras no momento da introduo das armas de fogo, ou seja, a uma poca
assaz tardia. Somente conhecemos uma pessoa que teve a nisba al-Dabuli: trata-
-se de um homem que os portugueses transformaram em sulto de Kilwa, em
1502 da era crist.
    Contudo, no se exclui a hiptese que indianos se tenham estabelecido 
provavelmente como mercadores  na costa, em pocas mais remotas. Caso


28   Consultar G. S. P. FREEMANGRENVILLE, 1962a, pp. 201-202, onde o autor analisa as razes
     comerciais e martimas para esta ausncia de contatos diretos.
29 Al-Idrs, 1970, vol. I, Iklm I/8, pp. 67-68.
30   Consultar J. M. GRAY, 1954, pp. 25-30; G. S. P. FREEMANGRENVILLE, 1962a, pp. 202-203.
A frica no contexto da histria mundial                                                       31



verdadeira a hiptese, eles no deveriam ser muito numerosos, pois que no
deixaram traos mais concretos em documentos escritos ou nos vestgios cultu-
rais. O suali apresenta, certamente, numerosos sinais emprestados das lnguas
da ndia, entretanto, no foi possvel at o momento determinar em qual poca
eles teriam sido introduzidos. Considerando, todavia, aquilo que sabemos com
certeza sobre o aumento do nmero de imigrantes indianos no curso dos sculos
seguintes, tudo leva a crer que estes termos tenham sido emprestados em uma
poca relativamente recente e, certamente, no ao longo do perodo por ns
estudado.

     Os contatos com a Indonsia
    Se os contatos entre a frica, por um lado, e China e ndia, por outra
parte, foram, como vimos, sobretudo indiretos, outra regio situada na poro
oriental do Oceano ndico incontestavelmente deixou suas marcas em algu-
mas regies, ao menos da frica. O papel desempenhado pelos indonsios no
povoamento de Madagascar  reconhecido h muito tempo. Nos dias atuais,
uma das tarefas prioritrias dos especialistas em histria malgaxe consiste em
elucidar como os elementos de origem indonsia e africana se conjugaram
para compor a cultura malgaxe. Como estes aspectos da histria malgaxe e
outros problemas correlatos so objetos de estudo em outros captulos desta
obra31, ns abordaremos aqui somente as questes que interessam diretamente
o continente africano.
    Parece-nos hoje que se exagerou o peso das influncias indonsias sobre o
continente africano. No h praticamente nenhuma prova de uma penetrao
direta dos indonsios na frica Oriental, comparvel quela ocorrida em Mada-
gascar. At o presente, nenhum elemento arqueolgico, lingustico ou antropo-
lgico foi descoberto para tornar possvel atestar uma presena prolongada dos
indonsios. A teoria de Hubert Deschamps32, segundo a qual os protomalgaxes
teriam permanecido no litoral africano, onde se teriam misturado ou casado
com autctones, antes de estabelecerem-se na ilha de Madagascar, esta teoria
no se fundamenta em nenhuma prova. Raymond Kent foi ainda mais longe,
situando a migrao da Indonsia na frica Oriental antes da chegada a esta
regio dos grupos de lngua bantu. Em seguida, contatos teriam ocorrido entre
indonsios e bantus, os quais teriam penetrado no interior das terras, levando o


31   Conferir captulo 25 a seguir e UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 28.
32   H. DESCHAMPS, 1960.
32                                                            frica do sculo VII ao XI



povo afro-malgaxe a ser produto desta mestiagem. A expanso dos bantus em
direo s regies costeiras teria forado este povo a imigrar para Madagascar33.
    Estas teorias repousam na ideia segundo a qual os indonsios teriam sido
incapazes de imigrar sem interrupo de margem a outra do Oceano ndico. Os
nomes de certo nmero de etapas so mencionados em corolrio  ilhas Nicobar,
Sri Lanka, ndia, arquiplagos das Laquedivas e das Maldivas  de modo que
a imigrao indonsia  descrita como uma srie de saltos relativamente curtos
de ilha em ilha, alternada por perodos de permanncia na ndia e na frica
Oriental. Tal hiptese no contm, em si, nada de impossvel ou inconcebvel;
no entanto, estes perodos de permanncia deveriam ser relativamente curtos,
pois que os indonsios no deixaram vestgio algum aparente da sua presena
nestes lugares.
    Alguns autores, notadamente G. P. Murdock, conferiram grande importncia
ao que se convencionou chamar "complexo botnico malaio", o qual compreende
o arroz, a banana, o taro, o inhame, a fruta-po e outras plantas que posterior-
mente formaram a alimentao bsica de muitos africanos. Murdock e outros
estimam que estas plantas tenham sido introduzidas em Madagascar no 1o
milnio antes da era crist por imigrantes vindos da Indonsia, os quais teriam
margeado a costa sul do continente asitico antes de atingirem o litoral da frica
Oriental. Sem abordar o complexo problema da origem destas plantas, gosta-
ramos de observar que as plantas cultivadas podem perfeitamente difundir-se
sem que os povos precursores em seu cultivo ou consumo tenham eles prprios
imigrado, tal como testemunha, de forma impactante, o modo pelo qual algu-
mas culturas americanas expandiram-se em toda a frica Ocidental e Central,
aps o sculo XVI. Bem entendido, permanece possvel que algumas plantas do
Sudeste Asitico tenham ulteriormente sido introduzidas no continente africano
a partir de Madagascar.
    Assim sendo, no h dvida que os indonsios eram hbeis e experientes
navegadores que empreenderam, a partir da sua ilha de origem, numerosas
expedies em todas as direes. Alm de terem sido, talvez, os primeiros a
comercializar atravs do oceano com a China, eles se mostraram particularmente
ativos nas rotas martimas em direo  ndia. Na segunda metade do 1o mil-
nio, grandes potncias martimas surgiram na Indonsia, como o Imprio de
rvijya, em Sumatra (sculos VII-XIII) e o reino da dinastia ailendra (sculo
VIII), em Java, que estendeu o seu domnio a rvijya34.

33   R. K. KENT, 1970.
34   Consultar D. G. HALL, 1964, p. 53 e seguintes.
A frica no contexto da histria mundial                                                                    33



    Interessaremo-nos aqui somente pelos nicos aspectos da sua histria que se
reportam  situao geral no Oceano ndico ou que concernem os seus eventuais
contatos com a frica. O reino de rvijya cujo centro localizava-se, origi-
nalmente, no sudeste de Sumatra, surgiu como potncia martima na segunda
metade do sculo VII. A sua expanso territorial e comercial prosseguiu no curso
dos sculos seguintes e, no sculo X, o seu soberano  descrito, nos primeiros
relatos de gegrafos rabes ou persas, como o maraj por excelncia, o mais
poderoso e importante monarca de toda a regio, o "rei das ilhas dos mares
orientais". Os dirigentes de rvijya lograram controlar os principais portos da
regio, assegurando para si, pela mesma ocasio, o monoplio sobre o comrcio
das especiarias em um vasto raio. O controle do estreito de Malacca conferia-
-lhes uma enorme vantagem, haja vista que todos os navios deviam passar por
este estreito e fazer escala em seus portos. O reino manteve relaes estveis e
amigveis com os chola do Sul da ndia e com a China at o primeiro quarto
do sculo XI.
    Aps a quase total destruio, em 265/878, da colnia de mercadores muul-
manos estabelecida na China (conferir p. 42) e o subsequente declnio das rela-
es comerciais diretas entre muulmanos e chineses, os soberanos de rvijya
habilmente mostrar-se-iam capazes de encontrar o seu espao nesta lucrativa
atividade. Os navios muulmanos rumavam para o Leste e os navios chineses
dirigiam-se para o Sul, encontrando-se no estreito de Malacca, em Kalah, porto
situado sob a soberania do Imprio Indonsio. Simultaneamente, os navios
de rvijya participavam do comrcio do Oceano ndico. Os estreitos laos
estabelecidos entre a Indonsia e a poro sul da ndia so confirmados pelas
inscries dos monastrios e das escolas bdicas de Negapatam. Dispomos, por
outro lado, de textos rabes, pouco numerosos mas extremamente preciosos,
sobre as expedies indonsias na parte ocidental do Oceano ndico. O primeiro
 o relato, bem conhecido, do ataque de Kanbal (Pemba) pelos Wk-Wk, em
334/945-94635.
    O fato dos atacantes terem levado um ano inteiro para atravessar o oceano a
partir do seu pas de origem,  sua poca, j incitava o autor do relato a concluir
que as ilhas dos Wk-Wk situavam-se opostas  China. G. Ferrand mostrou
que os autores muulmanos designavam sob o nome Wk-Wk duas regies


35   Conferir Buzurg IBN SHAHRIYR, 1883-1886, pp. 174-175; encontraremos em UNESCO, Histria
     Geral da frica, vol. II, pp. 768-769, a traduo completa deste relato, cujo texto exato da segunda frase
     : "eles ali chegaram em mil embarcaes e os combateram com o derradeiro vigor [os habitantes de
     Kanbal], sem todavia chegar a termo...".
34                                                                                  frica do sculo VII ao XI



ou duas etnias diferentes, uma situada em algum lugar na regio sudoeste do
Oceano ndico, compreendendo Madagascar e a costa africana at o Sul de
Sufla, e a outra, no Sudeste Asitico, na atual Indonsia36. Diversas fbulas e
lendas so levantadas a seu propsito, s quais sucessivos autores acrescentaram
vrios detalhes contraditrios, de modo que o quadro geral apresenta-se como
extremamente confuso. Todavia, aparentemente ningum ainda dedicou aten-
o ao fato dos Wk-Wk, por uma curiosa coincidncia, terem sempre sido
associados, nas obras geogrficas rabes, a regies nas quais povos de origem
indonsia ou malaia coabitavam ou viviam em vizinhana com povos negros ou
em meio a estes ltimos. Assim, al-Brn37 escreve que os povos da ilha wk-
-wk so negros de pele, embora proximamente vivam outros povos de pele mais
clara, parecidos com os turcos (termo genrico empregado pelos muulmanos
para designar as raas mongolides). Al-Brn pensava aqui em certas regies
do Sudeste Asitico e o lugar que ele denomina wk-wk  ou a Nova Guin
(Irian), onde at hoje existe uma localidade chamada Fakfak, ou umas das ilhas
Molucas, parcialmente habitadas por melansios, a menos que se trate ora de
uma ora de outra. Muitos autores muulmanos no se encontravam ainda em
condies  ou no pretendiam  de indicar a origem tnica precisa do povo
denominado wk-wk, de modo que devemos, invariavelmente, analisar o con-
texto no qual o termo aparece para tentar determinar o seu provvel significado.
    Nesta circunstncia, alguns detalhes da relao de Ibn Lks indicam clara-
mente que o lugar de origem destes wk-wk situava-se no Sudeste Asitico.
Ora, sabendo que nesta poca a principal potncia martima da poro oriental
do Oceano ndico era o Imprio de rvijya, no parece abusivo entrever nesta
expedio de longo percurso uma tentativa do reino indonsio para estender o
seu domnio comercial de modo a alcanar um acesso mais direto aos produtos
africanos e ameaar o monoplio dos muulmanos. Finalmente, talvez essa no
fosse a primeira tentativa deste gnero:  possvel que estas expedies tenham
comeado na segunda metade do sculo IX, quando as atividades comerciais
dos muulmanos estavam seriamente comprometidas pela revolta dos zandj e
pela expulso dos mercadores estrangeiros para fora dos portos chineses. Resta
saber at que ponto estas expedies estariam ligadas s novas ondas migrat-
rias indonsias que atingiriam Madagascar entre os sculos X e XII (al-Idrs
confirma que navios indonsios continuaram a visitar as costas africanas e mal-
gaxes ao longo dos sculos seguintes). No se deve excluir, por outro lado, que

36   G. FERRAND, 1929. Para um estudo mais recente sobre a questo, conferir G. R. TIBBETS, 1979, pp. 166-177.
37   Al-BRN, 1887, p. 164; para a traduo inglesa, consultar 1888, vol. I, pp. 210-211.
A frica no contexto da histria mundial                                        35



estas migraes tardias tenham estado, de modo ou outro, ligadas s invases
ou incurses lanadas pelos chola do Sul da ndia contra rvijya, na segunda
metade do sculo XI, ataques que enfraqueceriam consideravelmente o reino
indonsio e teriam sido capazes de levar a sua populao a fugir ou imigrar. 
difcil alcanar maior certeza, considerando a ausncia de documentos pertinen-
tes sobre a histria de rvijya.


    Concluso
    No tocante ao perodo precedente, os contatos mtuos entre o continente
africano e as outras partes do Oceano ndico evoluram tanto no plano qualita-
tivo quanto no plano quantitativo.
    Observa-se, primeiramente, um fortalecimento regular da presena dos povos
do Oriente Mdio em toda esta rea, particularmente na costa oriental da frica,
onde os rabes e persas souberam desenvolver atividades comerciais existentes
desde os primeiros sculos da era crist. Esta nova expanso produziu-se quando
o califado tornava-se uma grande potncia poltica, cultural e econmica, capaz
de unificar um vasto territrio, possibilitando assim aos muulmanos assegu-
rarem o monoplio sobre o comrcio com a frica Oriental e conquistarem
uma posio dominante nas relaes entre os diferentes pases desta regio.
Conquanto estes contatos tenham, sem dvida, favorecido na frica a ascenso
de algumas cidades costeiras, transformadas em centros comerciais de importn-
cia internacional, assim como o surgimento de uma classe de empreendedores
autctones, no se deve esquecer que, simultaneamente, um grande contingente
de escravos africanos era exportado para outros continentes e contribua para a
prosperidade econmica de diversos pases da sia, especialmente do Oriente
Mdio.
    Em segundo lugar, nota-se muito claramente o declnio dos contatos diretos
entre a frica e a ndia. Antes do sculo VII, navios etopes comercializavam
com alguns portos da ndia, como atestam amplamente grande nmero de peas
de moeda indianas (de Kush) descobertas na Etipia, assim como abundantes
influncias indianas, materiais e intelectuais, identificadas na cultura etope. Se
contarmos do sculo VII ao sculo XI, estas influncias vo deixar de se exercer,
sobretudo porque as trocas entre a ndia e a Etipia estariam, doravante, em
mos dos muulmanos, os quais marcariam estas relaes com a sua prpria
impresso cultural.
36                                                            frica do sculo VII ao XI



   Enfim, malgrado a supremacia exercida pelos muulmanos no Oceano ndico,
os indonsios foram capazes de manter contatos com Madagascar e, inclusive,
com algumas partes do litoral africano, embora no tenham aparentemente
exercido sobre o continente seno uma desprezvel influncia. As afirmaes
de alguns autores concernentes a uma contribuio decisiva da Indonsia para
a cultura africana devem ser consideradas como especulaes no assentadas
sobre nenhum dado slido. bvia e diferentemente, deve-se considerar o caso
de Madagascar, cujos laos com a Indonsia no poderiam ser questionados.
    Resta-nos examinar o papel que os povos de origem africana desempenha-
ram no Oceano ndico. Ao faz-lo, devemos guardar em mente que somente
uma nfima parte do continente  a estreita faixa litornea  encontrava -se
nesta poca em contato com o mundo exterior. O nmero de africanos em
condies de exercerem ou receberem uma influncia qualquer foi, tudo leva a
crer, assaz limitado. A situao difere sensivelmente, portanto, daquela preva-
lente na frica Ocidental, onde os contatos transculturais tiveram lugar em um
front muito mais amplo e profundo. Contudo, o papel exercido pelos africanos
da costa oriental no deve absolutamente ser negligenciado; ao contrrio, eles
contriburam para modificar profundamente o destino de um grande imprio. A
revolta dos zandj, autntico levante de protesto social, teve consequncias consi-
derveis em grande nmero de esferas  poltica, social, econmica. Ela abalou
a unidade do Imprio Muulmano, provocando a ciso de algumas importantes
provncias e, a termo, a queda do velho regime dos abssidas. A crise poltica
desencadeada pela revolta acentuou a clivagem entre as classes sociais e os
abastados, temendo pelos seus privilgios, comearam a requerer os exrcitos
profissionais dos turcos e de outros mercenrios, nicos capazes a seus olhos
de manter a ordem: abria-se assim uma nova era na histria do Oriente Mdio
muulmano. O levante igualmente representou uma lio para as classes diri-
gentes: doravante, os muulmanos orientais evitariam empregar maciamente
escravos em projetos de grande envergadura e, aparentemente, foi abandonada a
explorao de escravos nos trabalhos agrcolas e de irrigao. Esta mudana, por
sua vez, provocaria no sculo seguinte o surgimento do feudalismo como modo
de produo dominante, nos pases muulmanos do Oriente, explorao feudal
em substituio ao escravismo. Em razo da falta de dados estatsticos,  toda-
via impossvel saber se, nesta poca, diminuiu o nmero de escravos africanos
importados para esta regio. Outra consequncia da revolta dos zandj foi, ao que
tudo indica, avivar os sentimentos raciais: os africanos de raa negra tornaram-se
objetos de desprezo, a despeito dos ensinamentos do Isl, e numerosos temas,
A frica no contexto da histria mundial                                       37



refletindo uma postura negativa vis--vis dos negros, apareceram pela primeira
vez na literatura muulmana.
    Outros aspectos do perodo da histria africana estudada neste volume
devem-se, parcialmente,  interao entre as diferentes regies do Oceano
ndico. Deste modo, explica-se por exemplo a importncia crescente que as
cidades da costa oriental africana ganharam no mbito do comrcio martimo
internacional. Embora o transporte martimo estivesse em mos de mercadores
estrangeiros, os produtores e exportadores eram os povos africanos da costa.
Certamente, a civilizao suali no atingiria seu pleno florescer poltico, eco-
nmico e cultural, seno no curso dos sculos seguintes, porm foi precisamente
entre os sculos VII e XI que as bases deste processo foram lanadas.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                       39



                                      CAPTULO 2


          O advento do Isl e a ascenso do
               Imprio Muulmano
                            Mohammed El Fasi e Ivan Hrbek




   O captulo precedente permitiu-nos examinar os principais acontecimentos
ocorridos no Velho Mundo entre os sculos I-VII e V-XI, sob o prisma das
suas relaes com a histria da frica. Identificamos que uma das foras mais
dinmicas em ao no curso deste perodo foi a sociedade islmica em suas
manifestaes de toda ordem, religiosa, poltica, econmica, cultural.
   O presente captulo tem como objeto oferecer uma descrio do surgimento
do Isl, da sua expanso poltica e da sua evoluo doutrinria, contexto que
nos permitir melhor compreender os problemas histricos e ideolgicos que
sero tratados ou evocados ulteriormente, no presente volume assim como nos
volumes posteriores da Histria Geral da frica.


    Observaes liminares
    Do ponto de vista islmico, no  correto dizer que o profeta Maom tenha
sido o fundador do isl ou que ele pregasse uma nova f. O isl no  o nome de
uma f nica que fora pela primeira vez apresentada por Maom, pois que este
ltimo seria o ltimo de uma linhagem de profetas, os quais reafirmavam cada
um a f do seu predecessor. Isso deriva da doutrina islmica segundo a qual Deus,
desde que criou os homens, enviou-lhes profetas para gui-los, mostrando-lhes
a melhor via a seguir na terra para prepar-los  eterna beatitude; tendo final-
40                                                                               frica do sculo VII ao XI



mente estimado que a humanidade atingira um grau de perfeio suficiente,
a ponto de receber as suas ltimas revelaes, para compreender e apreciar as
leis que deveriam reger a sua conduta em todos as esferas, Ele escolheu para
desempenhar o papel de ltimo entre os profetas um rabe, habitante da cidade
de Meca, chamado Muhammad ibn `Abd Allh, membro da cabila dos Kuraysh.
    Os profetas anteriores a Maom foram  salvo figuras de menor estatura
 Abrao, Moiss e Jesus Cristo; todos pregavam a f em um deus nico, reve-
lado por escrituras que lhes haviam sido comunicadas pelo Cu. Aqueles que
acreditam nestes profetas e em suas escrituras, judeus ou cristos, so chamados
ahl alKitb (as pessoas do Livro) e, na qualidade de detentores de uma parte
da verdade revelada, eles tm o direito a uma especial considerao da parte dos
muulmanos. A inteno de Deus foi, desde a origem, proceder de modo a que
toda a humanidade fosse conduzida a acreditar somente Nele, o Ser Supremo.
As suas sucessivas mensagens foram portanto orientadas em dois princpios
essenciais: o monotesmo e a universalidade. Os primeiros a receberem a men-
sagem foram os judeus, porm, ao longo da sua histria, eles desviaram a men-
sagem, atribuindo-se indevidamente a exclusividade da f monotesta. Para
corrigir este desvio da Sua inteno original, Deus enviou Jesus que efetivamente
restaurou a universalidade do monotesmo. No entanto, coube ento aos cristos
desviarem-se, proclamando Jesus filho de Deus e assim fugindo ao monotesmo.
Maom recebeu ento a tarefa de reconduzir a humanidade inteira para a via do
monotesmo universal e autntico, o isl. Portanto Maom no  o fundador do
isl, religio existente antes dele1, mas, o ltimo elo de uma cadeia de profetas;
ele  o "selo dos profetas" (khtimu lanbiy'). O isl venera, por conseguinte,
todos os profetas anteriores, por ele reconhecidos como mensageiros da vontade
de Deus. Segundo a doutrina do isl, Jesus  um simples mortal, embora Deus
tenha desejado fazer do seu nascimento um milagre a exemplo do nascimento
do primeiro homem, Ado, o ancestral do gnero humano. No deriva que
ele tenha possudo a menor poro de divindade. A sua me a Virgem, Nossa
Senhora Mriam, mawltun Miryam, como a denominam os muulmanos, goza
do maior respeito no mundo islmico. Jesus no foi morto pelos judeus; foi Deus
quem o convocou para junto de Si. Ele no necessitava redimir-se do pecado
de Ado, pois que Deus acordara o seu perdo a este ltimo antes de obrig-lo
a deixar o paraso e a viver sobre a terra.



1    Consultar o Coro, XXVIII, 53, onde as pessoas do Livro dizem: "Na verdade, antes dele [o Coro], ns
     ramos muulmanos".
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                                                   41



    O prprio Maom insistia no fato de ser apenas um homem, fazendo uma
clara distino entre a sua humanidade e o seu papel como profeta: "Eu sou um
mortal como vocs. Em virtude das coisas que me foram reveladas por Deus,
vocs devem obedecer s minhas instrues. Porm, vocs sabem mais que eu
mesmo sobre os seus prprios assuntos deste mundo. Por conseguinte, minha
opinio acerca destas matrias no teria ela valor constrangente2." Mas, como era
inconcebvel que Maom, o mensageiro de Deus, pudesse agir em contradio
com a vontade divina, a f em seus conselhos de conduta nos assuntos mundanos
estabeleceu-se solidamente na f islmica. Retornaremos ulteriormente ao papel
da tradio proftica (sunna).


    A vida de Maom
    Em razo da falta de espao, no caberia aqui retraar detalhadamente a vida
do profeta. Como existem, em vrios idiomas, numerosas obras a este respeito,
ateremo-nos a indicar os acontecimentos mais marcantes da sua histria.
    s vsperas do sculo VII da era crist, a Arbia era habitada por um grande
nmero de cabilas, politicamente independentes, que formavam em conjunto
uma comunidade lingustica e cultural. Elas eram majoritariamente nmades
(bedunos); entretanto, no Sul da Arbia, assim como em numerosos osis, uma
populao sedentria praticava a agricultura. Ao longo dos itinerrios comerciais
tradicionais interligando as margens do Oceano ndico s costas mediterrneas,
existiam algumas cidades cujos habitantes dedicavam-se ao comrcio, embora
conservassem os hbitos e o cdigo moral dos nmades. A Meca era o principal
centro comercial e religioso da Arbia. A religio dos rabes pr-islmicos era
em geral de essncia tradicionalista e o seu culto endereava-se a deuses ou esp-
ritos que habitavam, acreditava-se, blocos de pedra, rochedos, rvores ou poos.
Alguns deuses eram astros, como o Sol ou o planeta Vnus. Havia igualmente
a ideia de um ser supremo chamado Al, porm este ltimo no constitua o
objeto de nenhum culto, contrariamente a al-Lt, "a deusa", que aparentemente
desempenhava um papel mais importante. As representaes de alguns destes
deuses estavam dispostas em um antigo santurio da Meca, denominado a Ka'ba.
De modo geral, os rabes nesta poca, fossem eles nmades ou sedentrios,


2    portanto inexato chamar os muulmanos "maometanos" ou o Isl "maometismo". Estes termos foram
    introduzidos nas lnguas europeias com base nos modelos do budismo e do cristianismo, religies cujos
    fundadores so adorados como seres divinos.
42                                                             frica do sculo VII ao XI



preocupavam-se pouco com a religio, em razo desta ltima no representar,
para eles, seno um elemento a mais entre outros integrantes dos costumes dos
seus ancestrais.
    Havia igualmente na Arbia importantes estabelecimentos povoados por
pessoas de religio judaica; muitos dentre eles eram rabes convertidos, vivendo
em sua maioria nos osis, em cabilas organizadas de acordo com um modelo
anlogo quele dos rabes adeptos da religio tradicional. O cristianismo muito
cedo abrira caminho na Arbia. Os seus principais centros encontravam-se no
Sul da pennsula (Nadjrn) e nos confins do deserto, na Mesopotmia e na
Transjordnia. Havia, em suplemento, cristos vivendo isoladamente em todas
as cidades, alm de monges que levavam no deserto a existncia solitria dos
anacoretas.
    Contudo, foi antes de tudo aos rabes de religio tradicional que Maom
foi enviado, portador da mensagem divina. Nascido na Meca, criana pstuma,
rfo precoce, ele viveu at os seus quarenta anos uma vida de comerciante. Ele
gozava de uma reputao de equidade e probidade nos negcios, porm, dito
isso, em nada se distinguia dos seus colegas negociantes. Aproximadamente no
ano 610 da era crist, ele recebeu as primeiras revelaes de Deus, por interm-
dio do anjo Gabriel, com a ordem de pregar o isl aos seus irmos humanos.
Estas primeiras revelaes eram centradas na unicidade de Deus e no ltimo
dia; elas exortavam os homens a no negligenciarem a religio em proveito dos
assuntos deste mundo. Elas igualmente refletiam os princpios da igualdade
entre todos os homens, sem distino de posio social ou fortuna.
    Quando Maom comeou a sua pregao e reuniu em torno de si uma
pequena comunidade de crdulos, a oligarquia dos ricos comerciantes e ban-
queiros da Meca no tardou a perceber a natureza revolucionria da mensagem
e considerou-o, desde logo, como uma ameaa aos seus privilgios. Estes homens
igualmente temiam ver a Meca, centro da religio tradicional rabe com o seu
santurio da Ka'ba, perder a sua importncia com a chegada da nova religio.
Embora a peregrinao anual, fazendo ali convergirem milhares de rabes de
toda a pennsula, fosse uma fonte de ganhos considerveis para os comercian-
tes da Meca. Do mesmo modo, conquanto Maom no tivesse em princpio
manifestado nenhuma vontade de exercer influncia poltica na Meca, as suas
qualidades morais e intelectuais, reforadas ainda pela sua misso proftica e pela
sua comunicao com Deus, faziam-no surgir aos olhos da oligarquia como um
perigoso rival. Eis a razo pela qual a histria do Profeta e dos seus primeiros
partidrios foi, at 622, aquela das perseguies por eles enfrentadas, inclusive
atentados contra a vida do Profeta. Perante esta situao, o Profeta ordenou a
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                            43



vrios entre os recm-convertidos, dentre os quais uma das suas filhas e o seu
marido, que imigrassem para a Etipia crist, onde receberam uma amigvel
acolhida do negus3. A ideia de deixar um pas onde se abatiam a injustia, a
opresso e as perseguies, para se refugiar em um lugar onde os muulmanos
pudessem acumular foras antes de partirem em busca de uma vida conforme aos
princpios islmicos consiste em uma noo essencial do Isl, recorrente no curso
da ulterior histria de numerosos movimentos de renascimento islmico.
    No auge das perseguies, Maom e os seus partidrios rumaram em direo
 cidade-osis de Yathrib, a qual posteriormente se tornaria Madnat al-Nab (a
cidade do Profeta), ou seja, Medina. Esta migrao aconteceu no ano 622 da era
crist e esta data marca o ano de origem do calendrio muulmano. A imigrao
de Meca para Medina  chamada hidjra, termo usualmente traduzido como "a
fuga", o que  incorreto, pois que na verdade a palavra rabe significa "cortar os
laos tribais e criar novos elos".
    Maom foi convidado a Medina pelos habitantes da cidade, os quais ganha-
ram o nome de Ansr (aqueles que o ajudaram); os imigrantes de Meca foram
denominados Muhdjirn (aqueles que realizaram a hidjra ou os imigrantes);
e estes dois grupos reunidos formam aqueles que eram chamados Ashb (os
companheiros do Profeta). Nos anos subsequentes  e at a sua morte no ano
11/632  o Profeta fortaleceu e governou a comunidade muulmana (umma em
rabe), repeliu os ataques dos seus inimigos da Meca e, atravs da diplomacia e
da guerra, submeteu  sua autoridade uma vasta confederao de cabilas rabes.
Quando se encontrou forte o suficiente, ele retornou a Meca e ali entrou como
vencedor, reconhecido como o chefe religioso e poltico investido do poder
supremo. No momento em que Deus o chamou para Si, Maom era pratica-
mente o mestre incontestvel da maior parte da Arbia e j se preparava para
propagar o isl alm dos limites da pennsula.


    Os ensinamentos do Coro
   Tanto em Meca quanto em Medina, o Profeta recebeu um fluxo contnuo
de revelaes sob a forma de versetos (ya, plural: yt) reunidos em captulos
(sra, plural: srt, ou suratas). As 114 suratas, de extenso desigual, em conjunto
formam o Coro.



3   Conferir mais adiante o captulo 19.
44                                                                                 frica do sculo VII ao XI




Figura 2.1 Representao da Meca. Fabricada em Iznik, esta placa reproduz, em vista area, o plano da
grande mesquita da Meca com os seus sete minaretes. No centro do ptio, percebe-se a Ka'ba  supostamente
construda por Abrao  em um dos ngulos da qual est inserida a pedra preta que todo muulmano deveria,
tanto quanto possvel, vir venerar ao menos uma vez em sua vida. Cada edcula  como cada porta   desig-
nada pelo seu nome em caracteres nashki. Na parte superior do plano, uma inscrio cornica, igualmente
cursiva (surata III, versetos 90-92), relembra o dever da peregrinao. [Foto:  Clich dos museus nacionais,
Paris.]
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                                                     45




Figura 2.2 Representao de Medina. Mesmo tipo de placa que a precedente. Esta representa, em vista
area, a mesquita de Medina, construda na localizao da casa de Maom, cuja sepultura encontra-se na sala
de oraes. Aps ter realizado a peregrinao a Meca, muitos muulmanos vm a Medina venerar a lembrana
do profeta. Estas placas, as quais ornavam os muros das mesquitas a partir do sculo XVII, provavelmente
eram doaes de peregrinos. [Foto:  Clich dos museus nacionais, Paris.]
46                                                           frica do sculo VII ao XI



    O Coro no  um "livro santo" escrito por Maom. A palavra significa
"recitao" e o que fez Maom foi recitar a palavra de Deus a ele pronunciada
pelo anjo Gabriel. "O Coro  puramente divino, mesmo estando intimamente
ligado  personalidade profunda do profeta Maom. O Verbo de Deus jorrava
atravs do corao do Profeta4." Ele no , como geralmente se acredita, a Bblia
dos muulmanos; a posio que ocupa o Coro no Isl  muito diferente, pois
que o Coro representa para os muulmanos aquilo que o prprio Cristo  para
os cristos: o Verbo de Deus. No Isl, o equivalente mais prximo do Novo
Testamento dos cristos, como livro reportando os atos e as palavras de Jesus, 
o hadth. Seria portanto altamente blasfematrio tentar aplicar uma crtica do
texto ao Coro, como foi feito para a Bblia, ao passo que  consentido adotar
uma postura crtica em relao ao hadth, procedimento ao qual os eruditos
muulmanos se dedicaram desde os primrdios.
    Os ensinamentos do Coro so de natureza global e visam guiar o homem
em suas relaes com Deus, assim como com os outros membros da sociedade
humana. Os preceitos e os princpios cornicos constituem o fundamento da
f islmica.
    O primeiro dos princpios  o monotesmo absoluto, expresso atravs de uma
frmula que talvez constitua a mais breve e simples profisso de f se comparada
a todas as religies do mundo: "No h outro Deus seno Al e Maom  o pro-
feta de Al." Pronunciar esta curta frase (shahda)  tudo o que um convertido
deve fazer para tornar-se muulmano. A f na qualidade de profeta de Maom
 parte integrante desta crena, haja vista que, sem a sua misso proftica, a
perfeio do isl no existiria.
    A shahda constitui, portanto, a primeira lembrana daquilo que se conven-
cionou chamar "os cinco pilares do isl" (arkn alislm). A segunda  o dever,
para cada muulmano, de realizar a prece ritual (salt) cinco vezes ao dia. As
oraes orientam o esprito dos crdulos em direo a Deus ao longo de todo o
dia. Recomenda-se efetuar as oraes em comum, em filas ordenadas; todos os
crdulos voltam-se em direo a Meca para orar. As ablues que precedem as
oraes representam uma parte indispensvel do seu ritual. As oraes contm
na prtica, por conseguinte, um valor higinico e incitam os homens  disciplina
coletiva.
    O terceiro pilar  o jejum (saum), consistente em se privar de todos os pra-
zeres materiais (alimento, bebida, relaes sexuais etc.) desde a aurora (e no a


4    R. FAZLUR, 1966, p. 33 e seguintes.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                          47



partir do nascer do sol, como frequentemente se diz) at o por do sol, durante
o nono ms do ano lunar, chamado ramad. Eis de onde provm a expresso
"observar as prescries do ramad", significando observar o jejum muulmano.
Notemos que os doentes, as pessoas em viagem durante o ms do ramad, as
mulheres prximas a darem a luz, os trabalhadores que executam trabalhos
rduos, bem como os soldados em campanha, todos esto dispensados do jejum,
a condio de jejuar um nmero equivalente de dias em outra poca do ano.
O jejum , portanto, um ato de renncia, mortificao e, como tal, ele fortifica
a vida espiritual. Ele igualmente ensina os ricos a suportarem os suplcios da
fome e a mostrarem-se mais compadecidos frente aos pobres que sofrem tais
privaes ao longo de todo o ano.
   O quarto pilar  uma obrigao social da maior importncia. Trata-se da
esmola obrigatria, denominada zakt, consistente para uma pessoa a dar aos
pobres e a uma determinada categoria de necessitados uma parte dos bens que
permaneceram com ela durante todo um ano. Esta poro varia entre 2,5% e
10%. A zakt, sublinhando a importncia da caridade, era igualmente necessria
nos primeiros tempos do Isl com o objetivo de permitir a sobrevivncia da
comunidade, em grande parte composta de imigrantes pobres, desprovidos de
qualquer recurso. Ela era coletada pela comunidade islmica (umma), em seguida
repartida entre as categorias de indivduos indicadas pelo Coro. Ela represen-
tava o equivalente da atual cobertura social garantida pelo Estado.
   O quinto pilar  a peregrinao anual  Meca (hadjdj). Esta instituio res-
ponde a uma constante preocupao do isl, propiciar aos homens conhecerem-
-se e encontrarem-se com a maior frequncia possvel.  no hadjdj que o carter
universal da mensagem do isl manifesta-se com a maior evidncia, pois que
a peregrinao  Meca rene, durante o ms do dh l-hidjdja, muulmanos
vindos de todos os horizontes do mundo para ali participarem das cerimnias
comemorativas ao sacrifcio de Abrao. A peregrinao  obrigatria para todos
os muulmanos, mas, o cumprimento deste dever no se impe seno quele
que possui os meios financeiros de realiz-lo, se a viagem no lhe representa
nenhum perigo e se a sua sade  boa. Ele deve igualmente poder deixar aos
membros da sua famlia os meios de sobrevivncia durante a sua ausncia. Por
todas estas razes, o nmero daqueles que so capazes de realizar este dever 
mnimo, comparativamente ao nmero total de muulmanos. O hadjdj repre-
senta, contudo, a maior concentrao multinacional de seres humanos at os dias
atuais em todo o planeta. Aqueles que o realizam recebem, durante estes poucos
dias, a prova visvel da sua ligao com a imensa fraternidade do Isl ao redor
do mundo, sem distino de raa ou lngua. O peregrino v-se profundamente
48                                                                        frica do sculo VII ao XI




Figura 2.3 Pgina do Coro em escritura kufique, sculo IX (Abbasia, Iraque) (Colaborao de M. B.
Mohammed). [Fonte:  Werner Forman Archives, Londres.]



preenchido dos valores islmicos e faz-se merecedor, em suplemento, do respeito
devido em seu retorno a uma pessoa que deixou a sua marca sobre o solo onde
viveu o profeta Maom e onde Deus revelou o Coro.
    A quarta surata formula, no verseto 135, certo nmero de outros artigos da
f muulmana: "Crede em Deus e em seu profeta, no Livro que Ele revelou ao
seu profeta e no Livro que Ele revelou anteriormente. Todo aquele que no cr
em Deus, em seus anjos, nos seus Livros, em seus apstolos e no dia derradeiro
encontra-se em um profundo desvio."
    O Dia do Juzo  uma das partes capitais da f muulmana; toda histria
da humanidade conhecer o seu final com a ressurreio e o Dia do Juzo.
Os mortos esperam esta hora em suas tumbas enquanto os profetas e os seus
mrtires vo diretamente ao paraso. Cada um apresentar-se- perante Deus no
Dia do Juzo final para ser julgado pelos seus atos e enviado ao paraso (djanna,
literalmente jardim) ou ao inferno.
    O Coro igualmente contm certo nmero de interdies e recomendaes
tocantes  vida cotidiana.  proibido comer porco e alguns outros animais, assim
como beber vinho e outras bebidas alcolicas. Na dcima stima surata, do seu
verseto 23 ao 40, so oferecidos vrios conselhos de conduta aplicveis  vida
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                                                  49



cotidiana; o desperdcio ostentatrio, o orgulho e o desdm so condenados e
os fiis so persuadidos a atriburem a toda coisa a sua justa medida.
    Embora a escravido seja considerada como uma instituio reconhecida,
os escravos devem ser tratados com bondade, autorizados a se casarem e esti-
mulados a comprarem a sua liberdade. Os mestres so incitados a libertarem os
escravos crdulos5.
    O isl proclama a igualdade entre o homem e a mulher. O Profeta disse: "As
mulheres so as irms germanas dos homens perante a lei." Costumes total-
mente estranhos  ortodoxia mascararam esta bela face da religio muulmana.
Contudo, de direito, a mulher muulmana sempre gozou de um estatuto jur-
dico relativamente ao qual poderiam ter-lhe invejado, at bem pouco tempo, as
mulheres de outros sistemas religiosos. A mulher muulmana teve desde sempre
reconhecido o direito de ester en justice sem se referir ao seu marido, bem como
de gerir os seus bens independentemente deste ltimo. Longe de ser submetida
 obrigao de oferecer um dote ao seu marido,  ele quem, ao contrrio, est
obrigado a depositar certa soma e a oferecer-lhe alguns presentes, o todo se
tornando propriedade pessoal da mulher.
    O Coro limita a quatro o nmero de esposas legtimas de um homem; o que
constitui um progresso comparativamente aos tempos pr-islmicos, durante os
quais nenhuma restrio era atribuda  poligamia. Ademais, o isl conferiu 
poligamia tais condies que era possvel considerar que ele abria, destarte, uma
via rumo  supresso ou, ao menos,  atenuao deste fenmeno social. Trata-se
do que manifestam, claramente, estes versos do Coro: "Esposai, como queirais,
duas, trs ou quatro mulheres. Porm, caso temais no serdes equitativo, pegai
somente uma mulher ou vossas cativas de guerra." (IV, 3.) E ainda: "Vs no
podeis ser perfeitamente equitativo com cada uma das suas mulheres, mesmo
que seja este vosso desejo." (IV, 1296.)


    A shar'a e o fikh
   O isl no  somente uma religio, trata-se de um modo de vida completo
que abarca todas as esferas da existncia humana. O isl est repleto de conselhos


5   Para uma anlise da postura do Isl frente  escravatura, conferir mais adiante o captulo 26.
6   O clebre pensador egpcio Muhammad `Abduh  falecido em 1323/1905  estimava, com base na
    interpretao destes versos, que o Coro praticamente impunha a monogamia. Consultar R. LEVY,
    1957, p. 101.
50                                                           frica do sculo VII ao XI



apropriados a todas as circunstncias da vida: individuais e sociais, materiais e
morais, econmicas e polticas, nacionais e internacionais7.
   A shar'a  o cdigo de conduta detalhado; ela compreende os preceitos que
regem o ritual do culto, as normas de conduta e as regras de vida. Ela consiste
em leis que prescrevem e autorizam, dando conta do verdadeiro e do falso.
Embora todos os profetas tenham a mesma dn (f religiosa), cada qual oferecia
uma shar'a diferente que era adaptada s condies do seu tempo e ao seu povo.
Maom, como ltimo dos profetas, trouxe o cdigo final que deveria aplicar-
-se ao conjunto da humanidade para todos os tempos vindouros. As shar'a
precedentes estavam portanto revogadas para darem lugar  shar'a completa
de Maom.
   As fontes da shar'a islmica so o Coro e o hadth, palavras e atos do profeta
Maom, reportados e transmitidos pelos seus companheiros. Milhares de hadth
foram estudados em detalhes e reunidos por eruditos sob forma de coletneas
da tradio; os mais famosos dentre eles so aqueles de al-Bukhr (falecido
em 256/870) e de Ab Muslim (falecido em 261/875). O contedo da tradio
proftica  chamado sunna, ou seja, "a conduta e os atos de Maom".
   A cincia que codifica e explica as prescries da shar'a chama-se fikh e
os sbios versados em seu conhecimento so denominados fakh (plural rabe:
fukah') ou "doutores da lei"; o fikh  a cincia muulmana por excelncia e os
fukah' so considerados como sbios (`ulam', singular: `lim).
   Aps a grande conquista que colocou sob o seu imprio muitos pases onde
prevaleciam condies econmicas e sociais diversas, herdadas de tempos pre-
gressos, a comunidade muulmana confrontou-se por conseguinte a numerosos
problemas. Outros mais foram suscitados pela criao de um Estado muito dife-
rente da comunidade original de Medina, alm de mais complexo. Haja vista que
o Coro no se ocupa seno raramente de casos particulares e expe sobretudo
os grandes princpios que devem reger a vida dos muulmanos, rapidamente
surgiram certas questes colocadas para a comunidade muulmana as quais no
encontravam resposta no Livro Santo e tampouco nos hadth do Profeta. Assim
sendo, duas fontes suplementares foram anexadas  lei islmica. Primeiramente
o raciocnio por analogia (kiy), consistente em comparar o caso para o qual se
busca uma soluo com outro caso anlogo, j esmiuado com base no Coro
ou em um hadth especfico. Em segundo lugar, a soluo de um problema pode
igualmente ser obtida pelo consenso de vrios eminentes doutores da lei (idjm').


7    K. AHMAD, 1976, p. 37.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                           51



    Entre os sculos II/VIII e III/IX, eminentes jurisconsultos codificaram em
um sistema coerente todo o direito muulmano dos diversos centros intelectuais
do mundo muulmano, em particular Medina e Bagd. Os diversos passos por
eles seguidos para levar a cabo essa enorme tarefa originaram quatro escolas
jurdicas com nomes de seus fundadores a quem foi tambm concedido o ttulo
honorfico de imame.
    Estas quatro madhhib so o malikismo, o shafismo, o hanafismo e o hanba-
lismo. Todas as quatro so perfeitamente ortodoxas (sunitas) e no diferem seno
em detalhes;  imprprio falar de seitas a propsito destas escolas. Ao codifica-
rem o direito, os seus criadores basearam-se nos princpios enunciados acima,
acrescentando alguns outros. Unnime e totalmente de acordo em respeito aos
textos do Coro e sobre os hadth julgados por todos os sbios muulmanos
como os mais autnticos, cada imame apoiou-se segundo as suas preferncias
pessoais (aquilo que denominamos idjtihd) prioritariamente em um ou outro
dentre os princpios da sua escola.
    Aps diversas codificaes das suas respectivas zonas de influncia, segundo
o curso da histria, cada uma destas escolas encontra atualmente os seus adeptos
em zonas geogrficas bem determinadas: o hanafismo predomina nas regies
que estiveram sob domnio das dinastias turcas, ou seja, na Turquia, na Sria,
no Iraque, na sia Central, na ndia Setentrional, bem como no Paquisto; o
madhhab shafita  praticado principalmente no litoral do Oceano ndico, desde
o Sul da Arbia e da frica do Leste at a Indonsia; o malikismo rapidamente
implantou-se na frica do Norte, na Espanha muulmana e no Sudo Central
e Ocidental. A ltima escola, o hanbalismo, outrora com numerosos adeptos na
Sria e no Iraque, est atualmente praticamente confinado  Arbia Saudita.
    As diferenas entre as diversas madhhib no so fundamentais; elas dizem
respeito, sobretudo, a detalhes do ritual e aspectos menores da lei. Um dos
traos fundamentais da lei islmica consiste na apreciao que ela confere a
todas as aes e relaes humanas, em funo dos seguintes conceitos: o que 
obrigatrio (wdjib), recomendado (mandb), indiferente (mubh), repreensvel
ou desaprovado (makrh) e proibido (mahzr). O conjunto do direito islmico
est impregnado de consideraes religiosas e ticas, tais como a interdio do
interesse usurrio ou, de modo geral, do enriquecimento injustificado, a interdi-
o dos jogos com apostas em dinheiro e outras formas de especulao baseadas
na sorte, a preocupao com a igualdade entre as duas partes contratantes e o
zelo pela justa medida, enfim o horror pelos extremos.
    Outra caracterstica que distingue o fikh dos outros sistemas jurdicos: ele
foi elaborado e desenvolvido por juristas privados; ele no  o prolongamento
52                                                                               frica do sculo VII ao XI



de um sistema pr-existente, foi ele prprio que criou o direito. O Estado no
desempenhou o papel de legislador, ele no promulgou leis e, por muito tempo,
no houve nenhum cdigo jurdico que emanasse de rgos do Estado. Em lugar
disso, as leis eram inscritas em obras doutrinrias que possuam fora de lei e
serviam como referncia para as decises jurdicas.
    Fiel aos seus princpios e  sua conscincia, o isl, na qualidade de estru-
tura religiosa, jamais produziu a mais simples forma de organizao externa,
nem espcie alguma de hierarquia. No h clericato nem igreja. Cada qual  o
seu prprio pastor e no h intermedirio entre crdulo e Deus. Deste modo,
embora o idjm' (consenso dos doutores da lei) fosse reconhecido como base
vlida da doutrina, no existia nem conselho nem cria para promulgar estas
decises.
    O consenso era obtido de modo informal, quer fosse pelo assentimento tcito
daqueles que estavam qualificados para expressarem as suas opinies, quer fosse
ao final de uma controvrsia escrita que se prolongava por vezes longamente,
antes que uma maioria chegasse a um acordo. Assim prosseguiu em todas as
esferas a elaborao da doutrina islmica, sob o impulso de alguns eminentes
e brilhantes pensadores, inspirados pela clebre palavra do Profeta: "Busca da
cincia, do bero ao tmulo".
    Entretanto, os `ulam', em seu anseio de elaborar preceitos islmicos aplic-
veis aos menores detalhes do culto e da vida cotidiana, passaram a se preocupar
em demasia com o aspecto formal de lei divina, sem mais deixar suficiente
espao para a devoo pessoal. Houve ento uma reao contra o intelectu-
alismo e o formalismo, tomando a forma do misticismo islmico, o sufismo8.
Uma forte tendncia ao ascetismo e ao misticismo surgia desde logo muito
nitidamente junto aos primeiros muulmanos e numerosos grandes msticos,
antes dos sculos VI e XII, desempenharam um papel ativo no fortalecimento
da f islmica. Em contrapartida, alguns adeptos do sufismo tinham tendncia
a negligenciar as obrigaes prescritas pela shar'a, julgando-se dispensados
dos deveres de todo muulmano. No sculo V/XI, o grande telogo al-Ghazl
(falecido em 505/1111) integrou o sufismo  religio ortodoxa, sublinhando
simultaneamente a necessidade de uma abordagem pessoal de Deus e o dever
de se conformar aos preceitos da shar'a, ambos elementos inseparveis da vida
religiosa muulmana. Pouco tempo aps, os sufistas comearam a se organizar
em associaes ou fraternidades msticas (em rabe turuk, singular: tarka), em


8    Do rabe sf, laine; aluso ao vestido de l usado pelos sufis. O nome rabe do sufismo  tasawwuf.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                             53



torno de diversos mestres espirituais, chamados mashyikh. A mais antiga destas
turuk  a Kadiryya, fundada em Bagd por `Abd alKadr alDjln (falecido em
561/1166), ganhando adeptos em diversos pases muulmanos. Com o passar
do tempo, estas turuk se multiplicaram, tanto e de tal modo, a ponto de pratica-
mente todo muulmano pertencer a tal ou qual fraternidade e tomar parte nos
exerccios msticos denominados dhikr (invocao ou ladainha).
   Relativamente a estas fraternidades, respeitveis e reconhecidas, convm
distinguir o culto dos santos, chamados "marabutos" no Magreb. Numerosos
dentre estes marabutos exploraram a credulidade de muulmanos inocentes,
pretendendo realizar milagres, preparando todo tipo de amuletos e talisms
e gabando-se por terem pretenso acesso direto a Deus e, por conseguinte, a
possibilidade de desempenharem o papel de intercessores. Similar postura 
to pouco islmica quanto o possvel, pois que todo muulmano  o seu pr-
prio sacerdote. Somente Deus pode ser venerado e Ele deve ser alcanado sem
intermedirio. O isl torna o homem inteiramente independente de todos os
seres, salvo de Deus. Do ponto de vista do autntico isl, o culto de "santos"  o
produto de uma excrescncia parasitria.


    As seitas islmicas
    Originalmente, os principais fracionamentos em seitas obedeceram a
motivos de ordem poltica; as divergncias doutrinrias surgiram somente
posteriormente.
    O principal problema em torno do qual se polarizaram as posies dos pri-
meiros muulmanos foi aquele referente  sucesso de Maom, de modo algum
como profeta  j que ele era o ltimo dos profetas , mas pela sua posio 
frente da comunidade islmica. O Profeta indicara em mltiplas ocasies, ao
longo da sua existncia, que o sistema adequado de governo para a comunidade
era a shur ou consultoria, ou seja, o que atualmente denominamos democracia.
Aps a sua morte, os seus primeiros sucessores foram escolhidos por eleio
e comearam a ser chamados "califas". Os quatro primeiros califas, aqueles
denominados pelos muulmanos alkhulaf' al rashdn (os califas "inspirados"),
foram Ab Bakr, `Umar, `Uthmn e `Al; todos eram membros da cabila dos
Kuraysh e por matrimnio aparentados a Maom; `Al era alm disso seu primo.
Quando o terceiro califa, `Uthmn, foi assassinado por um grupo de muulma-
nos revoltados em razo de algumas das suas medidas polticas, `Al ibn Ab Tlib
foi eleito em Medina,  poca a capital, para lhe suceder. Porm, esta designao
54                                                              frica do sculo VII ao XI



no foi aceita por alguns companheiros, especialmente por Mu'wiya, governa-
dor da Sria. Eclodiu a guerra civil entre os partidrios de `Ali e os de Mu'wiya.
O califa `Ali aceitou a criao de uma comisso de arbitragem com dois mem-
bros  um representando `Ali e outro Mu'wiya  mas, numerosos partidrios
de `Ali rejeitaram esta soluo e expressaram o seu desacordo separando-se dele,
de onde o seu nome kharidjitas (do rabe kharadja: sair). Eles estimavam que a
arbitragem  definitivamente desfavorvel a `Ali  consistia em um ato de trai-
o perante Deus, nico rbitro. No curso dos sculos I/VII e II/VIII, inclusive
mais tarde em alguns lugares, os kharidjitas revoltaram-se em vrias ocasies
contra os califas e o governo central dos umayyades, em seguida dos abssidas,
sobretudo no Iraque, na Arbia, no Ir e nos pases vizinhos. Os kharidjitas no
tardariam a se fragmentar em numerosas seitas com divergentes concepes, nos
planos terico e prtico. Todavia, elas possuam alguns traos em comum. Elas
insistiam na importncia dos atos, alm da f, e afirmavam que qualquer um que
se tornasse culpado de grave pecado era incrdulo e apstata, merecendo por
conseguinte a morte. Uma das suas principais doutrinas era aquela que concernia
ao imamado, ou seja,  conduta da comunidade muulmana. Contrariamente a
outros muulmanos que consideravam o imamado (em outros termos, o califado
ou devoluo do poder) como prerrogativa exclusiva de algumas linhagens (os
kharidjitas em geral ou mais precisamente a famlia de `Ali), os kharidjitas pro-
fessavam que todo homem, mesmo um escravo negro, poderia ser eleito  frente
da comunidade muulmana caso possusse as qualidades requeridas referentes
 piedade,  integridade e ao saber religioso. Estas tendncias democrticas,
por vezes beirando a anarquia, atraram muitos indivduos que, por uma razo
ou outra, tinham reclamaes face ao governo. Por via de regra, os kharidjitas,
embora de esprito democrtico, pios e pregadores de um isl purificado, inspi-
ravam muita antipatia em razo da sua intolerncia perante outros muulmanos;
contudo, eles no seriam seno minoritrios nos territrios orientais do califado.
No Magreb, algumas das seitas kharidjitas, os ibaditas, os nukkaritas e os sufritas,
encontraram um terreno acolhedor para as suas doutrinas junto aos numerosos
berberes descontentes com o regime opressor dos umayyadas9.
    Os muulmanos que ficaram com `Ali eram aqueles que estavam persuadi-
dos de que o califado (eles preferiam chamar esta instituio como imamado)
deveria permanecer na famlia do Profeta, representado por `Ali e os seus
descendentes, originrios do seu casamento com Ftima, a filha do profeta


9    Consultar mais adiante os captulos 3 e 9 ao 12.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                             55



Maom. Eles foram chamados Sh'atu `Ali, ou seja, "o partido de `Ali", de onde
o nome xiitas, a eles atribudo pelas lnguas europeias. Enquanto os kharid-
jitas diferenciavam-se da ortodoxia islmica somente pelas questes polticas
e ticas, os xiitas, indo alm, acrescentaram numerosas e novas doutrinas ao
contedo puramente religioso. Eles rejeitaram o princpio do consenso da
comunidade e o substituram pela doutrina segundo a qual haveria a cada
poca um imame infalvel ao qual Deus confiava, em exclusividade, o encargo
de guiar a humanidade. O primeiro imame foi `Al e todos os seus sucessores
foram seus descendentes diretos. Os imames so considerados como chefes
e mestres pela graa divina da comunidade dos fiis; eles so supostamente
possuidores de faculdades sobre-humanas, a eles transmitidas desde o primeiro
homem, Ado, atravs de Maom. Por estas razes, eles so os nicos habili-
tados a conduzir a comunidade muulmana. Os xiitas acreditam que mesmo
quando o ltimo imame "desaparecesse" deste mundo, ele no deixaria contudo
de continuar, agora como "imame escondido", a desempenhar o seu papel de
guia. Ele reapareceria um dia para restabelecer a paz e a justia no mundo, sob
a forma de Mahd (aquele guiado por Deus).
    O xiismo rapidamente dividir-se-ia em grande nmero de seitas, opostas
entre si no tocante  questo de saber quem seria "o imame escondido". Aquela
que desempenhou o mais relevante papel histrico foi o grupo dos duodecima-
nos (Ithn `ashariyya), o qual reconhecia o dcimo-segundo descendente de `Ali
Muhammad al-Mahd, desaparecido em 266/880. O bastio dos duodecimanos
 atualmente o Ir, onde esta verso do xiismo , desde o sculo II/VII, a religio
de Estado; igualmente encontramos grupos importantes no Iraque, na Sria, no
Lbano e na ndia. Durante o califado abssida, os membros da seita eram mais
numerosos, sobretudo nas grandes cidades.
    Os xiitas que reconheciam o stimo imame, Ism'l, se separaram do tronco
comum; deu-se a eles o nome de ismaelianos (Ism'liyya) ou ainda septima-
nos (Sab'iyyna). A parte as crenas comuns a todos os xiitas, os ismaelianos
elaboraram um conjunto de doutrinas particulares, principalmente fundadas
no neoplatonismo, como por exemplo a teoria da emanao divina do mundo,
produzido por um intelectual que se manifesta por intermdio dos profetas e
imames. Em sua exegese do Coro, eles se dedicaram a descobrir significa-
dos ocultos, somente acessveis aos iniciados. Os ismaelianos estiveram por
muito tempo organizados em sociedades secretas; a seita abandonou este carter
secreto com o advento dos fatmidas, os quais foram, entre todos as vertentes
do xiismo, aqueles que conheceram o maior sucesso: eles fundaram um imprio
56                                                             frica do sculo VII ao XI



que se estendia do Atlntico  Sria e ao Hidjz10. Os ismaelianos tiveram como
descendentes tardios os drusos do Lbano e da Sria, em seguida os assassnios
(alHashshiyyn), seita terrorista sobretudo implantada no Ir e no Lbano que
desenvolveu atividades no Oriente Mdio entre os sculos VI/XII e VIII/XIV.
    A luta entre muulmanos chegou ao final com afirmao da supremacia da
ortodoxia, o sunismo, reagrupando aqueles que aderem  sunna, a via do Profeta.
Os sunitas representam hoje mais de 90% da populao muulmana do mundo.
As diferenas doutrinrias entre isl sunita e isl xiita so as seguintes: as leis
sunitas tm a sua fonte no Coro, o hadth do Profeta, o consenso da comuni-
dade e a analogia, ao passo que os quatro fundamentos da lei xiita so o Coro,
os hadth do Profeta e dos imames, o consenso dos imames e a razo. Os xiitas
realizam a peregrinao  Meca, preferindo contudo visitar os tmulos de `Ali e
do seu filho Husayn nas cidades de Nadjaf e Kerbel, no Iraque.
    Contudo, nem todos os descendentes de `Ali e Ftima  os quais tm direito
ao ttulo honorfico de xerife  aderem s doutrinas xiitas. Em sua maioria,
os xerifes eram e so sunitas. Em numerosos lugares do mundo muulmano
onde os xerifes chegaram ao poder, como sultes ou emires, como no Marrocos
os idrsidas e as duas dinastias crists dos saaditas e dos alauitas, ou como os
hashemitas de Hidjaz, do Iraque e da Jordnia, eles seguiram a via da ortodoxia
e jamais pretenderam a nenhuma das faculdades sobre-humanas atribudas aos
imames pelo xiismo.
    Entretanto, um dos conceitos de origem xiita, a crena na vinda do Mahd,
penetrou no isl sunita, no na forma de um ensinamento oficial como no
xiismo, mas como crena da religio popular na qual o Mahd  o Messias que
retornar  terra, matar o anticristo e espalhar a justia pelo mundo por tanto
tempo quanto ele esteja cheio de injustia e tirania. Alguns mahd surgiram de
tempos em tempos ao longo dos sculos em diversos pases muulmanos, os mais
clebres exemplos foram aqueles referentes ao mahd sudans Muhammad ibn
`Abdallh e ao somali Muhammad ibn `Abdille.


     A postura do Isl face aos nomuulmanos
   O isl faz uma ntida distino entre os no-muulmanos que pertencem a
um sistema religioso fundado sobre os livros revelados, ou seja, os ahl alKitb
(pessoas do Livro), e os no-muulmanos considerados politestas, idlatras ou

10   Consultar mais adiante o captulo 12.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                                                   57



adeptos da religio tradicional. Em conformidade com a doutrina das revelaes
sucessivas e da corrente dos profetas, os judeus e os cristos, como detentores dos
livros santos, no so obrigados a se converterem ao isl. Esta tolerncia igual-
mente aplicou-se aos zorostricos, assim como aos adeptos de alguns antigos
sistemas religiosos do Oriente Mdio, conhecidos como sabestas e, inclusive,
posteriormente aos hindus (em que pese a multiplicidade das suas divindades)
e budistas.
    No que se refere ao segundo grupo, considerando que o profeta Maom foi
enviado para pregar o isl, particularmente para aqueles que no haviam at
ento recebido nenhuma revelao para gui-los, ele e os seus sucessores deviam
combater a religio tradicional e converter os infiis. Estes ltimos tinham a
escolha entre a converso ao isl ou o combate; em caso de derrota, eles eram
condenados ao cativeiro e  escravido.
    Numerosas so as ideias errneas em respeito  jihad. A palavra  comu-
mente, de modo equivocado, traduzida como "guerra santa", noo estranha 
origem do termo, cujo significado  "esforo para dar o melhor das suas capaci-
dades". O que melhor ilustra o verdadeiro sentido do termo jihad  a palavra do
Profeta que declara, retornando de uma expedio contra uma cabila11 (tribo)
rabe que aderia  religio tradicional: "Ns retornamos da pequena jihad para
realizar a grande jihad", ou seja, para tentar atingir a perfeio ulterior.
    Quanto  jihad como atividade guerreira, houve nos primrdios uma ten-
dncia a querer transform-lo no sexto "pilar" do Isl, sobretudo junto aos kha-
ridjitas, porm isso no foi em geral aceito. As escolas jurdicas, com exceo do
hanbalismo, consideraram a jihad como uma obrigao se algumas condies
fossem cumpridas; era preciso, notadamente, que os infiis desencadeassem as
hostilidades e que houvesse chances razoveis de sucesso. Em algumas situaes,
a jihad aparece como um dever individual que se impe inclusive aos escravos,
s crianas e aos menores; assim sucede quando o inimigo ataca um territrio
muulmano: quem se furte a este dever  um pecador e um hipcrita.
    As guerras expansionistas do Estado islmico aps a morte do Profeta no
foram centradas na converso religiosa dos povos conquistados, pois que a maio-
ria dentre eles aderia a religies reveladas: cristos, judeus e zorostricos. Estes
povos estavam sujeitos  capitao (djizya) e assim que quitado o imposto, eles
estavam protegidos (dhimm), sem contudo serem obrigados a renunciar s suas


11   Kabla (no plural: kab'il): importante grupo agnatcio cujos membros se reivindicam de um ancestral
     comum e que pode possuir indivisivelmente uma certa extenso de terras e pastagens (conferir Enciclo
     pdia do Isl, nova edio, vol. 4, pp. 334-335).
58                                                              frica do sculo VII ao XI



religies. A converso ao isl dos indivduos e mesmo dos grupos era um aspecto
muito irrelevante da jihad, cujo objetivo essencial era a expanso do Estado
Islmico como esfera onde se garantia a supremacia da shar'a. Eis o porqu da
distino entre Dr alislm e Dr alharb, a esfera do Isl e a esfera da guerra.
Quando nos referimos a Dr alislm ou mundo islmico, isso no significa que
todos os seus habitantes sejam necessariamente muulmanos, mas, antes, que
a ordem social e poltica do Isl ali reina e que o culto muulmano  religio
pblica. O Dr alharb  o contrrio do Dr alislm, trata-se do restante do
mundo que ainda no se encontra sob o imprio do Isl. Teoricamente, ele 
chamado a desaparecer um dia para integrar-se ao mundo islmico, segundo os
termos do Coro (IX, 33): " Foi ele quem enviou o seu Profeta com a direo e
a religio verdadeira, para faz-la prevalecer sobre toda religio outra, a despeito
dos politestas."
    Porm, a partir do sculo III/IX, quando o califado universal se fracionou
em Estados menores, estabeleceu-se uma relao de tolerncia entre o mundo
muulmano e o Dr alharb, cuja conquista, deixando de ser encarada em tempo
histrico, foi recolocada no tempo messinico do porvir. As relaes polticas
e comerciais com os Estados europeus, asiticos e africanos estiveram, desde
ento, regidas pelo reconhecimento do pertencimento de alguns destes Estados
a uma categoria intermediria, o Dr alsulh (a esfera das trevas). Foi esta noo
que serviu como principal base jurdica para os contatos e para as comunicaes
pacficas com os Estados no-muulmanos. Outra medida introduzida para
facilitar estes contatos: um salvo-conduto, chamado amn, podia ser acordado
pelo chefe de um Estado muulmano aos sujeitos de qualquer Estado no-
-muulmano (ento denominados musta'minn), ao que no somente tornava
possvel os intercmbios diplomticos mas permitia aos mercadores europeus e
outros residirem nos pases muulmanos.


     A expanso do Isl; a grandeza e a decadncia do califado
    Alguns aspectos da ascenso do mundo islmico e do seu impacto em diver-
sas partes da frica j foram evocados no captulo precedente. Propomo-nos
aqui a apresentar um breve apanhado da histria do califado, da morte do pro-
feta Maom at o final do sculo V/XI. Como a histria das partes africanas
do mundo islmico foi inteiramente tratada em certo nmero de captulos do
presente volume, ns voltaremos preferencialmente a nossa ateno para o que
se reproduziu nas provncias mais orientais. Este apanhado histrico  neces-
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                                       59



srio no to somente em razo da importncia evidente do mundo islmico,
como regio de vanguarda para a cultura durante este perodo, mas, igualmente
e sobretudo, porque as transformaes histricas ocorridas na Prsia, na Arbia
e nos pases limtrofes tiveram uma repercusso imediata na regio do Oceano
ndico e, consequentemente, em algumas partes da frica do Leste.
    Sob o reino dos quatro primeiros califas (alkhulaf' alrashdn, "os califas
inspirados"), Ab Bakr, `Umar, `Uthmn e `Al12, os rabes muulmanos iniciaram
a sua expanso para o exterior da pennsula arbica. As cabilas rabes nmades,
desde ento unidas pelo cimento de uma f comum que lhes proibia prossegui-
rem com as suas lutas intestinas, conquistaram em alguns anos, sob a direo
de uma pliade de brilhantes generais de Meca, uma srie de vitrias frente aos
exrcitos de duas grandes potncias de ento, o Imprio Bizantino e a Prsia
dos sassnidas. Foram necessrios somente dois anos de campanha contra os
bizantinos na Sria para forar o imperador e as suas tropas, em 15/636, a evacu-
arem definitivamente estas provncias. A conquista da Prsia levou mais tempo;
todavia, aps alguns revezes iniciais, os rabes obtiveram xito, vitria aps
vitria. A batalha de Kdisiyya e a ocupao da capital, Ctsiphon, em 16/637,
abriram aos rabes todas as frteis plancies do Iraque, a Oeste do rio Tigre. A
partir das suas novas bases militares de Basra e Kfa, os exrcitos muulmanos
lanaram-se atravs dos planaltos do Ir em perseguio aos exrcitos persas em
retirada. Uma derradeira grande batalha, aquela de Nihwend, em 21/642, selou
o destino do Imprio Sassnida. Os muulmanos ocuparam ento outras partes
do Ir e rumaram para o Leste, com tamanha fora e to eficazmente que, em
29/650, elas haviam atingido os confins da ndia, o Norte do Iraque, a Armnia
e o Amu-Darja (Oxus).
    Uma vez conquistada a Sria, os exrcitos rabes se voltaram para o Egito
que oferecia um territrio ainda mais fcil de conquistar. Entre 18/639 e 21/642,
o conjunto do Baixo-Egito, com a sua capital Alexandria, caiu em mos das
foras de invaso e Bizncio perdeu ainda uma rica provncia. O Egito serviu
em seguida como base inicial para uma nova investida rabe rumo  frica do
Norte13.
    Uma das razes principais dos sucessos radiantes alcanados pelos muulma-
nos foi o estado de esgotamento financeiro e militar em que se encontravam os
dois imprios, aps longos e sucessivos conflitos. Alm disso, os bizantinos esta-
vam enfurecidos com os seus sujeitos coptas e semitas porque eles as exploravam

12   Ab BAKR, 11/632-13/634; `UMAR, 13/634-23/644; `UTHMN, 23/644-35/656; `AL, 35/656-40/661.
13 Consultar mais adiante os captulos 7, 8 e 9.
60                                                                              frica do sculo VII ao XI



com impostos e prosseguiam com as suas perseguies junto s igrejas "herticas"
monofisistas. A situao era sensivelmente idntica no Imprio Sassnida: as
provncias mais frteis do Iraque eram povoadas por cristos de lngua aramaica,
os quais se opunham  classe dirigente zorostrica. No imediato anterior ao
assalto dos rabes, o imprio fora rasgado por guerras de sucesso que haviam
enfraquecido a sua estrutura poltica e militar. Geralmente, na maioria dos pases
conquistados, os autctones no opuseram resistncia aos invasores rabes em
razo de no terem nada ou quase nada a perder com a mudana dos mestres;
em alguns casos, os muulmanos foram inclusive bem acolhidos.
    A guerra civil que eclodiu aps a morte de `Uthmn, entre partidrios de
`Al e de Mu'wiya, encerrada com a morte do primeiro e a chegada ao poder
da dinastia umayyade, em 41/661, em seguida a necessidade para esta ltima
de consolidar o poder, provocaram um freio na expanso territorial do Estado
rabe. Entretanto, a partir do reino de Mu'wiya, a extenso das fronteiras foi
retomada na frica do Norte, sob o comando de `Ukba ibn Nfi', e a Leste 
onde a provncia do Khursn (nordeste do Ir e Afeganisto) foi totalmente
conquistada e o rio Oxus atravessado  entre 43/663 e 54/674. Em duas ocasies
nesta poca, os exrcitos rabes chegaram aos muros da capital bizantina, sem
todavia lograr conquist-la. Uma terceira tentativa melhor preparada teve lugar
bem mais tarde, em 98/716-717; os rabes atacaram desta feita Constantinopla
pelo mar e por terra, ainda sem alcanar maior xito. Coube aos turcos otomanos
finalmente anexar este bastio da cristandade oriental ao mundo islmico, no
sculo IX/XV.
    Uma segunda onda de conquistas foi lanada em todos os fronts sob os cali-
fas `Abd al-Malik (65/685-86/705) e al-Wald I (86/705-96/715); no Oeste, o
Magreb inteiro foi dominado e a Espanha invadida; no Nordeste, a sia Central
(Transoxiana) foi conquistada e simultaneamente os exrcitos chegavam at o
Indus, logrando acrescentar ao califado a provncia do Sind. As campanhas da
Transcaucsia terminaram com a anexao da Gergia e da Armnia para a
rbita do Imprio rabe. Posteriormente, a marcha para o Oeste foi bloqueada
pelos francos e as tentativas de progresso ao Norte do Cucaso foram contidas
pelos turcos khazares; por muito tempo, os Pirineus e o Cucaso marcariam os
limites do Imprio14.



14   As tropas rabes derrotadas por Charles Martel, em Poitiers no ano 114/732, aparentemente no passa-
     vam de um destacamento que realizou uma incurso. No tocante s campanhas contra Khazars,  possvel
     questionar se elas visavam conquistar as estepes da Rssia meridional.
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                            61



    Assim sendo, uma centena de anos aps a morte do Profeta, o Estado rabe
j englobava um imenso territrio que se tornaria o principal domnio do
mundo islmico. Nesta poca, os rabes ali reinavam como mestres incontestes
e formavam, com exclusividade, a classe dirigente. A poltica dos umayyades
consistia em perpetuar este estado de fato, submetendo ao imposto todos os
no-muulmanos, ao passo que os rabes muulmanos eram isentos e inclusive
recebiam rendas alimentadas pelas receitas fiscais. A classe dirigente rabe no
era, portanto, favorvel  converso em massa das populaes dos territrios
conquistados e os novos muulmanos, os quais eram todos obrigados a unirem-
-se na qualidade de clientes (mawl, plural: mawl) a uma cabila rabe, per-
maneciam forados ao imposto, como no passado. Em contrapartida, os povos
conquistados, persas, coptas ou aramaicos (da Sria e do Iraque) tiveram acesso
em nmero crescente aos empregos da administrao pblica, de mais em mais
complexa. Os rabes, cuja simplicidade do mundo nmade em nada os havia
preparado para enfrentar tais desafios, eram incapazes de enfrentar os enormes
problemas de ordem administrativa resultantes do prosseguimento da expanso.
Portanto, eles voluntariamente adotaram os sistemas administrativos bizantino
e sassnida, j em funcionamento nas provncias e deixaram aos autctones
convertidos o cuidado de assegurar o seu funcionamento. As contradies cria-
das pelo fato de uma minoria usurpar todo o poder poltico e os privilgios
econmicos, enquanto a maioria, embora j muulmana, via-se recusar o acesso,
foram as causas principais da crise que se desdobrou na queda dos umayyades
e na ascenso de uma nova dinastia, os abssidas. A vitria destes ltimos foi
possvel graas ao apoio que eles receberam de todos os elementos descontentes,
em sua maioria muulmanos no-rabes, os quais reclamavam toda a parte que
lhe cabia em uma comunidade fundada no princpio da igualdade entre todos os
crdulos. A revoluo abssida imps um termo ao "reino rabe"  como  por
vezes chamado o perodo dos umayyades  e inaugurou o Imprio Islmico onde
as distines eram feitas com base em critrios religiosos e no de nacionalidade.
Os rabes perderam o estatuto privilegiado que lhes conferira a qualidade de
primeiros defensores do Isl, porm o rabe permaneceu a lngua do Estado, da
literatura e da cincia, largamente empregada por povos de origem no-rabe.
    Sob os umayyades, o centro do Imprio era a Sria e a sua capital, Damasco;
e embora as provncias orientais no fossem absolutamente negligenciadas, o
imprio estava naturalmente voltado sobretudo para o mundo mediterrneo,
para o Egito, a frica do Norte e a Espanha.
    A transferncia da capital da Sria para o Iraque, onde os abssidas fundaram
Bagd, em 144/762, no foi somente uma mudana geogrfica do centro de
62                                                               frica do sculo VII ao XI
Figura 2.4   A expanso do Estado Islmico. [Fonte: I. Hrbek.]
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                            63



gravidade do imprio, isso equivaleu igualmente a um ato simblico inaugu-
rando uma nova era. Em lugar de colocar nfase no arabismo, como haviam
feito os umayyades, os seus sucessores transformaram o isl em fundamento
do seu regime e a propagao do isl ortodoxo tornou-se uma das principais
tarefas do califado.
    No curso do primeiro sculo da dominao abssida, o territrio do cali-
fado continuou a expandir-se, embora em uma escala menos grandiosa que no
passado: as provncias caspianas foram anexadas e, em 212/827-828, a dinastia
vassala dos aglbidas empreendeu a conquista da Siclia. Em contrapartida, o
imprio dos abssidas estava inicialmente muito menos expandido que aquele
dos umayyades, em funo da Espanha muulmana dele no ter jamais feito
parte. Um descendente dos umayyades ali fundara, j em 138/756, uma dinastia
totalmente independente que reinou na Espanha durante dois sculos e meio.
Ao longo dos cinquenta primeiros anos do seu reino, os abssidas perderam o
controle de todas as provncias africanas a Oeste do Egito, em proveito ou dos
kharidjitas ou dos idrsidas; em 184/800, al-Aghlab, governador da Ifrkiya,
tornou-se praticamente independente e fundou uma nova dinastia15.
    As causas da progressiva desintegrao dos grandes imprios da Antiguidade
so bem conhecidas: a impossibilidade, com os meios de comunicao dispon-
veis  poca, de exercer centralizadamente um efetivo controle sobre um imprio
imenso, composto de pases com populaes heterogneas e situadas em nveis
distintos de evoluo econmica e cultural e, conseguintemente, a tendncia
das provncias a romperem com o poder central. No caso do califado abssida,
estas causas gerais viram os seus efeitos serem fortalecidos pela presena de
diversos movimentos dissidentes de seitas heterodoxas, muito amide associadas
a revoltas de carter social.
    Entretanto, at a segunda metade do sculo III/IX, uma sucesso de califas
notavelmente eficazes logrou governar mantendo o imprio sob estrito controle.
Porm, aps a revolta zandj16, o inevitvel processo de desagregao teve incio e
continuou acentuando-se com o surgimento de diversas dinastias locais, mais ou
menos efmeras no Ir, na sia Central, assim como na Arbia e na Sria. No
sculo IV/X, o prprio corao do Imprio Abssida, o Iraque, sucumbiu  frula
da dinastia xiita dos Buwayhidas, os quais transformaram os califas abssidas
em fantoches. No Oeste, os fatmidas fundaram um califado rival e comearam
a colocar em marcha projetos grandiosos de dominao sobre o conjunto do

15   Consultar mais adiante o captulo 10.
16   Conferir acima o captulo 1 e mais adiante o captulo 26.
64                                                           frica do sculo VII ao XI



mundo islmico. Eles no alcanaram pleno xito, conquanto tenham retirado
a Sria, o Egito e a Arbia do Imprio Abssida. E a partir do momento em
que o prncipe umayyade espanhol `Abd al-Rahmn III recebeu, em 317/929, o
ttulo califal de "Prncipe dos crdulos" (amr almu'minn), houve durante certo
tempo trs califas no Isl. Entretanto, em meados do sculo V/XI os turcos sel-
jcidas, os quais haviam aderido ao isl sunita, libertaram os abssidas do jugo
dos buwayhidas. Todavia isso certamente no ocorreu para restaurar o poder
poltico dos califas desta dinastia.
    Os turcos da sia Central gozavam de uma posio dominante nos pases
muulmanos do Oriente Mdio, desde o sculo III/IX; os exrcitos dos Estados
muulmanos eram principalmente compostos de cavaleiros turcos e os generais
turcos (amr) no tardariam a desempenhar o papel de entronizadores de reis.
Contudo, elemento novo que constituiu a invaso dos seljcidas foi justamente
o fato de um povo turco inteiro ter empreendido conquistar, pela sua prpria
conta, a maior parte da sia Ocidental. Tratou-se do incio da era do predo-
mnio turco na histria poltica e militar de vastas partes do mundo islmico.
Retomando o estandarte das mos dos rabes, os turcos propagaram o Isl em
vrias direes. Desde anteriormente, os predecessores dos seljcidas, os gha-
znvidos do Afeganisto, se haviam lanado na conquista militar da ndia, no
Leste do Indus; outras dinastias seguiram-lhes os passos, de tal modo que a
mais poderosa dentre elas, os Grandes Mongis chegados ao poder no sculo X/
XVI, podia em conformidade com o direito afirmar que a maior parte da ndia
pertencia ao Dr alislm.
    Os prprios seljcidas acrescentaram ao mundo islmico numerosos territ-
rios da sia Menor Central e Oriental, formando o grande bastio do Imprio
Cristo Bizantino que por tanto tampo representara um obstculo ao avano
muulmano. No curso dos sculos seguintes, o restante do Imprio cairia nas
mos de outras dinastias turcas. A nova ofensiva muulmana lanada pelos tur-
cos foi finalmente coroada pela tomada de Constantinopla, em 857/1453, pelo
sulto Mehmed II Ftih.
    No sculo VIII/XIV, o conjunto do mundo islmico, excetuando-se o Magreb
e a Espanha muulmana, caiu sob a frula de dinastias turcas ou turco-mongis
que insuflaram ao Isl um novo vigor. O grande historiador Ibn Khaldn via na
supremacia quase universal dos turcos em relao ao Isl uma prova da preocu-
pao que Deus tinha com o bem-estar dos muulmanos. Em uma poca na qual
o mundo muulmano atravessava uma crise que o enfraquecia, privando-o das
suas defesas, Deus, em Sua sabedoria, escolhera entre os turcos homens novos
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                           65



para tomar a dianteira, oferecendo seu sopro ao Isl agonizante e restaurando a
unidade dos muulmanos17.
    Do ponto de vista do pensamento religioso islmico, o perodo abssida
representou a poca da formao de diferentes ramos das cincias religiosas, par-
ticularmente da jurisprudncia (fikh) e da teologia especulativa (kalam). Distan-
tes de um desenvolvimento ordenado e harmnico, estas disciplinas adquiriram
forma durante tempestuosos debates no seio da prpria comunidade muulmana
e de controvrsias com adversrios externos, essencialmente os cristos e os
maniquestas (nomeados zindk).
    Uma posio capital na gnese do pensamento muulmano cabe  Mu'tazila.
Tal  o nome dado a uma antiga escola de pensadores religiosos muulmanos
cujos membros, sob a influncia da filosofia grega, tentaram colocar as fontes
da razo ao servio do Isl e, ao faz-lo, ensaiaram tomar estas armas dos seus
adversrios, voltando-as contra eles. Nos textos europeus, os mutazilitas so por
vezes qualificados como "livres-pensadores" ou "liberais", porm estes qualifica-
tivos so errneos. A Mu'tazila no era uma seita e contava entre os seus adeptos
tanto sunitas quanto xiitas, os quais se esforavam para apresentar os dogmas do
Isl como aceitveis no somente pela f, mas igualmente pela razo; eles bus-
cavam tambm apresentar as crenas religiosas sob uma forma sistemtica. Os
temas mais importantes dos quais tratavam os mutazilitas referiam-se  natureza
de Deus, quela do Coro e  relao do homem com Deus. Eles enfatizavam a
unidade e a unicidade de Deus, chegando a rejeitar os seus atributos concretos
e toda forma de antropomorfismo. No tocante ao Coro, eles sustentavam que
ele no era eterno, mas criado no tempo. O ltimo grande tema derivava do
dogma islmico da justia divina. Os mutazilitas julgavam difcil reconciliar a
doutrina da predestinao com a bondade divina; era-lhes intolervel pensar
que o homem pudesse ser punido por atos que Deus lhe houvesse ordenado de
cumprir. Deus est sempre obrigado a ordenar o bem e como Ele no deseja
o mal, Ele no o ordena:  o homem quem cria o mal. Durante algum tempo,
ao longo da primeira metade do sculo III/IX, a doutrina mutazilita adquiriu
o estatuto do Estado Abssida; os mutazilitas demonstraram ento uma feroz
intolerncia e pretenderam a todo custo fazer com que todos aceitassem as suas
prprias ideias. Entretanto, aps um curto perodo de supremacia onde a sua
escola foi predominante, chegou a sua vez de serem perseguidos e eliminados.
Malgrado a rejeio das suas doutrinas essenciais, a Mu'tazila no deixou de


17   Ibn KHALDN, 1867, vol. 5, p. 371.
66                                                           frica do sculo VII ao XI



desempenhar um papel capital no desenvolvimento da teologia sunita orto-
doxa. Obrigando a ortodoxia a repensar certas questes fundamentais, ela foi
diretamente responsvel pela formulao definitiva das crenas "daqueles que
so fiis  tradio do Profeta" (ahl alsunna), representadas pelos ensinamentos
das grandes figuras da teologia islmica como al-Ash'ar (falecido em 324/935)
e al-Bkilln (falecido em 403/1013).
    Estes telogos sunitas viviam e trabalhavam em uma poca na qual as
perspectivas do isl sunita e do califado abssida eram as piores. Os fatmidas
schismticos reinavam em mais da metade do mundo islmico e ameaavam o
restante, ideolgica e politicamente. O xiismo prosperava inclusive no seio do
Imprio Abssida onde os califas estavam sob a tutela dos Buwayhidas. Reis de
menor importncia e as suas linhagens governavam algumas partes da Arbia,
da Sria e do Norte do Ir.
    A chegada dos seldjuquidas fez mais que restaurar a unidade territorial do
Isl; ela foi acompanhada de um renascimento religioso da ortodoxia sunita.
 interessante observar que este renascimento da ortodoxia e da reao contra
as heterodoxias comearam a se manifestar quase simultaneamente no Leste,
com os seldjuquidas, e no Oeste, com os almorvidas; em ambos os casos, os
defensores da ortodoxia eram povos nmades dos confins do mundo islmico,
recm-convertidos. O zelo religioso e as proezas militares dos turcos e berberes
encontraram igualmente a sua expresso na retomada do combate nas fronteiras
com os cristos, na Anatlia e na Espanha.


     Concluso
    O final do sculo V/XI foi portanto marcado no mundo islmico por mudan-
as cheias de consequncias em vrios planos. Do ponto de vista poltico, ele
anunciava a definitiva preponderncia dos turcos nas regies orientais e dos
berberes no Ocidente. Os fatmidas, cuja potncia tivera o seu apogeu em mea-
dos do sculo, perderam ao seu final as suas provncias magrebinas (em benefcio
dos ziridas e dos rabes hill); eles igualmente perderam a Sria e a Palestina,
embora tenham conservado o poder no Egito e na regio do Mar Vermelho. A
ofensiva dos seldjuquidas contra os bizantinos na sia Menor desencadeou na
Europa Ocidental uma reao que tomou a forma da primeira cruzada. Con-
quanto as conquistas territoriais dos francos  como eram chamados os cruzados
nos pases muulmanos  no tenham seno limitado alcance, a implantao dos
cristos na Terra Santa, nas margens mediterrneas da sia, introduziu um novo
O advento do Isl e a ascenso do Imprio Muulmano                             67



fator poltico no Oriente Mdio. Foi necessrio ainda quase um sculo antes que
Jerusalm pudesse ser retomada pelos exrcitos muulmanos e mais um sculo
ainda antes que os ltimos vestgios dos Estados cristos fossem eliminados.
    Na Espanha muulmana, a ocupao de Toledo em 478/1085 e a subse-
quente ofensiva crist contra o mulk altaw'if muulmano ameaaram pela
primeira vez a existncia do Isl na pennsula ibrica. O perigo foi temporaria-
mente conjurado com a interveno dos almorvidas berberes. No Mediterrneo
central, os muulmanos perderam definitivamente a Siclia.
    No menos importantes foram as mudanas ocorridas na economia e no
comrcio. Com a chegada dos seldjuquidas, a instituio da ikt', tipo de sistema
de feudo militar, tornou-se o trao caracterstico da vida econmica e das estru-
turas sociopolticas em vastas propores do mundo muulmano. Quais forem
as diversas interpretaes dadas a esta instituio, ela serviu claramente de base
para a edificao de um sistema de produo correspondente em sua tipologia ao
feudalismo europeu. Embora no Magreb, como no Egito, este sistema somente
tenha se desenvolvido bem posteriormente, tornado-se universal e persistindo
at o sculo XII/XVIII.
    Os sculos IV/X e V/XI testemunharam igualmente os centros comerciais do
Oceano ndico deslocarem-se progressivamente em direo  zona de influncia
fatmida. O Egito foi o primeiro a se beneficiar com esta mudana e tornou-se
por muito tempo o principal centro do comrcio de trnsito entre o Mediter-
rneo e o Oceano ndico. Na mesma poca, as repblicas mercadoras italianas
monopolizavam a parte europeia do comrcio de trnsito e tornaram-se rapi-
damente mestres das vias martimas no Mediterrneo oriental, razo do quase
completo desaparecimento do trfego martimo muulmano.
    Ns j evocamos o triunfo da ortodoxia sunita no Isl, no sculo V/XI.
Embora o xiismo tenha perdido muito terreno, geogrfica e religiosamente
falando, ele manteve-se em numerosas regies do mundo islmico; todavia, com
o progressivo declnio dos fatmidas, a religio xiita foi privada dos seus podero-
sos apoios e foi obrigada a esperar muitos sculos antes que a dinastia safawida,
na Prsia, ajudasse-a a reencontrar o estatuto de religio de Estado.
    Duas medidas contriburam fortemente para a vitria do isl sunita nesta
poca. A primeira foi a criao das madrasa  estabelecimentos de ensino reli-
gioso superior para a formao dos `ulam'. Sem dvida, j existia certo nmero
de escolas do tipo madrasa no Oriente antes dos seldjuquidas, porm  geral-
mente aceito que foi sob esta dinastia que, por iniciativa do clebre vizir Nizm
al-Mulk (falecido em 485/1092), as madrasa, ao implantarem-se rapidamente
na quase totalidade dos pases muulmanos, impuseram-se universalmente como
68                                                           frica do sculo VII ao XI



estabelecimentos de ensino religioso. As madrasa foram fundadas para fazer con-
trapeso s instituies do mesmo gnero que existiam no Egito fatmida e para
fortalecer a eficcia da luta contra a difuso organizada da propaganda ismae-
liana; a madrasa foi apelidada, a justo ttulo, "bastio da ortodoxia". O segundo
fator decisivo foi o reconhecimento e a incorporao do sufismo ao isl oficial
e a multiplicao de confrarias sufis; os `ulam' afiliaram-se e estiveram desde
logo em condies de guiar, tanto os seus dirigentes quanto os seus membros
na via da ortodoxia, fora dos caminhos heterodoxos. O sufismo ortodoxo, tal
como praticado pelas tarka reconhecidas, enfatizava a perfeio moral, pregava
o esforo pessoal (a grande jihad), na qualidade de fundamentos indispensveis
dos valores sociais muulmanos e insistia particularmente nos atos de caridade
e abnegao.
Etapas do desenvolvimento do Isl e da sua difuso na frica              69



                                         CAPTULO 3


    Etapas do desenvolvimento do Isl e da
            sua difuso na frica
                              Mohammed El Fasi e Ivan Hrbek




    Introduo
    O isl,  imagem do budismo e do cristianismo,  uma religio com vocao
missionria porque seu fundador imps a todos os seus discpulos e portanto 
comunidade inteira o dever de propagar a verdade e converter os "infiis". Os
muulmanos designam este proselitismo pelo termo rabe da'wa que significa
literalmente "chamado, incitao, convite", neste caso a verdade da f islmica.
    A obrigao de convidar os no-muulmanos a aceitarem o isl  mencio-
nada em numerosas suratas do Coro: "Chame os homens pelo caminho do
teu Senhor atravs da sabedoria e de uma bela exortao; discuta com eles da
melhor maneira." (XVI, 126) ou ainda: "Diga queles aos quais o Livro tenha
sido oferecido e aos infiis: "Estais vs submetidos a Deus?" Caso eles estejam
submetidos a Deus, eles esto bem dirigidos; caso eles se desviem, tu ests
somente encarregado de transmitir a mensagem proftica." (III, 19). Poderamos
encontrar convites similares em muitas outras suratas do Coro.
    Durante a vida do profeta Maom, o isl tornara-se a religio dos rabes;
coube aos seus sucessores imediatos, os primeiros califas, a tarefa de expandir
a nova religio alm das fronteiras da pennsula rabe. Desde logo, os muul-
manos encontraram-se confrontados com uma situao totalmente nova para
eles. Com efeito, se majoritariamente os rabes, antes de se converterem ao isl,
70                                                            frica do sculo VII ao XI



eram adeptos da religio tradicional africana (em rabe mushikn, significando
politestas), os seus vizinhos mais prximos eram, por sua vez, cristos, judeus e
zorostricos, ou seja, do ponto de vista islmico, pessoas do Livro, ahl alKitb.
Esta expresso designa os povos aos quais a Escritura foi oferecida e aderiram
a um sistema religioso monotesta, em outros termos, a uma religio revelada,
mesmo se ela fosse considerada imperfeita. Pois que os muulmanos no so
de modo algum obrigados a converter estes povos ou extermin-los, haja vista
que o isl, pela sua ideologia, ope-se  converso pela fora. So a existncia
e a exemplaridade da verdade ltima encarnada na comunidade islmica que
devem converter os no-muulmanos. Certamente, durante o grande perodo de
conquista rabe, no houve nenhuma tentativa para converter atravs da fora
os povos do Livro.
    Geraes de pesquisadores provaram sem ambiguidades que a imagem do
guerreiro rabe exibindo a espada com uma mo e o Coro com a outra per-
tencia ao reino da fantasia; este clich permanece entretanto vivo nos escritos
populares consagrados ao Isl e justamente  esta imagem que vigora nos pases
no-muulmanos. Este erro de interpretao deve-se ao fato de acreditar-se
comumente que algumas guerras de conquista muulmana conduzidas contra
os territrios de adeptos de outras regies tenham igualmente visado converter
os seus habitantes1. A teoria poltica do Isl efetivamente exige que sejam os
muulmanos aqueles que exeram o poder, porm ela no impe que todos
os sujeitos de um Estado muulmano sejam convertidos  verdadeira f. A
tarefa das conquistas do primeiro sculo da hgira no era converter os no-
-muulmanos, mas aumentar a esfera de dominao do Isl (Dr alislm). Os
muulmanos estavam mais preocupados em submeter os no-muulmanos ao
Estado islmico  realizao ltima, aos seus olhos, de um plano divino para a
humanidade  que a convert-los no campo de batalha2. Desejvel do ponto de
vista religioso, a converso no o era necessariamente do ponto de vista poltico.
    Efetivamente, os povos do Livro gozavam de grande liberdade religiosa,
mediante a condio de pagarem a djizya, imposto de capitao do qual estavam
isentos os muulmanos. Este imposto servia para financiar as penses que os
guerreiros rabes muulmanos e as suas famlias (igualmente beneficirias de um
estatuto social privilegiado) recebiam do Tesouro Central do Estado (dwn).
Os povos conquistados dificilmente podiam ignorar as vantagens da adeso  f
do vencedor e, portanto, muito dentre eles se converteram ao isl.

1    T. W. ARNOLD, 1913, p. 5.
2    I. GOLDZIHER, 1925, p. 27.
Etapas do desenvolvimento do Isl e da sua difuso na frica                               71




Figura 3.1    As regies islamizadas aproximadamente no ano 500/1100. [Fonte: I. Hrbek.]
72                                                           frica do sculo VII ao XI



    Durante o califado dos umayyades, as converses multiplicaram-se a tal
ponto que as entradas de impostos diminuram de modo alarmante em nume-
rosas provncias; as autoridades dedicaram-se ento a desencorajar as novas con-
verses, decidindo que os nefitos continuariam a pagar o imposto de capitao
e a taxa fundiria, como anteriormente. Esta medida foi provisoriamente adiada
sob o reino do piedoso califa Omar II (99/717-101/720) ao qual se atribuem os
famosos dizeres "Deus enviou Maom para revelar aos homens a verdade e no
para coletar impostos3", porm posteriormente ela voltou a vigorar, retornando-
-se por via de regra a uma poltica de discriminao perante os muulmanos
recm-convertidos. Somente sob os abssidas os novos convertidos seriam ple-
namente integrados  comunidade islmica e os rabes deixariam de ser uma
classe dominante privilegiada.
    Foi preciso esperar os sculos I e II da hgira para que a maioria das popu-
laes do Oriente Mdio aderissem ao isl; um longo intervalo deveria ocorrer
entre a conquista militar desta regio e a converso dos seus habitantes. As
razes que estimulavam  converso eram muito numerosas: fascnio exercido
pela mensagem simples e direta do isl, desejo de escapar aos tributos e s taxas
ou ainda a vontade de identificao com a classe dominante e de participar
plenamente da nova cultura islmica.
    Todavia, certamente a conquista rabe provocou  no imediatamente, mas
a longo prazo  a islamizao da maioria das populaes do Oriente Mdio e
da frica do Norte. As estruturas polticas, religiosas e socioculturais do poder
estabelecido pelos rabes muulmanos encorajaram as converses  religio do
grupo poltico dominante, sem que fosse necessrio para isso recorrer  fora.




3    Ibn SA'D, 1904-1940, vol. 5, p. 283.
PARTE I                                                                    73




                                           PARTE I

          A islamizao da frica do Norte
                                      Mohammed El Fasi




    O Egito
    O Egito  ento provncia bizantina  foi a primeira regio da frica invadida
pelos rabes. A conquista foi rpida, pois as guarnies bizantinas eram pouco
numerosas e a populao copta no ops nenhuma resistncia, apresentando ao
contrrio uma boa acolhida queles que vinham libert-la do jugo bizantino1.
Com feito, alm da taxao muito pesada e de outras formas de explorao s
quais eles estavam submetidos, os coptas eram perseguidos pela igreja ortodoxa
oficial bizantina em razo do seu monofisismo. Estas perseguies agravaram-
-se, s vsperas da conquista rabe, com medidas repressivas dirigidas contra a
cultura e o clero coptas.
    Tem-se o direito de pensar que este enfrentamento entre as duas igrejas cris-
ts do Egito tenha facilitado, em certa medida, a rpida converso dos egpcios
ao isl. Os interminveis debates teolgicos sobre questes abstratas e metaf-
sicas devem ter parecido ininteligveis para a maioria dos fiis, incontestavel-
mente extenuados e ultrapassados por estas fteis discusses. Numerosos foram,
portanto, os coptas seduzidos pela mensagem, simples e clara, da nova religio
concernente ao Deus nico e ao seu profeta. Isso explica em parte a rpida


1   Consultar mais adiante o captulo 7.
74                                                                                frica do sculo VII ao XI



propagao do isl nos primrdios da ocupao rabe2. Consequentemente, foi
possvel que coptas fossem perseguidos por dirigentes intolerantes e, portanto,
obrigados a abjurar em grande nmero, porm esta foi a exceo e no a regra.
Paradoxalmente, foi sob os dirigentes fatmidas e ayyubidas  duas dinastias
consideradas campes do isl  que os sujeitos no-muulmanos conheceram
uma liberdade religiosa raramente atingida antes ou no futuro; esta tolerncia,
aproximando muulmanos e cristos, desdobrou-se na progressiva substituio
da lngua copta pelo rabe, como lngua veicular. No sculo VI/XII, somente os
membros mais instrudos do clero ainda conheciam a lngua copta, a tal ponto
que foi necessrio traduzir para o rabe os textos litrgicos tornados ininteli-
gveis para a maioria do baixo-clero e para a grande massa de fiis. Os coptas
detinham numerosos postos no aparelho de Estado, coletavam os impostos e
ocupavam funes financeiras e administrativas; eles no eram inclusive os ni-
cos e numerosos outros cristos, armnios ou judeus desempenhavam funes
similares3.
    A islamizao e arabizao do Egito foram igualmente favorecidas pela con-
tnua chegada de rabes bedunos da pennsula e do Crescente frtil, os quais
se estabeleceram como agricultores, misturando-se com a populao indgena
copta e com isso aumentando o nmero de muulmanos arabfonos. As con-
verses foram igualmente favorecidas, a partir do sculo V/XI, pela corrupo
e pela crescente degenerescncia do clero copta que ignorava completamente
as necessidades espirituais de suas ovelhas. No sculo VII/XIII, dioceses intei-
ras passaram ao isl por falta de padres, durante a interminvel querela entre
candidatos rivais ao patriarcado de Alexandria que interditava qualquer nova
ordenao4.
    A islamizao do Egito  portanto um processo assaz complexo no qual
intervieram numerosos fatores: converses religiosas sinceras, busca de vantagens
fiscais e sociais, temor de perseguies, decadncia da Igreja Copta, imigraes
muulmanas. Em todo caso, desde o perodo dos mamlk, o Egito se tornara
um pas predominantemente muulmano, onde judeus e coptas encontravam-se
em minoria.



2    Inclusive antes do final da conquista, os coptas converteram-se ao isl aos milhares e no houve sequer
     um ano, posteriormente, sem que fosse possvel assistir a converses em massa. Jean DE NIKIOU, 1883,
     p. 560; Severus IBN ALMUKAFFA', 1904, pp. 172-173.
3    Consultar G. WIET, 1932, p. 199; C. CAHEN, 1983, p. 87 e seguintes.
4    Esta decadncia  evocada em detalhes por J. M. WANSLEBEN, 1677, e por E. RENAUDOT, 1713.
A islamizao da frica do Norte                                                                    75



    O Magreb
    No momento do avano muulmano, a situao religiosa dos pases do
Magreb ocidental era muito mais complexa que aquela do Egito. Os habitantes
romanizados das cidades e das plancies litorneas estavam h muito tempo
convertidos ao cristianismo, ao passo que as populaes berberes do interior
praticavam, em sua maioria, a religio tradicional africana; alguns habitantes
das montanhas se haviam convertido ao judasmo. Sob o domnio romano e
bizantino, os berberes cristianizados j manifestavam tendncias cismticas:
donatistas e circuncelies, professando as mesmas teorias simples e igualitrias,
revoltaram-se em vrias ocasies contra as autoridades eclesisticas e recusaram-
-se a pagar o imposto, provando assim uma vontade de independncia e uma
averso  autoridade do Estado, posturas tpicas dos berberes5.
    A histria dos sobressaltos da conquista rabe e da resistncia selvagem dos
berberes  evocada em detalhes um pouco mais adiante neste volume; no h
necessidade de nos atermos aqui6. Contentaremo-nos em descrever neste cap-
tulo a islamizao do Magreb.
    As informaes que possumos acerca da difuso do isl nesta regio so
pouco abundantes; alm disso, os primrdios da islamizao foram deforma-
dos em ulteriores relatos rabes pela lenda de `Ukba, os quais fizeram deste
grande general um pacfico missionrio. No  menos verdadeiro que ao fundar
Kayrawn, em 50/670, `Ukba ibn Nfi' dotava o Isl no somente de uma base
militar, mas, igualmente, de um importante centro de expanso e difuso.
    Mesmo na Ifrkiya, atual Tunsia, parte integrante do califado desde o pri-
meiro sculo da hgira, onde a dominao rabe mostrar-se-ia mais duradoura
que no restante do Magreb, o processo de islamizao foi relativamente lento.
Em numerosas regies, essencialmente no Shil, as regies meridionais e a
zona do Mzb, os africanos cristos romanizados ainda formavam, dois sculos
aps a conquista, a maioria da populao. Em algumas regies muito isoladas
e, igualmente, em cidades como Cartago ou Tnis era possvel encontrar, no
curso dos sculos seguintes, pequenos enclaves cristos: no Mzb do sculo V/
XI, em Kafsa no sculo VI/XII e em algumas localidades nafzwa do sculo
VIII/XIV7. A comunidade crist da cidade de Tozeur manteve-se assim at o


5    Sobre a situao durante o perodo romano e bizantino, consultar UNESCO, Histria Geral da frica,
     vol. II, captulo 19.
6    Consultar mais adiante o captulo 9.
7    T. LEWICKI, 1951-1952, p. 424 e seguintes. Consultar igualmente A. MAHJOUBI, 1966.
76                                                                       frica do sculo VII ao XI




Figura 3.2 Um elemento em detalhe do minbar (em cedro esculpido) da mesquita de Kayrawn.
[Fonte:  Bernard Nantet, Paris.]
A islamizao da frica do Norte                                                77



sculo XII/XVIII8. No sculo V/XI, havia ainda 47 dioceses para o conjunto
do Magreb e em Tnis, era no seio de uma pequena comunidade de autctones
cristos, totalmente distinta daquela dos mercadores cristos estrangeiros, que
se recrutava a guarda pessoal dos sultes hafsidas no sculo IX/XV9. Porm, o
prprio fato de estes enclaves cristo terem suscitado, nos sculos seguintes, a
curiosidade dos observadores, isso demonstra que eles j no sculo V/IX eram
um fenmeno minoritrio no seio de uma maioria muulmana. Alguns docu-
mentos papais contemporneos deplorando a falta de padres igualmente ates-
tam o declnio do cristianismo na frica do Norte da poca10. A sobrevivncia
destas comunidades crists autctones infirmam portanto a tese da converso
forada; l como alhures, foram em geral as condies sociais que provocaram
uma progressiva modificao da adeso religiosa. As converses foram incontes-
tavelmente favorecidas pela atividade missionria militante do clero muulmano
e de pios personagens de Kayrawn, assim como de outros centros islmicos.
Como em outras regies, a islamizao das cidades foi mais rpida que a sua
homloga nos campos.
    No dispomos de informaes suficientes para indicar com preciso por
que e como as diferentes "tribos berberes"  embora elas fossem vrias dezenas
 converteram-se ao isl. Contudo, podemos discernir certas tendncias gerais
caractersticas das sucessivas etapas deste processo.
    A primeira etapa foi marcada pela submisso e pela converso de nume-
rosas "tribos berberes" que haviam oposto uma resistncia selvagem frente aos
exrcitos rabes. As converses alcanadas em tais circunstncias possuam um
carter puramente formal e provavelmente no concerniam seno aos chefes
e aos ancios dos diferentes cls que assim reconheciam a soberania dos ven-
cedores. Entretanto, logo que as foras rabes se retiravam ou eram expulsas
 cenrio frequente ao longo do sculo I da hgira  os berberes retornavam s
suas polticas tradicionais, considerando-se livres de qualquer fidelidade poltica
ou religiosa. Trata-se justamente do que justifica a famosa observao de Ibn
Khaldn, ao constatar que os berberes apostataram bem uma dzia de vezes
durante os primeiros setenta anos do seu contato com o isl 11. Em 84/703,
quando a ltima grande rebelio berbere animada por al-Khina estava no
limiar de ser esmagada, esta mulher intrpida enviou os seus filhos ao campo


8    H. R. IDRIS, 1962, vol. 2, p. 761.
9    Jean LON LAFRICAIN, 1956, vol. 2, p. 67.
10 T. W. ARNOLD, 1913, pp. 126-127.
11 Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. I, p. 21.
78                                                                     frica do sculo VII ao XI



muulmano, ordenando-lhes a converso ao isl e a fazer causa comum com os
rabes.  difcil saber se esta deciso foi-lhe inspirada pela convico que qual-
quer resistncia seria ento intil ou pelo desejo de conservar  sua linhagem a
direo dos berberes djarwa.
    Tendo compreendido que eles no lograriam assujeitar os berberes pela fora,
os rabes mudaram de ttica12: o famoso governador Ms ibn Nusayr dedicou-
-se a libertar alguns jovens prisioneiros de origem nobre, mediante a condio da
sua converso ao isl, para lhes confiar postos de responsabilidade no exrcito13.
Esta poltica no tardou a trazer frutos e numerosos guerreiros berberes entra-
ram nos exrcitos rabes, seguindo os seus chefes. Os rabes foram ajudados em
seus esforos de converso dos berberes pelo sucesso da expedio da Espanha
que atraiu para as suas fileiras, quase imediatamente, grande nmero de berberes
desejosos de participarem nesta conquista e receberem a sua parte do butim.
As foras muulmanas na Espanha eram, inclusive, em sua maioria compos-
tas por berberes francamente convertidos,  imagem de Trik, o seu primeiro
comandante-em-chefe. Assim sendo, muito pouco tempo aps o esmagamento
do seu ltimo grande movimento de resistncia aos rabes e ao isl, foram aos
milhares que os berberes juntaram-se s fileiras dos exrcitos dos seus inimigos
de ontem e abraaram a sua religio. Todavia, estas converses no afetaram
seno uma minoria da populao; vastas zonas dos atuais Arglia e Marrocos
permaneceram fora do controle dos rabes. Na realidade, foi necessrio muito
tempo antes que o isl penetrasse nas regies montanhosas.
    No entanto, podemos dizer que no curso dos trs ou quatro decnios do
sculo VIII da era crist, o isl progredira consideravelmente junto s popula-
es urbanas, rurais e inclusive nmades, das plancies e das regies costeiras.
Foi precisamente nesta poca que a postura caracterstica dos berberes visvis
dos rabes e do isl comeou a desenhar-se: embora eles estivessem dispostos
a aceitar a religio do isl e mesmo a cultura rabe, o que inclusive fizeram
maciamente, os berberes rejeitavam a dominao poltica de uma burocracia
estrangeira, representante de um soberano ausente, que humilhava os recm-
-convertidos e impunha-lhes pesadas taxas como se eles fossem infiis. A este
cenrio vinha acrescentar-se o sentimento de injustia demonstrado pelos guer-
reiros berberes do exrcito na Espanha, os quais viam-se receber as terras menos
frteis, embora tivessem participado ao menos tanto os rabes na conquista.


12   O governador Hassn IBN ALNU'MN teria exclamado: " impossvel subjugar a frica!"
13   Al-MAKKAR, 1840-1843, vol. 1, p. 65.
A islamizao da frica do Norte                                                                    79



    Todas as condies estavam, portanto, dadas para a prxima etapa: a luta dos
berberes contra o domnio estrangeiro encontraria a sua expresso ideolgica no
seio do contexto islmico. Em sinal de protesto contra a opresso a eles imposta
pelos rabes ortodoxos, as populaes berberes converteram-se, na realidade, ao
kharidjismo, a mais antiga seita poltico-religiosa do Isl.
    O ensinamento poltico e religioso dos kharidjitas era, a um s tempo, demo-
crtico, puritano e integrista, satisfazendo todos os pontos em relao aos quais
ele se opunha radicalmente  ortodoxia absolutista do califado. Os princpios
igualitrios dos kharidjitas expressam-se pelo modo de designao do imame
(o chefe da comunidade muulmana): para eles, tratava-se de um posto eletivo
e no hereditrio, acessvel a qualquer muulmano pio, desde que a sua moral
e as suas convices fossem irreprochveis, fosse ele rabe ou no, escravo ou
homem livre14.
    Aps vrias tentativas de rebelio contra os umayyades, os kharidjitas das
provncias orientais do califado  que no tardariam em se dividir em mltiplas
seitas rivais  foram alvo de uma selvagem represso. Alguns sobreviventes
imigraram para a frica do Norte para fugir das perseguies e ali pregarem
a sua doutrina. Eles encontraram um auditrio inteiramente devoto junto aos
berberes, dentre os quais muitos adotaram com entusiasmo este ensinamento
como arma ideolgica contra o domnio rabe. O princpio da igualdade de
todos os crdulos correspondia, a um s tempo, s estruturas sociais e aos ideais
dos berberes, mas, igualmente, s aspiraes daqueles entre eles que aceitavam
mal os pesados impostos e os maus tratos impostos pela burocracia rabe. Eles
tambm eram seduzidos por este aspecto do ensinamento kharidjita, segundo
o qual, como todos os muulmanos eram iguais, o luxo e a ostentao seriam
repreensveis; os verdadeiros crdulos devem viver sobriamente e modestamente,
praticando a caridade e respeitando as estritas regras da honestidade em sua vida
privada e profissional. Este aspecto puritano exerceu, sem dvida, uma profunda
influncia em meio s populaes de agricultores seminmades, de modo de vida
frugal, escandalizadas com o luxo e a imoralidade das classes dirigentes rabes.
Em nenhum lugar no mundo islmico o Kharidjismo encontrou terreno to




14   Esta doutrina ope-se, simultaneamente, quela dos xiitas, os quais estimam que somente possam
     tornar-se imames os descendentes da filha do Profeta, Ftima, e do seu esposo `Al, bem como quela
     dos sunitas, os quais pensam que somente os kurayshitas (membros da cabila de Maom) podem ocupar
     este posto.
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favorvel quanto junto aos berberes e Reinhard Dozy teve razo ao dizer: "O
calvinismo islmico finalmente encontrou a sua Esccia na frica do Norte15."
    Em suas duas principais formas  ibadismo e sufrismo  o kharidjismo
expandiu-se essencialmente em meio s populaes berberes das regies desr-
ticas, encontradas da Tripolitnia, ao Leste, at o Sul do Marrocos, a Oeste,
passando pelo Sul de Ifrkiya, influenciando especialmente os berberes da grande
famlia zanta16. Na metade do sculo II/VIII, os kharidjitas criaram duas teo-
cracias: o imamado de Thert, o qual recebia a fidelidade de todos os ibaditas
da Tripolitnia, ao Sul da Arglia, e o principado sufrita, de menor importncia,
de Sidjilmsa. Estes dois Estados escaparam ao controle do governo central
abssida e aquele dos governadores aglbidas semi-independentes de Ifrkiya,
at a sua destruio pelos fatmidas no sculo IV/X17.
    Evidentemente, a adoo macia da doutrina kharidjita pelos berberes
explica-se pela sua oposio social e nacional ao domnio dos rabes. Distante
de ser dirigido contra o isl, o sucesso do Kharidjismo testemunha, em contrrio,
da sua islamizao. Alm disso, o ativo proselitismo de numerosos mashyikh e
sbios ibaditas permitiria, na realidade, a numerosos berberes familiarizarem-se
com a doutrina e as regras do isl, favorecendo assim uma adeso em profundi-
dade e no apenas superficial  nova religio.
    A resistncia berbere tampouco era dirigida contra os rabes muulmanos
enquanto tais, porm, unicamente contra a classe dirigente. Rejeitando vigoro-
samente a violncia ou a arbitrariedade de um governo imposto do estrangeiro,
os berberes estavam perfeitamente dispostos a terem que livremente escolher
como chefes muulmanos no-berberes, como o persa Ibn Rustum, em Thert,
Idrs, descendente de `Ali, no Marrocos, ou o fatmida `Ubaydullh, junto aos
berberes kutma. A escolha destes homens devia ser sempre ditada pela sua
atividade  frente da oposio antigovernamental, assim como pelo seu prest-
gio como muulmanos. Isso demonstra, uma vez mais, que estas populaes j
estavam ganhas para o isl e que elas buscavam expressar a sua oposio em um
quadro islmico, quer fosse segundo o Kharidjismo com Ibn Rustum, segundo
a ortodoxia sunita, com Idrs, ou seguindo o xiismo, no caso de `Ubaydullh.
    Houve, igualmente, algumas tentativas de fundao de uma religio exclu-
sivamente berbere, oposta ao isl; a mais famosa e durvel dentre elas foi a dos
barghawta, frao dos masmda que povoava a plancie do litoral atlntico do

15   R. DOZY, 1874, vol. 1, p. 150; igualmente consultar A. BERNARD, 1932, p. 89.
16   T. LEWICKI, 1957, e tambm o subsequente captulo 13.
17 Consultar mais adiante o captulo 12.
A islamizao da frica do Norte                                                 81



Marrocos, entre Sale e Sf. O seu chefe, Slih ibn Tarf, proclamou-se profeta
em 127/744-745 e redigiu um Coro em lngua berbere, bem como um cdigo
de leis rituais e religiosas inspirado essencialmente nos costumes locais. Embora
a religio barghawta assim se situasse fora da rbita do isl, a sua inspirao
muulmana era manifesta e ela representava uma das mais originais tentativas
de "berberizao" da crena trazida ao Magreb pelo Oriente.
    Esta heresia teve muito sucesso em meio aos berberes do Marrocos. Slih se
proclamou chefe de um Estado independente do califado e os seus sucessores
continuaram a exercer o seu domnio sobre grande parte do litoral atlntico at
o sculo V/XI. Aps terem defendido com sucesso a sua religio e o seu Estado
contra todos os ataques externos, eles foram finalmente vencidos pelos almor-
vidas cujo fundador, `Abdallh ibn Ysn, pereceu combatendo estes herticos.
    Em outras regies do Norte marroquino, junto aos Awrba, Miknsa,
Ghomra e outros, o isl j progredira bastante no sculo II/VIII, porm apa-
rentemente, o ponto de ruptura traduzindo uma implantao mais duradoura
produziu-se nestas regies sob a dinastia idrsida, fundada por um descendente
de `Al18. Os berberes a haviam acolhido com entusiasmo, pois que a crena
popular na baraka (poder de benedio) hereditria dos descendentes do Profeta
j estava bem enraizada, tanto no Leste quanto no Oeste. Convidado a tomar a
frente da oposio antiabssida, Idrs aproveitou a oportunidade e, proclamando-
-se califa em 172/788, laou uma ofensiva para trazer para a rbita do isl os
berberes que ainda no estavam convertidos. Esta poltica seria mantida pelo
seu filho, Idrs II, com tamanho xito que ao longo do sculo seguinte, o Norte
do Marrocos estava amplamente islamizado, com exceo do reino hertico de
Barghawta. Convm sublinhar, a este propsito, que contrariamente  opinio
de certos eruditos19, a dinastia idrsida jamais pregou a doutrina xiita. A islami-
zao dos berberes sob os idrsidas foi igualmente favorecida pelo regular afluxo
de imigrantes rabes vindos de Andaluzia, movimento que desempenharia no
Oeste do Magreb o mesmo papel que Kayrawn no Leste.
    A islamizao do conjunto do Magreb estava, em substncia, concluda no
sculo IV/X; somente algumas regies e cidades dispersas ainda abrigavam
pequenas comunidades crists e judias e, nas regies montanhosas distantes,
algumas "tribos berberes" agarravam-se s suas antigas crenas, ao passo que a
Barghawta "hertica" permanecia indomvel. Entretanto, neste perodo as con-


18   Sobre os primrdios desta dinastia, consultar mais adiante o captulo 10.
19   Por exemplo, P. K. HITTI, 1956, pp. 450-451.
82                                                           frica do sculo VII ao XI



dies sociopolticas sofreriam numerosas mudanas que teriam uma profunda
influncia em relao  situao religiosa.
    Os fatmidas desempenharam, nesta evoluo, um papel to determinante
quanto paradoxal. Eliminando os Estados de Thert e de Sidjilmsa, assim como
controlando numerosas tentativas de sublevao kharidjitas, eles proferiram um
golpe mortal ao Kharidjismo berbere, no logrando, todavia e contudo, ganhar
para o xiismo os berberes, os quais se voltaram em massa para o sunismo, par-
ticularmente para a escola jurdico-religiosa malikita do madhhab.
    Os kharidjitas sobreviventes retiraram-se para regies isoladas (Mzb, Djabal
Nafsa etc.) ou abandonaram progressivamente a sua doutrina para se conver-
terem ao malikismo, j solidamente implantado em Kayrawn, em Ifrkiya e em
algumas regies do Marrocos. O kharidjismo inclusive perdera a sua razo de
ser, como expresso especfica da oposio berbere contra o domnio estrangeiro.
No mais havia dominao estrangeira no Magreb desde que os fatmidas, tendo
transferido o centro do seu imprio para o Egito, abandonaram o Magreb ao
governo dos zridas berberes, os quais no tardariam a se proclamarem inde-
pendentes e a fazerem sermo de obedincia ao califa sunita de Bagd. Pouco
tempo aps, a poro ocidental do Magreb cairia sob domnio dos almorvidas
berberes que eliminaram da regio os ltimos vestgios do kharidjismo, do
xiismo e da heresia barghawta, estabelecendo definitivamente o domnio da
escola malikita do isl sunita.
PARTE II                                                                 83




                                      PARTE II

A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara
                                       Ivan Hrbek




   Como a islamizao da frica do Norte foi o resultado da grande conquista
rabe, acredita-se frequentemente que a propagao desta religio na frica
tropical tenha acontecido segundo o mesmo esquema, ou seja, que populaes
locais, primeiramente conquistadas pelos rabes (ou berberes), foram em seguida
obrigadas a adotarem o isl. A conquista de Gana pelos almorvidas  muito
amide citada como o mais notvel exemplo deste tipo de islamizao, porm
trabalhos recentes mostraram que  como veremos mais adiante  esta interpre-
tao no est assentada em nenhuma prova concreta. O papel desempenhado
pela conquista dos invasores muulmanos vindos do exterior foi na realidade de
pouca importncia, salvo no Sudo Oriental, onde uma importante colonizao
rabe tivera uma importncia decisiva para a propagao do isl, porm, mesmo
neste caso, a converso das populaes locais interveio bem mais tardiamente. A
conquista das sociedades africanas por Estados locais islamizados foi um impor-
tante fator no Tchad e na Etipia Meridional, embora, fato paradoxal, a extenso
final do Imprio cristo amhara, no sculo XIX, tenha exercido uma ao bem
mais profunda e duradoura para a amplitude do isl que as operaes militares
dos sculos precedentes1. No resta dvida que o curso normal da propagao



1   I. M. LEWIS, 1974, pp. 108-109.
84                                                                    frica do sculo VII ao XI



do isl em diversas regies da frica ao Sul do Saara tomou um aspecto muito
diferente, como veremos a seguir.


     O Saara
    Fora possvel aos berberes do Saara Ocidental entrar em contato com o
isl por intermdio ou de guerreiros rabes, os quais haviam invadido o seu
pas a partir do Ss al-Aks, ou de mercadores muulmanos, cujas caravanas
vindas de Sidjilmsa e de outras cidades do Ss al-Aks haviam aparecido em
rotas comerciais do Saara ocidental imediatamente aps a conquista rabe do
Magreb. Estes contatos certamente provocaram a converso de alguns berberes
que serviam como guias e participavam das escoltas s caravanas. A influncia
da cultura muulmana junto s populaes locais provavelmente foi mais forte
e profunda nos raros armazns comerciais e nos centros polticos situados nas
regies onde os negociadores se haviam estabelecido a ttulo permanente.
    O relato da expedio de `Ukba ibn Nfi' ao Sul do Marrocos  o mais antigo
texto informativo do qual dispomos sobre os contatos entre rabes e berberes
saarianos. Em 63/682, `Ukba ibn Nfi' atacou os berberes ao Sul do Ss al-Aks
e retirou-se aps ter feito alguns prisioneiros2. Aparentemente, esta expedio
avanou at Wd Dar'a (Oued Dra). Embora muito embelezada posterior-
mente pela lenda de `Ukba, ela parece no ter sido mais que uma espcie de
reconhecimento anlogo quele que o mesmo general conduzira em 47/666-667
ao Sul de Trpoli, em direo a Fezzn e ao Kawr3 e  muito pouco provvel
que uma to breve incurso pudesse ter provocado a islamizao das populaes
locais.
    De um carter quase idntico foram as campanhas de Ms ibn Nusayr, o
governador umayyade de Ifrkiya que, entre 87/705-706 e 90/708-709, conquis-
tara, pacificara e, segundo relatos, convertera a maioria dos berberes marroqui-
nos. Ele penetrou igualmente no Ss al-Aks e inclusive chegou a Sidjilmsa
e  cidade de Dar'a, nos confins do territrio massfa4. Porm, a mesma fonte
sustenta que a conquista definitiva do Ss al-Aks e a converso dos seus habi-



2    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. I, p. 212; J. M. CUOQ, 1975, p. 330; N. LEVTZION e J. F. P.
     HPKINS (org.), 1981, p. 326.
3    Ibn `ABD ALHAKAM, 1947, pp. 63-65; J. M. CUOQ, 1975, pp. 45-46; N. LEVTZION e J. F. P.
     HOPKINS (org.), op. cit., p. 12.
4    AL-BALDHUR, 1866, p. 230.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                    85



tantes no teriam ocorrido seno mais tarde, nos anos 730, aps a expedio de
Habb ibn Ab `Ubayda5.
    O exrcito partiu novamente com muitos prisioneiros e muito ouro. Entre
os prisioneiros havia um nmero importante de massfa, fato que demonstra
que estes berberes recusavam o Isl.
    As expedies militares rabes do Saara Ocidental cessaram aps as gran-
des revoltas berberes dos anos 740, as quais se desdobraram na decadncia do
domnio rabe e na anarquia generalizada no Magreb.
    Aparentemente, os primeiros berberes saarianos cuja converso seja certa
tenham sido os lamtna, pois que Ibn Khaldn escreveu que eles haviam aceito o
isl pouco aps a conquista da Espanha pelos rabes, ou seja, na segunda dcada
do sculo II/VIII. Al-Zuhr (sculo VI/XII), por sua vez, menciona a converso
dos lamtna, massfa e djuddla sob o reino do califa umayyade Hishm ibn
`Abd al-Malik (106/724-125/743)6. A sua converso aparenta todavia no ter
sido seno um pequeno trao ao longo dos sculos seguintes: toda a histria
dos primrdios do movimento almorvida atesta de modo eloquente o carter
superficial da islamizao destes trs povos berberes.


    O Sudo Ocidental e Central
   O isl se propagara atravs do deserto at o Sudo Ocidental antes mesmo que
os prprios Magreb e Saara fossem totalmente convertidos. Segundo al-Zuhr,
os chefes da cidade comercial de Tdmekka, os berberes de Ban Tnmak,
foram islamizados sete anos aps a populao de Gana ter sido forada pelos
novos convertidos ganenses7.  muito provvel que, evidentemente, a converso
tenha consistido neste caso em impor o isl almorvida ortodoxo a um povo
que j professava a f kharidjita. Desde o sculo III/IX, comerciantes ibaditas
vindos da frica do Norte frequentavam Tdmekka; a cidade tornara-se um dos
maiores centros das suas atividades missionrias junto s populaes sudanesas.
Ab Yazd, o clebre chefe da revolta kharidjita antifatmida do sculo IV/X,
provavelmente nasceu em Tdmekka8.


5    AL-BALDHUR, 1866, p. 231-232; Ibn `Abd ALHAKAM, 1947, pp. 122-123; Ibn `IDHR,
     1948-1951, vol. 1, p. 51; J. M. CUOQ, 1975, p. 46
6    ALZUHR, 1968, p. 126, 181; J. M. CUOQ, 1975, p. 121; T. LEWICKI, 1970.
7    ALZUHR, 1968, pp. 181-182; T. LEWICKI, 1981, p. 443.
8    Ibn HAMMD, 1927, pp. 18, 33-34; consultar mais adiante o captulo 12.
86                                                                            frica do sculo VII ao XI



   Este estado de coisas nos conduz a examinar o papel que os kharidjitas, parti-
cularmente a seita ibadita, desempenharam na propagao do isl no Sudo. Os
recentes trabalhos de T. Lewicki sobre os ibaditas na frica do Norte, no Saara
e no Sudo lanaram nova luz sobre as atividades tanto comerciais quanto mis-
sionrias destes muulmanos puritanos. Atualmente, h certeza que os comer-
ciantes ibaditas haviam penetrado no Sudo bem antes dos sunitas ortodoxos e,
provavelmente, a ligao com o isl de alguns dos primeiros convertidos suda-
neses deveu-se unicamente ao proselitismo dos ibaditas. A maioria das fontes
rabes clssicas no faz meno destas atividades, haja vista a hostilidade dos
seus autores, muulmanos ortodoxos, frente aos herticos9; somente esporadica-
mente ou de modo indireto, faz-se meno  presena ibadita no Sudo10. Em
contrapartida, os escritos dos autores ibaditas da frica do Norte abundam em
detalhes sobre a rede comercial ibadita no Saara e no Sudo, aps o sculo II/
VIII. Muitas cidades sudanesas, tais como Gana, Gao, Awdghust, Tdmekka,
Ghiyr, Zfunu e Kgha, testemunham a presena de estabelecimentos de
mercadores ibaditas vindos de Thert, de Wargla, do Sul tunisiano e do Djabal
Nafsa. Os kharidjitas da seita africana sufrita reinaram sobre Sidjilmsa, um
dos principais pontos de chegada setentrionais do comrcio de caravanas at
p sculo IV/X; a dinastia ibadita dos Ban Khattb em Zawla (no Fezzn)
dominou a extremidade norte da grande rota comercial interligando a Lbia 
bacia do lago Tchad. A imagem que se extrai das recentes pesquisas mostra-nos a
amplitude destas relaes comerciais; embora elas no suscitem frequentemente
a existncia das atividades missionrias destes mercadores, podemos supor que
a sua presena, espalhada em sculos nos mais importantes centros sudaneses,
tenha exercido uma influncia religiosa junto s populaes locais. Os primeiros
convertidos foram evidentemente os seus parceiros sudaneses. Em contrapartida,
no encontramos nenhum trao dos dogmas da f ibadita na zona sudanesa. No
fora, aparentemente, seno na arquitetura religiosa, na qual podemos discernir
uma mais profunda influncia ibadita: as formas dos minaretes que ainda exis-
tem em muitas regies do Sudo tiveram origem no Sul tunisiano, ao passo que




9    Entre as numerosas vtimas da conquista almorvida da cidade de Awdghust, al-Bakr (1913, p. 24; J.
     M. CUOQ, 1975, pp. 91-92) no cita com tristeza seno a morte de um rabe de Kayrawn, ou seja
     muulmano sunita, e passa em silncio pelo massacre dos berberes zanta, em sua maioria ibaditas.
10 Ibn Battta (1969, p. 395) assinala a presena de um grupo de ibaditas brancos em Zaghari. Embora
   o Ta'rikh al-Sdn (1900, p. 61) apresente Sonni `Al de Songhay como kharidjita, aparentemente este
   termo toma aqui o sentido geral de hertico. Conferir T. HODGKIN, 1975, p. 118, nota 3.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                  87



os minbar (plpitos muulmanos) retangulares so cpias daqueles do Mzb,
principal centro ibadita a partir do sculo IV/X11.
    As primeiras influncias ibaditas no Saara Meridional e no Sudo Ocidental
desapareceram sob a presso dos almorvidas, os quais pregavam a ortodoxia
islmica e velavam para que os muulmanos sudaneses aderissem doravante ao
malikismo. Na mesma poca, ou seja no sculo V/XI, a invaso da frica do
Norte e dos confins setentrionais do Saara pelos nmades ban hila contribuiu
para o declnio da comunidades ibaditas e provocou a definitiva perda da sua
preponderncia comercial no comrcio das caravanas.
    Dois curiosos episdios poderiam ser concebidos como o eco da antiga influ-
ncia abadita na regio subsaariana. A lenda haussa de Daura reporta a histria
de um certo Abuyazidu (ou Bayadjidda), "filho do rei de Bagd" e legendrio
ancestral das dinastias haussa reinantes. Esta lenda de Abuyazidu aparenta ter
alguma ligao com Ab Yazd, o clebre chefe da revolta kharidjita antifat-
mida, morto em 335/947. Embora seja historicamente impossvel afirmar que
os dois personagens tenham sido uma s e mesma pessoa, temos entretanto o
direito de perceber nesta lenda uma longnqua manifestao da tradio ibadita
no Sudo, sobretudo por sabermos que o `Ab Yazd da histria nasceu em
Tdmekka (ou Gao) filho de me sudanesa12.
    Al-Dardjn (sculo VII/XIII), autor ibadita do Magreb, relata a histria
do seu bisav que, aproximadamente em 575/1179-1180, viajava para o Sudo
e ali converteu ao isl o rei do Mali, no distante de Gana. Esta anedota faz
relembrar o relato bem conhecido de al-Bakr sobre a converso ao isl do rei do
Mallal, provavelmente ocorrida antes que al-Bakr tenha redigido a sua obra, ou
seja, antes de 406/1068. O intervalo cronolgico mostra que estamos aqui em
presena de uma grande inverdade de al-Dardjn, que atribui ao seu ancestral
o sucesso de um missionrio annimo13. Porm isso no desmerece em nada o
interesse da anedota, prova das primeiras atividades missionrias dos ibaditas e
da sua perenidade ao longo dos sculos seguintes.
     difcil de avaliar a eficcia e a profundeza desta primeira onda de isla-
mizao. Levando em conta a situao do isl em uma poca mais recente,
podemos supor que, de modo geral, este primeiro isl continha numerosos


11   Consultar J. SCHACHT, 1954.
12   H. R. PALMER, 1928, vol. 3, pp. 3, 132 e seguintes; W. K. R. HALLAM, 1966, e a crtica de A.
     SMITH, 1970.
13 Consultar J. SCHACHT, 1954, pp. 21-25; T. LEWICKI, 1969, pp.72-73; J. M. CUOQ, 1975, pp.
   195-196; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 368-369.
88                                                                frica do sculo VII ao XI



elementos de diversas crenas pr-islmicas conhecidas no Magreb desde o
final da poca romana (judasmo, cristianismo), assim como reminiscncias das
religies berberes e africanas. No causa espanto que os resqucios da religio
tradicional africana e o carter "hbrido" deste primeiro isl no Saara e no Sudo
tenham tomado de horror os reformadores ortodoxos intransigentes (sobretudo
malikitas) do tipo Ibn Ysn. Foram necessrios vrios sculos para que o isl
autntico, pregado por uma longa linhagem de reformadores e animadores,
tivesse algum sucesso.
    Aos ibaditas coube, incontestavelmente, o mrito de terem sido os primeiros
a iniciarem os povos sudaneses ao isl; conquanto seja impossvel apreciar o
seu sucesso no plano numrico  aparentemente assaz fraco  foram eles que
lanaram as bases sobre as quais os propagadores da f islmica construiriam
posteriormente estruturas mais slidas.
    A associao do isl e do comrcio na frica subsaariana  um fato bem
conhecido. Os grupos mais ativos no plano comercial, tais como os dioula, os
haussa e os dyakhanke, estiveram entre os primeiros a se converterem quando os
seus pases entraram em contato com os muulmanos e esta converso explica-se
por fatores sociais e econmicos. Religio nascida no seio da sociedade comercial
da Meca e pregada por um profeta que fora ele prprio durante muito tempo um
comerciante, o isl apresentava (e apresenta) um conjunto de preceitos morais
e prticos estreitamente ligados s atividades comerciais. Este cdigo moral
ajudava a sancionar e controlar as relaes comerciais e oferecia, aos membros
dos diferentes grupos tnicos, uma ideologia unificadora que atuava em favor
da segurana e do crdito, duas das condies essenciais para a existncia de
ralaes comerciais entre parceiros comerciais distantes entre si. Como to bem
disse A. G. Hopkins:
     O isl contribua para manter a identidade dos membros de uma rede ou de uma
     empresa disseminados em longas distncias e localizados muito amide em pas
     estrangeiro; ele permitia aos comerciantes de se reconhecerem e acelerarem as suas
     transaes e previa sanes morais e rituais, obrigando o respeito de um cdigo de
     conduta que tornava possveis a confiana e o crdito14.
   Os muulmanos desta primeira poca tendiam a constituir pequenas comu-
nidades dispersas ao longo das grandes rotas comerciais que cortavam todo o
Sahel e o Sudo. Em certas capitais como Gana ou Gao, mercadores e muul-
manos (termos muito frequentemente sinnimos) viviam em bairros separados

14   A. G. HOPKINS, 1973, p. 64.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                           89



e gozavam muito amide de certa autonomia poltica e judiciria. Esta situao
perpetuou-se at uma poca muito recente, no somente nos centros comerciais,
mas, igualmente, em muitos vilarejos onde os muulmanos preferiam manter-
-se  margem da maioria "pag", sob a jurisdio dos seus prprios xeques kd.
    Em seus bairros, eles construram mesquitas e no tardaram a se distinguir
dos outros habitantes em virtude de certos hbitos e costumes associados 
prtica da sua religio, como as cinco preces cotidianas, as suas vestimentas e,
junto a certos muulmanos devotos, a rejeio absoluta do lcool.
    Assim, o isl aparecia primeiramente no como uma fronteira motora de
converso das massas em uma zona contnua, mas, antes, como uma srie de
enclaves urbanos nos centros de comrcio e poder poltico, ao passo que as
populaes rurais eram pouco atingidas15. Estes estabelecimentos, ao longo das
rotas comerciais e nos grandes centros urbanos, constituiriam as bases para a
propagao futura do isl.
    Todos os comerciantes muulmanos certamente no tinham o tempo ou o
desejo de fazer proselitismo junto s populaes locais. Porm, em seu encalo
e com o crescimento das comunidades muulmanas em numerosas regies do
Sudo, chegavam clrigos para quem as atividades religiosas importavam geral-
mente mais que as atividades comerciais. Eles comearam exercendo, no seio
das comunidades estabelecidas, diversas funes clericais s quais se acrescen-
taram posteriormente prticas de cura, de adivinhao, a fabricao e a venda
de talisms e amuletos. Foi assim que eles ganharam prestgio e respeito em
meio aos no-muulmanos, cujas crenas religiosas no eram exclusivas e os
quais buscavam frequentemente a ajuda destes clrigos em suas atividades de
manipulao do sobrenatural. Este aspecto das suas atividades, orientado para
a magia e a superstio, constitua aos olhos dos no-muulmanos dos pases
do Sudo o atrativo maior do isl. A interpretao dos sonhos, a cura pela f, a
adivinhao do porvir, a crena no poder da orao  notadamente no tocante
 chuva  era para eles de um interesse muito grande16.
    Desde a sua chegada  frica Ocidental, o isl teve que lutar contra costumes
e prticas no-muulmanas. Para a maioria dos convertidos, a adeso a esta nova
religio jamais significou o total abandono de todas as prticas no-islmicas
associadas  sua religio tradicional. De fato e inicialmente, muitos aceitaram o


15   P. D. CURTIN, 1975, p. 48.
16   H. J. FISHER, 1977, p. 316. Porm, importava menos a certos religiosos expandir o isl junto aos no-
     -convertidos do que pretender ter o monoplio de alguns poderes esotricos em proveito do seu prprio
     grupo. Consultar Y. PERSON, 1968-1975, vol. 1, p. 133.
90                                                                             frica do sculo VII ao XI



isl porque os primeiros chefes muulmanos interpretavam de modo liberal o
que constitui a proferio do isl, mostrando-se portanto muito tolerantes em
face de certas prticas no-islmicas.
    O segundo grupo social, aps os comerciantes, a se converter ao isl foi
aquele dos chefes e dos cortesos. Enquanto a adeso desta confisso pelos
comerciantes sudaneses, graas aos contatos com os seus homlogos da frica
do Norte, fez-se progressiva e discretamente durante os anos, sem despertar a
curiosidade dos autores muulmanos aos quais nos referimos, a converso de
um chefe, em contrapartida, sempre atraiu a sua ateno e no deixou de ser
assinalada como uma vitria do isl. Por conseguinte, estamos muito mais bem
informados sobre a islamizao das famlias reais e das suas cortes; alm disso,
as datas indicadas permitem-nos situar o processo em um quadro cronolgico
relativamente seguro.
    Estima-se em geral que o primeiro chefe do Sudo Ocidental a se conver-
ter ao isl tenha sido Wr Dyb do Takrr, da regio do Baixo Senegal. Ele
o fez antes mesmo da ascenso dos almorvidas, nos anos 420/1030. Segundo
al-Bakr, ele dedicou-se a propagar a nova religio no pas vizinho de Sill17 e
o seu filho Lab juntou-se em 448/1056 a Yahy ibn `Umar para combater os
Djuddla rebeldes. Embora seja dado hoje s populaes de expresso fulbe na
regio do Baixo Senegal o nome de toucouleur (nome que elas prprias no
utilizam), uma deformao de Takrr, no  certa a sua presena neste pas desde
o sculo V/XI.  mais provvel que o antigo Takrr (ou Tekrr) fosse povoado
pelos soninqus18. Nos sculos seguintes, o nome de Takrr acabou finalmente
designando em geral, na frica do Norte e no Egito, todos os muulmanos
do Sudo Ocidental e Central. Ignora-se ainda se este emprego deve-se ao
Takrr ter sido o primeiro pas islamizado da frica Ocidental ou ao fato de,
no sculo VIII/XIV, as populaes do Takrr, as quais j falavam o fulbe nesta
poca, terem comeado a dar origem a uma classe de religiosos muulmanos (os
torodbe) que desempenharia um papel primordial na islamizao do conjunto
do Sudo Ocidental19.
    Em uma poca ainda mais remota, antes da era dos almorvidas, aconteceu
em Gao (Kw-Ka), aproximadamente em 400/1009-1010, a converso ao isl



17   Al-BAKR, 1913, p. 172; J. M. CUOQ, 1975, p. 96; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 77.
18   Wr Dyb  um nome prprio soninqu; consultar C. MONTEIL, 1929, p. 8. A imigrao de popu-
     laes de lngua fulbe no pas do Baixo Senegal no comearia seno mais tardiamente.
19 Conferir U. ALNAQAR, 1969.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                       91



de um chefe local, aquela do dcimo quinto chefe dy (z) Kosoy20. Al-Bakr
no relata as circunstncias desta converso, mas indica que, quando um novo
chefe era instalado em Gao, se lhe dava uma espada, um escudo e um exemplar
do Coro, os quais eram oferecidos por um califa, como insgnias do poder. Ele
acrescenta que o rei professava a religio islmica, jamais conferindo o poder
supremo a outro que no fosse muulmano21.
    Mas o cerimonial de corte em Gao descreve-nos que este Al-Bakr era
manifestamente de essncia no-muulmana. Este sistema, no qual o isl era a
religio real oficial, ao passo que a massa da populao era no-muulmana e
onde o cerimonial de corte conservava um carter sobretudo tradicional, sub-
sistiu por muito tempo em numerosos Estados sudaneses, em testemunho do
equilbrio muito sutil que no deixou de existir entre o isl e a estrutura religiosa
autctone.
    A este mesmo perodo, igualmente remonta a converso, j evocada, do rei
Mallal, uma das mais antigas chefarias do Malinqu. Segundo al-Bakr, este rei
foi ganho para o isl por um residente muulmano cujas preces teriam trazido
ao pas chuvas h muito esperadas. A famlia real e a corte tornaram-se muul-
manos convictos; entretanto, o restante da populao permaneceu fiel  religio
tradicional22. Este rei proclamou publicamente a sua fidelidade  nova religio
e recebeu o nome de alMuslimni; o rei de Alkan, em contrapartida, devera
dissimular a sua f islmica perante os sujeitos.
    O primeiro estabelecimento do isl no Sudo central data do sculo V/XI,
com a converso do mai de Knem23. No mahram (outorga de privilgio) de
Hummay Djilmi (aproximadamente em 472/1080/490/1097), lemos que
     o primeiro pas do Sudo onde penetrou o isl foi o pas de Bornu. Esta penetrao
     realizou-se por intermdio de Muhammad ibn Mn, quem vivera cinco anos em
     Bornu, no tempo do rei Bulu [...] e catorze anos no tempo do rei Umme (Hum-
     may). Ento, ele ligou Bornu ao isl pela graa do rei Umme [...]. Mai Umme e
     Muhammad ibn Mn propagaram o isl no exterior para que ele durasse at o dia
     do Julgamento Final24.




20   Ta'rikh ALSDN, 1900, p. 5.
21   Al-BAKR, 1913, p. 183; J. M. CUOQ, 1975, pp. 108-109.
22   Consultar nota 35.
23   Conferir D. LANGE, 1978.
24   H. R. PALMER, 1928, vol. 3, p. 3; igualmente reimpresso em H. R. PALMER, 1936, p. 14 e seguintes.
92                                                                           frica do sculo VII ao XI



       interessante notar que, j sob o reino de alguns dos predecessores de
Hummay (desde o incio do sculo V/XI), viviam na corte religiosos muulma-
nos que iniciavam os prprios chefes nos preceitos islmicos e estudavam com
eles passagens do Coro, porm nenhum dos mai professava publicamente o
isl. Eis a razo pela qual Al-Bakr, escrevendo uma gerao antes de Hummay,
considera ainda Knem como um reino de "negros idlatras", embora expos-
tos s influncias muulmanas, como atesta a presena de alguns refugiados
umayyades que "conservam ainda a sua maneira de se vestir e os seus costumes
rabes"25. O filho e sucessor de Hummay, Dnama (490/1097-545/1150), fez
duas peregrinaes  Meca, morrendo afogado durante a segunda26.
    A primeira penetrao do isl no Sudo Central e Ocidental aparenta real-
mente ter acontecido no sculo V/XI: do Baixo Senegal s margens do lago
Tchad, ele foi propagado por vrios soberanos e chefes, adquirindo assim um
reconhecimento oficial, no quadro das sociedades africanas. Este sculo igual-
mente acompanhou a converso do mais clebre, tanto quanto do mais poderoso,
dentre os Estados sudaneses, Gana.
    Durante muito tempo acreditou-se que a islamizao de Gana ocorrera
devido  conquista almorvida, em 469/1076. Os recentes trabalhos de autores
tais como D. C. Conrad, H. J. Fisher, L. O. Sanneh e M. Hiskett27, colocaram
seriamente em dvida esta hiptese e temos cada vez mais tendncia a estimar
que esta conquista jamais ocorrera e que as duas potncias tenham sempre
mantido relaes amigveis. Uma fonte autorizada pde escrever recentemente:
"Aparenta ser mais verossmil que os soninqus de Gana tenham mantido boas
relaes com os almorvidas do deserto, que eles se tenham tornado seus alia-
dos e no seus inimigos e que tenha sido por meios pacficos que estes ltimos
os persuadiram a adotarem o isl sunita como religio do imprio de Gana28."
Segundo diversas fontes rabes, notadamente al-Bakr, a capital contava, durante
o perodo pr-almorvida, com uma importante comunidade muulmana, com-
preendendo no somente mercadores, mas, igualmente, cortesos e ministros.
Os dirigentes de Gana estavam, portanto, h muito tempo expostos  influncia
islmica;  igualmente provvel que o isl tenha antes surgido em Gana sob a
forma kharidjita.  possvel por conseguinte que a "converso" da populao
de Gana ao isl pelos lamtna, em 469/1075 (durante a conquista almorvida


25   Al-BAKR, 1913, p. 11; J. M. CUOQ, 1975, p. 82. Consultar mais adiante o captulo 15.
26   Dwn dos sultes do Knem-Bornu; H. R. PALMER, 1936, pp. 85-86.
27   D. C. CONRAD e H. J. FISHER, 1982, 1983; L. o. SANNEH, 1976; M. HISKETT, 1984.
28 M. HISKETT, 1984, p. 23.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                           93



evocada por al-Zuhr)29, tenha simplesmente consistido em impor o isl mali-
kita ortodoxo a uma comunidade ibadita, como fora o caso para os habitantes
de Awdghust. O maior sucesso da interveno almorvida foi sem dvida ter
obtido a converso do soberano e da sua corte30.
    Igualmente deixou-se de se atribuir  conquista almorvida, acompanhada
de uma islamizao forada, o xodo macio das populaes soninqus hostis
ao isl, as quais teriam preferido abandonar os seus lares ancestrais em lugar
de perder as suas crenas religiosas tradicionais31. Certamente houve imigrao,
porm, como no houve nem conquista nem islamizao pela fora, as causas
devem ser buscadas alhures.
    Seria evidentemente um erro ignorar a profunda influncia dos almorvidas,
assim como as mudanas que a sua interveno provocou no Sudo. Mas estas
mudanas foram de uma ordem totalmente diferente daquelas que supem os
defensores da imigrao. Os soninqus de Gana efetivamente dispersaram-se,
entretanto, isso foi a consequncia de um processo iniciado anos antes; os mer-
cadores soninqus islamizados (os wankra  ou Wangara  de origens rabes)
constituram pouco a pouco uma rede comercial no Sahel e ao Sul deste ltimo,
at a margem da floresta tropical. Distantes de serem hostis  religio islmica,
eles contriburam amplamente, ao contrrio, para propag-la nas regies no-
-muulmanas do Sudo, onde nem rabes nem berberes jamais penetraram. Os
soninqus que imigraram de Dy (Dia), s margens do Nger, at o novo centro
de Dyakhaba, junto ao Bafing, tomaram mais tarde o nome de dyakhanke. Eles
adotaram a lngua malinke e fundaram uma comunidade muito unida condu-
zindo conjuntamente atividades religiosas e comerciais32. Outros comerciantes
de origem soninqu, porm frequentemente de lngua malinke, criaram novas
redes comerciais: os dilas principalmente no Sul, os marka na curva do Nger e
os yarse nos Estados voltaicos. A sua histria e o papel que eles desempenharam
na propagao do isl pertencem, essencialmente, aos sculos ulteriores, entre-
tanto, foi neste perodo imediatamente posterior  interveno almorvida em
Gana que este processo teve incio.




29   Al-ZUHR, 1968, p. 180 e seguintes; J. M. CUOQ, 1975, p. 119.
30   M. HISKETT, 1984, p. 26
31   Esta opinio est na base da teoria segundo a qual os ancestrais dos povos akan da atual Repblica de
     Gana (sendo supostamente "akan" uma deformao de "Gana") teriam vindo do antigo Gana aps a
     conquista almorvida.
32   Sobre os Dyakhanke, consultar L. O. SANNEH, 1979; P. D. CURTIN, 1971.
94                                                             frica do sculo VII ao XI



    Sem dvida, aps o intermdio almorvida, as atividades islmicas no Sul do
Saara foram mais intensas. Atribui-se por vezes a islamizao do mai Hummay
de Knem  influncia almorvida, porm isso parece improvvel. Outros sobe-
ranos sudaneses, como vimos, se haviam convertido ao isl antes da ascenso
dos almorvidas. Aparentemente, ao longo do sculo V/XI, a dinmica de um
desenvolvimento anterior em numerosos Estados sudaneses entrou em uma fase
na qual a ligao com o isl oferecia certas vantagens s classes dirigentes e a
um grupo cada vez maior de comerciantes locais. Estas vantagens definiram-
-se ainda mais nos sculos seguintes, ao longo do perodo que acompanhou a
ascenso dos grandes imprios sudaneses: aquele do Mali e dos songhay.
    As razes de Estado que estiveram na origem da relativa islamizao dos
imprios no-muulmanos eram tanto internas quanto externas. As motiva-
es externas eram de ordem comercial, pois que a funo destes imprios do
ponto de vista econmico era controlar e explorar o comrcio do Sudo com
a frica do Norte. Era do interesse da classe dirigente apresentar, atravs da
organizao da sua corte e dos seus peregrinos, uma imagem islamizada que lhe
permitisse estabelecer e reforar boas relaes com o seus clientes e parceiros
norte-africanos33. No plano interno, um dos grandes problemas dos soberanos
era assegurar a fidelidade das etnias e cls politestas que eles haviam dominado
e cujos cultos ancestrais e agrrios diferiam radicalmente daqueles das dinastias
reinante. A adoo da religio islmica, religio de carter universal, surgiu como
uma soluo possvel: portanto, eles se esforaram para implant-la, ao menos,
junto aos chefes de outras linhagens e cls objetivando fazer nascer entre eles
um novo lao religioso. A extenso dos seus imprios tornava complicada uma
administrao eficaz do seu territrio e a ajuda dos escribas muulmanos e de
outras pessoas instrudas era-lhes indispensvel para o funcionamento do correio
e dos assuntos do Estado. Os religiosos muulmanos devem ter exercido grande
influncia nas cortes reais, abrindo assim a via para a posterior converso do
soberano e da sua famlia.
    Isso no significa que os reis tenham sido muulmanos particularmente sin-
ceros ou pios. Eles tinham de levar em conta os costumes locais e crenas tradi-
cionais da maioria dos seus sujeitos no-muulmanos, os quais neles enxergavam
uma encarnao ou um intermedirio de poderes sobrenaturais. Nenhum dos
chefes possua o poder poltico para impor o isl ou a lei islmica sem correr o
risco de abalar a lealdade dos no-muulmanos. Compreende-se assim melhor a


33   C. COQUERYVIDROVITCH, 1969, especialmente p. 73.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                  95




Figura 3.3    Um As regies islamizadas aproximadamente no ano 900/1500. [Fonte: I. Hrbek.]
96                                                                         frica do sculo VII ao XI



persistncia das cerimnias e ritos politestas na corte dos reis muulmanos, tais
como os mansa do Mali ou os askiya do reino dos songhai, homens que haviam
feito a peregrinao e passavam aos olhos de todos como pios muulmanos.
    Quanto ao imprio do Mali, a converso dos seus soberanos ao isl teve lugar
ao final do sculo VII/XIII, sob os descendentes de Sunjata. Ibn Battta e Ibn
Khaldn afirmam que este heri fundador do imprio convertera-se ao isl34,
no entanto, a tradio oral malinke insiste com fora no seu carter de mgico
"pago" e nega a sua converso. Todavia, o seu filho e sucessor, Mansa Uli, fez a
peregrinao durante o reino do sulto mamlk Baybars (658/1260-676/1277).
    Sob o seu reino, o Mali estendeu-se no Sahel e assegurou o controle das
cidades comerciais de Walta, Tombouctu e Gao, entrando assim em contato
mais direto com os povos islamizados, comparativamente ao ocorrido ao longo
dos sculos precedentes35. Foi aps esta poca que a peregrinao real tornou-se
uma tradio permanente junto aos mansa. O imprio tomou a forma islmica
no sculo VIII/XIV sob Mansa Ms (aproximadamente 712/1312-738/1337)
e sob o seu irmo Mansa Sulayman (aproximadamente 738/1337-761/1360),
os quais encorajaram a construo da mesquita e o desenvolvimento do saber
islmico. Uma testemunha ocular, Ibn Battta, menciona o zelo com o qual os
muulmanos malineses se dedicavam a aprender a decorar o Coro e a assisti-
rem s preces pblicas. Pela leitura do seu relato depreende-se a impresso geral
segundo a qual o Mali de meados do sculo VII/XIV era um pas no qual o isl
j fincara razes e cujos habitantes observavam os principais preceitos islmicos.
Ele no faz meno a nenhuma prtica religiosa "pag" e, excetuando-se a nudez
das mulheres, no observa nada que fosse proibido pela lei islmica36.
    A segurana generalizada que reinava durante a maior parte da poca do
Imprio malins favoreceu a expanso do comrcio no Sudo Ocidental. Os
comerciantes muulmanos exploravam vrias redes comerciais que se estendiam
sobre todo o territrio do imprio e aventuravam-se inclusive alm das suas
fronteiras. As converses de malinkes multiplicaram-se, assim como as de outros
grupos tnicos, como os fulbes do vale do Senegal e do Massina. O surgimento
e o crescimento de um clero concentraram-se nos principais centros polticos
e comerciais, em Niani e Gao, porm, sobretudo em Jenn e Tombouctu. No


34   Ibn BATTTA, 1969, vol. IV, p. 420; Ibn KHALDN, 1925-1956, vol. II, p. 110; J. M. CUOQ, 1975,
     pp. 310, 344.
35   Conferir J. L. TRIAUD, 1968.
36   Ibn BATTTA, 1969, pp. 423-442; ele encontrou uma nudez anloga nas ilhas Maldivas, sem colocar
     em questo a sinceridade da f islmica dos seus habitantes.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                    97



h dvida alguma que, ao menos at o sculo IX/XV, a maioria dos eruditos
muulmanos de Tombouctu era de origem sudanesa; muitos haviam estudado
em Fez e a sua cincia islmica e fervor religioso eram tamanhos que suscitavam
a admirao dos visitantes estrangeiros37. Em Tombouctu, os principais postos
(kd, imame e khatb) eram todos ocupados por negros muulmanos vindos do
interior do Imprio Malins. Uma situao anloga reinava em Jenn e Dyagha
(Dy), das quais Ibn Battta exaltava os habitantes "verdadeiros muulmanos,
distinguindo-se pela sua piedade e a busca pelo saber38". O nascimento de uma
classe de sbios e clrigos muulmanos eruditos de origem sudanesa foi um
acontecimento importante da histria do isl na frica subsaariana. Ele signifi-
cou, com efeito, que o isl seria desde ento propagado por autctones, conhece-
dores das lnguas, costumes e crenas locais; esse conhecimento facilitaria as suas
atividades missionrias e garantir-lhes-ia maior sucesso, nunca antes obtido por
seus correligionrios norte-africanos em tempos mais remotos. Aos olhos dos
africanos, o isl deixava de ser a religio de brancos estrangeiros e, professado
pelos prprios africanos, transformava-se em uma religio africana.
    A influncia desta nova classe de religiosos africanos fez-se sentir at no
Sudo Central. At o sculo VIII/XIV, a regio que se estendia do lago Tchad
at o mdio Nger e, particularmente, o pas dos haussa, constitura para a difu-
so do isl uma espcie de brao morto, apenas levemente atingido pelos missio-
nrios. Posteriormente, sob o reino do sarki Yaji de Kano, "os Wangarawa vieram
de Melle trazendo a religio muulmana39". Segundo a cronologia de Palmer,
Yaji reinou de 750/1349 a 787/1385, porm, a Crnica dos Wangarawa, do sculo
XI/XVII, recentemente descoberta, afirma que estes missionrios teriam che-
gado a Kano sob o reino de Muhammad Rumfa (867/1463-904/1499), aps ter
deixado o seu pas de origem, em 835/1431-143240. As dificuldades cronolgicas
dos primrdios da histria haussa so bem conhecidas e no  surpreendente
que os especialistas no estejam em acordo sobre a data da introduo do isl
nos pases dos haussa. Em que pese os argumentos avanados pelo editor da
Crnica dos Wangarawa,  aparentemente mais provvel que a chegada destes
muulmanos tenha ocorrido desde o sculo VIII/XIV, sob Yaji e no sob Rumfa,
um sculo mais tarde. Na Crnica de Kano, Yaji  descrito como um muulmano
rigoroso, obrigando seus sujeitos  orao e muitos sarakuna que reinaram entre


37   Consultar Ta'rikh ALSDN, 1900, pp. 78-84.
38   Ibn BATTTA, 1969, vol. IV, p. 395.
39   Kano chronicle, em: H. R. PALMER, 1928, vol. 3, p. 104.
40   M. A. al-HAJJ, 1968.
98                                                                               frica do sculo VII ao XI



o momento da sua morte e a ascenso ao poder de Rumfa, alm de terem nomes
islmicos, so descritos como muulmanos41. Sob o predecessor imediato de
Rumfa, fulbes (fulani) muulmanos vieram de Melle "trazendo consigo livros
sobre a divindade e a etimologia", ao passo que os muulmanos haussa no
possuam anteriormente seno livros sobre a lei e a tradio42.
     possvel, evidentemente, que o pas dos haussa tenha recebido vrias ondas
de muulmanos wankra em diferentes pocas e que estes primeiros represen-
tantes tenham logrado expandir o isl, particularmente junto aos comerciantes,
ao passo que o grupo mencionado nas crnicas pregava a nova religio junto as
classes dirigentes43.
    Foi na segunda metade do sculo IX/XV que uma forte tradio islmica
comeou a se instaurar. Trs importantes chefes, talvez contemporneos, Muham-
mad Rabbo em Zaria, Muhammad Korau em Katsina e Muhammad Rumfa
em Kano, deram um novo carter ao desenvolvimento haussa ao introduzirem
ou fortalecendo o isl na regio. No se sabe nada a respeito de Muhammad
Rabbo, salvo que ele foi o primeiro sarki muulmano de Zaria. Ibrhm Sra,
quem tomou em seguida o poder em Katsina, deixou a lembrana de um mestre
impiedoso que lanava na priso aqueles que se recusavam a orar, ao passo que
o seu filho `Al era chamado murbit, homem do ribt. Numerosos dentre estes
chefes caram sob a influncia do grande reformador muulmano al-Maghl
que, a pedidos de Rumfa, redigiu um guia. Os deveres dos prncipes, para uso
dos soberanos muulmanos44. Existem igualmente relatos sobre a chegada a
Kano, nesta poca, de shuraf' (descendentes do Profeta) cuja presena provo-
cou um fortalecimento da f e a eliminao de certas reminiscncias "pags".
O isl estava ainda marcado por numerosos costumes e prticas locais e certos
dirigentes pediram conselhos no somente a al Mghil, mas, igualmente, ao
clebre erudito egpcio al-Suyt45.
    A despeito destas tentativas para fortalecer o seu estabelecimento, o isl estava
distante de consistir em uma unanimidade. Ele se tornou a religio de pequenas
comunidades de comerciantes e clrigos profissionais; a influncia que ele obteve


41   A principal fraqueza da Crnica dos Wangarawa reside no fato que ela confunde a chegada dos Wan-
     garawa com a do reformador al Mghil, ocorrida ao final do sculo IX/XV.
42   Kano chronicle, em: H. R. PALMER, 1928, vol. 3, p. 111.
43   Consultar S. A. BALOGUN, 1980, pp. 213-214.
44   Sobre al-Mghil, consultar A. A. BATRN, 1973.
45   Em sua carta a Ibrhm Sra, al-Suyt escrevia: "Informaram-me que certos membros da populao de
     Gobir, atingidos pela doena, sacrificam um ou uma escrava, crendo assim livrar-se da morte." Conferir
     T. HODGKIN, 1975, p. 119.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                           99



junto s cortes foi superficial, ao passo que a massa das populaes permanecia
fiel s suas crenas tradicionais. Pouco a pouco, entretanto, estes conceitos e as
atitudes islmicas ganharam terreno, criando uma situao caracterizada por um
isl "hbrido". A pronta aceitao deste tipo de isl pelos comerciantes haussa,
os quais formavam a classe comercial muulmana mais engenhosa aps aquela
dos dioula, favoreceu o prosseguimento da propagao do isl nestas regies do
Sudo. Abrindo rotas comerciais rumo aos pases produtores de cola, no interior
da Gold Coast (atual Gana) (onde eles encontraram os dioula, fazendo movi-
mento rumo ao Leste), eles levaram o isl at as margens da floresta.
    No sculo X/XVI, a posio do isl encontrou-se ainda mais consolidada
graas  poltica de Askiya Muhammad de Songhai, assim como pela par-
tida dos mai do Knem para o imprio do Bornu e pelo longo reino de Idrs
Alama. Supe-se que a interveno deste chefe em Mandara, em favor de um
dentre os seus protegidos, tenha aberto a via para a introduo do isl neste
pas, e foi talvez nesta poca que os tubu adotaram esta religio. O Bagirmi,
de recente criao, tornou-se na mesma poca um Estado muulmano e pouco
aps, inspirando-se neste exemplo, `Abd al-Karm pde fazer do Wada um
Estado que era, ao menos nominalmente, muulmano.
    No outro extremo da zona sudanesa, na Senegmbia, este perodo foi igual-
mente marcado por uma ofensiva islmica. No incio do sculo X/XVI, as
populaes gambianas j eram consideradas como muulmanas, em sua grande
maioria46. Na segunda parte deste sculo, a expanso do isl tornou-se, com a
progresso dos toucouleur no Fouta Toro, ainda mais acentuada. Quase por
toda a costa, religiosos muulmanos (chamados bixirim pelos portugueses)
movimentavam-se propagando a f islmica, proibindo o consumo de carne de
porco e distribuindo amuletos. Trs ribt nas margens da Gmbia eram espe-
cializadas na formao de religiosos que em seguida eram enviados pregar o isl
em todos os pases circundantes47.
    A progresso do isl conheceu, igual e evidentemente, alguns revezes. Os
mosi (mossi) da curva do Nger haviam por muito tempo resistido ao avano
do Isl, embora eles tivessem entrado em contato com ele desde o sculo VIII/
XIV, quando haviam atacado e pilhado Tombouctu e inclusive Walta48.



46   D. PACHECO PEREIRA, 1956, pp. 69-73.
47 M. F. de B. SANTAREM, 1842, p. 29.
48   Todavia, pode-se interrogar,  luz de trabalhos recentes, se estes mosi eram os mesmos que aqueles da
     bacia voltaica. Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 9.
100                                                           frica do sculo VII ao XI



   Ao final do sculo seguinte, Askiya Muhammad lanou contra eles a guerra
santa, porque eles haviam recusado a ordem que lhes fora dada de se aliarem
ao isl. Todavia, mesmo a derrota do seu exrcito no persuadiu o rei mosi de
abandonar a sua religio tradicional e a maioria dos seus sujeitos seguiu-lhe o
exemplo. No foi seno aps o sculo XI/XVII que os mercadores muulmanos
(yarse) comearam a penetrar nos reinos mosi e somente no sculo XIII/XIX
que alguns mosi se converteram.
   Os bambara que viviam no territrio do antigo imprio do Mali formavam
outra ilha de religio tradicional. Inclusive, a prpria cultura do Mali estava em
regresso desde o final do declnio do imprio. Tendo perdido as suas posses-
ses externas, isolados do comrcio saariano, os malinke viviam em pequenas
chefarias (kafu), sem administrao central e sem vida urbana. Abandonado
pela classe poltica, o isl no estava mais representado seno pela comunidade
comerciante (dioula) ou pelos religiosos (moriba)49.
   No sculo X/XVI, o isl estava, apesar de tudo, assaz bem implantado ao
longo de todo o cinturo sudans, do Atlntico ao lago Tchad e mais alm. As
classes dirigentes de todos os grandes Estados e da maioria dos pequenos eram
muulmanas, ao menos nominalmente. Em todas as cidades e em numerosas
localidades viviam muulmanos africanos, de origens tnicas diversas, dentre
os quais no eram muulmanos seno pelo nome, entretanto, entre os quais
havia frequentemente homens eruditos e pios, de esprito aberto e em contato
com o vasto mundo situado ao Norte do Saara. Embora as massas camponesas
no tivessem sido seno levemente atingidas por esta religio universal, o isl
tornava-se, aps tantos sculos de presena, um fenmeno familiar, um dos
elementos da cena cultural da frica Ocidental.


      A Nbia e o Sudo niltico
   A islamizao da Nbia e do Sudo niltico foi e continua a ser, de fato,
um processo permanente. Conquanto a Nbia tenha entrado em contato com
o isl no momento da conquista rabe do Egito, no incio do sculo I/VII, a
progresso do isl ali se encontrou perante a existncia de Estados cristos e
face  forte ligao dos nbios com a sua f. Os muulmanos do Egito tentaram,
em 31/651-652, conquistar a Nbia e inclusive aventuraram-se at Dongola,
porm eles foram obrigados a pedir uma trgua, em razo da feroz resistncia

49    Y. PERSON, 1981, pp. 614 e 641.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                101



dos nbios. O tratado concludo, conhecido sob o nome de bakt50, era um pacto
de no-agresso que autorizava o Estado nbio de al-Makurra a conservar o
seu estatuto de Estado independente. Ele acordava aos sujeitos de cada parte
o direito de circularem e comercializarem livremente no territrio da outra
parte e estipulava que a vida dos muulmanos da Nbia deveria ser protegida51.
Este tratado permaneceu em vigor durante seis sculos, demonstrando rara
longevidade, em se tratando de um acordo internacional. Ele demonstra que os
muulmanos renunciavam  ideia de ocupar a Nbia; o essencial para eles era por
fim s incurses nbias e transformar o pas em zona de influncia. Tentativas
eventuais foram realizadas para converter os chefes (por exemplo, no incio do
reino dos fatmidas no Egito); mas os governos muulmanos do Egito tiveram
como poltica geral deixar o reino cristo em paz.
    As relaes amigveis que se estabeleceram entre dirigentes egpcios e
monarcas nbios abriram as portas para a penetrao de comerciantes muul-
manos. Mercadores rabes estavam h muito tempo instalados na capital de
al-Makurra, onde, segundo um hbito comum ao conjunto da zona sudanesa,
possuam o seu prprio bairro. Estes mercadores no aparentam ter sido zelosos
propagadores da religio muulmana; eles, todavia e contudo, no deixaram de
introduzir os primeiros rudimentos desta nova f em uma regio, at ento,
inteiramente crist.
    A islamizao (assim como a arabizao) da Nbia foi obra de agentes bem
distintos. Desde o sculo II/VII, grupos de nmades rabes comearam a se
movimentar do Alto-Egito rumo  Nbia, escolhendo principalmente a regio
situada entre o vale do Nilo e o litoral do Mar Vermelho. No sculo IV/X, eles
j se haviam implantado no extremo Norte da Nbia e, na mesma poca, alguns
nbios instalados ao Norte da segunda catarata se haviam convertido ao isl.
    O litoral do Mar Vermelho era outra via de penetrao do isl, embora menos
importante que o corredor do Nilo. Os mercadores rabes haviam comeado a
se instalar em cidades costeiras como `Aydhb, Bd e Sawkin desde o sculo
II/VIII. O interior do pas era ocupado por uma cabila belicosa de nmades, os
bdja, os quais durante muito tempo atormentaram o Alto-Egito com repetidas
incurses. Os governos muulmanos tentaram pacific-los com tratados simi-
lares quele que haviam concludo com os nbios; porm, como os bdja no
possuam nenhuma organizao poltica centralizada, estes tratados no concer-
niam seno a uma parte dos seus grupos. Os chefes bdja autorizaram contudo

50   A respeito do bakt, consultar mais adiante o captulo 8.
51   Somente as clusulas com incidncia direta na expanso do isl so aqui mencionadas.
102                                                          frica do sculo VII ao XI



o estabelecimento de mercadores muulmanos em seu territrio, abrindo assim
a regio  influncia do Isl.
    Esta influncia foi reforada pela imigrao para o pas bdja de grupos de
nmades rabes que se aliaram por casamento s famlias dos bdja; as suas crian-
as tornaram-se chefes de alguns grupos bdja. Este cenrio repetiu-se vrias
vezes e foi assim que, com o tempo, os muulmanos impuseram a sua influncia.
O mesmo fenmeno produziu-se na Nbia, onde surgiram poderosas famlias
muulmanas. A abertura, entre os sculos IV/X e VII/XIII, de rotas comerciais
que interligavam o vale do Nilo aos portos do Mar Vermelho, passando pelo ter-
ritrio bdja, favoreceu a islamizao das populaes autctones. Os grupos bdja
instalados na extremidade norte (Hadriba e `Ababda) foram progressivamente
arabizados e chegariam inclusive a inventar ascendncias rabes; mas as suas
crenas ancestrais afloravam sob o verniz islmico. Outros grupos foram menos
tocados pela influncia dos rabes muulmanos; contudo, eles prprios finalmente
aceitaram o isl ou, ao menos, alguns dos seus preceitos. Pode-se dizer que no
sculo VII/XIII, a maioria dos bdja estava formalmente convertida, ou seja,
consideravam-se muulmanos e eram reconhecidos como tal pelos seus correli-
gionrios; porm, eles conservavam numerosas prticas e crenas tradicionais.
    Neste nterim, a Nbia do Norte acolheu um fluxo ininterrupto de imigran-
tes rabes; enquanto o reino de al-Makurra permaneceu independente, ou seja
at o final do sculo VI/XII, esta imigrao limitou-se sobretudo a uma lenta
infiltrao de pequenos grupos de bedunos. Imiscuindo-se nas querelas internas
da famlia real, os mamlk transformaram os reis nbios em vassalos ou mario-
netes. Em 715/1315, eles escolheram como rei da Nbia um prncipe que j se
convertera ao isl; este acontecimento anunciava o gelo para o cristianismo na
Nbia. Colocada nas mos de um muulmano, a Nbia deixou de ser uma dr
alharb para se tornar uma dr alislm e deixou de pagar a djizya (imposto de
capitao) aos dirigentes muulmanos do Egito52. Desde logo, o bakt no tinha
mais nenhuma razo de ser.
    A desintegrao do reino setentrional da Nbia, para a qual a primeira pene-
trao rabe muito contribura, facilitou o grande avano dos rabes at as ricas
pastagens situadas alm do deserto da Nbia. Estes bedunos certamente se
diziam muulmanos, porm no h nenhuma razo para crer que o seu isl
fosse, por pouco que fosse, menos superficial que aquele de outros nmades.
Pode-se dificilmente consider-los como defensores fanticos da sua f. Em


52    Ibn KHALDN, 1867, vol. 5, pp. 922-923.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                         103



contrapartida, o fim da dinastia crist e, por conseguinte, do cristianismo como
religio de Estado, provavelmente facilitou em muito a converso ao isl das
populaes sedentrias do vale do Nilo. Outros fatores favoreceram o declnio
do cristianismo na Nbia, notadamente o crescente isolamento e a deteriora-
o da situao dos cristos no Egito, de onde vinha  maioria dos membros
do alto clericato. O cristianismo no foi varrido em uma tacada, ele sobreviveu
por muito tempo antes de sucumbir s suas prprias fraquezas. O isl ocupou
paulatinamente o terreno abandonado. No Estado meridional de `Alwa, o cris-
tianismo resistiu at o sculo X/XVI antes de ceder  influncia conjugada das
"tribos rabes" e dos fundj.
    Nesta poca, os nmades rabes j haviam penetrado na Djazra (Gezira),
entre o Nilo Azul e o Nilo Branco, e na Butana, entre a Atbara e o Nilo Azul.
Ali, eles se instalaram na regio metropolitana de `Alwa e em Sennr, avanando
para o Sul, at a ilha de Aba, no Nilo Branco. Eles penetraram do mesmo modo
no Kordofn e no Sul do Drfr.
    No rastro destes nmades vinham os pregadores. Eles tinham nascido na
velha terra do Isl ou l haviam estudado e eram os primeiros a trazer a este pas
algumas noes da lei cannica, a shar'a. O mais antigo dentre estes pios missio-
nrios foi um iemenita, Ghulm Allh ibn `Ayd, cuja chegada na regio de Don-
gola aconteceu durante a segunda metade do sculo VIII/XIV; ele encontrou os
muulmanos mergulhados na ignorncia, por falta de instrutores53. No curso dos
sculos seguintes, os missionrios das ordens sufistas comearam a se instalar
no Sudo e contriburam para propagar o isl. Eles lograram converter os fundj,
povo de pele escura originrio do alto Nilo Azul. Sob o reino dos reis fundj, o isl
foi encorajado e numerosos eruditos e homens pios vieram se instalar no reino.
A partir do sculo X/XVI, a fronteira meridional do Isl estabilizou-se ao longo
do 13o paralelo. O processo de islamizao acompanhou-se de um processo de
arabizao que deixou a sua marca em grande parte do pas54.


     O Chifre da frica
   O isl penetrou na Etipia ao longo de dois grandes eixos comerciais
que interligam as ilhas Dahlak e Zayl', no interior do pas. As ilhas Dahlak
tornaram-se muulmanas no incio do sculo II/VIII; na mesma poca, muul-


53   Y. F. HASAN, 1966, pp. 154-155.
54   Sobre a expanso do isl no Sudo niltico, consultar J. S. TRIMINGHAM, 1949.
104                                                                         frica do sculo VII ao XI



manos majoritariamente estrangeiros ao continente, de origem rabe ou outra,
comearam a se instalar em diversos pontos do litoral do Mar Vermelho. A
partir destes centros, o isl difundiu-se em meio s populaes locais, essen-
cialmente nmades, da costa, porm a sua influncia permaneceu restrita at o
sculo IV/X.
    As numerosas inscries rabes encontradas nas ilhas Dahlak testemunham
da riqueza e importncia da comunidade muulmana que logrou posteriormente
formar um verdadeiro sultanato55; entretanto, estas ilhas no aparentam ter
desempenhado um papel importante no tocante  penetrao do isl na Eti-
pia. O principal obstculo foi a slida implantao da igreja crist no Norte
do pas, junto s populaes falantes do tigr ou do aramaico. Certamente, os
chefes acolheram bem os mercadores muulmanos instalados na costa (Dahlak
tendo sido, por muito tempo, o nico destino comercial do reino etope), porm
foi-lhes proibido propagar a sua f. Nada impediu que, desde o sculo III/
IX, acompanhamos o surgimento das comunidades muulmanas nos princi-
pais centros e ao longo dos grandes eixos comerciais. O comrcio na Etipia,
especialmente o envio de caravanas rumo a destinos longnquos era, desde este
poca, monopolizado pelos muulmanos, pois que a sociedade crist sempre
considerara com desdm as atividades comerciais e artesanais56. Vestgios de
antigas comunidades muulmanas foram encontrados na provncia inteiramente
crist do Tigr57; ao que tudo indica, os mercadores podiam circular livremente
e estavam autorizados a se instalarem com as suas famlias e seus domsticos
no reino cristo58.
    As ilhas Dahlak foram provavelmente o ponto de penetrao das comuni-
dades muulmanas no Norte da Etipia, porm foi de Zayl', importante porto
do Golfo de Aden, que deve ter partido o movimento de penetrao no Sul,
ou seja, na provncia do Shoa. Zayl' foi, a este respeito, mais importante que
Dahlak, pois que foi nesta parte meridional da Etipia que o isl foi chamado
a desempenhar um papel determinante.
    A situao no interior do pas de Zayl' era bem distinta daquela existente no
Norte: tratava-se de uma regio fronteiria entre cristos e muulmanos, onde
eles entraram em luta para ganhar para a sua f a imensa massa da populao


55    Em respeito a estas inscries, conferir B. MALMUSI, 1895; G. OMAN, 1974a, 1974b.
56    Consultar M. ABIR, 1970, p. 123.
57 M. SCHNEIDER, 1967.
58 Conferir alMAS'D, 1861-1877, vol. 3, p. 34, sobre as famlias muulmanas da Habasha, tributrias
   das populaes locais.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                  105



indgena, politesta. Esta rivalidade religiosa foi reforada por uma luta pelo
domnio poltico e econmico que duraria vrios sculos.
    Durante os sculos II/VIII e III/IX, o isl implantou-se solidamente nas
margens do Golfo de Aden; posteriormente, a sua importncia poltica e reli-
giosa no cessou de aumentar no conjunto da regio, especialmente no interior
do pas. As condies que favoreceram a extenso desta influncia muulmana
eram parcialmente internas (declnio do reino cristo) e tambm externas
(expanso do poder fatmida na regio do Mar Vermelho, acompanhada de um
desenvolvimento do comrcio). Os mercadores muulmanos penetravam, sem-
pre em maior nmero, no Sul do pas, onde fundaram comunidades e unidades
polticas. Assim sendo, eles prepararam o terreno para a vinda dos pregadores
muulmanos que se encarregaram de converter a populao local ao isl.
    As primeiras cidades comerciais e principados muulmanos do Golfo de
Aden comearam a surgir ao longo do planalto do Harat, ao final do sculo
IV/X. No incio do sculo seguinte, a expanso do isl desdobrara-se na criao
de sultanatos muulmanos em meio s populaes de lnguas semticas e cuchi-
tas da regio. Segundo uma crnica local rabe, o primeiro prncipe do sultanato
de Shoa teria comeado a governar desde o final do sculo III/IX; na realidade, a
fundao deste Estado no remontaria provavelmente seno ao incio do sculo
VI/XII, aproximadamente59. A dinastia reinante afirmava descender de uma
famlia bem conhecida da Meca, os Makhzm. Havia igualmente na regio
outros principados de origem rabe que no descendiam dos Makhzm.
    Um dos mais importantes reinos muulmanos foi Ift, cujos reis igualmente
pretendiam descender da famlia do profeta Maom, atravs de Ab Tlib; o
seu maior sulto, `Umar Walasma', anexou o sultanato de Shoa, em 684/1285.
    Fontes rabes e etopes assinalam a presena de ao menos trs reinos muul-
manos, alm de Ift: Dawro, a Oeste da regio de Harar, Sharka, na regio de
Arusi, e Bl, ao Sul de Dawro. Posteriormente, h menes de outros Esta-
dos, como aqueles de Hady, Arababn e Darah. Hady tornar-se-ia clebre a
partir do sculo VII/XIII em razo do seu comrcio de escravos60. Por muito
tempo, o Estado de Ift predominou, graas  posio estratgica que ocupava
no importante eixo comercial que conduz de Zayl' s provncias de Amhara e
Lasta, bem como a outros principados muulmanos.
    Malgrado a progressiva anexao, a partir do sculo VII/XIII, dos prin-
cipados e Estados muulmanos do Sul, pelos imperadores salomnicos, o

59   E. CERULLI, 1941, pp. 5-14. Consultar mais adiante o captulo 20.
60   Al-`UMAR, 1927, p. 27 e seguintes.
106                                                                           frica do sculo VII ao XI



comrcio de caravanas no planalto permaneceu, em larga medida, nas mos dos
muulmanos.
    Excetuando-se os mercadores e cortesos,  difcil avaliar a extenso e a
profundidade da islamizao da populao local no decorrer destes primeiros
sculos. A crnica do sultanato de Shoa, no assinala importantes converses
no interior do pas seno no incio do sculo VI/XII, especialmente na regio
do contraforte oriental do planalto de Shoa. Na regio de Harar, inscries
rabes datadas do sculo VII/XIII testemunham a existncia de comunidades
muulmanas bem desenvolvidas, o que confirma a importncia de Harar como
centro de difuso do isl na regio61. No transcorrer da ofensiva crist rumo
ao Sul, o isl certamente perdeu influncia e adeptos, porm continuou a ser
professado por numerosos grupos tnicos que no foram diretamente atingidos
por este avano, como os afar e os somalis. Quando, no sculo X/XVI, Ahmad
Gran lanou a sua jihad contra a Etipia crist, logrou acrescer o seu exrcito
com indivduos afar e somalis das plancies, bem como com diversos povos de
lnguas semticas e cuchitas do planalto, os quais estavam j h muito tempo
sob a influncia islmica. Embora esta tentativa de fundar um imprio etope
tenha finalmente sido um fracasso, as bors orientais e meridionais da Etipia
permaneceram firmemente conquistadas pelo isl62.
     possvel reconstituir as primeiras etapas da expanso do isl na Etipia
por meio de documentos escritos; entretanto, no se pode proceder do mesmo
modo em relao aos primrdios da islamizao dos somalis. Possumos, bem
entendido, os dados recolhidos por gegrafos rabes sobre cidades costeiras
como Zayl', Berber, Mogadscio, Brava e Marka, e inclusive algumas inscries
datadas provenientes destas localidades; porm, no tocante  expanso do isl
para o interior do pas, onde vivia a grande massa dos somalis, somente  possvel
ter uma ideia aproximada a partir de relatos histricos. No h dvida que os
grupos somalis instalados na costa do Golfo de Aden muito cedo entraram em
contato com muulmanos. Os primeiros a imigrarem para as cidades costeiras
foram, aparentemente, mercadores rabes e persas que casaram com mulheres
autctones e finalmente se mesclaram com a populao somali. Eles trouxeram
consigo a religio do isl e influenciaram os somalis habitantes destes estabeleci-
mentos e no imediato interior do pas, os quais progressivamente se converteram.
No entanto, foi necessrio aguardar alguns sculos para que a influncia destes
muulmanos se revestisse de um carter mais permanente. Tradies somalis

61    Reverendo padre AZAS e R. CHAMBORD, 1931, vol. 1, pp. 125-129.
62    No tocante  islamizao da Etipia, conferir J. S. TRIMINGHAM, 1952.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                  107



reportam que o xeque Darod Ism'l, chegando da Arbia, instalou-se junto
aos dir, a mais antiga famlia somali, esposou uma dir e se tornou em seguida o
ancestral de um imenso cl que carrega o seu nome, os darod.  impossvel datar
este evento com preciso. Entretanto, h concordncia em geral ao situ-lo entre
os sculos IV/X e V/XI. Existe uma tradio sobre a chegada, aproximadamente
dois sculos depois, de outro rabe, o xeque Ishk, epnimo dos somalis isaq, que
se instalou a Oeste dos darod63. Conquanto a figura destes patriarcas provenha
antes da lenda, as tradies citadas testemunham de fato de um perodo de
intensa islamizao em meio aos somalis do Norte, assim como da proeminncia
e ascenso dos cls darod e isaq, aproximadamente nesta poca. O surgimento
de grandes famlias clnicas unidas pelos laos do isl liberou foras dinmicas
internas, desencadeando uma migrao geral destes grupos rumo ao interior
do Chifre, segundo um eixo orientado para o Sul. Durante estes movimentos,
os cls j islamizados tiveram certamente que buscar converter grupos falantes
de somali, os quais ainda no haviam sido tocados pelo isl. Mas  impossvel
avaliar com preciso a durao deste processo.
    Os somalis habitantes da costa do Oceano ndico conheceram o isl atravs
das cidades do litoral (Mogadscio, Brava e Marka),  imagem dos seus compa-
triotas do Norte. Desde a primeira metade do sculo IV/X, grande nmero de
mercadores muulmanos, rabes e outros, se haviam estabelecido nestas cidades.
Eles foram seguidos por numerosos outros imigrantes, os quais chegaram em
sucessivas ondas da Arbia, da Prsia e inclusive da ndia. A termo, a sua assimi-
lao gerou uma cultura e uma sociedade mestiadas, reflexos dos dois compo-
nentes, somali e rabe. A evoluo no foi invariavelmente uniforme, porm ela
possua como principal denominador comum o isl. Estas cidades costeiras, as
quais eram sobretudo entrepostos, certamente tinham contatos regulares com os
somalis do interior.  impossvel dizer se estes ltimos desempenharam, no que
concerne  difuso do isl nesta regio, um papel to determinante quanto aquele
exercido no Norte pelos seus compatriotas, profundamente islamizados.
    Um dos traos caractersticos da islamizao dos somalis foi no ter sido ela
acompanhada de arabizao. Os somalis so certamente orgulhosos das tradies
que fazem descendentes de nobres famlias rabes e a sua lngua contm nume-
rosos emprstimos do rabe. Entretanto, eles jamais perderam a sua identidade
tnica, contrariamente ao ocorrido na frica do Norte ou no Sudo niltico.
Este estado de coisas talvez se explique pelo fato de os rabes no terem jamais


63   E. CERULLI, 1957-1964, vol. I, pp. 60-61.
108                                                                             frica do sculo VII ao XI



imigrado em massa para o Chifre da frica, dirigindo-se a esta regio sobretudo
em carter individual ou como mercadores e pregadores, rapidamente absorvidos
pela sociedade somali64.


      A costa da frica Oriental e as ilhas
    A questo da chegada e da instalao dos rabes e persas muulmanos na
costa da frica Oriental, bem como em Comores e Madagascar  detalha-
damente examinada em outros captulos deste volume65. Ateremo-nos aqui 
expanso do isl. Sob esta tica, a regio oferece, na poca que nos interessa,
um quadro bem distinto daquele que acabamos de apreciar em outras partes da
frica tropical. O isl, o qual progressivamente conquistou, no cinturo suda-
ns ou junto aos somalis, populaes inteiras e influenciou a vida dos grupos
tnicos africanos, no teve a mesma incidncia junto aos falantes do grupo de
lnguas banto e outros povos da frica Oriental. Certamente ele se desenvolveu,
contudo, somente como religio de imigrantes vindos de alm-mar e vivendo
em crculos fechados nas localidades costeiras e insulares. A arqueologia, base-
ada em fontes rabes, fornece provas suficientes sobre o carter islmico de
numerosas cidades costeiras estendidas de Lamu a Moambique; no entanto,
ela confirma simultaneamente que o isl no penetrou no interior do pas e que
nem os bantos nem qualquer outro grupo tnico foram tocados por esta religio
antes do sculo XIII/XIX. O isl no teve sucesso seno junto s populaes do
litoral que estavam em contato imediato com os imigrados rabes e/ou persas
instalados nestas cidades. Reporta-se que mesmo localidades situadas nas pro-
ximidades dos estabelecimentos muulmanos eram habitadas por "incrdulos"
(kfir), vtimas de incurses de mercadores de escravos66.
    A sociedade das cidades costeiras era certamente muulmana, porm no-
-rabe. Os imigrantes, nunca numerosos, esposavam mulheres africanas e se
misturavam na populao local. Os seus descendentes, mestios, rapidamente
abandonavam o rabe em proveito do suali que se tornou um saber para todas
as comunidades costeiras. Por muito tempo, entretanto, o elemento muulmano



64    Numerosas famlias de origem rabe foram progressivamente somalizadas; o cl dos Mukr, no seio do
      qual o chefe dos kd de Mogadscio sempre foi escolhido, finalmente assim trocou o seu patrnimo por
      um nome somali: Rer Fakh. Consultar J. S. TRIMINGHAM, 1962, p. 215.
65    Consultar mais adiante os captulos 21 e 25.
66    Consultar Ibn BATTTA, 1969, vol. II, p. 193.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                 109



reduziu-se na frica Oriental a uma nfima minoria, cujos olhares estavam antes
voltados para o oceano, muito mais que para a prpria frica.
    Uma nica exceo a este quadro: a penetrao dos mercadores muulma-
nos, em sua maioria sualis, no interior do atual Moambique e no Zimbbue.
A descoberta no Zimbbue de cermicas chinesas e persas datando dos sculos
VII/XIII e VIII/XIV testemunha a existncia de relaes comerciais com os
estabelecimentos costeiros, notadamente com Kilwa e os seus postos-avanados
meridionais, como Sofala. Posteriormente, a partir do sculo IX/XV, marcando
o fim do monoplio de Kilwa-Sofala sobre o comrcio do ouro, os mercadores
baseados em Angoche e Moambique lanaram-se em um florescente comrcio
com o imprio em expanso do Mutapa. As fontes portuguesas do sculo X/
XVI abundam em relatos sobre a presena de milhares de mercadores "mou-
ros", muito ativos no imprio, em relao aos quais a concorrncia era vista com
amargor pelos portugueses. A importncia dos mercadores muulmanos no
imprio igualmente  atestada pelo fato de a segunda esposa do mwene mutapa
ter sido ministra para os assuntos muulmanos. A maioria destes comerciantes
era composta de africanos negros, imigrantes sualis vindos dos velhos centros
costeiros do Norte ou autctones que se haviam ligado  cultura do comrcio
internacional, caracterstica das sociedades urbanas muulmanas.
    Os muulmanos do litoral que penetraram na frica do Sudeste no deixa-
ram nenhuma marca reconhecvel junto aos povos desta regio. Na realidade,
o isl no logrou impor-se como religio entre os africanos do interior, em que
pesem muitos sculos de vizinhana. A ideia tradicional segundo a qual o isl se
teria expandido no rastro dos comerciantes muulmanos no aparenta aplicar-
-se a esta regio por razes todavia no elucidadas. Os muulmanos da costa
demonstraram grande proselitismo nos Comores. Os Shrz, aos quais a Crnica
de Kilwa atribui a islamizao da cidade, ter-se-iam instalado em Anjouan, fato
geralmente confirmado pela tradio local. A cronologia destes acontecimentos
 relativamente imprecisa, porm, ao que tudo indica, os primeiros muulmanos
teriam chegado aproximadamente no sculo VII/XIII; como por toda parte, eles
se misturaram em meio  populao local africana e malgaxe e geraram um povo
chamado antalaotra ("povo do mar"), cuja lngua  um dialeto suali enriquecido
com muitas contribuies do malgaxe. Segundo recentes estudos, a islamizao
de Comores foi concluda no sculo IX/XV67.




67   Conferir C. ROBINEAU, 1967.
110                                                           frica do sculo VII ao XI



    O estudo do isl em Madagascar progrediu consideravelmente no decor-
rer das ltimas dcadas; entretanto, ele suscitou mais questes que aquelas s
quais ele ofereceu solues. No h dvida que povos islamizados, de origem
rabe ou mais provavelmente suali, comearam a se instalar, a partir do sculo
IV/X, na costa noroeste, bem como em pequenas ilhas vizinhas, como testemu-
nham a arqueologia, as tradies orais e os primeiros relatos dos portugueses.
A cultura dos primeiros imigrantes apresenta muitas analogias com aquela que
encontramos na costa leste da frica, entre Lamu e Kilwa. Na costa nordeste
desenvolveu-se, entre os sculos V/XI e VIII/XIV, uma variante da antiga cul-
tura suali do Noroeste. Os habitantes islamizados destes estabelecimentos
comercializavam com a frica Oriental, o Golfo Prsico, o Sul da Arbia e
a costa Oriental da ndia, exportando especialmente recipientes em clorito-
xisto. A partir do Nordeste, as populaes islamizadas cresceram ao longo da
costa oriental, at Fort-Dauphin. Os fluxos e refluxos migratrios muulmanos
eram, aparentemente, condicionados pela evoluo da rede comercial do Oceano
ndico, especialmente na frica Oriental.
    Certos grupos malgaxes do Norte, mas, igualmente e sobretudo, do Sudeste,
reivindicam tradicionalmente uma ascendncia rabe. Os mais importantes
destes grupos so as comunidades zafiramini, os onjatsy e os antemoro. Os
"imigrantes" rabes progressivamente mesclaram-se com a populao malgaxe e
no deixaram como trao da sua civilizao seno a escritura rabe (sorabe), vagas
reminiscncias do Coro e algumas prticas sociorreligiosas, notadamente nos
campos da geomancia e da magia. Os escribas (katibo) e os adivinhos (ombiasy),
nicos capazes de escrever e decifrar o sorabe, eram venerados  a venerao da
coisa escrita  um trao tipicamente muulmano , mas, no h trao algum de
instituio islmica ou mesquita. Seria portanto difcil considerar estes grupos
como muulmanos.
    Em contrapartida, os muulmanos do Norte, em contato permanente com
o mundo muulmano do exterior e constantemente fortalecidos pelo afluxo
de novos imigrantes, conservaram a sua religio e inclusive a exportaram para
alguns dos seus vizinhos malgaxes. O carter profundamente islmico destes
estabelecimentos foi confirmado no sculo X/XVI pelos primeiros visitantes
portugueses, os quais identificaram numerosas mesquitas e citaram os xeques e
os kd como representantes da autoridade poltica e religiosa. Igualmente em
Comores, os habitantes destas cidades-Estado eram conhecidos pelo nome de
antalaotra, termo ainda em vigor atualmente para designar um grupo de habi-
tantes islamizados de Madagascar.
A difuso do isl na frica, ao Sul do Saara                                                         111



    guisa de concluso, convm sublinhar que o isl no desempenhou em
Madagascar o mesmo papel que em outros partes da frica tropical, onde ele
tornou-se paulatinamente a religio de grupos tnicos inteiros e marcou pro-
fundamente as sociedades africanas. Ele jamais imps a sua cultura  cultura
malgaxe; muito pelo contrrio, nas regies recuadas da ilha, foi antes o fen-
meno inverso que ocorreu, a saber, a absoro das populaes islamizadas pelo
ambiente cultural local68.


     Concluso
    Entre os sculos I/VII e X/XVI, o isl implantou-se em vastas regies da
frica. A sua difuso no foi um processo uniforme e linear, haja vista que os
mtodos, os meios e os agentes, variaram segundo as regies. Pode-se todavia
depreender as seguintes caractersticas:
    A conquista rabe do Egito e da frica do Norte. Embora no tenha havido
converso forada dos autctones coptas e berberes, esta conquista no deixou
de criar as condies econmicas e sociais que, a termo, conduziram a maioria
da populao local a abraar o isl.
    As atividades comerciais dos muulmanos, ou seja, primeiramente as trocas
comerciais com os pases longnquos, em seguida na prpria regio, favoreceram
a islamizao em boa parte da frica tropical. Os primeiros agentes do isl
foram mercadores de origem rabe (provenientes sobretudo da Arbia, a Leste),
persa (na mesma regio) e berbere (no Oeste). A partir do sculo V/XI, a ao
foi assegurada por africanos convertidos (soninqus, malinke, fulbes, knembu,
haussa etc.).
    Os pregadores foram os primeiros a introduzir o isl junto aos somalis, ao
passo que, em outras regies, eles contriburam para aprofundar a f de povos
j convertidos (frica Ocidental e Sudo Oriental) e a expandir o isl no rastro
dos mercadores.
    No Sudo niltico, o isl penetrou com os nmades rabes e, na Somlia,
foram as migraes de certos grupos rumo ao Sul que contriburam para expan-
dir a nova f em meio a outros grupos.




68   Os problemas do isl e da sua influncia em Madagascar so abordados em P. Vrin (org.), 1967, assim
     como mais adiante no captulo 25. Consultar igualmente UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV,
     captulo 24.
112                                                           frica do sculo VII ao XI



    Na frica do Norte, na Nbia e na Etipia, os imigrantes muulmanos
chocaram-se com uma religio monotesta rival, o cristianismo. Nestas regies,
a resistncia dos cristos ao isl variou em funo da situao poltica e social
local. No Magreb, onde os cristos representavam apenas uma minoria (essen-
cialmente de origem estrangeira ou mestia), a islamizao foi mais completa e
o cristianismo desapareceu no sculo V/XI. No Egito, o processo foi mais lento
e somente acelerou-se sob os fatmidas; a islamizao jamais foi total, haja vista
que cerca de 10% dos egpcios ainda pertencem  Igreja Copta.
    Na Nbia crist, em contrapartida, a influncia do isl permaneceu mnima
at o fim do sculo VII/XIII; porm, ao longo dos dois sculos seguintes, o
cristianismo foi progressivamente suplantado pelo isl. Os cristos resistiram
somente nas montanhas etopes. Nem a penetrao pacfica dos mercadores
muulmanos, nem as campanhas militares dos Estados islmicos implantados
ao Sul do planalto, abalaram a fidelidade dos etopes  f dos seus pais. Embora
ele tenha sido o vencedor desta luta secular, o cristianismo etope permanece
at hoje um posto avanado isolado no oceano do isl.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                          113



                                          CAPTULO 4


       O Isl como sistema social na frica,
                desde o sculo VII
                                      Zakari DramaniIssifou




    O isl como religio e, portanto, elemento de cultura espiritual e social consti-
tui atualmente um dos aspectos fundamentais da civilizao africana, a tal ponto
que muito amide, no esprito de grande nmero de habitantes deste continente,
o isl e a frica no formam seno uma mesma coisa! A religio muulmana
e a frica so na realidade velhas conhecidas. Antes da hgira, j desde ento,
alguns companheiros e convertidos haviam, sob ordem do Profeta, encontrado
refgio na Etipia, junto ao soberano de Axum. Esta pequena comunidade de
refugiados, na qual se encontravam parentes de Maom e alguns dos primeiros
convertidos de Meca ao isl, foi generosamente recebida pelo soberano axumita.
Apenas oito anos aps a morte do Profeta, o isl fincava os ps no Egito; a
conquista do Norte do continente findaria durante o sculo seguinte.
    O isl era transmitido por um povo  os rabes  depositrio, antes dele, de
variados modos de vida cultural, nascidos no deserto e nas cidades e que haviam
tentado influenciar os bizantinos, os persas, os cristos e os judeus. A propagao
do isl realizava-se em uma lngua pela qual Deus "transmitira a Sua palavra";
ela era acompanhada, alm do orgulho lingustico1, de certeza em ter unificado


1     necessrio, para melhor medir as consequncias culturais desta sublimao da lngua rabe, lembrar-se
     do imenso esforo empreendido no sculo III/IX para traduzir para o rabe tudo aquilo que era relevante
     das culturas pr-islmicas. Este esforo remete quele realizado pelos cristos de lngua latina trs ou
     quatro sculos antes.
114                                                                                    frica do sculo VII ao XI



uma cultura rabe. O isl podia ento ser o portador de um triunfalismo cultural
gerador de conflitos com outras culturas prprias a outros tipos de sociedade.
As culturas e sociedades pr-islmicas, dominadas pelo isl no Oriente Mdio,
impuseram-se especialmente pela sua herana escrita.
    Seria intil aqui voltar ao assunto. O caso das culturas e das sociedades
africanas  mais delicado a tratar.  imagem de vrios outros casos, a transmis-
so oral dos seus saberes, o carter implcito da sua vida cultural, antiga e rica,
transformam os testemunhos a seu respeito em fontes frequentemente externas;
neste caso da historiografia rabe, marcada por preconceitos e pressupostos
ideolgicos os quais se deve detectar e explicitar. Caso contrrio, uma vez mais,
a histria da frica corre o risco de passar por uma histria sem originalidade
prpria, aparentando ser por longos perodos uma "histria-objeto", aquela de
uma terra que se conquista, explora-se e se civiliza. Com efeito, na falta de pos-
suir, como os povos do Oriente Mdio e os etopes, um livro garantindo uma
revelao divina, os africanos negros e a sua religio so, desde o incio, classi-
ficados entre os povos sem religio respeitvel, incapazes de alcanar o estatuto
de "protegidos" do isl, portanto, pouco susceptveis de possurem lnguas e
culturas respeitveis2.


      O isl, os povos africanos e as suas culturas
    O isl se reivindica de uma profunda unidade que no exclui, teoricamente,
as diversidades culturais. Ele afirma com vigor a unidade do gnero humano e
reconhece em todos os homens uma natureza idntica, criada por Deus. Eles
pertencem todos  "raa" admica  qual Deus outorgou na pr-eternidade o
"pacto primordial". Neste nvel de generalidade terica, a profunda unidade do
isl no seria capaz de colocar problemas aos africanos. Contrariamente, ele
colocou graves problemas aos egpcios cristos, aos etopes, assim como em geral
aos monotestas cristos e judeus. A surata dita "da mesa servida3" estabeleceu
uma continuidade histrica, aps Abrao, entre Moiss, Jesus e Maom, trs


2     Esta questo tem importncia por ter sido um dos problemas mais apaixonadamente debatidos no col-
      quio rabe-africano organizado em Dakar, de 9 a 14 de abril de 1984, pelo Instituto Cultural Africano
      (ICA) e a Organizao rabe para a Educao, a Cultura e as Cincias (ALECSO, sigla em ingls)
      sobre o tema das "relaes entre as lnguas africanas e a lngua rabe". As concluses gerais deste colquio
      estabelecem que nenhuma lngua africana sofreu prejuzo de qualquer espcie em suas relaes com a
      lngua rabe. Ns no compartilhamos absolutamente deste ponto de vista.
3     Surata V.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                               115



mensageiros de um nico Deus. Os humanos, os quais receberam a mensa-
gem dos dois primeiros profetas, no souberam permanecer fiis a eles; o rigor
imposto pelo terceiro no tocante  observncia das ordens divinas explica-se, a
um s tempo, pela tendncia dos homens  infidelidade e pelo fato de a revelao
maometana ser, historicamente, a ltima.
    Sob a unidade, facilmente concebvel e aceitvel, salvo para os cristos e
judeus, surge um segundo nvel de contato com o isl: aquele da observncia dos
sinais de adeso  comunidade muulmana e, por conseguinte, de uma possvel
condenao de modos de vida outros que no aqueles exigidos pelo Coro. As
obrigaes so bem conhecidas, elas se resumem em cinco "pilares" fundamen-
tais: a shahda ou profisso de f identificada na expresso "No h outra divin-
dade que Al e Maom  o seu profeta"; a salt ou orao ritual, cinco vezes ao
dia; o jejum do ramadn, um ms por ano; a zakt ou esmola legal, assegurando
a subsistncia aos pobres e rfos; e, finalmente, o hadjdj ou a peregrinao 
Meca, uma vez na vida e com a condio de possuir os meios necessrios. A
unidade na f e na prtica religiosa, a fraterna ajuda mtua entre os crdulos,
todos "irmos", a hospitalidade, a justia que decorre deste senso da comunidade,
tampouco colocam, teoricamente, graves problemas. O ideal social dos fiis
muulmanos pretende-se adaptado s foras da natureza humana, praticando a
ajuda mtua, a hospitalidade, a generosidade, a fidelidade face aos engajamentos
assumidos perante, primeiramente, os membros da comunidade (umma), assim
como, igual e posteriormente, perante todas as outras comunidades, e a modera-
o dos desejos. Mais alm, este ideal oferece, atravs da Jihad 4 (a guerra santa,
por extenso) e o sacrifcio da vida, a ocasio de superar a si prprio. Assim se
expressa a profunda unidade que caracteriza o isl, conferindo-lhe a sua fisio-
nomia prpria. Este esprito de comunidade encontra, notoriamente, profundas
tradies africanas de organizao social. Os textos muulmanos defrontam-
-se com o implcito africano: no hadth de Gabriel, al-Bukhr reportava que
o isl tambm consiste em "dar comida (aos famintos) e dar a saudao  paz
(salm) queles que se conhece e aos desconhecidos5"; ou ainda: "Nenhum dentre
vs torna-se realmente crdulo se no desejar para o seu irmo (muulmano)
aquilo que deseja para si mesmo6." Entretanto, esta unidade coexiste com uma
real personalizao da responsabilidade moral; ningum pode ver-se imputar o


4    Jihad significa efetivamente "esforo realizado para um objetivo determinado". Consultar captulo 2 do
     presente volume.
5    Al-BUKHR, 1978, vol. 2, p. 37.
6    Al-NAWW, 1951, pp. 21, 33, 36, 42 e 43.
116                                                                         frica do sculo VII ao XI



erro de outro; cada qual deve responder pelos seus prprios atos. Assim sendo,
o sentido de comunidade, o sentimento de fazer parte de um todo, unem-se
dialeticamente  preocupao com o seu prprio destino e com as suas prprias
obrigaes. O crdulo  consciente de estar pessoalmente ligado a Deus, que
lhe pedir justificativas.
     necessrio, desde logo, observar que a adeso ao isl  um ato individual;
para ser responsvel, esta ao deve ser livre: os constrangimentos moral e fsico
so proibidos pelo Coro. Porm, esta adeso  irreversvel: trata-se de uma
converso "social", marcando a insero em uma comunidade de novo tipo e a
ruptura com outros tipos de comunidades socioculturais. Aqui se inaugura um
debate fundamental para as relaes do mundo muulmano com as sociedades
e culturas da frica. As situaes histricas certamente so variadas, no tempo
e no espao. No seria possvel, a priori, obrigar um africano de religio dife-
rente a aderir ao isl; contudo, o seu estatuto religioso  sem Livro  tornava-o
um dependente incondicional e sem nenhuma proteo perante a comunidade
muulmana.
    Passamos, desta forma, para um terceiro nvel de contatos, muito mais dra-
mtico: referente ao direito. Cerca de trs sculos foram necessrios para que
fossem estabelecidas, no mundo muulmano, regras jurdicas em conformidade
com o Coro e os ensinamentos do Profeta  sunna; estas regras deveriam
permitir reunir "o conjunto das mximas, dos comportamentos, das maneiras
de comer, beber, vestir-se, quitar os deveres religiosos, tratar os crdulos e os
infiis7". A lei  shar'a  rene as prescries cornicas8, completadas pelas
interdies e precises contidas no direito  fikh. Quatro escolas interpretaram
o direito segundo as modalidades variveis e um esprito mais ou menos literal,
mais ou menos rigorstico. Um dos elementos interessantes do debate acerca das
relaes do isl com as sociedades africanas  que as escolas jurdicas, com as
quais os africanos tiveram contato, no foram as mesmas no Oeste e no Leste
do continente. O Oeste, do Magreb  frica Ocidental, foi profunda e quase
exclusivamente marcado pelo malikismo. Mais formalista, sobretudo aps os
seus triunfos do sculo V/XI e comparativamente a outras escolas jurdicas, o
malikismo, unido ao sunismo,  levado a um forte grau de intransigncia pelos
juristas (fukah'), cujo papel  capital, particularmente do sculo V/XI ao sculo
X/XVI. No Leste, o chafismo, fortemente implantado no Egito e mais liberal,


7     R. BLACHRE, 1966, p. 92.
8     As condies jurdicas da vida de um indivduo muulmano em sua comunidade so definidas pelas
      mu'walt cornicas. Trata-se sobretudo das suratas II, IV e V e cerca de 500 versetos.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                                    117



esteve amplamente ligado ao Chifre da frica e  costa oriental. Muitas das
nuances e diferenas, provavelmente, explicam-se por este estado de coisas.
     finalmente necessrio acrescentar que o sculo V/XI conheceu um duplo
movimento cuja contradio  apenas aparente. Por um lado, a radicalizao, a
partir do momento que os turcos dominam Bagd, de um sunismo enfim triun-
fante e disposto a uniformizar, pela lei, a autoridade do Estado e o ensino, assim
como a observncia muulmana unitria; por outra parte, o ressurgimento de
correntes msticas  sufistas  por muito tempo combatidas, as quais buscavam
expressar os sentimentos religiosos mediante a ascese e a rejeio do mundo. O
Magreb demonstrou, em um primeiro momento, uma acolhida calorosa a estes
msticos9. No sculo VI/XII, nasceram conventos, confrarias, dentre as quais a
primeira foi a Kadiryya, ligada a Bagd; no Marrocos, a shdhiliyya foi popu-
larizada por al-Djazl, no sculo IX/XV, desempenhando um papel poltico e
religioso. Ambas as tendncias do sculo V/XI tiveram profundas repercusses
no tocante s relaes do isl com as sociedades africanas. A primeira, rele-
vada em considerao pelo malikismo, tornou mais intransigente a comunidade
muulmana face s tradies culturais africanas. A outra difundiu, com grande
sucesso, o culto dos homens santos, portadores de uma beno (baraka) igual
quela que os hdjdj trazem da peregrinao para as necessidades de cura e
adivinhaes, estando prontos, a este ttulo, pra islamizar certos aspectos muito
antigos da vida cotidiana dos africanos. Aos olhos da pessoa comum, sempre
prontas a crerem em milagres, os santos e os marabutos aparentam ser mais
acessveis que o deus majestoso e longnquo do isl. Ainda mais importante, o
culto dos santos locais por vezes elimina a obrigao de peregrinao  Meca
e recobre frequentemente um culto precedente. Deste modo desenvolveu -se,
primeiramente no Magreb, em seguida e sobretudo aps o sculo XI/XVII, na
frica Ocidental, o personagem do marabuto10, figura social dominante do isl
ocidental.
    Por conseguinte, o desenvolvimento da lei muulmana, sob os encargos dos
especialistas apoiados pelo Estado, a ascenso do movimento mstico dizem


9    Segundo H. MASS, 1966, p. 175: "Em nenhum outro pas muulmano, talvez, o culto dos santos foi
     levado to longe; pode-se dizer, sem hesitar, que ele constitui a nica religio dos rurais e sobretudo das
     mulheres, acompanhado de ritos animistas e naturistas."
10 O termo sequer possui sentido no Magreb e tampouco na frica negra. No primeiro caso, aplica-se
   simultaneamente ao santo personagem fundador da confraria e ao seu tmulo; na frica subsaariana,
   ele designa qualquer personagem mais ou menos versado no conhecimento do Coro e de outros textos
   sagrados, servindo-se destes conhecimentos para atuar como intercessor entre o crdulo e Deus, extraindo
   da fonte divinatria tradicional e da prtica dos talisms. Aos olhos do pblico, ele  sbio no sentido
   religioso do termo, mgico e curandeiro.
118                                                                                  frica do sculo VII ao XI



muito mais intimamente respeito  vida das sociedades africanas que  f ou 
simples observncia. Nestes campos doutrinrios, o encontro no seria to fcil
quanto nos precedentes. O perigo consistia neste caso em confundir as normas
da vida social do Oriente Mdio e a f muulmana.
    Uma quarta dimenso poderia surgir: referente ao mimetismo cultural no
tocante ao modelo rabe. Portanto, aquela em respeito  renncia das tradies
culturais africanas e  adoo total dos valores do mundo rabe, fossem esta
ltimas consideradas como inviveis e superiores ou impostas. Desta feita, a
confuso poder-se-ia estabelecer entre arabizao e islamizao.
    Podemos medi-la, antes mesmo de iniciar a anlise daquilo que foi a implan-
tao como sistema social do isl na frica; trata-se de um encontro entre povos,
culturas e sociedades de tradies diferentes, de um encontro cujos resultados
dependem da capacidade de uns e outros em separarem, ou no, aquilo simples-
mente cultural em relao ao globalmente religioso, em definitivo, da permeabi-
lidade das sociedades e culturas africanas, em nada passivas, s novas influncias
vindas do Oriente11. Equivalendo igualmente a dizer que toda abordagem do
Isl, na qualidade de sistema social, passa pelos fenmenos da islamizao e da
conquista, do encontro de povos. A coexistncia geogrfica tornava inevitvel
o dilogo entre muulmanos de diversas origens e entre muulmanos e no-
-muulmanos, pela definio de um espao islmico dentro do qual alcan-
aramos a seguinte problemtica: haveria ou no uma unidade, no sentido
monoltico do termo, ou seria uma unidade com diversidade?


      Um perodo de confortvel coexistncia: sculo V/XI
    Muito amide h em demasia acentuada fundamentao sobre a convicta
luta travada pelos berberes contra algumas das formas tomadas pela islamiza-
o12 para dizer que na frica negra a conquista fora violenta. Com efeito, os
rabes frequentemente interromperam a sua progresso rumo ao Sul, quando
surgiam resistncias demasiado difceis a vencer, em contextos histricos e pol-
ticos desconhecidos, mal conhecidos ou dificilmente controlveis: destarte foram


11    Muitas hipteses e ensaios foram construdos sobre este tema. Buscou-se saber se existia um Isl negro.
      Trata-se de esquecer a potncia unitria da religio em questo e insistir sobretudo nos aspectos sociol-
      gicos da sua integrao no mundo, em detrimento do aspecto metafsico e teolgico das coisas. O ponto
      de vista, claramente adotado neste volume  sistema social  aparenta melhor dar conta, no atual estdio
      das pesquisas, das concluses atualmente possveis a oferecer.
12    Consultar mais adiante o captulo 3.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                                  119



os seus avanos, muito limitados, em direo  Nbia, rumo ao Fezzn e ao
Kawr, em direo ao Ss e ao Saara Ocidental13. Nestas regies, os dirigentes
do Imprio aplicaram a mesma poltica que ao Norte dos Pirineus ou na sia
Central: conscientes dos perigos que comportavam as derrotas militares macias,
eles se contentaram com expedies de sondagem, confiadas a grupos restritos.
Malgrado o tom triunfalista concedido, posteriormente, ao relato de algum
dentre estes avanos, a eles no sobrevieram grandes efeitos e os seus resultados
foram frequentemente compromissos, assegurando sem riscos o fornecimento de
escravos aos muulmanos14, garantindo, no entanto, a paz s populaes do Sul.
A islamizao do Norte do continente, no Egito e no Magreb, adquiriu contor-
nos, em longo prazo, que sero examinados em outros captulos deste volume15.
    Efetivamente, a penetrao do isl em direo ao mundo negro reveste-se
de aspectos muito complexos, essencialmente, no-violentos neste primeiro
perodo, como atestam muitos trabalhos recentes16: os berberes do deserto, com
a sua adeso ao isl, os mercadores ibaditas ou sufritas, os representantes dos
interesses fatmidas desempenharam papis diferentes, embora sem notvel
violncia. Inclusive sobre os mtodos empregados pelos almorvidas junto aos
povos negros, ao final desta primeira poca, as opinies divergem. Temos sem
dvida tendncia a dar crdito  literatura histrica, inteiramente de origem
rabe e rabe-berbere, fortemente marcada com o selo da vitria dos crdulos
sobre os infiis, fossem eles "pessoas do Livro", assim como, pela nfase sobre
alguns heris, dentre os quais, o mais popular e smbolo de mitos continua a
ser `Ukba ibn Nfi'.
    Esta situao est na base de um debate, surdo e sutil, no qual os pressupostos
ideolgicos de diferente natureza no esto ausentes. Ele ope duas tendncias,
na explicao ou, antes, na interpretao histrica da converso da frica medi-
terrnea ao isl. De modo geral, os historiadores orientais e do Oriente Mdio,
rabes ou no, os das regies africanas culturalmente influenciadas pelo Oriente
Mdio (Egito, Sudo, Lbia e Tunsia), os do restante do Magreb, e, alm disso,

13   Consultar mais adiante o captulo 3.
14   Cerca de 500 escravos por ano, entregues em Assu pelo rei da Nbia; 360  nmero simblico  entre-
     gues pelo Fezzn e pelo Kawr (IBN `ABD ALHAKAM, 1947, p. 63): ou seja, no total, cerca de 1300
     a 1500 escravos por ano.
15   Consultar a seguir este captulo 3 e, mais adiante, os captulos 7 e 9.
16   Consultar a seguir este captulo 3 e T. LEWICKI, 1981; D. C. CONRAD e H. J. FISHER, 1982, 1983.
     Estes autores tentaram demonstrar que a ao almorvida no tivera a violncia a ela atribuda at os dias
     atuais. Conferir Z. DRAMANIISSIFOU, 1983b; "As relaes histricas entre a lngua rabe e as lnguas
     africanas", comunicao do colquio rabe-africano de Dakar (conferir nota 2 do presente captulo). Nesta
     comunicao, referir-se sobretudo s notas 11 e 26. Consultar igualmente A. R. BA, 1984.
120                                                          frica do sculo VII ao XI



islamizantes, aceitam mal ou rejeitam sem nuances a tese da conquista rabe
como preliminar  converso das populaes. Corroborando com o seu ponto de
vista, eles avanam o argumento segundo o qual o isl no admite as converses
foradas. Os outros historiadores africanistas, quase todos especialistas como os
primeiros nas questes muulmanas e relativas  expanso do isl, esto divididos
entre aqueles que apoiam as suas anlises sobre o fenmeno da conquista e aque-
les que delas aceitam o fato, conduzindo-o s suas justas propores histricas,
sob uma tica lanada sobre longo perodo. Estes ltimos so encontrados junto
aos ocidentais, os africanos subsaarianos e, em menor escala, junto aos magre-
binos (sobretudo Marrocos) berberizantes. Simples querelas entre escolas? No
acreditamos e sugerimos que este debate seja importante para a compreenso
do conjunto dos fatos humanos  sociais e culturais  relacionando rabes e
povos da frica. Em suma, pensamos que o encontro entre estes povos tenha,
primeiramente, sido uma questo mais poltica e econmica que religiosa.
    Na realidade, durante estes primeiros sculos, o mundo muulmano tem
preocupaes muito distintas, por um lado, no Norte do Saara, e no Sul deste
deserto, bem como na frica Oriental, por outra parte.
    No primeiro caso, a importncia estratgica  imensa, a um s tempo, como
trampolim para a progresso da expanso, em direo  Espanha, das ilhas
mediterrneas e da Itlia, assim como na qualidade de bastio a defender contra
qualquer retorno ofensivo dos cristos, sempre ameaadores.
    O Egito, sob esta dupla perspectiva, ocupa uma posio mundialmente
importante, bem conhecida pelos bizantinos;  necessrio, a qualquer preo,
mant-lo na "Casa do isl" (Dr alislm) e levar os seus habitantes, atravs dos
mais diversos meios, a no romperem o acordo obtido junto a eles, no momento
da instalao das tropas rabes. Neste caso, a organizao fortemente estruturada
da comunidade islmica impe-se; os cristos e os judeus devem integrar-se
como dhimm.
    Os berberes ocuparam em alguns sculos imensos espaos, do Atlntico ao
Nilo; eles os percorreram e controlaram graas ao dromedrio. Apresentando
modos de vida muito variados nestas regies, do total sedentarismo ao mais
completo nomadismo17. No Norte do continente, foi-lhes igualmente imposto
aceitarem as necessidades guerreiras, portanto polticas, do Dr alislm; embora
a ortodoxia se esforce para erradicar os traos perigosos  alm disso dur-
veis  do sincretismo religioso, ela permite aos berberes uma certa forma de


17    Consultar mais adiante o captulo 9.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                               121



originalidade no isl e uma certa autonomia lingustica, tolerando por muito
tempo tradies que no afetam o essencial da vida muulmana. Um exem-
plo marcante  oferecido em referncia a Ibn Tmart Khaldn: "Ele adorava
frequentar as mesquitas e, em sua juventude, recebeu o apelido de Asafu, em
outros termos, de claridade, em virtude do grande nmero de velas que tinha o
hbito de acender18." Ibn Khaldn assim respeitava uma antiga tradio berbere
das luzes,  qual Santo Agostinho, tambm ele, faz aluso19. Outros exemplos,
mais profundos, da manuteno destas prticas, podem ser citados. Em certas
cabilas dos Aurs (Awrs), da grande Cablia, do Nilo e do Atlas, os berberes
conservaram a sua lngua e os seus costumes, fontes da sua originalidade. Por
exemplo, a existncia do direito consuetudinrio e da organizao judiciria no-
-cornica so caractersticas do direito berbere, ilustrado pelo sermo coletivo
como prova, os regulamentos e tarifas de penalidades, conhecidos sob a nomen-
clatura Iknn (knn), a justia feita por juzes-rbitros ou por assembleias de
localidades. Estes costumes no entravam em conflito com o direito cornico.
Talvez, eles tenham constitudo um elemento de resistncia face aos progressos
do sunismo-malikismo uniformizador da poca almorvida20; encontramos, em
todo caso, o eco destas particularidades na organizao do mundo almorvida.
Ao preo desta relativa liberdade21, os berberes do Norte admitiram a sua inte-
grao e ofereceram a sua participao militar, mesmo se ela fosse, por vezes,
objeto de barganhas entre prncipes rivais, particularmente nos sculos IV/X e
V/XI. Aps os grandes enfrentamentos do sculo II/VIII, a integrao territorial
e poltica dos berberes do Norte estava praticamente garantida; ela foi vital para
o mundo muulmano22.
    Ao Sul do Atlas e na frica Oriental, nenhum perigo relevante impe polticas
comparveis. A massa de berberes nmades, a Oeste, adere relativamente rpido
ao isl. As fontes rabes permanecem imprecisas sobre este ponto, Inclusive Ibn
Khaldn se contradiz; ele diz, por um lado, que os lamtna "abraaram o islamismo
algum tempo aps a conquista da Espanha pelos rabes23" e, em outros trechos, que


18   Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. II, p. 163.
19   No tocante  condenao das refeies fnebres no cemitrio, com velas, conferir J.-P. MIGNE (org.),
     1844-1864, vol. 33, p. 91.
20   A escola malikita considera al-`amal (hbitos costumeiros) como um dos princpios jurdicos. O recurso
     ao costume  possvel quando ele no est em oposio ao isl: justamente ento, graas ao malikismo,
     os costumes berberes foram reconhecidos na frica do Norte.
21   Consultar o captulo 3 e, mais adiante, o captulo 9.
22   Consultar o captulo 3 e, mais adiante, o captulo 9.
23   Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. II, p. 65.
122                                                                        frica do sculo VII ao XI



eles se converteram "no terceiro sculo da hgira24". Reteremos, no atual estdio
das pesquisas, com T. Lewicki, que a islamizao dos berberes em contato com os
negros comea durante os anos 117/735-122/740. Tratava-se de um incio, pois
que, na mesma dcada, berberes massfa mostravam-se refratrios ao isl25. Aqui,
portanto, nenhuma precipitao, nenhuma presso em favor da integrao: ainda
no sculo VIII/XIV, Ibn Battta nota que, em mais de um aspecto, as tradies
sociais dos berberes do deserto, a seu ver muito chocantes junto aos muulmanos,
permaneceram intactas: o direito muulmano no era estritamente respeitado,
anda menos as regras do casamento e os princpios rabes do pudor26.
    A fortiori, os muulmanos mostraram-se prudentes quando abordaram as
regies do continente onde se encontram povos com forte coerncia cultural
e social  mesmo se esta coerncia aparenta-se inslita para mais de um autor
rabe  e onde existem, contrariamente ao que se pensou e se escreveu por muito
tempo, to antigos e fortes Estados quanto queles encontrados no mesmo
momento na frica do Norte e na Europa Ocidental. O mundo soninqu, no
Oeste, aquele dos Zaghwa ou dos Knembu, no centro, aquele dos falantes
banto, no Leste, surpreenderam os muulmanos, mundos esses para os quais,
rapidamente, estes ltimos deram importantes descries etnogrficas. Eles no
buscaram convert-los, ainda menos a faz-los abandonarem as suas prticas
religiosas, culturais e sociais antes do sculo VI/XII. Eles se contentaram, por
muito tempo, com uma coexistncia comercial, vantajosa para eles, bem como
com relaes frequentemente cordiais com os prncipes e mercadores negros.
Esta poltica, com o tempo, no foi infrutfera, inclusive do ponto de vista reli-
gioso. Comeamos a melhor conhecer as formas da converso, provavelmente
no sculo IV/X, de prncipes e mercadores, no vale do Senegal27. Igualmente 
bem conhecido o caso de Gao. O historiador Ibn al-Saghr escreve, em 290/902-
-903, uma crnica sobre os imames rustumidas de Thert. Nela ele menciona
que existiam, entre 159/776 e 166/783, relaes comerciais entre Thert e Gao,
cujo soberano apresentava-se como muulmano28.
    No Knem, a passagem dos soberanos ao isl teve lugar, provavelmente, no
sculo V/XI, antes mesmo da mudana de dinastia que conduziu Hummay


24    Ibid., p. 67.
25    Consultar a seguir este captulo 3 e, mais adiante, o captulo 11.
26    J.-L. MOREAU, 1982, p. 99.
27    Consultar a seguir este captulo 3 e, mais adiante, o captulo 13.
28    J. M. CUOQ, 1975, pp. 55-56; a seguir neste captulo 3; T. LEWICKI, 1962, p. 515; Z. DRAMANI
      ISSIFOU, 1982, pp. 162-164.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                                    123



(478/1085-490/1097) ao poder29; talvez este ltimo seja simplesmente respon-
svel pela introduo do sunismo, contempornea, neste caso, com aquela que
realizavam ento os almorvidas, mais no Oeste. Ao que tudo indica, o comr-
cio desempenhou, na regio do Chade, um importante papel na progresso do
isl para o Sul. De certo modo, converter-se era um meio de proteo contra a
venda escravagista, forte no eixo entre o lago Chade e o Mediterrneo, dando
crdito a al-Ya'kb30, desde o sculo III/IX. Eis um aspecto de transformao
social das sociedades africanas, para o isl pouco previsvel, embora certamente
importante31. Provavelmente, ele no desempenhou o mesmo papel, naquele
momento, na frica Oriental, tamanha a provvel reduo da venda de escravos
zandj, posteriormente  revolta que leva o seu nome e que devastou o Iraque no
sculo III/IX32. No possumos, at o momento, informaes to seguras sobre
este perodo no tocante  costa oriental da frica e no referente a Madagascar
quanto quelas concernentes  frica Ocidental e Austral, excetuando-se inte-
ressantes descries, a exemplo daquela de al-Mas'd.
    Deste modo, sem guerras, sem proselitismo violento, o isl marcou pontos,
em terras africanas, antes do sculo VI/XII33. Estes avanos no tm relao
decisiva com o Dr alislm; elas no so irreversveis; elas se referem muito
mais aos prncipes e mercadores que aos cultivadores. Ao menos antes dos
grandes esforos para a extenso do Dr alislm, os quais vo se desenvolver
a partir do sculo V/XI, certas posies importantes so conquistadas. A coe-
xistncia produziu resultados mais brilhantes que o aparente, mesmo se ela
acompanhou-se de compromissos importantes. Frequentemente, contenta-se
com uma converso assaz formal do prncipe: a anedota relativa  converso de
um rei de Mallal, muitas vezes citada pelos autores rabes, esclarece muito a
este respeito34; saber-se-ia, posteriormente e com alguma surpresa, que o mansa

29   D. LANGE, 1977, p. 99.
30   J. M. CUOQ, 1975, pp. 48-49.
31   A constatao , para a regio chadiana, de um grande interesse histrico, caso dermos crdito  persis-
     tncia das menes, oferecidas pelas fontes at os dias atuais, das vendas de escravos a partir das regies
     da frica Central.
32   Consultar, acima, o captulo 1 e, mais adiante, o captulo 26.
33   O conjunto de problemas, impostos, de modo geral, pelas relaes entre as populaes da frica Sudanesa
     (cronologia, natureza destas relaes, formao estatal etc.), foi levantado e discutido, com a ajuda de
     hipteses pertinentes, por grande nmero de pesquisadores. Entre os mais recentes, podemos citar: T.
     Lewicki, 1976; J. KIZERBO, 1978; J. DEVISSE, 1982; Z. DRAMANIISSIFOU, 1982. Certamente
     omitimos muitos outros, entretanto, chamamos particularmente a ateno do leitor para a qualidade
     cientfica construtiva das pesquisas de dois jovens pesquisadores senegaleses sobre o Takrr e a sua pro-
     blemtica. Trata-se de Y. FALL (1982), pp. 199-216 e de A. R. BA (1984), em sua tese sobre o Takrr.
34   J. M. CUOQ, 1975, p. 102 e 195-196. Igualmente conferir o captulo 3.
124                                                             frica do sculo VII ao XI



do Mali, aquando da peregrinao, demonstrou no Cairo um conhecimento
bem superficial sobre as regras da vida muulmana35. Assim sendo, do mesmo
modo, no tocante aos prncipes, os quais no tardariam a suscitar a crtica dos
pios juristas em razo do seu "falso isl", o que se poderia dizer relativamente aos
comerciantes "convertidos" por ocasio de um contato rpido, fiis associados,
embora muulmanos um pouco superficiais? Quanto ao mundo rural, no seria
o caso de tocar em suas crenas e prticas: isso causaria a desorganizao de
toda a sociedade e dos seus modos de produo. Tampouco e inclusive pode-se
excluir que,  imagem de um rei do Congo perante o cristianismo, ao final do
sculo XV, os soberanos que se converteram ao isl nele haviam encontrado
uma vantagem decisiva: romper com as numerosas obrigaes que comportava
o exerccio do poder na frica, das quais contrapoderes organizados controlavam
a execuo, bem como no compartilhar com os dependentes as vantagens da
nova crena. O isl pde at certo ponto, enquanto no surgissem ao Sul do
Saara fortes contrapoderes religiosos, exaltar os antigos poderes at a autoridade
monrquica: a questo mereceria ser seriamente estudada.
    Outros tipos de compromisso, ainda mais importantes, surgem atravs de
fontes rabes. Consiste em um lugar comum, muito amide repetido, que o ouro
desapareceu quando os produtores converteram-se ao isl. Trata-se aqui de uma
eventualidade to desastrosa para o Norte, cliente, que para os reis, intermedi-
rios. Os muulmanos no buscaram converter os produtores de ouro; eles eram,
contudo, numerosos36. No sculo VIII/XIV, pretende-se dar uma aparncia legal
a esta situao exorbitante: Al-`Umar explica que o mansa do Mali tolerava, em
seu imprio, a "existncia" de populaes fiis  religio tradicional africana, s
quais ele no impunha o pagamento da "taxa dos infiis", porm empregando-as
na extrao do ouro nas minas37. Dificilmente conceberamos que tenha sido
diferente at data mais prxima dos nossos tempos. A razo fundamental con-
siste, evidentemente, na busca e na produo do ouro terem sido acompanhadas
de numerosas operaes mgicas, ligando-se a uma rede de crenas das quais
conhecemos somente os vestgios38.
    Acontece igualmente no tocante ao ferro e este caso talvez seja ainda mais
decisivo, comparativamente ao caso do ouro. Em muitas zonas, os relatos rela-
tivos ao poder associam estreitamente os mestres da fundio e os ferreiros 


35    Al-`Umar, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 273 e seguintes.
36    Consultar mais adiante o captulo 14.
37    Al-`Umar, em: J. M. CUOQ, 1975, pp. 280-281.
38    J. DEVISSE, 1974.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                           125



autoridade real. O "ferreiro"  um personagem ligado, tambm ele,  magia, 
perigosa potncia dos mestres do ferro; paulatinamente, este personagem torna-
-se de mais em mais antittico que aquele do marabuto; desde 1960, o sbio
sovitico D. A. Olderogge sublinhara esta oposio e desenvolvera um raciocnio
paralelo quele que precede39.
    O marabuto  ou mais simplesmente o portador do direito muulmano  deve
eliminar a influncia do ferreiro: foi justamente o que mostrou A. R. Ba em sua
tese, O Takrr dos sculos X e XI. A islamizao em vias de aprofundamento, embora
permanecesse urbana e precria, ali teria sido acompanhada por uma ruptura da
anterior aliana entre poder real e ferreiros. Estes ltimos, primeiramente afasta-
dos de qualquer influncia poltica e temidos em virtude da sua potncia mgica e
econmica, constituem-se pouco a pouco em um grupo isolado, progressivamente
atingido por interdies, conquanto sempre crdulo. Eles no so rejeitados da
vida econmica, dada a essencialidade do seu papel. Progressivamente, nasce em
seu entorno a noo de casta; no sculo XII/XVIII, o seu isolamento religioso e
social  muito grande: o desprezo que os atinge  proporcional ao medo inspi-
rado pela sua potncia mgica e pela sua reputao, vinda de longe, de homens
poderosos. Tal exemplo provavelmente permite medir a qual ponto a introduo
do sistema social muulmano  lenta, longa, prudente em suas primeiras formas,
quando ela encontra hbitos to enraizados; ele talvez permita ler diferentemente
o relato dos enfrentamentos entre Sumaoro, rodeado de "maus ferreiros pagos", e
Sundjata, igualmente mestre do ferro, que no cede mais s presses dos adeptos
da religio tradicional africana. De onde deriva a importncia da batalha terica
empreendida em torno da adeso pessoal de Sundjata ao Isl.
    Em definitivo, os grupos de mercadores muulmanos instalados ao Sul do
deserto aceitaram ali viver em comunidades minoritrias, amplamente islami-
zadas pelos africanos, porm absolutamente no-dominantes; elas aceitaram, da
parte dos soberanos autctones, um tratamento comparvel quele das minorias
crists ou judias em terras islmicas, provavelmente com menos encargos. Assim
explica-se o sucesso dos bairros muulmanos, prximos das cidades reais e fre-
quentemente cercados de mesquitas, a partir dos quais, entretanto, no se exerce
nenhuma presso sobre o conjunto da populao.
    Os ibaditas40 desempenharam, evidentemente, um grande papel durante
este perodo. O seu comportamento to aberto face aos Sdn (negros) pode


39   D. A. OLDEROGGE, 1960, pp. 17-18.
40   O fundador desta seita chamava-se `Abdallh ibn Abd; mas, como se adotou, h muito tempo, a leitura
     Ibd (e ibaditas), ns continuamos a empreg-la.
126                                                                                   frica do sculo VII ao XI



surpreender, se considerarmos a acrimnia por eles manifestada relativamente
a outros muulmanos. Deve-se perceber nesta postura, sem dvida, uma das
provas da existncia, durante estes sculos, das relaes mantidas pelos berberes
saarianos com os negros.
    As fontes ibaditas, recentemente sadas da obscuridade em que a ortodoxia
lhe manter durante sculos41, abordam muito bem o conjunto da situao.
Elas oferecem exemplos da real tolerncia religiosa recproca e de uma ampla
compreenso  provavelmente intolervel do ponto de vista sunita-malikita 
perante as culturas africanas, impregnadas pela religio tradicional africana e
qualificadas como "pags", e as suas prticas sociais.
    As coisas mudam, por toda parte, aps o brilhante sculo IV/X fatmida, to
importante para a frica, com o triunfo, no sculo V/XI, da ortodoxia sunita e
o surgimento de fenmenos religiosos muito menos propensos  tolerncia, tais
como o movimento almorvida, ao menos em seus aspectos africanos. Inclusive
na frica Oriental, o sculo VI/XII marcaria um recrudescimento dos com-
portamentos muulmanos perante as culturas e sociedades africanas. Abre-se
assim uma segunda poca na qual o Isl iria, de mais em mais, esforar-se para
uniformizar os modos de vida nas terras sob o seu controle.


      Tenses sociais e culturais ligadas ao sucesso
      do Isl aps a metade do sculo XI
      As causas de tenso
    Caso fosse necessrio levar ao p da letra o sentido do hadth, segundo o
qual "os anjos no entram em uma casa onde h um co", o contato Isl-povos
africanos teria permanecido sem futuro, tamanha a intensidade, nas sociedades
africanas, com que os ces constituem um elemento permanente da vida doms-
tica. Notemos, contudo, que o Isl lutou firmemente contra as formas excessivas
da presena canina, em particular contra a cinofagia.
    Em definitivo, no plano social tudo dependia da permeabilidade das socie-
dades africanas a eventuais mudanas propostas ou impostas pelo Isl, haja
vista que nenhum obstculo de princpio existia em relao  adoo da crena
islmica em um deus nico.



41    T. Lewicki, trabalhos diversos (conferir bibliografia), e conferir mais adiante o captulo 11.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                        127



    As sociedades africanas negras, nas quais o Isl penetra, so rurais; elas tm
laos funcionais com a terra e com todos os elementos do seu imediato entorno
(o mineral, o vegetal, o ar e a gua). Nestas culturas, agrrias e fundadas na
oralidade, podemos a rigor descobrir algumas analogias com alguns dos aspec-
tos socioculturais do mundo rabe pr-islmico. Isso no quer dizer que as
estruturas sociais do mundo islmico assemelhem-se quelas da frica. Nas
sociedades africanas, a famlia nuclear  homem, mulher, filhos   desconhecida
como elemento autnomo; a famlia extensa, reunindo os descendentes de um
ancestral comum soldados entre si por laos de sangue e da terra,  o elemento
de base, unido por uma grande solidariedade econmica. A histria do flores-
cimento destes grupos sociais bsicos at os limites da segmentao, aquela das
formas inerentes  sua associao em grupos mais abrangentes que reconhecem
um ancestral comum  mais ou menos fictcio  ou que exploram um territrio
comum, no ser aqui retraada. O importante  que estas comunidades, qual
fosse o seu tamanho, consideram que os seus laos  mesmo os fictcios  so
religiosos e que dela participa a totalidade dos ancestrais, dos vivos e das futuras
crianas, segundo uma corrente contnua de geraes, em ligao sagrada com o
solo, o mato, a floresta e as guas que fornecem a alimentao, aos quais se devem
oferecer os cultos. Estas estruturas sociorreligiosas so indissociveis sem des-
truir todo o seu equilbrio de vida; elas se sentem solidrias graas a uma longa
conscincia histrica de um passado comum e em razo da lentido das muta-
es que elas integram. Ao seu lado, outras sociedades mais complexas existem:
aquelas onde as condies geoeconmicas favorveis permitiram a acumulao
de reservas que autorizaram a manuteno de categorias sociais especializadas
em distintas tarefas; algumas so de ordem socioeconmica e garantem uma
crescente diviso do trabalho; outras so sociorreligiosas: mantm, graas s
atividades dos mgicos, dos adivinhos, dos curandeiros e dos intercessores entre
o visvel e o invisvel, uma coeso da sociedade que, em sua ausncia, ameaa-
ria a diviso do trabalho; outras mais representam uma organizao poltica
mais elaborada comparativamente s sociedades agrrias puras. Em todo caso,
todavia, o homem africano sempre concebe a sua viso do mundo como um
gigantesco enfrentamento de foras a conjurar ou explorar. E, segundo a justa
expresso de Joseph Ki-Zerbo, "neste oceano de fluxos dinmicos em conflito
(o homem) fez-se peixe para nadar42". Com base em duas tramas diferenciadas,
uma mais urbana e outra sempre rural, as sociedades africanas realizaram-se


42   J. KIZERBO, 1978, p. 177.
128                                                                            frica do sculo VII ao XI



muito diversamente, em funo de estar na savana ou na floresta, ser sedent-
rio ou nmade, agricultor ou criador de animais, caador-coletor ou membro
de uma comunidade urbana. Muito amide, contudo, a unidade da percepo
religiosa acerca das relaes sociais prevalece face s diferenas das realizaes
materiais; muito frequentemente, o papel da me e da mulher na transmisso
dos bens permanece considervel. Os modos de vida continuam muito distantes
do cl e da famlia patrilinear dos rabes, com os quais o direito islmico est
em quase perfeita concordncia.
    Justamente neste terreno surgem tenses e conflitos, no momento em que se
torna imperativa, sobretudo na frica Ocidental, a presso dos juristas muul-
manos que gostariam de levar os africanos a seguirem mais integralmente "um
modelo de sociedade" supostamente islmico, segundo estes juristas, quando ele
talvez fosse, antes e sobretudo, prprio ao Oriente Mdio. Entretanto, as for-
mas tomadas por estas tenses foram muito diferentes em funo das regies e
dos momentos, igualmente segundo tipos de relao de fora de toda ordem, e
primeiramente numricos, entre muulmanos e no-muulmanos, entre muul-
manos vindos do Leste e do Norte e muulmanos africanos. Trata-se, portanto,
de uma histria rica e complexa, quando tentamos medir a maneira pela qual o
isl transformou, ou no, as sociedades da frica Negra.
    Quando as coisas acontecem em uma cidade,  provavelmente autorizado, no
sculo IV, assim como atualmente em Ruanda43, abandonar qualquer referncia
s antigas solidariedades rurais, mudar de nome, misturar-se na nova comuni-
dade islmica que satisfazia a todas as necessidades, bem como nela fundar, no
momento oportuno, uma nova famlia sobre novas bases ideolgicas. A mudana
de nome permite uma passagem elegante e simples, do ponto de vista social,
da comunidade original para a comunidade muulmana44. Na frica saheliana,
esta passagem aparenta ter sido tranquila, embora no denote justamente uma
ruptura total: um nome muulmano fortemente africanizado  Muhammad
torna-se por vezes Mamadu, `Al torna-se Aliyu45  acrescenta-se s antigas
palavras africanas: estas ltimas no se islamizam segundo cdigos muito pre-
cisos seno em longo prazo. H aqui uma fuso lenta, quer se tratem de reis,
mercadores ou rurais, ainda aps o sculo VI/XII. No acontece de modo similar
em outras regies do continente, onde as rupturas onomsticas foram macias


43    J. KAGABO, 1982.
44    Na Somlia, esta mudana foi total.
45    Ben Achour, 1985. Este fenmeno no  exclusivo dos africanos negros. Junto aos berberes, Muhammad
      torna-se Hamm, Moha, Mh etc.; Ftima transforma-se em Tm, Tima etc.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                         129



e dramticas46. Bem entendido, os prprios muulmanos esto divididos no
tocante aos comportamentos a serem adotados face s tradies socioculturais
africanas. Os juristas vindos do Norte, imbudos da sua cincia e orgulhosos da
sociedade que eles representam, tendem a ver nestes atos "no-conformes" das
sociedades negras as provas de que elas pertencem a um mundo estrangeiro ao
Isl e que deve ser combatido; os muulmanos negros, nascidos nestas sociedades
e tentando nelas viver, por vezes muito minoritrios, tolerados e conviviais, so
facilmente levados a admitirem que as prticas dos cultos africanos no consti-
tuem um obstculo real  adeso ao isl; eles podem ir muito longe nesta tole-
rncia e os seus correligionrios vindos do Norte acusam-nos deliberadamente
de laxismo, cumplicidade e at de traio ao isl. So todavia os segundos e no
os primeiros que assegurariam, como veremos, os sucessos mais duradouros do
isl do sculo VI/XII ao sculo X/XVI.
    A intransigncia jurdica, com efeito, tenciona as situaes ao extremo
quando se trata de modificar as regras matrilineares de sucesso para impor os
hbitos patrilineares cornicos. Ainda nenhum estudo completo mostra as eta-
pas deste conflito, certamente nascido desde o sculo V/XI e objeto de posterior
tratamento: o autor declara no-muulmanos aqueles que recusam a legislao
muulmana e procedem  transmisso matrilinear da herana47. A presso neste
mbito foi exercida, primeira e visivelmente, no nvel dos detentores do poder:
as genealogias revelam a hesitao entre os dois modos de transmisso48.
    Foi provavelmente ao nvel da concepo da propriedade dos bens que a
irredutibilidade revelou-se mais forte de uma sociedade a outra. Al-Bakr mostra
muito bem, quando se refere s "decises estranhas" de `Abdallh ibn Ysn49, a
repugnncia de um proprietrio individual e individualista perante as formas
"socializantes" de igualdade e redistribuio dos bens que o almorvida pretende
impor. A fortiori, a comunidade africana das terras, do trabalho e das colheitas
no era absolutamente compreensvel para muulmanos acostumados  aventura
da riqueza individual, familiar e urbana. Uma vez mais, a consulta de al-Maghl
coloca, em difceis termos, o problema da propriedade dos bens e a sua resposta
, novamente, radical50.


46   Exemplos estritamente comparveis no caso da converso crist, por exemplo, aps 1930 no Ruanda-
     -Burundi.
47   J. M. CUOQ, 1975, p. 424.
48   J. M. CUOQ, 1975, p. 344, por exemplo.
49   Al-Bakr, 1913, p. 319 e seguintes; consultar mais adiante o captulo 13.
50   J. M. CUOQ, 1975, p. 410 e seguintes.
130                                                                                frica do sculo VII ao XI



    Aparentemente mais benignos, embora no seguidos de efeitos, so os pro-
testos contra os "modos africanos": a exagerada liberdade dos comportamentos
femininos, a ausncia do vu51, a nudez dos corpos dos adolescentes; os autores
rabes no podem seno oferecer testemunho52 ou manifestar condenao53 face
aos escndalos que ofenderam a sua viso.
    Em todos estes nveis bsicos das suas respectivas organizaes e pouco con-
ciliveis, as sociedades rabe-muulmanas e africanas, muulmanas ou no, no
encontraram conciliao entre os sculos VI/XII e X/XVI. Inclusive, elas por
vezes sem dvida tiveram tendncia a ver nestes modos antagnicos de vida
social um sinal de incompatibilidade entre o isl e a religio tradicional africana.


      O papel desempenhado pelos soberanos africanos
   Amigos do isl ou muulmanos desde o sculo IV/X no Takrr, desde o
sculo VI/XII no Mali, por exemplo, eles em geral se mostraram assaz facil-
mente satisfeitos com uma diviso do espao e do trabalho que lhes assegurava,
nas cidades islamizadas, total ou parcialmente, os quadros administrativos dos
quais eles necessitavam, ao passo que o mundo rural constitua uma reserva
inesgotvel de mo-de-obra agrcola e servil, relativamente  qual no havia
urgncia de converso. A prtica islmica aparenta acomodar-se a esta situao:
no reconheceria ela um territrio privilegiado  Dr alislm  ao lado daquele
onde habitam infiis e "pagos" (Dr alkufr, Dr alharb)? Contentando-se com
a converso dos prncipes, garantia, em longo prazo, da converso das massas,
o Isl provavelmente adotou uma postura "pastoral", igualmente encontrada na
Europa crist dos mesmos perodos54.
   Os soberanos africanos, mesmo muulmanos, no foram ativos conversores, 
o mnimo que se pode dizer. No entanto, no foram as tentativas de integrao
poltica e social, com base no modelo islmico, que faltaram em seu caso e junto
aos seus conselheiros muulmanos da frica subsaariana. Eventualmente, chega-


51    O uso do vu no  uma obrigao no Isl e o vu, tal como compreendido em certos pases muulmanos,
      no  ortodoxo.
52    Ibn Battta, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 311.
53    Al-Maghl, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 431.
54    Conquanto no se deva abusar das comparaes histricas,  contudo interessante notar que os mto-
      dos de penetrao e instalao do cristianismo e do Isl nas sociedades "pags" apresentam por vezes
      importantes analogias; a violncia crist era, todavia, incomparavelmente maior, por exemplo, contra os
      eslavos e os escandinavos.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                     131



-se ao ponto de acus-los de mimetismo cultural. Tal  o caso, por exemplo, do
mansa Kank Ms, voltando do Oriente com o arquiteto al-Shil, para o askiya
Muhammad I ou na dinastia de Kano, Muhammad Rumfa, ambos requisitando
os servios do piedoso consultor jurdico tlemceniano al-Maghl ou que-
les do egpcio al-Suyt, ao imperador Mansa Sulaymn do Mali (742/1341-
-761/1360), amigo do sulto marinida Ab `Inn, que atraiu para si sbios e
consultores jurdicos malikitas. Muitos autores tendem a compartilhar o severo
julgamento de al-Idrs: "Os eruditos e os homens superiores praticamente no
existem em seu meio e os seus reis absorvem tudo o que sabem do governo e
da justia atravs dos conhecimentos que recebem de certos visitantes eruditos
do Norte55." Esta postura assumida consiste provavelmente em esquecer duas
coisas essenciais. A primeira  que este julgamento no considera certas coisas
e conforta a ideia, to perigosa e segundo a qual nada daquilo que  importante
aconteceu na frica por seus prprios meios, mas sempre do exterior. Por outra
parte, ainda mais grave, pensar como al-Idrs consiste em esquecer que as
sociedades africanas haviam inventado, bem antes do seu contato com o Isl,
formas de organizao poltica, hoje cada vez mais conhecidas, embora ignora-
das durante sculos por muulmanos e cristos. As modalidades de exerccio do
poder, fortemente integradas  religiosidade africana, no podiam ser abando-
nadas sem que toda a sociedade consentisse atravs de uma total adeso ao isl:
j evocada, a anedota, contada diferentemente por al-Bakr e al-Dardjn, diz
respeito  converso de um rei do Mallal, no sculo V/XI56. Este ltimo adota
o isl, em condies muito dramticas, aps uma longa estiagem, com vistas a
obter do deus dos muulmanos a chuva necessria  vida do seu povo: ao faz-lo,
ele age conforme o modelo africano de poder. O preo da converso era alto:
destruio de todos os instrumentos do culto ancestral, caa aos mgicos, runa
das tradies seculares. A resposta do povo  surpreendente: "Ns somos teus
servidores, no mude a nossa religio!" Temos, desde logo, o direito de questio-
nar se os soberanos negros no absorveram, na sociedade muulmana, com a
crena em um deus nico, atitude cmoda e eficaz para a administrao do seu
imprio, assim como se estas tentativas de "modernizao" no constituiriam
uma sucesso de buscas de equilbrio entre os "pesos" das tradies africanas
pr-islmicas e as "exigncias da nova religio".
     possvel, com a ajuda de alguns exemplos concretos, interrogar-se sobre o
real alcance da poltica real de integrao islmica.

55   B. LEWIS, 1982, p. 61.
56   J. M. CUOQ, 1975, p. 102 e 195-196.
132                                                          frica do sculo VII ao XI



    O sculo VIII/XIV  frequentemente considerado na historiografia africana
do Sul do Saara como sendo aquele do apogeu do Imprio Malins, caracte-
rizado por um notvel desenvolvimento econmico, uma influncia poltica
internacional, composta de relaes diplomticas com o Marrocos e o Egito,
e sobretudo pela decisiva implantao do isl. Portanto, um triunfo da religio
muulmana  fortemente sublinhado por Jean-Luc Moreau quando escreve:
"Com o imprio do Mali, o isl ultrapassaria mais uma etapa no Sudo oci-
dental: ele estaria, ao menos parcialmente, na origem de uma nova sociedade57."
Joseph Ki-Zerbo apresenta o mansa Ms como um "fervoroso muulmano que
re-impulsionou a expanso do isl58".
    Sem negar a sinceridade da f islmica do mansa Ms-o-Peregrino, sem
tampouco negar certa presena  essencialmente nas cidades  do isl, ns pen-
samos que estes dois autores, os quais inclusive no so os nicos, incorreram
em exageros, a um s tempo, em razo do relativamente importante volume de
documentos sobre o Mali do sculo VIII/XIV59 e pela euforia panegirista das
fontes rabes e sudano-berberes do sculo XI/XVII. Inclusive, Joseph Ki-Zerbo,
ele prprio, reconhece que "a massa de camponeses (constituindo a imensa maio-
ria das populaes do Mali), permanecia animista, postura que o mansa tolerava
com a reserva da obedincia e do tributo60". Em suplemento, no vemos como o
mansa Ms teria logrado relanar "a expanso do isl", sem ter, como inclusive
nenhum outro soberano malins, realizado qualquer guerra santa (Jihad).
    Ultrapassemos um sculo e meio: o final do sculo IX/XV e o X/XVI ofe-
recem outros exemplos da vontade manifesta de transformar profundamente os
hbitos africanos, assim como da indeciso real em face destas presses.
    O askiya Muhammad, quem se tornou mestre de um poder graas a um
golpe de Estado, levou muito adiante a tentativa de integrao poltica e social
em conformidade com a tica cornica. Para legitimar o seu golpe de Estado,
ele se serve de todos os meios que a religio muulmana podia lhe oferecer.
Apoiando-se no "partido muulmano" dos letrados de Tombouct, ele faz a sua
peregrinao  Meca no final do sculo IX/XV. Ele obtm a delegao do poder
espiritual sobre o Sudo, com o ttulo de califa. No interior, ele se cerca quase
exclusivamente de conselheiros muulmanos. Diante da dificuldade em resolver
os problemas sociais que lhe impunha uma parte da herana recebida de Sonni

57    J.-L. MOREAU, 1982, p. 103.
58    J. KIZERBO, 1978, p. 136.
59    Ibn Battt, al-`Umar, Ibn Khaldn etc.
60    J. KIZERBO, 1978, p. 136.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                                  133



`Al o Grande, ele solicita quatro consultas a trs juristas de primeira ordem:
`Abdullh al-Ansammn, de Takeda, al-Suyt e al-Maghl. Este ltimo faz, ao
que tudo indica, o maior esforo, atendendo o pedido do askiya, uma espcie de
manual do prncipe muulmano perfeito, Respostas s questes do emir alHdjdj
`Abdullh ibn Ab Bakr61. Sob demanda de outro soberano negro, o tlemceniano
escreveria tambm uma obra no mesmo estilo, As obrigaes dos prncipes (Rislat
alMlk), destinada ao rei de Kano, Muhammad Rumfa (867/1463-904/1499).
    O askiya Muhammad, preocupado em estar conforme ao modelo de cali-
fado, adota as insgnias orientais de poder: um braso, uma espada, um Coro;
fixando para as sextas-feiras o dia das audincias, conduzindo guerras santas
 embora sem sucesso  contra os "infiis". Ele no pode, todavia,  imagem
dos imperadores malineses que o precederam, abandonar as tradies africanas
que o determinam conservar atributos ancestrais herdados do tempo dos shi:
tambor, fogo sagrado, um protocolo preciso regendo a vestimenta, o penteado, os
adornos, a imagem das insgnias do soberano, a existncia do hori farima na alta
administrao, em outros termos, o grande padre do culto aos ancestrais e gnios.
    Em definitivo, ele no aplica os conselhos de alto rigor dados por al-Maghl
contra os "falsos muulmanos", dos quais, dando crdito ao jurista, o askiya estava
rodeado. As lies de al-Maghl permaneceram letra morta na frica Ocidental
at o momento em que `Uthmn Dan Fodio fez delas uma doutrina e uma arma
contra os prncipes tornados inteis para a expanso do isl.
    No Bornu, herdeiro do Knem, os soberanos (mai), verdadeiros deuses vivos,
cercam-se entretanto de letrados muulmanos, de imames. Estes ltimos ten-
tam, sob o reino de `Al ibn Dnama (877/1472/910/1504), conformar a moral
dos notveis com as prescries do Coro. O "sulto" dobra-se, porm, os not-
veis recusam-se a obtemperar. Igualmente, a justia dos kd permanece confi-
nada nas cidades e no suplanta o direito os grupos africanos. Os pases haussa
convertidos ao isl no sculo VIII/XIV pelos missionrios fulas e manden, os
soberanos e os zeladores, tm as mesmas dificuldades para fazer adotar a religio
muulmana pelas populaes rurais e at urbanas. No Katsina, aps a passagem
de al-Maghl, para tentar purificar o morno isl dos haussa, "bosques sagrados
dos animistas foram cortados e, em seu lugar, mesquitas foram construdas". O
modo de vida do Oriente Mdio se impe na sociedade muulmana: harm e
vu para as mulheres, utilizao dos eunucos, sistema fiscal inspirado no Coro
etc. Mas, todas estas no seriam durveis. Finalmente, a aparente inao dos reis


61   Z. DRAMANIISSIFOU, 1982, pp. 34-40. Texto de al-Maghl, em: J. M. CUOQ, 1975, pp. 398-432.
134                                                                               frica do sculo VII ao XI



recobre, ao que tudo indica, a conscincia que eles tiveram segundo a qual os
obstculos sociais levariam  rejeio do Isl.
    Foi fora do seu controle, "na base", que se efetuaram em definitivo os mais
reais progressos do isl durante estes sculos. Comerciantes africanos, wangara
e posteriormente dilas, bem como "missionrios" muulmanos de todo tipo,
levaram aos campos e s cidades, at as bordas da floresta, a mensagem do Pro-
feta. Esta expanso lenta no atrapalhou, por si, os hbitos das sociedades no
interior das quais nasciam pequenos centros muulmanos. Elas continuaram, por
exemplo, a produzir bens culturais conformes s suas tradies: a descoberta, to
notvel nestes ltimos anos, de uma arte do estaturio em terra cota, em pleno
Mali "muulmano" testemunha a este respeito62.


      Os resultados
    Eles so, no atual estdio das pesquisas, muito dificilmente apreciveis, des-
concertantes com aparentes contradies.
    O Isl trouxe certamente ao Sul do Saara, desde o sculo IV/X, a escrita e as
tcnicas de pesagem63. Em qual medida a primeira e as outras transformaram
hbitos anteriores? Quais teriam sido estes ltimos, relativamente  conservao
dos traos do passado,  contagem, ao conhecimento matemtico?
    Pode-se perfeitamente dizer que a literatura rabe ao Sul do Saara aparenta
ter ignorado as culturas africanas e as suas lnguas. Conviria ainda, para decidir
a respeito e possuir a justa medida, conhecer o contedo das bibliotecas das
instituies de ensino, na Mauritnia, no Mali, no Burkina Fasso, no Nger, no
Chade e no Sudo. Do mesmo modo, o estudo cientfico da evoluo de certas
lnguas africanas pelo contato com a lngua rabe. Provavelmente,  exato dizer
que os letrados "em rabe" ignoraram, porque elas eram "pags" e mais simples-
mente ainda porque eles no tinham conscincia da sua existncia, as culturas
africanas antigas; neste aspecto, eles se mostraram to pouco perspicazes quanto
 maioria dos missionrios cristos, alguns sculos depois. Seria provavelmente
injusto perceber nesta ignorncia um desprezo pr-estabelecido perante as socie-
dades e culturas rabes.



62    No tocante a esta arte, conferir B. de Grunne, 1980. Igualmente: La rime et la raison, 1984, e UNESCO,
      Histria Geral da frica, vol. IV, ilustraes das pginas 187, 188, 190 a 193.
63    J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIx e colaboradores, 1983, pp. 407-419.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                     135



    Podemos constatar que estes letrados, no Norte do Saara, na maioria das
vezes estrangeiros  regio at o sculo IX/XV  provavelmente no seria este
o caso na frica Oriental , transportaram consigo as suas preocupaes. Estas
ltimas talvez no mais possussem, aps o sculo VII/XIII, o brilho da grande
do florescimento cultural rabe-muulmano, embora o Marrocos do sculo VII/
XIII, por exemplo, seja ilustrado por grandes pensadores; talvez muitas reas
do saber tenham definhado ento no mundo muulmano, mesmo se algumas
permaneciam vigorosas. Talvez se tenha em demasia recopiado os autores pas-
sados, talvez o formalismo jurdico tenha suplantado o pensamento vivo. Seria
necessrio, uma vez mais, para validamente decidir sobre o que convm concluir,
esperar o exame minucioso de milhares de manuscritos, ainda no estudados,
inclusive quando so classificados; conhecer, por exemplo, o tesouro guardado na
Biblioteca Karwiyyn de Fez e da Biblioteca Real de Rabat, onde se encontram
tantos manuscritos vindos de Tombouct e obras concernentes  frica.
    No momento, pode-se estimar no incio ser normal que estes letrados malinkes,
fulas, soninqus, berberes ou negro-berberes, tais como os mourimagha kanko
de Jenn, os baghayogho, os kat, os ibn Dansal al-Fln, os Ahmed Bb, os
ibn al-Mukhtr Gombele de Tombouct etc., ligados  letra e ao esprito do isl,
pensassem em rabe, escrevessem em rabe, comentassem os livros oriundos da
tradio islmica. Este islamo-centrismo sem dvida ofereceu s universidades de
Tombouct uma fama menos impactante que o desejado atualmente pelos africa-
nos negros, os quais nada encontram nelas, segundo o que sabemos atualmente,
dos traos do seu passado cultural64. Isso no permite dizer seno uma coisa: os
letrados muulmanos pertenciam a um mundo assaz fechado, ainda minoritrio
frente a uma massa de fiis da religio tradicional africana que eles estimavam
dever converter e, talvez, conduzir a outros modos de vida; isso no os predispu-
nha a se tornarem historiadores esclarecidos do passado africano e nem sequer
testemunhas da vida das sociedades autctones por eles qualificadas como "pags".
     sem dvida neste terreno que a pesquisa est menos avanada e a sereni-
dade do pesquisador  mais difcil de ser respeitada.


     Islamizaoarabizao
   Foi provavelmente no Knem e na frica Oriental que, pela primeira vez,
surgiu a ltima fase de transformao das sociedades africanas: aquela que "ara-

64   Z. DRAMANIISSIFOU, 1982, pp. 196-203.
136                                                           frica do sculo VII ao XI



biza" as suas origens e o seu passado; a frica Ocidental no tardaria a seguir
a mesma via.
    Quando, no sculo VII/XIII, os genealogistas da dinastia knembu buscam
reconstituir as nobres origens dos prncipes reinantes, eles no hesitam perante
uma inovao capital:  no Oriente e mesmo nas tradies bblicas que eles vo
sorver65. Desta forma,  lanada uma ideia que viria a ter um imenso sucesso
e modificaria profundamente as relaes culturais entre sociedades africanas e
mundo muulmano. Somente  tolerante se vindo do Oriente; de origem nobre
somente de origem oriental, de passado confessvel a no ser caso em relao
com o Profeta, com a sua famlia ou seus prximos. A reescritura da histria
africana comea pela primeira vez  ela foi seguida por muitas outras  e a "nova
histria" levar  caducidade e at ao ridculo as origens csmicas ou animais
dadas, por vezes por si mesmas, s sociedades africanas.
    A literatura genealgica floresceria, aps o sculo VIII/XIV, na frica Orien-
tal, onde ela tornou-se uma das armas das lutas ideolgicas entre tendncias
muulmanas opostas e entre casas reinantes at em pleno sculo XIII/XIX66.
Muito resta a fazer para clarificar esta literatura. Na frica Ocidental, a trans-
formao dos relatos de origem relativos aos manden  espetacular67; aquela
referente s origens dos fundadores do Wagadu  equivalente. Pouco a pouco,
todo grupo islamizado de qualquer importncia descobre um ancestral seu vindo
da Arbia. Encontra-se igualmente fortalecido um esquema de origem bblica,
segundo o qual o povoamento da frica teria sido realizado a partir do Oriente
Mdio, com todas as consequncias difusionistas deste esquema; tambm o
hbito de descobrir origens "brancas"  neste caso, rabes e persas  a tudo
aquilo que tivesse algum valor na frica contribui para desvalorizar totalmente
a culturas africanas, aquelas mais remotamente atestadas. Neste ponto comea o
eclipse da histria africana; ele foi consideravelmente agravado, posteriormente,
pelos europeus.
    Nenhuma famlia, nenhum grupo social dominante escapa ao final desta
lgica da "arabizao"68. Os yarse do Burkina Fasso, no sculo XIX, reivindicam-
-se ao seu turno origens rabes, em um momento no qual a sua supremacia
comercial de dois sculos e a posio privilegiada que lhe valera um verdadeiro
compromisso histrico passado com os mosi de Ouagadougou aparentavam-


65    D. LANGE, 1977.
66    M. ROZENSTROCH, 1984.
67    A. COND, 1974.
68    D. HAMANI, 1985.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                     137



-lhes comprometidos69. Inclusive os longnquos betsileo, do centro de Mada-
gascar, sem nenhuma tradio muulmana, fascinados pelo "modelo civilizador"
muulmano, buscaram origens rabes para os seus prncipes; eles no seriam,
ademais, os nicos a proceder deste modo em Madagascar70.
    Definitivamente, no causa espanto algum o fato do Isl ter inspirado tama-
nha confiana e tal entusiasmo. Conviria proceder a um estudo livre de paixes
sobre este fenmeno, tamanha a sua importncia e o tal o seu aspecto caracters-
tico, durante vrios sculos, de uma "tentao oriental" das sociedades africanas
islamizadas.
    Este "esnobismo genealgico" garantiu a ancianidade e a qualidade do isl
praticado por aqueles que se reivindicam ancestrais rabes; ele garante igual-
mente os "direitos histricos" de aristocracias em vias de instalao. Ele tomou
tanta importncia ao final, particularmente na regio entre o Chade e o Nilo,
que se tornou o processo normal de arabizao-islamizao de numerosos gru-
pos. Os maba constituem um bom exemplo. O desenvolvimento do isl havia
prosseguido no Knem quando chegaram os bulala, os quais contriburam para
estender a sua influncia rumo ao Leste, pelo contato com outros povos, entre
os quais os maba. Estes ltimos, at os sculos IX/XV e X/XVI, haviam vivido
 margem de qualquer influncia islmica. A chegada junto a eles, verdadeira
ou lendria, de um rabe supostamente de origem abssida, Djm, ao final
do sculo X/XVI, mudaria o curso da histria. Djm esposa a jovem de um
cl maba. A sua entrada no grupo maba facilita as coisas. Com a progressiva
expanso da nova religio, alguns cls maba reivindicam uma origem rabe-
-muulmana. Os contatos que haviam existido entre os rabes e os autctones,
s vsperas da penetrao muulmana, no se revestiam de nenhum carter
religioso ou cultural. Estes contatos repousavam essencialmente sobre o trfico
negreiro, o comrcio do ouro e do marfim. As cabilas ("tribos") rabes tratavam
ento os maba como amby (primitivos), ao passo que os autctones retribuam
aos seus hospedes o apelido de aramgo (selvagens, brbaros). At este momento,
nem lnguas e tampouco conceitos religiosos os uniam. Brevemente, os rabes
misturam-se com as grandes famlias maba; eles se tornam semissedentrios e
adotam mais ou menos as mesmas tradies islmicas dos mama. A recipro-
cidade das influncias entra em jogo. Os maba aprendem a lngua dos rabes,
acreditando assim aprender o Coro sem dificuldades. A religio ordena a obser-
vncia dos ritos islmicos, mas, igualmente, o conhecimento da lngua do Coro.

69   A. KOUANDA, 1984.
70   E. de FLACOURT, 1661.
138                                                          frica do sculo VII ao XI



Com o desenvolvimento do ensino do isl, os maba "buscam no somente imitar
o modelo rabe que o isl prope, tentando identificarem-se com os rabes. Em
cada cl, o chefe instalado e mantido pelo poder busca para si uma origem no
mundo rabe-muulmano: remonta-se na maioria dos casos at a famlia do
Profeta ou, mais modestamente, a um dos seus quatro companheiros diretos".
Ainda mais, escreve Issa Khayar, "adotar a religio dos rabes, os hbitos dos
rabes, a lngua dos rabes, ligar-se aos outros povos rabes ou muulmanos, tal
foi a tendncia irresistvel de toda a sociedade maba71".
    A islamizao e a arabizao conjuntas tiveram repercusses muito impor-
tantes no conjunto da sociedade maba. Os maba tentam inconscientemente
reescrever a sua histria, fabricando genealogias fictcias acompanhadas de uma
mudana total dos nomes.
    Tais mudanas de nome, mais ou menos coletivas, explicam a dificuldade
que hoje encontram os historiadores a remontar a linha do tempo. O exemplo
dos maba , do ponto de vista que nos interessa, globalmente notvel. Em seu
meio, junto aos waddaianos em geral, o sistema dos valores culturais, prprios a
eles, serve como substrato e coabita com a tica islmica. Porm, o Isl, graas
ao dinamismo cultural que lhe confere um sistema de ensino escrito e oral,
tende a superar ou at mesmo a revirar estes valores socioculturais tradicionais,
tornados latentes.
    Este ltimo elo da cadeia de transformaes, trazidas pelo Isl  vida das
sociedades africanas,  provavelmente aquele de maiores consequncias. Ele con-
duz a uma "desculturao" total das sociedades que globalmente ele atinge, cria
um "arabismo negro", com ares de contrassenso histrico, alm de empobrecer
culturalmente a sociedade muulmana. Numerosas sociedades africanas no
reagiram como os maba. Elas mediram os traumas provocados pelas escolhas
propostas ou impostas. A sua reao chegou por vezes at a recusa do Isl. As
mais concernidas por este problema so, em sua totalidade, certamente aquelas
que, mantidas  margem das transformaes trazidas pelo Isl, deste ltimo
foram as vtimas, atravs de um certo desprezo pelas suas crenas e por meio de
uma ideologia que os reduzia a uma inesgotvel fonte de escravismo, do qual
tiravam proveito essencialmente os propagadores do Isl e dos Estados negros
comprometidos com o trfico. Em muitos casos, portanto, a desconfiana foi
despertada e conduziu determinado nmero de sociedades africanas  rejeio
e ao enfrentamento aberto.


71    I. H. KHAYAR, 1976, pp. 43-44.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                      139



    O dilogo interrompido: final do sculo
    X/XVI  incio do sculo XI/XVII
    O final do sculo X/XVI e o incio do sculo XI/XVII constituem uma
importante etapa na histria oeste-africana. Pode-se inclusive considerar esta
poca como um ponto de inflexo. Preferimos a noo de parntese, fechando
um longo perodo, extremamente rico, marcado pelo nascimento e pelo desenvol-
vimento dos principais Estados negros subsaarianos, bem como pelo confronto
de duas concepes de mundo, prprias  religio tradicional do continente e
ao isl. Esta poca igualmente representa o ponto de partida de outro perodo,
certamente mais breve, embora composto de graves crises e incertezas, no curso
do qual a religio muulmana aparenta marcar um tempo de interrupo da
sua expanso ou francamente recua em muitas regies. A impresso maior que
se depreende equivale a um retorno s fontes, no tocante  maioria dos povos
africanos que tiveram contato com o isl. Este parntese era historicamente
necessrio, caso analisarmos o papel motor que esta religio desempenhou nas
relaes socioeconmicas africanas, papel que portava ainda maior perigo devido
s aparncias, pois que, embora o isl estivesse menos diretamente implantado,
sociedades agrrias sedentrias foram dominadas por oligarquias africanas com
o seu aval; regies do continente foram transformadas em reservas de escravos
com a sua cobertura.
    Foi no Imprio Songhai, sob a direo de Sonni `Al (868/1464-897/1492),
que se manifestou com maior vigor esta reao antimuulmana, no dirigida
contra pessoas, mas, antes, contra a influncia da ideologia que elas professam,
julgada incompatvel com os valores tradicionais africanos. Um determinado
nmero de condies favoreceu a entrada em marcha daquilo que seria perfei-
tamente chamar uma contraofensiva.
    No ltimo quarto do sculo VIII/XIV e ao longo dos primeiros anos do sculo
seguinte, produziu-se o enfraquecimento e em seguida o quase desaparecimento
do poder central do Mali, fonte de coeso poltica para os diferentes povos que
compunham o imprio. Encorajados pelas exaes de alguns governadores malia-
nos, Estados satlites, regies, camponesas e centros urbanos, livraram-se tanto
mais facilmente da autoridade local, tanto menos prximas estivessem da capital.
As populaes urbanas cosmopolitas, ricas, bem organizadas e estruturadas pelo
isl, ganharam ares de repblicas mercantis autnomas, quase independentes. Tal
o caso de Jenn, Walta e Tombouct, entre outras. No novo Imprio Songhai,
herdeiro pela conquista das provncias orientais malianas, as relaes entre Sonni
140                                                                     frica do sculo VII ao XI



`Al e estas cidades, sobretudo Tombouct, rapidamente adquiriram um car-
ter gravemente conflituoso. As razes econmicas e estratgicas esto entre as
numerosas causas do conflito. Entretanto, o que parece determinante,  a razo de
Estado, enraizando-se no primado da autoridade imperial. Sonni `Al, o imperador
mgico, criado segundo o esprito da potncia total do monarca africano  no
era ele apelidado Dli ou o Muito Alto  no pde suportar ver a sua potncia
sobrenatural, reconhecida pela grande massa dos seus sujeitos adeptos da religio
tradicional africana, ser posta em causa pelos letrados muulmanos de Tom-
bouct, alm de tudo estrangeiros72. Os berberes, os mestios negro-berberes e os
fulas, efetivamente formavam a esmagadora maioria da populao desta cidade.
A cidade estava sendo, portanto, severamente castigada na pessoa dos sbios, em
detrimento dos eruditos autores dos T' rkh73. O reino de Sonni `Al foi marcado
pelo enquadramento de Tombouct, pela supremacia de Gao74, em certo sentido,
pela revanche da religio tradicional africana sobre o isl. O golpe de Estado de
898/1493, organizado pelo askiya Muhammad, assim como a vontade deste ltimo
em tornar irreversvel a "opo islmica", somente so explicveis neste contexto.
    Excetuando-se dois intervalos  os reinos dos askiyas Muhammad I
(898/1493-934/1528) e Dwd (956/1549-990/1582)  caracterizados por
uma relativa recuperao de interesse pelo isl, unicamente junto a estes sobe-
ranos, o final do sculo X/XVI foi sobretudo marcado pela conquista marro-
quina. O esfacelamento do cenrio poltico e a desorganizao do tecido social
desdobram-se em um decisivo declnio das cidades songhai. As resistncias de
cerca de dez anos, conduzidas contra o ocupante marroquino, transferem as
populaes rumo ao Sul, principalmente para o Dendi. Elas ali se organizam
em pequenos Estados independentes com estruturas sociorreligiosas baseadas
nas tradies ancestrais, nada guardando do isl alm dos nomes.
    Um opsculo de Ahmed Bb (963/1556-1038/1628), geralmente conhe-
cido sob o nome de Mi'rdj alSuhd, escrito entre 1001/1593 e 1025/1616,
permite apreciar a extenso das reviravoltas sociais provocadas pela conquista
marroquina e pela intensificao da escravatura na virada dos sculos X-XI/
XVI-XVII. Chamado pelos mercadores do Twt a dar a sua opinio (fatw,
fatw) sobre as condies da servido e da venda de algumas populaes do
Imprio Songhai, Ahmed Bb tira proveito para esboar um quadro social e
religioso de grande parte do Sudo nigeriano do incio do sculo XI/XVII. Neste

72    A. KONARBA, 1977.
73    T' rkh ALSDN, 1900, pp. 105, 107, 110 e 115; T' rkh ALFATTSH, 1913-1914, pp. 80, 84 e 94.
74    Z. DRAMANIISSIFOU, 1983a.
O Isl como sistema social na frica, desde o sculo VII                      141



quadro, pretensamente conforme a tica islmica, o autor, com preocupao em
defender populaes vtimas de capturas anrquicas, mostra que o essencial das
atividades econmicas da poca repousa no trfico negreiro atravs do Saara.
Ele enfatiza o grau e as variaes da islamizao dos povos desta regio, onde o
recuo da religio muulmana  evidente.
    Ainda mais significativo deste recuo so, no vazio poltico, a desorganizao
social e religiosa criada pelo desaparecimento do Estado Songhai e as desor-
dens da ocupao marroquina, bem como o nascimento de um reino "animista"
reivindicando-se ostensivamente valores africanos. Trata-se do reino banmana
(bambara) de Sgou, no transcorrer do sculo XI/XVII. Era, a um s tempo,
a destruio do "poder imperial muulmano" que estaria em questo, porm
igualmente o tecido urbano do imprio que regressaria e a revelao  luz do
dia das formas de recusa do isl, empreendidas nos meios rurais desde o sculo
VII/XIII, malgrado os mansa do Mali e os askiyas do Songhai.
    O encontro do Isl com a frica foi uma das mais fecundas aventuras huma-
nas da histria universal. O Isl props aquilo que se poderia chamar "uma
escolha de sociedade". Os ecos se fizeram ouvir diferentemente no tempo e no
espao sobre o continente negro. O desafio era imponente. Tratava-se, nada mais
nem menos, de uma mudana de mentalidade, de concepo, de representao
do mundo, de comportamento. Tratava-se de trocar a sua cultura pela de outrem,
em suma, ser outro. Em que, pesem as resistncias entre o sculo I/VII e o incio
do sculo XI/ XVII, a frica Mediterrnea aceitou a alternativa muulmana.
Ela islamizou-se e ps-se a se arabizar.
    No restante da frica, o Isl no encontrou as circunstncias histricas favo-
rveis que explicaram os seus sucessos no Oriente, no Norte do continente e na
Espanha. Nem conquistador, nem mestre total do poder que ele foi obrigado
a deixar a prncipes ainda muito impregnados de tradies africanas  embora
eles se apresentassem como "estrangeiros" aos povos que eles governavam atra-
vs da sua prpria converso e, muito amide, graas aos proveitos que tiram
estes prncipes da venda de escravos , o Isl obteve, ao Sul do deserto e na
frica Oriental, substanciosos resultados religiosos. Ele ainda no encontraria,
no sculo X/XVI, a soluo de sntese que lhe permitiria integrar, sem proble-
mas, as sociedades negras e as suas culturas  "Casa do Isl". O parntese ora
inaugurado no favorece, tampouco, a descoberta desta soluo. Finalmente, em
mais de um ponto, a integrao social produzir-se-ia, no curso de acontecimen-
tos revolucionrios, no sculo XII/XVIII e incio do sculo XIII/XIX: ambos
estes sculos, unicamente, seriam o suficiente para que, em certas regies, o Isl
fosse um fenmeno que expressasse totalmente a vida social e cultural do povo.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                              143



                                      CAPTULO 5


            Os povos do Sudo: movimentos
                     populacionais
                                     Franois de Medeiros




    O problema e as fontes
    No atual estdio da historiografia africana, os estudos dos movimentos rela-
tivos ao estabelecimento dos povos da zona sudanesa da frica Ocidental  uma
tarefa essencial, porm fortemente complexa.
    O contexto no qual se coloca a questo est marcado por pressupostos que
tendem a afirmar o primado cultural de certos grupos de origem setentrional
ou oriental. Trata-se aqui de um problema central que devemos sempre guardar
no esprito, na justa medida em que ele toca os mtodos e orientaes funda-
mentais da histria africana, exigindo uma vigorosa reflexo crtica e um esforo
apropriado de desalienao.
    Na maioria das obras e monografias de histria africana, a questo dos movi-
mentos populacionais ocupa uma importante posio, figurando geralmente,
antes de qualquer outro desenvolvimento, considerando a noo muito difun-
dida de "migrao". O vasto espao coberto pelo Sudo favorece a circulao, os
encontros e intercmbios; a tentao  forte, na ausncia de slidas referncias
geogrficas e cronolgicas, em fazer chamado s influncias externas. Igual-
mente, a tradio oral que concerne s longnquas origens das populaes do
Sudo  frequentemente recuperada para estabelecer a filiao das suas culturas
com aquela de ancestrais prestigiosos. Enfim, o prprio tema das "migraes"
144                                                                             frica do sculo VII ao XI



, em si, um terreno propcio para novas interpretaes que exploram, entre
outros procedimentos, a via comparativa, esforando-se para encontrar nos fatos
e realidades da histria africana esquemas e estruturas provenientes de culturas
mais antigas, assimiladas a modelos.
    A hiptese hamtica que se prestava a explicar a evoluo das culturas africa-
nas nas pocas remotas foi amplamente utilizada como grade de interpretao
evidente1: os hamitas seriam uma populao africana distinta, com base na
relao da raa (caucasiana) e da famlia lingustica, dos outros negros da frica
Subsaariana. O ramo setentrional das populaes hamitas compreenderia os
habitantes do Saara, os berberes, os tubu e os fula. A hiptese hamita distingue
nitidamente os hamitas pastores dos negros agricultores, classificando-os em
duas categorias originais bem diferentes.
    Os primeiros, em virtude do seu parentesco "natural" com os povos fun-
dadores das civilizaes mesopotmicas e egpcias do Oriente Mdio, seriam
responsveis por todos os progressos e inovaes que a frica pde conhecer.
Nestas condies, o ofcio de criador-pastor encontra-se creditado de uma supe-
rioridade cultural. Estes nmades brancos teriam transmitido elementos da
"civilizao" aos negros sedentrios2.
    Autores como M. Delafosse, H. R. Palmer e Y. Urvoy, notadamente, os quais
esto na origem de boa parte dos conhecimentos sobre os povos do Sudo,
colocaram-se deliberadamente no campo difusionista3; Urvoy est inclusive
convencido que "o germe de uma organizao superior foi trazido pelos "bran-
cos"  frica4. A historiografia contempornea da frica est consciente dos
pressupostos ideolgicos que comportam estes postulados, objeto atualmente
de uma crtica metdica5. Contudo,  necessrio reconhecer que vrios dados
arbitrrios deste gnero ainda vigoram em manuais e outras obras. Pois, embora
o requestionamento destas teorias e da sua influncia esteja seriamente em curso,
 bem mais difcil substitu-las por novos aportes fundados em resultados de
uma pesquisa tornada mais exigente.
    Uma segunda srie de problemas deve-se ao fato de absolutamente no dis-
pormos a este respeito dos instrumentos apropriados a um tratamento exaustivo.


1     R. CORNEVIN (1960, p. 70-71) tenta explicar a dupla terminologia "camita" e "hamita", mas no retm
      seno a primeira. A obra de referncia  aquela de C. G. SELIGMAN, 1930, 1935.
2     C. G. SELIGMAN, 1930, p. 96.
3     M. DELAFOSSE, 1912; H. R. PALMER, 1936; Y. URVOY, 1936, 1949.
4     Y. URVOY, 1949, pp. 21-22.
5     W. MACGAFFEY, 1966; E. R. SANDERS, 1969.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                     145



O perodo considerado  I/VII-V/XI sculos   habitualmente classificado na
rubrica dos "sculos obscuros"6. Ora, malgrado o desenvolvimento crescente dos
estudos histricos africanos, a nossa informao continua ainda defeituosa para
os perodos antigos.
     verdade que a conquista da frica do Norte inaugura um perodo de conta-
tos propcios para a difuso de informaes mais slidas, comparativamente aos
sculos precedentes. Porm, cada vez mais atualmente so percebidos os limites
das fontes escritas emanadas dos gegrafos rabes7. Concebidas em funo do
seu meio cultural, elas so fragmentares e apresentam considerveis lacunas no
que diz respeito s populaes do Sudo. Os seus autores so, majoritariamente,
orientais, como al-Ya'kb, quem no ultrapassou o delta do Nilo; alguns so
obrigados a levar em conta interesses e planos expansionistas dos mestres para
os quais eles tiveram a misso de recolher informaes; assim procede no tocante
a Ibn Hawkal, que trabalha para os fatmidas. Al Bakr , incontestavelmente,
o autor cuja contribuio revelou-se a mais importante, porm ele no conhece
os pases que ele descreve a partir da Espanha, assim como os dados da sua
relao repousam, essencialmente, em compilaes de autores precedentes, nos
arquivos oficiais do califado de Crdova, bem como nos relatos dos viajantes
por ele interrogados8. Muito provavelmente, nenhum destes escritores visitou o
Sudo antes de Ibn Battta (sculo VIII/XIV).
    Todavia,  possvel abordar a questo segundo uma perspectiva renovada.
As colees de fontes rabes de J. M. Cuoq, N. Levtzion e J. F. P. Hopkins so,
juntamente com estudos particulares, obras preciosas de referncia, sobretudo
no momento em que a pesquisa de campo progride9. A tradio oral suscita
grande interesse em toda a frica. A lenda do Wagadu, os relatos dos cronistas e
genealogistas do Mali e do pas manden, as tradies dos songhai, zarma, haussa,
fula e mosi, conjugados com os esforos empreendidos no setor arqueolgico, da
Mauritnia ao Chade, permitem situar o tema em terreno mais crtico e ampliar
o campo de informao.
    A zona concernida  muito vasta. O "pas dos negros" (bild alSdn), atual
e globalmente designado sob o nome de Sudo, comporta no somente as bacias
do Senegal, do Nger e do Chade, mas, igualmente, os pases mais meridionais
da savana e da floresta. Aqui, o material documental  ainda mais sumrio e

6   Consultar os ttulos das obras de E. F. GAUTIER (1937) e R. MAUNY (1970).
7    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, Vol. I, captulo 5.
8   Consultar captulo 14 deste volume.
9   J. M. CUOQ, 1975; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981.
146                                                                           frica do sculo VII ao XI
Figura 5.1   A frica do Oeste no sculo XI. [Fonte: Franois de Medeiros.]
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                   147



a pesquisa encontra-se no estdio inicial. Trabalhos esto em curso em Kong
(Costa do Marfim), Begho (Gana), Poura (Burkina Fasso); mas, excetuando-se
Taruga e Ife, na Nigria, eles esto distantes de aproximar o que foi realizado
em Tisht, Tegdaoust, Kumbi Saleh, Jenn-Jeno, Niani e no pas Dagon. Esta
riqueza arqueolgica do Sahel oferece, precisamente, elementos interessantes
para reavaliar as relaes do Sudo com as suas margens saarianas, coisa da
qual no se pode absolutamente fazer abstrao. Deste ponto, torna-se possvel
examinar mediante quais condies os povos do Sudo ocuparam o seu meio
e como eles ali se integraram para conquistarem os meios da sua formao
cultural.


    A fronteira setentrional
    Durante muito tempo, houve o hbito de se olhar a zona subsaariana com
aquilo que se pode chamar "os culos do Isl", ou seja, a ver a sua histria
exclusivamente pelos olhos da sociedade muulmana estabelecida na frica do
Norte, de onde provm a maioria das nossas fontes escritas.  indiscutvel que o
perodo muulmano e a nova situao que ele instaura no Magreb representam
uma importante etapa para o conhecimento da zona subsaariana. O estudo dos
povos do Sudo inscreve-se, antes, neste quadro, pois que a cultura e a sociedade
rabe-muulmana veiculam representaes que condicionam as suas relaes
com o Sudo. Estes so materiais no negligenciveis para a histria e as fon-
tes rabes gozam de uma considerao favorvel, fortalecido pelo prestgio do
escrito to estimado junto s "pessoas do Livro". Porm, fazendo um leve recuo
em relao a esta postura muito difundida, constatamos que o conhecimento
do Sudo e dos seus povos , em larga escala, orientado e determinado pelas
preocupaes do mundo muulmano oriental e magrebino.
    A tendncia a definir o "pas dos negros" a partir do Norte da frica  muito
antiga; ela mergulha as suas razes na Antiguidade onde "o mundo conhe-
cido", gravitando em torno da bacia mediterrnea, polariza toda a geografia
do mundo. Esta estrutura no evoluiria fundamentalmente durante o perodo
islmico. Ademais, esta predominncia do Norte no tocante ao conhecimento
da frica Subsaariana, ao menos at o sculo IX/XV, reflete-se em numerosos
trabalhos contemporneos que no so, entretanto, obra de apstolos do difusio-
nismo. Esta situao teve como consequncia provocar um desequilbrio entre
a abundncia dos escritos sobre a circulao trans-saariana antiga e medieval
e as considerveis lacunas que caracterizam o conhecimento dos povos negros
148                                                                     frica do sculo VII ao XI



desta mesma poca. Contudo, esta constatao aparenta ser precisamente uma
razo suficiente para examinar o ambiente setentrional do Sudo que toca, por
intermdio do meio saariano, o mundo berbere.
    Os berberes desempenharam um importante papel no Oeste africano, do
ponto de vista dos movimentos populacionais. Desde a Pr-Histria, eles inter-
vieram constantemente no quadro do Saara, at as suas bordas meridionais.
Atribui-se a alguns destes antigos ocupantes do deserto do Fezzn, os gara-
mantes, um papel de ativos intermedirios entre a provncia frica e o "pas dos
negros", na poca romana10.
    Jamais realmente includos na zona controlada pelas sucessivas hegemonias
da frica do Norte, dos cartagineses at Bizncio, os berberes viram as suas pos-
sibilidades de mobilidade, em direo ao deserto, fortalecidas pala multiplicao
dos dromedrios. O seu esprito de independncia, quer se tenha manifestado
no passado pela criao de reinos e domnios sedentrios bem ao Norte ou
pela constituio de grandes confederaes nmades, nas margens do deserto
ou no prprio Saara, conduziu-os a manifestarem uma duradoura oposio ao
novo poder rabe; esta oposio expressa-se atravs de diversos movimentos de
resistncia, mas, sobretudo, pela acolhida favorvel que reservaram  doutrina
heterodoxa do kharidjismo11.
    Foram precisamente os principados e os centros controlados pelos kharidjitas
que tiveram a iniciativa no referente s relaes comerciais com o Sudo, desde
o final do sculo II/VIII. Os djabal nafsa, wargla, thert e sidjilmsa estiveram,
por vrias razes, engajados em tais iniciativas12.
    No Oeste, os berberes reuniram-se em uma vasta confederao que al-Fazr
(sculo II/VIII) denomina Estado de Anbiy, provavelmente formado pelos
grupos massfa, lamtna e djuddla13. Al-Ya'kb classifica-os entre os sanhdja,
cujo papel era importante em todo Saara Ocidental. Este vasto conjunto
encontrar-se-ia, no Sul, em contato com a rea controlada por Gana. Outro
grupo de berberes justape-se ao "pas dos negros", os hawwra, cujo habitat de
origem era a Tripolitnia. Para escaparem da conquista, eles se movimentam
para o Oeste e, pelo Magreb, participam dos diferentes levantes dirigidos contra
o poder rabe. No sculo II/VIII, eles aderem ao kharidjismo. Aps a ltima



10    Conferir R. C. C. LAW, 1967a, 1967b.
11    Consultar a seguir, o captulo 3, e mais adiante o captulo 10.
12    Consultar mais adiante o captulo 11.
13    Conferir J. M. CUOQ, 1975, p. 42.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                                       149



revolta kharidjita de Ab Yazd14, da qual eles tomam parte, eles se dispersam
rumo ao Oeste e para o Leste, ao passo que alguns fogem para o Sul. A sua
presena  assinalada nesta poca no Fezzn.
    Os hawwra esto igualmente presentes no Hoggar. O parentesco da deno-
minao hawwra com o topnimo do Hoggar em si consiste em uma indicao.
O historiador dos berberes, Ibn Khaldn, precisa que uma frao dos hawwra
atravessou as areias para se instalar ao lado dos lamta portadores de vu que
habitavam perto da cidade de Kw- Kw (Gao), no "pas dos negros"15.
    Os sanhdja desempenham um ativo papel no trfico trans-saariano que
utiliza a via ocidental; assim se explica, finalmente, a cristalizao, em um lugar
j ocupado h muito tempo e que toma ento o nome de Awdghust, de um
centro de comrcio brevemente dominado pelos lamtna e habitado, nos scu-
los III-IV/IX-X, pelos berberes da regio, por negros e comerciantes vindos do
Norte. Awdghust est interligada por uma rota com Sidjmsa, o grande porto
caravaneiro do Tafillet, no Sul do Marrocos.
    No Leste, os berberes ibaditas desempenham um papel anlogo no trfico
que tem como destino Ifrkiya ou a Tripolitnia. Eles participam do trfico de
escravos negros originrios do pas dos zaghwa, no Knem. Zawla, a capital
dos berberes, funciona como uma placa giratria, um entreposto de escravos
destinados a serem enviados rumo ao Norte.
    Al-Ya'kb, evocando este comrcio, no demonstra real emoo pelo fato de
estes muulmanos ibaditas praticarem o trfico de negros "pagos"; ele manifesta
somente leve espanto ao saber que "os reis do Sudo vendem assim sudaneses
sem razo ou sem o motivo da guerra16". O trfico aparece assim no como
uma necessidade ocasional dos agentes deste trfico, mas como uma atividade
econmica estvel, submetida s exigncias do mercado magrebino e medi-
terrneo, em outros termos, s leis da oferta e da procura. Assim, os berberes
ibaditas, dissidentes em matria religiosa em razo da sua adeso s doutrinas
kharidjitas, esto perfeitamente integrados ao mundo muulmano no plano
econmico. Fortalecidos pela sua posio privilegiada, em relao ao Sudo, eles
so as correias de transmisso de um conjunto rabe-berbere que se estende at
o Saara Meridional.


14   Consultar mais adiante o captulo 12.
15   Ibn KHALDN, 1925-1926, p. 9; J. M. CUOQ, 1975, pp. 42, 48. Igualmente consultar mais adiante
     os captulos 11 e 15.
16 Al-YA'KB, 1962, p. 9; J. M. CUOQ, 1975, pp. 42 e 48. Igualmente consultar mais adiante os captulos
   11 e 15.
150                                                                      frica do sculo VII ao XI



    Em meio aos grupos berberes do Saara, um posto especial cabe aos tuaregues,
embora eles no sejam por ns conhecidos sob este nome seno mais tardiamente.
A sua zona de deslocamento geogrfico  relativamente prxima o "pas dos negros".
Eles esto reunidos em vrias confederaes e ocupam um territrio estendido da
regio de Ghadmes, no Saara Setentrional, at o Nger, e mais alm, os pontos
fortes do seu habitat situam-se nas montanhas do Hoggar, no Ar e no Adrr, dos
ifoghas. Eles lograram preservar aspectos fundamentais da sua cultura, em que
pese pertencerem  religio muulmana; assim procede no tocante  sua lngua, o
tamashegh,  sua escritura, o tifinagh, bem como s suas estruturas sociais, carac-
terizadas por uma diviso em classes de guerreiros, mestres religiosos, tributrios,
escravos e artesos. Eles se atribuem, em seus mitos fundadores, uma ascendncia
que igualmente indica uma indiscutvel personalidade cultural. Segundo as suas
tradies orais, os tuaregues descenderiam de Tin Hinan, uma mulher originria
do Tafillet. Esta rainha, ancestral dos nobres kel rela, teria chegado ao Hoggar
em um camelo branco, acompanhada da sua servial Takamat, ancestral dos Dag-
-Ghali. As escavaes realizadas em 1929 e 1933, em um monumento funerrio de
Abalessa, a Oeste do Hoggar, aparentam confirmar estas tradies. Estas escavaes
permitiram descobrir um importante conjunto de objetos datados do sculo IV da
era crist, sugerindo igualmente a existncia de uma antiga rota interligando o Sul
marroquino e o Hoggar, em uma poca na qual o camelo era rei17.
    Com efeito, os tuaregues representam, no plano antropolgico, um elemento
intermedirio entre o mundo saariano e o Sudo. Eles se classificam em dois
grupos: aqueles que habitam no Tassili-n-Ajjer e no Norte Hoggar ou aque-
les do Sul, os awellimiden e os kel wi do Ar, mestiados com as populaes
negras haussas. Nestas condies,  provvel que os povos negros tenham exer-
cido influncias culturais junto aos tuaregues. H. T. Norris nota em seu meio
o emprego da adivinhao chamada tachchelt (a vpara); durante esta prtica, o
rptil  interrogado atravs de certas frmulas18. Igualmente, a serpente intervm
em muitas outras circunstncias; a sua funo protetora ou o seu surgimento em
sonhos, como mensageira do infortnio, conferem-lhe um significado ambguo.
O autor sugere, a partir de uma comparao com a vizinha lenda reportada por
Al-Bakr e atribuda ao povo zfkwa do Sudo, que tenha havido contatos
culturais entre os tuaregues e Gana19.


17    M. REYGASSE, 1940; 1959, pp. 88-108; M. GAST, 1972; consultar igualmente UNESCO, Histria
      Geral da frica, vol. II, captulo 20.
18 H. T. NORRIS, 1972, pp. 8-9.
19    Al-BAKR, 1911, p. 173; 1913, p. 330.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                              151



    Existem populaes negras no Saara, no deserto oriental e central, e sobre-
tudo no Oeste: estes ltimos, os hartn, constituem geralmente uma parte
da populao dos osis do Sul marroquino e da Mauritnia. A sua origem
ainda  discutida: foram classificados como berberes negros20. Atualmente, as
novas abordagens relativas ao povoamento antigo do Saara oferecem novas
elucidaes. Este problema no pode, portanto, ser abordado  margem de um
estudo integral sobre o papel do meio saariano na formao dos povos do Oeste
africano. H, efetivamente, srios indcios que levam a pensar que eles seriam
os "rgos-testemunhos" de populaes negras cujo movimento rumo ao Sul
remonta a tempos remotos.


     Tentativas de integrao dos povos
     africanos no crisol sudans
    Caso abordemos a questo das populaes do Sudo a partir de dados peri-
fricos, ou seja, exclusivamente fundamentados nas representaes e interesses
das sociedades mediterrneas, do Magreb ao Oriente, correremos o risco de
falsear as perspectivas de um estudo do meio especificamente oeste-africano e
das suas populaes. Os resultados de tal anlise no podem ser seno parciais.
 bem verdade que a nossa informao permanece fragmentada apesar dos
esforos realizados, assim como que numerosas questes ainda demandam res-
postas. Em primeiro lugar, tentaremos definir o terreno no qual as sociedades
africanas organizam-se e se estruturam no curso do perodo em questo. 
necessrio recorrer aqui aos resultados dos trabalhos que requereram as mais
recentes tcnicas de pesquisa como a paleoecologia, a palinologia e a arqueolo-
gia. Conjugando as suas contribuies com os dados mais acessveis da tradio
oral e das fontes rabes, temos a oportunidade de acompanhar o surgimento de
algumas hipteses slidas. Os trabalhos realizados na Mauritnia para a pr-
-histria saariana e os perodos mais tardios tm um valor exemplar. As regies
do Adrr, do Tgant e do Awkr so, deste ponto de vista, privilegiadas. As
pesquisas efetuadas por H. J. Hugot e P. Munson21 podem ser consideradas como
o smbolo daquilo que  aparentemente requerido para fazer avanar a questo
dos movimentos populacionais em outros setores da frica subsaariana. Elas
interessam diretamente o setor ocidental do "pas dos negros" e abrem perspec-

20   Consultar G. CAMPS, 1969, pp. 11-17; 1970, pp. 35-45; H. Von FLEISHHACKER, 1969.
21 P. MUNSON, 1968, 1970, 1971, 1980; H. J. HUGOT e colaboradores, 1973; H. J. HUGOT, 1979.
152                                                                             frica do sculo VII ao XI



tivas positivas para o conhecimento de grupos to representativos quanto os fula
e os soninqus22. O estudo dos movimentos populacionais desta zona remete-
-nos ao perodo neoltico do Saara e, sobretudo, ao maior evento geoclimtico
que constitui a aridez progressiva desta regio, tornada desrtica. O processo
entra em sua fase ativa aproximadamente no quarto milnio antes da era crist;
isso engendra considerveis mudanas scio-histricas que tocam o conjunto
do continente. Est atualmente estabelecido que o mapa do povoamento do
Saara neoltico difere sensivelmente daquele da poca que sucedeu a evoluo
climtica e podemos identificar os srios indcios de um povoamento negro,
majoritariamente sedentrio. O primeiro milnio da era crist poder-se-ia carac-
terizar pela permanncia de comunidades de camponeses negros, constituintes
dos ncleos solidamente implantados junto aos nmades lbicos-berberes e,
posteriormente, berberes. A presso destes ltimos desencadeia um progressivo
movimento de deslocamento para o Sul, ou seja, rumo  zona de implantao
que, em grande parte, foi conservada pelos povos negros. Cabe examinar em que
medida tais hipteses permitem apreender as questes fortemente discutidas,
relativas  origem dos fula e dos soninqus sahelianos.
    Os fula vivem em um espao muito extenso da savana oeste-africana e a
sua presena em muitas regies, entre o Senegal e Camares, confere certa
amplitude s questes relativas  sua provenincia, bem como s diferentes
etapas dos seus deslocamentos23. O seu modo de vida os faz surgirem em certos
lugares como marginais, comparativamente aos outros grupos, o que suscita
entre estes ltimos a opinio segundo a qual os fula seriam instveis do ponto
de vista fundirio, dedicando-se permanentemente a "migraes". Isso explica,
em grande parte, porque eles teriam oferecido s especulaes dos tericos do
difusionismo o terreno propcio onde se desdobram uma gama variada de teses
"hamticas". Buscou-se o bero do grupo fula nas mais diversas regies, dentro e
fora da frica; alguns viram nos ciganos ou nos pelasgos os ancestrais dos fula;
Delafosse os faz descenderem dos judeus-srios. Alguns lhes atriburam uma
origem indiana, apoiando-se no suposto parentesco dravidiano das lnguas fula
e serer; outros encontraram semelhanas antropolgicas e sociolgicas entre os
fula do Adamawa e os antigos iranianos; alguns os fazem descender dos rabes-
-berberes, ao passo que outros mais lhes atribuem uma origem nbia e etope,
em todo caso leste-africano, unindo-os aos nba do Kordofn24.

22    Conferir, sobre as condies geogrficas desta regio, C. TOUPET, 1977.
23    A literatura sobre os fula  considervel; conferir C. SEYDOU, 1977.
24    As diferentes hipteses foram expostas por L. TAUXIER (1937) e D. J. STENNING (1959).
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                  153



    A maioria destas teses  defendida com argumentos lingusticos e antropo-
lgicos de todo tipo. Nenhuma se impe seriamente. Elas tm em comum um
pressuposto "hamtico", segundo o qual os grandes Estados do Sudo devem-se
essencialmente a fatores externos, contribuies trazidas por povos pastores,
dentre os quais os fula. Estas concepes no encontram nenhum apoio nos
estudos atuais, os quais sugerem de modo convergente a seguinte orientao:
o fenmeno peul pertence ao meio oeste-africano; ele  parte integrante da
sua geografia humana, da sua evoluo histrica e da sua cultura. Fora deste
quadro, no h nenhuma possibilidade de resolver o problema da sua origem e
dos seus movimentos. No plano lingustico, um melhor conhecimento das suas
falas evidencia que a lngua fula tem um substrato indiscutivelmente africano,
oferecendo parentescos com o ulofe e o serer, mesmo se admitimos que ele-
mentos pr-berberes marcaram este ncleo. No tocante  sua provenincia, as
probabilidades pendem para a regio meridional da Mauritnia, onde os fula
encontravam-se no incio da era crist. Foram levantadas notveis correspon-
dncias e influncias da lngua fula nos topnimos das regies mauritanas do
Brakna e do Tgant. Esta srie de hipteses situa os peul na descendncia dos
pastores bovdeos atestados na Mauritnia no terceiro e segundo milnios antes
da era crist. Durante o perodo que nos interessa, eles se deslocaram ao mesmo
tempo em que as populaes negras, rumo ao vale do Senegal, participando da
formao de certos Estados, como o Takrr. A presena peul no oeste-africano
manifesta-se sobretudo no Fouta Toro, no sculo V/XI, embora a meno expl-
cita do seu grupo no seja absolutamente encontrada nas fontes rabes antes do
escritor al-Makrz e da Crnica de Kano (sculos VIII/XIV-IX/XV).
     necessrio aqui inserir algumas consideraes sobre os etnnimos peul
e tukuler (toucouleur): os peul autodenominam-se pullo (no singular) e fulbe
(no plural). Todos os indivduos que falam a sua lngua  o pulaar ou ful-
fulde  chamam-se halpularen. Este ltimo termo  igualmente a denominao
empregada pelos habitantes do Fouta Toro, os quais so designados nas outras
fontes europeias como tukuler (toucouleur). Os etngrafos e outros sbios da
poca colonial que encontraram os fula no Senegal comearam a distinguir os
pastores, por eles nomeados fula (peul, fulani), da populao sedentria falante
da mesma lngua, para a qual eles propuseram o nome tukuleur/toucouleur,
considerando-a como uma etnia diferente. Embora haja entre estes dois grupos
diferenas relativas aos costumes, estas diferenas encontram a sua origem na
esfera socioeconmica e no so em lugar algum de ordem tnica, lingustica ou
cultural. Aparentemente, resulta de uma ironia do destino que, na regio de onde
154                                                                                 frica do sculo VII ao XI



as migraes dos fula rumo ao Leste comearam, ou seja, no vale do Senegal (o
Fouta Toro), os fula devam ser designados por um nome que lhes  estranho25.
    Deixando  margem as especulaes e hipteses sobre a origem e as migra-
es pr-histricas dos fula, atualmente se reconhece, por pouco que no unani-
memente, que na poca histrica os fula vieram do Fouta senegals, devendo-se
considerar o grupo senegals vizinho dos seus parentes prximos, os serer e os
ulofes, como o ncleo a partir do qual outros grupos de lngua peul (pular ou
fulfulde) dispersaram-se e emigraram rumo ao Leste e para o Sul.
    Entre os sculos V/XI e IX/XV, os fula se dirigem para o Masina, passando
por Diombogo e Kaarta. Notar-se- que a instalao dos peul efetua-se em
contatos progressivos. Pequenos grupos e famlias instalam-se assim no Fouta-
-Djalon, provenientes do Ferlo e do Fouta Toro. Trata-se, portanto, de uma
integrao lenta, atravs de trocas com as populaes j estabelecidas aquando
da sua chegada26. Os movimentos dos peul no so em nada comparveis com
invases; por conseguinte, eles no respondem ao esquema clssico das "teorias
hamticas" acerca da transformao de estruturas arcaicas dos povos negros, por
elementos "hamitas brancos". A questo da origem dos fula e dos seus desloca-
mentos , certamente, essencial para a histria dos povos oeste-africanos, pois
que ela se refere a todos os grupos do Sudo, do Ocidente ao Oriente. Porm,
tambm importa que outros aspectos concernentes s relaes dos fula com estes
grupos  sobretudo ulofes, serer, soninqus e manden  sejam aprofundados,
do mesmo modo no tocante s suas relaes com o antigo Gana.
    A fundao de Gana,  imagem da origem dos fula, foi interpretada atravs
de esquemas difusionistas, fundamentados nos autores Ta'rkh; Delafosse atribui
a Gana fundadores srio-palestinos, os quais teriam chegado junto aos soninqus
de Awkr a partir da Cirenaica, com etapas no Ar e no Sudo nigeriano. Estes
estrangeiros seriam igualmente os ancestrais dos fula. O poderoso Estado de
Gana teria sido criado por eles no sculo III da era crist. Aproximadamente
no final do sculo II/VIII, os negros soninqus, conduzidos por Kaya Maghan
Ciss, o seu primeiro rei (tunka), teriam expulsado os brancos para o Tgant,
rumo ao Gorgol e o Fouta27.
    Paradoxalmente, as lendas do reino de Wagadu aparentam levar na mesma
direo. As verses reportadas por C. Monteil conferem a Dina, o fundador de


25    Os fula so chamados fula pelos manden, fulani (no singular bafilanci) pelos haussa, felata pelos kanuri
      e rabes do Sudo e fulni pelos rabes.
26 T. DIALLO, 1972.
27    M. DELAFOSSE, 1912, vol. II, p. 198 e seguintes.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                   155



Kumbi, capital do Wagadu, uma origem judia ( Job), no primeiro caso, ou uma
origem iraniana (Salmn o Persa, companheiro do Profeta), para a segunda
verso28. Estas concordncias, contudo, no so mais que aparentes, haja vista
que uma anlise dos relatos de Wagadu mostra que estes ltimos no tm pre-
tenso histrica alguma; o alcance destes relatos  outro, especialmente religioso
e social. Neste sentido, eles no acompanham as elaboraes sistemticas que
engloba a tese da origem srio-palestina dos fundadores de Gana.
    Atual e aparentemente, atestado est que o povoamento neoltico do Saara
foi amplamente dominado por negros, cujos vestgios so identificveis at o
Adrr. Posteriormente ao ressecamento climtico, o povoamento branco (os
lbio-berberes) avanou rumo ao Sul, chocando-se todavia com a organizao
dos camponeses negros, como aqueles do Dhr Tsht, ancestrais dos soninqus
de Gana. Os stios defensivos do Dhr Tsht traduzem bem esta organizao dos
negros para resistirem s presses dos nmades lbio-berberes. Nestas condies,
 provvel que as bases de um Estado organizado como aquele de Gana, descrito
pelas fontes rabes, remontem  poca do primeiro milnio da era crist, assim
como no  impossvel que a fase de Chebka, entre -1000 e -900, constitua uma
hiptese digna de crdito, como foi sugerido por A. Bathily, aps uma interpre-
tao dos trabalhos de P. Munson29.
    As hipteses sobre o remotssimo povoamento de Gana e sobre o seu habitat
inicial no Saara neoltico, em uma zona mais setentrional que aquela do atual
pas, no so arbitrrias: elas aparentam baseadas na permanente existncia
de elementos "residuais", desde o perodo rabe at os nossos dias; ao menos
 o que observamos no tocante ao papel atribudo pelos gegrafos rabes aos
gangara-wangara, aos bafr, e sobretudo no referente  presena atual dos negros
hartn, dispersos no Saara.
    Mesmo estudando os textos rabes e as tradies orais, vemos que os Negros
chegavam, na poca histrica, muito mais ao Norte que atualmente. Eles domi-
navam o Tgant, o Awkr, o Hdh (Hawd), o Tris e o Adrr. Uma anlise
destes dados permite situar os soninqus no Tgant e no Hdh, ao passo que
outras partes da atual Mauritnia foram habitadas por ancestrais dos serer e
dos fula. Estes dois grupos viveram, outrora, em conjunto, no somente no Sul
da Mauritnia, mas, igual e posteriormente, no Fouta Toro30. Enquanto os fula



28   C. MONTEIL, 1953, pp. 370-373, 389-396.
29   A. BATHILY, 1975, particularmente pp. 29-33.
30   Conferir T. DIALLO, 1972.
156                                                          frica do sculo VII ao XI



permaneceram no vale do Senegal, os serer rumaram mais para o Sul, em direo
ao seu atual territrio, no Sine-Saloum.
    Frequentemente, insistiu-se em demasia na dicotomia entre os berberes
nmades e a populao sedentria negra. Conquanto a realidade dos conflitos
entre estes dois grupos no possa ser negada, no se pode esquecer que, simul-
taneamente, as necessidades de ordem econmica e poltica conduziram os
brancos e os negros a uma simbiose e a uma real cooperao. Eis a razo pela
qual no  mais permitido somente interpretar as relaes das etnias sahelianas,
brancas e negras, em termos de enfrentamentos raciais e religiosos31.
    A disperso dos soninqus, explicada pela presso dos berberes e, particular-
mente por aquela dos almorvidas, aparenta ter causas mltiplas, entre as quais
o fator climtico desempenhou um papel preponderante. O seu habitat original,
o Wagadu da sua lenda, foi situado em uma regio dotada de condies clim-
ticas precrias, embora bem posicionada do ponto de vista comercial. A lenda
de Wagadu ensina-nos que os indivduos de Wagadu fugiram para o Sul aps
uma estiagem que durara sete anos. Este desastre climtico  que lembra a seca
dos anos dos anos 1970  aparenta ser a primeira razo da disperso dos sonin-
qus; as suas migraes os conduziram por toda a parte no Sudo Ocidental,
da Gmbia at Songhai, porm, um grupo bem mais considervel permaneceu
em seu primeiro territrio, no Awkr e no Hdh, onde eles fundaram o seu pri-
meiro Estado, o antigo Gana. Ainda no  possvel estabelecer uma cronologia,
sequer aproximativa, destes acontecimentos; entretanto,  mais provvel que as
migraes dos soninqus tenham ocorrido durante vrios sculos.


      A emergncia de hegemonias sudanesas
   No Sudo Central e Oriental, surge no transcorrer do primeiro milnio da
era crist uma serie de sociedades organizadas, as quais logram edificar verda-
deiros Estados. Alguns, como o Knem ou Gana, atingiram uma considervel
potncia. No entanto, outros menos extensos, como aqueles dos haussas, dos
songhai, dos takrr, esto em vias deformao. Os muulmanos, ao chegarem
ao Sudo nos primeiros sculos do Isl, encontram-se em presena destes con-
juntos, com os quais eles devem compor. As etapas da formao destes Estados
so todavia imperfeitamente conhecidas; entretanto, podemos esboar as linhas
gerais atravs dos conjuntos concentrados em Gana e no Knem.

31    J. DEVISSE, 1970; S. K. e R. J. MCINTOSH, 1981.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                  157



    Em meio aos mais antigos grupos homogneos do Sudo, o povo kanuri
ocupa um posto privilegiado. A sua constituio remonta ao perodo que suce-
deu o ressecamento do Saara. Os povos negros agricultores recolhem-se em
toronop da depresso residual do lago Chade, repartindo-se de parte a outra
de uma regio de clima rigoroso e inspito, o tringulo delimitado pela linha
Borku-Azben-Chade. Enquanto os povos ditos de lngua chadiense,  imagem
dos haussas, instalam-se a Oeste desta regio, os grupos de lngua tedaza, nota-
damente os kanuri, os knembu, os zaghwa, ocupam o Leste. As tradies locais
atribuem a fundao do Estado knem a um heri rabe, Sayf ben Dhi Yazan,
que teria imposto o seu poder a um grupo de nmades, os magumi, estabelecidos
no Nordeste do lago Chade32.
    No Sudo Ocidental, o imprio de Gana erigiu-se sobre uma base tnica
muito ampla: a grande famlia manden espalha-se desde a floresta ao Sul at o
Sahel, vizinho ao Saara. O reino de Gana pertence  parte setentrional, povoada
de soninqus que esto em relao com os nmades brancos do Saara. Tradies
orais recolhidas em Tombouct, cerca de um milnio aps da fundao de Gana,
reportam que a primeira dinastia reinante neste pas era branca.
    A frequncia com a qual tradies orais nascidas no seio das prprias socie-
dades sudanesas atribuem a sua fundao a ancestrais brancos poderia causar
surpresa. Este estado de coisas coloca a questo da origem das estruturas esta-
tais no Sudo. Entretanto, a datao tardia destes relatos, bem como a situao
das sociedades negras que os produziram, oferece elementos de resposta: estes
relatos no fazem seno projetar, no passado, fatos que lhes so contempor-
neos. As tradies orais relativas a ancestrais brancos surgem, na realidade, em
um contexto no qual os grupos berberes do Norte desempenham um papel
dominante.
    O comportamento dos autores rabes sobre esta questo precisa fornece pre-
ciosos elementos de apreciao: de modo geral, a tendncia encontra-se forte-
mente difundida no mundo muulmano, consistente em ligar as classes dirigentes,
de um grupo ou dinastia, ao Profeta ou aos seus prximos, o que permite legitimar
o seu poder33. No entanto, os autores rabes anteriores a meados do sculo VI/
XII no fazem nenhuma meno a uma origem branca para as dinastias que
governam os Estados sudaneses, quer se trate de Gana, do Takrr ou do Son-
ghai. Al-Bakr, quem fornece mais informaes sobre o Gana do sculo V/XI,
no deixa dvida alguma sobre este ponto: Gana  governado por um rei negro

32   Consultar mais adiante o captulo 15.
33   Consultar, acima, o captulo 4.
158                                                                           frica do sculo VII ao XI




Figura 5.2 A mesquita de Tegdaoust/Awdghust, aps escavaes e trabalhos de conservao dos muros.
O muro da Kibla est orientado para o Sul/Sudeste. [Fonte: IMRS (Instituto Mauritano de Pesquisa Cien-
tfica), Nouakchott.]



que  adepto da religio tradicional africana34. Somente com al-Idrs (sculo VI/
XII) que o tema das origens brancas se desenvolve35; observamos ento que ele
se inscreve no contexto de uma crescente expanso do Isl no Sudo. Ademais,
al-Idrs  o primeiro a relatar os acontecimentos seguintes  conquista almor-
vida, cujo elemento ativo  formado pelos berberes sanhdja do Saara Ocidental.
Uma leitura crtica, a um s tempo dos relatos oriundos da tradio oral e dos
textos de escritores rabes mais recentes que al-Bakr, permite compreender as




34    J. M. CUOQ, 1975, pp. 99-100.
35    J. M. CUOQ, 1975, p. 133.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                   159



razes pelas quais o tema das origens brancas adquiriu esta amplitude; entrev-se
assim a importncia da tese inversa que se pretendeu suprimir.
    Os Estados do Sudo so criaes especficas dos povos negros. Eles esto
em contato com os berberes das bordas meridionais do Saara e mantm comple-
xas relaes com estes vizinhos de origem branca. Certamente, em um primeiro
momento, os agricultores negros recuam, sob a presso dos pastores nmades,
para se instalarem nas zonas menos rigorosas do Sahel; contudo, posteriormente
eles se organizam para melhor resistir. Os sudaneses encontram em seu habitat
os recursos polticos e sociais necessrios para enfrentarem as ameaas vindas do
deserto. No entanto, o antagonismo permanece, pois que o poderoso imprio de
Gana  capaz, aps 380/990, de dominar economicamente Awdghust, graas
s atividades dos zanta vindos da frica do Norte, bem como, consequente-
mente, logra estabelecer a hegemonia poltica. Um sculo mais tarde, o mesmo
Gana perde, sob a presso dos almorvidas, a sua incontestvel primazia entre
os Estados sudaneses. Contudo, as tenses que opem os berberes e os povos
negros no desencadeiam um encargo duradouro para os primeiros dentre os
Estados sudaneses, os quais adquiriram uma slida organizao.


    Os meios da prosperidade dos Estados sudaneses
    O nascimento e o desenvolvimento dos Estados do Sudo durante este
perodo baseiam-se na utilizao de certos instrumentos e tcnicas que permi-
tiram aos seus detentores impor a sua lei sobre as pequenas unidades formadas
pelos grupos de agricultores ou pastores do Sahel. Dois fatores aparentam ter
desempenhado, a este respeito, um decisivo papel: a posse do ferro e o emprego
do cavalo e do camelo.
    Estudos ainda parciais sobre os metais na frica negra relacionaram a impor-
tncia do ferro com a constituio dos grandes Estados sudaneses. Alm da
importncia que pode ter na prtica da caa e da agricultura, o ferro  um
instrumento de poderio militar que confere quele que o possui uma superio-
ridade tcnica sobre os outros. Ora, no tocante ao Sudo, o papel dos exrcitos
foi determinante na formao dos Estados, quer seja no Knem ou em Gana.
H progressivo interesse nos relatos da tradio oral concernentes ao comrcio
do ferro e aos ferreiros, os quais formam uma poderosa categoria sob muitos
aspectos. Isso pode esclarecer o problema relativo ao papel do ferro nos perodos
antigos; porm, a questo do conhecimento inicial e da difuso das tcnicas 
bem mais complexa e pouco estudada.
160                                                                                frica do sculo VII ao XI



    Duas hipteses apresentam-se. Segundo a primeira, o ferro do Oriente Mdio
teria chegado ao Sudo pelo vale do Nilo, com a importante intermediao que
constitui Mro e a sua florescente metalurgia36. A partir de l, ele se teria expan-
dido para o Sul e rumo a Oeste, na savana. A segunda hiptese prope a vinda do
ferro da frica do Norte. Ele teria sido transmitido pelos fencios e os cartagineses
(sculo V antes da era crist), os quais o teriam trazido ao Sudo. Invocou-se em
apoio a esta teoria a existncia das armas representadas em pinturas rupestres
descobertas no Saara. Mas a existncia de uma metalurgia do ferro na frica negra
em uma poca antiga  atestada pelos objetos encontrados em Nok, na regio
situada ao Sul do planalto de Jos, na Nigria Setentrional. No sculo III antes da
era crist, o ferro ali j tinha um emprego corrente. Estes novos elementos levam a
reexaminar as teorias precedentes e sugerir vrios itinerrios para a vinda do ferro
 frica, sem excluir focos de metalurgia nascidos in loco.
    O ferro est intimamente ligado ao cavalo, como foi frequentemente sugerido,
haja vista que ambos os instrumentos esto associados no bojo da constituio dos
grandes Estados do Sudo. O cavalo  conhecido no Saara na segunda metade do
segundo milnio e nos primeiros sculos do ltimo milnio antes da era crist.
Porm, este animal seguiu os deslocamentos populacionais, mantendo-se tam-
bm no Magreb em sua variedade do cavalo barbe e no Sudeste com a raa de
Dongola. O cavalo barbe (raa equina mongol)  utilizado na frica Ocidental
no Hdh e no Sahel, inclusive at o Djerma. Mas, desde o incio da era crist, o
cavalo  substitudo para as comunicaes trans-saarianas por um animal mais
resistente aos rigores do deserto: o camelo. Este ltimo desempenha um papel
considervel no que tange ao estabelecimento dos domnios sudaneses, do Takrr
at o Knem. Em todo o Sahel, cria-se o camelo, utilizado tanto para o transporte
do sal quanto para as razias de escravos, assim como para fins militares37.


      Elementos de uma civilizao original
   No atual estgio dos conhecimentos sobre os povos do Sudo, parte muito
importante dos estudos e trabalhos  consagrada s trocas entre estas populaes
e os seus parceiros do Norte, berberes e magrebinos, em detrimento das trocas
no seio das prprias comunidades negras; isso  ainda mais verdadeiro no refe-
rente s relaes dos grandes Estados sahelianos com os pases da savana e da


36    Consultar a este respeito UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulos 11 e 21.
37    Acerca da introduo e da importncia dos diferentes animais, conferir H. J. HUGOT, 1979.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                   161



floresta38. Neste caso, o material disponvel para a documentao  deficitrio e
a atual informao em nada favorece um satisfatrio equilbrio. Pode-se, quando
muito, examinar a posio dos Estados negros na relao de fora que assim foi
criada graas aos contatos entre os povos berberes e magrebinos com os negros
do Sudo, em prol das relaes trans-saarianas. A impresso dominante que
extramos consiste em tratar-se de uma vasta ao de explorao dos pases da
frica subsaariana por Estados setentrionais mais bem equipados, dotados de
instrumentos e tcnicas mais elaboradas e variadas, emprestadas de um mundo
mediterrneo frtil em invenes e de todo tipo, equivalentes  poca.
    Um fenmeno antigo e relativamente regular como a escravatura, ao menos
para alguns setores, bastaria para demonstr-lo. Igualmente, boa parte da rede de
trocas aparece como uma criao dos mestres berberes magrebinos e saarianos, os
quais esto na origem do surgimento dos principais eixos. Eles so encontrados
tanto nos destinos do Norte quanto nos itinerrios que so balizados por postos
de parada. Lutas speras acontecem para o controle das rotas e as potncias do
momento se esforam para reunirem as condies de segurana satisfatrias,
com vistas ao bom desenrolar de um trfico, muito amide, fortemente lucrativo.
O problema que se coloca ento consiste em conhecer o comportamento ado-
tado pelos Estados do Sudo em face desta situao, considerando as numerosas
condies favorveis aos indivduos do Norte e o desequilbrio resultante em
seu favor. A ao dos Estados negros pode ser observada a partir de trs nveis:
o crescimento da sua potncia, o efetivo controle do setor sob a sua autoridade
e a prtica de uma poltica em conformidade com os interesses do seu povo.
    As descries dos reis de Gana e de Kw-Kw (Gao) por al-Bakr, ofe-
recem uma srie de detalhes que evidenciam a qual ponto a instituio real 
valorizada nos dois reinos, a fim de suscitar a venerao dos sujeitos. O rei de
Gana distingue-se por um ritual de vesturio: ele  o nico, com o presumido
herdeiro, a poder usar vestimentas costuradas; seguem outros detalhes: bon
dourado e turbante, colares e braceletes. O rei mantm audincia para julgar, no
quadro de um impressionante cerimonial que comporta uma rigorosa etiqueta,
minuciosamente descrita por al-Bakr; este ltimo evidencia uma prtica que
se mostra de extrema importncia, em virtude destas implicaes religiosas: os
sujeitos do rei, quando ele se aproxima, prosternam-se e se lanam por terra,
sobre as cabeas39. Entretanto, este costume, dificilmente concilivel com o isl,
 poupado aos muulmanos, os quais se contentam em bater palmas. Finalmente,

38   Consultar mais adiante o captulo 14.
39   J. M. CUOQ, 1975, pp. 99-100.
162                                                          frica do sculo VII ao XI



so descritas as grandiosas cerimnias que marcam os funerais do rei, o hbito
de enterrar os serviais com o soberano, os sacrifcios e as libaes que lhe so
oferecidas, os bosques sagrados que abrigam as tumbas dos reis e o seu carter
inviolvel. Tudo isso contribui para fazer da monarquia uma instituio sagrada
e digna de reverncia.
    Quanto ao rei de Kw-Kw (Gao), al-Bakr reporta que a sua refeio est
marcada por um ritual particular: dana das mulheres ao som do tambor, suspen-
so de qualquer negcio na cidade durante a refeio do rei e anncio pblico,
por clamores e gritos, do final da refeio real40.
    A realeza de tipo sagrado pode, ao menos durante o perodo islmico, apa-
recer como um elemento especfico da cultura dos grandes Estados negros
do Sudo. A interpretao deste tipo de monarquia fez o objeto de tentativas
de recuperao, apoiadas em teorias difusionistas. Mas, no contexto do Sudo
medieval, confrontado com um mundo muulmano relativamente homogneo,
esta instituio impe-se pelo seu carter original; igualmente,  significativo
que os gegrafos rabes abstenham-se de descrever, por exemplo, a situao de
um soberano islamizado e integrado como aquele de Takrr. Pode-se igualmente
considerar tal instituio como um instrumento eficaz nas mos destas socieda-
des, para garantir o governo dos seus Estados, sobretudo quando se tratam de
reinos que exercem uma hegemonia sobre uma rea muito extensa, como foi o
caso de Gao e Gana.
    Se os reis do Sudo tem autoridade, poder e potncia no interior dos seus
Estados, firmemente governados por intermdio de uma instituio apropriada,
eles controlam, igual e parcialmente, as relaes com o exterior. Podemos inter-
pretar nestes termos as relaes de Gana com os berberes que reinam em
Awdghust desde a sua fundao, no sculo III/IX, pelos lamtna. Os soberanos
de Gana estendem o seu reino em todas as direes desde o final do sculo II/
VIII. A existncia de um centro de negcios berbere, na extremidade meridional
do deserto, podia favorecer as trocas com o Norte e, sob esta tica, a cidade de
Awdghust certamente possua razo de ser. Faltaria ainda conceber o seu nos
limites compatveis com a soberania de Gana. Bastava-lhes serem os corretores e
os intermedirios de um trfico cujo verdadeiro polo meridional seria Gana. Um
crescimento das suas pretenses e um reforo do poder lamtna em Awdghust
poderiam constituir uma ameaa para o Estado de Gana, em seu apogeu nos
sculos IV/X e V/XI; assim explica-se porque a instalao de um governador


40    Al-Bakr, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 108.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                                     163



soninqu, a quem caberia doravante controlar o poder dos lamtna. O enqua-
dramento soninqu aparenta ter cumprido a sua misso com muita eficcia,
pois que os negros manteriam o controle da situao em Awdghust at a sua
destruio, em 446/1055, pelos almorvidas, os quais suportavam dificilmente
a sua aliana com Gana41.
    O controle da situao poltica  indissocivel do efetivo domnio dos sonin-
qus sobre o conjunto do setor econmico na zona sob a sua autoridade. Uma
das condies necessrias deste poder  preservar o segredo acerca das fontes da
sua prosperidade. Os soberanos de Gana exerceram um estrito e eficaz controle
neste importante mbito, particularmente no tocante aos lugares de provenincia
do ouro e s condies da sua aquisio. No  impossvel que isso seja muito
antigo. Um relato como aquele da "troca muda" do ouro, fortemente difundido
inclusive alm da frica, pode ter tido a funo, entre outras, de "macular as
pistas"42.
    O soberano de Gana, esforando-se para manter em mos os meios das
transaes econmicas ao Sul do Saara, pratica uma inteligente poltica: ele
cobra taxas sobre as operaes, na entrada e na sada das mercadorias do seu
territrio; os mercadores devem pagar duas vezes pelo sal: um dinar na entrada
e dois dinares na sada. Gana desempenha assim o papel de plataforma giratria
para a distribuio deste produto vital que  o sal para a frica Subsaariana. O
soberano de Gana, segundo al-Bakr, reserva para si toda a produo de pepitas
para evitar o desabamento das cotaes do ouro43. Tendo perfeitamente compre-
endido os mecanismos econmicos no centro dos quais se encontra Gana, ele
pretende manter o monoplio de um produto to capital quanto o ouro. Des-
tarte, o mundo negro organiza a sua economia de trocas para enfrentar o poder
dos produtores de sal, em virtude deste ltimo produto ser trocado por ouro.
    Nestas condies,  pouco provvel que o comrcio e todo o sistema de tro-
cas econmicas que ele implica tenham sido inspirados para os negros de Gana
pelos lbio-berberes, tal como isso foi por vezes sugerido; estes ltimos, segundo
esta proposio, ao trazerem no somente o conceito, mas, em suplemento, as
tcnicas deste comrcio que inclui o trfico de escravos, teriam suscitado o
nascimento do Estado de Gana. O controle exercido pelos soberanos sudaneses
sobre a esfera das trocas que lhes pertenciam no permite avanar tal hiptese.
O caso dos sfuwa do Knem  instrutivo a este respeito. Ao tomarem o lugar

41   Conferir al-Bakr, em: J. M. CUOQ, 1975, pp. 91-92. Consultar mais adiante o captulo 13.
42   Sobre a troca muda, conferir P. F. de MORAES FARIAS, 1974, pp. 9-24.
43   J. M. CUOQ, 1975, p. 101.
164                                                                                frica do sculo VII ao XI



dos soberanos zaghwa (dinastia dos duguwa) no momento da islamizao do
Knem, eles compreenderam que a evoluo religiosa do pas poderia constituir
uma ameaa para a sua economia, cujo principal fundamento era o trfico de
escravos. Com efeito,  proibido reduzir  escravatura um muulmano livre.
Como muito bem mostrou D. Lange em sua obra sobre os progressos do isl e
as mudanas polticas no Knem, do sculo V/XI ao sculo VI/XII, os sfuwa
prolongaram um tipo de domnio poltico-econmico que lembrava as prticas
dos seus predecessores no-muulmanos na poca zaghwa44.
    Os reis do Sudo manifestaram uma grande habilidade poltica em suas
relaes com o mundo muulmano e com a cultura da qual se reivindicava
o conjunto dos parceiros do Norte, com os quais eles se relacionavam. Eles
souberam utilizar em seu proveito as competncias junto aos muulmanos que
frequentavam os seus Estados. Segundo al-Bakr, o rei de Gana escolhia os
seus intrpretes, o seu tesoureiro e os seus ministros em meio aos muulma-
nos45. Assim sendo, confiando setores da sua administrao a letrados muul-
manos, ele com isso espera certa eficincia. Em contrapartida, ele busca criar
as condies favorveis para o exerccio da religio daqueles ltimos. Gana,
assim como Gao, possui ao lado da cidade do rei uma cidade onde habitam os
muulmanos, com doze mesquitas cada qual com o seu imame, o seu muezim,
o seu leitor. Consultores jurdicos e eruditos vivem igualmente nesta cidade.
Enfim, os muulmanos no so forados aos costumes incompatveis com as
suas convices religiosas.
    Quanto ao soberano de Gao, em princpio ele deve ser muulmano; no mais,
os atributos da autoridade real que lhe so atribudos no momento da investi-
dura comportam, alm do braso e do sabre, o Coro, "os quais seriam", precisa
al-Bakr, "os presentes enviados pelo emir dos crdulos46". Entretanto, o fato de
os dois soberanos governarem povos, livres praticantes de religies do terreiro,
coloca o problema das relaes do Sudo com o mundo muulmano no curso
deste perodo inicial de islamizao47.
    Em suma, pode-se reter como caracterstica dos Estados do Sudo saheliano,
correspondentes  parte conhecida do "pas dos negros", a tentativa permanente
de controlar de modo responsvel o seu meio. Assim sendo, pode-se ver emergir
uma cultura especfica que se enraza profundamente no universo religioso tra-


44    D. LANGE, 1978, p. 513; igualmente consultar mais adiante o captulo 15.
45    J. M. CUOQ, 1975, p. 99.
46    Ibid., p. 109.
47    Consultar acerca destes problemas, acima os captulos 3 e 4, bem como, mais adiante, o captulo 28.
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                   165



dicional. Este ltimo serviu, muito amide, para contestar sem brilho, embora
eficazmente, muitos dados que chegavam com a pretenso e o prestgio de uma
sociedade aparentemente mais equipada.


    Concluso
    O estudo dos movimentos populacionais requer em primeiro lugar, antes
de tudo, um rigoroso balano crtico que permita reexaminar os esquemas to
difundidos concernentes s migraes de distncia muito longas dos povos
negros. Os movimentos dos povos do Sudo antes do sculo V/XI nada tm em
comum com os deslocamentos anrquicos em espaos imensos.
    A primeira ao parte do perodo final do Neoltico, quando o Saara, outrora
florescente, torna-se estril e inspito ao trmino de uma "longa agonia". Os
negros, os quais constituam o vetor dominante do povoamento saariano, foram
obrigados a recuarem para o Sul, para buscarem no Sahel condies favorveis
para a prtica das suas culturas. Eles abandonaram o terreno a grupos de pastores
nmades especializados, os quais se adaptaram s novas condies sem renunciar
a impor a sua lei aos povos da regio saheliana, por eles submetidos a frequentes
presses. Estes ltimos encontraram in loco outros grupos de negros com os quais
eles se organizaram para enfrentar as ameaas vindas do Norte. Deste impulso
nasceriam progressivamente conjuntos sociopolticos mais ou menos espalhados
desde o Knem, a Leste, at o Takrr, no Oeste, ao longo do perodo precedente
 chegada do Isl ao Sudo.
    Chegando  zona saaro-sudanesa, os muulmanos encontram-se perante
uma srie de Estados j constitudos ou em vias de formao. O poderoso reino
soninqu de Gana domina, entre Senegal e Nger, o grande grupo manden, ao
passo que, na parte oriental da curva do Nger, emerge o ncleo daquilo que
se tornaria o reino Songhai. Este reino controla tanto o trfico do rio quanto
a via interligando o Nger  frica do Norte, passando pelo Adrr dos ifoghas
e pelo Hoggar. Do outro lado do lago Chade, os povos so esto em vias de
consolidar a sua posio e adquirem os instrumentos da sua futura poltica
de conquista. Cavalos e camelos ajudar-lhes-iam a empreender uma expanso
sistemtica rumo ao Norte, onde eles tomariam posto no conjunto kanuri em
vias de nascimento.
    A chegada do Isl no sculo II/VIII introduz um dado suplementar que, a
partir do sculo seguinte, tornar-se-ia um estimulante; dado correspondente
a um crescimento das trocas econmicas e culturais. Mas, sobretudo, o fator
166                                                          frica do sculo VII ao XI



religioso comea a desempenhar um papel importante na evoluo poltica e
social, observada desde o Magreb at o Sudo.
    Este perodo, compreendido entre os sculos II/VIII e V/XI,  decisivo para
os povos do Sudo; graas a uma slida organizao e  estrutura poderosamente
centralizada da sua monarquia, eles foram capazes de tomar conscincia do
alcance das trocas com a frica mediterrnea e saariana. Entretanto, a sua cons-
tante preocupao foi conservar o controle das transaes para evitar deixar aos
intermedirios saarianos o domnio das trocas e as fontes da sua prosperidade.
Contudo, usufruindo das vantagens culturais e econmicas da presena dos seus
parceiros setentrionais, eles adotaram uma postura suficientemente tolerante
visvis das mentalidades e exigncias religiosas destes ltimos, chegando at
a se converterem ao isl, mantendo-se todavia enraizados nas suas prprias
tradies religiosas. Deste modo, os dirigentes sudaneses e sobretudo aqueles
de Gana puderam enfrentar a concorrncia com os seus vizinhos sanhdja, rea-
grupados no movimento almorvida no sculo XI. Estas circunstncias evitaram
uma completa decadncia, em que pese o assalto almorvida e um eclipse pas-
sageiro. Destarte, os Estados negros lograram salvaguardar a sua personalidade
e assegurar as bases de uma civilizao duradoura cujos ulteriores desenvolvi-
mentos expressam-se no Mali, no Songhai e nas cidades haussa.


      Nota do relator do Comit Cientfico Internacional
   No mbito da metalurgia antiga do ferro na frica, as pesquisas progridem
desde logo, rpida e claramente. O tempo dos grandes debates tericos sobre o
difusionismo est encerrado. A presena da produo do ferro atravs da redu-
o em fornilho  atualmente atestada pelas escavaes e dataes realizadas
em vrios pontos do continente, remontando ao menos cinco sculos antes da
era crist. A Nigria, mas igualmente o Ar nigeriano, o atual Mali, Camares,
a Repblica Unida da Tanznia, o Ruanda e o Burundi, possuem no atual
estdio da pesquisas, stios desta poca; bem entendido, esta lista  perfeita-
mente provisria; quase anualmente, novos resultados da pesquisa modificam os
dados globais desta questo; razo do questionamento dos sistemas difusionistas
gerais ou restritos. Desde os primeiros sculos da era crist, o ferro tambm 
produzido na curva do Senegal e naquela do Limpopo, em Gana. Numerosos
pesquisadores, africanos e malgaxes, esto trabalhando atualmente neste campo
de pesquisa, da Mauritnia a Madagascar. Colquios (por exemplo, em 1983,
na Universidade de Compigne e no Collge de France, em Paris (atos publi-
Os povos do Sudo: movimentos populacionais                                                            167



cados), assim como na Universidade de Paris I (atos em vias de publicao))48,
demonstraram qual importncia tecnolgica deve-se atribuir a esta produo
antiga do ferro africano pelo procedimento direto; estas pesquisas desenvolvem-
-se paralelamente sobre a histria da metalurgia. Simultaneamente, iniciou-se
um trabalho muito necessrio de reviso do vocabulrio descritivo destas tec-
nologias, frequentemente pouco claro e impreciso no passado.




48   Os atos do colquio de Compigne foram publicados, porm, nem integralmente e tampouco de modo
     satisfatrio; aqueles do colquio do Collge de France foram publicados sob o ttulo Mtallurgies afri
     caines (1983, Mmoires de La Socit des Africanistes, no 9, publicado por Nicole chard), quanto aos
     atos do colquio de Paris I, eles encontram-se todavia em vias de publicao.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                 169



                                         CAPTULO 6


           Os povos falantes de banto e a sua
                       expanso
                        Samwiri LwangaLunyiigo e Jan Vansina




    A grande maioria das populaes ocupantes da tera poro meridional do
continente africano, da fronteira martima nigero-cameruniana, no Oeste, at
o litoral fronteirio somlio-queniano, no Leste, e a partir deste ponto at as
proximidades de Port-Elizabeth, no Sul, fala lnguas estreitamente aparentadas,
denominadas lnguas bantas.


    A famlia das lnguas bantas
    Esta famlia de lnguas abrange mais de quatrocentos variantes, derivadas
todas de uma mesma lngua ancestral chamada "protobanta". Nenhuma dvida
a este respeito  atualmente permitida, em razo das semelhanas que existem
entre as suas caractersticas lexicais, fonticas, morfolgicas (gramaticais) e sin-
tticas. Tais semelhanas no se devem nem ao acaso nem tampouco a emprs-
timos. Elas devem referir-se a um parentesco comum do qual um exemplo -nos
oferecido pelo termo que significa "pessoas". As suas formas so, nas diferentes
lnguas seguintes: bato, em duala; bot, em fang; baaru, em tio; bantu, em kongo;
banto, em mongo; baat, em bushong; bantu, em luba; abantu, em rwanda; vanhu,
em shona; e abantu, em herero.
    As formas so todas similares. A anlise, vemos que elas derivam todas da
forma ntu para a raiz e ba, marca do plural, para o prefixo. Ademais, as diferen-
170                                                                           frica do sculo VII ao XI



as entre lnguas so regulares: so encontradas em outras comparaes. Assim
sendo, todos os t em segunda posio na raiz tornam-se r em tio. Isso exclui
uma semelhana devida ao acaso e a emprstimos. Foi possvel estabelecer um
lxico protobanto para mais de quinhentas razes1, as quais seguem todas as
correspondncias fonticas regulares.
    Entretanto, o lxico no corresponde seno a um aspecto da lngua. O sis-
tema morfolgico (gramatical) das lnguas bantas igualmente apresenta analo-
gias at nos detalhes. No exemplo acima citado, o prefixo rege as concordncias
gramaticais e pertence, ele prprio a uma srie de classes de prefixos. O prefixo
regular correspondente  mu, em combinao com a raiz, a palavra significar
ento "pessoa". O sistema das concordncias, a formao dos adjetivos, dos pro-
nomes de todo tipo, a estrutura do verbo em partes  prefixo, marca, infixo, raiz,
extenso, final  e os funcionamentos destas partes, as invariantes, a formao
deverbativa dos substantivos (formas nominais), tudo isso  to similar entre
estas lnguas quanto so as gramticas das lnguas romanas derivadas do latim.
Igualmente existe uma gramtica do banto comum2. Finalmente, aquilo que 
vlido para a morfologia  igualmente vlido para a sintaxe e para o sistema
fonolgico. De onde deriva a constatao segundo a qual mais de quatrocentas
lnguas, espalhadas em um tero deste grande continente, derivam de somente
uma lngua ancestral. As implicaes histricas de um fenmeno da tamanha
envergadura so evidentes.


      Origens e subdivises das lnguas bantas
    O fenmeno certamente no passou despercebido. J os primeiros navegado-
res portugueses, no incio do sculo XVI, foram surpreendidos pelo parentesco
lingustico existente entre os habitantes do Reino do Congo e aqueles do litoral
oriental do continente. Desde que Wilhem Bleek3 identificou pela primeira vez,
em 1862, o grupo de populaes de lnguas bantas e batizou esta famlia com
o nome "Bantu", segundo a reconstruo da palavra significando "pessoas", os
antroplogos, os linguistas e os historiadores, entre outros, demonstram curioso
interesse pela questo banta e esforam-se para explicar as origens e os movi-


1     M. GUTHRIE (1967-1971) rene os dados conhecidos. Comparar com A. E. MEEUSSEN, 1969.
2     C. MEINHOF, 1906. Uma nova gramtica comparativa est em vias de elaborao nos centros de Leyde
      e Tervuren.
3     W. H. I. BLEEK, 1862-1869.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                                         171



mentos destas populaes. Desde 1886, H. H. Johnston esboou uma hiptese
para localizar o bero da protolngua, assim como para retraar a histria da
sua difuso geogrfica. O seu estudo, publicado em 1919 e 1922, constitui a
primeira tentativa sria de descobrir as origens dos bantos e de reconstituir o
processo da sua disperso. Baseando-se sobre fatores lingusticos, ele situou os
ancestrais dos bantos em Bahr al-Ghazl, "no distante do Bahr al- Djabl, a
Leste do Kordofn, no Norte, ou das bacias do Bnou e do Chade, no Oeste".
Segundo ele, os bantos deslocaram-se, primeiramente, rumo ao Leste, em dire-
o ao monte Elgon, depois, a partir deste ponto em direo s margens norte
do lago Vitria,  Tanznia continental e  floresta do Zaire (atual Repblica
Democrtica do Congo), a verdadeira penetrao na frica Central e Meridio-
nal comeando aproximadamente em -3004.
    Em 1899, Carl Meinhof ofereceu a prova formal (pela fontica) da unidade
das lnguas bantas. Desta poca at os nossos dias, linguistas, frequentemente
chamados "bantoistas" no deixaram de aprofundar o conhecimento desta fam-
lia de lnguas5. Duas grandes hipteses visando explicar as origens dos povos
falantes das lnguas bantas foram propostas pelos linguistas. Segundo Joseph
Greenberg, os povos bantos seriam originrios da zona onde as lnguas bantas
so mais divergentes; apoiando-se nesta proposio, ele situa o bero destes
povos na Nigria, na regio do mdio Bnou, no Nordeste do vasto territrio
onde as lnguas esto solidamente implantadas6.
    Como esta concluso no foi aceita pelo influente bantoista Malcolm Guthrie,
ela foi, posteriormente, objeto de rigorosos exames; contudo, ela  hoje admitida
por todos os linguistas. Para Guthrie, as origens dos "protobantos" deveriam
situar-se na regio onde as lnguas bantas so mais convergentes, ou seja, em
torno das bacias dos rios Congo-Zambze, devendo-se encontrar o ncleo na
provncia do Shaba, no Zaire7. Foi com base nestas hipteses discordantes que
avanadas por eminentes linguistas que numerosos especialistas construram as
suas prprias teorias acerca das origens e da expanso dos bantos.
    O eminente historiador Roland Oliver, partindo do princpio que as teses
de Greenberg e de Guthrie so complementares, elaborou uma brilhante teoria
dividindo em quatro fases a expanso dos bantos, a partir dos seus territrios de
origem na frica Ocidental at a frica do Sul, a saber: uma rapidssima migrao,


4    H. H. JOHNSTON, 1919-1922.
5    C. MEINHOF, 1899. No tocante  histria e  bibliografia da questo, conferir J. Vansina, 1979-1980
6    J. H. GREENBERG, 1972.
7    M. GUTHRIE, 1962.
172                                                                              frica do sculo VII ao XI



ao longo dos cursos d'gua do Congo (Zaire), de pequenos grupos de populaes
falantes de lnguas "pr-bantas", das regies arborizadas do centro de Camares
e Oubangui, at regies de mesmas caractersticas, no Sul da floresta equatorial
do Zaire; um progressivo reforo da implantao destas populaes imigradas
e a sua expanso atravs da regio arborizada estendida de um litoral a outro e
abraando o centro da frica, desde a foz do Congo (Zaire) at o Zaire, na costa
ocidental at o rio Rovuma, na Tanznia, na costa oriental; a rpida penetrao
dos bantos na regio mais mida situada no Norte e no Sul da sua precedente
zona de expanso lateral; e a ocupao do restante da atual frica banta, processo
que comeou no curso do primeiro milnio antes da era crist e que no acabaria
seno aproximadamente em meados do segundo milnio da era crist8.
    Desde 1973, trs equipes de linguistas, trabalhando independentemente,
provaram que Guthrie estava equivocado. Os seus dados, embora diferentes, so
todos fundados em uma abordagem similar (baseados em exames de lxico). Um
dos estudos utiliza, na realidade, os prprios ensinamentos de M. Guthrie.
    A prova de as lnguas bantas tiveram perfeitamente um bero ocidental est
portanto realizada. Idealmente, deveramos poder recompor as vias de difuso e
os modos de desenvolvimento destas lnguas, caso reencontrssemos os subgru-
pos que compem a sua famlia. Qualquer comparao em lingustica histrica
tenta de fato construir uma rvore genealgica na qual o ancestral da famlia
aparece como o ancestral direto dos ancestrais de subgrupos, eles prprios, ante-
riores aos ancestrais de subgrupos de lnguas etc. Para assim proceder, pode-se
comparar maciamente tanto o lxico fundamental (lxico-estatstico) quanto os
fatos gramaticais. At aqui, ningum ainda pde propor uma subdiviso gene-
algica do grupo das lnguas bantas que fosse suficientemente segura a ponto
de ser realmente aceita, isso em razo daquilo que os linguistas denominam
"fenmenos de convergncia", ou seja, emprstimos macios entre lnguas bantas
desde a poca do ancestral comum at os dias atuais. Ao nvel das semelhanas, 
muito difcil distinguir o que  emprstimo daquilo que remonta a um ancestral
de subgrupo comum. Esta situao, ela prpria,  de uma importncia capital
para os historiadores, pois que ela prova que, desde sempre, os diferentes gru-
pos falantes de banto permaneceram em contato estreito com os seus vizinhos.
Jamais houve, portanto, populaes realmente isoladas umas das outras.
    Os estudos em curso empregam computadores e estabelecem esquemas de
divergncias genticas a partir ou de elementos comparativos do vocabulrio de


8     R. OLIVER, 1966; h alguns anos, R. Oliver abandonou totalmente esta tese. Conferir R. OLIVER, 1979.
Os povos falantes de banto e a sua expanso            173




Figura 6.1    A expanso banta. [Fonte: J. Vansina.]
174                                                                             frica do sculo VII ao XI



base ou  igualmente desde muito pouco tempo  de elementos gramaticais9.
Pode-se concluir, h consenso entre linguistas sobre este ponto, que houve dois
grandes blocos de lnguas bantas, aquele do Oeste, estendido sobretudo em toda
a floresta tropical, e aquele do Leste, ocupando as regies de Uganda ao Cabo.
    Em suplemento, as lnguas do grupo oriental so mais prximas umas das
outras, comparativamente s lnguas do grupo ocidental entre si. Isso equivale
a dizer que a extenso do grupo oriental foi mais tardia e rpida que aquela
do grupo ocidental, caso aceitemos que a taxa de mudana e a importncia da
convergncia tenham sido idnticas nos dois casos, situao no necessariamente
verdadeira. Por outro lado, a concordncia existe, em geral, quanto  realidade de
pequenos agrupamentos genticos que no remontam muito remotamente no
passado lingustico. Assim sendo, existe um grupo gentico congo ou um grupo
gentico das lnguas da regio dos Grandes Lagos. Os estudos recentes indicam,
sempre melhor, quais seriam estes agrupamentos mnimos.
    No se esperaram os resultados destes estudos para subdividir as lnguas
bantas. M. Guthrie realizou desde 1948 uma classificao dita "prtica", na
qual a comparao dos dados existentes permitia reagrupar blocos de lnguas
geograficamente contguas nas zonas de "semelhana"10. A classificao no mais
que provisria e prtica  a tal ponto prtica que ela  at hoje frequentemente
empregada. Atribui-se a cada zona uma letra de A a T, seguida de um nmero
para todo o agrupamento de menores propores e de um segundo nmero
correspondente  prpria lngua. A70 designa o grupo de lnguas ditas "pahouin"
e A74 o fang.
    A priori, do ponto de vista histrico, esta classificao no tem valor. As
tentativas sempre mais profundas para alcanar uma classificao histrica o
demonstram. Inclusive os subgrupos designados por nmeros no podem sem-
pre ser aproximados, alm de no se poder utilizar a classificao prtica como
argumento histrico. Assim sendo, no se pode deduzir do fato de que o benga
do Gabo e o bubi da Ilha de Malabo pertencerem ambos ao grupo A30 que
os falares bantos bubi derivem da costa ocupada pelos benga ou que os benga
viriam, por sua vez, da ilha. A classificao no tem valor probatrio em matria
histrica.


9     Y. BASTIN, A. COUPEZ e B. de HALLEUX, 1981. As comparaes entre os dois tipos de dados
      permitem atingir uma quase-certeza em caso de congruncia. O bloco banto ocidental desliga-se niti-
      damente do bloco oriental e, no interior do primeiro, um grupo do noroeste desliga-se claramente do
      grupo central da floresta. O programa de computador desenvolve-se na medida em que novos dados so
      recolhidos.
10    M. GUTHRIE, 1948.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                               175



    De modo genrico, observa-se contudo que certas zonas correspondem
melhor que outras a realidade genticas. Entre aquelas que so "sem objeto",
mencionaremos a zona B (Gabo/Congo), a antiga zona D de Guthrie que, h
muito tempo, foi reclassificada em D e J, assim como, de modo menos evidente,
as zonas F e P. Embora, por um lado, os inconvenientes da utilizao de um
sistema sem valor histrico sejam enormes, por outra parte, os linguistas resis-
tem  introduo de um sistema de notao ou de uma terminologia gentica
enquanto a prova no for realmente feita e, assim, tais so as subdivises da
famlia banta.
    A tarefa ser longa. Primeiramente porque, inclusive no tocante ao lxico
de base, no h atualmente seno dados relativos  cerca de metade das ln-
guas bantas. Ora, para termos documentos vlidos, seria necessrio ao menos
notaes linguisticamente corretas, um vocabulrio mais extenso e um esboo
gramatical para cada lngua. Com isso, poderamos trabalhar com confiana.
Em seguida, so dicionrios e gramticas completas que deveriam servir de base
a trabalhos realmente definitivos. Ainda h poucos destes ltimos atualmente.
O patrimnio lingustico dos falantes do banto ainda deve ser amplamente
estudado e investigado. Outra dificuldade reside no fato de que, para grande
parte da sua histria, o desenvolvimento das lnguas bantas realizou-se atravs
da diferenciao de uma lngua em relao ao ncleo (origem) ou, na melhor
das hipteses, de um pequeno nmero de falares divergentes do ncleo. Isso
quer dizer que no  possvel opor blocos de lnguas, uns aos outros, tal como 
possvel, por exemplo, no referente s lnguas indo-europeias.  necessrio com
o tempo que cada lngua banta, ou quase  sobretudo no Oeste , esteja sufi-
cientemente conhecida; assim poder-se- situ-la em uma perspectiva histrica
correta11. No existe outra soluo.


     Lingustica e histria
   Inegavelmente, os dados lingusticos tm implicaes histricas. A difuso,
em uma rea to extensa, de uma mesma famlia de lnguas deve ter uma causa.
Mas qual seria ela? Todos os autores pensaram que estas lnguas expandiram-
-se em consequncia da migrao dos seus locutores. Teramos aqui vestgios
de uma migrao em uma escala extraordinria. Os autores igualmente tiveram


11    justamente na obra de B. HEINE (1973) que o mecanismo  mais bem descrito; B. HEINE, H.
     HOFF e R. VOSSEN, 1977.
176                                                           frica do sculo VII ao XI



tendncia a aproximar, qui inclusive a confundir, lngua, cultura e raa. Muitos
esperam encontrar uma sociedade banta, uma cultura banta, uma filosofia banta.
Estas ltimas seriam mantidas em uma regio compreendida do ncleo inicial
aos confins do continente, durante os milnios ao longo dos quais durou esta
expanso. Mas estas suposies seriam vlidas?
    No que se refere  equao lngua-cultura-raa, pode-se dizer que ela no
se sustenta. Isso  facilmente demonstrvel. O bira, por exemplo,  falado por
agricultores-caadores de pele da floresta do Nordeste do Zaire, assim como por
pigmeus caadores que vivem em simbiose com eles ou com outros plantadores
vizinhos. A mesma lngua , portanto, falada por dois grupos tnicos diferentes.
Em suplemento, esta lngua  utilizada pelos bira da savana que, por sua vez, so
agricultores, levando um tipo de vida fortemente diferente daquele dos bira da
floresta12. Portanto, eis uma lngua que no corresponde a uma cultura sequer.
Em contrapartida, cada cultura e cada modo de vida referente encontram-se
junto a indivduos que falam lnguas diferentes, em comunidades circunvizinhas.
Os bira da floresta vivem como os walese que, a seu turno, falam um idioma
central-sudans. Os pigmeus vivem como os caadores pigmeus vizinhos, os
quais falam lnguas sudanesas, e os criadores vivem como criadores falantes ou
de lnguas central-sudanesas, ou das lnguas bantas, ou at mesmo de lnguas
nilticas. Nenhuma correspondncia estreita existe entre lngua e cultura.
    Objetar-se-,  claro, que o caso precipitado explica-se. Os pigmeus retoma-
ram a lngua dos agricultores aos quais eles estiveram associados; estes ltimos,
na floresta, herdaram da cultura dos indivduos da savana, quando eles para l
migraram, a menos que o grupo no tenha, antes, vivido na savana e no se
tenha adaptado  floresta. Pouco importa. Originalmente, no existia seno uma
comunidade que falava esta lngua e a equao lngua-cultura-raa era vlida.
Podemos citar, evidentemente, muitos casos nos quais lngua-cultura-raa se
superpem. Poder-se- ainda retorquir que a comunidade bira no teria sido,
sem dvida, a nica da famlia  qual ela pertencia a seguir o modo de vida
que era o seu, a possuir certas estruturas sociais e inclusive algumas formas de
expresso cultural: ao que tudo indica, ela compartilhava tudo isso com locutores
de outras lnguas.
     verdade que, originalmente, existia uma comunidade banta, falante da
lngua protobanta, pertencente portanto a uma nica "raa" e seguindo um
mesmo modo de vida. Ainda o objeto no  inteiramente certo, haja vista que


12    M. A. BRYAN, pp. 89-90.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                   177



fontes indicam estar esta comunidade fortemente ligada  pesca; todavia, junto
a estes grupos que dela faziam parte, alguns se dedicariam prioritariamente 
agricultura. Em suplemento, tudo o que sabemos acerca da cultura protobanta
provm das lnguas.  perfeitamente possvel que, naquele momento, existissem
situaes como aquela dos bira. Com maior certeza, elas devem realmente ter
existido posteriormente, pois que autctones abandonaram as suas lnguas para
comear a falar um idioma banto.
    A outra pressuposio, a difuso pelo vis das migraes, no  to plausvel
quanto aparenta. As lnguas romanas, por exemplo, no se expandiram atravs
da migrao macia dos habitantes do Latium. Existe toda uma gama de meca-
nismos sociolingusticos que provocam mudanas na localizao geogrfica das
lnguas. Um dentre os mais importantes  a mudana de lngua. Uma populao
aprende uma lngua estrangeira, torna-se perfeitamente bilngue e, em seguida,
abandona o seu prprio idioma para somente falar a lngua estrangeira. Isso
aconteceu com os sekyani do Gabo, atualmente todos bilngues em mpongwe,
alm de estarem perdendo o seu falar original. Foi o que aconteceu com os
habitantes do Cabo ocidental e da Nambia do Sul que perderam os seus idio-
mas khoi e san, para no mais falarem seno o afrikaans. Trata-se de relaes
de fora socioculturais que determinam estas mudanas.  o Imprio Romano
que explica a difuso das lnguas latinas e o Imprio Chins, com a imigrao
sustentada a partir do Norte, que explica a sinizao do Sul da China. Processos
demogrficos igualmente atuam. Os conquistadores normandos da Inglaterra
perderam o uso do francs, absorvidos pelos seus sujeitos, mais numerosos; a
mesma coisa lhes acontecera antes na Normandia, onde eles haviam adotado
o francs. Predominncias comerciais ou culturais podem igualmente intervir.
Os sekyani aprenderam o mpongwe porque era a lngua comercial do lugar. A
predominncia cultural da Frana na Europa explica a expanso do francs na
Blgica, no sculo XVIII. Acrescentemos enfim que, em numerosos casos, os
laos comerciais, sociopolticos e at religiosos, podem criar numerosos idiomas
comuns, derivados de uma lngua de prestgio. Tal o caso dos koine, os crioulos
e os sabirs. Em virtude do carter macio dos fenmenos de convergncia entre
lnguas bantas, este caso deve ter ocorrido mais de uma vez. Em pocas assaz
recentes, citaremos o lingala ou o suali, ou ainda o monokituba, como lnguas
de trfico que so crioulos.
    Aquele historiador que queira melhor compreender as causas da expanso
banta deve raciocinar por analogia e lembrar-se constantemente de toda a gama
de mecanismos sociolingusticos implicados. Ele no pode atribuir tudo auto-
maticamente a migraes. De todo modo, haja vista a provvel densidade popu-
178                                                           frica do sculo VII ao XI



lacional antes da era crist, ele no pode colocar como postulado a existncia
de migraes macias, devendo invocar superioridades demogrficas locais ou
vantagens sociais, econmicas, culturais ou polticas para explicar o fenmeno.
E, como a histria da difuso das lnguas bantas  to longa e a rea afetada to
vasta, deve-se aceitar que, em um momento ou outro, quase todos os mecanis-
mos, seno todos, conhecidos por analogia, podem ter atuado.
    Com efeito, o nico resultado que deriva dos dados lingusticos  uma
reconstituio da comunidade protobanta, a partir do que revela o seu lxico.
Este lxico refere-se a uma poca, no a um momento. Pois a lngua protobanta
evolua, compunha-se de diferentes dialetos e diferenciava-se de outras lnguas
aparentadas. O lxico banto utilizvel atualmente13 refere-se ao grupo banto, no
sentido estrito do termo, a este "banto comum", cronologicamente mais pr-
ximo de ns. A reconstruo do lxico, fcil de provar quanto  forma, no o 
atualmente quanto ao sentido. Pois o sentido igualmente muda com o tempo e
o sentido de hoje, nas diferentes lnguas, pode variar consideravelmente. Assim
sendo, a raiz km significa "curandeiro" ou at "divino", no Leste, e "chefe",
no Oeste, embora em um bloco de lnguas do Oeste (as A70) ele signifique
"ricao". Evidentemente, pode-se aproximar o seu sentido e considerar o chefe
protobanto como um chefe rico e curandeiro-divino. Entretanto, a coisa corre o
risco de se tornar artificial. Com efeito, neste caso, no se poder atribuir como
sentido unicamente "dirigente", exato mas vago.
    Do vocabulrio antigo, deduz-se contudo que a comunidade falante de banto
ancestral praticava a cultura de inhame, de outras razes e inclusive de cereais.
Ela no conhecia seno a cabra como animal domstico. Ela caava (sobretudo o
javali-africano), porm ela era antes especializada na pesca. De fato, como vimos,
a lngua poderia ser comum a duas comunidades empregando modos de vida
assaz diferentes. O parentesco servia como princpio de organizao interna e a
comunidade dispunha de uma srie de especialistas, dirigentes e "religiosos". A
noo de ancestral e a crena na bruxaria estavam bem estabelecidas. Pode-se
inclusive apreender alguns detalhes sobre a postura dos grupos de doadores de
mulheres perante os recebedores de esposas. Mas o estudo do vocabulrio est
distante do seu trmino e podemos esperar um dia encontrar neste aspecto uma
descrio bem mais completa.
    O lxico, em correlao com a arqueologia e o conhecimento do bero da
comunidade, permite datar o incio da expanso banta. Ela remonta ao Neoltico.


13    M. GUTHRIE, 1967-1971; vol. 2; A. E. MEEUSSEN, 1969.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                                    179



Os bantos praticavam a agricultura (cultura de cereais, entre outras); no entanto,
no conheciam a tecnologia dos metais. Isso permite datar o protobanto entre
-1000 (ou at antes) e -40014.
   A expanso fez-se ao longo de um longo perodo, haja vista que, no sculo
XIX, ela no terminara completamente na frica Oriental 15. Entretanto, os
primeiros viajantes rabes reportaram termos bantos da costa oriental africana.
Aproximadamente no sculo VIII, existiam portanto comunidades bantfonas
nas margens do Oceano ndico. Podemos concluir, a este respeito, que a expan-
so banta estende-se no somente em uma tera parte do continente, cobrindo
de dois a trs milnios no tempo. O que haveria de espantoso, desde logo, em no
dispormos seno de apreciaes muito genricas e, muito amide, fortemente
divergentes acerca do seu desdobramento?


     Lingustica e arqueologia
    A estratgia seguida pelos estudiosos  clara. Ela aparece no modo pelo qual
se fixou os primrdios da expanso.  necessrio extrair, do lxico, dados que
possam ser encontrados nos stios arqueolgicos ou, ainda e menos probatrio,
aproximar a prova arqueolgica de migraes em grandes extenses daquilo que
sabemos sobre a difuso das lnguas bantas.
    Em princpio, a soluo vir deste procedimento. Entretanto, quando se
sabe que os especialistas indo-europeus ainda se apegam a teorias fortemente
divergentes em seu domnio, enquanto todas as lnguas desta famlia so bem
descritas e as escavaes foram bem mais numerosas comparativamente  frica,
acreditamos que a reconstituio dos processos no seja nem fcil e tampouco
rpida. Podemos mencionar as dificuldades mais evidentes. Um stio da primeira
idade do ferro  posterior  origem da expanso das lnguas bantas. Porm, no
se pode deduzir, contudo, que somente houve bantfonos, nesta tera parte da
frica, que souberam fundir o ferro. No se pode atribuir sistematicamente
qualquer stio da idade do ferro a uma populao falante de banto. No  possvel
retraar, na frica Oriental, a difuso muito rpida de um tipo de cermica dos
primrdios da idade do ferro. Assim sendo, como todos os stios encontram-se
na rea de expanso das lnguas bantas orientais, baseou-se nesta coincidncia


14   T. SHAW, 1978, pp. 60-68, 78-80; P. de MARET e F. NSUKA (1977) fazem o balano sobre a questo
     da metalurgia.
15 Como observamos atravs do caso dos mbugwe, na Tanznia.
180                                                                             frica do sculo VII ao XI



(no sentido literal da palavra) para declarar que l se encontrava o vestgio
arqueolgico da expanso banta16. No entanto, primeiramente, no se dispe
seno escassos resultados de escavaes de outras regies da frica bantfona.
Em seguida,  perfeita e igualmente plausvel deduzir, desta rpida propagao
do ferro, o trao de uma difuso muito imediata devida aos forjadores/oleiros,
os quais talvez representassem uma nfima minoria da populao junto  qual
eles se instalaram.
    Jamais se deve perder de vista que a arqueologia  incapaz de provar qual
era a lngua falada por aqueles que fizeram ou utilizaram as cermicas, culti-
varam cereais ou fabricaram os objetos em metal, em pedra ou osso, presentes
nestes stios. Os dados lingusticos e arqueolgicos podem, todavia, ser coteja-
dos: quanto mais a correlao aparente ser extraordinria, mais ela ter valor
probatrio.
    No cabe aqui passar em revista os stios da primeira idade do ferro, em razo
da ateno conferida nos diferentes captulos do volume precedente. Notaremos
somente que os mais antigos stios de bantfonos correspondem, sem dvida, a
utenslios neolticos e que os stios da idade do ferro na frica Meridional, Cen-
tral e Oriental "podem" corresponder aos vestgios deixados por bantfonos17.


      A expanso banta
   Duas teorias existem para explicar as razes da expanso dos bantos a partir
dos seus territrios de origem. Uma sugere o abandono de uma economia pre-
cria, de caa e colheita, em proveito de uma economia fundada na agricultura,
tenha desencadeado uma exploso demogrfica, a qual, por sua vez, teria sido
seguida de migraes de populaes em busca de um espao vital. O arquelogo
Merrick Posnansky escrevia, aproximadamente em 1962, que as migraes de
povos bantos partidos da frica Ocidental em direo  frica Central eram
obra de populaes agrcolas e que o movimento desenvolveu-se depois que as
tcnicas agrcolas (cultura da banana e do inhame), introduzidas pelos indo-
nsios entre -400 e +200, foram transmitidas para as populaes florestais da
frica Central18. Outra teoria, a da conquista, estabelece uma ligao entre a
expanso dos bantos e os primrdios da idade do ferro: o trabalho deste metal


16    Sobretudo D. W. PHILLIPSON, 1977a, pp. 102-230, mais particularmente pp. 210-230.
17    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulos 25 e 27.
18 M. POSNANSKY, 1964.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                        181



teria facilitado a produo agrcola, graas ao aperfeioamento das ferramentas,
e permitido aos bantos estabelecerem o seu domnio sobre os povos das regies
nas quais eles se instalaram. O principal defensor desta teoria, C. C. Wrigley,
afirma que os bantos
     eram uma minoria dominante, especialistas da caa ao javali, constantemente
     ganhando novos adeptos [...] graas ao seu fabuloso prestgio como provedores de
     carne, lanando sem cessar novos grupos de aventureiros em todas as direes, at
     o ponto em que a totalidade do subcontinente austral conheceu o uso do ferro e
     ps-se a falar o banto19.
    Considerando a natureza das migraes na segunda parte do milnio pas-
sado, os incessantes movimentos dos bantos, ao longo do I milnio da era crist
na frica Subequatorial, podem explicar-se por razes diferentes e, provavel-
mente, mais graves. As fomes, a busca de condies mais favorveis de existncia,
de terras cultivveis e pastos, por exemplo, as epidemias, as guerras e o simples
esprito de aventura podem igualmente ter motivado os primeiros desloca-
mentos dos povos bantos; entretanto, at o momento apenas pouca ateno foi
dedicada a todas estas razes.
    Para retornarmos s teorias da exploso demogrfica e do esprito de con-
quista, deve-se notar que a introduo da agricultura fez-se gradualmente e no
substituiu seno paulatinamente, na frica Subequatorial, uma economia origi-
nalmente fundada na caa e na coleta. Na realidade, estes dois tipos de economia
se completavam,  imagem do que ocorre atualmente em algumas regies da
frica, de modo que no se deve considerar os primrdios da agricultura como
um ponto de inflexo capital. Tratou-se de um processo evolutivo que no foi
capaz de imediatamente conduzir a uma revoluo demogrfica, a exigir dos
bantos uma migrao macia em busca de espao vital. O trabalho do ferro no
revolucionou a agricultura seno progressivamente, porque este metal no foi
produzido, em um primeiro momento, seno em fraca quantidade na frica
banta. A tecnologia do ferro em nada revolucionou a agricultura ao longo do
primeiro perodo da idade do ferro. At o incio do sculo passado, foi sobretudo
pelo fogo que os desmatamentos de florestas ou savanas ocorreram e o basto
pontudo sobreviveu na frica at os nossos dias. Com muito maior nfase no
incio da idade do ferro! Indubitavelmente, a tecnologia do ferro melhorou a
panplia das armas das quais dispunham os bantos nesta poca, a lana e a flecha
de cabea metlica constituindo as mais conhecidas dentre estas novas armas;

19   C. C. WRIGLEY, 1960, p. 201.
182                                                                                   frica do sculo VII ao XI



porm,  provvel que durante muito tempo, elas no foram consideradas como
mais eficazes que as flechas de cabea de pedra ou osso, que as lanas e clavas
de madeira, no tornando, por conseguinte, mais agressivos os seus detentores.
    A expanso dos bantos no tomou a forma de um xodo, de uma regio 
outra. Foram sem dvida deslocamentos de pequenos grupos de uma localidade
a um vilarejo vizinho, com eventuais retornos ao ponto de partida, processo repe-
tido muito frequentemente at o dia em que as geraes sucessivas finalmente
atingiram os quatro cantos da frica Subequatorial, talvez em um intervalo de
um milnio ou mais. No se deve imaginar que as migraes dos bantos tenham
sido uma progresso linear, unidirecional, um perptuo movimento adiante. No
curso de milnios, movimentos em todas as direes certamente ocorreram.
    Todas estas consideraes colocadas, o que se pode dizer em respeito 
expanso banta? O protobanto era falado em uma regio fronteiria no plano
ecolgico, dispondo portanto de um meio assaz rico, conquanto pudessem dele
usufruir os seus habitantes.  provvel que aqui tenha havido migrao, ao
menos em pequeno nmero, de um excedente populacional e que, alm disso,
vilarejos inteiros, aproximadamente a cada dez anos, se deslocassem para estarem
mais prximos de campos recm-desmatados: sem dvida, foi pouco a pouco
que eles penetraram na floresta. A distribuio das lnguas do Nordeste, bem
distintas daquelas do centro da floresta equatorial20, mostra que elas se dissemi-
naram em trs principais direes: ao longo do mar, rumo ao Sul e alm-mar,
primeiramente em direo das ilhas de Malabo. Talvez neste primeiro movi-
mento, as lnguas tenham inclusive atingido o esturio do Gabo. Em segundo
lugar, elas teriam chegado s bordas da floresta, no Leste, ao menos at o rio
Sangha. O terceiro movimento caracterizou-se por uma penetrao na floresta
a partir de diferentes pontos das bordas, ou pela progresso normal da atividade
agrcola, ou talvez, novamente, pela ao de pescadores no Sangha.
    O primeiro sucesso dos bantos foi assegurar o controle do meio florestal do
Zaire. A sua infiltrao na floresta fez-se em duas etapas: do Norte ao Sul, os
bantos contentaram-se em seguirem os rios e as estreitas faixas de terras aluviais,
enquanto a destruio progressiva da floresta primitiva pelas populaes bantas
agrcolas avanava em uma ampla frente.
    Os primrdios do perodo agrcola e da idade do ferro na regio protobanta
ocidental so, todavia, muito mal conhecidos. Pensa-se, entretanto, que o Zaire
equatorial foi um centro independente de desenvolvimento agrcola, desen-


20    A separao  ntida, tanto na classificao lexical quanto na classificao gramatical.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                      183



volvimento fundado na importncia capital conferida ao inhame e ao leo de
palma21. Na Ilha de Malabo, o desenvolvimento agrcola centrado na produo
de palma esboou-se no sculo VI, e pode-se pensar que a agricultura, no con-
junto da zona equatorial, tenha comeado aproximadamente na mesma poca.
Na regio Kassai/Stanley Pool do Zaire, encontram-se pesados picaretas de
pedra, discos de pedra, machados em pedra polida, enxs e objetos em cermica,
vestgios de uma cultura "neoltica". Cr-se que os bantos cultivavam o inhame
e as plantaes de palma para o leo, sem dispor de provas formais, em razo
destas culturas no deixarem nenhum vestgio arqueolgico.
    H no Zaire duas importantes tradies datadas do incio da idade do ferro, a
saber, aquela do Kassai/Stanley Pool e aquela do Shaba/Kivu oriental. Na regio
protobanta do Oeste (aquela da tradio Kassai/Stanley Pool), nenhum stio estra-
tificado foi, at hoje, objeto de escavaes, embora se tenha encontrado na superf-
cie quantidades de objetos cermicos "de cova rasa", remontando ao incio da idade
do ferro. Infelizmente, no se puderam obter datas isomtricas nesta regio; foi
todavia possvel razoavelmente supor que o trabalho do ferro no teria ali absolu-
tamente comeado antes que na zona do Shaba/Kivu oriental, onde a tcnica do
radiocarbono ofereceu as datas do sculo IV, para o Shaba, e do primeiro milnio
da era crist, para o Kivu. Se os stios estratificados do Shaba datam perfeitamente,
por sua vez, a introduo da idade do ferro, aqueles do Kivu no o fazem, pois
que stios anlogos no Ruanda e no Buhaya (Tanznia) remontam a uma poca
anterior, aproximadamente -300 a -500 (conferir figuras 6.2 e 6.3).
    As inovaes agrcolas na regio protobanta do Oeste foram endgenas e,
embora tenham favorecido os deslocamentos, pode-se pensar que estes ltimos
se tenham realizado sobretudo no seio da regio. A zona equatorial no favorece
em nada os movimentos populacionais, assim sendo  provvel que, at o final
do primeiro milnio da era crist, os bantos do Oeste tenham sido os mais est-
veis dos dois mais importantes grupos bantos. H certeza, malgrado os parcos
testemunhos encontrados nesta regio, que os bantos conheciam o emprego do
ferro durante o primeiro milnio da era crist; entretanto,  pouco provvel que
eles o tenham desenvolvido suficientemente para que a agricultura de plantao
se encontrasse facilitada, a ponto de provocar uma exploso demogrfica, ela
prpria fator de expanso, assim como que a arte da guerra tenha sido revolu-
cionada, a ponto de levar os bantos, no Oeste, a conduzirem expedies militares
no interior da sua regio.


21   J. D. CLARK, 1970, pp. 187-210.
184                                                          frica do sculo VII ao XI



    Porm, haja vista a configurao geral dos grupos de lnguas bantas, deve ter
existido uma progresso muito mais forte rumo ao Leste, ao longo das bordas,
avano que conduziu os ancestrais das lnguas bantas orientais aos Grandes
Lagos. Esta hiptese no  nem apoiada por outros dados nem repelida. No
se encontram lnguas bantas orientais nestas regies, embora algumas lnguas
faladas no Sudo e no Leste da Repblica Centro-Africana pudessem pertencer
a este grupo. A nica coisa plausvel  a prpria existncia do grupo de ln-
guas orientais. Ademais, aquando deste primeiro estdio, houve a expanso dos
ancestrais de outras lnguas faladas pelos bantos ocidentais, sobretudo da lngua
matriz do bloco da floresta central, em direo s terras do alm-Oubangui e
do alm-rio Zaire. Como existe nesta regio um vasto pntano, o segundo do
mundo em tamanho, que bloquearia qualquer progresso direta, este avano deve
ter ocorrido ou pelo Norte, no Norte de Dongou, ou pelo Sul, ao Sul da foz
do Sangha. A diviso geogrfica das lnguas pertencentes a este bloco permite
supor que esta passagem tenha ocorrido pelo Sul: talvez a lngua ancestral tenha
sido falada entre o rio Alima e a floresta, na margem direita do Zaire/Congo.
Posteriormente, estas lnguas expandiram-se em toda a floresta, veiculadas por
pescadores que nela penetraram atravs de todos os rios que ali se dispem em
leque, assim como por nmades em movimento de vilarejo a vilarejo.
    Esta regio, situada entre o Alima e a floresta, possua florestas e savanas,
como aquela onde situamos a comunidade protobanta. Porm, as lnguas se
difundiram em meios fortemente diferentes e esta expanso, certamente, no
ocorreu sem interrupes eventuais ou, ao menos, diminuio de ritmo. Com
efeito, deve ter havido gradualmente uma adaptao s savanas, onde faltava
gua, e igualmente aos planaltos bateke. No Leste, havia gua em demasia e uma
aclimatao  vida dos pntanos provavelmente ocorreu na ocasio, ou talvez
bem depois. Finalmente, a maioria das lnguas foi falada por pessoas que, desde
ento, preferiam viver na floresta, ou como agricultores ou como pescadores.
Entretanto, algumas lnguas alcanaram o Baixo Kassai, um habitat no qual a
vida aqutica era muito rica, porm onde a floresta reduzia-se a galerias flores-
tais. Tratava-se de uma variante do ambiente de savana e da floresta. Outros,
enfim, neste segundo estdio, propagaram-se para o Sul e Sudeste pelas bordas
da floresta, aqui estendida de Norte a Sul, e, posteriormente, no Baixo Zaire,
em um novo mosaico de florestas e savanas.
    No subsiste nesta regio de lnguas bantas ocidentais nenhum vestgio de
falares autctones. Como estas lnguas autctones puderam ter sido assimila-
das? O fato de viver em vilarejos, em meio a populaes de caadores-coletores
mais mveis que eles, conferiu aos bantfonos uma incontestvel vantagem. O
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                                        185




Figura 6.2 Objeto cermico da antiga idade do ferro (Urewe), quase completo, encontrado acima do buraco
indicado como sendo a tumba de Mutara I Semugeshi, em Rurembo, Rutare, Ruanda. [Fonte: F. Van Noten,
1972; desenho de N. Nypels.]




Figura 6.3 Objeto cermico da antiga idade do ferro (Urewe), encontrado na regio de Kabuye, Ruanda.
[Fonte: F. Van Noten, 1983; desenho de Y. Baele.]
186                                                                          frica do sculo VII ao XI




Figura 6.4 Plantao de bananas em Rutare, Ruanda. [Fonte: F. Van Noten, Museu Real da frica Central,
Tervuren, Blgica.]



vilarejo tornou-se o centro de um territrio e a sua lngua uma lngua central
cuja influncia aumentou com a reorganizao do espao em torno dos vilare-
jos, os quais atraam mais comrcio (produtos agrcolas), talvez intercmbios
matrimoniais e, certamente, os curiosos, para quem o vilarejo representava uma
metrpole. Este cenrio  muito plausvel para a floresta. Ele certamente deve
ser completado, no tocante s outras regies, por aquele das lnguas rapidamente
propagadas por pescadores, ao longo dos grandes rios e s margens do mar.
Pessoas muito mveis que, entretanto e paradoxalmente, construam vilarejos
relativamente grandes, assaz estveis em localizaes particularmente favorveis,
eles devem ter influenciado os agricultores que eles cotejavam, diretamente ou
atravs do comrcio (peixe, potes cermicos e sal marinho contra produtos da
caa ou da coleta). O mapa permite-nos afirmar com certeza que os pescadores
so responsveis pela grande homogeneidade lingustica da bacia central, em
virtude dos seus contatos intensos com os agricultores, contatos que retardaram
o crescimento divergente das lnguas e favoreceram os fenmenos de conver-
gncia, notadamente no mbito gramatical.
    No sabemos quando a difuso das lnguas bantas ocidentais ultrapassou
os limites meridionais da floresta, sequer se foi antes ou aps a propagao da
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                   187



metalurgia nesta zona. Quanto  ulterior expanso destas lnguas no Sul do
Baixo Kassai e do Baixo Zaire, os dados mais recentes no permitem concluir
nada a este respeito.
    Houve nesta zona muitos movimentos lingusticos mais tardios. No Norte,
sobretudo entre o Oubangui e o Zaire, de Bangui ao rio Uele, muitas progresses
ocorreram em diversas direes. Por vezes, lnguas bantas deslocaram outros
conjuntos lingusticos (como o grupo mbamondunga e Lisaka para Kissangani),
em outros momentos elas recuaram em proveito de lnguas central-sudanesas,
notadamente em Ituri, onde, alm disso, um grande bloco de lnguas bantas foi
fortemente marcado pela gramtica de lnguas central-sudanesas. Finalmente,
eventualmente ocorreram trocas lingusticas.
    O linguista Christopher Ehret elaborou uma teoria segundo a qual lnguas
sudanesas se difundiram at a frica Meridional; a expanso subsequente dos
bantos as teria absorvido. Segundo ele, os protobantos do Leste se teriam fixado
entorno das margens ocidentais do lago Tanganica, em trs ondas sucessivas de
coletividades, entre -600 e -400: tratava-se dos lega-guha, os quais ocuparam o
Zaire Oriental, no Oeste do sistema ocidental da Rift Valley, dos bantos lacus-
tres, os quais povoaram os atuais territrios do Ruanda, do Burundi, de Uganda
Ocidental e Meridional (e provavelmente partes do cinturo interlacustre da
Tanznia), e dos tuli, os quais habitaram uma imensa zona na frica Oriental,
Central e Meridional. Ulteriormente, estes tuli cindiram-se em dois grupos: os
pela e os pembele, os primeiros abraaram todas as populaes falantes de um
dialeto banto do Qunia e de certas regies das Tanznia, os segundos compre-
endiam as populaes de lngua banta da maior parte do Malaui, de Moam-
bique e da Zmbia Oriental, bem como do conjunto do sudeste da frica. Ao
final do primeiro milnio antes da era crist, estas coletividades pela e pembele
se haviam tornado entidades diferentes dos seus ancestrais protobantos orien-
tais no Oeste do lago Tanganica, expandindo-se muito rapidamente, ao longo
dos dois ou trs primeiros sculos do primeiro milnio da era crist, na frica
Oriental e Meridional; elas esto na origem das atuais populaes de lngua
banta destas regies22.
    Nenhum linguista seguiu a teoria de Ehret, sem dvida porque ela est fun-
dada em bases at aqui demasiado tnues. Embora algumas provas arqueolgicas
corroborem algumas das observaes feitas por Ehret,  necessrio notar que,
na regio a Oeste do lago Tanganica  segundo ele, aquela a partir da qual os


22   C. EHRET, 1973.
188                                                                          frica do sculo VII ao XI




Figura 6.5 Exemplo de reconstituio de um forno da antiga idade do ferro em Ruanda: Nyaruhengeri
I. [Fonte: C. Van Grunderbeek, E. Roche, H. Doutrelepont e P. Craddock, Museu Real da frica Central,
Tervuren, Blgica.]
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                                         189




Figura 6.6 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Kabuye XXXV. [Fonte: M. C. Van Grunderbeek,
E. Roche, H. Doutrelepont, 1983.]




Figura 6.7 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Nyaruhengeri I. [Fonte: M. C. Van Grunderbeek,
E. Roche, H. Doutrelepont, 1983.]
190                                                                          frica do sculo VII ao XI




Figura 6.8 Escavaes de fornos da antiga idade do ferro: Gisagara VI. [Fonte: M. C. Van Grunderbeek,
E. Roche, H. Doutrelepont, 1983.]




protobantos orientais se teriam dividido em diferentes grupos , nenhuma busca
arqueolgica concernente aos primrdios da idade do ferro foi empreendida at
o momento.  necessrio, contudo, admitir que no se compreenda como as ln-
guas bantas puderam prevalecer na frica Oriental. Aqui o meio era virgem, as
populaes autctones eram tecnicamente mais avanadas que os bantfonos e,
dentre elas, algumas falavam, sem dvida, lnguas central-sudanesas, no mnimo
no Noroeste desta zona.
    A lingustica fornece menos informaes sobre a expanso das lnguas bantas
orientais que sobre o que a precedeu. A arqueologia nos ensina que a metalurgia,
uma avanada metalurgia, remonta aos ltimos sculos antes da era crist e que
ela se expandiu dos Grandes Lagos ao Transvaal, assim como ao Natal, desde
os primeiros sculos da era crist23. Somos evidentemente tentados a ver, para-


23    N. J. VAN DER MERWE, 1980, pp. 478-485, mais especificamente p. 480; M. HALL e J. C. VOGEL,
      1980, no tocante aos ltimos desenvolvimentos; P. SCHMIDT, 1981, p. 36.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                                            191




  (a)                                          (b)




                                               (c)




Figura 6.9 (a) a (c). Perfis de fornos da antiga idade do ferro reconstitudos (regio de Butare, Ruanda).
[Fonte: "La mtallurgie ancienne du fer au Rwanda et au Burundi", Jornadas de Paleometalurgia, Universidade
de Compigne, fevereiro de 1983.]
192                                                           frica do sculo VII ao XI



lelamente, um movimento lingustico dirigido dos Grandes Lagos em direo 
provncia do Cabo, concluindo que foi a superioridade tcnica que fez reinarem
as lnguas bantas em todo este territrio. Superioridade tcnica que, rumo ao
Sul, teria inclusive includo a agricultura e a criao. Mas deve haver prudncia.
Muitas lnguas na prpria frica Oriental so to prximas entre si que uma
subclassificao ainda no est clara, salvo para as lnguas ao Sul do Limpopo e
para os falares shona, ao Sul do Zambeze. Em suplemento, no se deve esque-
cer que lnguas bantas orientais so igualmente faladas mais para o Oeste, no
Sudeste do Zaire e na Zmbia. Alm de estarmos ainda suficientemente seguros
acerca da posio de todas as lnguas ao Sul do baixo rio Zaire, at a Nambia.
Elas foram, ao menos, fortemente influenciadas pelas lnguas bantas orientais.
E estas regies no correspondem, por mais conhecidas que sejam  e elas o so
muito pouco do ponto de vista arqueolgico ,  distribuio das culturas tpicas
da primeira idade do ferro oriental.
    Portanto,  todavia possvel acreditar, como o professor Ehret, que estas ln-
guas tiveram um primeiro habitat no Oeste do lago Tanganica e expandiram-se,
em seguida, rumo ao Norte e ao Sul.  igual e perfeitamente plausvel pensar
que elas nasceram no extremo norte, podendo-se inclusive avanar que elas so
originrias do alto Kassai ou do alto Zambeze. No podemos ainda resolver
esta questo.
    Nesta zona, os vestgios de falares no-bantos so evidentes nas lnguas
bantas mais meridionais, as quais emprestaram uma parte do seu lxico e da sua
fonologia das lnguas khoi e san. Na frica do Leste, a distribuio das lnguas
no espao mostra que a sua progresso foi muito movimentada. As lnguas ban-
tas e os outros falares encontram-se muito sobrepostos: em um passado recente,
lnguas no-bantas lograram ganhar terreno em detrimento das lnguas bantas e
vice-versa. A expanso banta no foi uma expanso sem revezes! Ao contrrio,
ela certamente os conheceu, o que implica recuos que podem ter durado sculos
e afetado partes considerveis da esfera bantfona. Todavia, assim sendo, dever-
amos encontrar o trao destes outros falares,  imagem do realizado no tocante
s influncias central-sudanesas no Leste do Zaire.
    A expanso banta, objeto do nosso estudo, encontra o seu termo aproxima-
damente no ano +1100, no momento em que os bantos instalaram-se na maior
parte da frica Subequatorial (onde todavia permanecem), onde, sobretudo, as
suas culturas comearam a adquirir caractersticas regionais bem especficas.
No atual estgio das pesquisas, no  possvel determinar de modo preciso as
origens dos bantos, no mais do que se pode explicar as razes que os levaram a
percorrer, em larga escala, os territrios da frica Subequatorial.  natural que
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                     193



o desenvolvimento das pesquisas lingusticas, estendidas a um maior nmero
de lnguas bantas, assim como o seu aprofundamento, faro surgir muitos fatos
novos, haja vista que tantas lnguas permanecem mal conhecidas. A exposio
aqui realizada ser certamente desenvolvida.
    Para concluir,  necessrio insistir na necessidade de separar os dados lingus-
ticos dos dados arqueolgicos. Isso  imperativo para evitar um perigo tcnico:
consistente em confundir o valor probatrio de disciplinas diversas. Este proce-
dimento  sobretudo necessrio para evitar um risco intelectual: correspondente
a criar um mito, poderoso mas falso. Logo que a palavra banto  pronunciada,
somos tentados a nela entrever uma realidade tnica ou nacional, embora a eti-
queta no seja seno lingustica. Este termo no designa nem um povo, nem uma
sociedade, nem uma cultura. Bleek escolheu demasiado bem a sua etiqueta. Cabe
a ns nos precavermos das consequncias. Pois, como o mito "hamita" nasceu
da confuso entre lngua, cultura e raa, um mito banto surgiria, certamente, de
uma confuso similar.


     Nota do editor
   Este captulo, obra de dois especialistas de diferente formao cientfica, com
opinies divergentes, constitui, at certo ponto, um amlgama de ideias. Fato
assaz surpreendente, os dois lograram um consenso no tocante s questes mais
importantes, demonstrando assim que anos de frutuosas discusses puderam
desdobrar-se em reais progressos relativamente ao problema banto. Somente
um ponto de desacordo: a teoria avanada por um dos co-autores  S. Lwanga-
-Lunyiigo  cuja opinio difere daquela da maioria dos especialistas. Ns a expo-
remos aqui, tal como o prprio autor enunciou-a em sua contribuio original:
   Apoiando as minhas concluses em provas arqueolgicas, eu recentemente
emiti a hiptese que as populaes de lnguas bantas ocupavam, h muito remo-
tos tempos, uma larga faixa territorial, da regio dos Grandes Lagos da frica
Oriental at o litoral atlntico do rio Zaire, assim como que a sua pretensa
migrao a partir da frica Ocidental rumo  frica Central, Oriental e Meri-
dional, jamais tivera lugar24.
   Os fatos conhecidos indicam que povos de tipo fsico negroide ocupavam a
frica Subsaariana desde a mdia idade da pedra e que as populaes de lnguas
bantas descendem desta origem negroide.  possvel que as lnguas bantas se

24   S. LWANGALUNYIIGO, 1976.
194                                                          frica do sculo VII ao XI



tenham desenvolvido sob o efeito da interao de diversas coletividades negras
primitivas, realizando emprstimos mtuos os quais se desdobraram no surgi-
mento de novas lnguas bantas, a partir destes amlgamas lingusticos variados.
Isso no exclui, com certeza, o fator gentico que tende a demonstrar uma
origem nica das populaes de lnguas conexas, porm deve-se sublinhar que
o fator gentico, avanado pelos linguistas, para explicar a origem ou as origens
dos bantos, no  de modo algum exclusivo.
    Os vestgios arqueolgicos testemunham presena na frica Subsaariana de
muitas zonas de estabelecimentos negros primitivos, onde coletividades negras
puderam agir reciprocamente entre si, para gerar lnguas inteiramente novas.
Na frica do Oeste, a mais antiga prova da presena negra vem de Iwo Eleru,
na Nigria Ocidental, onde foi exumado um crnio "protonegro", remontando
ao incio do dcimo milnio (-9250) antes da era crist. Ainda na frica do
Oeste, descobriu-se em Asselar, no Mali, um crnio negroide datado do in-
cio do stimo milnio (-6046). Outros vestgios negroides primitivos foram
expostos em Rop (Norte da Nigria) e em Kitampo, Norte de Gana; eles foram
respectivamente datados do segundo milnio antes da era crist (-1990/mais ou
menos 120) e do quarto milnio. Na frica Oriental, a presena negra aparece
nitidamente ao final do Plioceno e no incio do Holoceno. Em Ishango (Zaire
oriental), "uma populao indgena negra aparece [na frica], descendendo de
uma linhagem paleoltica primitiva25", entre -9000 e -6500. Os restos de esque-
letos negroides de Kanga (Qunia) datam do terceiro milnio. Na frica do
Sul, descobriu-se vestgios humanos datando do meio do Plioceno26. Eles so
representados pelo homem de Broken Hill, no Zimbbue, pelos esqueletos de
Tuinplaats e de Border Cave, bem como pelos restos de esqueletos remontando
ao final da Idade da Pedra, na provncia do Cabo, na Repblica Sul-Africana27.
Os vestgios negroides descobertos em Oakhurst, no abrigo do Matjes Rock, em
Bambandyanalo e Leopard's Kopje, confirmam que populaes negras existiam
em uma grande poro da frica Meridional, desde o final do Plioceno e incio
do Holoceno28. Assim sendo, os ancestrais dos bantos estavam amplamente
espalhados na frica Subsaariana desde meados da Idade da Pedra.
    Que os bantos sejam originrios da frica do Oeste, da regio do Bahr
al-Ghazl (Repblica do Sudo), das bacias dos rios Zaire e Zambeze, ou da


25    J. de HEINZELIN, 1962.
26    D. R. BROTHWELL, 1963.
27    Ibid.
28    B. WAIOGOSU, 1974.
Os povos falantes de banto e a sua expanso                                 195



regio interlacustre da frica do Leste, um fato aparenta estar consumado:
quaisquer tenham sido as suas origens, os povos de lnguas bantas efetuaram
muitas migraes, deslocando e integrando linhagens khoisan e provavelmente
sudanesas, em imensas regies da frica Subequatorial, operao em grande
parte finalizada entre o final do primeiro perodo da Idade do Ferro e o incio
do segundo milnio da era crist.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)    197



                                         CAPTULO 7


      O Egito desde a conquista rabe at o
        final do Imprio Fatmida (1171)
                                           Thierry Bianquis




    Introduo
    Os rabes j haviam conquistado vastos territrios na Sria e na Mesopot-
mia quando penetraram no Egito. A legendria opulncia das suas campanhas, a
sua populao, numerosa e trabalhadora, os haviam atrado. O Isl, constitudo e
triunfante, tomava contato com a frica atravs desta regio. O Egito conservou
at os nossos dias este papel essencial, na qualidade de mediador entre o Oriente
rabe e o mundo negro.
    Desde a queda dos ptolemenses, dinastia estrangeira ao pas pela sua ori-
gem e pela sua lngua, o Egito no mais abrigara centro de poder. Colnia de
explorao para os romanos, em seguida para os bizantinos, ele produzira uma
importante parte dos cereais com os quais se alimentavam as multides das capi-
tais imperiais. A sua prosperidade era essencial para a segurana dos prncipes.
    Durante os dois primeiros sculos do Isl, pouco mudara. Entretanto, o poder
central em Medina, a Damasco e, finalmente, no Iraque, dava diretivas variadas
segundo desejasse privilegiar a converso dos coptas ao isl ou, totalmente em
contrrio, um rendimento elevado das contribuies em ouro e gros que eram
deles exigidas.
    A partir do sculo III/IX, veleidades de resistncia em face das exigncias do
califado manifestaram-se junto queles que estavam investidos da autoridade
198                                                                             frica do sculo VII ao XI



no Egito. Comea ento uma nova histria, correspondente  lenta ascenso
rumo a um poder autnomo, em seguida independente e, finalmente, imperial.
Esta transferncia do poder poltico, de Bagd, primeiro para Fustt e, poste-
riormente, para o Cairo, sucedeu o deslocamento dos itinerrios comerciais do
Golfo e da Mesopotmia em direo ao Mediterrneo oriental, ao vale do Nilo
e ao Mar Vermelho. A Nbia e a frica profunda, at ento ignoradas, entravam
ativamente, graas ao Egito, na esfera econmica do mundo mediterrneo.


      O Egito submetido
      A conquista
    O Egito bizantino estava submetido  autoridade de um duque augustal,
residente em Alexandria. O pas estava dividido em cindo ducados, cada qual
compreendendo duas eparquias, elas prprias, compostas de vrias pagarquias.
Esta estrita hierarquia territorial, reflexo de uma sociedade toda estruturada em
grupos dominantes e grupos dominados, destinava-se a facilitar a cobrana de
imposies em natura e em espcie, a reunir o trigo da anona1 e, em seguida, a
financiar o seu envio a Constantinopla. Dois milhes e meio de hectolitros de
gros deviam ser transferidos por ano, antes de 10 de outubro.
    Milcias recrutadas no seio das famlias coptas, especializadas no servio
armado, mantinham a ordem nos campos; necessrias para reforar a autoridade
daqueles encarregados de cobrarem o imposto, elas tinham um valor militar
medocre e pouca mobilidade. As cidades haviam sido rodeadas de muralhas,
para garantir uma proteo eficaz contra os ataques dos nmades.
    Os solicitantes do Estado Bizantino dirigiam-se  populao de Alexandria,
falante do grego, adepta do cristianismo melquita e cuja cultura, assim como
o modo de vida, aproximava-se daqueles dos habitantes de Constantinopla. A
intermediao na provncia era assegurada pelos altos funcionrios, igualmente
gregos, e pelas famlias de grandes proprietrios fundirios helenizados.
    O campesinato copta conservara a herana lingustica do Egito faranico
e, recusando a doutrina calcedonense dos melquitas, optara pelo monofisismo.
Cada uma das duas igrejas tinha o seu patriarca. A religiosidade copta expressava-
-se por um monasticismo muito vivo, reforando o afluxo dos camponeses em


1     Anona: trigo enviado por certas provncias, notadamente pelo Egito e pela frica do Norte, a Roma,
      quando esta cidade era a capital do Imprio Romano, posteriormente, a Constantinopla, para permitir
      aos imperadores distribu-lo  populao.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)        199



fuga dos excessos da presso fiscal. A atividade rural e, com maior nfase, a vida
eremita no deserto,  margem dos campos cultivados, eram valores reconheci-
dos, ao passo que a cidade  sobretudo Alexandria - simbolizava a desordem,
devassido e heresia.
    Os persas conquistaram o Egito sem grande dificuldade em 619 e ali ficaram
por uma dezena de anos, perseguindo os gregos e os fiis da igreja melquita,
enquanto demonstravam maior benevolncia em relao aos coptas. Aps a
sua partida, os telogos do Estado Bizantino tentaram fazer prevalecer uma
doutrina que os dois Estados pudessem aceitar: foi um fracasso e as persegui-
es recomearam. A conquista rabe efetuou-se enquanto a populao egpcia
estava mergulhada em um profundo ressentimento contra o poder longnquo de
Constantinopla e contra o seu intermedirio local, em Alexandria. Esta popula-
o no podia identificar-se com o Estado Bizantino, nem politicamente, nem
religiosamente e tampouco linguisticamente.
    O general rabe `Amr ibn al-`As penetrou no Egito  frente de um modesto
exrcito, em dh l-hidjdja, no dia 18 de dezembro de 639. A conquista da Sria,
recm-realizada, assegurava-lhe contra qualquer ofensiva terrestre dos bizanti-
nos. `Amr ocupou al-Arsh, al-Farma e, avanando rumo ao Sul, ao longo do
brao oriental do delta, ele alcanou Bilbays, em seguida Helipolis, a Leste do
ponto onde o Nilo se divide em braos, dando nascimento ao delta. Babilnia,
a mais poderosa fortaleza bizantina aps Alexandria, encontrava-se no Sul,
igualmente na margem direita, em frente  ilha de Rda (Rawda).
    A defesa bizantina era animada pelo patriarca calcedonense Cyrus e pelo
comandante-em-chefe Theodoro. `Amr, aps receber reforos, conduziu expe-
dies no Fayym e no Delta, cercando Babilnia que caiu em djumda l-khir
em 20 de abril de 641. Em radjab, em 20 de junho de 641, comeou o cerco a
Alexandria, centro da potncia martima de Bizncio, no Mediterrneo meri-
dional. Esta gigantesca cidade fortificada, abrigando seiscentos mil habitan-
tes, capitulou finalmente e os rabes ocuparam-na em shawwl no dia 21 de
setembro de 642. Os rancores de partidos que dividiam os gregos e os rancores
religiosos que eles alimentavam contra os coptas haviam facilitado a ao dos
invasores. As elites bizantinas no haviam sido capazes de suscitar um esprito
de resistncia popular e a ajuda da metrpole, Constantinopla, fora insuficiente.
    Rompendo com a tradio instituda pelos lgidas de instalar o centro do
poder poltico no porto de Alexandria, `Amr escolheu Babilnia, no limite entre
o Delta e o Mdio Egito, como capital da provncia. Ele instalou as cabilas ra-
bes ao Norte da fortaleza. Uma mesquita, centro de reunio religiosa e poltica,
concluiu a unidade da nova cidade, designada pelo nome Fustt, ou Fustt-Misr.
200                                                                                 frica do sculo VII ao XI



Os textos no nos permitem restituir o perfil desta primeira cidade, sem dvida,
um acampamento paulatinamente substitudo por um habitat slido, primeira-
mente em tijolos de argila crua, em seguida, tijolos cozidos e pedras. No-rabes
instalaram-se nas Hamr', junto s cabilas.
    Alexandria foi, doravante, e at a poca fatmida, uma cidade secundria,
mantida sob estrita vigilncia do poder provincial. Com efeito, havia o risco de
um desembarque bizantino em seu porto, o que permitiria a instalao de uma
ponta-de-lana em um meio favorvel a Bizncio. Assim sendo, em 25/645-646,
a marinha imperial pde momentaneamente recuperar a cidade e a sua recon-
quista pelos muulmanos, conduzidos por `Amr, chamado pelas circunstncias,
foi complicada.
    O regime fiscal imposto pelos rabes ao Egito, aquando da reconquista,  de
difcil descrio, haja vista que as antigas obras, como aquela de al-Baldhur,
reportam tradies contraditrias. O Egito nela  descrito como uma terra
conquistada por capitulao e sem combate (sulhn)2 ou uma terra arrancada
dos seus habitantes pela fora das armas (`anwatn)3. No primeiro caso, a terra
permanecia nas mos daqueles que a cultivavam, forados, para conserv-la, a
depositar um imposto em natura - por vezes chamado khardj 4 - alm da capi-
tao em dinheiro - por vezes chamada dzizy 5 - que eles deviam pagar para
terem conservado a vida a salvo sem a converso ao isl. No segundo caso, a
terra retornava  comunidade dos muulmanos: estando liberado a estes ltimos
o emprego em meio aos vencidos, a quem se teria concedido a graa da vida,
camponeses como operrios ou meeiros.
    A confuso poder-se-ia explicar pelo receio dos relatores de tradies em
caracterizar em um esquema jurdico nico episdios sucessivos, distantes no
tempo e no espao. O exrcito bizantino pde retomar o combate, enquanto
os coptas, graas a uma capitulao das milcias locais, haviam obtido o direito
de conservarem as suas terras. Alhures, as autoridades muulmanas buscaram
um argumento para recusarem lotes de terra a rabes das cabilas, o cultivo


2     Sulh(n): diz-se da tomada de uma cidade pelos muulmanos aps capitulao.
3     Anwatn: "pela fora"; dizia-se de uma cidade que tivesse sido tomada por assalto pelo exrcito muul-
      mano quando tivesse recusado capitular.
4     Khardj: imposto fundirio, por vezes pago em natura, atingindo a terra que no estivesse abandonada
      no momento da conquista islmica; designa por extenso o conjunto das imposies fundirias.
5     Dzizy: imposto por cabea, capitao, que os no-muulmanos deviam pagar ao Estado Islmico,
      notadamente os cristos e os judeus, cuja presena permanente era tolerada em territrio islmico; em
      contrapartida, eles escapavam das obrigaes militares, tinham o direito de praticarem, discretamente, a
      sua religio e recebiam a proteo do prncipe muulmano.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                               201



destes lotes pelos coptas permitir-lhes-ia melhor garantirem a regularidade da
produo.
    As ambiguidades do estatuto, produto da conquista, aparentam ter sido bem
superadas e aproveitadas. A existncia do tratado de capitulao teria sido oposta
s reivindicaes fundirias dos chefes rabes; aos coptas descontentes com o
fornecimento das prestaes, teria sido lembrado que a terra conquistada com
as armas em punho poderia ser-lhes retirada. O montante da capitao paga
pelos cristos e judeus varia segundo os textos entre um e quatro dinares por
ano, para cada macho de mais de quatorze anos; quanto ao imposto em natura,
proporcional  superfcie explorada, ele comportava o fornecimento de gros,
leo, vinagre, eventualmente de roupas ou animais. Graas ao canal Nilo-Mar
Vermelho, os vveres podiam ser expedidos para a Arbia; igualmente, uma
grande parte do ouro recolhido era enviada ao califa. Nos primeiros tempos,
as autoridades determinaram globalmente a contribuio fiscal de cada cir-
cunscrio: cabia aos recolhedores e  Igreja a repartio dos encargos entre
indivduos e unidades de explorao. Este regime fiscal em dois nveis explica
a diferena entre as realidades descritas nos papiros gregos da poca rabe e
nos esquemas tericos reconstrudos a posteriori pelos historiadores rabes. O
califa `Uthmn, consciente do perigo que representava um governador de pro-
vncia dispor de um exrcito, do controle sobre o ouro que financiava e sobre
o trigo que consumia a sua capital, props a `Amr o abandono em proveito do
governador do Alto-Egito, `Abd Allh ibn Sa'd, da direo fiscal do Egito, con-
servando a responsabilidade poltica e militar. `Amr recusou "manter os chifres
da vaca enquanto outro se ocupava em tra-lo", palavras que o situam no estilo
dos prefeitos romanos e bizantinos. `Abd Allh foi nomeado nico governador
do Egito em 23/644.
    Em 31/652, `Abd Allh lanou uma expedio contra a Nbia, o atual Sudo,
atingindo Dongola, rio acima aps a terceira catarata. A populao crist, pr-
xima da Igreja Monofisita do Egito, manifestou uma feroz resistncia. Os inva-
sores, desencorajados com a preciso dos tiros dos arqueiros que atingiam os
cavaleiros rabes e com a pobreza do pas, preferiram negociar. O bakt 6 assinado
com os nbios previa que estes ltimos forneceriam escravos e receberiam vve-
res e panos. Considerado pelos juristas muulmanos como um tratado comercial


6    Bakt: do latim pactum; um dos nicos tratados bilaterais concludos pelos rabes com um povo que
     recusasse o isl; os nbios enviavam escravos aos muulmanos e recebiam trigo, talvez vinho e panos;
     concludo sob `Uthmn, em 651-652, o tratado foi renovado e modificado em vrias ocasies, at 1276,
     data na qual a Nbia foi submetida ao Egito mamlk pelos exrcitos de Baybars.
202                                                   frica do sculo VII ao XI




figura 7.1   O Egito rabe. [Fonte: G. Duby, 1978.]
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)         203



e no como um ato poltico, negociado em p de igualdade com um punhado
de brbaros, este bakt reajustado em mltiplas ocasies ainda estava em vigor ao
final da poca fatmida. Incidentes por vezes eclodiram, tais como os ataques de
saqueadores nbios no Alto-Egito e as lutas pelas minas de ouro ou esmeralda,
porm a regio rio acima de Assu permaneceu independente.
    O Isl amparou-se facilmente de imensos territrios sempre que as suas
estratificaes polticas e sociais apoiavam-se em oposies culturais; entretanto,
quando ele enfrentou populaes relativamente homogneas, ele fracassou. A
renncia perante a Nbia fazia do Egito meridional, provisoriamente, um "fim
de mundo" e retardaria at a poca mamlk a islamizao da frica niltica.

    Os umayyades em Damasco
    A instalao do califado em Damasco, em 41/661, centralizou no Norte o
mundo islmico. A guerra martima entre rabes e bizantinos, iniciada com a
vitria dos mts (Dht al-Sawr), conquistada em 35/655 pelos marinheiros
egpcios, produziu um duro golpe ao comrcio no Mediterrneo. O Mar Ver-
melho seria doravante abandonado em favor do Golfo e das vias terrestres que
atravessavam o Egito de leste a oeste, preferencialmente ao eixo norte-sul.
    Novos itinerrios prevaleceram para o grande comrcio, unindo a sia cen-
tral e meridional ao Iraque e ao mundo bizantino, ou pelas altas terras da sia
interior, ou pela navegao no Oceano ndico e atravs do Golfo, em seguida
pelo Tigre ou no Eufrates. O Mar Vermelho, a Pennsula Arbica, a Nbia e o
Alto Egito foram abandonados; no Egito, a ligao comercial mais ativa seria
desde ento aquela que atravessava o Delta, de Oeste a Leste, interligando o
Ocidente muulmano e as regies centrais do Imprio Islmico.
    A crise que levaria Mu'wiya ao califado comeara em 35/656, com o assas-
sinado do califa `Uthmn, em Medina. A primeira crise de crescimento da
comunidade islmica desdobrou-se na diviso desta ltima em grupos em con-
fronto quanto  relao entre lei religiosa e poder poltico ou quanto  suces-
so na magistratura suprema. Esta ruptura precoce da unidade rabe-islmica
permitiu aos recm-convertidos de qualquer origem integrarem-se facilmente
em estrutura desarticulada e desviou esta religio da tentao para disputas de
anterioridade, do racismo e da volta para si mesma. As diversas populaes
puderam conservar, aquando da sua converso ao isl, antigos elementos cultu-
rais aos quais elas eram ligadas. Os coptas, adeptos de um cristianismo simples,
autntico e sentimental, haviam recusado a teologia especulativa dos bizantinos.
Eles introduziram, em um sunismo sem inquietao particular, o seu temor de
204                                                            frica do sculo VII ao XI



manter um contato com os seres caros que os haviam deixado. Os cemitrios
dos karfa testemunham os incertos limites entre o aqui-abaixo e o alm, tanto
quanto as necrpoles do antigo imprio.
    A revolta que se desdobrou na morte do califa `Uthmn, chefe do partido
umayyade, nasceu entre as tropas rabes do Egito; no entanto, esta provncia,
atravs da ao do seu governador `Amr, foi associada  derrota das preten-
ses do califa `Al, tanto em Siffn quanto em Adhruh. Na ocasio da morte
de `Amr, `Utba, irmo de Mu'wiya, substituiu-o como governador do Egito
(44/664665). O xiismo no teve, portanto, muitos adeptos no Egito, embora
l sempre se testemunhasse uma ternura pstuma pelos descendentes do
Profeta.
    A presena rabe no Egito sobreps-se, no incio, s estruturas estatais bizan-
tinas. A lngua grega, os funcionrios fiscais subalternos, as circunscries admi-
nistrativas, o aspecto das moedas, haviam sido conservados; o sistema funcionava
em proveito dos novos mestres do pas e no mais de Constantinopla. A Igreja
Monofisita guardara o seu papel de intermediria entre o Estado, as cidades e
os indivduos. Com a perpetuao da presena rabe, tal respeito pelo passado
no mais tinha curso. Em uma primeira etapa, os smbolos cristos, dos quais
o Estado Bizantino impunha a marca em suas moedas e nos seus papiros ema-
nados dos seus ofcios, foram substitudos por frmulas cornicas. Em 87/706,
no conjunto do califado, deveu-se empregar o rabe para redigir os atos oficiais.
No Egito, papiros bilngues rabe/grego apareceriam pouco aps a conquista
e somente desapareceriam aproximadamente em 102/720; encontram-se tex-
tos redigidos em grego at o final do sculo II/VIII. No primeiro quarto do
sculo II/VIII, o Egito bscula para a esfera lingustica rabe. A lngua copta
persistiu os campos durante dois sculos e, por mais tempo, na liturgia copta
jacobita. Desde o sculo IV/X, os historiadores egpcios, calcedonense ou jaco-
bitas, redigiam as suas crnicas em rabe. Contrariamente aos persas e turcos,
o quais adotaram o isl mas conservaram ou retomaram a sua lngua nacional,
gozando assim de uma autonomia cultural, os egpcios foram englobados no
conjunto lingustico rabe, do Atlntico  Mesopotmia. Nascido no Oriente
Mdio, em fronteiras que no reproduziam aquelas de nenhum antigo imprio
nem de nenhuma unidade cultural, ele subsistiu at os dias atuais, integrando
pela primeira vez a civilizao egpcia em um espao mais amplo que o vale do
Nilo. Este conjunto  independente da fora persuasiva do Isl, haja vista que
os no-muulmanos ali falantes de rabe so numerosos, no sendo este o caso
dos no-muulmanos falantes de turco ou persa.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)      205



    Sob o califado umayyade, poucos rabes viveram nos campos egpcios e a
coabitao na cidade de soldados muulmanos, frequentemente iemenitas, e
egpcios no representou problema. A aculturao recproca foi rpida, ambos
acederam em conjunto, ao modo de vida urbano, at ento reservado s classes
helenizadas. O nmero de indivduos no participantes da produo agrcola
cresceu; citemos os soldados pensionistas do dwn (o Tesouro), os administra-
dores fiscais; portanto, o modo de vida urbano implicava despesas crescentes.
A partir dos anos 80/700, as conquistas diminuram de ritmo e o Tesouro no
mais pde apoiar-se no oramento. A presso fiscal agravou-se e a arrecadao
fez-se em detrimento dos campos.
    A resistncia s novas exigncias fiscais foi, inicialmente, passiva, como
na poca bizantina. Os camponeses desertaram as cidades nas quais estavam
registrados, desaparecendo ou transformando-se em monges para escaparem 
capitao. Quando `Abd al-`Azz ibn Marwn estendeu a capitao aos mon-
ges (65/685-85/704), os coptas encontraram uma escapatria na converso ao
isl. As autoridades muulmanas deveram escolher entre um encorajamento 
converso, provocando uma diminuio das receitas fiscais, ou uma modificao
da lei para evitar as converses interessadas, sem isentar os novos muulmanos.
Kurra b. Shrk, governador poltico e financeiro de 90/709 a 95/714, recusou-se
a suprimir a capitao dos coptas convertidos e determinou a perseguio aos
fugitivos, impondo taxas especiais em suplemento, para financiar a guerra naval
contra Bizncio. Ele aumentou a produo, cultivando "terras mortas" e implan-
tando o cultivo da cana-de-acar. O seu sucessor recebeu do califa Sulaymn b.
`Abd al-Malik a ordem "de ordenhar o leite ate que ele secasse, secar o sangue
at o seu esgotamento". O califa `Umar ibn Abd al-`Azz (99/717-101/720) ofe-
receu uma soluo jurdica para o problema das converses, a qual pretendia ver
se multiplicar, como ardente muulmano que era: ele separou a pessoa do novo
muulmano - isentada da capitao - da terra - que conservou o seu estatuto
anterior - e continuou a obrigar aquele que a cultivava a pagar o khardj, mesmo
se ele estivesse convertido.
    Como a arrecadao fiscal nos campos egpcios continuava a piorar e os
meios tradicionais de escapar desta situao estavam ento interditados, em
107/725 eclodiu a primeira revolta copta. As autoridades muulmanas insta-
laram no Delta cabilas rabes kaysitas: uma dezena de milhares de homens,
acompanhados das suas famlias, chegaram em trs sucessivas ondas. Facilitava-
-se assim o controle dos campos e, ao mesmo tempo, freava-se o povoamento
iemenita, predominante aquando da conquista. Sempre com a preocupao
do equilbrio, voltando-se desta feita contra a influncia da Igreja Jacobita,
206                                                          frica do sculo VII ao XI



entregaram-se em 107/725 as suas igrejas aos melquitas. Um patriarca calce-
donense foi nomeado em acordo com Bizncio, no exato momento em que a
marinha bizantina lanara um ataque sobre Tinns, em 101/720, e deveria rea-
lizar outro em 118/736. O recurso simultneo ao esforo militar e  negociao,
assim como a preocupao em equilibrar a presso dos diversos grupos sociais,
so duas caractersticas da poltica rabe medieval.

      As grandes revoltas no incio do califado abssida
    Em 132/750, os umayyades foram derrubados e o seu ltimo califa foi morto
no Egito, em agosto. As guerras travadas, na estepe sria, entre iemenitas e
kays, haviam desviado a sua ateno do verdadeiro perigo que os ameaava, na
ocasio, o aumento do descontentamento junto aos combatentes muulma-
nos no-rabes, especialmente no Khorasn. O sucesso de uma revolta que se
desenvolveu, primeiramente nesta longnqua provncia iraniana, modificou o
equilbrio geopoltico do Imprio Islmico. A sede do califado foi transferida
para a Mesopotmia, fora dos limites histricos do mundo helenstico e romano,
bem longe do Egito. Damasco desapareceu como centro autnomo de poder. A
Meca e Medina foram abandonadas pela aristocracia kurayshita, especialmente
aquela dos shuraf', segura de encontrar boa acolhida junto aos califas abssidas.
Fustt viu a sua funo regional valorizada e expandida, intermediria de um
poder distante e separado da Mesopotmia por vastas estepes.
    De 150/767 a 254/868, as revoltas foram quase ininterruptas no Egito. As
revoltas coptas prosseguiam; a substituio dos funcionrios locais cristos por
muulmanos, particularmente nas pequenas cidades do Delta, suscitou um novo
motivo de descontentamento em meio aos coptas, os quais se sentiram estran-
geiros em seu prprio pas. Assim sendo, de 150/767 a 155/772, os cristos do
Delta tentaram expulsar pela fora os funcionrios muulmanos. Em 217/832,
na regio dos buclies, no Norte do Delta, uma rude populao crist sublevou-
-se. A represso foi desastrada. Pela ltima vez, os cristos pegariam, sozinhos,
em armas contra o poder muulmano no Egito; em todas as revoltas posteriores,
eles se integraram em movimentos conduzidos por muulmanos.
    A partir do sculo III/IX, os rabes das cabilas e os soldados estiveram na
origem das principais desordens. O entusiasmo dos primrdios desaparecia. As
aes militares desenrolavam-se em territrio islmico, frequentemente contra
camponeses pobres: o butim no mais podia financi-los. Era necessrio manter
os soldados em tempos de paz e prover recursos suplementares quando eles par-
tiam em operaes. A sua fidelidade dependia da regularidade dos soldos. Em
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)       207



caso de revolta, os exrcitos locais, demasiado integrados, no eram confiveis:
buscou-se, com elevados custos, tropas da Mesopotmia. Em 193/809, uma
rebelio militar eclodiu em Fustt e, no ano seguinte, o governador construiu
para si uma residncia fora da cidade, na colina onde posteriormente edificar-
-se-ia a cidadela do Cairo.
   Os rabes das cabilas, instalados nas margens do Delta, haviam conser-
vado um modo de vida de pastores seminmades: eles cobiavam os campos
cultivados pelos coptas para neles oferecerem pastagens aos seus rebanhos e
recusavam-se a pagar o khardj pelas terras que ocupavam. Ao contrrio, outros
rabes, transformados em verdadeiros camponeses, haviam adotado o modo de
vida e os costumes dos coptas; eles dificilmente distinguiam-se destes ltimos
depois que esses se arabizavam e se islamizavam. Todos juntos, eles se revolta-
vam contra o fisco.
   A participao de rabes das cabilas nas revoltas  assinalada desde 169/785 e
o Hawf, o Delta oriental, esteve em estado de rebelio at 194/810. De 198/814
a 217/832, a anarquia foi total no Egito, onde a autoridade do Fustt no mais
era reconhecida, seno rio acima da cidade, no Mdio e Alto-Egito. Refugiados
vindos de Crdova, na Espanha, haviam constitudo um Estado em Alexan-
dria e controlavam o Delta ocidental. O Delta oriental, de Tinns a Bilbays
e al-Farma, formava outra entidade. Sem entrar nos detalhes das operaes,
devemos lembrar que foi necessrio o envio de quatro mil soldados turcos e a
presena no Egito do califa al-Ma'mn para que a ordem fosse restabelecida em
217/832. Desde o ano seguinte, os rabes foram riscados dos dwn: liberados
das obrigaes militares, eles no tinham o direito  penso concedida pelo
Estado.
   Os descendentes dos rabes da conquista tiveram trs destinos diferentes.
Os membros das famlias aristocrticas ou comerciantes da Arbia, aqueles
das cabilas instaladas em torno das antigas cidades ou das cidades criadas no
Iraque ou no Egito, se haviam tornado cidados. Eles tiravam proveito, como
funcionrios, juristas, comerciantes, do desenvolvimento econmico das cidades,
prosperidade nascida graas  extenso do mercado e do territrio aberto  sua
ao e financiado pelas arrecadaes operadas nos campos.
   Outros grupos, como mencionamos, integravam-se s populaes rurais
indgenas e estavam sujeitos, como elas, a estas cobranas fiscais. Finalmente,
numerosos eram os rabes vivendo como bedunos, quer fossem seminmades
instalados, como no Egito, s margens dos territrios cultivados, ou fossem
grandes nmades percorrendo as estepes. Rejeitados dos exrcitos, eles se mar-
ginalizam novamente, embora permanecessem dependentes das leis de mer-
208                                                           frica do sculo VII ao XI



cado que fixavam o preo dos gros que eles consumiam. Eles manifestavam
ressentimento e desprezo em face do luxo citadino ao qual no tinham acesso.
Eles eram receptivos s reivindicaes dos revoltos hasanidas ou karmates. A
pilhagem das caravanas, dos lugares santos, das cidades indefesas, permitia-lhes
recuperar a posse de bens que as guerras outrora travadas pelos seus ancestrais
haviam permitido acumular. Assim sendo, a conquista rabe engendrara uma
situao em funo da qual, dois sculos mais tarde, descendentes dos conquis-
tadores encontravam-se, a um s tempo, em meio aos privilegiados e entre os
explorados e excludos.


      O Egito autnomo
      A dinastia tulunida
    Sob o reino do califa al-Mu'tasim (218/833-227/842), os escravos turcos
foram introduzidos em nmero to elevado nas tropas da Mesopotmia que
tomaram o controle do exrcito e exerceram a sua influncia na administrao
civil, fiscal e provincial. As tropas palacianas haviam reduzido a muito pouco o
poder de um califa perante o qual elas faziam e desfaziam ao seu bel-prazer. A
administrao das provncias ou dos grupos de provncias foi confiada a mem-
bros da famlia califal ou a chefes turcos que continuaram a residir em Bagd
ou Samarra, delegando a seu turno o real governo da provncia a um prximo.
Deste modo, Ahmad ibn Tln chegou ao Egito, em 254/868, representando o
apanagista Bkbk, e tendo recebido o salt, autoridade poltica e militar sobre
a provncia, porm sem o khardj, autoridade financeira e fiscal que conservava
Ibn al-Mudabbir.
    Aos seus trinta e trs anos, Ibn Tln possua, como os seus camaradas tur-
cos, excelentes referncias militares, tendo servido durante sete anos em Tarse,
contra os bizantinos. Mas, ele se distinguia daqueles pela sua cultura religiosa
e literria. Ele colocou, durante a sua vida, a sua inteligncia ao servio de uma
desmedida ambio e pouco empregou a fora bruta. Desde 258/872, graas a
intrigas realizadas em Samarra, Ibn al-Mudabbir estava transferido na Sria.
    Ibn Tln foi obrigado, primeiramente, a intervir no Alto-Egito, onde trs
revoltas eclodiram em 255/869 e 256/870. As minas de ouro do Wd al-`Allk,
no Sudeste de Assu, e os escravos da Nbia atiavam as cobias. Em 221/836,
o tratado com a Nbia fora renovado e os filhos do rei recebidos em Fustt
e Bagd. Igualmente, os nmades bdja, instalados entre o vale do Nilo e o
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)        209



Mar Vermelho, haviam concludo um tratado com ele, e um dos seus vivia em
Assu. Neste contexto, as cidades do Sa'd (Alto-Egito) islamizaram-se, novas
redes comerciais estabeleciam-se com o Mar Vermelho e a Arbia ou com o
Magreb, atravs das vias que partiam dos osis. Em 259/873, o mais perigoso
dos rebeldes, Ibn al-Sf, vencido, refugiou-se na Arbia. Pouco aps, al-`Umar,
controlador das minas de Wd al-`Allk, seria morto. Estariam assim garantidas
as ligaes com o Sul.
    Em 221/836, na Sria, ele esteve no ponto de penetrar. Todavia, o entou
rage do califa preferiu regrar o assunto sem a sua ajuda, pois que se comeava
a suspeitar da sua ambio. Ibn Tln dispunha do trigo do Egito, do ouro e
dos escravos da Nbia; o tributo que ele enviava ao Iraque era indispensvel
ao califado para pagar os soldos das tropas, enquanto ele prprio nada podia
esperar desta instituio. Duas tentaes rondavam o potente governador do
Egito: tornar-se independente do califa,  imagem dos prncipes da frica do
Norte e conservar o tributo para financiar o seu prprio exrcito ou, em con-
trrio, intervir nos assuntos internos do Iraque. Em 256/870, um novo califa,
al-Mu'tamid, fora instalado e confiara ao seu irmo al-Muwaffak a poro
oriental do imprio. Ibn Tln obteve do califa o encargo de arrecadar o khardj
na Sria e na Cilcia, em contrapartida, fez-lhe chegar diretamente o tributo do
Egito para as suas necessidades pessoais. Al-Muwaffak, s voltas com duas peri-
gosas revoltas, dos saffridas, na Prsia, e dos escravos zandj, no Sul do Iraque,
julgava insuficientes as somas que recebia do Egito. Das entradas fiscais de 4,3
milhes de dinares, Ibn Tln teria enviado a cada ano 2,2 milhes ao califa
e, em 876, ele teria enviado a mais 1,2 a al-Muwaffak. No mesmo momento, 
bem verdade, ele construa um aqueduto e um hospital, assim como uma nova
cidade, no nordeste de Fustt, com casernas para os soldados, um palcio e uma
grande mesquita no estilo de Samarra. Estes edifcios teriam sido construdos,
segundo Ibn Taghrbird, graas ao ouro - 1,5 milho ou 2,5 milhes de dinares
em peso - retirado de um tmulo faranico descoberto nas proximidades de
Fustt. Seria uma lenda destinada a justificar a recusa em ajudar mais fortemente
al-Muwaffak, engajado, para o bem do califado, em uma difcil guerra? De todo
modo, al-Muwaffak, para expulsar Ibn Tln do Egito, levantou um exrcito.
Entretanto, os seus soldados, por falta de soldos, dispersaram-se em Rakka.
    Em 264/878, Ibn Tln invadiu a Sria sem encontrar resistncia, salvo em
Antioche; mal acolhido em Tarsa, na Cilcia, ela recm empossara um gover-
nador quando teve que retornar ao Egito, em razo da revolta do seu filho
al-`Abbs. O jovem prncipe foi levado como prisioneiro a Fustt, em ramad
268/fevereiro de 882, e Ibn Tln, mestre incontestvel do Egito e da Sria,
210                                                           frica do sculo VII ao XI



convidou secretamente o califa a vir residir em Fustt. Porm, o califa, aps um
incio de fuga, foi reconduzido  sua capital e forado a assinar um ato desti-
tuindo Ibn Tln. Este ltimo reuniu em Damasco, em dh l-ka'da 269/maio de
883, cdis, consultores jurdicos e shuraf', representando o povo muulmano do
Egito, da Sria e da Cilcia, deles obtendo um voto, legitimando a jihad contra
al-Muwaffak. As presses s quais este ltimo submetia o califa eliminavam
todo valor dos seus atos. Somente trs egpcios, entre os quais o cdi de Fustt,
recusaram os seus votos. Menos de um ano mais tarde, Ibn Tln morreria
doente em Fustt, em ramad 270/ maro de 884.
    O seu filho Khumrawayh sucedeu-lhe: ele logrou integrar Tarse, assim
como a Djazra (Alta-Mesopotmia) ao seu principado e, em 273/886, o cali-
fado reconhecia  dinastia tulunida a soberania sobre o Egito e a Sria por trinta
anos. Em 279/892, o califa al-Mu'tadid esposava, nas mais suntuosas npcias
da histria rabe, Katr al-Nad, filha de Khumrawayh, que lhe oferecera um
milho de dinares. Khumrawayh foi assassinado em Damasco em 282/896, dei-
xando vazio o Tesouro. O reino dos seus filhos, Djaysh, primeiramente, Hrn,
em seguida, terminou a runa da dinastia, incapaz de defender a Sria contra os
karmates. Esta seita de origem lida ismaeliana, nascida na Mesopotmia no
sculo II/VIII, fora capaz de explorar o rancor dos rabes das cabilas expulsas
para o deserto desde que os exrcitos do califado eram turcos ou negros. Os
bedunos invadiram a Sria a partir de 289/902 e venceram facilmente o exrcito
tulunida de Damasco, comandado por Tughdj. Tirando as concluses sobre as
consequncias desta derrota, um general abssida, Muhammad b. Sulaymn,
penetrou na Sria e esmagou os karmates, em 290/903, em seguida, marchou
sobre Fustt, onde entrou em 20 rabi'l 292/10 de janeiro de 905. Hrn b.
Khumrawayh recm fora morto.
    Uma leitura do relato que al-Kind consagra aos tulunidas evidencia um
estado social em plena evoluo. O poder poltico aps a morte de Ibn Tln
 frgil; ele est ameaado pelos pares do prncipe, pelos seus parentes ou pelos
seus generais, os quais conhecem os fundamentos militares da sua legitimidade.
Uma vez derrubado o prncipe, este grupo acorda a bay'a (sermo de fidelidade)
ao seu sucessor e legaliza atravs dos clrigos o novo prncipe. Este ltimo 
inocentado das violncias pelas quais se retirou o poder ou a vida ao seu ante-
cessor. Qualquer ato em prol do fortalecimento de um poder poltico de fato,
em condies de operar,  moral e juridicamente recomendvel. Este consenso
fcil dificilmente dissimula um real desinteresse dos homens de religio pelos
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                                    211



fundamentos jurdicos de um poder provincial, enquanto a khutba7 for pronun-
ciada em nome do califa. O divrcio entre a sociedade civil e o aparato militar
se esboa. Uma brutal mudana de cdi ou de imame perturba muito mais o
mundo dos souks que uma mudana de prncipe. Fustt e Damasco, cidades
provinciais de artesos e comerciantes, de mentalidades humildes e austeras,
desconfiam dos prncipes tulunidas, cujos hbitos e a cultura esto impregnados
de uma indulgncia persa. Esta classe mdia est em vias de constituio na
mesquita, lugar da sua identidade (ahl almasdjid8), e a obteno de encargos
jurdicos torna-se um sinal de promoo. Ela vigia cuidadosamente as classes
inferiores (asfal alns), filhos de camponeses ou de soldados mal integrados 
cidade e, caso necessrio, os denuncia ao poder.
    Outra insuficincia da dinastia relacionava-se com o seu exrcito, incapaz
de fazer frente  extenso dos territrios a serem protegidos, assim como de
enfrentar os exrcitos da Cilcia, aguerridos em razo de constantes combates.
As foras tulunidas eram heterogneas, reunindo turcos, daylamitas, negros,
gregos e berberes. Estes ltimos eram oriundos de populaes que se haviam
instalado no Delta; o Delta oriental fornecera rabes de cabilas seminmades,
constituindo uma temida guarda.
    Estas fraquezas no devem mascarar a irresistvel ascenso da economia
egpcia. A raiva com a qual o exrcito abssida pilhou Fustt e destruiu todas as
construes tulunidas, com exceo da grande mesquita, testemunha da cons-
cincia que ele tinha deste vigor e do perigo por ele representado para a pre-
ponderncia iraquiana.

    Frgil restaurao abssida: a anarquia
    Da queda dos tulunidas em 292/905 at a instalao de Muhammad b. Tughdj
como governador, em 323/935, o Egito conheceu uma sequncia de desordens
em respeito s quais no h interesse em reportar. Os governadores, cujas funes
limitavam-se s esferas militar e poltica, sucediam-se, enquanto a famlia de
al-Mdhar' instalava-se firmemente na cabea da administrao fiscal, opondo-
-se inclusive a determinadas nomeaes de governadores. O exrcito, regularmente


7    Khutba: alocuo pronunciada pelo khtib, do alto do minbar da grande mesquita, no momento da orao
     de sexta-feira ao meio-dia, no curso da qual o favor de Deus era invocado para o califa reconhecido na
     cidade, assim como, caso necessrio, para o prncipe de cujo governador da cidade detinha a sua delegao
     de poder.
8    Ahl almasdjid: as pessoas da mesquita, aqueles que frequentavam cotidianamente os seus edifcios, em
     geral comerciantes, artesos, juristas.
212                                                                              frica do sculo VII ao XI




figura 7.2 A mesquita Ibn Tln, no Cairo: vista parcial do ptio, do minarete e do pavilho de abluo.
[Fonte: UNESCO/A. Khalil.]




figura 7.3   Mesquita fatmida do sculo XI. Detalhe da fachada. [Fonte: J. Devisse.]
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                                  213




figura 7.4 Tmulo da poca fatmida, em Fustt. [Fonte: J. Devisse.]



pago, dedicava-se  pilhagem. Para escapar, a populao de Fustt reclamava, na
voz dos seus clrigos, a transferncia das tropas para Gizeh, demanda lgica haja
vista que os berberes ameaavam a cidade. Instalados na margem esquerda do Nilo,
no Delta, no Fayym, eles agiam em nome da dinastia ismaeliana dos fatmidas,
instalada em Ifrkiya. Contingentes berberes haviam sido integrados ao exrcito
egpcio, ao lado de outras tropas recrutadas na poca tulunida; somente os rabes
das cabilas haviam sido liberados. Este mosaico de etnias gerava problemas dis-
ciplinares; os violentos combates entre "ocidentais" e "orientais" seriam o preldio
dos grandes enfrentamentos da poca fatmida.
    Duas instituies caractersticas da segunda Idade Mdia rabe, o ikt' 9e
o wakf 10, desenvolveram-se no Egito ao final da poca tulunida e durante as


9    Ikt': delegao de arrecadao acordada pelo prncipe a um oficial militar ou civil sobre uma circuns-
     crio fiscal, a ttulo de remunerao por um servio prestado ao Estado; esta concesso era revogvel.
10   Wakf: disposio jurdico-religiosa tomada pelo proprietrio de um bem fundirio ou imobilirio para
     fixar a propriedade em proveito de uma instituio religiosa ou de interesse pblico ou social e/ou dos
     seus descendentes. O ato de fundao, realizado segundo um protocolo reconhecido, garantido por uma
     inteno religiosa ou de caridade, prev um supervisor do wakf e dos seus beneficirios. Em ltimo
     recurso, ao cdi cabia fazer respeitar as legtimas intenes do fundador. A fundao em wakf dos bens
     privados tinha como efeito desejado evitar um confisco pelo prncipe ou despossesso dos rfos durante
     a sua minoridade.
214                                                           frica do sculo VII ao XI



desordens subsequentes. Os soldos em dinheiro e os subsdios in natura devidos
aos soldados estavam a cargo das provncias onde operava o exrcito. Ora, se
desordens reclamavam a presena do exrcito, os servios financeiros eram os
primeiros a serem tocados e, por outra parte, os transportes de fundos para as
necessidades de um grande exrcito eram de delicada realizao em grandes
distncias. Para descentralizar a operao financeira, o chefe de corporao
recebeu uma delegao de arrecadao fiscal de um distrito e teve que manter,
parcial ou totalmente, os homens que ele comandava ou, por vezes, possua. O
ikt' ancorava firmemente o chefe militar  regio para a qual ele contribua a
defender, liberando deste encargo a administrao provincial.
    Ikt' civis foram, sem dvida, constitudos em benefcio de administradores
financeiros, como os mdhar', para garantir os adiantamentos ao Tesouro. 
certo que as suas atribuies permitiram-lhes constituir uma imensa fortuna (foi
possvel confiscar-lhes um milho de dinares) em bens fundirios e imobilirios,
fortuna rapidamente adquirida que atraa a cobia dos poderosos. Os mdhar'
reconheceram a instituio em wakf dos seus bens, para garantir o usufruto
unicamente aos seus descendentes.
    Estas duas instituies aumentavam o domnio das cidades sobre os campos,
agravando a arrecadao do sobreproduto agrcola, o campons no conser-
vando, quando muito, seno o estrito necessrio para a sobrevivncia da sua
famlia. Nenhuma capitalizao agrria era possvel. Por outro lado, as condies
atingidas eram congeladas e o campo de ao dos poderes centrais ou regio-
nais restringido. O recurso  violncia por parte dos camponeses desapareceu
na mesma poca, ao menos sob a forma de grandes revoltas, desaparecimento
devido  vigilncia mais difusa sobre os campos, graas ao ikt' e  absoluta
superioridade militar do profissional das armas sobre o civil armado, e daquela
da nova tcnica da esgrima sobre o sabre e a lana.

      Os Ikhshididas e Kfr
    Em sha'ban 323/julho de 935, Muhammad b. Tughdj, nomeado governador
do Egito com a dupla responsabilidade do salt e do khardj, chegou a Fustt. A
sua nomeao para uma dupla tarefa, a qual ia de encontro ao costume seguido
desde a queda dos tulunidas, fora obtida graas ao apoio de al-Fadl b. Dja'far
ibn al-Furt, inspetor fiscal para o Egito e a Sria. Ibn al-Furt, que fora o vizir
do grande amr abssida de Bagd, Ibn R'ik, ao qual estava ligado por uma
aliana matrimonial, concluiu igualmente uma aliana matrimonial com Ibn
Tughdj. Ele comeara a derrubar a potncia financeira da famlia al-mdhar'
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)        215



quando morreu em 326/938. O seu filho Dja'far b. al-Fadl, foi vizir ao final da
poca kafurida e, muito mais tarde, sob o califa al-`Azz. A aliana entre uma
famlia e financistas civis iraquianos, rigorosos arrecadadores de impostos, e um
governador ou chefe militar, turco ou persa, era coisa frequente nesta poca. Os
ban `l-furt transportaram, com outros financistas, de Bagd para Fustt, um
ambiente cultural favorvel ao xiismo, facilitando indiretamente a propaganda
fatmida.
    Neto de um soldado turco da guarda de Samarra, filho de um antigo gover-
nador de Damasco, Ibn Tughdj exercera numerosas funes de comando. Nome-
ado para Fustt, com a misso de proteger o flanco ocidental do califado contra
um eminente ataque dos fatmidas, ele se via reconhecer no direito de constituir
um principado autnomo. Em 327/939, foi-lhe atribudo, aps demandas suas,
o ttulo de al-Ikhshd, o Servidor, tradicionalmente conferido pelo prncipe do
Ferghna. Desde 323/935, ano da sua nomeao no Egito, ele fora enfrentar os
berberes que haviam ocupado a ilha de Rda (Rawda), em frente de Fustt, e
incendiarem o arsenal que ali havia. Novamente rumando em direo a Ifrkiya,
eles retornariam em 324/936, com um exrcito fatmida, para atacar o Egito,
mas foram vencidos. A riqueza de Ifrkiya, o ouro que ela recebia atravs do
Saara, bem como as suas relaes com a Andaluzia e a Siclia, haviam gerado um
importante trfico, proveniente do Mar Vermelho; as vias paralelas ao litoral do
Mediterrneo, interligando a frica do Norte ao Delta, aos osis, ao Alto-Egito,
se haviam multiplicado. Elas eram de difcil controle militar.
    Retomando a tradio tulunida, Ibn Tughdj considerava a Sria como parte
integrante do seu principado. Ele deveu disputar esta provncia com os chefes
expulsos da Mesopotmia, os quais pensavam ali encontrar uma compensa-
o. Ibn R'ik, expulso de Bagd pelo seu lugar-tenente, Badjkam, tentou em
326/938 a conquista da Sria; aps incertos combates, Ibn R'ik e Ibn Tughdj
concluram uma aliana matrimonial e dividiram a provncia, o Sul para o
Ikhshidide, o Norte e Damasco para o antigo amr de Bagd. Em 330/942, o
Hamdanida de Mawsil, Nsir al-Dawla, planejou a morte de Ibn R'ik e, em
332/944, ele enviou o seu irmo `Al, o futuro Sayf al-Dawla, para ocupar Alep.
Ao mesmo tempo, o califa al-Muttaki, ameaado em Bagd pelo amr turco
Tzn, refugiou-se em Rakka, onde Ibn Tughdj,  imagem de Ibn Tln, viera
propor-lhe de se estabelecer em Fustt. O califa entrou em Bagd, onde, em
334/945, o amr persa Mu'izz al-Dawla instaurou por um sculo um poder alida,
a dinastia buyide. Igualmente em 334/945, Ibn Tughdj morreria aps aceitar
concluir a paz com o Hamdanida de Alep. Unudjr ibn al-Ikhshd retomou o
combate e, em 336/947, dividiu a Sria com o Hamdanida, o qual se via reco-
216                                                                               frica do sculo VII ao XI



nhecer os djund 11 de Ramla-Palestina, de Tiberade-Jordnia e de Damasco. A
fronteira assim traada permaneceria, salvo durante curtos perodos, em vigor
durante um sculo e meio.
    Ibn Tughdj colocara  frente do seu exrcito um eunuco negro, Kfr, not-
vel personagem, aliando capacidades militares, administrativas e diplomticas
incontestveis, a uma profunda f sunita. Levado a Ks como escravo, ainda
muito criana, ele se identificou mais que todos os seus precedentes com o povo
de Fustt, onde ele gostava de passear. Kfr dirigiu o Estado Ikhshidide aps a
morte de Ibn Tughdj, sob o principado de Unudjr (334/946-349/961) e de `Al
(349/961-355/966), os dois filhos de Ibn Tughdj. De 355/966 a 357/968, data
da sua morte, Kfr exerceu oficialmente, com o ttulo de alUstdh, o poder no
Egito e na Sria Meridional, poder reconhecido pelo califa abssida.
    A poca kafrida foi marcada pelo aumento da insegurana no Egito e
na Sria. s ameaas fatmidas provenientes do Oeste acrescentava-se a nova
agressividade dos nbios, ao Sul, os quais atacaram os osis em 339/950 e
Assu em 345/956. Os bedunos da Arbia e da Sria atacavam as caravanas
de peregrinos. Para alguns historiadores, os fatmidas, demasiado ocupados
em reprimir as revoltas na frica do Norte, teriam atormentado o Egito por
intermdio dos seus aliados, especialmente os karmates e nbios. Por outro
lado, estes incidentes devem ser relacionados com a frequncia dos ditados
em voga no Egito desta poca, em consequncia de pura insuficincia. Os
bedunos, como os nbios, compravam cereais e, quando a alta dos preos no
Egito tornava os termos da troca demasiado desfavorveis para eles, recorriam
s armas para se alimentarem.
    Portanto, Kfr fortaleceu o exrcito, introduzindo escravos negros compra-
dos nos mercados do Alto-Egito. Estes kfriyya jamais se integraram comple-
tamente aos Ikhshyya dos ghulm brancos, turcos ou daylamitas, formando dois
grupos distintos e hostis. Kfr afastara aqueles dentre os seus antigos com-
panheiros que pudessem trazer-lhe sombra e comprara a fidelidade de outros,
acordando-lhes amplas ikt'. Aps a sua morte, os grandes oficiais no foram
capazes de encontrar um sucessor para ele entre si, permitindo-se manobrar
por Ibn al-Furt. O regime original institudo por Kfr no sobreviveu a ele.
Caso ele tivesse encontrado um homem da sua estirpe junto aos chefes militares
reunidos em Fustt, na primavera de 358/969, um regime prefigurando aquele
dos mamlk talvez tivesse nascido, trs sculos antes, s margens do Nilo.


11    djund: circunscrio territorial correspondente a uma unidade de recrutamento militar.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)       217



    O Egito imperial
    Os trs primeiros imames fatmidas do Egito
    No incio do vero de 358/969, o general fatmida Djawhar obteve, nas duas
margens do Nilo, rio abaixo de Fustt, uma vitria que rapidamente deu-lhe
acesso a esta cidade e forou os chefes ikhshidides e kafridas a fugirem para a
Sria. A incapacidade destes ltimos, em se unirem e organizar a defesa do pas
frente aos berberes, explicava uma derrota que a sua incontestvel superioridade
na tcnica do combate talvez lhes tivesse evitado. A vitria fatmida fora pre-
parada por propagandistas munidos de importantes fundos, os quais exerceram
a sua ao psicolgica em meio a uma opinio pblica desorientada pelo vazio
poltico reinante aps a morte de Kfr, alm de anestesiada pelo efeito de
uma severa fome. As simpatias alides dos notveis iraquianos de Fustt haviam
facilitado as coisas. O recurso s armas conclura um longo processo de deses-
tabilizao do Estado no Egito. A inteligncia do combate poltico e ideolgico
permitiu a al-Mu'izz e aos seus sucessores alcanarem excelentes resultados com
exrcitos medocres.
    Djawhar recm conquistara o Egito para o seu mestre, o imame fatmida
al-Mu'izz, quem permanecera em Ifrkiya. Antes de poder convidar este ltimo
a juntar-se a si, restavam em Djawhar duas tarefas a serem cumpridas: criar uma
capital digna de receber um califa e assegurar a segurana do pas. Ele fundou
o Cairo (al-Khira), ao Norte de Fustt, ali construindo um palcio para o
imame, uma mesquita palaciana, hoje conhecida pelo nome de al-Azhar, alm de
casernas para os diferentes corpos de tropa. Ele realizou tudo rapidamente, haja
vista que, desde 360/971, os primeiros edifcios estavam acabados e Djawhar
enviou uma mensagem ao seu mestre anunciando-lhe que ele era esperado em
sua nova capital.
    Assegurar a segurana do Egito foi mais complicado.  necessrio dizer
algo sobre a doutrina fatmida para situ-la nas lutas ideolgicas da poca.
Al-Mu'izz pretendia-se descendente de al-Husayn, o filho de Ftima, filha do
profeta Maom, assim como de `Al, sucessor espiritual do Profeta. O princpio
genealgico fora o pretexto das revoltas alides contra os umayyades, perseguido-
res da Famlia, em seguida contra os abssidas, acusados de terem desviado em
seu proveito a herana da Famlia. Ao lado do xiismo imamita que reconhecia
doze descendentes de `Al, o xiismo ismaeliano, reconhecedor de apenas sete,
concentrara as mais radicais reivindicaes religiosas e sociais do movimento.
Originrio do ismaelismo, o karmatismo ameaara pelas armas, ao final do
218                                                             frica do sculo VII ao XI



sculo III/IX, a teocracia abssida. Questionando os ritos religiosos e a tica
social e familiar, ele colocava-se  frente das aspiraes secretas daqueles que no
se haviam integrado nos novos circuitos urbanos. Ele no era capaz de ganhar
a adeso das burguesias, com exceo de alguns espritos de elite. Ele no pde
sobreviver a uma derrota militar salvo se institucionalizando na parcela do ter-
ritrio que controlava e colocando a sua fora militar ao servio de ambies
estrangeiras.
    O movimento fatmida tinha origem idntica, entretanto, separara-se dos
karmates no incio do sculo IV/X, quando estes ltimos haviam estendido a
sua influncia  Sria. `Ubayd Allh al-Mahd, o imame fatmida, deixara Sala-
miyya rumo a Ifrkiya, onde fundou um califado. Apoiando-se na total devoo
de alguns grupos berberes, os seus sucessores tomaram posse da maior parte da
frica do Norte e da Siclia; eles se prepararam para a conquista do Egito que
representava uma etapa antes da conquista de Bagd. No Egito, o isl por eles
pregado no causaria nenhum choque: algumas diferenas menores no tocante
ao ritual, um direito igual  herana para as mulheres, um moralismo assaz rude
referente a estas ltimas no eram capazes de afastar os sunitas de Fustt que era
atrado, por outro lado, pela devoo  Famlia. Djawhar, em sua carta de amn
ao povo de Fustt, prometera o restabelecimento da peregrinao, a retomada
da jihad, a manuteno das mesquitas e um salrio para os sacerdotes. Ele no
teve que enfrentar nenhuma oposio religiosa e conservou o mesmo cdi, que
continuou a julgar na mesquita de `Amr.  bem verdade que paralelamente 
doutrina pblica, prxima do imamismo duodecimal, uma doutrina secreta era
reservada aos iniciados.
    Os karmates, os quais haviam abertamente condenado os ritos e notadamente
a peregrinao, no se resignavam com a vizinhana dos fatmidas. O pretexto
para a guerra foi a invaso da Sria por um exrcito berbere enviado por Djawhar,
nos meses seguintes  queda de Fustt. O antigo domnio ikhshidide - Ramla,
Tiberiades e Damasco - foi conquistado pelo general kutamita Dja'far b. Falh.
Tirando proveito do enfraquecimento dos hamdanidas, consecutivo  morte de
Sayf al-Dawla e Nsir al-Dawla, Dja'far expediu um exrcito contra Antioche,
recm-ocupada pelos bizantinos. Porm, Dja'far deveu chamar o seu exrcito
em razo de estar sendo atacado em Damasco pelos karmates que, agindo em
nome do califa abssida de Bagd, vinham retomar o controle da Sria. Desde
a morte de Kfr, eles haviam trazido esta provncia para a sua esfera de dom-
nio. Dja'far b. Falh foi morto em 360/971 e a Sria evacuada pelos fatmidas.
Djawhar repeliu com dificuldade os karmates que sitiavam o Cairo.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)        219



    No ramad 362/junho de 973, o imame Al-Mu'izz apoderou-se da sua nova
capital e do seu palcio. Na primavera de 362/974, os karmates atacaram nova-
mente o Cairo, porm, repelidos pelo amr Abd Allh, filho de Al-Mu'izz, recu-
aram para a Sria, igual e posteriormente abandonada. A segurana retornara ao
Leste; no Norte, a navegao comercial no Mediterrneo pde desenvolver-se
graas a um acordo com Bizncio e, no Sul, o bakt com o soberano cristo da
Nbia foi renovado. Na realidade, a verdadeira vocao do Imprio Fatmida foi
o comrcio. A ao do conselheiro de Al-Mu'izz, Ya' kb ibn Killis, foi decisiva
neste sentido. Este juiz iraquiano, comerciante na Sria, convertido ao isl sob
Kfr, informante de Al-Mu'izz aquando da conquista do Egito, vizir durante
a maior parte do reinado de al-`Azz, filho de Al-Mu'izz, pretendia-se um sbio
em ismaelismo; ele teve uma hbil poltica externa. Preferindo sustentar pro-
tetorados na Sria, em lugar de engajar-se em custosas operaes militares,
ele esteve sobretudo atento ao bom funcionamento das relaes econmicas.
Ele possuiu estabelecimentos agrcolas nesta regio que permitiram importar
trigo para o Egito nos anos de escassez ou, destes mesmos estabelecimentos,
exportar o cereal para Bizncio. Este comrcio de gros, muito rentvel, ainda
 mal conhecido pelos historiadores, ao passo que, graas aos documentos da
Geniza do velho Cairo, a atividade dos mercadores judeus de Fustt pde ser
estudada. Tratava-se de um negcio de longa distncia relativo a mercadorias de
preo elevado ou muito elevado, interligando a Europa Meridional e a frica
do Norte ao Oceano ndico e ao Chifre da frica. Os mercadores ismaelianos
eram, igualmente eles, atuantes no Imen e na ndia, assim como na Sria; eles
implantaram nas cidades fases das comunidades professando as suas crenas.
    Uma vez vencidos os karmates e a famlia desaparecida do Egito, a peregri-
nao pde recomear em 363/974 e pronunciou-se a invocao em favor do
soberano fatmida na Meca e em Medina, desde ento abastecidas em trigo do
Nilo. Os peregrinos de todo o mundo islmico participaram da glorificao da
dinastia do Cairo.
    Sob o reino de al-`Azz (365/975-386/996), o Egito conheceu a calma e a
prosperidade. O seu raio de influncia estendeu-se no Mediterrneo meridional,
na frica do Norte, na Pennsula Arbica, na Sria Central e Meridional. Nesta
ltima provncia, foi levada uma poltica muito prudente at a morte de Ibn
Killis, em 381/991, sobretudo em relao a Trpoli que representava, no litoral, a
fronteira com os hamdanidas e os bizantinos e que permitia evacuar uma parte
do trigo srio. De 382/992  sua morte em 386/996, al-`Azz lanou-se em aes
aventureiras. Apoiando-se em um exrcito profundamente reformado a partir de
369/980, atravs da introduo de cavaleiros encouraados turcos e do aperfei-
220                                                          frica do sculo VII ao XI



oamento da arte do cerco, ele atacou o Hamdanida de Alep e o seu poderoso
protetor bizantino; simultaneamente, ele instalava um governo fatmida em
Damasco e perseguia os bedunos da Palestina. Al-`Azz viu a vitria sorrir aos
seus generais, porm, nos meses que precederam a sua morte, ele em vo tentou
reunir um exrcito potente para pessoalmente ir enfrentar os bizantinos.
    Ele legava ao seu filho al-Hkim, reinante de 386/996 a 411/1021, uma
situao menos brilhante que o aparente. Fustt e o Cairo, dupla capital do
mais rico imprio da poca, haviam conhecido um formidvel crescimento
demogrfico: soldados berberes, turcos, negros, comerciantes iraquianos e srios,
artesos, homens de mesquita e funcionrios, afluam rumo a estas cidades onde
o ouro passava em abundncia. O afluxo dos tributos provinciais, bem como as
arrecadaes efetuadas sobre os trficos que atravessavam o Egito, provocavam
um acmulo do metal precioso. Porm, a principal fonte de recursos fiscais, em
metal e in natura, procedia em detrimento dos campos egpcios ou dos arte-
sos das cidades do interior. Arrecadadores de impostos e funcionrios fiscais
recolhiam em seu prprio proveito uma parte considervel do total arrecadado;
muito amide judeus e cristos, eles haviam provocado junto aos sunitas de
Fustt uma reao de rejeio das minorias, j sensvel  poca de Ibn Killis. Os
cortesos do Cairo, os funcionrios, os chefes militares e os grandes mercadores,
dispunham de meios de pagamento tais que, em caso de ameaa de escassez,
a demanda solvvel submergia a oferta, agravando a alta dos preos. A penria
ento se propagava nos mercados perifricos, suscitando a agressividade dos
bedunos e dos interioranos.
    A rpida promoo dos turcos no exrcito e os benefcios financeiros por eles
adquiridos provocaram a inveja das cabilas berberes, as quais se ampararam do
poder aps a morte de al-`Azz, tirando proveito da pouca idade de al-Hkim. Os
soldados orientais perseguidos aliaram-se com os eunucos eslavos (alsakliba) e
com os funcionrios cristos e iraquianos, para eliminar os berberes.
    Al-Hkim foi o ltimo soberano rabe da histria a ter exercido um poder
absoluto sobre um vasto imprio. Ele no teve vizir, teve um chefe de dwn
que igualmente foi o intercessor entre o imame e os seus sujeitos. Muito rapi-
damente, ele no mais nomeou chefes de exrcitos, designando um general
para a durao das operaes. Ele determinou a execuo de numerosos cdis
desonestos; entretanto, quando descobria algum sem manchas, ele respeitou,
salvo raras excees, a sua independncia. Em sua juventude, al-Hkim fora
testemunha do parasitismo dos cortesos de al-`Azz; posteriormente, sem a
proteo do seu preceptor, Bardjawn, ele teria sido morto pelos kutamitas. Ele
guardaria, durante toda a sua vida, raiva e desprezo pelas pessoas do palcio.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                               221



Frequentando com prazer Fustt, os seus bazares e bairros populares, ele teve,
contrariamente ao seu pai e ao seu av, contatos diretos com os comerciantes e
artesos sunitas. Ele tomou conscincia tanto do peso que o luxo e as fortunas,
rapidamente adquiridas na corte, impunham ao pas real, quanto da barreira
que os dignitrios civis e militares erguiam entre o soberano e os seus sujeitos.
Ele tentou fazer desaparecer este corpo intermedirio, executando todos aqueles
que ele supunha desonestos ou com ambies pessoais. Ele fracassou em sua
empreitada em razo de no ter encontrado receptividade junto aos sunitas
de Fustt; sofrendo tenses criadas pelo poder absoluto, ele tentou resolv-las.
O seu esprito frgil no resistiu: sopros de uma loucura ridcula, sanguinria,
desesperada, o submergiram.
    A sua poltica religiosa foi incoerente. Ele tentou fazer prevalecer o ritual
fatmida em Fustt; posteriormente, para atrair sunitas, ele forou cristos e
judeus a se converterem ao isl; construindo mesquitas em seus lugares de culto,
em 399/1009, chegou inclusive a fazer derrubar o Santo Sepulcro em Jerusalm.
Na mesma poca - de 396/1006 a 404/1013 - ele mostrou-se tolerante diante
do ritual sunita e nomeou professores sunitas para o Dr al`ilm que ele criara12.
Em seguida, ele retomou as interdies do rito sunita e, em 408/1017, ele permi-
tiu a persas o proselitismo fatmida. Foi um fracasso. Os propagandistas que no
haviam logrado esconder-se foram massacrados e, no ano seguinte, al-Hkim
assistia ao saque dos bairros ao Norte de Fustt pelos soldados negros. Sentindo
inconscientemente que a sua tentativa de fundar uma monarquia direta baseada
no consenso das classes mdias sunitas, eliminando a mediao dos ofcios e
do exrcito, fracassara, ele se desinteressou de Fustt, satisfez-se com passeios
solitrios no Mukattam e autorizou judeus e cristos, os quais o desejavam, a
abjurar o isl que lhes fora imposto dez anos antes. A sua morte, maquiada em
desaparecimento, foi encomendada pelo seu mais prximo squito, temendo
novos expurgos. Alguns dentre os adeptos da sua f fundaram na Sria a seita
dos drusos.
    As cabilas rabes haviam causado numerosos distrbios durante o reino de
al-Hkim. Ab Rakwa, um umayyade, sublevou os berberes zanta e os rabes
ban kurra, na Tripolitnia. Vencedor frente a muitos exrcitos fatmidas, ele
ameaou Fustt em 396/1006. A populao civil mostrou ento a sua ligao
com al-Hkim; traies foram assinaladas na corte e nas corporaes berberes.


12   Dr al`ilm: a "casa da cincia", estabelecimento de ensino religioso e de propaganda doutrinal dotada
     de uma biblioteca, fundada pelo imame fatmida al-Hkim; em certos aspectos, ela prefigura as madrasa
     sunitas, fundadas pelos seldjukidas, para enquadrar a difuso da ideologia religiosa dominante.
222                                                          frica do sculo VII ao XI



Graas ao apoio dos nbios, Ab Rakwa foi capturado e executado perto do
Cairo. O exrcito fatmida dera sinais de impotncia e a sua organizao custara
um milho de dinares ao Tesouro. Igualmente em 402/1011, quando o chefe
tayy da Palestina, Ibn al-Djarrh, instalou como califa em Ramla um hasanida
da Meca, al-Hkim comprou inteligncias entre os prximos de Ibn al-Djarrhe
conseguiu o retorno do anticalifa  Meca, sem recorrer ao exrcito. Do mesmo
modo, a conquista da cidade e da provncia de Alep, em 407/1016, foi o resul-
tado de hbeis aes diplomticas.

      A grande crise do sculo V/XI
    Sob o reino de al-Zhir (411/1021-427/1036) e daquele do seu filho,
al-Mustansir (427/1036-487/1094), a poltica seguida no mais foi determinada
pela vontade do imame; mas por um complexo jogo de presses exercidas por
grupos de interesse. At 454/1062, a situao do imprio degradou-se regular-
mente sob o efeito das insuficincias acima assinaladas. O exrcito reunia etnias
variadas, frequentemente hostis, assim como estatutos distintos, aliados berberes
ou rabes, ghulm, escravos negros, mercenrios. Em tempos de paz, ela consu-
mia a maior poro da renda pblica. Quando em operao, era necessrio, em
suplemento, equipar com montarias e armas o soldado, alm de pagar-lhe um
soldo suplementar. A condio de soldado representava, muito mais, a garantia
de uma renda proveniente do Estado que propriamente o exerccio do ofcio
militar. Os decretos reiteravam a injuno de eliminar dos livros da penso
pblica os descendentes de soldados que no mais servissem o Estado, mas,
a prtica era laxa. Cada grupo tnico era administrado por um dwn especial
e, como a massa monetria  disposio do Tesouro no aumentava, ao passo
que se multiplicavam os detentores do direito - famlia expandida do imame,
shraf', funcionrios, tropas -, conflitos de interesse constantemente surgiam.
Mal pagos, os soldados pilhavam os campos e os arrabaldes. As foras armadas
no mais representavam um fator de ordem, transformando-se na causa essencial
da insegurana.
    As cidades estavam superpovoadas: os cemitrios do Karfa eram habitados
por populaes caadas dos campos em razo das infiltraes bedunas, por sua
vez, as elites deixavam os bairros externos para encontrarem a segurana no
centro de Fustt ou do Cairo. As grandes festas muulmanas eram aguardadas
com ansiedade pelos comerciantes, pois a multido dedicava-se a pilhagens nos
souks (bazares) fechados. As penrias agravavam-se e eram mais frequentes.
Os citadinos arrancavam dos camponeses os seus bois de labor, assim como os
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                                  223




figura 7.5   Egito: vaso (fatmida) de cermica lustrada, do sculo X. [Fonte:  Freer Gallery, Washington.]



espaos inundveis nos quais os dignitrios do regime criavam imensos reba-
nhos, em virtude do aumento do consumo de carne, resultado da abundncia
do numerrio na cidade. Logo que se pudesse "esperar" uma cheia insuficiente,
a especulao fazia subir o preo do trigo. Al-Djardjar', vizir de 418/1027
a 437/1045, logrou jugular a alta, impondo um mercado nico dos gros e
encorajando a concorrncia em prol da baixa dos preos junto aos padeiros; no
entanto, todos os grandes oficiais, o imame inclusive, estocavam e especulavam.
   Igualmente assistia-se a uma desestabilizao generalizada das populaes
da franja desrtica: as trs grandes cabilas da Sria, Tayy, Kalb e Kilb, selaram
uma aliana em 415/1024 e emissrios fizeram contato com as cabilas do Delta
e da Tripolitnia. A solidariedade de ocasio transcendia as antigas oposies:
pretendia-se obter para os rebanhos o acesso s terras cultivadas e, acessoria-
mente, pilhar as cidades. Uma variao climtica, invernos mais secos, talvez
explique este fenmeno. At o ano 433/1041, o general fatmida al-Dizbir
logrou, praticamente sem ajuda do Cairo, manter as cabilas em xeque na Sria.
No Alto-Egito, tirou-se proveito da traio do zirida Ibn Bds para expedir,
para a Tripolitnia e para Ifrkiya, os Ban Hill e os Ban Sulaym, os quais
devastaram o Sa'd (442/1050).
224                                                          frica do sculo VII ao XI



    Em 451/1059, os Fatmidas obtiveram a sua ltima grande vitria diplo-
mtica; um general turco, al-Bassr, enviou como prisioneiro o califa abssida
al-K'im e determinou pronunciar-se nas mesquitas de Bagd a invocao em
favor de al-Mustansir. Mas, alguns meses mais tarde, Tughril Bek, chefe dos
seldjuquidas, os novos mestres sunitas do Oriente, retomava Bagd e restabelecia
al-K'im. Em uma justa e brusca reviravolta, em 462/1070, o general fatmida
Nsir al-Dawla, rebelado em Alexandria, reconhecia o califado abssida e, em
464/1072, prendendo al-Mustansir no Cairo, ele demandava auxlio aos seldju-
quidas. O Estado Fatmida poderia ter acabado nesta ocasio.
    Uma grande fome, iniciada em 454/1062 e recrudescida a partir de 457/1065,
fizera perecer grande parte da populao do Egito. Al-Mustansir vendeu os
tesouros da dinastia e no sobreviveu seno graas a esmolas. Todo o edifcio,
minado pelos parasitas que ele abrigara, desmoronava. Em 466/1073, o imame
chamou, com a ajuda do armnio Badr al-Djaml, o governador da Palestina.
Ao chegar ao Cairo, em djumda 466/janeiro de 1074, este rude homem execu-
tou os grandes oficiais, dispersou os exrcitos errantes e reconstituiu em torno
das suas tropas armnias uma fora armada reduzida e eficaz. Ele recebeu o
ttulo de vizir com plenos poderes. Ele fora reprimir os negros que devastavam
o Alto-Egito, retornou em 468/1076 para defender o Cairo, atacado pelo turco
Atsiz, aliado dos seldjuquidas e varreu do Delta, em 469/1077, os berberes
lawta, vendendo no mercado 20.000 mulheres desta cabila. Entrementes, ele
passara na Sria, no fora capaz de retomar Damasco, embora consolidasse a
dominao fatmida nos portos da Palestina. Ele determinou a proteo das
cidades da Sria com muralhas em pedra e, sob as ordens de Badr, foram edifica-
das as trs monumentais portas do Cairo fatmida, existentes at os nossos dias.
    Para permitir aos camponeses a retomada do cultivo dos seus campos devas-
tados, ele fez uma remisso de trs anos de imposto. Ele reformou as circuns-
cries territoriais e reorganizou em novas estruturas o Estado e o Exrcito,
prolongando assim por um sculo a vida do regime fatmida. Os textos de
al-Kalkashand e de outros autores descrevendo o funcionamento das institui-
es fatmidas fazem referncia ao Estado originrio da reforma de Badr, muito
diferente do primeiro Estado fatmida.

      O sculo V/XI, agonia do regime fatmida
   Aps a crise de 454/1062-4681076, o Imprio Fatmida estava morto. No
mais se proferia a invocao em favor de al-Mustansir, nem em Ifrkiya, nem
na Meca, nem em Alep ou Damasco. O Egito, reestruturado no vale do Nilo,
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                                   225



cicatrizava as suas feridas. Alexandria reencontrava a sua prosperidade, graas ao
trfico com a Itlia, e Ks, prefeitura do Alto-Egito, distribua os escravos negros
da Nbia e as especiarias da ndia. Em 487/1094, Badr e depois al-Mustansir
morreriam. Al-Afdal, filho de Badr, proclamou califa al-Hasan, um filho jovem
de al-Mustansir, trancou entre muros o seu filho mais velho Nizr. O mestre
da da'wa ismaeliana em territrio seldjuquida, Hasan b. al-Sabbh, reconheceu
Nizr como imame; o seu movimento, aquele dos "Assassinos", o qual,  imagem
do movimento druso, desenvolveu-se unicamente fora do Egito, fez desaparecer
a da'wa fatmida clssica13.
    Al-Mustansir reinara cerca de trs quartos de sculo. Durante o perodo ape-
nas um pouco mais longo extenso que se desenrolou at o desaparecimento da
dinastia, seis califas se sucederam. Nenhum exerceu realmente o poder, nenhum
escolheu o seu sucessor. A autoridade estava em mos dos vizires militares:
alguns conquistaram o poder pela fora dos sabres, outros conservaram-no dos
seus pais. Alguns, como Tal'' b. Ruzzk, foram notveis, outros no passaram de
sequestradores novos-ricos. Em um Egito onde o ensino da doutrina fatmida
aparenta ter desaparecido, eles exibiram variadas convices religiosas. Al-Afdal
Kutayft, neto de Badr, instaurou o imamismo duodecimal e instalou quatro
cdis de quatro ritos. Ridwn foi sunita e abriu uma madrasa shafiita em Ale-
xandria. A populao aparentava indiferena com a orientao do isl no poder
e a ligao  dinastia no era motivada seno pelo orgulho ligado ao fato do
centro do poder islmico estar em solo egpcio. Somente a presena de um vizir
no-muulmano, Bahrm, portador do ttulo de "Sabre do Isl", foi mal aceita.
    Com efeito, trs anos aps a morte de Badr, os francos penetravam em
territrio muulmano, empurrando os seldjuquidas e, em 492/1099, tornavam-
-se mestres de Jerusalm. Eles esmagaram os fatmidas em Ascalon. Durante
longos anos, as coisas permaneceram deste modo, salvo algumas escaramuas.
No houve cumplicidade ativa entre francos e fatmidas, mas, antes, junto a estes
ltimos uma certa indiferena facilmente explicvel. No sculo IV/X, o Estado
fatmida extraa os seus recursos da arrecadao de tributos em numerrio e
do trfico de gros. Ele devia controlar extensos territrios e manter a Bek'a
e o Hawrn srios. No sculo VI/XII, o preo desabara em consequncia das
hecatombes que haviam atingido a populao no sculo V/XI e igualmente,
sem dvida, graas  extenso dos solos cultivados posteriormente a uma nova


13   Da'wa: designa, a um s tempo, tal ou qual doutrina xiita, frequentemente ismaeliana ou fatmida, difun-
     dida por missionrios clandestinos ou semiclandestinos, bem como o conjunto dos meios de propaganda
      sua disposio.
226                                                          frica do sculo VII ao XI



mudana climtica na Sria. O ouro, mais raro na Sria, circulava sobretudo entre
a ndia e o Ocidente. Portanto, bastaria aos fatmidas manterem o vale do Nilo
e as sucursais comerciais martimas da Palestina, frequentadas pelos mercadores
italianos como Alexandria. O exrcito foi reagrupado no Sul da Palestina e no
Egito, prestes a enfrentar os seldjuquidas, vidos por restaurarem o sunismo
no Cairo. Para os fatmidas, a presena dos cruzados na Sria, erguendo uma
barreira entre os seldjuquidas e o Egito, desviando o trfico do Mar Vermelho
para o Vale do Nilo, no era de todo intil. Consequentemente, at 549/1154,
data da instalao de Nr al-Dn em Damasco, nenhuma solidariedade muul-
mana para expulsar os francos da Sria no se manifestara. O Egito, ao qual esta
presena no causava seno um prejuzo moral, no se sentia mais concernido
que os outros Estados muulmanos.
    Nr al-Dn, apoiado em um poderoso exrcito, empreendeu a reconquista da
Sria. O Estado Fatmida, frgil, cujo exrcito estava dividido em etnias rivais,
podia escolher entre uma poltica de apoio  anticruzada, opo que o expunha
aos golpes dos francos, ou, contrariamente, um chamado a estes ltimos contra
Nr al-Dn, vido por retomar para si o projeto de restaurao sunita dos seld-
juquidas. Os partidos que disputavam o poder entre si, no Cairo, escolheram
sucessivamente uma ou outra das opes, por vezes as duas em conjunto, espe-
rando permanecerem mestres do jogo. Eles aceleraram a decadncia do Estado.
    Em 548/1153, os cruzados abandonaram a sua neutralidade visvis do
Egito e se ampararam de Ascalon. A instalao de Nr al-Dn na Sria Central
incitava-os a buscarem uma compensao no Egito. Para os vizires fatmidas,
frequentemente antigos governadores de Ks, a primeira preocupao era a pro-
teo do grande itinerrio do Mar Vermelho at Alexandria, pelo Alto-Egito.
Eles teriam estado preparados a enviar volumosos recursos em dinares de ouro
para Nr al-Dn para que ele os livrasse do encargo de defender a fronteira
oriental. Entretanto, Tal'' b. Ruzzk lanou duas expedies na Palestina franca.
Eles saiu vitorioso sem todavia obter nenhum resultado duradouro, Nr al-Dn
tendo permanecido inativo. Em 556/1161, os francos lanaram uma ofensiva
contra o Egito: eles lanariam quatro outras, por vezes atendendo ao chamado
dos vizires do Cairo, at 564/1169. No foi seno em 558/1163 que eles se
chocaram com tropas enviadas por Nr al-Dn e comandadas por Shirkh e o
seu sobrinho, Salh al-Dn. As promessas descumpridas, as mudanas brutais de
aliana, as traies do vizir Ibn Sallr e do califa al-`Add, tornavam inoperantes
as aes militares. Igualmente, em 564/1169, Shirkh assumiu, ele prprio, o
posto de vizir fatmida. Ele morreria pouco aps e Salh al-Dn o substituiria.
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)        227



    O ltimo vizir fatmida foi portanto um general curso sunita, vassalo do
prncipe de Damasco, o turco sunita Nr al-Dn, cujo nome era pronunciado,
na invocao, aps aquele do imame al-`Add. Situao insuportvel para este
ltimo que encarregou Djawhar, um eunuco, de assassinar Salh al-Dn. O
vizir, informado dos planos, fez executar Djawhar; a guarda negra do Cairo
revoltou-se. Um combate muito duro teve incio e al-`Add foi obrigado a rene-
gar os soldados negros que se matavam por ele. A guarda foi massacrada. Salh
al-Dn, a quem a fico do califado fatmida servia e malgrado as objurgaes
de al-`Add, recusava-se a colocar um fim ao combate. Mas, em 556/1171, um
persa pronunciou publicamente a khutba, em nome do califa abssida e, assim,
o imamado fatmida do Egito desapareceu sem que se devesse cassar al-`Add.
Este ltimo teve o bom gosto de morrer, no mesmo momento, de morte natural.
Um regime, com durao de dois sculos, deixava definitivamente a cena poltica
sem que a populao do Cairo manifestasse a mnima emoo.

    Os monumentos islmicos do Egito edificados antes de 566/1171
    A maioria dos belos monumentos rabes, disponveis aos olhos do visitante
que esteja no Cairo, data da poca ayyubida e mamlk. No velho Cairo e no
interior egpcio, salvo algumas excees em Luxor, Ks e Alexandria, os vestgios
de arquitetura medieval, anteriores aos cruzados, so geralmente cristos. No
entanto, os cinco primeiros anos de presena rabe no Egito deixaram algu-
mas construes em testemunho para a posteridade, pouco numerosos e muito
amide reformados, porm particularmente imponentes pelas propores, pelo
estilo e pela potncia espiritual que os investiram aquando da sua fundao ou
que foram adquiridas no curso da histria.
    Quatro grandes mesquitas foram fundadas por ou para quatro prestigiosos
mestres do Egito. A grande mesquita de Fustt foi construda na imediata
proximidade do Nilo, pelo governador `Amr ibn al-`As, em 20-21/641/642.
Aumentada, reformada, modernizada em vrias ocasies, ela no conserva os
traos visveis do seu primeiro estado.  preciso esperar que a Direo das Anti-
guidades Egpcias,  frente de importantes obras entre 1970 e 1975, restaurando
as fundaes de sucessivas extenses, publique os relatrios e as fotografias que
ela teria realizado nesta ocasio.
    Em 265/879, Ahmad ibn Tln criou, no alto de al-Kat'i'n no Nordeste de
Fustt, a grande mesquita que leva o seu nome (conferir figura 7.2). Muito mais
bem conservada e muito menos transformada, pois ela jamais foi completamente
utilizada pela populao, a mesquita preserva, no corao da cidade animada
228                                                                           frica do sculo VII ao XI




figura 7.7 Bb al-Nasr: uma das portas da muralha da cidade fatmida. [Fonte: Les mosques du Cairo, por
G. Wiet, p. 8; foto de Albert Shoucair;  Hachette, Paris.]




e ruidosa, um amplo espao de silncio e devoo, em um quadro de beleza
simples, severa e rigorosa. O historiador britnico K. A. C. Cresswell analisou
este vasto conjunto de construes; em torno de um ptio quase quadrada de
92 metros de lado, abrem-se elegantes arcos, elevados sobre quatro prticos,
comportando cinco vos para a kibla, dois para os outros trs lados. A vocao
de Misr-Fustt, para ser uma das capitais temporais e espirituais do mundo
islmico, afirmava-se pela primeira vez com a fundao deste admirvel monu-
mento de tijolos cozidos por um pio guerreiro turco, impregnado de influncias
asiticas.
    Djawhar, quando fundou o Cairo, em 359/970, para o seu mestre al-Mu'izz,
edificou no corao da nova capital, ao Norte de al-Kat'i', uma grande mesquita
atual e mundialmente conhecida pelo nome de al-Azhar. A animao que lhe
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)                          229




Figura 7.8 Mesquita al-Djuysh. Vista geral do lado leste. [Fonte:  Dr Fehervari, School of Oriental
and African Studies, Londres.]



 peculiar contrasta com o silncio e a solido que dominam o visitante de Ibn
Tln. O Cairo foi fundado por africanos; a aculturao da frica para o Isl
foi obra dos professores de al-Azhar. O sucesso desta instituio, como lugar
privilegiado de difuso do saber muulmano junto os povos rabes e no-rabes,
explica que a construo tenha devido ser expandida em mltiplas ocasies e que
somente o ptio ainda testemunhe do plano fatmida original. Toda a histria
do Egito e do seu papel alm das suas fronteiras est escrita nestes edifcios
justapostos. A fundao do Cairo realmente representou o incio de uma grande
aventura.
    Al-Hkm concluiu em 400/1010 uma grande mesquita, no limite norte da
cidade do Cairo. Os stios ocupados por estes quatro monumentos testemu-
nham da regular translao, em direo ao Nordeste, do centro de gravidade
das sucessivas capitais do Egito, durante dois sculos e meio, nos primrdios da
poca islmica. Com efeito, o verdadeiro centro fora alcanado por Djawhar e
al-Hkim o ignorava. A sua mesquita jamais conheceu o sucesso de al-Azhar
e, desde ento, em um movimento basculante, foi sobretudo a cidade do Cairo
230                                                            frica do sculo VII ao XI



e o espao compreendido entre esta cidade e Fustt que receberam as princi-
pais construes, edificadas para o uso das pessoas, pelos prncipes ayyubidas e
mamlk. A mesquita de al-Hkim, abandonada por muito tempo, foi recm-
-restaurada para o emprego dos ismaelianos.
    O grande vizir de origem armnia, Badr al-Djaml, introduziu a pedra na
cidade do Cairo, feita de at ento de tijolos. Ele determinou a construo das
muralhas da capital e das monumentais portas, das quais trs podem at hoje ser
admiradas: Bb Zuwayla, ao Sul do grande eixo da cidade fatmida; Bb al-Futt,
no Norte deste mesmo eixo; e Bb al-Nasr (conferir figura 7.7), no Nordeste. A
sua concepo arquitetural  sbia, buscando simultaneamente a majestade da
aparncia e a eficcia militar. A sua realizao foi perfeita, graas a um trabalho
minucioso de estereotomia. Na realidade, a herana dos alvanis bizantinos, os
quais edificaram tantas igrejas na Sria e na sia Menor, no sculo VI, fora con-
servada intacta pelos armnios em suas longnquas montanhas. No sculo XIII,
ela seria novamente difundida por todo o Oriente, franco e muulmano.
    Quatro mesquitas de menor grandeza datam do segundo perodo fatmida.
No Mokattam, a mesquita-martrio al-Djuysh, fundada em 478/1085, apa-
renta zelar o destino dos mortos e vivos da grande cidade; o seu estilo, estranho
ao Egito, evoca, ali igualmente, as igrejas da Armnia. Em 519/1125, foi erguida,
na principal artria do Cairo, entre a mesquita de al-Hkim e a mesquita de
al-Azhar, a pequena mesquita de al-Akmar. A sua fachada em pedra talhada
e o seu portal ornamentado anunciavam uma revoluo estilstica nos edifcios
religiosos. O mausolu fictcio, dedicado a Sayyida Rukayya e erguido aproxi-
madamente em 527/1133, nos cemitrios a Sudeste da mesquita de Ibn Tln,
atestava o anseio dos soberanos fatmidas de atrair para o Cairo todos os pere-
grinos devotos da famlia santa do isl. Foi com a mesma inteno poltica e reli-
giosa que o vizir Slih Tal'i' determinou a construo, ao Sul de Bb Zuwayla,
em 555/1160, da mesquita que leva o seu nome, destinada a abrigar o chefe de
al-Husayn ibn `Al. A bela fachada que retoma e desenvolve certos elementos
de al-Akmar, colocando-os ao gosto da poca, testemunha os rpidos progressos
da arquitetura religiosa no sculo VI/XII, anunciando o florescimento desta arte
sob os ayyubidas e sob os mamlk.


      Concluso
   Em 566/1171, mais de cinco sculos aps a conquista do Egito pelos ra-
bes, esta regio era a mais rica do Oriente. A cermica, os vidros, os tecidos,
O Egito desde a conquista rabe at o final do Imprio Fatmida (1171)       231



os objetos em metal e madeira, produzidos em seus atelis atingiam uma ini-
gualvel perfeio. A agricultura conservara a sua qualidade de vrios milnios,
integrando todavia os novos cultivos vindos da sia. A arquitetura, religiosa ou
militar, produzira potentes monumentos; os sculos seguintes seriam ainda mais
fecundos. Uma literatura em lngua rabe desenvolvia-se regularmente e perdia,
paulatinamente, o seu carter provincial. Os iraquianos e srios residentes na
capital nela desempenhavam um papel de primeira ordem, porm a qualidade
das obras de histria e das descries acerca das particularidades da terra do
Egito conferia a esta literatura toda a sua originalidade. L, uma vez mais, as
obras mais ricas seriam escritas posteriormente.
    Entretanto, a aculturao no fora nem rpida e tampouco total. Grande
parte do povo, camponeses do Alto-Egito ou artesos das cidades do inte-
rior, permanecera crist. Quanto aos sunitas de Fustt, eles manifestavam a
sua indiferena em face das lutas pelo poder que opunham chefes militares,
frequentemente de origem servil,  frente de tropas compostas de diferentes
etnias. Uma personalidade egpcia, sobre a qual somente alguns textos nos ofe-
recem informaes, amadurecia lentamente, em contraste rtmico com o rpido
desenvolvimento de Fustt e do Cairo. Conseguintemente, nos sculos seguintes,
seriam os sbios e os sufis do Egito que guiariam o Isl da frica.
     tempo dos historiadores reunirem todos os elementos que permitam retra-
ar o nascimento deste profundo rio, a fim de evitar que a histria do Egito no
permanea como aquela dos seus sucessivos mestres.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                   233



                                         CAPTULO 8


                      A Nbia crist no apogeu
                         de sua civilizao
                                          Stefan Jakobielski




    Primrdios das relaes com o Egito muulmano
    A formao de um potente reino cristo ao Sul da primeira catarata do Nilo1
abria perspectivas favorveis ao desenvolvimento da Nbia. Dois fatores torna-
ram possvel a prosperidade econmica deste reino. O primeiro foi a criao de
um potente governo central resultado da unio do reino setentrional de Noba-
dia (Nba), cuja capital era Faras, e do reino central de Makuria (Mukurra),
cuja capital era o velho Dongola (DnKla al-`Adjz). O segundo fator foi o
estabelecimento de proveitosas relaes com o vizinho Egito, atravs da assi-
natura de um tratado conhecido pelo nome bakt, aps os rabes, sob a direo
de `Abdallh ibn Ab Sarh, terem se amparado de Dongola, em 651. Estes dois
acontecimentos da histria da Nbia so por ns conhecidos, principalmente,
pelos relatos de historiadores e viajantes rabes que, at o momento, foram-nos
somente parcialmente confirmados pelas buscas arqueolgicas. Examinaremos
estes acontecimentos em detalhes2.

1    No tocante aos perodos anteriores da histria da Nbia crist, consultar UNESCO, Histria Geral da
     frica, vol. II, captulo 12.
2    No que tange aos principais estudos sobre o perodo considerado, conferir J. W. CROWFOOT, 1927;
     U. MONNERET de VILLARD, 1938; P. L. SHINNIE, 1954, 1971a, 1978a; B. G. TRIGGER, 1965;
     O. MEINARDUS, 1967; I. HOFMMAN, 1967; Y. F. HASAN, 1973; G. VANTINI, 1975, 1981a; W.
     Y. ADAMS, 1977, pp. 433-507; A. OSMAN, 1982a.
234                                                                                   frica do sculo VII ao XI



    Aparentemente,  poca da invaso rabe, o Norte e o centro da Nbia esta-
vam unidos sob a autoridade do rei de Dongola, Kalidurut. `Abdallh ibn Ab
Sarh, portanto, no assinou seno um tratado, aquele de Dongola, e negligenciou
a Nobadia, embora tenha sido, ao que tudo indica, mais importante estabelecer
boas relaes com este reino vizinho do Egito. O bakt era um tratado de natureza
particular, sem precedentes no mundo muulmano. Tratava-se na realidade de
uma trgua ou um pacto de no-agresso. O texto do tratado est integralmente
reproduzido no Khitat de Makrz3. O tratado continha as seguintes disposies:
os rabes do Egito engajavam-se a no atacar a Nbia; os cidados de cada pas
podiam viajar livremente ao outro pas, sem todavia se estabelecer, cabendo
s autoridades de cada pas a responsabilidade pela segurana dos cidados
forneos do pas vizinho. O tratado igualmente previa a recproca extradio
dos fugitivos. Os nbios deviam assegurar a preservao da antiga mesquita
que fora construda pelos antigos viajantes muulmanos no antigo Dongola.
Eles deviam, alm disso, pagar anualmente um tributo correspondente a 360
escravos ao governador de Assu. Outro historiador, `Al Khalfa Humayd b.
Hishm al-Buhayr4, reporta que, em troca destes escravos, os rabes forneciam
especialmente aos nbios 1.300 ardab de trigo, 1.300 kanr5 de vinho e determi-
nadas quantidades de tecidos em linho e outros tecidos. O tratado apresentava
portanto certas caractersticas prprias de um acordo comercial. A trgua foi
teoricamente respeitada durante cinco sculos, embora a Nbia permanecesse
crist durante este perodo; ela desempenhou inicialmente um papel essencial
no tocante  manuteno da paz e ao desenvolvimento do pas, em uma poca
na qual os exrcitos rabes ocupavam grande parte da frica do Norte e da
Espanha, alm de ameaarem Bizncio.
    Naquilo que diz respeito  data da unio dos dois reinos nbios,  necessrio
ainda mencionar a hiptese6 que atribui esta unio ao rei Merkurios. Sabe-se
que ele subiu ao trono em 697 porque se trata do dcimo primeiro ano do
seu reinado em inscries do bispo Paulos, relativas  fundao da catedral de
Faras, em 7077. Aparentemente, aps a unificao do seu reino, o rei Merkurios


3     Conferir P. FORAND, 1971, pp. 114-115; Y. F. HASAN, 1973, pp. 22-24; G. VANTINI, 1975, pp. 640-642.
4     G. VANTINI, 1975, pp. 642-643. W. Y. ADAMS, 1977, p. 452.
5     Em funo da sua suposta capacidade, consultar L. TRK, 1978, p. 301, nota 3.
6     Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 12, p. 354. Em respeito  data da unio, conferir
      L. P. KIRWAN, 1935, p. 61; U. MONNERET DE VILLARD, 1938, p. 80; K. MICHALOWSKI,
      1965a, p. 16; S. JAKOBIELSKI, 1972, pp. 35-36; W. Y. ADAMS, 1977, p. 453-454; G. VANTINI,
      1981a, pp. 71-72; igualmente conferir L. P. KIRWAN, 1982.
7     S. JAKOBIELSKI, 1972, pp. 36-46; J. KUBINSKA, 1974, pp. 14-19.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                   235



dirigiu a sua ateno ao problema da unidade religiosa no conjunto da Nbia e,
no incio do sculo II/VIII,  subordinao da Igreja da Nbia ao patriarcado
monofisista de Alexandria.
    A unificao do territrio, em seguida a da religio, em outros termos, a
criao de um conjunto englobando, sob a autoridade do Estado Monofisista
do Egito, o reino unificado da Nbia, o reino de Alodia (do qual sabemos muito
pouco a partir desta poca) ao Sul e a Etipia, criaram indubitavelmente con-
dies favorveis ao desenvolvimento da Nbia. Os rabes no representavam
nenhuma verdadeira ameaa para a Nbia,  qual era possvel continuar a comer-
cializar com o Egito e permanecer em relao com Bizncio, ou ao menos com
Jerusalm, destino das peregrinaes. Este estado de coisas permitiu, no perodo
seguinte, o desenvolvimento e o florescimento de uma refinada e original cultura
nbia. A arquitetura e os outros aspectos desta cultura estavam ligados  tradi-
o copta tanto quanto  tradio bizantina; esta ltima influenciou de modo
particular a administrao estatal e a organizao da corte, assim como as artes
e as tcnicas, especialmente de construo.
    Ao final do sculo VIII comeou ento para a Nbia um perodo de prosperi-
dade que, graas a condies econmicas favorveis, durou at meados do sculo
XII. Uma das causas essenciais desta prosperidade foi a relativa importncia das
cheias do Nilo, a facilitarem o desenvolvimento da agricultura8.
    Principalmente atravs de fontes rabes  que conhecemos os acontecimentos
polticos deste perodo. Elas concernem sobretudo a histria do reino unificado
da Nbia. Este Estado estendia-se de al-Kasr, ao Norte (a alguns quilmetros
ao Sul de Assu) at a poro do Nilo compreendida entre a quinta e a sexta
catarata (al-Abwb); ele era limitado ao Sul pela Alodia (`Alwa), cuja capital,
Soba, estava situada perto da atual cidade de Cartum.
    Quase nada sabemos sobre a Alodia. Um relatrio de Ibn Slim al-Aswn,
citado por al-Makrz9, nos ensina que Soba possua jardins e monumentos
magnficos, que as suas igrejas luziam em ouro, que o rei de `Alwa era mais
potente que aquele de Makuria, que ele organizara um exrcito mais temido e
que reinava sobre um territrio muito mais frtil. As escavaes recentemente
realizadas em Soba, pela expedio do Instituto Britnico para a frica Orien-
tal corroboraram, por assim dizer, esta opinio a propsito da munificncia da



8    P. L. SHINNIE, 1978a, p. 569; B. G. TRIGGER, 1970, p. 352.
9    G. VANTINI, 1975, p. 613; conferir igualmente A. J. ARKELL, 1961, pp. 194-195; P. L. SHINNIE,
     1961, pp. 11-12.
236                                                     frica do sculo VII ao XI




Figura 8.1   A Nbia crist. [Fonte: S. Jakobielski.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                         237



cidade10. Um conjunto de igrejas e construes eclesisticas, construdas em
tijolos vermelhos, foi recentemente descoberto. Todavia, isso no representa
seno um elemento muito pequeno da situao global.
    Os dados dos quais dispomos sequer provam a unio da Alodia e da Makuria,
embora na metade do sculo X as trajetrias destes dois reinos estivessem unidas
por laos de parentesco. Ibn Hawkal, que percorreu a Alodia aproximadamente
em 945-950, fala sobre estas relaes de parentesco e menciona a este respeito
o rei Eusebios e o seu sucessor Stephanos, filho do rei de Nbia Georgios II11.
O dicono copta Ioanns reporta em sua biografia sobre o rei ciraco que este
ltimo, na metade do sculo VIII, reinava sobre todo o reino da Nbia, "at a
extremidade meridional da terra"12. Entretanto, aparentemente, segundo relatos
posteriores, a Alodia no fez parte seno temporariamente do reino unificado
da Nbia, tendo conservado a sua independncia durante quase todo o perodo
em que a Nbia foi crist.


     A Leste e no Oeste do Nilo
    A Leste do reino da Nbia, estendiam-se terras ocupadas pelos bdja. Estes
ltimos desempenharam um importante papel, do sculo VIII ao sculo X, na
evoluo das relaes polticas nesta regio. Eles sempre haviam representado
certa ameaa para o Alto-Egito, sobre o qual outrora se abateram as incurses
nmades bdja, vindos do deserto oriental, os blemmyas.
    No incio do sculo III/IX, a maioria das populaes, habitantes da regio
das montanhas prximas ao Mar Vermelho, ainda era composta de "pagos";
algumas delas se haviam oficialmente convertido ao cristianismo; outras, espe-
cialmente no Norte, aparentam ter fortemente sofrido a influncia do Isl. Em
831, em consequncia de incessantes conflitos fronteirios, o califa al-Mu'taSim
enviou uma expedio punitiva contra os bdja. Estes ltimos foram vencidos
e o seu chefe, Knn ibn `Abd al-`Azz, foi obrigado a reconhecer a soberania
do califa. O tratado ento assinado, embora algumas das suas clusulas fossem
as mesmas que aquelas do bakt, possua um significado totalmente diferente.
Ele impunha aos bdja um tributo anual, sem lhes oferecer garantias da parte

10   Os relatrios preliminares destas escavaes, realizadas pela expedio britnica desde 1981, sero
     publicados na Azania. No tocante aos trabalhos precedentes, conferir P. L. SHINNIE, 1961.
11   G. VANTINI, 1981a, pp. 117-118. O nome do rei Stephanos  igualmente mencionado nos grafites de
     Mro. Conferir a este respeito U. MONNERET de VILLARD, 1938, p. 157.
12   G. VANTINI, 1981a, pp. 75-77.
238                                                                           frica do sculo VII ao XI



dos rabes, alm de conceder a estes ltimos o direito de se estabelecerem no
territrio dos bdja, cujo chefe encontrava-se reduzido  condio de vassalo13.
    Este tratado, distante de por fim s hostilidades, criou uma situao que
conduziria a um novo conflito. Em virtude de existirem muitas minas de ouro
na regio onde viviam estas cabilas nmades, particularmente na regio do Wd
al-`Allk, um nmero cada vez maior de rabes se estabeleceram. A guerra eclo-
diu novamente na metade do sculo IX; o chefe dos bdja, `Al Bb, teve que se
submeter perante a esmagadora superioridade das foras rabes comandadas por
Muhammad al-Kumm. Segundo alguns historiadores rabes, o tributo imposto
aos bdja elevou-se ento a aproximadamente 2.400 gramas de ouro por ano14.
     natural que os bdja, sob esta contnua ameaa, tenham buscado a proteo
dos nbios. Os historiadores rabes no esto todos de acordo neste aspecto,
porm h fortes indcios que a Nbia tenha tomado parte, de modo ou outro,
nos combates dos quais acabamos de falar. Ibn Hawkal afirma inclusive que `Al
Bb e o rei da Nbia, YurK (Georgios), teriam ambos sido feitos prisioneiros
e levados a Bagd para ali comparecerem perante o califa al-Mutawakkil15. Ns
falaremos mais adiante desta estada do rei Georgios em Bagd. O que  certo,
mesmo na poca em que o reino da Nbia mais prosperava,  que conflitos
desenrolaram-se constantemente do outro lado da sua fronteira oriental, s
margens do Mar Vermelho.
    As relaes da Nbia com as cabilas instaladas a Oeste do Nilo tomaram um
aspecto distinto. Sabemos pouco a este respeito, mas, evidencia-se dos relatos de
Ibn Hawkal que, em uma regio situada alm do deserto de areia, a muitos dias
de viagem do vale do Nilo, viviam povos de pastores que ele chama djibliyyn
(montanheses) e aHadiyyn, os quais podemos situar no Sul (montes Nuba) e
no Norte do Kordofn. Acredita-se que os ahadiyyn eram cristos16. Est esta-
belecido que havia um parentesco evidente entre as lnguas de certas cabilas dos
montes Nuba (Dar, Dilling) e do Drfr (Birgid, Midob, Tundjur) com os dia-
letos nbios do vale do Nilo17, fato somente explicvel por contatos entre estes
povos ou por migraes. A arqueologia confirmou, em certa medida, a existncia
de contatos entre o reino da Nbia e esta parte do Sudo: assim descobriu-se em

13    W. Y. ADAMS, 1977, pp. 553-554; Y. S. HASAN, 1973, p. 38-41; G. VANTINI, 1981a, pp. 92-93.
14    Segundo al-Tabar (morto em 930); conferir G. VANTINI, 1975, p. 99; 1981a, p. 95.
15    G. VANTINI, 1975, p. 158, segundo os escritos de Ibn Hawkal (morto em 988).
16    G. VANTINI, 1981a, pp. 140-141.
17    E. ZYHLARZ, 1928b; R. STEVENSON, 1956, p. 112; R. THELWALL, 1978, pp. 268-270; 1982.
      Acerca das lnguas do Sudo em geral, consultar J. H. GREENBERG, 1963b e R. STEVENSON,
      1971.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                               239



`Ayn FaraH, no Norte do Drfr, potes cermicos provenientes da Nbia crist,
datados do perodo clssico da cermica nbia; assim como, descobriram-se
em Koro Toro, no Chade, potes de um tipo ligeiramente posterior18. Segundo
Ibn Hawkal, os djibliyyn e os ahadiyyn manifestavam fidelidade ao rei de
Makuria ou ao rei de Alodia19.
    muito provvel que proviessem do Kordofn e do Drfr os escravos que a
Nbia devia fornecer ao Egito, em conformidade com o bakt. No sabemos em
quais medidas o trfico de escravos era ou uma atividade do Estado Nbio ou
um suplemento econmico20, tampouco em quais medidas as partes ocidentais
da atual Repblica do Sudo eram colonizadas pelos nbios.


     Dongola, Faras e outras cidades
   O velho Dongola, situado na margem oriental do Nilo, a meio-caminho
entre a terceira e a quarta catarata, era a capital do reino unificado da Nbia.
O desenvolvimento desta cidade pode ser reconstitudo graas s escavaes
realizadas aps 1964 pela misso polonesa. Ab Slih assim descreve a cidade
de Dongola no incio do sculo XI:
      aqui que o rei tem o seu trono. Trata-se de uma grande cidade que acompanha
     o curso bendito do Nilo. Ela possui numerosas igrejas, amplas residncias e largas
     avenidas. O rei habita uma alta morada que, com as suas numerosas cpulas de tijolos
     vermelhos, assemelha-se aos edifcios que encontramos no Iraque21...
   Os resultados das escavaes aparentam confirmar esta relao entre Iraque
e Dongola22. O stio compe-se hoje de um conjunto de runas que se estendem
sobre uma superfcie de 35 hectares; os vestgios mais antigos esto recobertos
por construes do perodo muulmano (do sculo IX-XIII ao sculo XV-XIX).

18   P. L. SHINNIE, 1978a, p. 572 e R. MAUNY, 1978, p. 327, nota 2. Sobre as cermicas nbias de Ti
     (Chade), conferir A. D. BIVAR e P. L. SHINNIE, 1970, p. 301.
19   G. VANTINI, 1975, pp. 165-166.
20   W. Y. ADAMS, 1977, p. 505.
21   K. MICHALOWSKI, 1966a, p. 290; consultar igualmente Ab SLIH, 1969, pp. 149-150; G. VAN
     TINI, 1975, p. 326.
22   No tocante aos resultados das escavaes, conferir K. MICHALOWSKI, 1966a; S. JAKOBIELSKI e
     A. OSTRASZ, 1967-1968; S. JAKOBIELSKI e L. KRZYZANIAK, 1967-1968; S. JAKOBIELSKI,
     1970, 1975, 1978, 1982a, 1982c; P. M. GARTKIEWICZ, 1973, 1975; W. GODLEWSKI, 1982a;
     relatrios sobre as escavaes foram publicados em tudes et travaux, a partir do volume 8 (1973); os
     ltimos relatrios sero publicados na srie Travaux du Centre d'archologie mditerranenne de l'Acadmie
     polonaise des sciences (Varsvia).
240                                                                                 frica do sculo VII ao XI




Figura 8.2 O edifcio da mesquita no velho Dongola, estado atual. Parte superior: plano do andar superior
com a sala do trono do rei, transformado em mesquita em 1317. Parte inferior: corte leste-oeste da construo.
Escala: 1/100. [Fonte: S. T. Medeksza.]




Figura 8.3 O palcio real do velho Dongola, transformado em mesquita em 1317. [Fonte:  Centro de
Pesquisas em Arqueologia Mediterrnea, Academia de Cincias da Polnia, Varsvia.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                            241



O centro da cidade, erguido sobre um solo rochoso, era outrora cercado de espes-
sas muralhas. Ao Norte estende-se a cidade crist, compreendendo as igrejas
descobertas pelos arquelogos poloneses (esta descoberta, como veremos mais
adiante, coloca novamente em questo as teorias defendidas at agora sobre a
arquitetura religiosa da Nbia). Ainda mais ao Norte estende-se um conjunto
de casas datadas do sculo II/VIII ao sculo III/IX; elas se distinguem por um
projeto at ento indito, pelas suas instalaes aperfeioadas (canos hidruli-
cos, salas de banho com sistema de aquecimento) e pelas pinturas murais que
decoram o seu interior.
    O monumental palcio real em dois andares, elevado sobre um espigo
rochoso a Leste do centro da cidade, aparentemente data do incio do sculo
VIII. O andar de aparatos deste edifcio, com altura aproximada de 11 metros,
continha a sala do trono, decorada com afrescos (figura 8.2) (em virtude desta
decorao que alguns consideraram as runas do edifcio como as de uma igreja).
O edifcio, transformado em mesquita no ano 1317 por Sayf al-Dn `Abdallh,
serviu a finalidades religiosas at 1969. Como os seus muros foram destrudos e
reconstrudos vrias vezes, o seu aspecto modificou-se ao longo do tempo (figura
8.3); no entanto, a sala do trono  a nica deste gnero que permaneceu intacta.
Na parte do mundo cristo que sofreu a influncia da cultura bizantina, ela talvez
tenha seguido o modelo da sala do trono do Grande Palcio de Constantinopla,
somente conhecida atravs de descries23.
    Os outros stios importantes do antigo reino de Makuria ainda no foram
escavados. Durante o perodo que estudamos aqui, a ilha de Sai,  poca sede
de um bispado, provavelmente desempenhou um papel chave24.
    Ns possumos dados mais precisos sobre o Norte do reino (a antiga Noba-
dia, tambm denominada em alguns documentos como provncia de Maris).
Eles foram recolhidos durante a grande campanha organizada pela UNESCO
de 1961 a 1965, com o objetivo de salvaguardar os monumentos que corriam o
risco de serem inundados pelas guas do lago da Alta-Barragem25.



23   W. GODLEWSKI, 1981, 1982a.
24   J. VERCOUTTER, 1970; U. MONNERET de VILLARD, 1938, pp. 162-166; P. M. GARTKIEWICZ,
     1982a, pp. 81-83.
25   Para o sumrio bibliogrfico da campanha da UNESCO, conferir L. A. CHRISTOPHE, 1977; encon-
     traremos o balano das ltimas descobertas, assim como uma nova bibliografia sobre os stios que foram
     o objeto de escavaes durante a campanha nbia em J. LECLANT, 1958-1974, 1975-1983; igualmente
     consultar W. Y. ADAMS, 1966, 1977, pp. 81-90; F. HINKEL, 1978; para o catlogo de todos os stios
     arqueolgicos situados no territrio do Sudo, conferir F. HINKEL, 1977.
242                                                                         frica do sculo VII ao XI




Figura 8.4 Retrato de Kyros, bispo de Faras (866-902): pintura mural da catedral de Faras. [Fonte: 
Centro de Pesquisas em Arqueologia Mediterrnea, Academia de Cincias da Polnia, Varsvia.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                         243




Figura 8.5 Plano do stio cristo de Debeyra-Oeste (24-R-8). Os traos negros indicam as construes
mais antigas. [Fonte: P. L. Shinnie, 1975.]




Figura 8.6    Plano de Kasr al-Wizz, conjunto monstico nbio. [Fonte: P. M. Gartkiewicz, 1982a.]
244                                                                               frica do sculo VII ao XI



    A equipe polonesa fez ento escavaes, igualmente, em Faras26. Esta cidade,
cujo centro cercado de uma primeira cintura de muralhas continha magnfi-
cos monumentos  catedral, igrejas, palcios e monastrios , conservou a sua
importncia religiosa. Esta importncia aumentou ainda mais quando Faras foi
elevada a metrpole e quando um nbio, Kyros (866-902), acedeu ao episco-
pado; encontrou-se sobre um muro da catedral um esplndido retrato de Kyros
(figura 8.4). O bispo metropolitano residiu em Faras at o final do sculo X; o
ltimo que levou este ttulo foi Petros I (974-999).
    Faras talvez tenha igualmente sido um centro administrativo: nesta cidade
residia o eparca, chefe da administrao real no Norte do reino, igualmente
encarregado das finanas do reino e das suas relaes com o Egito27. A admi-
nistrao central da Nbia e a administrao local da Nobadia compreendiam
diversos funcionrios ligados  corte do rei. Eles portavam ttulos gregos que
remontavam  poca do domnio bizantino no Egito e na frica do Norte;
entretanto, eles no exerciam necessariamente as funes s quais estes ttulos
originalmente correspondiam. Alm dos ttulos de domestikos, protodomestikos,
meizon, protomezoteros, nauarchos, primikerios etc.28, numerosos outros ttulos no
so atestados seno em nbio antigo29.
    Segundo alguns historiadores, a residncia do eparca foi em seguida transfe-
rida para Kasr Ibrm30. O stio arqueolgico desta cidade fortificada, construda
sobre um elevado rochedo,  o nico que no inundado pelas guas da barra-
gem. Ele foi objeto de escavaes sistemticas por parte das misses enviadas
pela Sociedade para a Explorao do Egito31. Alm da catedral e dos vestgios
dos outros edifcios, as escavaes de Kasr Ibrm revelaram incontveis objetos,
notadamente vrias centenas de fragmentos de manuscritos: escritos religiosos
e literrios, cartas e outros documentos.

26    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 12 e K. MICHALOWSKI, 1962, 1965c, 1967,
      1974 (conferir pp. 312-314 deste mesmo volume, a bibliografia integral relativa ao stio); S. JAKOBIEL
      SKI, 1972; K. MICHALOWSKI, 1979; G. VANTINI, 1970a; M. MARTENSCZARNECKA,
      1982a; P. M. GARTKIEWICZ, 1983.
27    L. TRK, 1978, pp. 298-299, 303-304; no tocante aos deveres do eparca, conferir especialmente W.
      Y. ADAMS, 1977, pp. 464-467; J. M. PLUMLEY e W. Y. ADAMS, 1974, p. 238; sobre a vestimenta
      do eparca, referir-se a K. MICHALOWSKI, 1974, pp. 44-45.
28    U. MONNERET DE VILLARD, 1938, pp. 189-192; L. TRK, 1978, pp. 305-307.
29    J. M. PLUMLEY, 1978, p. 233; A. OSMAN, 1982b, pp. 191-197.
30    Consultar J. M. PLUMLEY, 1975a, p. 106; esta opinio no  compartilhada por W. Y. ADAMS, 1982,
      p. 29. Permanece todavia incontestvel que ao final do perodo cristo o eparca residia em Kasr Ibrm
31    Os relatrios das escavaes foram regularmente publicados no Journal of Egyptian Archaeology a partir
      do volume 50 (1964); igualmente conferir J. M. PLUMLEY, 1970, 1971a, 1975a, 1975b, 1978, 1982b,
      1982c, 1983; W. Y. ADAMS, 1982; R. ANDERSON, 1981; P. M. GARTKIEWICZ, 1982b.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                   245



    Igualmente, convm mencionar a grande cidade de Gebel Adda32, situada
a cerca de 12 quilmetros ao Norte de Faras, na margem oriental do Nilo. As
cidades das quais acabamos de falar abrigavam cada qual, provavelmente, vrios
milhares de habitantes. Outras, menores, como Kurta, Kalbsha, Sabagura,
Ikhmind, ou Shaykh Dwd, as quais em sua maioria haviam sido fortificadas
durante o perodo precedente, contavam vrias centenas de habitantes33. Aque-
las, ainda menores, sobretudo conhecidas atravs de escavaes, como Tamit,
Arminna (Ermenne), Meynart, Debeyra-Oeste (figura 8.5) ou `Abdallh Nirk,
forneceram preciosas informaes sobre a vida quotidiana na Nbia durante o
perodo cristo clssico34. Havia igualmente monastrios tpicos deste perodo,
como aquele de Kasr al-Wizz (figura 8.6), de ar-Ramal, no Norte da Nbia, ou
ainda de al-Ghazl, na Makuria, no deserto, nas proximidades da atual cidade
de Merwe35.


     Condies econmicas e sociais
    Malgrado a abundncia dos vestgios arqueolgicos, sabemos muito pouco
sobre a civilizao nbia da poca que aqui estudamos. Os stios que foram
explorados, como aqueles de Debeyra-Oeste ou Arminna, evocam a imagem de
uma sociedade prspera, onde reinavam surpreendentes liberdade e igualdade;
as diferenas de posio social no eram, aparentemente, sempre refletidas pelo
aspecto material da civilizao36. Pequenas unidades produtivas agrcolas assegu-
ravam a subsistncia da populao. Contrariamente ao que acontecia no Egito,
os campos produziam vrias colheitas por ano. Cultivava-se sobretudo cevada e o
paino. A produo de tmaras revestia-se igual e provavelmente de uma grande
importncia econmica. A superfcie cultivada estendera-se manifestadamente
sobretudo nas ilhas prximas da segunda catarata e em Batn al-Hadjar37. Os

32   N. B. MILLET, 1964, 1967; W. Y. ADAMS, 1977, pp. 494, 511, 535-536.
33   W. Y. ADAMS, 1977, pp. 488, 494-495; P. M. GARTKIEWICZ, 1982a, p. 59; para a bibliografia dos
     stios especficos, consultar L. A. CHRISTOPHE, 1977.
34   S. DONADONI (org.), 1967; B. G. TRIGGER, 1967; K. R. WEEKS, 1967; W. Y. ADAMS, 1964,
     1965a; P. L. SHINNIE, 1975; P. L. SHINNIE e M. SHINNIE, 1978; P. VAN MOORSEL, 1970a; P.
     VAN MOORSEL, J. JACQUET e H. D. SCHNEIDER, 1975; L. CASTIGLIONI, G. HAJNCZI,
     L. KKOSY e L. TRK, 1974-1975.
35   G. SCANLON, 1970, 1972; U. MONNERET DE VILLARD, 1935-1957, vol. I, pp. 132-142; P.
     L. SHINNIE e H. N. CHITTICK, 1961; conferir igualmente W. Y. ADAMS, 1977, 478-479; S.
     JAKOBIELSKI, 1981, pp. 42-43.
36 W. Y. ADAMS, 1977, p. 501.
37 B. G. TRIGGER, 1970, p. 355.
246                                                                             frica do sculo VII ao XI



camponeses, os quais j possuam bovinos, caprinos, asnos e frangos, igualmente
comearam a criar porcos.
    A maior parte do solo cultivado era divida em pequenas parcelas, porm os
cultivadores somente as possuam a ttulo de no-proprietrios, haja vista que,
segundo a lei, todas as terras pertenciam ao rei38. O sistema fiscal repousava
sobre o imposto fundirio (e, talvez, igualmente sobre outros impostos), muito
provavelmente cobrado pelo clericato39. Pode-se supor, por outro lado, que os
monastrios possussem terras de onde tiravam os seus rendimentos.
    As cidades e as pequenas cidades supriam, em grande parte, as suas prprias
necessidades e os artesos fabricavam, sem dvida, a maior parte dos artigos
necessrios  vida quotidiana. Dentre todos os produtos fabricados em abun-
dncia durante este perodo, os mais notveis so os potes cermicos decorativos
que, sem imit-los, eram superiores queles encontrados no Egito na mesma
poca. Ao final do sculo VIII, surgiu em cermica em novo estilo, chamado
estilo cristo clssico40, caracterizado por uma grande variedade de novas formas
(vasos, potes, jarros) e por motivos elaborados com cores vivas, representando
flores ou animais. Alguns enxergam neste estilo uma influncia bizantina ou at
persa41. Segundo outros, as guirlandas e as figuras geomtricas em composio
imitam os motivos que ornamentavam, na mesma poca, os manuscritos coptas42.
O estilo cristo clssico assemelha-se muito mais quele do perodo merotico,
do qual ele est separado por um intervalo de cinco sculos, comparativamente
a qualquer outro estilo do perodo intermedirio43. O florescimento da cermica
nbia talvez tenha possudo causas extrnsecas. No sculo II/VIII e no incio do
sculo III/IX, a quantidade de potes cermicos que a Nbia importava do Egito
diminuiu sensivelmente, particularmente o volume de nforas (e do vinho, com
o qual elas eram cheias) que os monastrios coptas do Alto-Egito fabricavam.
A chegada dos abssidas a Bagd teve como efeito agravar as perseguies que
atingiam os coptas e restringir ainda mais a liberdade dos monastrios egpcios44.


38    L. TRK, 1978, pp. 296-299.
39    W. Y. ADAMS, 1977, 503.
40    Ns devemos ao professor W. Y. Adams estudos aprofundados sobre os potes cermicos nbios; conferir
      W. Y. Adams, 1962b, 1976-1968, 1970, 1978. Para os exemplares do estilo chamado "cristo clssico",
      referir-se ao resumo de W. Y. Adams, 1977, pp. 495-499; consultar igualmente F. C. LISTER, 1967;
      M. RODZIEWICZ, 1972; K. KOLODZIEJCZYK, 1982.
41    P. L. SHINNIE, 1978a, p. 570; 1965, p. 268.
42    K. WEITZMANN, 1970, p. 338; W. Y. ADAMS, 1977, p. 496.
43    W. Y. ADAMS, 1977, p. 496.
44    P. L. SHINNIE, 1978a, p. 570.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                               247



    Uma das maiores fbricas de cermica que conhecemos encontrava-se em
Faras45. Devia existir no velho Dongola ou nas imediaes outra importante
fbrica cuja produo apresentava um estilo decorativo um pouco diferente.
Exemplares do mesmo estilo foram encontrados no monastrio de al-Ghazl46,
ao Sul da quarta catarata.
    Numerosas oficinas regionais produziam potes cermicos brutos: jarros, pane-
las ou Kd (baldes da sakiya (roda d'gua)). Os potes cermicos fabricados na
Nbia nos sculos IX e X, durante o perodo cristo clssico, bastavam para satisfa-
zer completamente as necessidades do pas. Somente no sculo III/IX, a cermica
dita de Assu, importada do Egito, surgiu, destarte no tocante a uma cermica
envernizada de origem rabe que no fora jamais copiada pelos nbios47.
    A tecelagem era outra importante indstria do perodo cristo clssico. Os
tecidos eram, em geral, feitos de l ou de pelo de camelo48, ao passo que, no Egito,
empregava-se sobretudo o linho. Os vestidos de l nbia eram mais frequen-
temente decorados com listras alternando cores vivas ou eventualmente temas
quadriculares. Eles se assemelhavam muito com aqueles que esto representados
nos afrescos, por exemplo, em Faras. Tanto quanto se possa julgar pelas descobertas
arqueolgicas, Kasr Ibrm foi um dos principais centros de tecelagem.
    Os artesos nbios igualmente fabricavam objetos em ferro (enxadas, facas
etc.) e em couro, alm de todo tipo de obras em espartaria e vime, feitos com
fibras de palmeira tranadas com arte (sandlias, esteiras e bandejas chamadas
tabak); estas tradies artesanais mantiveram-se at os dias atuais.
    Durante o perodo que estudamos aqui, os nbios tambm utilizavam nume-
rosos artigos de origem estrangeira. Os testemunhos arqueolgicos mostram
que, alm dos produtos mencionados no bakt (trigo, cevada, vinho e tambm
tecidos e vestimentas), a Nbia importava do Egito todo tipo de recipientes
em vidro. Entretanto, a grande variedade de formas e tcnicas de decorao 
aparao, gravao do vidro, aplicao de ornamentos, pintura , apresentados
pelos recipientes encontrados, aparenta indicar que eles no tinham todos a
mesma origem. Descobriu-se, notadamente entre os vasos litrgicos da catedral
de Faras, um magnfico clice de vidro violeta escuro (figura 8.7)49.

45   W. Y. ADAMS, 1962a.
46   P. L. SHINNIE e H. N. CHITTICK, 1961, pp. 28-69.
47   W. Y. ADAMS, 1977, p. 499; P. L. SHINNIE, 1978a, p. 570.
48   I. BERGMAN, 1975, pp. 10-12; P. L. SHINNIE, 1978b, p. 259; J. M. PLUMLEY, W. Y. ADAMS e
     E. CROWFOOT, 1977, pp. 46-47.
49   Atualmente no Museu Nacional do Sudo. Conferir K. MICHALOWSKI, 1964a, p. 196. No tocante
     ao vidro na Nbia crist, consultar W. Y. ADAMS, 1977, pp. 499-500.
248                                                                            frica do sculo VII ao XI




Figura 8.7 Clice em vidro encontrado na catedral de Faras. [Fonte:  Centro de Pesquisas em Arqueologia
Mediterrnea, Academia de Cincias da Polnia, Varsvia.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                                   249



    O comrcio na Nbia realizava-se, principalmente, atravs do escambo; no
havia sistema monetrio, salvo no Norte, onde a moeda egpcia servia ao comr-
cio com os rabes. A Nbia devia, portanto, pagar em espcie as suas importa-
es, porm as operaes financeiras eram proibidas no interior do reino, como
testemunha a fronteira (na realidade uma fronteira aduaneira) estabelecida entre
o Alto Maks (`Aksha), na regio de Batn al-Hadjar, entre a zona onde o comr-
cio externo era permitido e o centro da Nbia50, onde ele estava submetido ao
severo controle da administrao real. A Nbia exportava sobretudo escravos,
porm os produtos tradicionais como o ouro, o marfim e as peles provavelmente
ocuparam uma posio no-desprezvel em seu comrcio exterior. A regio de
Dongola sem dvida entrou igualmente em relao, por intermdio do Kordofn
e do Drfr, com os mercadores que seguiam as rotas comerciais do centro e do
Oeste do Sudo da frica Ocidental.


     A histria poltica desde o sculo III/IX
    As melhores fontes informativas sobre os acontecimentos polticos deste
perodo provm de autores rabes: Ya'Kb, al-Tabar, Ibn Hawkal e Ibn Slim
al-Aswn (os dois ltimos viajaram  Nbia). Existem igualmente fontes crists:
Severus, bispo de Ashuneyn, e Ab Slih, o Armnio, os quais se apoiaram em
documentos coptas, assim como Michel, o Srio, baseado na crnica de Dioni-
sius, patriarca de Antioche51.
    No terceiro decnio do sculo III/IX, tirando proveito da guerra sucessria
que, aps a morte do califa Hrn al-Rashd, agravou ainda mais a situao
do Egito, a Nbia deixou de pagar o tributo estipulado pelo bakt. Assim que
Ibrhm (al-Mu'taSim) alcanou o califado, em 833, entre outras medidas desti-
nadas a recompor a ordem, ele escreveu uma carta a Dongola, para o rei Zacha-
ria, exigindo no somente o restabelecimento do tributo anual, mas, igualmente,
o pagamento de todo o atrasado. O rei da Nbia, incapaz de satisfazer a estas
exigncias, decidiu enviar a Bagd o seu filho Georgios (que posteriormente
subiria, talvez em 85652, ele prprio, ao reino da Nbia); Georgios estava encar-
regado de negociar com o califa e de aproveitar a sua estada em Bagd para

50   L. TRK, 1978, p. 296; P. SHINNIE, 1978b, pp. 260-262; no tocante ao comrcio, igualmente conferir
     R. MAUNY, 1978, p. 335.
51   Todas estas fontes esto citadas e traduzidas em G. VANTINI, 1975. Sobre os acontecimentos deste
     perodo, consultar U. MONNERET de VILLARD, 1938, pp. 103-115.
52   S. JAKOBIELSKI, 1972, pp. 92-96. Esta data foi contestada por G. VANTINI (1981a, p. 112) que prope o ano 839.
250                                                                      frica do sculo VII ao XI



avaliar a potncia militar dos abssidas53. Aps ter sido proclamado sucessor do
rei da Nbia, ele partiu para Bagd no vero de 835, acompanhado de bispos
e membros da sua corte. A sua viagem foi um acontecimento sem precedentes,
marcando um grande sucesso poltico que propiciou o reconhecimento do reino
cristo da Nbia em todo o Oriente Mdio. A embaixada de Georgios teve
como resultado a supresso dos atrasos, a reviso do bakt e a concluso de um
novo tratado segundo os termos do qual o tributo no mais deveria ser pago
seno a cada trinio. Georgios recebeu numerosos presentes de al-Mu'taSim
e o patriarca de Alexandria, Joseph, acompanhou-o durante uma parte da sua
viagem em retorno a Dongola, para onde ele retornou em 837.
    Ns conhecemos esta embaixada atravs de vrias fontes. H controvrsias
entre as verses. Alguns autores pretendem que o tratado foi assinado no Cairo,
antes de 833, ou que Georgios teria ido duas vezes a Bagd, a segunda vez em
852, em circunstncias menos felizes que na primeira (como prisioneiro), em
companhia do rei bdja `Al Bb; porm, esta verso no  clara54.
    Possumos uma relao detalhada de acontecimentos advindos nos anos 860,
no curso do longo reino de Georgios I. Ela concerne a expedio que o garim-
peiro de ouro e telogo Ab `Abd al-RaHn al-`Umar realizou ao corao da
Nbia. Al-`Umar logrou, com a ajuda do seu exrcito particular, amparar-se das
minas de ouro prximas de Ab Hamd e conserv-las durante certo tempo.
Georgios enviou tropas comandadas pelo seu sobrinho Niuty para combater
o invasor. Aps vrios enfrentamentos entre os dois exrcitos, Niuty concluiu
um acordo com al-`Umar. Ento, Georgios, considerando Niuty como traidor,
enviou contra ele o seu filho mais velho, em seguida o seu caula, Zacharia. Este
ltimo aliou-se com al-`Umar e engenhosamente promoveu a morte de Niuty.
Em seguida, ele voltou-se contra al-`Umar e obrigou-o a se retirar do Norte,
junto aos bdja, onde al-`Umar tomou parte em outros conflitos e, ao final, foi
morto de forma traioeira por enviados de Ibn Tln.
    A expedio de al-`Umar no foi a expresso da poltica oficial do Egito
perante a Nbia; no entanto, ela mostra perfeitamente que os rabes tentavam
penetrar profundamente no interior do pas, muito certamente com a inteno,
como se percebe pelo conflito que os ops aos bdja, de garantirem o abasteci-
mento do Egito em ouro nbio. Al-Makrz relata com maior detalhamento a
expedio de al-`Umar; o seu relato, provavelmente extrado de obras anterio-


53    Conferir G. VANTINI, 1975, p. 317.
54    G. VANTINI, 1970b; W. Y. ADAMS, 1977, p. 455; P. L. SHINNIE, 1978a, pp. 578-579.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                             251



res, informa-nos sobre os reis da Nbia e os costumes que regiam a monarquia
nbia.
    Georgios I, que vrias fontes atestam ter ele vivido por muito tempo, reinou
na Nbia at 915. Sabe-se a data da sua morte atravs de uma dedicatria em
copta inscrita sobre um lintel da igreja situada na face sul do kom de Faras. Esta
igreja foi construda em 930, sob o eparca Iesou, no dcimo quinto ano55 do
reinado de Zacharia III, sucessor de Georgios. Zacharia era filho de Georgios,
mas, se ele o sucedeu, foi em razo de ser, igualmente, o filho da filha da irm do
rei. A me de Zacharia era a irm de Niuty que, seguindo a ordem de sucesso
legtima, teria herdado diretamente a coroa. Aps a morte de Niuty, Zacharia
tornou-se o nico herdeiro. A sucesso ao trono da Nbia sempre se confor-
mava aos princpios da endogamia e da filiao matrilinear. Entretanto, como
os casamentos entre primos de primeiro grau eram frequentes56, acontecia que
um filho sucedesse ao seu pai.
    A inscrio copta por ns mencionada refere-se igualmente a Mariam, a me
do rei, designada com um destes ttulos significativos em voga na corte: "rainha
me" (ttulo correspondente a nonnen, encontrado em textos posteriores escritos
em nbio antigo)57. Outra rainha me, Martha,  representada sob a proteo
da Virgem Maria em um afresco de Faras58 que remonta ao incio do sculo V/
XI. Este ttulo mostra no somente a importncia da linha maternal no sistema
sucessrio ao trono, mas, igualmente e talvez, reflita uma antiga tradio que,
na Nbia merotica, atribua um papel considervel  me do rei59.
    O sculo IV/X aparenta ter sido, assim como a segunda metade do sculo
III/IX, um perodo de prosperidade para a Nbia. Esta prosperidade no foi, ao
que tudo indica, perturbada pela grande inundao do Nilo que, em uma parte
da Nobadia, obrigou os habitantes a moverem as suas cidades; mas o Estado
nbio, cujas bases econmicas j estavam solidamente estabelecidas, logrou
sem dvida superar estas dificuldades; os acontecimentos histricos aparentam


55   Nas diferentes edies deste texto (S. Jakobielski, 1966b, pp. 107-109; 1972, pp. 110-113), um erro
     existe: "dcimo" est grafado como "dcimo quinto", o que levou a falsamente fixar a data da morte de
     Georgios I no ano 920 (data habitualmente citada), em lugar da data correta, ou seja, 915. Consultar S.
     JAKOBIELSKI, 1982b, p. 132, nota 27.
56 A. KRONENBERGT e W. KRONENBERG, 1965, pp. 256-260; conferir igualmente S. JAKOBIEL
   SKI, 1972, p. 113.
57   A. OSMAN, 1982b, p. 193.
58   Este afresco encontra-se atualmente no Museu Nacional do Sudo, em Cartum. Conferir K.
     MICHALOWSKI, 1964a, p. 203, pl. XLIIB; 1967, pp. 154-157, pl. 77-79; 1974, p. 48; J. LECLANT
     e J. LEROY, 1968, pl. LI; M. MARTENS, 1972, passim; B. ROSTKOWSKA, 1972, pp. 198-200.
59 S. DONADONI, 1969; B. ROSTKOWSKA, 1982b.
252                                                                              frica do sculo VII ao XI



com efeito indicar que a Nbia era ento um grande reino cuja potncia no se
restringia  esfera militar.
    Em 956, a Nbia estava novamente em guerra aberta contra o Egito. Desta
feita, no eram os rabes os agressores, mas os nbios, os quais haviam atacado
e pilhado Assu. Pouqussimo tempo aps, os rabes organizaram uma expedi-
o punitiva que os conduziu at Kasr Ibrm, porm o seu sucesso no foi de
longa durao60. Em 962, os nbios ocuparam grande parte do Alto-Egito, at
Akhmim. A sua incurso tornara-se sem dvida possvel em razo da situao
em que se encontrava o Egito, sob os ltimos sultes de Fustt, os ikhshididas
(936-968). A Nbia talvez tivesse a inteno de facilitar no Egito a vitria dos
fatmidas, com os quais ela conservou, em seguida, boas relaes.
    A ocupao do Egito pelos nbios no terminou com a instalao do califa
fatmida, em 969. As fronteiras da zona ocupada foram talvez simplesmente
modificadas de modo que Edfu permanecesse em territrio nbio. Esta cidade
foi, at a metade do sculo V/XI, um importante centro da cultura nbia61. Foi
igualmente nesta poca que os nbios reconstruram o clebre monastrio de
So Simeo, nas proximidades de Assu62.
    As informaes das quais dispomos sobre este perodo chegam-nos, em sua
maioria, dos escritos de Ibn Slim al-Aswn63 que, aproximadamente em 969,
foi encarregado de uma misso junto ao rei da Nbia, Georgios II. O rei bem
acolheu a comitiva rabe, mas, a Nbia estava ento to poderosa que ele pde
recusar-se a pagar o tributo estipulado pelo bakt e negar a converso ao isl.


      A expanso religiosa
    Os coptas do Egito novamente sofreram graves perseguies ao final do
sculo X, sob o califado de al-Hkim (996-1021). A Nbia no tomou ime-
diatamente a defesa do Egito copta contra o Egito, talvez em razo das boas
relaes polticas que ela mantinha com os fatmidas ou por outras razes; mas



60    Estes acontecimentos so relatados de modo detalhado em J. M. PLUMLEY, 1983, p. 161; G. VAN
      TINI, 1981a, p. 116.
61    U. MONNERET DE VILLARD, 1938, pp. 124-125.
62    U. MONNERET DE VILLARD, 1927, pp. 24-36.
63    No restam destes escritos que as citaes deles realizadas em suas obras por al-Makrz e Ibn al-Salm
      al-Manf. As outras fontes so os escritos de al-Mas'd, Ibn al-FaKh e al-Ya'Kb; consultar G.
      VANTINI, 1975.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                       253



ela finalmente abriu as suas fronteiras aos refugiados vindos do Egito e muitos
dentre eles se estabeleceram na Nbia.
    No sculo IV/X, a Igreja da Nbia exercia um importante papel nos assuntos
do pas; assim sendo, Georgios II convocou uma assembleia de bispos64 para
que ela decidisse acerca da resposta a ser dada aos rabes vindos em comitiva
a Dongola. O rei desempenhou, posteriormente, o papel de intermedirio em
assuntos puramente eclesisticos, por exemplo, quando mediante a demanda das
autoridades etopes, ele interveio junto ao patriarca Philotheos (979-1003) para
que este ltimo nomeasse na Etipia um metropolitano que lhe conviesse65. Este
exemplo nos traz a prova da convergncia ento existente entre os interesses da
Igreja e aqueles do Estado; ele nos mostra que a Igreja da Nbia tinha afinidades
com o monofisismo e que a Nbia mantinha excelentes relaes com a Etipia.
    A existncia de cinco bispados nbios, a saber, Kurta, Kasr Ibrm, Faras, Sai
e Dongola, dentre os sete assinalados pelas fontes rabes, foi confirmada pelas
descobertas arqueolgicas. Os dados mais completos que possumos sobre a
histria de um bispado so aqueles concernentes a Fars. Graas  lista dos bis-
pos, inscrita em um dos muros da catedral, igualmente em virtude de inscries
tumulares e grafites, pde-se estabelecer a completa cronologia dos bispos de
Faras, desde a fundao da diocese, no sculo I, at 117566. Como vimos, cinco
bispos dos sculos III/IX e IV/X portaram o ttulo de metropolitano de Pacho-
ras (ou seja, de Faras). Dezessete pinturas conservadas em Faras, representando
bispos, permitem-nos conhecer exatamente o aspecto das vestimentas episcopais
em diversas pocas67. Os grafites de Faras, de SonKi Tino e de Tamit talvez nos
informem sobre os diferentes graus da hierarquia eclesistica.
    Segundo numerosos dados relativos a Faras e aos outros bispados, sabemos
que, no sculo IV/X, a Igreja da Nbia era monofisista. Porm, ao menos em
Faras, a situao aparenta ter se modificado ao final do sculo IV/X e no incio
do sculo V/XI. De 997 a 999, havia simultaneamente dois bispos em Pachoras:
Petros I (974-999) e Ioanns III (997-1005). Pode-se supor que Ioanns no
pertencesse  mesma Igreja que Petros, o metropolitano monofisista de Faras,
mas  Igreja Grega (ou melquita). A situao est longe da clareza e a hiptese
que se baseia nos dados recolhidos em Faras68 deu lugar a vivas discusses entre


64   O. MEINARDUS, 1967, p. 150.
65   U. MONNERET DE VILLARD, 1938, p. 125; A. J. ARKELL, 1961, p. 190; G. VANTINI, 1981a, pp. 123-124.
66   S. JAKOBIELSKI, 1966a; 1972, pp. 190-195; G. VANTINI, 1981b.
67   K. MICHALOWSKI, 1974, p. 46; M. MARTENSCZARNECKA, 1982a, passim; S. JAKOBIELSKI, 1982b.
68 K. MICHALOWSKI, 1967, pp. 91-93; 1970, p. 14; S. JAKOBIELSKI, 1972, pp. 140-147; J.
   KUBINSKA, 1974, pp. 69-86.
254                                                                           frica do sculo VII ao XI




Figura 8.8 Retrato de Marianos, bispo de Faras (1005-1036): pintura mural da catedral de Faras. [Fonte:
 Centro de Pesquisas em Arqueologia Mediterrnea, Academia de Cincias da Polnia, Varsvia.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                           255



especialistas e deu origem a algumas dvidas69. Vale aqui, entretanto, indicar
alguns fatos histricos em apoio  tese segundo a qual a diocese teria sido
ligada  Igreja Melquita. Ioanns tornou-se bispo imediatamente aps a morte
de al-`Azz, que apoiava abertamente os melquitas do Egito. A mulher (ou a
concubina) de al-`Azz era melquita. Um irmo desta ltima, Jrmias, foi nome-
ado patriarca de Jerusalm por al-`Azz; o seu outro irmo, Arsenius, tornou-
-se patriarca melquita do Egito70. Tudo leva a crer que os melquitas tenham
amplamente tirado proveito da tolerncia do califa e tenham logrado conquistar
certo nmero de bispados. Dois sucessores de Ioanns, em Faras, Marianos
(1005-1036) e Merkurios (1037-1056), so chamados em algumas inscries
"filhos" de Ioanns; esta expresso pode significar que eles pertenciam  mesma
Igreja que ele. Marianos nos  conhecido atravs de um magnfico retrato que
ornamentava a catedral de Faras (atualmente guardado no Museu Nacional de
Varsvia) (figura 8.8); ele morreu em Kasr Ibrm, onde o seu tmulo foi des-
coberta. Pode-se deduzir da inscrio exibida em sua estela funerria71 que ele
veio a Faras aps ter sido bispo, durante dois anos, em outra diocese; por outra
parte, ele  designado nesta inscrio como "o enviado de Babilnia" (ou seja,
do velho Cairo), o que est perfeitamente em acordo com o aspecto claro que
lhe confere o afresco de Faras.
    A liturgia da Igreja Nbia  mal conhecida. O grego, ento a lngua veicular
em toda a cristandade72, continuava provavelmente a ocupar o primeiro posto
na Igreja. O copta era igualmente muito empregado nos textos eclesisticos,
nas inscries oficiais e nos epitfios. Contudo, ele talvez tenha sobretudo sido
utilizado pelas numerosas comunidades coptas que viviam na Nbia. A partir
da metade do sculo X, encontram-se na Nbia muitos textos na lngua do pas,
o nbio antigo (tambm chamado nbio medieval), pertencente ao grupo das
lnguas do Sudo Oriental e, portanto, do qual deriva o mahass, dialeto atual-
mente falado na Nbia pelos ribeirinhos do Nilo. O velho nbio era escrito em
alfabeto copta (ele prprio derivado do alfabeto grego), ao qual se acrescentavam
quatro caracteres correspondentes a fonemas prprios ao nbio.



69   P. VAN MOORSEL, 1970b; T. SVESDERBERGH, 1970, pp. 238-239; M. KRAUSE, 1970,
     1978; K. MICHALOWSKI, 1979, pp. 34-35.
70   G. VANTINI, 1970a, pp. 83, 98, 223; 1981a, pp. 145-147; W. H. C. FREND, 1972b, pp. 297-308; P.
     L. SHINNIE, 1978a, p. 571.
71   J. M. PLUMLEY, 1971b.
72   No tocante s lnguas em geral empregadas na Nbia crist, consultar P. L. SHINNIE, 1974; S. JAKOBIEL
     SKI, 1972, pp. 12-16; W. H. C. FREND, 1972a; W. Y. ADAMS, 1977, pp. 484-486; T. HGG, 1982.
256                                                                               frica do sculo VII ao XI



    O texto mais antigo escrito em velho nbio  uma inscrio realizada em 795
na igreja de al-Seb'a por um certo Petro, padre originrio de Faras73. Os textos
do velho nbio que chegaram at ns possuem, em geral, um carter religioso;
trata-se dos textos cannicos (fragmentos dos evangelhos), dos cdices onde
so reportadas a vida e as palavras dos santos (por exemplo, o milagre de Santo
Mnas74 e a homilia do Pseudo-Crisstomo75, livros de missa, uma ladainha
endereada  Cruz, um conjunto extraordinariamente rico de documentos jur-
dicos e cartas recentemente descobertos em Kasr Ibrm76, assim como grande
nmero de grafites escritos em nbio ou em uma mistura de nbio e grego).
Todos estes textos apresentam o maior interesse, no somente dos pontos de
vista histrico e religioso, mas, igualmente, do ponto de vista lingustico: com
efeito, ns conhecemos ainda mal a gramtica e o lxico do velho nbio77 e a
grande maioria dos textos recentemente descobertos ainda no foi publicada.
    No possumos muitas informaes histricas concernentes  maior parte do
sculo V/XI. Sabemos que o rei Raphal reinava aproximadamente em 1002. Os
cronistas rabes informam-nos que Ab RaKwa fugiu para a Nbia aps ter sido
derrotado pelos fatmidas no Egito, contra os quais ele se revoltara aproximada-
mente em 1006, estado de coisas que teve como consequncia novamente envolver
a Nbia nos assuntos egpcios. Todavia, em linhas gerais, os dois pases viveram
em paz durante os duzentos anos que durou a dominao dos fatmidas no Egito
(969-1169). A Nbia manteve relaes particularmente boas com o seu vizinho,
durante o reinado do califa al-Mustansir (1036-1094). Nbios inclusive faziam
parte do exrcito dos fatmidas; o seu nmero, no curso deste reino, atingiu 50.000,
segundo NSir-i-Khusraw, que visitou o Egito e a Nbia em 105078.
    As informaes que a histria dos patriarcas monofisistas79 nos oferece sobre a
Igreja da Nbia, sobretudo, referem-se ao sexagsimo sexto patriarca, Christodulos
(1047-1071). Foi durante os dez primeiros anos nos quais ele ocupou o posto de
patriarca de Alexandria que as perseguies recomearam contra os coptas, engen-


73    F. L. GRIFFITH, 1913, p. 61; E. ZYHLARZ, 1928a, pp. 163-170.
74    E. A. W. BUDGE, 1909; F. L. GRIFFITH, 1913, pp. 6-24. No tocante  literatura geral em velho nbio,
      conferir C. D. G. MLLER, 1975, 1978. No referente s principais edies dos outros textos, consultar
      F. L. GRIFFITH, 1928; B. M. METZGER, 1968; J. BARNS, 1974; G. M. BROWNE, 1982b.
75    G. M. BROWNE, 1983.
76    Consultar J. M. PLUMLEY, 1975a, 1978; R. ANDERSON, 1981.
77    F. L. GRIFFITH, 1913; E. ZYHLARZ, 1928a, 1932; B. H. STRICKER, 1940; F. HINTZE, 1971-
      -1977; G. M. BROWNE, 1979-1981, 1982a.
78    Y. F. HASAN, 1973, p. 46; G. VANTINI, 1981a, p. 129.
79    A fonte  Severus (Sawrus Ab'l-Bashr ibn al-MuKaffa'); conferir G. VANTINI, 1975, p. 189, 209-218.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                          257



drando desta feita o fechamento das suas igrejas atravs de um decreto do vizir
al-Yazr (1051-1059). Christodulos, aps alguns anos preso, enviou dois bispos
egpcios junto ao rei da Nbia para solicitar-lhe ajuda. O rei deu-lhes dinheiro
com o qual se pagou o resgate exigido para a libertao do patriarca. Uma dzia de
anos mais tarde, ele colocou a Nbia soa a jurisdio de um novo metropolitano,
Victor, residente a Dongola. As relaes de Christodulos com os reis da Nbia
talvez tenham fortalecido a Igreja Monofisista cuja supremacia estivera ameaada
durante certo tempo, como nos mostrou o exemplo de Faras. O patriarca convivia
agora em melhores termos com o vizir do Egito, Badr al-Djaml. Quando ele
enviou uma nova delegao, desta feita dirigida pelo bispo de Wsim, Merku-
rios, junto ao rei da Nbia, ela foi acompanhada por um enviado do vizir, Sayf
al-Dawla, o qual exigiu e obteve a extradio do traidor Kanz al-Dawla. Badr
al-Djaml recebeu, pouco tempo aps no Cairo (em 1080), o antigo rei da Nbia,
Salamon, quem abdicara em favor do filho da sua irm, Georgios III, para se
tornar monge. Sabemos igualmente que o rei Basilios da Nbia reinava em 1089.
    Aps a queda dos fatmidas (em 1170), as relaes da Nbia com o Egito
deterioraram-se rapidamente. A idade de ouro da Nbia chegou ao fim aproxi-
madamente na mesma poca. Enfrentamentos com as tropas do sulto ayyubida
Salh al-Dn (Saladin) marcaram na histria da Nbia o incio de um novo
perodo, o derradeiro da poca crist.


     As artes e a arquitetura
     Arquitetura
   Os sculos IV/X e V/XI representaram na Nbia um perodo extremamente
favorvel para o desenvolvimento das artes, particularmente da arquitetura.
   A arquitetura da Nbia no pode ser compreendida sem um estudo prvio
da sua arquitetura religiosa80. Em toda a cristandade, as igrejas eram ento os
edifcios mais importantes e justamente a sua construo era o melhor reflexo
das concepes e tcnicas arquiteturais desta poca. Os materiais dos quais
dispomos so aparentemente muito ricos: existem ainda mais de cem igrejas
na Nobadia e cerca de quarenta em Makuria81. Tamanha desproporo entre


80   G. MILEHAM, 1910; S. CLARKE, 1912; U. MONNERET DE VILLARD, 1935-1957, vol. 3; W.
     Y. ADAMS, 1965b; P. M. GARTKIEWICZ, 1975, 1980, 1982a, 1983; S. JAKOBIELSKI, 1981.
81   O "inventrio" de todas as igrejas conhecidas na Nbia foi publicado por W. Y. Adams, 1965b; para as
     concluses gerais, igualmente consultar W. Y. ADAMS, 1977, pp. 473-478.
258                                                                        frica do sculo VII ao XI



estas duas regies (alm do fato de quase todas as igrejas do Norte terem sido
vasculhadas) deu a impresso de que as igrejas nbias eram todas derivadas
do tipo basilical, predominante no Norte do pas82. Foi somente quando a
misso polonesa descobriu a velha igreja de Dongola e sobreps, ao seu plano,
aqueles da igreja com colunas de granito e da igreja cruciforme83, somente
ento se percebeu que a arquitetura religiosa seguia dois modelos igualmente
importantes, o plano central e o plano retangular de tipo basilical, ambos
tendo influenciado a construo de diferentes igrejas. As principais tendncias
arquiteturais surgem primeiramente nos grandes edifcios dos centros culturais
e administrativos como o velho Dongola, Faras e Kasr Ibrm, os quais tambm
eram bispados. A arquitetura destas grandes cidades prestou-se at certo ponto
como modelo ao restante do pas, embora no houvesse por toda parte as mes-
mas possibilidades de escolha de materiais e condies para a execuo dos
trabalhos. A evoluo da arquitetura fora das grandes cidades desdobrou-se na
criao do plano, dito nbio, encontrado principalmente em igrejas erguidas
no Norte da Nbia durante o perodo clssico e ao final da poca crist. O
plano nbio coloca em evidncia a maioria dos detalhes da composio e da
decorao dos interiores. A igreja  geralmente uma construo retangular
orientada do Leste para o Oeste, dividida por colunas ou pilares em uma
nave central e duas colaterais. O coro (chamado haykal), no centro do qual se
eleva um altar, ocupa grande parte da nave, fechada no Leste por uma abside
contendo uma tribuna semicircular. A abside  flanqueada por uma sacristia
no Norte e um batistrio ao Sul84, interligados por um estreito corredor que
a contorna. No Oeste, outras duas peas ocupam os cantos da nave: aquela
ao Sul contm em geral uma escadaria, porm no se sabe exatamente qual a
funo daquela ao Norte. As portas da igreja, ao Norte e ao Sul, do acesso
direto s laterais. Um ambom era posicionado na parte central da nave, do
lado norte.
    A histria da arquitetura religiosa na Nbia pode ser dividida em trs per-
odos85 nos quais  possvel perceber influncias externas.




82    W. Y. ADAMS, 1965b.
83    P. M. GARTKIEWICZ, 1975. Uma monografia arquitetural sobre estas igrejas, de autoria de P. M.
      GARTKIEWICZ (Dongola II), ser publicada no volume 27 do CAMAP. Consultar igualmente S.
      JAKOBIELSKI, 1982c e a nota 22 acima.
84    O problema dos batistrios nbios  examinado em pormenores em W. GODLEWSKI, 1978, 1979.
85    Segundo P. M. GARTKIEWICZ, 1980, 1982a, pp. 73-105.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                             259




Figura 8.9 Arquitetura das igrejas nbias, segundo perodo. Parte superior: a concepo arquitetural pro-
vincial (B2); igreja do monastrio de Ghazl e igreja do flanco sul do Kom de Faras. Parte intermediria:
concepo moderna, principal tendncia, primeira fase (A2); exemplos da organizao espacial e plano central
(igreja de colunas de granito no velho Dongola) ou longitudinal (a grande catedral de Kasr Ibrm). Parte
inferior: um exemplo da tendncia principal, segunda fase (A4); o mausolu do velho Dongola (igreja cruci-
forme). [Fonte: P. M. Gartkiewicz, 1982a.]
260                                                          frica do sculo VII ao XI



      Primeiro perodo
    Fase 1: A arquitetura religiosa da Nbia denota, originalmente, uma influn-
cia estrangeira. As igrejas eram construdas segundo um plano retangular com
um nico eixo central e trs naves. Ela era geralmente feitas com tijolos crus e
recobertas com um teto de madeira sustentado por pilares de tijolos crus.
    Fase 2: Desenvolvimento da atividade arquitetural. Construo das grandes
catedrais com grandes pedras lapidadas e tijolos crus. Mesmo plano que na fase
precedente, com trs ou cinco naves, sendo os tetos sustentados por colunas.
Continuava-se, simultaneamente, a construir pequenos edifcios com tijolos
crus. Foi nesta fase que surgiram na Nbia as abbadas em bero e as igrejas
tipicamente nbias que ns descrevemos.

      Segundo perodo
   A evoluo do estilo das igrejas, com influncias armnias e bizantinas,
transformou completamente a concepo do espao arquitetural. Durante
este perodo, desenhou-se uma dupla tendncia: enquanto o estilo tradicional
manteve-se nas provncias, um estilo novo e oficial, caracterizado por um plano
central, surgiu na capital. O emprego do tijolo cozido generalizou-se. A igreja
com colunas de granito de Dongola remonta a este perodo: ela tem um plano
cruciforme inscrito no interior do plano basilical. A arquitetura nbia atingiu
ento o seu apogeu. O mausolu (igreja cruciforme) do velho Dongola, constru-
do segundo um plano em forma de cruz grega, mostra que os arquitetos nbios
podiam realizar obras originais, tirando contudo proveito dos progressos que a
arquitetura fizera no restante da cristandade. Dongola certamente tornou-se,
durante este perodo, o principal centro da atividade arquitetural (figura 8.9).

      Terceiro perodo
    Durante este perodo, no mais  possvel distinguir uma evoluo linear.
A atividade arquitetural estava dispersa e sofria diversas influncias, princi-
palmente bizantinas. O trao mais geral  a cpula, introduzido ao final do
sculo IV/X e ligado  nova concepo espacial da igreja, privilegiando a
dimenso vertical. As igrejas com plano central e as igrejas com plano retan-
gular (basilical) eram ambas cobertas por uma cpula em sua parte central e
os pilares de tijolos substituam as colunas. O tijolo cru  nova e comumente
utilizado. Alm da reconstruo de antigas igrejas, foram edificadas novas, em
um estilo que resultava de modificaes e simplificaes, variveis segundo
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                           261



as regies, contribuies acrescentadas s formas inventadas pelos arquitetos
nbios (figura 8.10).

     A arte religiosa
    A partir do final do sculo II/VIII, afrescos figurativos geralmente orna-
mentaram o interior dos edifcios religiosos, em cuja decorao no compreen-
dia anteriormente seno elementos arquiteturais (lintis, ps-direitos e capitis
decorados em baixos-relevos). Os afrescos de Faras, alm de numerosas repre-
sentaes do Cristo e da Virgem, figuram igualmente santos e arcanjos, cenas do
Antigo e do Novo Testamento, bem como dos dignitrios locais sob a proteo
de personagens santos86. O seu estudo nos permitiu conhecer com preciso a
evoluo da pintura mural na Nbia, cujos modos de expresso diferem daqueles
dos pases vizinhos.
    Ns pudemos distinguir diferentes estilos de pintura e classific-los em
ordem cronolgica (alguns destes estilos j foram mencionados no volume II
desta Histria Geral da frica): um estilo predominantemente violeta (final do
sculo II/VIII e incio do sculo III/IX), estilos intermedirios (incio do sculo
III/IX) e um estilo predominantemente branco (segunda metade do sculo
IV/X), ao qual est ligado o retrato do bispo Kyros, primeiro metropolitano
(figura 8.4). Os afrescos deste primeiro perodo inspiraram um grupo de pin-
tores que, no sculo IV/X, fundaram uma nova escola cujo estilo caracteriza-se
essencialmente por uma ornamentao tipicamente nbia, resultante da trans-
formao de elementos de origem estrangeira do emprego de cores variadas
segundo os perodos87. Deste modo, no incio do sculo IV/X, aps a recuperao
do gesso presente no interior da catedral de Faras, surgiu um novo estilo pre-
dominantemente amarelo e vermelho. O realismo do estilo de predominncia
branca deu lugar a uma extrema idealizao e  estilizao de traos da face. O
novo estilo valorizava os bordados e os outros elementos dos vestidos utilizados
pelos personagens. Pode-se, por exemplo, citar o retrato de Georgios I, acres-
centado no incio do sculo IV/X ao grupo da Virgem e dos apstolos que orna
a abside da catedral de Faras. Aps a grande reconstruo da catedral ocorrida
ao final do sculo IV/X, o estilo policromia I fez a sua apario. Trata-se de um
dos estilos mais difundidos no Norte da Nbia; podemos encontr-lo em vrias

86   Consultar Unesco, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 12, pp. 358-360; K. MICHALOWSKI, 1964b,
     1966b, 1967, 1970, 1974; K. WEITZMANN, 1970; G. VANTINI, 1970a; M. MARTENS, 1972, 1973;
     M. RASSART, 1972; G. VANTINI, 1981b; S. JAKOBIELSKI, 1982d; N. POMERANTSEVA, 1982.
87   M. MARTENSCZARNECKA, 1982a, 1982b, 1982c.
262                                                                                 frica do sculo VII ao XI




Figura 8.10 Arquitetura das igrejas nbias, terceiro perodo. Exemplos de igrejas que representam ten-
dncias diversas. Sequncia superior: C1 - influncia do tipo baslico coberto por uma cpula (baslica de
Tamit); segunda sequncia: C2 - influncia da composio com parede dupla (igreja de Nag'el-OKba) ou
do tipo cruz inscrita em um quadrado (igreja de SonKi Tino); terceira sequncia: C3 - influncia do modelo
cruciforme com cpula (catedral de Faras, reconstruda ao final do sculo X, e igreja dos anjos de Tamit);
sequncia inferior: C4 - influncia da sala multiaxial (igreja de So Rafael de Tamit e igreja de Kw). [Fonte:
P. M. Gartkiewicz, 1982a.]
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                       263




Figura 8.11 Transepto norte da catedral de Faras e grande pintura mural policromtica, representando a
Natividade (aproximadamente do ano 1000). [Fonte:  Centro de Pesquisas em Arqueologia Mediterrnea,
Academia de Cincias da Polnia, Varsvia.]
264                                                                               frica do sculo VII ao XI



igrejas, por exemplo, em `Abdallh Nirk, SonKi Tino e Tamit88. Ele caracteriza-
-se pelo impacto das cores e pela profuso dos detalhes na representao dos
vestidos, livros, coroas e outros objetos. Dentre as quarenta e oito pinturas deste
estilo que ns conhecemos, a mais notvel  o retrato do bispo Marianos (figura
8.8), datada dos primeiros anos do sculo XI. A grande Natividade, atualmente
abrigada no Museu Nacional do Sudo, em Cartum (figura 8.11), data da
mesma poca; trata-se do maior afresco da Nbia. Ela mostra que os artistas
nbios sabiam pintar cenas com mltiplos personagens, repartidos em planos
sobrepostos. Ela no est dividida em mltiplos registros, segundo a frmula
caracterstica da arte egpcia; os diferentes grupos e personagens (reis, magos,
pastores, arcanjos, anjos pairando no cu) esto, em contrrio, estreitamente
interligados, tanto pelo tema da obra quanto pela sua composio89.
    Foi ento que os pintores nbios comearam a representar nobres locais
sob a proteo do Cristo, da Virgem ou do arcanjo Miguel. Eles tinham como
regra conferir-lhes cores verdadeiras aos rostos destes dignitrios, ao passo que
o Cristo e os santos so sempre representados com a pele branca90.
    O estilo policromtico durou at o final do perodo cristo; os seus prolonga-
mentos so denominados policromia II (segunda metade do sculo VII/XIII e
IX/XV), policromia III (sculo VI/XII) e estilo tardio (sculos VII/XIII e X/XV).
    A descoberta de outras pinturas, sobre os muros de edifcios nbios, con-
firmou de modo com tamanha preciso a cronologia estabelecida graas aos
afrescos de Faras que estas ltimas poderiam servir como base e datao91. As
pesquisas versadas sobre a pintura nbia superaram, a este respeito, aquelas que
concernem  pintura copta egpcia, cujas obras ainda no foram inteiramente
catalogadas, nem classificadas.
    A pintura nbia do perodo cristo clssico sofreu, sobretudo, a influncia
da arte bizantina (como se percebe pela profuso dos elementos decorativos),
porm, esta influncia no substituiu completamente aquela da arte copta que
marcara o perodo precedente92. As principais formas de expresso da pintura
nbia apresentam caractersticas prprias.

88    P. VAN MOORSEL, J. JACQUET e H. D. SCHNEIDER, 1975, pp. 54-131; S. DONADONI e S.
      CURTO, 1968; S. DONADONI, 1970; S. DONADONI e G. VANTINI, 1967-1968; S. DONA
      DONI (org.), 1967; pp. 1-60.
89    K. MICHALOWSKI, 1974, p. 39. Conferir igualmente K. MICHALOWSKI, 1967, pp. 143-148, pl. 63-69.
90    Conferir S. JAKOBIELSKI, 1982d, pp. 164-165; B. ROSTKOWSKA, 1982a, p. 295.
91    Consultar especialmente M. MARTENSCZARNECKA, 1982c.
92    No tocante s influncias exercidas sobre os afrescos de Faras, conferir J. LECLANT e J. LEROY, 1968;
      K. WEITZMANN, 1970; P. DU BOURGUET, 1970, pp. 307-308; M. RASSART, 1972, pp. 274-275;
      1978; B. ROSTKOWSKA, 1981; M. MARTENSCZARNECKA, 1982d, pp. 59-73.
A Nbia crist no apogeu de sua civilizao                                                       265



    necessrio insistir na riqueza iconogrfica93 da pintura nbia, riqueza que
denota um profundo conhecimento das mais antigas tradies crists e do texto
das Escrituras. A Nbia, durante a sua idade de ouro, permaneceu, no esque-
amos, como um importante membro da ecmena crist. Ela estava em rela-
o, como se percebe ao menos atravs da sua arte e particularmente pela sua
arquitetura, no to somente com os coptas do Egito e muito provavelmente
da Etipia, mas igualmente com todos os pases da esfera de influncia da
cultura bizantina, da Armnia  Sria e  Palestina. Conquanto extrasse a sua
inspirao destas fontes diversas, ela logrou adquirir uma personalidade cultural
perfeitamente distinta.




93   Dentre o grande nmero de artigos publicados sobre este tema, consultar aqueles de T. GOLGO
     WSKI, 1968, 1969; P. VAN MOORSEL, 1966, 1970b, 1972, 1975; E. DINKLER, 1975; T. DOBR
     ZENIECKI, 1973-1975, 1974, 1980; L. TRK, 1975; J. KUBINSKA, 1976; W. H. C. FREND,
     1979; A. LUKASZEWICZ, 1978, 1982; E. LUCCHESIFALLI, 1982; W. GODLEWSKI, 1982b;
     conferir igualmente acima a nota 86. No tocante ao estudo dos problemas iconogrficos, referir-se
     especialmente a K. MICHALOWSKI, 1974, pp. 42-63 (bibliografia pp. 312-313); 1979, pp. 33-38; B.
     ROSTKOWSKA, 1982a, pp. 295-299.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                             267



                                          CAPTULO 9


          A conquista da frica do Norte e a
                 resistncia berbere
                                             Hussain Mons




    O precedente volume (II) desta Histria Geral da frica ofereceu ao leitor
uma primeira descrio dos berberes, das suas origens, das suas estruturas tni-
cas e de alguns dos seus traos caractersticos1. Todavia, como este captulo  o
primeiro a tratar da frica do Norte muulmana (excetuando-se o Egito)  o
Magreb , aparenta-nos ser til aqui apresentar os berberes, tal como os des-
cobriram os rabes, a partir de 21/642, quando se puseram a conquistar o seu
territrio.
    Aos olhos de alguns autores modernos, o termo "Magreb" tornou-se anacr-
nico, em virtude dele no mais se aplicar seno a uma frao do territrio. H
cerca de seiscentos anos, Ibn Khaldn (732/1332-808-1406) pensava de modo
idntico. Segundo ele, este termo, alMaghreb, representava menos um nome
prprio que uma definio geogrfica que, acrescentava ele todavia, tornara-se
o nome deste territrio2.
    E. F. Gautier comeava a sua obra Le pass de l'Afrique du Nord. Les sicles
obscurs (O passado da frica do Norte. Os sculos obscuros), com um captulo
de ttulo impactante: "Um pas que no tem nome"3. Sem dvida, trata-se de
um dito espirituoso, alMaghreb (o Oeste da terra do isl) sendo, na realidade,

1    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulos 17, 18 e 19.
2    Ibn KHALDN, 1956-1959, vol. 4, p. 193.
3    E. F. GAUTIER, 1937, p. 7.
268                                                          frica do sculo VII ao XI



histrica e geograficamente, a denominao clara e precisa de uma parte niti-
damente definida deste mundo: o Norte da frica (excetuando-se o Egito), o
territrio situado ao Norte do grande deserto africano, o Saara.
    At recentemente, a frica do Norte, ou Magreb, geralmente indicava uma
terra pobre onde, salvo algumas poucas parcelas de solo arvel, a rocha dis-
putava espao com a areia. A sua prpria pobreza dela fizera a terra de um
povo vigoroso, orgulhoso e livre,  imagem do caso da Arbia. Entretanto, na
realidade, o Magreb est distante de ser pobre. Ele possui uma zona litornea
rica em vegetao e recursos hdricos. As encostas setentrionais do Atlas ofe-
recem excelentes pastagens arborizadas. Belas oliveiras ali prosperam. Litoral
e contrafortes montanhosos do Norte beneficiam-se da amenidade do clima
mediterrneo, mizdj altull, segundo Ibn Khaldn. O alto planalto de Atlas 
coberto de bosques e florestas. s margens do Atlntico, o solo  frtil em uma
larga faixa litornea.
    Ricas em florestas, plantaes e pastagens, as montanhas do Atlas so to
hospitaleiras quanto belas. Elas abrigaram um dos mais corajosos resistentes
povos da Terra: os berberes. Ibn Khaldn prolixo acerca da beleza e da magni-
ficncia do "pas dos berberes" (mawtin alBarbar), pas que igualmente com-
preende a Lbia e boa parte do Saara.
    Aps esta curta exposio sobre o ambiente geogrfico,  necessrio con-
sagrar algumas palavras s fontes rabes, assim como aos trabalhos moder-
nos dedicados  poca da conquista da frica do Norte pelos rabes. Temos
 nossa disposio certo nmero de textos rabes antigos devidos a srios
historiadores, tais como al-Baldhur, Ibn `Abd al-Hakam, Ibn al-Athr, Ibn
`Idhr, al-Mlik, al-Dabbgh, Ibn Khaldn, Ab l-`Arab Tamm e al-Nuwayr,
representantes de uma mina de indicaes nas quais podemos amplamente
confiar4. Todavia, por vezes encontramos inconsistncias, dataes equivocadas,
contradies, explicveis pela distncia no tempo, haja vista que os primeiros
historiadores escreveram as suas obras mais de dois sculos aps a conquista.
A maioria dos autores mencionados pode ser considerada como composta por
simples cronistas ou analistas, sem grande esprito crtico; a nica exceo 
Ibn Khaldn, verdadeiro historiador que nos concede no somente slidos
materiais, mas, igualmente, uma interpretao razovel da histria dos berberes.
Porm, todos estes historiadores eram rabes e expressavam o ponto de vista
dos conquistadores; a perspectiva dos resistentes berberes, quanto a ela, perma-


4     Consultar a bibliografia.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                             269



nece por ns desconhecida, em que pesem alguns traos que foram conservados
nas crnicas rabes.
   At muito recentemente, os estudos norte-africanos foram monoplio dos
pesquisadores franceses e espanhis (e italianos no tocante  Lbia), cujas obras
cobrem todo o campo histrico desde a Antiguidade at a independncia magre-
bina. Embora convenha reconhecer os admirveis esforos realizados por eles,
ao publicarem, traduzirem e interpretarem as fontes, assim como a sua grande
contribuio para a elucidao de diversos problemas histricos, deve-se, todavia,
lembrar que estes trabalhos datam, em sua maioria, da poca colonial e, assim
sendo, a sua interpretao devia, por conseguinte, em larga medida, servir aos
objetivos da poltica colonial  por exemplo, a integrao da Arglia  metrpole,
neste caso,  Frana. Em suplemento, graas aos srios esforos realizados pelos
pesquisadores rabes e a outros ao longo dos vinte ltimos anos, a jovem gera-
o de historiadores foi alm dos julgamentos declarados pelos pesquisadores
franceses, em respeito a quase todos os grandes problemas da histria da frica
do Norte muulmana5.
   No tocante a esta evoluo, um pesquisador americano, Edmund Burke III,
expressa a opinio geral quando declara:
    At uma poca bem recente, o estudo histrico da frica do Norte consistia pratica-
    mente uma exclusividade dos franceses. Os raros historiadores de expresso inglesa
    a lanarem-se no estudo do Magreb faziam-no arcando com os riscos e perigos,
    sempre se expondo  reprovao de no terem assimilado devidamente a enorme
    produo dos autores franceses... Em ampla medida, este estado de coisas era o
    produto da diviso colonial do trabalho. O adgio "a pesquisa segue a sua bandeira"
    encontrava uma confirmao emprica no fato segundo o qual, no tocante ao mundo
    muulmano, os pesquisadores dos diferentes pases continuavam a proceder segundo
    a sua prpria perspectiva6.
   Contudo, ns expressamos o mais profundo respeito e a maior estima pela
imensa obra dos historiadores franceses, conquanto, muito amide, no sigamos,
em sua interpretao dos textos, homens de cincia to venerveis quanto Henri
Fournel, C. Diehl, E. Mercier, E. F. Gautier, M. Basset, William e Georges



5    Conferir A. M. AL-ABBD e M. L. ALKATTN, 1964; H. H. `ABD ALWAHHB, 1965-1972;
     J. M. ABUNNASR, 1971; H. DJAIT, 1973; H. ALDJANHN, 1968; A. LAROUI, 1970, 1977; H.
     MONS, 1947; M. TALBI, 1971; S. ZAGHLL, 1965; M. BRETT, 1972; M. CHURAKOV, 1960
     e 1962; J. WANSBROUGH, 1968.
6    E. BURKE III, 1975.
270                                                                               frica do sculo VII ao XI



Marais, R. Brunschwig, E. Lvi-Provenal, C.-A. Julien, para nos atermos a
esses7.


      Os berberes s vsperas da conquista rabe
    No incio da sua conquista da frica do Norte, os rabes descobriram que
os berberes estavam, tanto quanto eles prprios, organizados em cabilas. Estas
cabilas eram divididas em duas categorias: os butr e os barni.
    Curiosamente, estes dois nomes de grupos no surgem seno no momento
da conquista rabe, jamais anteriormente. Ibn `Abd al-Hakam, o mais antigo
cronista da conquista, fala com a maior naturalidade do mundo dos barni e dos
butr, ao passo que em sua crnica extremamente detalhada da histria antiga
da frica do Norte, Stphane Gsell no menciona nenhum destes dois nomes
que Charles Diehl, em sua volumosa histria da frica bizantina, do mesmo
modo ignora8.
    Estes dois termos, butr e barni, tm uma consonncia rabe: os barni so
aqueles que portam os albornozes, j conhecidos pelos rabes antes que estes
ltimos penetrassem na frica, haja vista que `Umar ibn al-Khattb, o segundo
califa, o teria usado, e os butr, segundo os autores rabes, seriam os descendentes
de um homem de nome Mdghs al-Abtar. Esta ltima palavra, abtar,  o sin-
gular de butr. O abtar  o homem sem prognie ou o homem a quem falta uma
mo ou uma perna, ou ainda que no possua chapu. Como no  absolutamente
possvel que os butr fossem a prognie de um homem que tivesse sido abando-
nado, no restaria mais que uma explicao: ter-se-ia dado a Mdghs, pai dos
butr, o apelido de abtar porque lhe faltava um atributo do vesturio, o capuz.
    De todo modo, no saberamos aceitar nenhuma destas explicaes lingus-
ticas. Devemos contentar-nos em admitir o fato de que, sobre o testemunho
de genealogistas berberes ou rabes, Ibn Khaldn, o historiador dos berberes,
escreve que, desde tempos imemoriais, os berberes eram divididos em dois
blocos e que a sua eterna querela e hostilidade mtua sempre foram o fator
dominante de toda a histria dos berberes, antes e aps o Isl.



7     Consultar bibliografia.
8     S. GSELL, 1913-1928; C. DIEHL, 1896.  fortemente possvel que esta classificao tenha sido inserida
      no mundo berberfono pelos autores rabes  criadores do vocabulrio  a partir de realidades muito
      concretamente vividas no Oriente Mdio, onde os prprios rabes foram divididos em dois grandes
      grupos.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                                                     271



    Seungo E. F. Gautier, esta classificao corresponderia a dois modos de vida
distintos, os barni seriam montanheses sedentrios, ao passo que os filhos de
Mdghs (ou os butr) seriam nmades das plancies. Esta hiptese seduziu mui-
tos pesquisadores durante sculos; entretanto, ela  demasiado ousada para ser
aceita sem a sua submisso a uma crtica cientfica9. Todavia, esta classificao
em dois grandes grupos aparentemente concretiza o sentimento demonstrado
pelas populaes berberes do Magreb a propsito do seu respectivo parentesco.
Tudo leva a crer que os genealogistas berberes (e tambm rabes) construram
esta diviso a posteriori, levando em considerao fatos da experincia histrica.
    Segundo Ibn Khaldn, no momento da conquista rabe, as mais importantes
confederaes de cabilas butr eram aquelas dos zanta, dos maTghara e dos
nafzwa.  verossmil que o grupo zanta tenha exercido a supremacia, pois se
considera que ele deu o seu nome a todos os grupos nmades de butr. Zanta 
o neto de um certo Mzgh. Aparentemente, os barni igualmente descendiam
de Mzgh. A palavra significa "homem livre"10.
    Por outra parte, ainda no momento da conquista, as mais importantes con-
federaes de cabilas barni so, segundo Ibn Khaldn, aquelas dos awrba, dos
hawwra e dos Sanhdja11.
    Todavia, assim que passamos ao estudo da conquista rabe e da histria da
frica do Norte sob o domnio islmico, nota-se o surgimento de novas cabi-
las e novos grupos que se revelam mais importantes que aqueles mencionados
acima. Assinalemos finalmente que os mapas genealgicos apresentados por Ibn
Khaldn foram montados em uma poca mais tardia, certamente no antes dos
sculos IV/X ou V/XI, com finalidades polticas ou dinsticas.
    Os prprios mapas esto repletos de contradies e diferem segundo as fontes.
A diviso geogrfica das cabilas coloca outro problema; uma cabilda ou uma confe-
derao de cabilas pode, com efeito, ter ramos ou ramificaes em diferentes partes
do Magreb, particularmente aps a invaso dos ban hill, no sculo V/XI12.
    Eis a razo pela qual, para maior preciso, ser prefervel contentar-se em
apresentar as linhas gerais da diviso "tribal" dos berberes na poca da conquista
rabe e, ulteriormente, at o sculo VI/XII.

9    E. F. GAUTIER, 1937, pp. 227-239; conferir, entretanto, R. BRUNSCHWIG, 1947. H. R. IDRIS, 1962,
     vol. 1, pp. 4-6.
10   Fascinados por este nome e pelo seu significado, jovens eruditos magrebinos desejariam substituir "berbere"
     por "imzghen" (plural de amzgh). Na realidade, eles entrevem em "berbere" um significado pejorativo
     que no est ligado. Berbere  um nome prprio que perdeu qualquer relao com "barbaroi".
11   Ibn KHALDN, 1956-1959, vol. 4, pp. 282-296.
12   Consultar mais adiante o captulo 12.
272                                                         frica do sculo VII ao XI



     poca da conquista rabe, os barni estavam divididos em numerosos e
importantes grupos, tais como os Sanhdja, os kutma, os talkta, os awrba e os
masmda (ou masmida). Os zanta (ou zanatianos) povoavam a Cirenaica e a
Tripolitnia e ao Sul, at Djabal Nafsa e os osis do Fezzn, as confederaes
de cabilas preponderantes eram aquelas dos hawwra, dos luwta, dos nafsa e
dos zaghwa.
    Eles igualmente dominavam a poro oriental da atual Arglia, denominada
na poca rabe regio de al-Mzb. Eles povoavam as terras pastoreiras das
encostas meridionais das montanhas do Atlas central at o rio Mulya. Tratava-
-se do pas do vastssimo grupo das cabilas miknsa, regio que se estendia rumo
ao Sul at a regio frtil dos osis do Tafillet.
    Os kutma e os Sanhdja povoavam o Magreb central, incluindo o macio
de Aurs (Awrs) e o pas Kab'il (a Grande Cablia), habitando as regies de
Thert e Tlemcen. Tratava-se do habitat dos grandes grupos de kutma, os
quais contriburam para estabelecer o califado fatmida, dos talkta, fundadores
dos dois emirados ziridas, dos awrba, de papel preponderante na fundao
do emirado idrsida, no Norte do Marrocos, e de algumas cabilas de menor
importncia. Ibn Khaldn chama estas cabilas Sanhdja do centro do Marrocos
"a primeira gerao dos Sanhdja" (alTabaka all min Sanhdja). Existiam
outros pequenos enclaves de Sanhdja no Magreb Ocidental, o mais importante
era aquele dos haskra, os quais viviam no Alto Atlas, no pas dos masmda,
aos quais os Sanhdja juntaram-se e se misturaram para constituir o Imprio
Almorvida.
    Outro grupo de Sanhdja vivia nas terras desrticas do Sul do Wd Dar'a
(Oued Dra) e espalhava-se pela faixa saariana que se estende ao longo da costa
atlntica at o rio Senegal. As suas mais importantes cabilas eram os lamtna,
os massfa, os djuddla, os gazla (djazla), os ban writh, os lamta e os Tarka.
Estes ltimos so os famosos tuaregues (al-Tawrik), senhores do grande Saara
at os dias atuais. Todos estes grupos eram nmades cameleiros13.
    Ibn Khaldn denomina este grupo Sanhdja "a segunda gerao dos Sanhdja"
(alTabaka althniya min Sanhdja).
    Alguns genealogistas excluem totalmente os kutma dos Sanhdja e dos
berberes, fazendo-os descender dos rabes e conferindo-lhes uma genealogia
sul-arbica himyarita.




13    Consultar mais adiante o captulo 13.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                      273



    Porm, so os masmda (ou masmida) que formam o mais importante
grupo dos barni. Eles dominam a quase totalidade do Magreb Ocidental,
excetuando-se alguns pequenos enclaves povoados por Sanhdja e zanta. Os
mais importantes ramos deste grupo so os ghumra (regio de Tanger e a
totalidade do Rf ) e os barghawta, os quais reinam com os awrba no vale de
Seb. Os masmida vivem nas regies montanhosas do Alto Atlas e do Anti-
-Atlas, assim como na plancie frtil do Ss, estendida entre as duas cadeias
do Atlas ao Sul do macio montanhoso de Sirwa. Trata-se dos fundadores do
movimento religioso e do imprio dos almorvidas, realizadores da unio entre
o Magreb e a Espanha14. Dentre as mais importantes cabilas por eles reunidas
figuram os hintta, os haylna (ou aylna), os urka, os hazardja, os masfwa, os
dughgha, os hargha, os ahl-tin mallal, os sawda, os ganfisa, os ban wawazgit,
os fatwka, os mastna etc.
    Esse, bem entendido, consiste apenas em um retrato sumrio dos berberes
e das suas cabilas da poca correspondente  chegada dos rabes na frica do
Norte. Algumas resistiram aos rabes, outras se lhes aliaram e converteram-se
ao isl no curso do longo perodo da conquista.
   Praticamente todos os berberes permaneceram fiis aos seus cultos ancestrais
de venerao das foras da natureza. Os rabes chamavam-nos mdjs (adora-
dores do fogo); mas, no contexto dos primrdios do isl, a palavra geralmente
significa "pagos".
    O cristianismo era pouco difundido junto aos berberes. Somente os habi-
tantes da faixa litornea, aqueles chamados pelos rabes alafrika, conservaram
esta religio. Os afrika eram um povo marginal, composto de uma mistura de
berberes e cartagineses romanizados, de romanos e gregos. Comparados aos
poderosos grupos berberes do interior do pas, eles no formavam seno uma
pequena minoria15. Junto aos berberes propriamente ditos, a difuso do cristia-
nismo era fraca; somente em Tingitane e Bizcio, ele penetrara no interior do
pas. Alm disso, os cristos da frica bizantina estavam divididos por xiismos;
h muito tempo, a religio crist concedera aos berberes o pretexto para um rea-
grupamento contra a dominao romana e eles se haviam lanado com ardor nas
heresias (arianismo, donatismo) opostas  doutrina da Igreja de Roma. Situao
similar desenvolveu-se posteriormente contra a poltica religiosa de Bizncio.
   O judasmo fez igualmente numerosos proslitos e, conquanto no tenha
desempenhado o papel que alguns autores tentaram atribuir-lhe, ele foi todavia

14   Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 2.
15   No referente aos afrika, conferir T. LEWICKI, 1951-1952.
274                                                            frica do sculo VII ao XI



difundido em todo o Norte da frica. A maior parte dos judeus indgenas des-
cende de autctones convertidos antes do surgimento do isl16.


      Primeira fase da conquista: a conquista
      da Cirenaica e da Tripolitnia
   No ano 20/641, entre `Amr ibn al-`AS e o patriarca Cyros, ltimo governa-
dor bizantino do Egito, foi concludo o tratado de Alexandria, sancionando a
conquista do seu territrio pelos rabes. Pouco aps, em 16 shawwl 21/17 de
setembro de 642, a ltima guarnio de Bizncio evacuava Alexandria.
   Porm, o conquistador do Egito, `Amr ibn al-`AS, estimava necessrio anexar
a Cirenaica. Desde a ltima reorganizao do imprio, pelo imperador Maurcio
Tibrio (582-602), esta ltima pertencia  provncia do Egito, assim como a
Tripolitnia. Marchando, portanto no incio de 22/643, sobre a Cirenaica, ele
dela amparou-se sem praticamente encontrar resistncia. No encontrou diante
de si nem gregos, nem rm (bizantinos), mas unicamente berberes pertencentes
aos grupos dos luwta e dos hawwra. Estes ltimos renderam-se finalmente e
aceitaram pagar um tributo anual de 13.000 dinares, o qual representaria dora-
vante uma parte do tributo do Egito17.
   Nos documentos rabes, a Cirenaica aparece por vezes com o nome de
Antbulus (Pentapolis, as cinco cidades). Tambm  chamada Krin, leve
deformao do nome grego Cirene. Todas as denominaes para esta regio
brevemente desapareceriam, cedendo lugar ao novo nome conferido pelos ra-
bes: Barka, inspirado naquele de uma pequena cidade da regio (atualmente
al-Mardj).
   Simultaneamente, `Amr enviava o seu lugar-tenente Nfi' ibn `Abd al-Kays
com o objetivo de ocupar Zawla, pequeno osis na rota do Fezzn at hoje exis-
tente, levemente ao Sul de Sabh. Zawla est relativamente afastada de Barka,
no entanto e aparentemente, tratava-se na poca do mais importante posto
de abastecimento em gua, para as caravanas da rota do Fezzn. Este detalhe
mostra perfeitamente que, desde os primrdios, os rabes foram obrigados a
conquistar o interior e no somente a plancie costeira. Nfi' ibn `Abd al-Kays
posicionou guarnies neste posto e retornou a Barka, junto a `Amr. Ambos
voltaram ao Egito em radjab 22/abril ou maio de 643.

16    Conferir H. SIMON, 1946; H. Z. HIRSCHBERG, 1963, 1974.
17    Ibn `ABD ALHAKAM, 1922, p. 170 e seguintes.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                 275




Figura 9.1    A conquista do Magreb pelos rabes. [Fonte: I. Hrbek.]
276                                                            frica do sculo VII ao XI



    Um ano mais tarde, `Amr ibn al-`AS e os seus lugares-tenente retornariam
para realizar uma nova etapa da conquista da frica do Norte. O seu obje-
tivo era Trpoli, ento parte integrante do Egito ao mesmo ttulo que Barka.
Era necessrio anexar este porto, cercado de altas muralhas, em cujo comr-
cio prosperava. Os vassalos helnicos ali lanavam ncora para comprarem os
produtos  azeitonas, azeite de oliva e l  da regio, renomada pela excelente
qualidade dos seus carneiros. `Amr apoderou-se de Trpoli aps um breve cerco.
Para faz-lo, ele lanou duas colunas, uma sob as ordens de Busr ibn `Ab Artt
sobre Sabra ou Sabrta, ltima grande cidade a Oeste de Trpoli, e a segunda
sobre Waddn, o mais importante osis do interior tripolitano, por ele posto
sob o comando de `Abd Allh ibn al-Zubayr. A ocupao de Waddn implicava
a anexao de toda a regio montanhosa de Nafsa. O Djabal Nafsa estava
 poca coberto de uma rica vegetao, oliveiras e pastagens. Igualmente era o
bastio da confederao dos Nafsa.
    Procedendo deste modo, `Amr ibn al-`AS impunha um ponto final  con-
quista do Egito. As fronteiras ocidentais da provncia estavam asseguradas.
Alm destas fronteiras, era Bizncio e a sua provncia de Bizcio (em suma, a
atual Tunsia).


      As primeiras incurses em Ifrkiya
   No ano 27/647, o novo governador do Egito, `Abd Allh ibn Sa'd, lanou
um ataque contra Bizcio. Naquele tempo, o governador da frica bizantina era
Gregorius (Djurghr), o exarco dos rabes, que alguns anos antes, proclamando-a
independente, isolara a sua provncia do restante do imprio. Em seu exrcito havia
numerosos mercenrios e berberes. As foras rabes e bizantinas encontraram-se
no distante de Suffetula, chamada Subaytula (Sbeitla) pelos rabes. A batalha
terminou com uma vitria decisiva: o exarco Gregorius foi morto, a sua filha e
numerosos membros da sua casa foram capturados e Subaytula ocupada. Muitos
bizantinos refugiaram-se em Cartago, em Ss (Hadrumetum) e noutros portos,
ao passo que grande nmero deixaria a frica para jamais retornar.
   Aps a sua vitria, `Abd Allh ibn Sa'd, j envolvido em querelas com os
seus oficiais, retornou ao Egito; entretanto, colunas rabes pilharam o pas em
todas as direes, fazendo milhares de prisioneiros, especialmente em Thysdrus,
fortaleza ou teatro romano (atualmente al-Djamm). Sentindo-se  sua merc, as
populaes africanas dirigiram-se a `Abd Allh ibn Sa'd, solicitando-lhe aceitar o
pagamento de uma soma considervel para que ele partisse. Como esta oferta lhe
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                        277



convinha, ele a aceitou, apoderou-se do resgate e evacuou o pas. A campanha
concluiu-se em 28/649.


    Segunda fase da conquista
    As campanhas de `Amr ibn al-`AS e de `Abd Allh ibn Sa'd podem ser con-
sideradas como as etapas preliminares ou preparatrias da conquista. Os rabes
doravante conheceriam a terra magrebina e os seus habitantes. Desde antes,
alguns dos participantes destas campanhas adquiriram til experincia. Desde
a expedio de `Amr ibn al-`AS, uma guarnio permanente ocupa Barka; outra,
de importncia menor, est estabelecida em Waddn. No entanto, todos os
projetos de conquista islmica seriam paralisados durante cerca de doze anos;
conseguintemente a guerra civil atingiu o pice junto aos rabes, desde a metade
do califado de `Uthmn (24/644-36/656) at a ascenso ao califado de Mu'wiya
ibn Ab Sufyn, em 41/661.
    To logo restabelecida a paz no seio do Imprio rabe, o novo califa Mu'wiya,
fundador da dinastia umayyade, decretou a retomada da conquista em todas as
frentes. Em 43/663, Mu'wiya nomeou governador do Egito o seu aliado `Ukba
ibn `Amr al-Djuhan, assim como Mu'wiya ibn Hudaydj al-Skun comandante-
-em-chefe do exrcito rabe que recomearia a conquista do Magreb.
    Durante este perodo, as circunstncias eram favorveis aos rabes. Tirando
proveito da sua longa ausncia nos anos precedentes, os bizantinos tentaram
restaurar a sua autoridade na frica. O imperador Constantino II (641-668)
enviou um novo exarco para a regio, o patrcio Nicphore, com a ordem
de recolher, junto  populao da provncia, um imposto equivalente quele
cobrado dos rabes. A populao recusou. Ela era incapaz de reunir tamanhas
somas. Sucederam-se tenses que conduziram ao inevitvel enfrentamento. Foi
ento que o exrcito de Mu'wiya ibn Hudaydj veio bater s portas (45-665).
Mu'wiya podia facilmente vencer Nicphore; ele o obrigou a se refugiar atrs
dos muros de Hadrumetum (Ss) e lanou contra ele uma coluna de cavalaria
sob as ordens de `Abd Allh ibn al-Zubayr. Os cavaleiros ampararam-se de Ss
e obrigaram Nicphore a ganhar o mar. Em seguida, os muulmanos conquista-
ram, sucessivamente, Djalla (Cululis), Bizerte e a ilha de Djerba. Em 46/666,
eles chegariam inclusive ao ponto de arriscar uma primeira incurso sobre as
costas da Siclia.
    Em 50/670, o califa Mu'wiya dispensava Ibn Hudaydj e nomeava `Ukba
ibn Nfi' como comandante-em-chefe das foras rabes na frica do Norte.
278                                                                               frica do sculo VII ao XI



Esta nomeao conferiria  conquista uma decisiva reviravolta. Partindo de
Waddn, Ukba comeou uma longa expedio, passando pelo Fezzn e pelo
Sul do Kawr. Ele tomou o cuidado, por toda parte, de garantir a autoridade
do Isl. Construiu mesquitas, estabeleceu guarnies e deixou missionrios, em
seguida retornou rumo ao Norte, at Ghadmes, onde recebeu a companhia
de 10.000 cavaleiros a ele enviados por Mu'wiya, com o objetivo de ajud-lo
em sua nova misso. Ele comeou atacando as ltimas fortificaes bizantinas,
situadas entre Gabs (Kbs) e o lugar onde ele decidira criar uma base militar
e instalar o centro poltico (misr) da sua provncia. Rapidamente dedicou-se
 fundao de uma capital, por ele nomeada Kayrawn, cujo significado 
"campo" ou "arsenal".
    A cidade comeou a ser construda h relatos de que nesta ocasio Ukba
teria realizado numerosos milagres: o Cu ter-lhe-ia indicado direo precisa da
Kibla. Ele igualmente teria dado a ordem a todas as serpentes e outros animais
nocivos para que abandonassem os lugares  tendo sido obedecido. Trata-se aqui
de uma parte da lenda de Sd `Ukba, o primeiro santo muulmano da frica.
Juntamente com Kayrawn, uma das mais antigas e veneradas cidades do Isl,
nascia a primeira provncia muulmana da frica do Norte. Atribui-se a ela o
correlato rabe de frica, Ifrkiya.  poca, ela correspondia, aproximadamente,
 atual Tunsia.
    Tendo assim criado uma base inicial e dotado a provncia de uma capital,
`Ukba comeou a preparar a sua ao, porm ele teve a pssima surpresa de
saber da sua destituio (56/675). O seu sucessor, Dnr ibn Ab al-Muhdjir,
no exerccio das suas funes de 56/675 a 63/682, revelou-se como um dos
mais brilhantes espritos que estiveram  frente da conquista rabe no Magreb.
Aquando da sua chegada na frica, ele se deu conta que a situao havia ligei-
ramente evoludo em detrimento dos rabes, de tal modo que o imperador de
Bizncio, Constantino IV (Pogonat), sara vitorioso do primeiro grande ataque
rabe e do cerco de Constantinopla, empreendido sob o reino do primeiro califa
umayyade, Mu'wiya. Ele decidiu tirar proveito desta vitria para recuperar
parte das terras perdidas. Ele retomou Chipre e outras ilhas do Mar Egeu e
despachou emissrios para renovar os laos com o que restava dos bizantinos
em Cartago e em outras partes da antiga provncia. Consumada esta misso, os
enviados ganharam para a causa de Bizncio o mais poderoso berbere da poca,
Kusayla18, chefe dos awrba e da confederao de cabilas Sanhdja, dominante
em todo o Magreb central.


18    Ibn al-Athr, citando Muhammad ibn Ysuf al-Warrk como uma autoridade na matria, evoca a forma Kasla.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                          279



    Informado da situao em Ifrkiya, Ab al-Muhdjir, seguindo o costume
dos chefes rabes da poca, decidiu encontrar o quanto antes o inimigo. Com o
seu exrcito, ele dirigiu-se at os territrios dos awrba, na regio de Tlemcen.
Ali ele buscou restabelecer contatos antes de iniciar o combate. Ele viu Kusayla
e ganhou a sua confiana, explicou-lhe a doutrina do isl e assegurou-lhe que,
caso ele aceitasse aderir  doutrina exposta, ele prprio e todos do seu cl tornar-
-se-iam membros plenos da comunidade muulmana.
    O berbere deixou-se convencer. Com todos os seus, ele abraou o isl. Isso
aconteceu em 59/678, data memorvel na histria da islamizao do Magreb.
No ano seguinte, 60/679, Ab al-Muhdjir, assistido pelo seu potente aliado,
enviou um exrcito, sob as ordens do seu lugar-tenente Shark ibn Sumayy
al-Murad, para a conquista da pennsula atualmente conhecida pelo nome
Iklbiyya ou ainda Djazrat Shark. Transformando-se em mestre da pennsula,
Ab al-Muhdjir atacou Cartago e amparou-se de Mila, fortaleza estratgica
de Bizncio, ligeiramente ao Norte de Cirta (atual Constantina).
    Pouco aps este sucesso, Ab al-Muhdjir teve revogado o seu comando e
`Ukba foi novamente nomeado governador de Ifrkiya, alm de comandante-
-em-chefe do exrcito rabe do Oeste, consequentemente  morte de Mu'wiya
e  ascenso do seu filho Yazd, em 61/680. A segunda nomeao de `Ukba ibn
Nfi' para a direo do exrcito rabe de conquista do Oeste representa, sem
dvida, o mais importante evento da conquista da frica do Norte pelos ra-
bes. Ele restaura a cidade de Kayrawn, restabelece as condies da mesquita e
declara que no tardaria a abrir ao Isl o conjunto do Magreb. Deixando uma
guarnio de 6.000 homens na capital, ele marcha com 15.000 cavaleiros, aos
quais se acrescentam alguns milhares de berberes de Kusayla.
    Porm, em lugar de escolher as facilidades oferecidas pela plancie costeira,
ele se aventura no Aurs e  levado a atacar as cabilas berberes no corao do seu
territrio. Ele se lana primeiramente sobre Bghya, antigo centro do xiismo dos
donatistas, sob os bizantinos. Havia ainda na regio muitos destes cristos xiism-
ticos, protegidos em seu bastio montanhoso para escaparem dos bizantinos. Com
a aproximao de `Ukba, eles se uniram aos berberes vizinhos para tentarem conter
as suas tropas, porm so derrotados e os sobreviventes refugiam-se na montanha
onde `Ukba os deixa, temendo perder tempo. Milhares de berberes e cristos (os
textos rabes falam de rm) recuam rapidamente para o Oeste. Deixando atrs
de si Bghya, `Ukba toma Masla de assalto, passa s bordas do Aurs e desem-
boca diante de Tiret (Thert). Ali ele tem a surpresa de encontrar em face de
si milhares de berberes (luwta, hawwra, zuwagha, matmta, zanta e miknsa),
280                                                                               frica do sculo VII ao XI




Figura 9.2 Parte das fortificaes bizantinas da cidade de Tebessa: o arco de Caracella, originalmente no
centro da cidade romana, tornou-se sob os bizantinos a portal norte de uma cidade menor, cercada de muralhas
e, finalmente, conquistada pelos rabes. [Fonte:  M. Brett.]




aguardando a sua chegada com um importante contingente de rm. Ele avana
sobre eles e os dispersa ao longo de uma violenta batalha.
   Esta vitria confere a `Ukba a fama de invencvel combatente. Impressionados
com a sua personalidade e as suas vitrias, milhares de berberes juntam-se ao Isl
e engajam-se em massa nas fileiras do seu exrcito. Ele deixa a regio de Tiret e
invade o territrio de Tlemcen, pas dos awrba e de Kusayla. Ab al-Muhdjir
desaconselha `Ukba de atac-los, em virtude de j serem muulmanos e porque
o seu chefe em questo  seu amigo e aliado. Ele desdenha das sbias opinies
deste sincero homem e lana-se com os seus numerosos combatentes em direo
ao corao do pas awrba. Kusayla entra em clera, entretanto, domina a sua
fria, embora decida alcanar a revanche em momento oportuno.
   Ukba ento atravessa a Mulya, ultrapassa a passagem estratgica de Taza e
marcha sobre Tingis (Tandja, Tanger), cujo governador, Juliano ( Julian)19, entra


19    Atualmente, est estabelecido que Juliano no seja um nome pessoal, porm um ttulo, comes Julianus,
      em outros termos, conde de Julia Traducta (antigo nome de Tarifa). Ele era sem dvida visgoto. Razo
      pela qual se encontra outro Juliano nos tempos da conquista da Espanha. Conferir J. VALLV, 1967.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                         281



em contato consigo, aconselhando-o a seguir para o Sul e conquistar os territ-
rios berberes. Ukba precipita-se sobre os basties montanheses dos masmida,
prncipes dos cumes, os quais fogem, aterrorizados, recuando at Wd Dar'a,
onde ele os persegue e infringe-lhes uma derrota acachapante. Rumando para
o Nordeste, ele atravessa a regio de Tafillet, em seguida deriva para o Oeste,
em direo de Aghmt-Urka, onde construiria uma mesquita. Ele construiu
outra em Naffs, vilarejo situado s margens de um pequeno curso d'gua do
mesmo nome.
   Deste ponto, Ukba marcha em direo ao sudoeste e atinge a costa atlntica
em Sf (ao Norte de Mogador), nas proximidades do vilarejo de Ighiran-Yattf
(Cabo Guir). Nesta regio, segundo a lenda, ele entra n'gua a cavalo e diz que
combatendo por Deus, assim ele atingiria o fim do mundo. Se ele no prosseguiu
mais alm, foi porque no existe mais terra onde ele possa colocar o giro do Isl.
   A viagem de retorno seria trgica. Os homens esto cansados. Aps uma
expedio to longa, eles tm pressa de rever as suas famlias. queles que
anseiam, `Ukba permite partirem antecipadamente. Finalmente, no lhe restam
mais que 5.000 homens. Era o momento esperado por Kusayla para exercer a sua
vingana. Quando eles passam pela regio de Temclen, a sua ptria, ele abandona
o campo de Ukba e se apressa at o centro do Atlas, estabelece contato com
os cristos ali refugiados e convm com eles esperarem `Ukba em uma plancie
perto de Tahdha, ao Sul de Biskra. `Ukba encontra-se cercado por cerca de
50.000 homens. Demonstrando uma bravura digna da sua reputao, descendo
da montaria com Ab al-Muhdjir e o restante dos seus companheiros, ele
avana sobre o inimigo e encontra a morte dos bravos. Quase todos os seus so
mortos (dh l-Hidjdja 63/agosto de 683).
   A trgica notcia alarma todo o Magreb. Em Kayrawn, os muulmanos so
tomados pelo pnico, a guarnio parte imediatamente a rota do Leste. Kusayla
marcha sobre Kayrawn e a domina. Ele no abjura o isl, mas proclama-se
governador, tratando com benevolncia os rabes da cidade. Deste modo, a
aventura de `Ukba termina em catstrofe, porm a Ifrkiya no estaria perdida
para o Isl. Pela primeira vez na histria, ela seria governada por um berbere de
pura estirpe: Kusayla, prncipe dos awrba.
   A campanha de `Ukba no equivaleria a uma aventura sem porvir. A despeito
do seu trgico final, tratou-se da mais importante e decisiva expedio que os
muulmanos realizaram no Magreb. Os berberes temeram este homem, entre-
tanto, a sua morte valorosa dele fez um santo, um mrtir (mudjhid). O seu tmulo
em Sd `Ukba tornou-se o mais venerado santurio de toda a frica do Norte.
282                                                          frica do sculo VII ao XI



      Os primrdios da resistncia berbere
    A campanha de `Ukba teve outro efeito de grande amplitude: os berberes
deram-se conta que o ataque rabe fora dirigido contra eles e no somente
contra os bizantinos. Tornou-se claro que o objetivo dos rabes era incluir, em
seu imprio e na sua comunidade, os berberes e o seu territrio. Embora as
massas berberes no tenham feito objees ao abraarem o isl, os seus chefes
no estavam dispostos a se deixarem incorporar a um imprio de uma potncia
estrangeira. A vitria de Kusayla representou a primeira manifestao deste
esprito: ele estava feliz por ser o amigo e o aliado do governador rabe Ab
al-Muhdjir, porm ele se recusava a sujeitar-se a um longnquo califa. Por
outra parte, os umayyades no podiam aceitar ceder a um chefe local, fosse ele
muulmano, a soberania sobre a nova provncia. Mas o califa `Abd al-Malik ibn
Marwn (66/685-86/705) era ento incapaz de enviar reforos para a frica.
Contudo, jamais lhe tocaria a ideia de negociar com Kusayla.
    Foi somente em 69/688 que um novo exrcito comandado por Zuhayr ibn
Kays retomou a conquista da provncia perdida. Kusayla, que constitura um reino
berbere compreendendo o Aurs, o Sul constantinopolitano e a maior parte da
Ifrkiya (68/687-71/690), no mais se sentiu em segurana em Kayrawn, ao saber
da aproximao do novo exrcito rabe. Ele decidiu atacar o inimigo em Mamma,
pequena localidade entre Kayrawn e Lribus, na qual os habitantes eram hawwra.
    A batalha de Mamma foi decisiva. Muito  vontade na arte da guerra, os ra-
bes foram capazes de vencer Kusayla e mat-lo (71/690). Os berberes sofreram
pesadas baixas. Os rabes perseguiram os fugitivos muito longe no Magreb, por
vezes at a Mulya. Os awrba, um dos mais poderosos cls berberes de ento,
foram totalmente vencidos. Abandonando as proximidades de Tlemcen, eles se
estabeleceram ao Norte de Seb, nas cercanias de Wull (Volubilis). Numerosas
fortalezas caram nas mos de Zuhayr, entre outras Sicca Vaneria (Shikkahriya,
atualmente al-Kf ).
    Aps a sua vitria, Zuhayr no permaneceria em Ifrkiya. Ele ficaria um
ano no pas, em seguida anunciando a sua partida. Assim sendo, quando ele se
encaminhava para o Egito, um regimento do exrcito bizantino, tirando pro-
veito da guerra dos rabes contra Kusayla, amparou-se de Barka. Quando soube
desta situao, Zuhayr j estava prximo. Ele marchava com a vanguarda do seu
exrcito, seguido da maior parte da tropa, porm ele encontrou a morte em um
confronto com os bizantinos.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                         283



    A notcia desta vitria bizantina inquietou o califa `Abd al-Malik; no entanto,
foi-lhe imperioso aguardar quatro anos antes de estar em condies de enviar
os contingentes necessrios para Ifrkiya, pois ele tinha outros problemas em
demasia a resolver com urgncia. O califa escolheu Hassn ibn al-Nu'mn como
novo governador, quem levantou um importante exrcito, afetando a totalidade
dos rendimentos do Egito para a manuteno da expedio. Ele pretendia con-
cluir a conquista do Magreb.
    Hassn visava, primeiramente, aos bizantinos: ele pretendia impedir a sua
aliana com os berberes. Chegando a Kayrawn, ele marchou sobre Cartago e
destruiu o porto, de tal modo que nenhuma embarcao bizantina jamais pode-
ria ali aportar. Posteriormente, enviou colunas em todas as direes, encarregadas
de expulsar os ltimos rm. A maior parte dentre eles buscou refgio nas ilhas
do Mediterrneo. Violentos combates ocorreram na regio de Istafra (Satfra),
a pennsula onde estavam localizadas Hippo Diarhytus (Bizerte), Hippo Regius
(Bne, `Annba) e TaBarka. Todas as fortalezas e colnias bizantinas, todas
caram em mos rabes.
    Assim consumado este estado de coisas, Hassn estimava ter concludo as
tarefas militares e consagrou-se  organizao do territrio. Todavia, apenas
recm-retornado a Kayrawn, chegava ao seu conhecimento uma notcia to
alarmante quanto inesperada. Uma mulher berbere, apelidada alKhina pelos
rabes, a profetiza (com este nome ela entrou para a histria), chefe da cabilda
dos djarwa do Aurs, lograra reunir todos os zanta da regio e declarava que
expulsaria os rabes fora dos limites da Ifrkiya. Al-Khina era, indiscutivel-
mente, uma mulher impressionante. Uma espcie de rainha, metade-feiticeira,
de cor de pele escura, cabelos abundantes, olhos imensos, os quais, segundo
os antigos autores, tendiam para o vermelho, ao passo que os seus cabelos se
armavam sobre a sua cabea, quando ela estava em clera ou levada pelos seus
demnios, tratava-se de um personagem verdadeiramente lendrio20.
    Na qualidade de chefe de uma importante cabilda zanta, ela estivera muito
inquieta com a vitria imprevista de Kusayla, chefe Sanhdja, o qual exercera o
seu domnio sobre uma regio vizinha. Quando os rabes, este recm-chegados,
derrotaram os Sanhdja e ameaaram dominar todo o Magreb, os seus receios
aumentaram, determinando-lhe desafiar os rabes.
    A notcia constituiu uma surpresa para Hassn. Ele dedicou-se imedia-
tamente ao assalto deste novo inimigo. Al-Khina esperava ver os rabes se


20   Consultar M. TALBI, 1971.
284                                                             frica do sculo VII ao XI



ampararem de Bghya, possvel base para atac-la no Aurs. Ela ocupou-a
sem tardar, fechando-lhes assim a rota rumo ao interior. Hassn avanou at
Miskina, pequena localidade sobre o riacho de mesmo nome, no distante
do campo da rainha feiticeira. Em 77/696, ele passou ao ataque. Os djarwa
jogaram-se sobre os rabes com tamanha impetuosidade que estes ltimos foram
obrigados a recuar, deixando no campo de batalha centenas de mortos e cerca
de oitenta prisioneiros. Os feridos foram to numerosos que o mais antigo dos
nossos cronistas, Ibn `Abd al-Hakam, nomeou Wd Miskin "o wd da cala-
midade". Hassn bateu em retirada para Barka. Al-Khina contentou-se com a
sua vitria e, em lugar de marchar sobre Kayrawn, retornou s suas montanhas.
    Acreditando que somente o butim interessava aos rabes, ela inaugurou a
estratgia da "terra arrasada", deixando destrudas todas as plantaes e os vilare-
jos entre o Aurs e a Ifrkiya. Esta poltica levantou contra ela os sedentrios, os
quais no tardariam a enviar emissrios junto a Hassn para que ele se apressasse
a socorr-los. A situao agravar-se-ia no ano seguinte, em 78/697, quando o
imperador de Bizncio, Lon (695/698), enviou uma frota que saqueou Cartago
e ali massacrou numerosos muulmanos.
    Somente em 80/699, chegariam reforos a Hassn. Cansado desta intermi-
nvel luta pela frica, o califa `Abd al-Malik decidira realizar um golpe decisivo.
O exrcito com o qual Hassn marchou contra Al-Khina foi o mais conside-
rvel jamais visto na regio, estando a tropa rabe fortalecida por milhares de
berberes, em sua maioria, butr.
    A derradeira batalha entre Hassn e Al-Khina teve lugar em 82/701. A rainha
encontraria a morte e os seus partidrios a derrota. Imediatamente, os berberes do
Aurs demandaram a anistia. Eles a obtiveram mediante a condio de fornecerem
combatentes para os exrcitos rabes. Um total de 12.000 homens foi ento enviado
a Hassn, quem os subordinou ao comando dos dois filhos da rainha vencida. Todos
estes combatentes, inclusive os dois jovens prncipes, aderiram ao Isl.
    Hassn teve, por assim dizer, o sentimento que a resistncia berbere fora que-
brada. Ele retornou a Kayrawn e dedicou-se a impedir qualquer nova tentativa
de retorno por parte dos bizantinos. Com este propsito, ele ordenou a completa
destruio de Cartago. Em 83/702, isso estava consumado. A vida desta cidade,
gloriosa em sua histria, estava finda.
    Contudo, a Ifrkiya no podia prescindir de um importante porto. Deste
modo, Hassn escolheu a localizao de um velho porto fencio, Tarses (Tarshsh),
situado a sudoeste de Cartago, na margem de uma baa pouco profunda. Ele
ordenou a construo de um novo porto e o califa enviou-lhe do Egito 1.000
coptas especializados nesta arte, para ajud-lo a realizar os projetos. Um canal
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                       285



foi perfurado e construiu-se um canteiro naval ou "arsenal" (dr alsin'a) para
as embarcaes. Assim nasceu o porto de Tnis. Inaugurado no mesmo ano
(83/702). Trinta anos mais tarde, o governador de todo o Magreb rabe, `Ubayd
Allh ibn al-Habhb (116/734-123/741) transform-lo-ia em uma verdadeira
grande cidade. Sob as suas ordens, o arsenal foi aumentado, novas docas cons-
trudas e a populao foi incentivada a vir ali habitar. Ele tornou Tnis no
centro dos grandes campos destinados s tropas rabes estacionadas na regio,
transformando a sua mesquita em mesquita catedral (masdjid djmi'). Trata-se
da famosa mesquita Zaytna, um dos mais importantes santurios de todo o
mundo islmico.
    Entrementes, Hassn comeara a estabelecer o sistema administrativo da
nova provncia da frica. Nela incluindo a regio da Tripolitnia (Tarbulus),
de Misrta, a Leste, de Twargha, no Oeste, a regio da Ifrkiya propriamente
dita, de Gabs a `Annba, assim como aquela do Mzb, de `Annba at o curso
superior do Chlif (ao Sul de Argel). Justamente este conjunto seria, doravante,
considerado como a provncia da frica. A Oeste de Chlif estendiam-se o
Magreb Central e, em seguida, o Magreb Ocidental, os quais, teoricamente,
faziam parte do Imprio Islmico, porm no mais se ouviria dele falar aps a
morte de `Ukba. Ali j existiam comunidades muulmanas, mas, a real anexao
dos dois Magreb ao califado seria obra de Ms ibn Nusayr e dos seus filhos.
    At ento, Hassn organizava a sua provncia de Ifrkiya segundo o modelo
de sistema administrativo aplicado no conjunto do Imprio Islmico, respei-
tando invariavelmente as anteriores divises administrativas.  frente de uma
provncia, os muulmanos nomeavam um governador (`mil), que designava
ele prprio um vice-governador (wl), para cada circunscrio. Em geral, os
impostos representavam cerca de 10% dos rendimentos individuais. Em Ifrkiya,
onde praticamente no havia cristos nem judeus para pagar a capitao (djizya),
ns podemos imaginar que esta fonte de receitas, importante em qualquer outra
regio (por exemplo no Egito), era sem dvida quase inexistente.
    Finalmente, a Ifrkiya assemelhava-se  Arbia, ambas apresentando a mesma
organizao social baseada em cabilas. Na Arbia, o governador arrecadava junto
s cabilas um imposto equivalente a cerca de 2% da riqueza coletiva da cabilda,
em camelos e carneiros. Este imposto era a sadaka e o seu arrecadador o musa
ddik. Estes coletores de impostos eram despachados uma ou duas vezes por ano
s cabilas. Hassn aplicou o mesmo princpio s regies desrticas e montanho-
sas da sua provncia. Entretanto, como o governo devia prover a nomeao de
um juiz (cdi) para cada centro tnico, assim como o envio de missionrios ou
professores, para instruir a populao sobre os princpios do isl e presidir as
286                                                                            frica do sculo VII ao XI



oraes, na realidade, ele no retirava das cabilas quase nenhuma renda, os seus
diversos funcionrios eram pagos graas  sadaka.
    De qualquer modo, Hassn dotou a provncia da frica de uma infraes-
trutura administrativa muito slida. No causa espcie que esta provncia, haja
vista a extenso geogrfica que ns indicamos, se tenha tornado a pedra angular
de toda a estrutura rabe na frica do Norte. Graas  sua mesquita, inteira-
mente reformada sob os cuidados de Hassn, Kayrawn tornava-se um dos mais
importantes centros da cultura e da cincia islmicas.
    Malgrado a ausncia de autoridade rabe sobre os dois Magreb, o isl pro-
gredia regularmente e por toda parte, graas aos pregadores, numerosos at a
regio de Ss, no extremo sul do Marrocos. Documentos dignos de crdito
asseguram-nos que,  poca, os berberes construam mesquitas por toda parte,
dotando estas mesquitas catedrais de plpitos (manbir) para as oraes pblicas.
Aqueles que no houvessem exatamente orientado a Kibla da sua mesquita, para
a Meca, corrigiam os erros cometidos21. Diz-se que o plpito da mesquita de
Aghmt Hlna (ao Sul de Marrakech) fora utilizado desde 85/704.


      A conquista do Magreb Ocidental
   Hassn ibn al-Nu'mn no exerceu as suas funes durante tempo suficiente
para concluir a sua obra. Em 85/704, ele seria substitudo por Ms ibn Nusayr,
sexagenrio extravagante, de espantosa ambio, protegido do governador do
Egito, Abd al-`Azz ibn Marwn. Ele veio a Ifrkiya, transbordando de energia,
apesar da sua idade, manifestando uma incrvel sede por aventuras, conquistas e
glria. Recm-chegara a Kayrawn quando de imediato reiniciou as suas cam-
panhas. Ele pretendia submeter os dois Magreb (central e ocidental) e contava
deles extrair um fabuloso butim. Infelizmente para si, l no encontraria nenhum
tesouro, jorrando, como no Iraque ou no Ir durante as conquistas, em ouro e
pedras preciosas. Somente deparar-se-ia com homens, as suas famlias e rebanhos.
   Como objetivo da sua primeira campanha, Ms escolheu um djabal ao Sul de
TaBarka, Djabal Zaghwn (Zengitanus). Era o territrio de algumas ramificaes
de hawwra e djrwa ainda no submetidas. Ele as atacou selvagemmente, fazendo
numerosos prisioneiros. O golpe conferido aterrorizou os berberes de ponta a


21    E. LEVIPROVENAL, 1954a, p. 22, a Kibla  a orientao em direo  qual devem voltar-se os
      muulmanos quando rezam na direo da Ka'a. Trata-se igualmente, em uma mesquita, do espao reco-
      lhido, o lugar da orao, orientado para a Ka'a da Meca.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                         287



ponta no Atlas Central. Eles comearam a fugir em direo ao Magreb Ocidental.
Ms perseguiu-os. Aps ter conquistado alguns vilarejos e cabilas do Rf, onde as
filhas de Kusayla se haviam refugiado. Ms ocupou Tanger (Tandja) e concedeu
a sua proteo a Ceuta (Sabta) e ao seu governador, Julian. Dali, Ms enviou
os seus quatro filhos e alguns outros dentre os seus oficiais,  frente das colunas
mveis para rentear o Magreb Ocidental em todas as direes. Eles chegaram
junto s orgulhosas cabilas masmda em Wd Dar'a e as venceram.
    A maioria dos berberes do Magreb Ocidental submeteu-se e abraou o isl.
Ms criou trs novas provncias: o Magreb central, com Tlemcen (Tilimsn)
como capital; o Magreb extremo-ocidental (al-Maghrib al-Aks), com Tanger
(Tandja) como capital: e al-Ss al-Aks.
    Para cada provncia, ele designou um governador residente em cada capital,
acompanhado de uma forte guarnio. Estas guarnies no eram somente com-
postas de rabes, igualmente havia berberes. Com vistas a garantir a obedincia
das populaes submetidas, ele tomou como refm (rah'in) grande nmero de
combatentes incorporados ao exrcito muulmano. Em Tanger, Ms nomeou
como governador o seu filho Marwn, munindo-o de 17.000 combatentes mas-
muditas. Ele o substituiria posteriormente por TriK ibn Ziyd.
    Deste modo, Ms concluiu a conquista da totalidade do Magreb. Tratava-
-se de um feito formidvel, mas, ele empregara mtodos cruis, os quais custa-
riam caro aos muulmanos. Em 91/710, Ms partiu para Kayrawn. No ano
seguinte, ele foi chamado para se ver confiar  tarefa suprema da sua existncia:
a conquista da pennsula ibrica (al-Andalus).


    A conquista da pennsula ibrica (alAndalus)
    Nenhum estudo sobre a conquista da frica do Norte pelos muulmanos
pode passar em silncio sobre o papel, de primeira ordem, desempenhado pelos
berberes aquando da conquista da pennsula ibrica, acerca da sua contribuio
para a histria da Espanha muulmana, assim como no tocante  hegemonia
muulmana no mediterrneo.
    O monumental edifcio representado pela histria e pela civilizao da Espa-
nha muulmana  obra comum dos rabes e dos berberes. O primeiro chefe mili-
tar muulmano que se engajou em uma operao de reconhecimento no Sul da
pennsula para explorar as possibilidades de conquista (91/710) foi Tarf, filho de
Zar'a ibn Ab Mudrik. Tarf pertencia  jovem gerao de berberes islamizados,
formados na escola militarista de Hassn ibn al-Nu'mn e de Ms ibn Nusayr.
288                                                                               frica do sculo VII ao XI



Ele conduziu vitoriosamente esta expedio e deu o seu nome a um pequeno
porto do Sul da Espanha, Tarifa. General muulmano que, em primeiro lugar,
decidiu pela conquista da Espanha, Trik ibn Ziyd ibn `Abd Allh ibn Walgh,
era tambm berbere. O seu av `Abd Allh pertencia  cabilda dos warfadjma,
ramo dos nafza. Convertido ao isl por `Ukba, ele servira sob as suas ordens.
    Ns j dissemos que Ms nomeara Trik ibn Ziyd como governador da
provncia de Tandja ou al-Maghrib al-Aks (O Magreb extremo-ocidental), o
que representava a parte setentrional do reino do atual Marrocos. Ele tinha sob
as suas ordens um exrcito de 17.000 homens, em sua maioria Sanhdja.
    Com este corpo expedicionrio e algumas tropas rabes, Trik atravessou o
estreito e desembarcou nas proximidades do promontrio rochoso que, dora-
vante, levaria o seu nome: Djabal Trik ("a montanha de Trik" ou, como pronun-
ciamos atualmente, Gibraltar). Em shawwl 92/agosto de 711, ele conquistou
a sua famosa vitria sobre o exrcito visgota, na batalha onde pereceu Roderic
(em espanhol Rodrigo, em rabe Rdrk), o ltimo rei visgota22. Sem tardar,
o general lanou-se sobre Toledo (Tulaytula), acompanhado da sua incansvel
cavalaria berbere. Aps ter conquistado a duras penas mais de 500 quilmetros,
explorando assim profundamente o seu sucesso inicial. Um ms mais tarde,
em dh l-Hidjdja 92/setembro de 711, Trik, o primeiro dos grandes generais
berberes, j impusera um fim ao reino dos visgotas na pennsula, inaugurando
assim a era da Espanha muulmana.
    Ms ibn Nusayr no tardou a se juntar a Trik e terminou a sua obra
com um exrcito de 18.000, em sua maioria rabes. Os dois conquistadores
encontram-se em Talavera. A Trik e aos seus berberes  atribuda a tarefa
de conquistarem o Noroeste da Espanha. Eles se dedicam  empreitada e, em
93/712, j teriam em trs meses varrido o territrio compreendido do Norte
do brio aos Pirineus, alm de anexarem o inacessvel pas basco. Eles deixam
um pequeno destacamento sob as ordens de Munsa, um dos lugares-tenentes
berberes, quem desempenharia um papel decisivo nas campanhas muulmanas
no Sul da Frana. Antes do final do seu comando na Espanha, Trik conquista
com os seus berberes toda a regio posteriormente denominada Velha Castilha,
ocupa Amaya e, finalmente, Lon.




22    O stio da batalha no est definitivamente definido. Geralmente, indica-se ou as margens do Guadalete
      ou a Laguna de la Janda, ou Jerz de la Frontera, como os mais provveis campos de batalha. Porm, I.
      Olage (1974, captulo 2) demonstrou que a batalha teria acontecido nas proximidades do rio Guadar-
      ranque, no distante de Gibraltar.
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                        289



   Os ecos dos brilhantes sucessos obtidos na Espanha levaram os berberes
a rumarem, aos milhares, para a pennsula ibrica. Tamanha era a sua pressa
que alguns atravessaram o estreito sobre troncos de rvores. To logo chega-
dos, eles tomaram parte na conquista do restante da pennsula, bem como na
campanha muulmana no Sul da Frana. A batalha de Poitiers, liquidando o
sucesso dos muulmanos na Glia, teve lugar no outono de 114/732. Milhares
de berberes ainda permaneceriam no Sul do pas durante cerca de quarenta
anos23. Muitos outros berberes estabeleceram-se na Espanha (al-Andalus, a
Espanha muulmana), casaram-se com rabes ou romano-ibricos, tornando-
-se andaluzes muulmanos. A pennsula estava semeada de colnias berberes. A
sua prognie pertencia  classe dos muwalladn (andaluz por parte de pai rabe
ou berbere e de me ibrica), componentes de 70% da populao da Espanha
muulmana. Oriundos de todas as categorias sociais, estes andaluzes de origem
berbere deixaram-nos uma lista interminvel de clebres personagens: generais,
ministros, telogos, inventores, poetas e artistas.


     Os Berberes aps a conquista rabe
    Assim que se conclui a longa conquista da frica do Norte pelos rabes
(642-711), surge um pas completamente novo, cuja populao atravessa um
perodo de transformaes em suas estruturas sociais (e, inclusive, tnicas), no
seu modo de vida, em seus modos de pensar e mesmo na sua concepo de
mundo. As suas relaes polticas, espirituais e culturais com o mundo cristo
so interrompidas por aproximadamente dois sculos. Das margens do Atln-
tico  Cirenaica, esta populao dirige seus olhares para o mundo do Oriente
muulmano e rabe. Lenta e juntamente com a sua islamizao e arabizao,
ela adquire o sentimento de pertencer a este mundo; este ltimo to forte e
profundo que alguns dos mais importantes destes grupos comeam a atribuir-se
longnquas ascendncias rabes pr-islmicas. Posteriormente, os genealogistas
profissionais elaborariam, neste sentido, rvores genealgicas que todos os ber-
beres aceitariam como igualmente indiscutveis.
     surpreendente constatar a irresistvel atrao que exerceu o isl junto aos
berberes. Ao longo da conquista, eles abraaram em massa este confisso, mas,
inicialmente, a sua converso em nada era puramente formal. Eles aderiram ao
isl porque a sua doutrina clara e simples os seduzia. Durante todo o perodo da

23   Consultar J. REINAUD, 1836; J. LACAM, 1965; G. DE REY, 1972.
290                                                          frica do sculo VII ao XI



conquista, os imigrantes rabes estabeleceram-se no conjunto do territrio da
frica do Norte. Eles se instalavam como pacficos recm-chegados e, invariavel-
mente, se lhes ofereciam boa acolhida. Importantes grupos rabes fixaram-se em
numerosos setores da Cirenaica e da provncia de Ifrkiya. Eles ali permaneceriam
por muito tempo, sobretudo nas duas divises provinciais de Ifrkiya e do Mzb.
Uma frao considervel destes colonos pertencia  grande confederao rabe
de Tamm. Estes grupos rabes caram em decadncia durante o perodo aglbida
(184-296/800-909) e foram lentamente absorvidos pela populao local.
   Por outra parte, pequenos grupos de rabes, por vezes inclusive famlias ou
indivduos, instalaram-se no seio de cabilas berberes, nas quais eram consi-
derados professores. Eles exerciam as funes de imame, de chefes religiosos.
Muito amide, este papel espiritual dirigente tornava-se igualmente poltico: o
imame rabe era o chefe poltico da cabilda. Esta evoluo implica que o colono
rabe se tenha transformado em rabe-berberizado. Um exemplo caracterstico
 aquele de Ban Slk ibn Mansr al-Yaman, fixado na regio de Nakr (nas
proximidades do atual Alhucemas, no Norte do Marrocos), territrio com o qual
o califa `Abd al-Malik lhe presenteara em 91/710. Esta famlia rabe misturou-
-se  populao e as cabilas berberes finalmente consideraram os seus membros
como emires. Igualmente, os Ban Sulaymn ibn `Abd Allh ibn al-Hasan,
famlia de descendentes do Profeta, estabeleceram-se na regio de Tlemcen,
onde criaram, com a colaborao dos berberes locais, certo nmero de emirados
rabe-berberes, enquanto os seus primos, os Idrsidas de Fez, dedicavam-se ati-
vamente, a partir de 172/788, a conclurem a islamizao do Magreb Ocidental.
   Era muito frequente que estes colonos fossem adeptos das diferentes seitas
muulmanas dissidentes dos kharidjitas (Khawridj), os quais condenavam o
regime dos umayyades e pregavam doutrinas igualitrias, cujo eco favorvel
rapidamente expandia-se junto aos berberes.
   As grandes conquistas que permitiram aos rabes espalharem-se alm da sua
pennsula foram realizadas sob a bandeira e em nome da nova religio, o isl.
Naquele tempo, ser rabe significava ser muulmano, e vice versa. Esta tendncia
para a identificao tnica e religiosa, em lugar de desaparecer com a converso
de povos nos pases conquistados, manteve-se e inclusive aprofundou-se com
o advento da dinastia umayyade. O Imprio Umayyade era, efetivamente, um
reino rabe, com a aristocracia dos kurayshitas de Meca  sua frente, antigos
adversrios do Profeta e ltimos convertidos. Esta aristocracia dirigiu o Estado
muulmano sobretudo em seu proveito, desconsiderando princpios democrti-
cos prprios  doutrina islmica. Os recm-convertidos no-rabes continuavam
a ser tratados como cidados de segunda categoria, sem os mesmos direitos 
A conquista da frica do Norte e a resistncia berbere                        291



especialmente na esfera fiscal  que os rabes. Para conservarem os seus privil-
gios de classe e as suas rendas, os califas umayyades  salvo o piedoso `Umar ibn
`Abd al-`Azz (99/717-101/720)  jamais se demonstraram dispostos a conceder
aos recm-convertidos os seus direitos, como membros da comunidade islmica
(umma), e tampouco a consider-los como iguais visvis dos rabes. Foi esta
poltica que provocou a profunda crise do regime umayyade e conduziu  queda
da dinastia, em meados do sculo II/VIII. Como  frequente na histria, ten-
ses de ordem social e tnica encontraram a sua expresso em movimentos de
dissidncia religiosa. No caso dos berberes, todas as condies estavam reunidas.
Os ltimos governos umayyades introduziram uma dura poltica que no tarda-
ria a provocar reaes hostis: os berberes eram considerados um povo vencido
passvel de ser governado pela fora, embora quase todos se houvessem tornado
muulmanos, houvessem combatido pelo isl e, por conseguinte, se conside-
rassem como cidados plenos do Imprio Islmico, em p de igualdade com
os rabes. Os berberes reclamavam terem sido mal recompensados pelos seus
servios (situao inegvel na Espanha, onde se lhes haviam dado como feudos
regies menos frteis). Consequentemente, no Magreb, eles se desligaram da
ortodoxia sunita, representante da poltica oficial dos umayyades, e voltaram-se
para as doutrinas kharidjitas24. Os kharidjitas lograram estabelecer comunidades
da sua seita em todas as regies e pores montanhosas como o Djabal Nafsa,
ao Sul de Trpoli. Estes focos de dissenso foram criados tanto pelos berberes
quanto pelos rabes. Ambos atacavam a administrao umayyade. Em 123/741,
o levante generalizado contra os umayyades, iniciado no Magreb Ocidental sob
a administrao do governador `Ubayd Allh ibn al-Habhb, no representou,
como em geral foi dito, uma sublevao dos berberes contra os rabes desti-
nada a expulsar estes ltimos do Magreb, mas, antes, tratou-se de uma revolta
muulmana contra a administrao umayyade. Os detalhes deste levante sero
o objeto de outros captulos deste volume.




24   Consultar, acima, o captulo 3 e, mais adiante, o captulo 10.
A independncia do Magreb                                           293



                            CAPTULO 10


                A independncia do Magreb
                             Mohamed Talbi




    Revolta e independncia do Magreb
    O Magreb umayyade
    Poitiers (114/732) marcou o esgotamento do movimento centrpeto que
concentrara irresistivelmente em torno de Damasco, a Leste a Oeste, provn-
cias de mais em mais numerosas. Oito anos mais tarde, em122/740, comeou
o movimento inverso, a reao centrfuga que geraria vrios Estados indepen-
dentes. De 78/697 a 122/740, oito governadores se haviam sucedido  frente
de Kayrawn, capital regional da qual dependia todo o Ocidente muulmano,
de Lebda, a Leste de Trpoli, at Narbonne, alm dos Pirineus. A adminis-
trao direta desta vasta regio por Damasco, via Kayrawn, no durou por
assim dizer seno pouco mais de quatro dcadas. Comparado  durao da
dominao romana, vndala ou bizantina, este lapso de tempo aparenta ser
irrisrio. Porm, os resultados foram diferentemente mais importantes e mais
duradouros. Por qu? Certamente porque os autctones, conquanto rejeitas-
sem o domnio exterior, manifestaram a sua sincera adeso aos valores intro-
duzidos pelo Isl. A adeso a estes ltimos foi de tal modo profunda, como
veremos, que constituiu uma contribuio decisiva, catalisando e estimulando
as energias para o combate.
294                                                                            frica do sculo VII ao XI



      O aumento da clera
    Para compreender o doloroso nascimento do novo Magreb, um Magreb
independente produto da conquista,  necessrio nitidamente distinguir o fato
cornico e a sua traduo histrica. Traduzir, trata-se sempre mais ou menos
de uma traio. Isso equivale a dizer que o ideal de fraternidade que deveria
impregnar as relaes dos muulmanos entre si, sem distino de raa, de cor
ou de origem, foi muito mal reproduzido nos fatos. Nenhum racismo de dou-
trina ou princpio, indubitavelmente. Tampouco, nenhuma segregao de fato.
Trata-se de um fato consumado. Entretanto, os rabes estavam, muito amide,
inclinados a no identificar nos berberes seno a "a lepra da terra"1, fazendo
circular por conta destes ltimos Hadth2 humilhantes, Hadth tanto mais noci-
vos e revoltantes quanto indubitavelmente apcrifos. Em prol da justia e para
no falsear as perspectivas,  igualmente necessrio acrescentar que alguns ra-
bes, os mais generosos, tentavam enobrec-los imaginando-lhes uma longnqua
ascendncia rabe3, sobretudo iemenita. Tratava-se, de certo modo, pelo vis da
fico genealgica, o qual ento possua um peso frequentemente decisivo, de
recuper-los e integr-los, transformando-os em irmos4. Este estado de coisas,
em si, j traduz as hesitaes e ambiguidades do comportamento dos rabes
visvis dos berberes.
    Estas hesitaes reaparecem na esfera poltica. Hassn ibn al-Nu'mn,
reconciliando-se com a poltica de Ab al-Muhdjir Dnr, aliado e amigo de
Kusayla, incorporou os berberes em seu exrcito e interessou-os no tocante ao
fy' (diviso das terras). O seu sucessor, Ms ibn Nusayr (79/689-95/714),
embora se conciliando com vrias fraes berberes e acompanhado de fiis e
numerosos clientes, dentre os quais Trik, o famoso conquistador da Espanha,
retomou o estilo enrgico de `Ukba e rudemente conduziu a pacificao. O
califa Sulaymn b. `Abd al-Malik (96/715-99/717) substituiu-o por Muham-
mad b. Yazd, ao qual ele deu, particularmente, rigorosas ordens em favor da
justia fiscal. Esta tendncia foi ainda mais acentuada pelo muito piedoso
`Umar ibn `Abd al-Azz (99/717-101/720), a quem o governador, um mawl5
e tambm asceta, determinou a maior dedicao em expandir o isl e a lhe


1     Ibn KHALDN, 1867, vol. 6, p. 185.
2     Ibn KHALDN, 1867, vol. 6, pp. 177, 181-189; a propsito do Hadth, consultar acima o captulo 2.
3     YKT, 1866-1873, vol. 1, p. 369.
4     Ibn KHALDN, 1867, vol. 6, p. 187.
5     Mawl (plural mawli): muulmano no-rabe, ligado na qualidade de cliente a uma cabilda rabe.
A independncia do Magreb                                                              295



conferir a melhor imagem possvel. Infelizmente! O reino de `Umar foi dema-
siado breve. Na sua morte, um novo governador, Yazd b. Ab Muslim, formado
no Iraque na severa escola de al-Hadjdjdj, foi despachado para Kayrawn.
Para manter o volume dos impostos, volume comprometido pelas converses
macias, ele decretou, contrariamente  letra e ao esprito do Coro, que os
recm-convertidos ao isl continuariam a pagar a djizya (capitao)6, alm de
humilhar os seus guardas berberes, decidindo marc-los nas mos. Estes ltimos
assassinaram-no (102/720-721). Tratou-se do primeiro indcio do aumento da
clera: Ibn Khaldn nele identifica, a justo ttulo, a primeira manifestao do
esprito kharidjita no Magreb7.
    Desde ento, a situao somente se deterioraria. Como no podemos tudo
relatar, devemos nos limitar a reportar, in extenso, um texto que resume de modo
cativante as reivindicaes berberes. No  impossvel que este texto efetiva-
mente reproduza o contedo do memorando deixado, em desespero de causa,
a Hishm b. `Abd al-Malik (105/724-125/743) pela delegao conduzida por
Maysara que, aps a sua v e ltima tentativa, desencadearia uma revolta que
marca o incio da independncia do Magreb:
    Maysara partiu para o Oriente  frente de uma delegao de aproximadamente
    dez pessoas, pretendendo obter uma entrevista com Hishm. Eles solicitaram uma
    audincia e encontraram muitas dificuldades. Dirigiram -se ento a al-Abrash e
    pediram-lhe encarecidamente para levar ao conhecimento do Prncipe dos crdulos
    o seguinte: "O nosso emir parte em campanha conosco e as suas tropas rabes. Ao
    proceder ao butim, ele nos exclui da partilha e nos diz: `Eles a ele tm mais direito.'
    Ns pensamos: Assim seja! Nosso combate na via de Deus torna-se ainda mais puro,
    pois que nada recebemos por ele. Se temos direito, renunciamos a ele voluntaria-
    mente em seu proveito, e se no tivermos nenhum direito, de todo modo ns no
    o pretendemos." Eles acrescentaram: "Quando cercamos uma cidade, o nosso emir
    tambm nos disse: `Avanai!' E ele mantm as suas tropas na retaguarda. Ns dize-
    mos aos nossos: Assim seja, novamente! Avanai, a vossa parcela no combate na via
    de Deus aumentar e vs sereis daqueles que se sacrificam pelos seus irmos. Assim
    ns os preservamos ao preo das nossas vidas, sacrificando-nos em seu lugar.
    Em seguida foi a vez dos nossos rebanhos. Colocamo-nos a sacrificar as nossas
    ovelhas prenhas em busca das peles brancas dos fetos, destinadas ao Prncipe dos
    crdulos. Matvamos mil ovelhas para obter apenas uma pele. Ns pensamos: Como


6   Djizya: imposto de capitao pago pelos no-muulmanos (cristos, judeus...).
7   Ibn KHALDN, 1867, vol. 6, pp. 220-221.
296                                                                   frica do sculo VII ao XI



      tudo isso  simples para o Prncipe dos crdulos! Entretanto, ns suportamos tudo;
      ns permitimos que tudo ocorresse.
      Em seguida, a nossa humilhao foi levada at o ponto de nos arrancarem todas
      as nossas mais belas filhas. Ns levantamos ento a observao a indicar que nada
      justifica este procedimento no Livro de Deus ou na tradio. E, no entanto, somos
      muulmanos.
      Agora, ns desejamos saber: tudo isso, o Prncipe dos crdulos, teria ele pretendido,
      sim ou no8?



      Uma doutrina revolucionria: o kharidjismo
    Maysara, dito o Vil (alhakr), era um antigo mercador berbere d'gua, con-
vertido ao kharidjismo sufrita. O kharidjismo foi, sob os umayyades, a mais
temida fora revolucionria. Nascida da fitna9, grande crise que abalou a comu-
nidade muulmana posteriormente ao assassinato de `Uthmn (35/656), ele
produziu primeiramente uma teologia poltica. Esta teologia determina como
eixo comum a todas as formas de kharidjismo o princpio da eleio do imame,
chefe supremo da comunidade, sem distino de raa, de pas ou de colorao
de pele, devendo o poder ser entregue ao melhor, "mesmo que fosse um escravo
abissnio de nariz cortado10".
    Em ordem decrescente de extremismo revolucionrio, distinguimos quatro
formas de kharidjismo: azrika, nadjadt, sufrita e enfim ibaditas. Os primei-
ros, mais violentos, foram exterminados no Oriente pelo muitssimo enrgico
al-Hadjdjdj, aproximadamente em 81/700, e os segundos praticamente desapa-
receram da cena poltica alguns anos antes, por volta de3 74/693, ou seja, antes
da conquista definitiva do Magreb. Somente permaneceram ativos os sufritas e
os ibaditas. Pode-se demonstrar que os seus propagandistas tomaram o caminho
do Oeste aproximadamente em 95/714. Tudo aconteceu como se eles houvessem
dividido as zonas de ao: os sufritas a Oeste de Kayrawn e os ibaditas a Leste.
    O que traziam eles consigo? Uma estratgia revolucionria elaborada e expe-
rimentada no Oriente, assim como uma doutrina adaptada a esta estratgia. A



8     AI-TABAR, 1962-1967, vol. 6, pp. 254-255.
9     Fitna: rebelio ou guerra civil entre muulmanos.
10    AIRAB' IBN HABB, Musnad no 819; A. J. WENSINCK e col., 1933-1969.
A independncia do Magreb                                                                                297



estratgia combinava a Ku'd 11, acompanhada de takiyya12, com o khurdj13.
Quanto  doutrina, ela insistia particularmente na absoluta igualdade de todos
os muulmanos e na desigualdade do poder de fato, aquele dos umayyades,
originado em um golpe de fora. Ela denunciava o carter injusto deste poder,
culpado de recorrentes violaes do esprito e da letra do Coro, em matria
fiscal, entre outras. Todos os temas maiores da propaganda apoiavam-se nos
Hadth, dizeres do Profeta encontrados no musnad ibadita de Ibn Ab al-Rab14
e alhures. Nenhum escrito sufrita, em contrrio, chegou at ns. Mas, sem risco
de erro pode-se admitir que as duas tendncias  entre as quais no se identifica
nenhuma hostilidade  concordavam no essencial. Em suma, a revolta contra a
tirania umayyade era pregada no somente como um direito, mas, igualmente,
como um imperioso dever religioso.
    Acrescentemos que o kharidjismo prezava, outrossim, pela sua austeridade
e rigor. Naturalmente, a complementaridade foi perfeita entre a doutrina, por
um lado, e o terreno psicolgico, socioeconmico ou fsico, por outra parte. A
geografia tambm teve o seu papel. Como escrevia R. Dozy, em uma pgina
vigorosa que nada perdeu da sua intensidade, em que pese ter mais de um sculo,
no Magreb "o calvinismo muulmano finalmente encontrara a sua Esccia15".
    Todavia, a parte esta complementaridade, por assim dizer biolgica, o segredo
do kharidjismo reside, sobretudo, no fato que os berberes estavam esgotados.
Eles se sentiam frustrados, humilhados e oprimidos. As suas reivindicaes
no haviam encontrado nenhuma audincia em Damasco. A tempestade estava
prestes a acontecer. A plvora dos rancores acumulara-se em seus coraes. O
detonador sufrito-ibadita ocupou-se do restante.


     Sucessos e revezes
   Maysara tomou, portanto, a direo da revolta sob a bandeira do sufrismo
(122/740) e foi saudado  em concordncia com a doutrina segundo a qual
o poder supremo16 cabe ao melhor, sem distino de colorao de pele ou de

11   Ku'd: literalmente, "sentado"; aes subversivas destinadas a enfraquecerem a ordem estabelecida.
12   Takiyya: dissimulao da sua verdadeira crena com vistas a escapar das perseguies.
13   Khurdj: ao de sair da clandestinidade para entrar na insurreio direta.
14   Musnad: coleo de Hadth reunidos segundo os nomes dos seus transmissores e no em funo dos temas.
15   R. DOZY, 1932, vol. 1, p. 149.
16   IBN `ABD ALHAKAM, 1947, pp. 124-125; IBN `IDHR ALMARRKUSH, 1848-1851, vol.
     1, p. 53; IBN KHLDN, 1867, vol. 6, p. 221.
298                                                          frica do sculo VII ao XI



nvel social  com o ttulo de califa. No entanto, o reino desde primeiro califa
berbere foi muito breve. Tendo recuado, diante do inimigo, em Tanger, ele foi
destitudo e executado. Foi o seu sucessor, Khlid b. Humayd al-Zant, quem
obteria a estrondosa vitria na "batalha dos nobres" (123/741), uma humilhante
hecatombe para a fina flor da aristocracia rabe. Aproximadamente ao final do
mesmo ano, esta vitria foi seguida de outra, no menos completa e impactante,
nas margens do Seb, onde pereceu particularmente Kulthm b `Iyd, despa-
chado do Oriente s pressas, com considerveis foras, para salvar a situao.
Tudo possivelmente levava a crer que um Estado magrebino, unido e cimentado
pelo sufrismo, finalmente ganharia o dia.
    Absolutamente. Com a iminncia do triunfo, a discrdia infiltrou-se nas
fileiras dos vencedores. No ano seguinte, sob os muros de uma Kayrawn aterro-
rizada, havia dois exrcitos rivais: um deles, com acampamento estabelecido em
al-Asnm, era conduzido por `Abd al-Whid al-Hawwr e o outro, acampado
em al-Karn, era comandado por `Uksha. Eles foram derrotados, cada qual a seu
turno e de modo totalmente inesperado, por Hanzala b. Safwn (incio 125/743).
Celebrou-se at no Oriente, onde al-Layth, o rival egpcio de Mlik, o fundador
do malikismo, comparou esta vitria quela de Badr.


      O novo mapa poltico e as relaes exteriores
      Os reinos sufritas
    O mapa do Magreb seria completamente modificado aps a tormenta. 
certo que Kayrawn no foi conquistada. Porm, todo o Magreb Central e
Ocidental escapou, doravante e definitivamente, da tutela do Oriente.
    O democratismo kharidjita, exageradamente preocupado com a autode-
terminao, ligado ao sectarismo tnico, erguera aps o desmoronamento da
autoridade centralizada dos rabes uma abundncia de Estados. Os menores,
com perfis mais ou menos fluidos e durao de vida imprecisa, no nos deixa-
ram rastros. Somente os reinos mais importantes, aqueles que se fizeram ouvir,
escaparam ao esquecimento.
    O primeiro a constituir-se no Marrocos, s margens do Atlntico, entre Sal
e Azemmour, foi aquele do Tmasn, mais conhecido pelo nome depreciativo
"reino dos barghawta". O seu fundador, o zanta Tarf, tomara parte do assalto
sufrita contra Kayrawn. Foi neste reino que o nacionalismo berbere alcanou
os seus limites extremos. Ao final das contas, o kharidjismo sufrita permi-
A independncia do Magreb                                                     299



tira a libertao poltica. Entretanto, a dominao espiritual do Isl, em outras
palavras, a submisso a ideias importadas do estrangeiro, persistiu. O quarto
soberano da dinastia dos Ban Tarf, Ynus b. Ilys (227/842-271/884), para
melhor emancipar o seu povo, decidiu dot-lo, baseado no modelo do isl, de
uma religio nacional. Ele transformou o seu av, Slih b. Tarf, em um profeta e
atribuiu-lhe um coro em berbere, com todo um conjunto de prescries rituais
e restries alimentares ainda mais exigentes que aquelas do isl, portanto con-
sideradas superiores. Tratava-se em suma de uma espcie de libertao cultural
destinada a concluir a j consumada libertao poltica. O processo no deixa de
assemelhar-se, mutatis mutandis, a certos fenmenos contemporneos de desco-
lonizao. Os Ban Tarf lograram preservar a sua independncia e originalidade
durante sculos e  sintomtico que inclusive os seus inimigos muulmanos
sunitas no tenham logrado impedir louvar a sua bravura e a sua alta moralidade.
    Ao mesmo tempo em que o reino de Tmasn se constitua, no Magreb
Central, aquele de Tlemcen (124/742-173/789), fundado por Ab Kurra, cujo
pai possua um nome, Dnns17 (Donnus), que atestava a sua origem crist. Ab
Kurra, tambm ele, participara do grito de caa fracassado contra Kayrawn. Ele
foi, nos ensina Ibn Khaldn18, alado  dignidade de califa. O seu reino zanta a
ele no sobreviveu por muito tempo. Em 15 radjab 173/8 de dezembro de 789,
Tlemcen conquistou sem resistncias o poder dos idrsidas.
    O terceiro reino sufrita, aquele dos ban wasl (mais conhecidos pelo
nome ban midrr) foi fundado por Sidjilmsa (140/757-366/976), em uma
antiga localidade, por berberes miknsa. Este reino, o qual englobou os osis
do Tafillet e estendeu-se at o Dar'a, levou at 296/909  data do advento dos
fatmidas  uma vida tranquila. Fantasiado de mercador, foi assim que o futuro
califa fatmida, `Ubayd Allh al-Mahd, entrou em Sidjilmsa, onde aps algu-
mas hesitaes ele foi, finalmente, encarcerado. Ao final de 296 (setembro de
909), Abu `Abd Allh al-D' rumou para tomar de assalto a cidade e liber-lo.
Al-Yas' ibn Midrr foi morto e substitudo por um governador fatmida que no
pode manter-se por mais de cerca de cinquenta dias. Os ban wasl retomaram
o poder na cidade e puderam reinar, entre ventos e tempestades, eventualmente
trocando o sufrismo pelo ibadismo, em seguida e finalmente, pelo sunismo, at
o momento em que fossem definitivamente expulsos pelos zanta ban khazrn,
apoiados pelos umayyades da Espanha. Sidjilmsa foi, sobretudo, um grande
porto saariano, uma eclusa na rota do ouro e uma plataforma para as trocas

17   Ibn HAZM, 1962, p. 51.
18   Ibn KHALDN, 1867, vol. 6, p. 267.
300                                                                                frica do sculo VII ao XI



entre pases subsaarianos, o Magreb e o Oriente19. Atualmente desaparecida,
Sidjilmsa deixa a lembrana de uma grande metrpole comercial da qual os
gegrafos mencionam as belas residncias (as Ksr) e a prosperidade. As ten-
tativas de escavaes empreendidas no stio, infelizmente, no tiveram xito20.


      Os reinos ibaditas
    A esfera de influncia do ibadismo foi inicialmente aquela de Trpoli. A
sua posio era desconfortvel. A defesa de Trpoli  ferrolho do corredor de
comunicao entre o Leste e o Oeste  era na realidade vital para manter a
ligao entre Kayrawn e a sede do califado. Igualmente, nenhum reino ibadita
oficialmente reconhecido logrou l permanecer por muito tempo. Como vimos,
a insurreio primeiramente proveio do Oeste: ela foi de inspirao sufrita e de
direo zanta. Mais moderados e, necessariamente mais prudentes, os ibaditas
comearam por adotar uma atitude de pura expectativa. Eles eram antes de tudo
organizados, em conformidade com a sua ideologia que recomendava o Ku'd e
o kitmn21, com o objetivo de esperarem o momento propcio.
    Ele viria em 127/745. Naquele ano, Damasco estava em meio  anarquia, e
Kayrawn cara nas mos de `Abd al-Rakmn b. Habb, o qual reencontraremos
mais adiante. Este ltimo cometeu o erro de determinar a execuo do chefe dos
ibaditas da provncia de Trpoli, `Abd Allh ibn Mas'd al-Tudjb. Foi o sinal
para o khurdj (insurreio aberta). Os chefes ibaditas, Abd al-Djabbr b. Kays
al-Murd e al-Hrith b. Tald al-KaKram, dois rabes, primeiramente conquis-
taram xito, vitria aps vitria, e lograram ampararem-se de toda a provncia
de Trpoli. Infelizmente para eles, no escaparam, tanto quanto o ocorrido com
seus co-irmos sufritas, da maldio da desunio. Eles foram descobertos mor-
tos, transpassados cada qual com a espada do outro. Ism'l b. Ziyd al-Nafs,
um berbere, tomou a frente e ameaou Gabs. Mas a sorte lhe escapou. `Abd
al-Rahmn b. Habb logrou venc-lo em 131/748-749 e recuperou Trpoli, onde
massacrou os ibaditas a fim de extirpar a heresia desta provncia.



19    Consultar, mais adiante, o captulo 11.
20    Iniciadas sob a instruo de Mohammed El Fasi, ento ministro da educao nacional, e abandonadas
      pelos seus sucessores, estas escavaes eram, entretanto, promissoras. M. El Fasi assinala-nos, em par-
      ticular, que elas haviam permitido descobrir "canalizaes de gua cujos dutos eram esmaltados em seu
      interior", denotando "um estado avanado civilizatrio".
21    Kitmn: clandestinidade.
A independncia do Magreb                                                     301



    Todavia, em vo: o ibadismo no entregou a sua alma. Ele apenas entrou
no Ku'd (clandestinidade), apoiando-se nas estruturas apropriadas de kitmn
(segredo) e de takiyya (dissimulao ttica), as quais lhes garantiam a sobrevi-
vncia na espera por um novo ressurgimento (zuhr), em momento apropriado.
Ele ainda ressurgiria em duas ocasies. Em 137/754, em favor da anarquia que
sucederia o assassinato de `Abd al-Rahmn ibn Habb, o ibadismo retomou o
poder em Trpoli. A partir de l, Ab `l-Khattb dirigiu-se rumo a Kayrawn,
entrementes ocupada e cruelmente tratada pelos sufritas warfadjma do Sul
tunisiano. Em Safar 141/junho-julho de 758, ele penetrou na cidade onde ins-
talou como governador `Abd al-Rakmn b. Rustum, futuro fundador de Tiret.
Finalmente, as bandeiras kharidjitas estavam tremulando em todo o cu magre-
bino! Seria o ocaso da sua ligao com o Oriente? No. Em rab'I 144/junho-
-julho de 761, Ibn al-Ash'ath viria novamente plantar o estandarte dos abssidas
em Kayrawn. Porm, dois anos mais tarde, a insurreio seria retomada com
rara violncia. A maioria dos chefes kharidjitas  entre os quais Ab Kurra e Ibn
Rustum  dela participaram, sem contudo lograr manter a sua coalizo. Solitrio,
em definitivo, o ibadita Ab Htim, movimentando-se com base em Trpoli,
apertou a sua mo-forte entorno da capital de Ifrkiya, reduzindo a alimentao
dos seus habitantes aos seus ratos e ces. No incio de 155/772, a cidade faminta
novamente caiu nas mos dos ibaditas, porm somente por alguns meses. Em 19
djumd' II 155/27 de maio de 772, Yaqzd b. Htim al-Muhallab viria impor
um ponto final aos esforos ibaditas para tomarem o poder no Magreb oriental.
    O nico Estado ibadita que logrou organizar-se do modo duradouro
foi aquele de Thert (Tiret) (144/761-297/910), fundado pelo persa `Abd
al-Rhamn ibn Rustum, quem conseguira escapar de Kayrawn atacada por Ibn
al-Ash'ath. Aproximadamente em 160/778, ele elevado  dignidade de imame
e a sua influncia fez-se rapidamente sentir at o Oriente, de onde ele recebeu,
por parte dos fiis do ibadismo, substanciais ajudas financeiras que contriburam
para consolidar o jovem Estado. A dinastia por ele fundada, malgrado srias
cises, jamais foi realmente contestada. O Estado rustumida estendia-se, como
um plasma descontnuo e assaz fluido no qual se banhavam os fiis do ibadismo,
desde o Magreb Central at o Djabal Nafsa. Este Estado de fronteiras impre-
cisas jamais foi fortemente estruturado e, alm da cidade de Tiret, ela prpria,
a autoridade do imame era muito mais espiritual que temporal. Malgrado as
suas divergncias doutrinrias, os rustumidas consolidaram fortes laos de ami-
zade com os umayyades da Espanha, observando descordar dos seus vizinhos,
a Leste e Oeste, uma neutralidade cheia de reservas. Somente `Abd al-Wahhb
(168/784-208/823) interveio contra os aghlbidas apoiando, em vo, os esforos
302                                                                                  frica do sculo VII ao XI



dos seus adeptos do Djabal Nafsa para a tomada de Trpoli (196/811-812)
Em 283/896, Tiret permitiu, sem intervir, a Ibrhm II esmagar, em Mn, os
nafsa, ponta de lana do reino e fiis apoiadores dos imames.


      Recuo do kharidjismo e fundao do reino idrsida
    O kharidjismo no penetrou sozinho no Magreb. Sensivelmente na mesma
poca, o i'tizl 22 de tendncia wasilita igualmente ganhou adeptos, contra os
quais os ibaditas foram obrigados a mobilizar os seus melhores doutores para
confrontos em combates oratrios pblicos que ganharam fama e dos quais
se conservou a lembrana. Um principado mutazilita, governado pelo berbere
Ibrhm b. Muhammad al-Mu'tazil, chegou inclusive a ser implantado em
Ayzaradj, no Oeste de Tiret. Teria ele sido o nico?
    A propaganda xiita, inicialmente dirigida para o Oriente, desconsiderou o
Magreb em um primeiro momento. Entretanto, a partir de meados do sculo
II/VIII, ela comeou a eficazmente disput-lo com o khadrijismo, obrigando
este ltimo a um srio recuo. A razo desta reviravolta deve ser buscada no
fracasso da revolta de Muhammad al-Nafs al-Zakiyya, na Meca, em 145/762,
assim como na sangrenta represso que a sucedeu. Muitos lidas foram forados,
de bom grado ou  fora, a buscarem refgio alhures. Alguns se estabeleceram
no Magreb, onde se dedicaram a uma intensa propaganda poltico-religiosa,
fortemente apoiados pela aurola que lhe valia a sua ascendncia. Ab Sufyn e
al-Hulwn iriam, em 145/762, se instalar nos confins a Oeste de Ifrkiya, onde
eles iniciaram a longnqua preparao ao advento dos fatmidas. Um irmo de
al-Nafs al-Zakiyya teria igualmente sido encarregado de uma misso de pros-
peco e propaganda no Magreb. O democratismo kharidjita comeava assim
a ser substitudo por uma doutrina diametralmente oposta: a teocracia xiita, a
ensinar que o poder supremo deve ser exercido para o bem de todos, pelo imame
de direito divino, na linhagem do Profeta, por `Al e Ftima.
    Justamente esta evoluo doutrinria explica o sucesso dos idrsidas. Caado
do Oriente aps o fracasso da revolta de Fakh (169/786), Idrs I, irmo de al-Nafs
al-Zakiyya, finalmente aps uma passagem por Tanger, "onde ele no encontrou
o que buscava23", chegou a Walla (Volubilis), antigo centro da civilizao crist
onde, em I rab'I 172/9 de agosto de 788, ele foi favoravelmente acolhido pelo


22    I'tizl: tendncia da teologia muulmana cujo ensino  chamado mu'tazila; consultar, acima, o captulo 2.
23    Ibn AB ZAR', 1936, vol. I, p. 7.
A independncia do Magreb                                                     303



chefe dos berberes awrba, o mutazlita `Abd al-Hamd. Seis meses depois, ele
prestou o sermo de investidura, a bay'a. No imediato posterior, ele engajou-se
em uma vasta campanha de expanso e islamizao. Tlemcen abrir-lhe-ia rapi-
damente as suas portas e ele inquietaria, tanto e com tamanha intensidade, o
califa abssida que este ltimo determinou o seu assassinato (179/795) por um
mdico, al-Shammkh al-Yamn, despachado especialmente de Bagd com este
objetivo e ajudado em sua misso por Ibrhm b. al-Aghlab, ento governador do
Mzb. Este assassinato nada resolveu. Idrs I deixou, efetivamente, a sua djriya
(escrava) berbere, Kanza, grvida das suas obras. Concedeu-se  criana o nome
do seu pai e governou-se para ele,  espera da sua bay'a (sermo de investidura).
Bagd no se desarmou imediatamente. Um lida, inclusive parcialmente ber-
bere e em confins obscuros nos limites do mundo conhecido, podia revelar-se
perigoso. O califado tentou, portanto, atravs de Kayrawn, com intrigas e tra-
paas, matar o mal pela raiz. Rshid, o fiel cliente de Idrs I e melhor apoiador
da criana Idrs II, pagou-o com a sua vida. Seria para evitar os inconvenientes
de uma regncia demasiada prolongada que se decidiu ento investir o quanto
antes Idrs II? Este ltimo recebeu, efetivamente, desde 187/803, a investidura,
porm no se sabe ao certo sob qual ttulo; talvez imame, conforme a doutrina
zaydita. As intrigas, contudo, no cessariam. Em 192/808, Idrs II ordenou a
execuo de Ishk b. Muhammad b. `Abd al-Hamd  o chefe dos awrba que
fizera a fortuna do seu pai  em conluio com o inimigo aghlbida. Real acu-
sao ou desejo de emancipao? Seria para melhor escapar da tutela dos seus
protetores berberes que o jovem soberano ter-se-ia instalado, no ano seguinte,
na margem esquerda do Wd Fs, fundando a sua prpria residncia e se cer-
cando de rabes? Paulatinamente, as hostilidades entre aghlbidas e idrsidas
apaziguar-se-iam. Ambos estavam demasiado absorvidos pelos seus problemas
internos. Igualmente, tornou-se evidente que os idrsidas no representavam
perigo algum para os seus vizinhos e, ainda menos, para o califado. O seu xiismo
original foi, com efeito, rapidamente esquecido em proveito do sunismo. Assim
sendo, tacitamente, o Magreb encontrou-se dividido em trs zonas de influncia:
os aghlbidas, no Leste, os kharidjitas, no centro, e os idrsidas no Oeste.
    A poltica de Idrs II foi a continuao daquela de Idrs I. A partir de Volu-
bilis, em seguida de Fez, ela consistia em islamizar, arabizar e expandir as fron-
teiras do reino, nos limites da zona de influncia indicada. Idrs II fez com que
se reconhecesse o seu poder pelos maSmda do Alto Atlas, manteve Tlemcen
em sua rbita, amparou-se de Nefs, ao Sul, porm fracassou no Oeste diante
da resistncia dos barghawta, ocupantes do planalto do Tmasn, ao longo do
Atlntico.
304                                                          frica do sculo VII ao XI



    Aquando da sua morte (em djumd II 213/setembro de 828), ele estava 
frente de um importante e prspero reino. Ele o dividiu entre sete dentre os
seus filhos. Esta partilha que, inicialmente no aparentava ser to grave quanto
o esperado, contudo, revelou-se desastrosa. Muhammad (213/828-221/836), o
primognito de Idrs II, efetivamente recebeu com Fez o direito de soberania.
Em tese, o reino permanecia unido. Os seus irmos, confortavelmente estabe-
lecidos, em princpio eram seus vassalos e permaneceram sob a sua autoridade.
Na realidade, o sistema funcionou mal. Ao esforo de unificao de Yaky II,
sucedeu-se ento a desagregao. Posteriormente, com o desaparecimento de
Yaky II (245/859), de grande notoriedade na crnica, sobretudo pelo seu escn-
dalo, o poder real escapou  prognie mais velha. Passou aos mais novos dos
rifenhos ban `umar. Desde logo, a crise adquiriu contornos mais agudos. No
foi seno uma sequncia montona de lutas intestinas, distrbios e conflitos
sangrentos, os quais teriam fim somente ao final da dinastia (375/985). Esta
ltima, desaparecida no Marrocos, daria a Crdova, em 407/1016, um efmero
califa, na pessoa de `Al b. Hammd, um descendente dos ban `umar.
    O fim pouco brilhante e o ocaso natural dos idrsidas no nos devem mas-
carar o papel capital que eles desempenharam no destino do Marrocos. No
plano poltico, eles esto na origem da emergncia de uma conscincia nacional
marroquina cujos desdobramentos podemos at atualmente seguir. Foram eles
que fizeram o Marrocos e dotaram-no da sua primeira capital: Fez. No extremo
oeste do Magreb, Fez desempenhou o papel devoluto de Kayrawn, na Ifrkiya,
e de Crdova, na Espanha. Graas a Lvi-Provenal, hoje sabemos que ela deve
a sua fundao, primeiramente, a Idrs I, quem fundou em 172/789, no Wd
Fs, a cidade da margem direita, povoada de berberes, em seguida, a Idrs II,
que criou, em 193/809, em frente desta primeira cidade, uma nova localidade,
mais urbanizada, na margem esquerda (conferir figura 10.1)24. Inicialmente, cada
uma destas duas cidades estava munida de uma muralha prpria e foi necessrio
esperar os almorvidas para enfim v-las unificadas. Beneficiando-se de uma
posio excepcionalmente favorvel, no grande eixo leste-oeste, pelo corredor
de Taza, abundantemente provida de gua, madeira, perdas para construo e
argila para a cermica, Fez conheceu um grande desenvolvimento e fez a glria
dos idrsidas. Corao espiritual do novo Estado, ela foi e permanece como um
centro intelectual de primeira ordem.




24    E. LVIPROVENAL, 1938.
A independncia do Magreb                                                                            305




Figura 10.1 Vista geral do vale no qual foi erguida a cidade de Fez; no primeiro plano, a muralha externa
da cidade, reformada em mltiplas ocasies pelas sucessivas dinastias. [Fonte: Mohammed El Fasi.]




   Inicialmente implantado em habitat berbere, o reino dos idrsidas no foi
mais rabe quanto aquele dos rustmidas foi persa. Entretanto, ao acolher os
refugiados de Kayrawn e Crdova, Fez rapidamente tornou-se um irresistvel
polo de arabizao. Desde 189/805, a cidade acolheu quinhentos cavaleiros, reu-
nindo Kays, azd, mudlidj, ban yahsb e Sadaf, vindos de Ifrkiya e da Espanha.
Foi em meio a eles que Idrs II, criando a sua nova residncia, constituiu a sua
primeira corte rabe. Em 202/817/818, ela recebeu as ondas de sobreviventes
da revolta dos arrabaldes (Rabd) de Crdova, e no ano 210/825-826, novos
imigrados de Ifrkiya. Em 245/859, foi finalmente fundada por uma nativa
de Kayrawn, a ainda hoje clebre mesquita-universidade de al-Karwiyyn, 
qual coube um papel determinante na histria religiosa e cultural do Marrocos.
Deste modo, em habitat berbere, Fez tornou-se uma capital poltica e intelec-
tualmente rabe. A partir deste centro, mais por osmose e influncia que pela
guerra, a arabizao e a islamizao propagaram-se de modo contnuo. Embora
306                                                                       frica do sculo VII ao XI




Figura 10.2   Minarete da mesquita de Karwiyyn de Fez. [Fonte: Ministrio da Cultura do Marrocos,
Rabat.]



originalmente xiitas de tendncia zaydita, os idrsidas no aparentam ter feito
grande esforo para imporem a sua doutrina. Eles inclusive aparentam ter favo-
recido a difuso da escola de Mlik, o grande mestre de Medina, talvez porque
este ltimo no tenha escondido as suas simpatias lidas, particularmente no
momento da revolta de al-Nafs al-Zakiyya, irmo de Idrs I. Assim sendo, o
malikismo tornou-se, sob o reino dos idrsidas, a escola dominante no Marrocos.
    Acrescentemos que o sucesso dos idrsidas foi contagiante. Outros descen-
dentes de `Al efetivamente iriam disputar frutuosamente o Magreb Central
com o kharidjismo. Al-Ya'Kb, que visitou a regio entre 263/876 e 276/889,
enumera no menos que nove emirados lidas para a regio25. Entre todos estes
Estados, as fronteiras naturalmente no foram nem rgidas nem estanques.
Malgrado as oposies e os antemas ao nvel poltico, os homens e os bens
circulavam em todos os sentidos e com eles, bem entendido, as ideias.


25    Al-YA'KB, 1870-1894.
A independncia do Magreb                                                    307



     Primeira tentativa de independncia da Ifrkiya
    No imediato posterior da "batalha dos nobres" (122/740), os rabes do
Magreb comearam a medir o fosso que se cavara entre eles e os seus irmos
permanecidos no Oriente. J humilhados e traumatizados pela sua derrota, eles
foram alimentados pelos "orientais" enviados ao seu socorro com este desprezo,
at ento reservado somente aos berberes. Nas margens do Chlif, o exrcito
de Ifrkiya, comandado por um neto do conquistador do Magreb, Habb b. Ab
`Ubayda b. `Ukba b. Nfi', por pouco que no e sob os olhos dos berberes, voltou
as suas armas contra os reforos "estrangeiros" vindos do Oriente, sob as ordens
de Kulthm b. `Iyd e do seu primo Baldj, tamanho o grau de provocaes e
sarcasmos destes ltimos foram ofensivos. Aceitando o desafio, `Abd al-Rahmn
b. Habb props um duelo entre o seu pai e Baldj. O enfrentamento foi evitado
por pouco. Mas, este fato, juntamente com vrios outros indcios no mesmo
sentido, revela-nos um fenmeno capital para a compreenso da ulterior evo-
luo da situao: a ecloso junto aos rabes magrebinos, particularmente junto
queles da segunda e terceira geraes que, em sua maioria nascidos no pas,
jamais haviam visto o Oriente, de uma verdadeira conscincia nacional local.
Justamente este fenmeno fornece-nos o eixo estruturador de toda uma srie de
acontecimentos que, de outro modo, permaneceriam indecifrveis.
    Compreende-se melhor, desde logo, como `Abd al-Rahmn b. Habb, o
homem que encarnara a honra ifrikiana frente a Baldj, logrou expulsar Hanzala
b. Safwn de Kayrawn  com a aurola da sua vitria sobre os berberes, porm
"estrangeiro"  e fundar o primeiro Estado independente do Magreb oriental
(127/744-137/754). Com a conivncia, sem dvida, dos chefes do exrcito de
Ifrkiya, bastou-lhe praticamente desembarcar em Tnis, vindo da Espanha onde
ele tramara, para ser elevado ao poder. O exrcito de Ifrkiya, outrora vencido
e humilhado, reencontrou a sua energia imediatamente com a independncia.
Sob o seu comando, nos  dito, "ele no mais se rendeu26" e inspirou por toda
parte o terror. Em 135/752-753, ele atacou violentamente a Siclia, a Sardenha
e Tlemcen.
    Governando um Estado com direo rabe e doutrina sunita  doutrina pre-
ocupada em manter a unidade espiritual muulmano (umma)  `Abd al-Rahmn
b. Habb no podia deixar de buscar um modus vivendi com o califado, em outros
termos, primeiramente com Damasco  que vivia as suas ltimas horas  e


26   Ibn `IDHR ALMARRKUSH, 1848-1851, vol. I, p. 61.
308                                                                          frica do sculo VII ao XI




Figura 10.3   A Kubba Bardiyyin em Marrakesh: detalhe da ornamentao da cpula. [Fonte: J. Devisse.]




posteriormente com Bagd. Ele no gerou nenhuma dificuldade para prestar o
sermo (bay'a) ao califa abssida. Entendamos com isso que ele reconheceu ofi-
cialmente o novo regime, esperando em contrapartida, para o seu prprio poder,
um reconhecimento de jure que viria a interinar e fortalecer a independncia
adquirida de facto. Al-Saffh (132/750-136/754) deu a impresso de ter impli-
citamente admitido tal evoluo das relaes entre Bagd e Kayrawn. Porm, o
seu sucessor Ab Dja'far al-Mansr (136/754-158/775) manifestou claramente
a sua vontade de retornar ao status quo anterior, especialmente com as suas
implicaes fiscais e os seus tradicionais aportes de escravos. `Abd al-Rahmn
b. Habb conhecia melhor que ningum as consequncias desastrosas e tais
exigncias. Ele respondeu brutalmente ao califa: "Hoje a Ifrkiya  totalmente
muulmana. No se pode mais nem escravizar nem oprimir a populao. No
me solicitai dinheiro em hiptese alguma27". Foi a ruptura, seguida pouco tempo

27    Ibn ALATHR, 1885-1886, vol. 5, p. 314.
A independncia do Magreb                                                    309



aps do assassinato de `Abd al-Rahmn b. Habb e pelo aborto da primeira
tentativa de independncia que ele encarnou. Esta ltima findou em anarquia,
de cujo kharidjismo ibadita tentou tirar proveito sem sucesso duradouro.


    Os aghlbidas
    Ab Dja'far al-Mansr logrou reconduzir a Ifrkiya para o seio da sua
doutrina ainda por quatro dcadas (144/761-184/800). Durante estes quatro
decnios, o pas no conheceu a ordem e a paz seno quando os dois primei-
ros Muhallbidas (155/772-174/791), aps o fracasso da segunda tentativa do
ibadismo de se implantar em Kayrawn, foram capazes de se impor, graas ao
seu valor e  sua experincia. Com eles, um tmido ensaio dinstico aparentava
se esboar. Ele no se consumou e, desde 178/794, a crueldade da luta entre as
faces rivais do djund (exrcito rabe) para se ampararem pela fora do poder
tomou tamanha amplitude que a Ifrkiya tornou-se completamente ingovern-
vel. Ela representava para o califado, do qual era onerava pesadamente o tesouro,
no mais que uma fonte de infindveis preocupaes. Por outra parte, Bagd
estava cada vez menos em condies de intervir militarmente. Escutando os
sbios conselhos de Harthama b. A'yn, Hrn al-Rashd decidiu ento acordar-
-lhe de bom grado uma independncia que ela teria, de toda forma, tomado 
fora. Esta deciso foi consideravelmente facilitada pela existncia oportuna de
um interlocutor vlido: Ibrhm ibn al-Aghlab, o fundador do reino aghlbida
(184/800-296/909).
    Ibrhm ibn al-Aghlab no era um desconhecido. O seu pai governara a
Ifrkiya (148/765-150/767) onde ele deixara a sua vida. Ele prprio nomeado
subgovernador do Mzb (179/795) por Harthama b. A'yn, ento governador
da Ifrkiya (179/795-181/797), ele pode imediatamente provar a sua fidelidade
aos abssidas, colaborando eficazmente na luta contra os idrsidas. Em 181/797,
ele foi elevado  condio de governador e brevemente teria a oportunidade
de uma vez mais demonstrar a sua disciplina e lealdade. Na competio aberta
pela insurreio de Tammm, subgovernador de Tnis, ele soube agir como
campeo da legalidade. Ele abateu o insurgente e restabeleceu o governador
legal, o insignificante Muhammad b. Muktil al-`Akk, em suas funes. A sua
interveno, seria ela totalmente desinteressada? Seria ela ditada por um hbil
clculo? Um fato  certo: ele foi objeto de solicitaes urgentes convidando-o a
tomar o lugar de al-`Akk. Ele no as aceitou seno mediante a condio da sua
ascenso ao emirado ocorresse a ttulo irrevogvel e hereditrio. Em contrapar-
310                                                                                 frica do sculo VII ao XI



tida, ele ofereceu renunciar  subveno de 100.000 dinares depositados para
Ifrkiya pelo khardj do Egito e de depositar, ele prprio, no tesouro de Bagd
um tributo anual de 40.000 dinares. Al-Rashd aceitou o pacto, um acordo
final e igualmente vantajoso para ambas as partes. A Ifrkiya no podia, com
efeito, representar uma exceo por muito tempo e escapar ao movimento de
independncia desencadeado em 122/740 pela revolta de Maysara. Entretanto,
a sua independncia realizou-se pela via das negociaes, sem cises e sem
ruptura com Bagd.
    Os trs primeiros soberanos da nova dinastia consagraram os seus esforos
a consolidar o seu regime. Eles no puderam naturalmente evitar as revoltas da
sua djund. A insurreio mais grave, aquela que quase ganhou o trono aghlbida,
foi fomentada por Mansr al-Tunbudh (209/824-213/828). O seu fracasso final
inaugurou uma era de calma e maturidade durante a qual a Ifrkiya gozou de
uma prosperidade proverbial. Ab Ibrhm Ahmad (242/856-249/863) deixou
a lembrana de um prncipe ideal, inteiramente dedicado ao interesse dos seus
sujeitos. Para assegurar a segurana do litoral, ele construiu numerosas ribt 28e,
para garantir o abastecimento em gua de Kayrawn, ele a dotou de cisternas
que at hoje so dignas da nossa admirao. O apogeu, rapidamente seguido
do declnio, foi atingido sob Ibrhm II (261/875-289/902). O seu reinado foi
inaugurado sob auspcios muito felizes. Os seus sujeitos puderam gozar de uma
justia rigorosa e de uma ponderada administrao. Infelizmente! O soberano,
atingido pela melancolia, perdeu progressivamente a razo. Ele multiplicou as
exaes e os erros polticos, oferecendo excelentes vantagens  propaganda xiita.
    Esta propaganda, na voz de Ab `Abd Allh al-D', pregando na Kablia
junto aos berberes kutma, anunciava a chegada do mahd, do Salvador, que
instalaria na Terra um paraso de justia, no qual o "sol de Deus", ao nascer no
Ocidente, brilharia enfim, igualmente para todos. A propaganda foi exitosa. E
foi assim que o regime aghlbida, dispondo de enormes meios materiais, embora
privado de apoio popular, foi varrido pelas ondas jorradas da montanha deser-
dada para a conquista das opulentes plancies. O choque decisivo desenrolou-se
nas imediaes de Kf, em al-Urbus (22 djumd II 296/18 de maro de 909).
Precipitadamente, Ziydat Allh III, levando diante de si as riquezas acumula-
das pelos seus ancestrais, deixou  noite, no apagar das tochas, a luxuosa cidade
principesca de Rakda, fundada pelo seu av. No dia seguinte, esta ltima foi
saqueada.


28    Ribk: no tocante aos diferentes significados deste termo, consultar mais adiante, o captulo 13.
A independncia do Magreb                                                      311



    O movimento de independncia, do qual acabamos de seguir os meandros,
no se limitou ao Magreb. A Espanha sofreu sensivelmente a mesma revoluo.
O khridjismo pouco a afetou. L, a luta reproduziu-se, sobretudo, entre as duas
grandes formaes tnicas rabes, os Kays e os kalb, tradicionalmente inimigos.
Um primo de `Abd al-Rahmn b. Habb, Ysuf b. `Abd al-Rahmn al-Fihr,
primeiramente aparentou ganh-la (129/747-138/756). Ele foi finalmente frus-
trado em seus esforos por um personagem de primeira linha: o umayyade `Abd
al-Rahmn b. Mu'wiya b. Hishm b. `Abd al-Malik, cuja me, Rh, fora uma
cativa berbere da cabilda dos nafza. Chegado ao Magreb como fugitivo, ele pde,
aps uma verdadeira odisseia, alcanar a Espanha onde fundou um emirado
independente. Em 316/929, o oitavo soberano da dinastia, `Abd al-Rahmn
III, transformou este emirado em califado, seguindo na matria o exemplo dos
fatmidas. Tratou-se do apogeu da Espanha muulmana.


    As relaes exteriores
    O Magreb medieval, com o seu prolongamento ibrico, possua uma dupla
vocao comandada pela sua abertura, em direo ao Norte, para o mundo cris-
to, terra de comrcio de jihad, e rumo ao Sul, para a frica subsaariana, fonte de
ouro. Com a chegada dos rabes, ele entrou em uma fase particularmente ativa
da sua histria, marcada pela expanso territorial e econmica. Esta expanso
foi, a um s tempo, violenta e pacfica.
    O el expansionista alm dos Pirineus foi quebrado em 114/732. Os emi-
res de Crdova foram em seguida reduzidos a uma jihad defensiva, destinada
a conter a presso crist em sua fronteira setentrional. A perda definitiva de
Barcelona, desde 185/801, ilustra o sucesso absolutamente relativo desta jihad.
O ltimo avano magrebino em direo  Europa aconteceu, no sculo III/IX,
a partir de Kayrawn. Ziydat Allh I (201/817-223/838), com o objetivo de
aliviar Ifrkiya, submetida s incessantes revoltas do djund, aproveitou a opor-
tunidade a ele oferecida por Euphemius, o patriarca da Siclia, para intervir
na ilha, malgrado a oposio da maioria dos fukah' respeitosos dos tratados
que ento ligavam os dois reinos. Um Kd favorvel  interveno, Asad b.
al-Furt, conduziu o assalto. Muito rapidamente a conquista, opondo Bizncio
a Kayrawn, revelou-se penosa e laboriosa. Iniciada em 212/827, ela no se
concluiria, com a tomada de Siracusa (264/878), seno meio-sculo mais tarde.
Entrementes, os aghlbidas estabeleceram-se na Calbria, no Sul da Itlia, de
onde eles assediaram vrias cidades meridionais. O ataque mais dolorosamente
312                                                                    frica do sculo VII ao XI



sentido por toda a cristandade aconteceu em Roma, atacada pelo mar em 23 de
agosto de 846. Aps trs meses de devastaes, no decorrer das quais os lugares
santos no foram poupados, a tragdia teve fim, no retorno, com um imenso
naufrgio. O pnico que tomou conta de toda a Itlia meridional foi ainda
mais intenso quando Ibrhm II, tomando em mos a direo das operaes, l
desembarcou em radjab 289/junho de 902, formulando o louco desejo de unir
Meca, via Roma, e Bizncio. A aventura terminou alguns meses mais tarde,
quando o emir, atingido por disenteria, morreu sob os muros de Cosenza (17
dh l-Ka'da 289/23 de outubro de 902). A partir deste momento comeou um
recuo. Acrescentemos que em favor destes acontecimentos, um pequeno emi-
rado muulmano, fundado por mercenrios que primeiramente mantiveram-se
a soldo dos prncipes italianos, pode existir em Bari, de 847 a 87129.
    Estes violentos enfrentamentos, no mais que acidentes da histria, no nos
devem mascarar a existncia de relaes pacficas e frutuosas, mantidas inclusive
durante as hostilidades. A um sculo de enfrentamentos, pontuado por cerca de
vinte expedies martimas escalonadas entre 84/703 e 135/752, essencialmente
dirigidas contra a Siclia e a Sardenha, sucedeu no Mediterrneo meio-sculo
de paz total (752-807). Trguas foram devidamente concludas e embaixadas
trocadas. A mais clebre  aquela que proveio de Bagd, na primavera de 801,
em direo  Glia carolngia, via Kayrawn. Contrariamente ao que pensara H.
Pirenne, no houve ruptura entre o imprio de Muhammad e o seu consorte de
Carlos Magno30. O comrcio prosseguiu e englobou inclusive produtos estrat-
gicos, como o cobre, o ferro ou as armas  a Ifrkiya fornecia  Siclia  malgrado
as proibies da Igreja, por um lado, e os protestos dos fukah', por outra parte.
Em plena guerra da Siclia, Npoles, Amalfi, Gate, Veneza, Gnova e outros
portos mais prosseguiram as suas trocas com o Magreb, com o qual eles no
hesitariam em concluir alianas. Um incidente  particularmente significativo.
Em 266/880, no distante das ilhas Lipari, uma esquadra aghlbida sofreu uma
grave derrota. Ns sabemos que na ocasio a quantidade de leo apreendida foi
tamanha que provocou uma queda sem precedentes no preo deste produto em
Bizncio. Somente poderia se tratar de uma frota comercial que, dirigindo-se
rumo ao litoral italiano, foi subitamente pega por uma tempestade, o que prova
a manuteno dos circuitos estabelecidos desde a Antiguidade, circuitos que
resistiram a todas as reviravoltas. Podemos reunir muitos outros indcios que se


29    Conferir G. MUSCA, 1964.
30    Consultar acima, sobre a tese de Pirenne, o captulo primeiro.
A independncia do Magreb                                                                       313




Figura 10.4 A e B. O ribt de Ss, cujas escavaes revelaram que ele fora construdo em bases pr-
-islmicas. [Fonte: Instituto Nacional de Arqueologia e Arte, Tnis.]
A. Vista externa da muralha, com a nica porta de entrada  monumental  e a torre-minarete.
B   Ptio interno mostrando os dois andares; a pequena cpula sobressai da entrada monumental
314                                                                               frica do sculo VII ao XI




Figura 10.5 O grande tanque de Rakda, nas proximidades de Kayrawn; os enormes contrafortes quebra-
vam as ondas provocadas pelo vento. [Fonte: Instituto Nacional de Arqueologia e Arte, Tnis.]



orientam todos no mesmo sentido. Um dentre eles merece nfase particular: os
quadrinhos de Joo VIII eram redigidos em papiro muulmano.
   As relaes com a frica subsaariana estiveram, durante o perodo que nos
interessa, ao abrigo da violncia. Certamente, a frica fornecia escravos, porm,
no se tratava, no contexto da poca, de uma atividade forosamente violenta,
nem tampouco de uma vocao prpria  frica. Npoles igualmente vendia
brancos (Sakliba31) ao Magreb, alm de conhecermos o papel de Verdun no
comrcio dos eunucos. No  intil relembrar a este propsito que o termo
escravo deriva do latim medieval sclavus, ele prprio formado a partir de sla
vus (eslavo). Os eslavos, comercializados com o nome de slavons ou esclavons
(Sakliba), haviam fornecido, efetivamente, na Idade Mdia uma abundante
mo-de-obra servil. Em Kayrawn como em Crdova, os negros comprados


31    M. Mohammed El Fasi indica-me que "at os nossos dias, ainda existe nas casas de Fez, no primeiro
      andar, uma pea chamada saklabiyya, porque ela era outrora reservada aos escravos brancos (Sakliba)".
A independncia do Magreb                                                        315



ao Sul do Saara serviam sobretudo no exrcito. Deste modo, eles eficazmente
colaboraram para a expanso ifrikiyana na Siclia e na Itlia meridional, assim
como consolidaram, no interior, o poder dos emires aghlbidas e umayyades.
    As trocas econmicas com a frica subsaariana remontavam  Alta Anti-
guidade e aconteciam, essencialmente, seguindo dois eixos: um margeando o
litoral atlntico e o outro alcanando Zawla, ao Sul da Lbia; contudo, o seu
volume era modesto. A entrada do Magreb na zona rabe-muulmana conferiu
a estas trocas, a partir do sculo II/VIII, uma intensidade jamais conhecida. O
eixo principal das transaes interligava, desde ento, Awdghust (Tegdaoust?)
a Sidjilmsa, verdadeiro castelo d'gua de distribuio do ouro proveniente
do Bild alSdn.  sabido o encanto do negociante-gegrafo Ibn Hawkal32
que, visitando Awdghust em 340/951, pde ver um cheque de 42.000 dinares
emitido para um comerciante desta cidade por um confrade de Sidjilmsa.
Este cheque, smbolo da importncia dos negcios realizados entre estas duas
localidades, revela-nos igualmente que o sistema bancrio, to bem estudado
por Goitein no tocante ao Oriente atravs dos documentos da Geniza33, suben-
tendia igualmente a atividade comercial do Ocidente muulmano. A partir de
Sidjilmsa, as rotas bifurcavam-se em direo a Fez, Tanger e Crdova; rumo
a Tlemcen e Tiret; em direo a Kayrawn e ao Oriente. Elas em seguida se
prolongavam para a Europa, atravs da Siclia e da Itlia, pela pennsula ibrica,
ou mais diretamente, segundo a expresso de C. Courtois, pela "rota das ilhas"
que, margeando a Sardenha e a Crsega, atingia a Provena34.
    Neste contexto de intensa circulao de pessoas e bens, o negociante opu-
lente se fazia, eventualmente, acompanhar de um embaixador e de um influente
homem poltico. Foi justamente o que aconteceu com "Muhammad b. `Arafa, um
homem distinto, belo e generoso, que foi enviado, portando um precioso pre-
sente, junto ao rei do Sudo, por Aflah ibn `Abd al-Wahhb" (208/823-258/871),
o imame de Tiret35. Muhammad b. `Arafa, cuja fortuna era imensa, exerceu em
seguida as mais altas funes na capital rustmida. A embaixada na qual ele
foi locado  a mais antiga que conhecemos segundo os anais diplomticos das
relaes entre o Magreb e a frica subsaariana.




32   Ibn HAWKAL, 1938, pp. 96-97; N. LEVTZION, 1968a; J. M. CUOQ, 1975, p. 71.
33   S. D. GOITEIN, 1967.
34   C. COURTOIS, 1957.
35   Ibn ALSAGHR, 1975, p. 340; J. M. CUOQ, 1975, p. 56.
316                                                           frica do sculo VII ao XI



      Sociedade e cultura
      Densidade e variedade demogrfica
    Jamais o Magreb medieval foi to povoado quanto no sculo III/IX, o que
contribui para explicar a sua expanso alm dos seus limites. Por outra parte, o
movimento acontecia ento, contrariamente ao que se passaria posteriormente,
no sentido da fixao dos nmades, os quais ocupavam sobretudo o Magreb
central e os confins saarianos, assim como em favor da urbanizao. As quatro
grandes capitais polticas e culturais do pas  Kayrawn, Tiret, Sidjilmsa e
Fez  eram obra rabe-muulmana. No sculo II/IX, Kayrawn certamente
contava algumas centenas de milhares de habitantes e Ibn Hawkal estimava que
Sidjilmsa no era nem menos povoada, nem menos prspera36. A concentrao
urbana, todavia, no era idntica por toda parte. O Magreb oriental, a Siclia e a
Espanha eram as zonas mais urbanizadas. No podemos citar todos os grandes
centros urbanos. Digamos somente, para fixar as ideias, que a populao de
Crdova pde ser avaliada, no sculo IV/X, em um milho de almas37.
    A sociedade distinguia-se pela sua enorme diversidade. No Magreb, a base
da populao era constituda pelos berberes, os quais j foram apresentados no
captulo precedente, eles prprios, muito diversos. A Espanha era sobretudo
povoada por iberos e goths. Junto a estes substratos de base se haviam amalga-
mado, sobretudo no Norte e no Sul, diversos elementos algenos. Os rabes,
at meados do sculo V/XI, foram numericamente pouco importantes. Quantos
eram eles na Ifrkiya? Algumas dezenas de milhares, talvez cem ou cento e cin-
quenta mil almas, no mximo. Eles eram ainda menos numerosos na Espanha e
praticamente ausentes no restante do Magreb, onde a sua presena somente se
permitia notar em Tiret, Sidjilmsa e Fez. Os berberes, com maior nfase do
Norte marroquino, se haviam dispersado, por sua vez, em direo  pennsula
ibrica, onde eles foram mais numerosos que os rabes. A estes componentes 
necessrio acrescentar outros dois elementos tnicos cuja importncia numrica
e o papel especfico so ainda mais difceis de avaliar: por um lado, europeus
 latinos, germnicos e at eslavos  globalmente considerados como Sakliba
(esclavos); e por outra parte, negros, encontrados intimamente envolvidos com
a vida das famlias ricas ou simplesmente abastadas, os quais, como j assinala-
mos, serviam nas guardas pessoais dos emires.


36    Ibn HAWKAL, 1938, p. 96.
37    E. LVIPROVENAL, 1950-1953, vol. 3, p. 172.
A independncia do Magreb                                                      317



     As camadas sociais
    A sociedade do Ocidente muulmano medieval era composta,  imagem da
Antiguidade mais prxima, de trs categorias de homens: os escravos, os antigos
escravos (geralmente chamados mawl) e os homens nascidos livres.
    Vejamos primeiramente os escravos. Praticamente ausentes das zonas com
predominncia nmade e com forte estruturao "tribal", o seu nmero tornou-
-se considervel nos grandes centros urbanos. Avaliando este nmero em um
quinto da populao nas grandes capitais da Ifrkiya e da Espanha, tem-se
a impresso, pela leitura dos nossos textos, de se estar aqum da realidade.
Como em outras camadas sociais, em seu meio h indivduos felizes e infelizes.
Encontramos estes indivduos nos harns  favoritas brancas ou negras e eunu-
cos  assim como em todos os setores da vida econmica, em todos os nveis,
desde o rico intendente, gestor da fortuna do seu mestre, at o campons pobre
ou o domstico miservel, especializado nas agruras relativas ao abastecimento
em gua e madeira. Entretanto, de modo geral, a condio de escravo no era
invejvel, malgrado as garantias do fikh (lei) e os feitos excepcionais de alguns.
O seu papel econmico era, contudo, imenso. Eles representavam as mquinas-
-ferramentas da poca.  ntida a impresso, no tocante  parte oriental do
Magreb e relativamente  Espanha, que uma poro muito ampla da mo-de-
-obra domstica, artesanal e rural  sobretudo quando se tratava de grandes
domnios territoriais, por vezes englobando vrios vilarejos  era de condio
servil ou semisservil. Porm, a condio de escravo, to penosa quanto fosse,
no era definitiva. Era possvel super-la. Sabe-se o quanto o Coro insiste nos
mritos da libertao. Igualmente, as fileiras de escravos eram, graas aos efeitos
cumulativos da libertao e da compra da liberdade, incessantemente diminudas
pela passagem para outra categoria social no menos importante: os mawl. A
mobilidade social, fato concreto, atuava em favor da liberdade.
    Os mawl por libertao, embora juridicamente de condio livre, perma-
neciam agrupados em torno do seu antigo mestre para o qual eles formavam a
clientela. Sob o mesmo nome encontrava-se igualmente uma massa de pessoas
humildes, no-rabes, os quais se dispunham voluntariamente sob a proteo de
um personagem influente  um rabe  de quem eles adotavam a nisba (ascen-
dncia "tribal"), tornando-se assim a sua gente. Mestres e clientes encontravam
nos laos orgnicos do wal38 cada um o seu proveito: o cliente usufrua da


38   Wal: relao entre o mestre e o escravo ou antigo escravo.
318                                                           frica do sculo VII ao XI



proteo do mestre e o mestre teria tanto mais prestgio e poder quanto mais
numerosa fosse a sua clientela.
    A massa de homens livres dividia-se por sua vez em duas classes: uma mino-
ria aristocrtica, influente e geralmente rica, a khssa; e uma maioria de plebeus,
a `mma. A khssa era a classe dirigente. O seu perfil pendia para a fluidez. Ela
reunia a elite de nascena ou de espada, a elite intelectual e todas as pessoas
afortunadas de modo geral. A opulncia de alguns dentre os seus representantes
 tais como os Ibn Humayd, uma famlia de vizires aghlbidas que haviam enri-
quecido imensamente com o comrcio do marfim  atingia por vezes propor-
es fabulosas. A mma era composta de uma massa de camponeses, pequenos
proprietrios, artesos, lojistas e por uma massa de assalariados que alugava os
seus braos nos campos e nas cidades. Em seus limites inferiores, a sua misria
beirava a total misria. No entanto, a esperana de elevar-se at a khssa no
estava proibido aos seus membros. Nenhuma estruturao jurdica rgida se
opunha a esta mudana de condio.


      Osmose relgioracial
    s fronteiras tnicas e sociais sobrepunham-se outras de natureza confes-
sional, as quais no necessariamente seguiam os mesmos planos. No momento
da conquista, coabitavam no Magreb a religio tradicional, o judasmo e o
cristianismo. O isl conquistou adeptos em todos os meios e tornou-se, no
sculo III/IX, incontestavelmente majoritrio. Entretanto, embora a religio
tradicional no subsistisse seno residualmente, o judasmo e o cristianismo
conservaram numerosos adeptos junto aos autctones. Trata-se dos clssicos
dhimm, os protegidos do isl, gozando, com a liberdade de culto, de um
estatuto fiscal e jurdico  parte. Na Espanha, eles tinham  sua frente um
comes, igual e eventualmente chamado defensor ou protector. Salvo aquando de
alguns raros e curtos perodos de tenso, os dhimm e os muulmanos tinham
o mesmo estilo de vida e viviam em boa vizinhana, como amplamente com-
provam muitas anedotas. No h sinal nem de revolta religiosa nem de gueto.
Em contrrio, a simbiose era por vezes tamanha que ocorria junto a alguns
cristos, ao menos nos meios populares, uma verdadeira venerao pelos asce-
tas muulmanos clebres do seu entourage. A simbiose igualmente realizava-se
em um nvel ainda mais profundo, no interior dos lares. As djriya (escravas
esposas de muulmanos) que haviam conservado as suas convices crists
ou judias, na realidade, no eram raras. As crianas fruto destas unies mistas
A independncia do Magreb                                                     319



seguiam, por via de regra, a religio do pai. Porm, eventualmente assistia-se
a curiosos compromissos. Assim sendo, em algumas localidades da Siclia, as
meninas pertenciam  confisso da me.
    O Ocidente muulmano medieval igualmente ignorara os preconceitos de
pigmentao de pele. Os rabes, certamente, consideravam-se superiores, ns j
o observamos. Entretanto, eles se misturavam sem preconceitos com as outras.
As djriya negras no eram menos apreciadas que as outras escravas e mulatas,
sem apresentarem nenhum complexo, estavam presentes em todos os nveis
da hierarquia social. A diversidade relgiorracial era, deste modo, inerente 
estrutura de base da clula familiar. Por conseguinte,  medida que as unies
interconfessionais e inter-raciais desenvolviam-se, as genealogias, malgrado
o papel dominante conferido ao pai no sistema rabe, escureceram-se.  da
natureza das coisas que o sangue azul se rarefaa e se descolora. Em suma, a
sociedade hispano-magrebina, espantosamente tolerante em uma Idade Mdia
reputada como fantica, particularmente compsita e heterognea (nas suas duas
extremidades), foi um tecido de entidades simultaneamente muito especficas
e intimamente ligadas entre si, graas a todo um sistema de relaes mltiplas
e complexas.


     Lnguas, artes e cincias
    Na poca que nos interessa, falavam-se vrias lnguas no Ocidente muul-
mano. Primeiramente, havia as lnguas berberes, muito diferentes entre si e espa-
lhadas por todo o Magreb, especialmente nos campos e nas cadeias montanhosas
dificilmente permeveis ao rabe. Estes falares no foram, no entanto, capazes
de atravessar o Mediterrneo no rastro dos exrcitos. No h vestgios destes
falares na Espanha e na Siclia, onde as lnguas locais se haviam confrontado
exclusivamente com o rabe. Na Espanha, fora possvel o desenvolvimento de
uma lngua romano-hispnica derivada do latim e muito amplamente empre-
gada, tanto nos campos quanto nas cidades. Ns identificamos, igualmente, os
vestgios de uma lngua romana ifrikiyana, provvel e particularmente usual
nos meios cristos urbanos39. Porm, todos estes idiomas eram falados de modo
exclusivo. A nica lngua cultural, escrita, era o rabe. Ele era empregado no
to somente pelos muulmanos, mas, igualmente, pelos dhimm, os quais, como



39   T. LEWICKI, 1951-1952.
320                                                                 frica do sculo VII ao XI



o juiz Maimonide40, souberam com ela eventualmente expressar pensamentos
particularmente vigorosos.
    Os beros culturais eram numerosos. Todas as capitais, todas as cidades
importantes tinham os seus poetas, os seus adb (literatos) e os seus fukah'
(telogos). Por vezes, foram requeridos os mais famosos dentre estes ltimos
 tal o caso de Tiret, ameaada pelo i'tizl  at nos confins dos montes dos
nafsa. Entretanto, ns no nos informamos com certa preciso seno sobre os
trs beros, incontestavelmente os mais brilhantes: Kayrawn, Crdova e Fez.
Neles, como em todo o Ocidente muulmano, as letras eram muito depen-
dentes do Oriente. Admirava-se os mesmos poetas e os mesmos adb, alm
de se desenvolver as mesmas profisses. A rihla, a viagem que combinava os
mritos da peregrinao e do estudo, mantinha entre as capitais do Ocidente
e do Oriente, um contato estreito e contnuo. Os magrebinos, particularmente,
demonstravam pelos seus mestres orientais uma admirao que beirava a supers-
tio. Os homens e as obras assim circulavam com uma rapidez que salta aos
olhos, tanto mais se notarmos como os caminhos eram longos, penosos e por
vezes perigosos. O melhor exemplo da presena da cultura oriental no corao
do Ocidente muulmano talvez seja o `Ikd alFard, antologia composta pelo
adb cordovs Ibn `Abd Rabbihi (246/860-328/939)41. Somente encontramos
excertos de autores orientais, a tal ponto que al-SHib b. `Abbd, clebre vizir e
homem de letras da segunda metade do sculo IV/X, espantou-se ao consult-la:
"Eis a nossa prpria mercadoria que nos  remetida!"
    No entanto, Kayrawn, Crdova e as outras capitais tambm tinham os seus
poetas e homens de letras que, sem terem atingido a fama dos grandes canto-
res orientais, no teriam contudo desfigurado o Ikd. Citemos, para Crdova,
o panegirista Ibrhm b. Sulaymn al-Shm, cantor de `Abd al-Rahmn II
(207/822-238/852); Faradj b. Sallm, lexicgrafo, poeta e mdico, que, durante
uma viagem ao Iraque, se tornara amigo de al-DjHiz (morto em 255/868), de
quem ele introduziria a obra na Espanha, especialmente o Bayyn; assim como
`Uthmn b. Muthann (179/795-273/866), quem trouxe consigo do Oriente o
Dwn do clebre Ab Tammm, quem seria o seu mestre em poesia. Igual-
mente em Ifrkiya, nos meios cultos, tinha-se  no menos que em todo o
restante do mundo muulmano  o culto dos versos e todos no mnimo um
pouco poetas. Alguns prncipes utilizavam inclusive a rima com bom humor: um
dentre eles, Muhammad b. Zydat Allh II (morto em 283/896), compor duas

40    Famoso mdico e filsofo, nativo de Crdova, morto em 1204.
41    lbn `ABD RABBIHI, 1876.
A independncia do Magreb                                                     321



antologias, infelizmente perdidas: Kitb Rht alKalb e Kitb alZahr. Citemos
igualmente o Lakt alMardjn, a Rislat alWhida e o Kutb alAdad  todos
igualmente perdidos  de Ab `l-Yusr al-Ktib (morto em 298/910-911), que
dirigira o escritrio da chancelaria para os aghlbidas e, posteriormente, para
os fatmidas. A capital dos aghlbidas tambm possua os seus fillogos, os
quais foram assaz clebres ponto de serem reunidos em uma "classe"  parte por
al-Zubayd, em seus Tabakt alNahwiyyn (as classes dos gramaticistas). Mas
at onde sabemos, a filosofia, no Oriente em seus primrdios j com al-Kind
(morto aproximadamente em 256/870) a alcanar seus postos de nobreza, no
teve  e, inclusive, jamais teria  nenhum direito citadino. A cidade dedicada por
Sd `Ukba  defesa do isl no podia compor com uma liberdade de pensamento
to suspeita. Esta disciplina encontrava-se inclusive ainda em seus balbucia-
mentos, particularmente com Ibn Masarra (morto em 319/931)42, at mesmo
na Espanha onde ela seria mais tarde ilustrada por mestres de renome universal.
    Em todo o mundo muulmano medieval, no se apreciava apenas rimar e
filosofar na poca. Igualmente gostava-se de beber  algumas bebidas embria-
gantes, como o nabdh, eram consideradas lcitas por algumas escolas de fikh ,
cantar, danar, sobretudo na corte e nos meios aristocrticos ou burgueses. Toda
uma etiqueta  da qual a literatura fez eco  fixou a conduta cortes a seguir-
-lhe as normas. Sobretudo a Ifrkiya e a Espanha no foram exceo  regra.
As djriya formadas na escolas de canto e dana de Medina ou Bagd eram
muito solicitadas e o seu preo atingia por vezes somas fabulosas. Os compo-
sitores, clebres msicos, no eram menos requeridos. Um dentre eles, Ziryb
(173/789-238/852), fez particular fortuna e exerceu considervel influncia.
Ziryb era um negro. Tratava-se de um mawl dos abssidas. A este ttulo, ele
foi admitido na clebre escola de canto e dana dirigida por Ishk al-Mawsil
(150/767-235/850). Muito rapidamente, graas ao domnio que adquiriu e pelos
dons manifestados, ele excitou a inveja do seu mestre e foi expatriado. Aps
passar algum tempo em Kayrawn, ele se dirigiu a Crdova, convidado por
al-Hakam I (180/796-206/822), quem enviou ao seu encontro Mansr, um
cantor judeu da corte. Al-Hakam morreu e Ziryb foi recebido pelo seu sucessor,
`Abd al-Rahmn II (206/822-238/852), com considerao principesca. Ziryb
transformou profundamente os hbitos da corte e da fina flor da sociedade.
Ele trouxe consigo o esprito corts e o refinamento. Ele ensinou aos homens e
mulheres a arte de se portar  mesa, da maquiagem, dos cuidados com os cabelos


42   Conferir M. ASN PALACIOS, 1914.
322                                                                        frica do sculo VII ao XI



e da adaptao da higiene pessoal segundo as horas do dia e as circunstncias. A
sua msica, renovada por certas inovaes de sua autoria, rapidamente ultrapas-
sou os antigos moldes e atravessou os sculos para chegar at os nossos dias. O
mlf, ainda em voga atualmente no Magreb e o flamenco espanhol representam
os longnquos descendentes da sua revoluo musical43.
    Nesta poca na Espanha, as cincias ainda no haviam atingido a sua matu-
ridade. Entretanto, a escola de medicina de Kayrawn, com mestres tais como
Ishk b. `Imrn e Ziyb b. Khalfn (morto em 308/920-921), j possua certo
prestgio. Digamos finalmente que devemos ao sculo III/IX, alm das realiza-
es da arquitetura militar ou principesca, dois dentre os mais belos monumen-
tos do Isl: a mesquita de Kayrawn, sobretudo obra dos aghlbidas, e aquela de
Crdova que, fundada por `Abd al-Rahmn I em 169/785, no encontraria as
suas propores definitivas seno dois sculos depois, sob o governo do pode-
roso "prefeito do Palcio" Ibn Ab `mir (377-988). Lembremos igualmente
que a clebre mesquita-universidade de al-Karwiyyn, em Fez, foi fundada em
245/859 por uma nativa de Kayrawn.


      O pensamento religioso
    A cultura, durante toda a Idade Mdia, foi sobretudo assunto de clrigos,
ou seja, quando se trata do mundo muulmano, dos fukah'. No sculo III/IX,
nenhuma escola havia triunfado totalmente, do que deriva certa liberdade de
expresso e a violncia das paixes. Curiosamente, a capital onde esta liberdade
apresentava menor dimenso foi Crdova. Havia maior liberdade de expresso,
como prova Ibn al-Saghr, em Tiret, embora dominada pelos ibaditas, reputa-
dos como intransigentes. No tocante a Kayrawn, ns sabemos que at ao menos
a metade do sculo III/IX, a sua mesquita estava aberta aos crculos dos ibaditas,
dos sufritas e dos mutazilitas, o quais ousavam defender e ensinar abertamente
as suas opinies "heterodoxas" ou "herticas", perante e com o conhecimento dos
sunitas. Porm, a tolerncia, ampla ou limitada, no correspondia, naturalmente,
 indiferena. Muito em distante disso. Os confrontos eram vivos, veementes e
geravam, eventualmente, violentas altercaes, seguidas das vias de fato. Tal foi,
por exemplo, o caso de Asad (morto em 213/828), o inconteste chefe do sunismo
em seu tempo, o qual determinou a retratao, em plena sesso e a golpes de



43    Acerca de Ziryb, conferir E. LVIPROVENAL, 1950-1953, vol. 2, p. 136 e seguintes.
A independncia do Magreb                                                                   323




Figura 10.6 Porta e arcos cegos da fachada oeste da mesquita de Crdoba. [Fonte:  Werner Forman
Archives, Londres.]
324                                                          frica do sculo VII ao XI



sapato, de Ibn al-Farr', chefe da escola mutazilita, que ousara contradiz-lo em
seu prprio crculo acerca do problema da viso de Deus no alm44.
    O sculo III/IX foi, efetivamente, uma poca apaixonada pelo direito e pela
teologia, um vasto canteiro de edificao e organizao do presente e do futuro.
Afirmaes, negaes, refutaes e contrarrefutaes sucediam-se portanto, ver-
bais e escritas, invariavelmente veementes ou indignadas. Uns, os mutazilitas no
poder em Kayrawn, bebiam no arsenal da dialtica, outros, os sunitas majori-
trios em meio ao povo e frequentemente na oposio, inspiravam-se nas guas
da tradio. Assim sendo, modernismo e integrismo enfrentavam-se j desde
ento! Publicaremos em breve alguns escritos polmicos que nos faro reviver
o ambiente em Kayrawn.
    Quais seriam os temas das discusses? Da irdj', em outros termos, da F e
da salvao. A f, seria ela somente convico ou formulaes e obras? No pano
de fundo deste debate abstrato e metafsico perfilavam-se problemas prticos
tangentes  poltica e  tica. Discutia-se igual e naturalmente acerca do Kadar,
em outros termos, do livre arbtrio e do determinismo. Problema central, estru-
turador da i'tizl, o Kadar determinou que muita tinta fosse usada em todas as
religies e todas as filosofias, sem que ningum jamais tenha logrado realmente
resolver a quadratura do crculo. Sabemos atualmente que este problema apai-
xonava as multides ifrikiyanas e que as pessoas se empurravam, entre outros,
sob os muros do ribt de Ss, para assistirem s disputas contraditrias. Havia
paixo igualmente manifesta acerca de muitos outros problemas: os atributos
de Deus, a sua viso no alm, a natureza do Coro etc. A teologia estava, desta
forma, no corao de todos os debates. A atmosfera dela estava saturada. Em
certo sentido, o sculo III/IX foi muito intelectualizado.
    Posteriormente, a partir da metade deste sculo  data na qual Sahnn
(160/777-240/854) expulsou da grande mesquita de Kayrawn os "partidrios
da heresia" , quando a ortodoxia comeou a ganhar terreno, as querelas em
nada se apaziguaram. Elas surgiram ou se exasperaram, no seio do sunismo, e
as fissuras tampouco foram menos graves nas fileiras ibaditas ou sufritas.
    Com este fundo passional, de polmica e luta, algumas siluetas de grandes
fukah' destacam-se nitidamente: no tocante  Espanha, aquela de `Is b. Dnr
(morto em 212/827), de `Abd al-Malik b. Habb (morto em 238/849); e para
Kayrawn, aquelas de Asad b. al-Furt (142/759-213/828) e do seu rival Sahnn
b. Sa'd al-Tankh. Todos, salvo Asad que foi sobretudo reivindicado pelos


44    M. TALBI, 1966, p. 220.
A independncia do Magreb                                                   325



hanafitas, foram os artfices do triunfo do malikismo no Ocidente muulmano.
Especialmente Sahnn desempenhou um papel decisivo nesta evoluo. A sua
Mudawwana, monumental compndio jurdico, fixou e imps definitivamente
o ensino de Malik. Mestre venerado em seu tempo, Sahnn teve um impressio-
nante nmero de discpulos, dizem-nos, cerca de setecentos "verdadeiros sbios,
tochas em cada cidade". Estes sbios luzentes iluminaram alm da Ifrkiya, bem
entendido, especialmente a Espanha. Efetivamente, os espanhis apressaram-se,
em grande nmero, na via de Sahnn. Igualmente, eles so mencionados no
sculo III/IX, em Kayrawn, tal como se falaria a respeito dos escoceses ou dos
alemes, em Paris. `Iyd cita-nos, em seus Madrik, os nomes de cinquenta e sete
fukah' espanhis que haviam trazido ao seu pas o ensino do mestre nativo de
Kayrawn e haviam difundido a sua obra magna: a Mudawwana45.
    O perodo que acabamos de rapidamente passar em revista foi decisivo para
o destino do Magreb. Esta regio da frica adquiriu nesta poca a sua inde-
pendncia, encontrou para as suas fronteiras o traado que, em termos gerais,
manteve-se at os nossos dias, alm de ter moldado os traos essenciais da sua
fisionomia cultural e espiritual.




45   M. TALBI, 1962.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                               327



                                         CAPTULO 11


       O papel do Saara e dos saarianos nas
          relaes entre o Norte e o Sul
                                            Tadeusz Lewicki




    No presente captulo, ns estudaremos a histria do Saara e o papel que
este deserto desempenhou nas relaes entre a frica do Norte e o Sudo, do
sculo II/VIII ao sculo VI/XII. As fontes informativas das quais dispomos para
retraar o passado do Saara nesta poca so unicamente, se pusermos  parte
a arqueologia e a tradio, as fontes escritas de origem rabe. As informaes
que elas nos oferecem sobre o Saara surgem somente no sculo II/VIII e so
originalmente muito raras. Foi somente no sculo IV/X que elas se tornaram
mais frequentes, para atingirem o seu apogeu nos sculos V/XI e VI/XII com
as duas grandes obras geogrficas de al-Bakr e al-Idrs, ricas em dados sobre
o Saara e o Sudo1.


    Ecologia e populao
   Os limites do Saara so relativamente vagos, haja vista que ao Norte e ao
Sul a passagem para o deserto acontece em geral progressivamente. Entretanto,
levando em conta diversos fatores geogrficos (sobretudo o clima), podem-se
definir os limites do Saara deste modo: no Leste, o limite natural do Saara
(incluindo o deserto lbio)  o Nilo e, no Oeste, o Oceano Atlntico. No Norte,

1    Por esta razo, ultrapassamos ligeiramente os limites cronolgicos estabelecidos para este volume.
328                                                           frica do sculo VII ao XI



o Saara atinge o planalto lbio, o deserto dos Syrtes, o Djabal Nafsa, o Shott
Djard, o Shott Melghr, o Atlas saariano e o Wd Dar'a, abraando desta forma
os centros comerciais do Norte do Saara, como Fezzn, Ghadmes, Wd Rgh,
Wargla e Sidjilmsa, os quais prosperaram atravs do comrcio com o "pas
dos negros" (Bild alSdn). Quanto ao limite meridional do Saara, ele passa
aproximadamente pela foz do Senegal, pela ponta da curva do Niger e pelo
Chade (abraando o Ennedi), indo reencontrar o Nilo aproximadamente no 16o
de latitude norte. O ar seco e a falta d'gua, fenmenos fundamentais do clima
saariano, transformam as pastagens do Saara em ambientes muito espalhados
e os palmeirais e centros de jardinagem insignificantes, excetuando-se o Saara
setentrional. Estas condies contriburam para tornar pouco numerosa a popu-
lao deste deserto, em toda a alta Idade Mdia e ainda hoje, alm de transfor-
marem as grandes reas saarianas, como, por exemplo, o Madjbat al-Kubr, no
Oeste do Saara, e o deserto lbio, em territrios completamente despovoados,
com raras excees. Entretanto, apesar destes fatos, o Saara no representava
somente uma barreira, mas, igualmente, uma ligao entre os pases da frica
Setentrional e o Sudo. Com efeito, ele desempenhava um papel extremamente
importante nas relaes, sobretudo comerciais, entre o Norte e o Sul. As rotas
das caravanas, raras e difceis, atravessando este deserto, eram frequentadas na
poca muulmana por comerciantes originrios do Magreb, da Ifrkiya, do Egito
e dos diferentes centros comerciais do Saara setentrional. O principal papel neste
comrcio entre os pases do Norte e o Sudo era desempenhado, justamente,
pelos negociantes norte-africanos e egpcios, ao lado dos comerciantes berberes-
-ibaditas provenientes do Bild alDjard e de Sidjilmsa.
    A populao do Saara era composta, do sculo II/VIII ao sculo VI/XII, de
elementos muito diversos. O Saara ocidental e central era habitado pelos povos
de origem berbere, por vezes, mestiados com o sangue dos negros africanos.
No tocante ao Saara oriental, aqui compreendido o deserto lbio, a sua poro
setentrional era igualmente ocupada por indivduos de origem berbere, ao passo
que a sua parte meridional era povoada pelos povos negroides, pertencentes aos
diferentes grupos tubu, como os zaghwa, os teda e os dawa. Estes povos atin-
giam ao Norte os osis de Kufra e Tazerbo, ou seja, aproximadamente 26o de
latitude. Deve-se notar que alguns fatos antropolgicos e culturais tubu sugerem
uma importante mestiagem lbio-berbere.  poca da qual nos ocupamos neste
captulo, acrescentemos ainda que, no Saara, no faltavam rabes, dentre os quais
se encontravam elementos citadinos e pastores nmades.
    A populao berbere do Saara, que teve um papel extremamente importante
para o estabelecimento das relaes entre a frica do Norte e o Egito, por um
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul               329



lado, bem como com o Sudo, por outra parte, pertencia a dois ramos berberes,
a saber, os sanhdja e os zanta. Os sanhdja eram sobretudo nmades criadores
de camelos, ovinos e caprinos. Quanto aos zanta e aos outros agrupamentos
berberes aparentados a este ramo, a exemplo dos mazta e dos lawta, eles eram
em parte nmades e em parte sedentrios. Foram fraes destes agrupamentos
que fundaram, provavelmente em uma poca posterior ao domnio romano,
os belos osis de Sf, Wd Rgh, Tidikelt e Twt, no Saara argelino. Esta
gente era experiente escavadora de poos, eles cavaram os canais subterrneos
de captao e aduo d'gua, chamados kant, em rabe clssico, e foggra, em
rabe dialetal do Sul argelino. Eles l igualmente abriram poos artesianos. Estes
dois mtodos so muito antigos na frica do Norte e o procedimento de cavar
poos artesianos foi-nos descrito, no sculo VIII/XIV, pelo historiador rabe
Ibn Khaldn, que menciona tais poos nos vilarejos de Tuwt, Gurra, Wargla
e Rgh2. Tudo leva a crer que os zanta, com os quais a invaso rabe se deparou
na Tripolitnia, aprenderam a arte de cavar os foggra e os poos artesianos com
as antigas populaes lbio-berberes do Saara oriental. No referente aos poos
artesianos dos osis egpcios, eles so mencionados, entre outros, por Olym-
piodor, escritor grego do sculo V da era crist. Notemos ainda que Herdoto
(sculo V antes da era crist) cita a abundncia e a fecundidade das palmeiras
que crescem em Augla (Awdjla) e junto aos garamantes do Fezzn.
     poca da qual aqui nos ocupamos, somente os tubu da metade meridional
do Saara oriental ainda estavam ligados  sua religio tradicional. Todos os
outros saarianos, salvo talvez certo nmero de zanta judaizados do Saara do
Norte, converteram-se paulatinamente ao isl. A islamizao dos berberes habi-
tantes do Saara comeou logo na primeira metade do sculo II/VIII. Segundo
Ibn Khaldn, o grupo de sanhdja lamtna, percorrendo o Saara ocidental
como nmade, no abraaria o islamismo seno algum tempo aps a conquista
da Espanha pelos rabes, em outros termos, na primeira metade do sculo II/
VIII3. As palavras de Ibn Khaldn encontram uma confirmao em uma passa-
gem do tratado geogrfico de al-Zuhr (aproximadamente 546/1150) segundo
o qual alMurbitn (os almorvidas), ou seja, os lamtna do Saara ocidental,
converteram-se ao isl durante o reinado do califa Hishm ibn `Abd al-Malik
(105/724-125/743), simultaneamente  converso ao isl dos habitantes do
osis de Wargla4.

2    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 3, p. 286.
3    Ibid., vol. 2, p. 65; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 327.
4    Al-ZUHR, 1968, p. 181; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 99.
330                                                                  frica do sculo VII ao XI



    Muito provavelmente, os sanhdja e os zanta do Saara adotaram original-
mente, como os berberes da frica do Norte, o isl ortodoxo. Porm, posterior-
mente, quando os berberes norte-africanos rejeitaram o sunismo em razo da
opresso poltica e fiscal dos califas umayyades e uniram-se, aproximadamente
em meados do sculo II/VIII e sobretudo os grupos oriundos dos zanta, a duas
seitas kharidjitas inimigas da sunna, a saber aquela dos sufritas (representantes
das tendncias radicais) e aquela dos ibaditas (de tendncia mais moderada),
os zanta saarianos igualmente juntaram-se, ao menos parcialmente, a estas
duas seitas. Os saarianos provenientes dos sanhdja, os quais eram vagamente
muulmanos desde o sculo II/VIII, no se tornariam ortodoxos seno apro-
ximadamente em meados do sculo V/XI, graas  propaganda almorvida.
Quanto aos berberes que tinham a sua origem junto aos zanta e que habitavam
os vilarejos do Saara tripolitano, de Sf, Wd Rgh e Wargla, eles se ligaram
rapidamente ao ibadismo, religio adotada pelos seus irmos da Berbria oriental
e central, os quais l criaram vrios imamados ou Estados, comeando por um
pequeno imamado fundado no ano 125/743 por indivduos hawwra, nafsa e
zanta, no Noroeste da Tripolitnia, e terminando pelo imamado rustmida de
Thert, cujo primeiro chefe, `Abd al-Rahmn ibn Rustum, foi eleito imame em
162/776-777. Este imamado subsistiu at 297/909, data na qual ele tombou
diante do exrcito de Ab `Abd Allh al-Shi', fundador, sobre as runas deste
Estado, assim como sobre aquelas de outros Estados muulmanos da frica do
Norte, do poderoso Imprio Fatmida5.
    Todos os berberes ibaditas da frica do Norte reconheceram a supremacia do
imamado de Thert que englobava, no Sul, os osis de Wd Rgh e de Wargla.
Foi em Sadrta, uma cidade situada no osis de Wargla, que se refugiou o ltimo
imame rustmida de Thert, aps a conquista desta ltima cidade pelo exrcito
fatmida; sonhou-se durante certo tempo ali reconstituir o imamado ibadita.
    Os miknsa, os quais aderiram s crenas sufritas, estabeleceram-se no
Tafillet (no Sudeste do atual Marrocos), onde fundaram um pequeno Estado
sufrita, cuja capital tornou-se a cidade de Sidjilmsa, fundada em 140/757-758.
Esta cidade, governada pela dinastia dos Ban Midrr e situada na entrada do
deserto, tornou-se rapidamente um grande centro de comrcio com o Sudo,
onde os chefes sufritas reinaram at a metade do sculo IV/X. A despeito das
diferenas dogmticas, as relaes entre a dinastia ibadita de Thert e os prn-
cipes sufritas de Sidjilmsa eram muito amigveis. As fontes rabes notam,


5     Consultar acima o captulo 3 e, mais adiante, o captulo 12.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul   331
Figura 11.1    O Saara. [Fonte: I. Hrbek.]
332                                                          frica do sculo VII ao XI



efetivamente, uma aliana por casamento entre estas duas dinastias, ao final do
sculo II/VIII e no incio do sculo III/IX. Sem dvida, foi o crescente papel
desempenhado pela cidade de Sidjilmsa no comrcio trans-saariano que deter-
minou esta aproximao.
    Finalmente, alguns grupos de zanta, habitantes do Sudoeste da atual Arglia
e nos vilarejos saarianos, aderiram  seita muulmana de Mu'tazila ou Wsiliyya,
oposta ao isl ortodoxo,  imagem dos kharidjitas6. Pode-se supor que o territ-
rio ocupado pelos zanta mutazilitas englobasse, de um lado, os altos planaltos
situados no Sul de Tiret e do outro a regio do Mzb, cujos habitantes eram
wasilitas, antes da sua converso ao ibadismo.
    A cidade de Sidjilmsa, no Tafillet, capital do Estado sufrita dos midra-
ritas, eram um dos terminais de uma rota de caravanas que ligava a frica do
Norte ao antigo reino de Gana, "pas do ouro" dos gegrafos rabes medievais.
Ali passava uma via comercial em direo  cidade de Thert (atual Tiret),
capital do imamado ibadita dos rustmidas, o qual se tornaria desde o reinado
do primeiro imame, entre 160/776-777 e 168/784-785, um importante centro
poltico e econmico. Este considervel mercado atraa no somente numerosos
comerciantes norte-africanos, ibaditas ou no, mas igualmente empreendedores
mercadores rabes de Kayrawn, Basra e Kfa. Ns o sabemos graas a Ibn
al-Saghr, historiador de Thert, que escrevia no incio do sculo IV/X7. Uma
via interligando Thert ao Sudo Ocidental passava por Sidjilmsa para alcanar
Gana. Outra rota ligava Thert  cidade de Gao; ela j estava em uso antes da
morte do imame rustmida `Abd al-Wahhb, em 208/8238. Aparentemente,
esta ltima passava pelos osis de Wd Rgh e de Wargla, os quais igualmente
participavam do comrcio sudans de Thert. Os ibaditas saarianos continuavam
a se ocupar do comrcio com o Sudo, inclusive aps a queda do Estado dos
rustmidas, em 297/909.
    Lado a lado dos mercadores ibaditas de Wd Rgh e de Wargla, os iba-
ditas de Ghadmes e de Zawla (no Fezzn) organizavam, com a ajuda dos
mercadores ibaditas do Bild al-Djard (no Sul da Tunsia) e dos comerciantes
originrios do Djabal Nafsa, expedies de longo percurso rumo a diferentes
regies sudanesas. Os comerciantes berberes com a responsabilidade destas
relaes pertenciam, geralmente, s diferentes fraes dos Zanta. No tocante
aos saarianos do ramo sanhdja, eles serviam frequentemente como guias e

6     Consultar acima o captulo 10.
7     N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 24.
8     N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 25.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                            333



condutores para as caravanas equipadas pelos comerciantes norte-africanos de
Sidjilmsa, Thert, Tlemcen, Kayrawn ou de Trpoli, caravanas cuja segurana
era garantida pelos chefes sanhdja de Awdghust, Tdmekka ou de alhures.
    Aps esta rpida passagem em revista pela situao tnica, religiosa e eco-
nmica das populaes saarianas, voltemo-nos para a histria das regies par-
ticulares do Saara na poca tratada neste volume.


     O deserto lbio
    Quatro osis do deserto lbio, a saber, Khrja, Dkhla, Farfra (Farfrun dos
gegrafos rabes medievais) e Bahriyya (Bahnsat al-Wh), formavam, desde
a conquista rabe do Egito, um pequeno Estado muulmano governado pela
dinastia de al-`Abdn, cuja origem remonta aos berberes lawta. Este Estado
foi mencionado pela primeira vez na segunda metade do sculo VIII (corres-
pondente ao sculo III da hgira), pelo gegrafo e astrnomo al-Fazr. Ele o
denomina `Amal Wh ou "pas dos osis"9. Posteriormente, aproximadamente
na metade do sculo IV/X, AI-Mas'd faz uma breve descrio do "pas dos
osis", baseado em um relato realizado em 330/941-942. Um prncipe berbere
chamado `Abd al-Malik ibn Marwn, que tinha sob as suas ordens vrios milha-
res de cavaleiros, l reinava. Alm dos berberes lawta, havia neste "pas dos
osis" uma numerosa populao crist de origem copta, assim como nmades
rabes pertencentes  cabila de Ban Hill. Os prncipes deste Estado residiam
em dois bairros de Dkhla, um chamado al-Kalamn e o outro al-Kasr. Vrias
vias interligavam o "pas dos osis" s diferentes cidades do Egito, por um lado,
e ao osis de Santarya (Swa), por outro. Os osis possuam muitas tamareiras,
diversas rvores frutferas, assim como minas de alume10.
    Um percurso de dez dias de caminhada interligava o osis de Bahnsat
al-Wh (Bahriyya) ao osis de Santarya ou Swa (antigo Ammonium), o qual,
do sculo IV/X ao sculo VI/XII, era a juno de todas as rotas ocidentais. A
mais importante ligava Santarya ao Egito, de um lado, bem como ao Magreb
e ao Kawr, de outro. Al-Idrs fala de uma via que ligava Santarya ao porto de
Lakka (a Leste de Tobrouk), acrescentando que Santarya era rica em palmeiras
e rvores frutferas. Tudo leva a crer que Santarya permaneceu por muito tempo



9    AI-MAS'D, 1861-1877, vol. 4, p. 39; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 32.
10   AI-MAS'D, 1861-1877, vol. 3, pp. 50-52.
334                                                                       frica do sculo VII ao XI



independente do Egito. Foi somente no sculo VII/XIII que ela foi anexada 
provncia de Alexandria11.
    Na poro mais recuada do "pas dos osis" encontrava-se um canto muito
rico, chamado Wh Sebr ("o osis de Sebr"), cujo acesso era muito difcil e
onde, no sculo V/XI, "jamais ningum pde chegar, salvo alguns viajantes que
se haviam perdido no deserto12". O autor annimo do tratado geogrfico intitu-
lado Kitb alIstibsr, composto em 587/1191, acrescenta que este canto, por ele
chamado Wh Dbr (mera deformao de Sebr), era muito rico em tamareiras,
cereais e todo tipo de frutas, assim como em minas de ouro13. Este ltimo fato
no passa, em nossa opinio, de uma aluso ao comrcio do ouro com o Sudo
Ocidental, de onde outrora o ouro chegava ao Egito. Muito mais precisas so
as informaes fornecidas por al-Idrs, que fala das runas de uma cidade antes
florescente e bem povoada, chamada Shebr ou Shebr, onde nada havia seno
algumas palmeiras e na qual os rabes penetravam em suas excurses. No Nor-
deste desta cidade havia um lago s margens do qual acampavam indivduos
chamados kawr (tubu?) nmades. Ao Norte deste canto estavam situados o
osis de Santarya (Swa) e a cidade de Zla (Zella)14.
    Observando um mapa do deserto lbio, v-se que o nico osis importante
deste deserto, cuja posio corresponde exatamente aos dados dos antigos ge-
grafos rabes sobre Sebr (Dbr, Shebr) (este nome aparentemente provm
do copta tchobro, "vilarejo"),  o grupo de Kufra. A gua ali jorra; ela se espalha
em pntanos e lagos que regam as ricas plantaes. Cultivam-se tmaras, figos,
limes, bem como cereais. Os atuais habitantes pertencem aos zwiya, berberes
arabizados, vindos do Norte aproximadamente na metade do sculo XI/XVII.
Os conquistadores l encontraram um povo no-muulmano (Kufra; Kufara',
"infiis") pertencentes aos tubu, os quais haviam criado um pequeno Estado.
Aps a conquista de Kufra pelos zwiya, os tubu locais retiraram-se para o
macio do Tibesti, a menos que eles tenham sido exterminados pelos recm-
-chegados. No restam atualmente deste povo, nos osis de Kufra, seno algumas
centenas de pessoas de origem tubu, totalmente islamizadas e subordinadas aos
rabes. No referente ao lago mencionado por al-Idrs, situado em Shebr, ao




11    Al-IDRS, 1866, pp. 41-42; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 126.
12    Al-BAKR, 1911, pp. 15-17; traduo 1913, pp. 38-40.
13    KITB ALISTIBSR, 1852, pp. 33-36.
14    Al-IDRS, 1866, p. 41; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 125.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                              335



p de uma inacessvel montanha, ele  encontrado ao p do Djabal Buzeima
(Bzma), no osis do mesmo nome15.
    Era provavelmente pelo osis de Kufra que passava uma antiga via de carava-
nas, religando, antes do sculo IV/X, o Egito a Gana,  qual alude Ibn Hawkal na
segunda metade do sculo IV/X. Esta rota era anteriormente utilizada no tempo
de Ahmad ibn Tln (254/868-270/884). Tudo leva a crer que esta via, aps ter
sido prolongada at Kufra, tomava em seguida a direo de Wd al-Nams e
de Wd al- Kabr, para penetrar no Fezzn e, a partir dali, em Kawr, Gao e,
finalmente, em Gana16. Trata-se provavelmente da mesma rota da qual fala Ibn
al-Fakh (ca. 290/903) em um trecho do seu tratado, aparentemente extrado de
uma fonte mais antiga: "Para ir a Gana, partindo do Egito, ruma-se em direo
a um povo chamado kw-kw (gao), em seguida junto a um povo denominado
maranda, depois junto a um povo de nome murrawt e, deste ponto, aos osis
do Egito em Malsna17." Maranda  Marandet, importante ponto d'gua ao Sul
de Agads. Quanto a Malsna, deve ser provavelmente possvel identificar este
lugar com a montanha de `Alsn ou `Alsn de al-Idrs, idntica, segundo todos
os indcios, ao planalto do Gilf Kabr, situado a Oeste de Dkhla.
    Dez dias de caminhada, atravs de uma plancie de areia onde a gua era
muito rara, separavam Santarya (ou Swa) do grupo de osis de Awdjla (Augla
dos ancios), clebre pelas suas tamareiras. A este grupo pertenciam, alm do
osis de Awdjla propriamente dito, a cidade e o osis de Djl (Djalo). A capital
deste canto era, segundo al-Bakr, a cidade de Arzkya, comportando vrias
mesquitas e bazares. Todo o canto era repleto de vilarejos, tamareiras e rvo-
res frutferas. Exportavam-se tmaras de Awdjla para a cidade de Adjadbya
(Adjedabia). A populao de Awdjla era sem dvida de origem berbere e pro-
vavelmente comportava fraes de lawta,  imagem da populao de Santarya
e Barka. Os descendentes dos antigos habitantes, berberes de etnia e lngua,
carregam atualmente o nome Awdjl. Al-Idrs enfatiza que a capital de Awdjla,
embora pequena, era bem povoada e os seus habitantes dedicavam-se a um ativo
comrcio. Com efeito, Awdjla era um entroncamento de vrias rotas comerciais
e um importante centro, situado em uma rota conduzindo ao Sudo. Atravs
deste osis, penetrava-se "na maior parte do pas dos negros, como por exemplo
no Kawr e no Kw-Kw (Gao)18".

15   Conferir T. LEWICKI, 1939, 1965a. Acerca das migraes dos Tubu, referir-se a J. CHAPELLE, 1957.
16 Ibn HAWKAL, 1938, p. 61; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 45.
17   Ibn ALFAKH, 1885, p. 68; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 27.
18 Al-IDRS, 1866, p. 132; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 129.
336                                                           frica do sculo VII ao XI



    Nada sabemos sobre a histria de Awdjla nos primeiros sculos do Isl.
No  impossvel que ela tenha permanecido independente. Posteriormente, do
sculo III/IX ao sculo VI/XII, ela j fazia parte da provncia rabe de Barka.
    No Oeste do osis de Awdjla e da provncia de Barka, estendia-se a provn-
cia de Surt (ou Sirt), englobando toda a poro oriental da Tripolitnia. Tratava-
-se de uma regio saariana onde o deserto, conhecido pelo nome de deserto
syrtico, aproxima-se at a Grande Syrta. Esta provncia devia o seu nome quele
de Surt, uma grande cidade possuindo uma mesquita, alguns bazares, cercada
de tamareiras e na qual os habitantes dedicavam-se ao comrcio, falavam "uma
espcie de dialeto que no era nem rabe, nem persa, nem berbere, nem copta19".
H quem suponha ser o antigo punceo.
    A provncia de Surt compreendia, durante este perodo, dois distritos, o
primeiro, a saber, Surt propriamente dito, correspondia  zona litornea, ao
passo que o segundo, o Waddn (nome derivado de uma cidade pertencente ao
moderno osis de Djofra), ocupava a zona interior. O primeiro destes distritos
 conhecido pelo nome de ard Surt (pas de Surt), ao passo que o Waddn era
considerado, ainda do sculo III/IX ao sculo VI/XII, como um distrito (`amal)
e um pas (ard)  parte. Estas duas regies da provncia de Surt eram povoadas
pelo grupo berbere dos mazta, o qual tinha como vizinhos os lawta de Barka
e os hawwr, estabelecidos na Tripolitnia Central. O limite ocidental do ter-
ritrio mazta passava proximamente a Twargha (atual Tawurgha), enquanto
no Sul o seu habitat estendia-se at mais alm do Djabal al-Sawd (Djabal
Sda), cuja populao estava, no sculo III/IX, em guerra com os mazta. Estes
ltimos formavam outrora a maioria dos habitantes de Waddn, onde nota-se,
contudo e igualmente, a presena de duas fraes rabes. A cidade desrtica de
Tdjrift era povoada pelos mazta misturados com os rabes. O osis de Zalh
(ou Zella) fazia nesta poca igualmente parte do territrio dos mazta, como se
menciona em um trecho da obra de al-Bakr20.
    Os mazta da Tripolitnia Oriental ligaram-se rapidamente ao ibadismo.
Com efeito, o distrito de Surt constitua uma das provncias do efmero Estado
ibadita fundado na Tripolitnia pelo imame Ab `l-Khattb `Abd Allh ibn
al-Samh al-Ma'fir (131/748-749 - 135/752-753). O ibadismo ainda subsistiu
por muito tempo na Tripolitnia e os mazta continuavam a profess-lo at o
final do sculo III/IX. A cidade de Waddn foi conquistada em 26/646-647 por
um oficial rabe chamado Busr ibn `Ab Artt, que imps aos habitantes deste

19    Al-BAKR, 1911, p. 11.
20    Al-BAKR, 1911, pp. 11-12.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                          337



pas um pesado tributo de trezentos e sessenta escravos. Quando os indivduos
de Waddn mais tarde recusaram-se a pagar este tributo, o clebre `Ukba ibn
Nfi' conduziu uma nova expedio contra este territrio, em 46/666-667, e aps
ter punido o rei, novamente fez pagar este tributo21. Waddn estava interligada
por uma via a Maghmads (Macemades Selorum dos Ancios), situada na costa
mediterrnea, e a Djarma (antiga Garama). Era sem dvida por esta rota que se
importavam os escravos, formadores do tributo pago aos rabes pelas pessoas de
Waddn. Tratava-se de cativos negros provenientes do pas de Kawr, do Tibesti
e do Knem. O transporte destes cativos provavelmente era realizado atravs
da mesma via que, segundo Herdoto, os antigos garamantes empregaram para
executarem a caa aos trogloditas etopes22. O comrcio de Waddn com o "pas
dos negros" acontecia ao longo de todo o perodo; a rota Waddn-"pas dos
negros" atravessava a cidade de Zawla, no Fezzn.
    Outra rota que interligava Waddn a Awdjla atravessava a cidade de Zalh
(Zella), onde havia grande quantidade de tamareiras. Tratava-se igualmente de
um pouso situado na rota conduzindo da Tripolitnia do Norte ao Fezzn e ao
"pas dos negros". Segundo al-Bakr (que provavelmente retoma este texto de
Muhammad Ibn al-Warrk), esta localidade era habitada pelos mazta23; porm
al-Idrs, que a este lugar denomina Zla, faz saber que os seus habitantes per-
tenciam aos hawwra, acrescentando serem eles comerciantes24.
    As fontes rabes no falam sobremaneira de Hammda al-Hamr' e das
montanhas que a cercam, excetuando-se al-Bakr que oferece a descrio da
rota que conduzia da cidade comerciante de Djd (Djado ou Giado), capital da
parte oriental do Djabal Nafsa,  cidade de Zawla, importante entreposto das
caravanas, situado na via conduzindo ao pas de Kawr e rumo aos outros "pases
dos negros"25. Caminhava-se durante trs dias atravs de um deserto antes de
chegar a Tr ou Tr, uma localidade situada no flanco de uma montanha, rica
em tamareiras26.


21   Ibn `Abd al-Hakam, em N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 12-13.
22   Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 20.
23 Al-BAKR, 1911, p. 12; 1913.
24   Al-IDRS, 1866, pp. 41-42; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 129.
25   Al-BAKR, 1911, p. 10; 1913, pp. 26-27; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 63-64.
26   A palavra tira em berbere significa "escritura". Entretanto, pode-se obter, atravs da adio de um ponto
      terceira letra rabe desta denominao, outra palavra berbere, a saber, tz, significando "encosta". Talvez
     tenha sido Mizda (antigo Musti vicus), um pouso situado na mais curta rota conduzindo da cidade de
     Trpoli e do Djabal Nafsa ao Fezzn. Segundo as crnicas ibaditas, o manzil (estao) de Tr j existia
     no sculo III/IX; nesta poca, ali havia uma populao ibadita.
338                                                                             frica do sculo VII ao XI



    Nos confins do Oeste de Hammda al-Hamr', entre estes planaltos e o
Grande Erg oriental, encontra-se o osis saariano e a cidade de Ghadmes
(Ghadmis). Este lugar que, desde a Alta Antiguidade, j era a importante
estao do deserto (Cydamus ou Kidam dos Ancios), devia a sua importn-
cia  sua localizao geogrfica. Efetivamente, ela era a porta atravs da qual
passavam os mercadores a caminho da Tripolitnia para o "pas dos negros".
A rota que unia a cidade comercial de Shars, no Djabal Nafsa, ao pas de
Takrr passava por Ghadmes. Nota-se, ainda hoje, nas imediaes de Shars,
uma pista que conduz a Ghadmes, nomeada tark alSdn (pista do Sudo).
Certamente  desta pista da qual fala Ykt (segundo uma fonte do sculo VI/
XII), orientada para o canto chamado Zfnu (Diafunu), situado no Alto
Senegal27. Al-Bakr descreveu uma rota que partia de Trpoli e atravessava o
Djabal Nafsa e Ghadmes, atingindo finalmente na cidade de Tdmekka, no
Sudo Ocidental28.  verossmil que esta via atravessasse, aps deixar Ghadmes,
o territrio dos berberes azkr (atualmente Tassili-n-Ajjer), distante dezoito dias
de caminhada de Ghadmes, dando crdito a al-Idrs29.
    Os habitantes de Ghadmes dedicavam-se, desde a Antiguidade, a uma agri-
cultura limitada (sobretudo baseada na tmara) e igualmente ao comrcio trans-
-saariano. Esta cidade surge muito cedo nas fontes rabes medievais. Com efeito,
o historiador rabe Ibn `Abd al-Hakam fala da tomada de Ghadmes pelo general
rabe `Ukba ibn Nfi', em 46/66730. A populao desta cidade era formada de
vrias fraes berberes, dentre as quais uma, os Tinwuta,  citada j no sculo
II/VIII. A lngua berbere  inclusive at hoje empregada em Ghadmes.
    Tudo leva a crer que os habitantes de Ghadmes, convertidos ao cristianismo
desde o sculo VI, muito cedo adotaram as doutrinas ibaditas, aparentemente na
mesma poca que os seus vizinhos do Norte, ou seja, os nafsa, habitantes do
atual Djabal Nafsa, com os quais eles mantinham estreitas relaes. No incio
do sculo III/IX, os seus habitantes orientaram-se para as doutrinas dissidentes
(seitas ibaditas de Khalafya e Nukkr) e o ibadismo-wahbismo puro ali no seria
restabelecido seno graas a uma interveno militar dos nafsa. Nesta poca, a
populao de Ghadmes era governada pelos mashyikh (xeques) ibaditas31.


27    N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 170-172. Sobre Zfnu, conferir T. LEWICKI, 1971a.
28 Al-BAKR, 1911, p. 182; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 86.
29    N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 121; J. M. CUOQ, 1975, p. 153. Os azkr so os
      berberes nmades do Fezzn ou os tuaregues adjdjer. Al-Idrs, 1866, p. 36.
30    Ibn `Abd al-Hakam, 1947; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 12.
31    Ainda no sculo VIII/XIV, os habitantes de Ghadmes professavam as doutrinas ibaditas. Hoje eles so
      todos fervorosos sunitas.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                339



   Muito prximos, a Leste de Ghadmes, esto situados o osis e a cidade
de Daradj (nas crnicas ibaditas Dardj ou Adradj), importante centro ber-
bere ibadita. No  impossvel que Dardj deva o seu nome ao ramo tanta dos
Ban Idradj (assim deve-se corrigir a grafia errnea Tdrdj), mencionada por
Ibn Hawkal ao lado dos waradjma, dos Ban Blt e de outros grupos zanta
da Tunsia do Sul32. Acrescentemos ainda que outra rota, passando por Sinwan
e Dardj, religava Ghadmes  cidade de Nlt (ou Llt), situada na poro
ocidental do Djabal Nafsa.


     Entre Fezzn e o Lago Chade
    No Sul da Tripolitnia encontra-se a grande regio desrtica do Fezzn, um
grupo de osis compreendidos entre a Hammda al-Hamr' e as extremidades
do Tibesti ao Norte, o Tassili-n-Ajjer a Oeste e o deserto lbio a Leste.
    Quanto  antiga civilizao dos garamantes, ela no desapareceu antes da
conquista rabe do Magreb e h hoje razes para pensar (baseados na datao
de algumas escavaes com o emprego do carbono 14) que esta civilizao no
foi destruda seno entre os sculos II/VIII e IV/X, pelos conquistadores rabes.
Somos levados a crer que a principal causa da queda da civilizao garamantica
tenha sido a expedio do vitorioso general rabe Ibn al-Ash'ath que conquis-
tou, em 145/762/763, o reino de Zawla no Fezzn Oriental e massacrou os
habitantes da capital.  necessrio sublinhar, inclusive, que o reino de Zawla
sobreviveu a este choque e existia, aproximadamente ao final do sculo III/IX
como um Estado independente.
    O reino de Zawla englobava somente uma parte do atual Fezzn Oriental.
Ele foi fundado aproximadamente ao final do sculo I/VII ou bem no incio do
sculo II/VIII33. No tocante a todo o restante do Fezzn, ele formava, entre os
sculos II/VIII e VI/XII, um reino  parte, herdeiro daquele dos garamantes que
 relatado junto aos autores rabes medievais como nome de Fazzn34.
    Nas fontes rabes, este Estado j existe em 46/666-667. Efetivamente, ns
lemos na obra histrica de Ibn `Abd al-Hakam que `Ukba ibn Nfi' dirigiu-


32   Ibn HAWKAL, 1964, p. 104; T. LEWICKI, 1959.
33   Sabemos que a cidade de Zawla ainda no existia no momento da expedio de `Ukba ibn Nfi'  Tri-
     politnia, em 46/666-667.
34   Este reino estava em guerra contra os mazta da Tripolitnia Oriental. Aparentemente, esta guerra
     igualmente contribuiu, juntamente com a expedio de Ibn al-Ash'ath contra a cidade de Zawla, para
     a queda da antiga civilizao garamantica.
340                                                                        frica do sculo VII ao XI



-se, aps ter conquistado a cidade de Waddn, em direo  cidade de Djarma
(Djerma), capital do grande Fezzn, cujo rei submeteu-se e da qual os habitan-
tes converteram-se ao Isl. Em seguida, `Ukba ibn Nfi' rumou para os outros
"castelos" do Fezzn, avanando at o mais longnquo, o lado sul35.
    A partir do sculo II/VIII, os habitantes do Fezzn tornaram-se ibaditas
e reconheceram, desde o principio, a supremacia dos imames rustmidas de
Thert. Contudo, durante algum tempo, eles foram partidrios da hertica iba-
dita Khalaf ibn as-Samh. Nos tempos de al-Ya'kb (ao final do sculo III/IX),
o Fezzn formava um vasto Estado governado um chefe independente (r's).
    Al-Ya'kb igualmente faz meno da capital do Fezzn, uma grande cidade36.
Trata-se sem dvida de Djarma, florescente durante vrias centenas de anos, at
o sculo VI/XII. A esta poca, havia igualmente, no Fezzn, ao lado de Djarma,
outra considervel cidade, Tasswa (Tessaoua), chamada pelos negros (fezza-
nses?), segundo al-Idrs, "Djarma a Pequena"37. As fontes rabes mencionam
igualmente outras localidades situadas no Fezzn. Al-Bakr assinala entre estas
localidades uma cidade chamada Tmarm, situada na rota conduzindo a Djd,
no Djabal Nafsa. Ela nos  totalmente desconhecida. Ns acreditamos ser
necessrio corrigir o seu nome e dizer Tmzaw, ou seja, Tamzaua (Tamsua),
como indicam os nossos mapas. As fontes ibaditas conhecem-na pelo nome
Tmzawt. Al-Bakr igualmente menciona a grande cidade de Sabh, a qual
deve ser identificada com Sebh, indicada em nossos mapas e atual capital do
Fezzn. Sabh possua uma mesquita catedral e vrios bazares. As crnicas
ibaditas citam esta cidade como nome de Shabha38.
    A populao do Fezzn medieval era composta de diferentes grupos tnicos
que formavam um povo chamado fezzn39. Ibn Hawkal cita no sculo IV/X
um povo berbere chamado adjr fezzn por ele classificado entre as cabilas dos
zanta40. Aparentemente, a primeira parte deste nome deve ser aproximada do
nome da atual localidade fezzanesa de Agar ou Aggar, situada perto de Tasswa.
Alm dos fezzn (tambm fazzna), havia igualmente nesta regio outras faces
berberes. Al-Bakr menciona os ban kaldn (ou kildn), habitantes da cidade



35    Ibn `Abd al-Hakam, 1947, em N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 12.
36    Al-YA'KB, 1962, p. 9.
37    Al-IDRS, 1866; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 120.
38    Al-BAKR, 1911, p. 11.
39    Al-YA'KB, 1962.
40    Ibn HAWKAL, 1964, p. 104.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                       341



de Tmarm (Tmzaw) lado a lado com os fazzna41. Os kaldn eram prova-
velmente idnticos aos kaldn (kildn), os quais, segundo Ibn Khaldn, eram
aparentados dos hawwra42.
    Os habitantes de Djarma (e tudo leva a crer no tangente a todos os outros
"castelos" do Fezzn), cristos desde o ano 569, em seguida converteram-s ao
isl, aps a invaso rabe de 46/666-667. Eles tomaram posteriormente parte no
movimento ibadita na Tripolitnia (em 126/743-744) e sofreram perdas, como
os ibaditas de Waddn e aqueles de Zawla, conseguintemente  expedio do
general abssida Ibn al-Ash'ath, em 145/762-763.  poca do imame rust-
mida `Abd al-Wahhb ibn `Abd al-Rahmn (morto em 208/823), os fezzaneses
j eram ibaditas. Com efeito, as crnicas ibaditas mencionam vrios notveis
personagens, originrios do Fezzn, que viviam nesta poca43.
    Aparentemente, os ibaditas do Fezzn ligaram-se, no incio do sculo III/
IX, ao dissidente ibadita Khalaf ibn as-Samh que, tendo se rebelado contra os
imames rustmidas de Thert, logrou tornar-se mestre de praticamente toda a
Tripolitnia, excetuando-se o Djabal Nafsa, cujos habitantes, praticantes do
rito ibadita-wahbita, permaneceram fiis aos rustmidas44. Entretanto, na pri-
meira metade do sculo III/IX, o Fezzn  novamente considerado como um
pas de populao ibadita-wahbita.
    O segundo Estado que existia no Fezzn, entre os sculos II/VIII e VI/XII,
o reino de Zawla, deve o seu nome  cidade de Zawla (atual Zawlah), a sua
capital. No se menciona  poca a expedio de `Ukba ibn Nfi' pelo interior
da Tripolitnia e no Kawr, em 46/666-667, porm ela constaria pela primeira
vez nas fontes um sculo mais tarde, durante as guerras entre os rabes sunitas
e os berberes ibaditas. Depois de conquistada a vitria, em 144/761/762, por
Ibn al-Ash'ath sobre Ab `l-Khattb, imame ibadita da Ifrkiya, o exrcito rabe
tomou a cidade de Zawla, na qual a populao berbere foi massacrada no fio da
espada e o seu chefe, `Abd Allh ibn Hiyn al-Ibd, morto. A despeito destes
acontecimentos, Zawla permaneceria ainda por muito tempo um importante
centro ibadita. Al-Ya'kb nela identifica, na segunda metade do sculo III/IX,
a presena de uma populao ibadita que se dedicava ao cultivo de tmaras e ao
comrcio com os pases do Sudo45.


41   Al-BAKR, 1911, p. 10.
42   Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 1, p. 177.
43   T. LEWICKI, 1957, p. 341.
44   Ibid., p. 342.
45   Al-YA'KB, 1962, p. 9; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 22.
342                                                                          frica do sculo VII ao XI



    Seria possvel que, aproximadamente no incio do sculo IV/X, a cidade de
Zawla tenha sido abandonada, provavelmente em decorrncia de uma guerra
por ela travada contra os mazta da Tripolitnia Oriental. Certamente so
a estas guerras s quais alude al-Idrs, que nos fala da fundao de Zawla
(trata-se antes da reconstruo desta cidade), em 306/918. Segundo al-Idrs,
Zawla foi fundada para servir como residncia a `Abd Allh ibn al-Khattb
al-Hawwr e  sua famlia46. Segundo Ibn Hawkal (aproximadamente 988),
a dinastia dos Ban l-Khattb era originria no dos hawwra, mas, antes, dos
mazta. Os Ban l-Khattb pertenciam na realidade aos Ban Mazalyakkh,
frao mazatiana47.
    Os principais recursos do Fezzn (pensamos nas regies de Djarma e Zawla)
eram as plantaes, particularmente de palmeiras e cereais. Devemos grande
parte das informaes sobre estes cultivos a al-Bakr, que fala de uma grande
quantidade de tamareiras em Tmarm (Tmzaw), Sabb e Zawla e fornece
uma descrio da cultura de cereais regados com o auxlio de camelos. Ele
igualmente menciona a existncia em Sabb do cultivo da planta que fornece
o pigmento do ndigo48. Al-Idrs igualmente elogia as tamareiras de Zawla e
fala do cultivo de palmeiras, do paino e da cevada em Tasswa49. No tocante
 irrigao, J. Depois supe que a tcnica dos foggra (canos subterrneos de
captao) tenha se difundido no Fezzn ao final da poca romana50. Os auto-
res rabes oferecem alguns dados sobre a irrigao dos cultivos. Assim sendo,
segundo al-Bakr, o terreno cultivado em Zawla era irrigado com o emprego de
camelos (trata-se de reservatrios  trao animal ainda utilizados no Fezzn) e
al-Idrs informa que se rega (em Djarma e Tasswa) palmeiras, paino e cevada
graas a uma mquina chamada indjfa, tambm conhecida pelos habitantes do
Magreb como khattra51.
    Paralelamente aos cultivos, o essencial da atividade no Fezzn era o comrcio
trans-saariano. Com efeito, este pas  a mais importante via de comunicao, do
ponto de vista histrico e aps o Nilo, com os pases situados ao Sul do Saara.
Os garamantes j traziam aos portos tripolitanos, Leptis Magna (Lebda), Oea


46    Al-IDRS, 1866, pp. 37-38; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 122.
47    Ibn HAWKAL, 1964, p. 104.
48    Al-BAKR, 1911; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 64.
49    Al-IDRS, 1866, pp. 35-36.
50    J. DEPOIS, 1965.
51    Al-BAKR, 1911, p. 11; Al-IDRS, 1866, p. 35. Trata-se de poos (shadf ) que ainda so utilizados
      no Fezzn, denominados khattra.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                               343



(Trpoli) e Sabratha (Zuwra), produtos do seu pas e do interior da frica,
tais como as tmaras, o marfim e pedras preciosas chamadas garamanticas.
Desde a aurora da poca muulmana, os fezzaneses igualmente dedicaram-se
ao trfico de escravos negros. As relaes comerciais exerciam-se ao longo de
uma antiqussima rota, j conhecida dos garamantes no sculo V antes da era
crist, interligando Trpoli s outras cidades da costa tripolitana, ao Kawr e ao
Knem, na frica Central. Ela atravessava a cidade de Zawla e o Djabal Nafsa,
cuja principal cidade, Djd, abrigava ainda nos sculos IV/X e V/XI bazares
e uma numerosa populao de judeus. Em virtude do comrcio trans-saariano,
estabeleceram-se em Zawla, lado a lado dos berberes ibaditas, pessoas de ori-
gem muito variada, oriundos do Khursn, de Basra e de Kfa. Os comerciantes
de Zawla exportavam sobretudo escravos negros, capturados junto aos povos
sudaneses de Mr, Murr, de Zaghwa e outros, pertencentes em grande parte
ao grupo de Teda-Daza52.
    No sculo V/XI, al-Bakr descreve trs vias que interligavam a cidade de
Zawla  Tripolitnia propriamente dita e ao Egito. A primeira orientava-se para
Djd e, em seguida, para Trpoli. A segunda unia Zawla a Adjadbya, situada
nos confins orientais da Tripolitnia. A terceira via ligava Zawla a Fustt, capital
do Egito. Al-Bakr faz igualmente aluso a uma rota de caravanas que ia de
Zawla ao pas de Knem, a quarenta dias de marcha desta cidade53.
    Ao Sul dos montes Tummo, limite meridional do Fezzn, h uma sequncia
de osis que facilitam a comunicao com o Knem. Trata-se da mais bela rota
de caravanas do Saara, em que pese uma zona de dunas que se localiza entre
Bilma e Dibella (Dibela). Esta rota foi utilizada desde pocas remotas. As mais
clebres dentre as sequncias de osis so aquelas de Kawr (Kawr ou Kuwr
para os gegrafos rabes medievais, Kaouar em nossos mapas). Elas eram conhe-
cidas h sculos, graas ao comrcio trans-saariano realizado ao longo desta rota.
Em 46/666-667, quando `Ukba ibn Nfi' amparou-se de todos os ksr (castelos)
do Fezzn, indo de Norte a Sul, os habitantes informaram-no que alm desta
localidade encontravam-se os ksr de Kawr, cuja sede (kasaba ou gasba), cha-
mada Khwr (em al-Bakr) era uma grande fortaleza54.



52   Al-YA'KB, 1962, p. 9; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 22.
53   Al-BAKR, 1911, p. 11; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 63-64.
54   Ibn `Abd ALHAKAM, em N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 12-13; ALBAKR,
     1913, p. 12. Aparentemente, Khwr era idntica a Gissebi (Guesebi), no Kawr Setentrional, a alguns
     quilmetros a Sudoeste de Anay, mencionado em nossos mapas. O nome Gissebi (Guesebi) aparenta
     ser somente uma deformao do termo rabe kasba ou gasba.
344                                                                             frica do sculo VII ao XI



    Ns devemos uma breve descrio do Kawr a Ibn `Abd al-Hakam e tambm
a Al-Ya'kb, mas, somente em al-Idrs teramos informaes mais detalhadas.
Entre estas "cidades", al-Idrs menciona alKasaba ("a sede"), do mesmo modo
que Khwr para Ibn `Abd al-Hakam, localidade antes insignificante  poca
deste gegrafo. O kasr Umm `Is, localizado por al-Idrs a dois dias de cami-
nhada rumo ao Sul de al-Kasaba, deve ser identificado, em nossa opinio, com
o vilarejo de Aschenumma, descrito por Nachtigal, atualmente um lugar sem
nenhuma importncia55.
    A uma distncia de 40 milhas rabes, ou seja, 80 quilmetros do kasr Umm
`Is, al-Idrs posiciona a cidade de Ankals, a mais importante do Kawr, tanto
do ponto de vista comercial quanto como sede do chefe local56. Poder-se-ia
identificar Ankals com a cidade de Dirki, no tempo da estada de Nachtigal no
Kawr, residncia do soberano deste pas. Este vilarejo (igualmente chamado
Dirko pelos teda) , segundo Nachtigal, o mais antigo e importante do Kawr.
    A ltimas localidade do Kawr da qual trata al-Idrs (que enumera os luga-
res habitados deste pas, orientando-se de Norte a Sul)  a pequena cidade de
Tamalma (ou Talamla) situada na poro meridional do pas. Podemos identi-
ficar, com J. Marquart, Talamla com a moderna cidade de Bilma (Bilm')57.
    Segundo al-Ya'kb, o pas de Kawr era habitado, aproximadamente ao
final do sculo III/IX, por uma populao mista, composta de muulmanos de
todas as origens, majoritariamente berberes58. Trata-se aqui dos comerciantes
berres ibaditas originrios do Fezzn, do Djabal Nafsa e do Waddn. Ao
lado dos berberes (e sem dvida igualmente dos comerciantes rabes), vivia no
pas de Kawr a populao autctone pertencente ao grupo tubu (teda-daza).
 dela que fala o gegrafo rabe Ibn Sa'd (antes de 685/1286), que chama
os habitantes do Kawr "os negros", dizendo que estes indivduos adotaram
os hbitos dos brancos59. Esta populao j era muulmana no sculo III/IX,
provavelmente ibadita.
    Os recursos dos habitantes do Kawr, os quais eram abastados segundo as
fontes rabes, provinham dos cultivos (tmaras), da explorao das minas de


55    G. NACHTIGAL, 1879-1889, vol. 1, p. 511. O nome concedido a este castelo (em rabe kasr), a saber,
      UMM `IS (em rabe dialetal Umm `Aysa) no passa de uma mettese de Aschenumma (Asche-n-
      -umma por `Aysa-n-umm). R. MAUNY (1961, p. 141) identifica este lugar com a atual Bilma.
56    Al-IDRS, 1866, p. 39; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 123 e seguintes.
      Segundo R. MAUNY (1961), trata-se da moderna Kalala.
57 J. MARQUART, 1912, p. 80.
58    Al-YA'KB em N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 22.
59 Ibn SA'D em N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 192-193.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                            345



alume e do comrcio, especialmente do trfico negreiro. Igualmente se criavam
camelos para uso dos comerciantes locais, alm de se praticar a pesca, aliada 
salga dos peixes, abundantes no grande lago situado perto de Abzar. Entretanto,
a principal fonte de riqueza dos habitantes do Kawr era representada pelas
minas de um tipo de alume, conhecido pelo nome de alume kawr, do qual
al-Idrs elogia a excepcional pureza60. Este autor as localiza ao Sul do Kawr, em
Ankals, Abzar e a Oeste, at a Berbria ocidental, bem como no osis de War-
gla. R. Mauny, que se questionava ao que correspondiam estas famosas minas de
alume do Kawr, localizadas em lugares onde atualmente no conhecemos seno
salinas, acredita que al-Idrs pensava no sulfato de soda, um alume lato sensu
que atualmente corresponde ao simples subproduto da explorao das salinas
do Kawr. Em Bilma, a proporo de sulfato contida no sal pode atingir 79%.
Assim sendo, continua R. Mauny, "nada impediria [...], quando o alume tinha
um grande valor comercial (na Idade Mdia ele era utilizado para fixar os pig-
mentos nos tecidos), de recolher  parte o sal que contivesse a maior proporo
de sulfato e vender este produto som o nome de alume"61.
    Alm do alume, o trfico de escravos era a principal fonte de riqueza dos
habitantes do Kawr. Pelo Kawr, os escravos negros afluam para os merca-
dos de Djarma, Zawla e Waddn, de onde eram exportados para os pases do
Magreb e da Ifrkiya, assim como para o Egito. Aparentemente, este comrcio
j existia na Antiguidade e fora exercido pelos garamantes.
    A histria antiga e medieval do Kawr -nos desconhecida. Aparentemente,
no sculo III/IX este pas era independente. Posteriormente, o sulto do Kawr
foi submetido ao reino de Zaghwa ou Knem, do qual falaremos. Em todo caso,
tal era a situao deste pas no tempo de Ykt (617/1220)62.
    Ao lado dos kawarianos tubu e dos berberes ibaditas que habitavam com os
comerciantes rabes nos vilarejos do Kawr, havia igualmente nesta regio do
Saara berberes nmades lamta, dos quais a maioria vivia como nmades no Saara
Ocidental, sobretudo no Sul de Ss. Segundo al-Ya'kb63, estes lamta do Saara
Central habitavam os territrios situados entre o Kawr e Zawla e naqueles
em direo a Awdjla. Tudo leva a crer que estes lamta entrariam, mais tarde,
na composio dos tubu (teda-daza) ou que eles teriam se retirado rumo ao Ar,
para juntarem-se aos tuaregues deste pas.


60   Al-IDRS, 1866, p. 39; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 123.
61 R. MAUNY, 1961, pp. 141, 334-336, 452.
62 YKT, 1866-1873, vol. 3, p. 142.
63   Al-YA'KB, 1962, p. 9.
346                                                                         frica do sculo VII ao XI



   As populaes de tubu (teda-daza) zaghwa, atualmente ocupantes, desde
uma poca remota, dos osis de Kufra, no deserto lbio, assim como do pas
de Kawr, igualmente constituam a populao do extremo Sul do Fezzn, do
planalto de Djdo e do macio do Tibesti. Eles habitavam igualmente e ainda
habitam atualmente o Borgu (com Bodl e Bahr al-Ghazl), imensa depresso
desrtica, muito baixa, separando o Tibesti do Chade, assim como os planaltos
do Ennedi e, finalmente, o Norte do Wada e o Noroeste do Drfr. O grupo
tubu que habita at hoje estas ltimas regies leva o nome de zaghwa. Este
nome aparenta ter sido,  poca, a nomenclatura empregada pelos gegrafos
para designar quase todos os ramos dos tubu, excetuando-se o Kawr e o osis
de Kufra, cuja populao nmade  qualificada por al-Idrs como "nmades do
Kawr"64.
   Deve-se igualmente acrescentar que o autor rabe Wahb ibn Munabbih, que
escrevia antes de 110/728, cita, ao lado dos zaghwa, o povo sudans de Kurn
(ou Korn), dos quais observamos tambm a pronncia Gorn. Este nome ainda
est em vigor nos dias atuais. Trata-se de uma nomenclatura dada pelos rabes
aos daza, ramo dos tubu vivendo no Norte e Nordeste do lago Chade65.
   Quanto ao nome zaghwa, mencionado por Wahb ibn Munabbih (aparen-
temente como aquele do ramo setentrional dos tubu, a saber, dos teda) em meio
s denominaes dos povos oriundos do Cham bblico, ao lado dos korn, dos
nbios, dos abissnios, dos berberes e dos zandj da frica Oriental, ele no 
desconhecido dos outros autores rabes medievais. Ele  citado entre os top-
nimos sudaneses na obra do astrnomo Muhammad ibn Ms al-Khuwrizm
(morto em 220/835 ou em 232/846)66. Al-Ya'kb menciona o povo zaghwa
entre os escravos exportados de Zawla67 e, na sua obra histrica, ele fala deste
povo de modo mais detalhado: os zaghwa estabeleceram-se em uma locali-
dade chamada Knem (ou Knim), onde viviam em cabanas de junco. Eles l
fundaram um reino68.
   Aparentemente, o Knem mantinha relaes com os ibaditas do Djabal
Nafsa desde remotos tempos. Com efeito, sabe-se que Ab `Ubayda `Abd
al-Hamd al-Djinwun, governador do Djabal Nafsa sob a gide dos imames


64    Al-IDRS, 1866, pp. 12-15; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 125.
65    Ibn KUTAYBA, 1850, pp. 12-13; consultar N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 15; J.
      CHAPELLE, 1957.
66    Al-KHUWRIZM, 1926, p. 6; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981. p. 7.
67 Al-YA'KB, 1892, p. 345; 1962, p. 9.
68    Al-YA'KB, 1883, p. 219; consultar N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981. p. 21.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                   347



rustmidas de Thert e habitante na primeira metade do sculo III/IX, conhe-
cia, alm da lngua berbere e do rabe, aquela de Knem (lugha knimya)69. O
gegrafo rabe al-Muhallab (morto em 380/990) ensina-nos que os zaghwa
eram um povo sudans habitante do Sul do Magreb. Eles l criaram um Estado
muito extenso, limtrofe com a Nbia; entre estes dois reinos havia dez dias de
caminhada70.
    Do lado norte, o reino dos zaghwa (ou Knem) estendia-se at Bilma e
al-Kasba, no Kawr. O pas dos zaghwa (trata-se aqui do Knem) no era
desrtico e os seus habitantes alimentavam-se das suas plantaes, principal-
mente de sorgo e dlicos. Eles possuam igualmente rebanhos de carneiros, bois,
camelos e cavalos. No momento em que escrevia al-Muhallab, os zaghwa do
Knem ainda eram infiis: eles veneravam o seu rei, adorado em lugar de Deus.
Eles viviam nus, cobrindo-se somente os rins com peles de animais, excetuando-
-se o rei que se vestia com uma cala de l e com uma vestimenta de seda de
Ss (do Marrocos)71.
    Ibn Hawkal aparenta identificar o pas dos zaghwa ao Knem. Ele men-
ciona a existncia de uma rota que interligava o pas dos zaghwa ao Fezzn,
ou seja, aparentemente a Djarma, capital deste pas; entre o Fezzn e Zaghwa,
havia dois meses de caminhada, o que nos parece exagerado72.
    O Knem no era desconhecido de Al-Bakr, para o qual este pas encontrava-
-se alm do deserto de Zawla, a quarenta dias de marcha desta cidade. Os habi-
tantes eram "idlatras" nesta poca73.
    Al-Idrs, a quem devemos uma detalhada descrio do Saara e do Sudo,
consagrou vrios trechos da sua obra aos zaghwa e ao Knem (por ele cuidado-
samente distinguidos entre si). O Knem era um reino cujo soberano habitava a
cidade de Mnn. Os soldados do rei do Knem no vestiam nenhuma roupa,
como  poca de al-Muhallab, cento e cinquenta anos antes. Alm de Mnn,
al-Idrs tambm menciona outra cidade do Knem, Andjm (Ndjim em nossos


69   Referir-se a T. LEWICKI, 1955, pp. 92-93 e 96.
70   YKT, 1866-1873, vol. 2, p. 932. Segundo outro trecho da descrio dos zaghwa, al-Muhallab diz
     que entre os zaghwa e a cidade de Dongola, na Nbia, havia sete pousos; op. cit., vol. 1, p. 277.
71 Consultar N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 171, 173.
72 Ibn HAWKAL, 1938, p. 92; conferir N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981. p. 46.
73   Al-BAKR, 1911, p. 11; 1913, p. 29; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p.
     64. Tudo leva a crer que al-Bakr tenha obtido esta informao de uma fonte anterior ao sculo V/XI,
     talvez de uma obra geogrfica de Ibn al-Warrk (morto em 362/973), haja vista que, no sculo V/XI,
     pode-se j imaginar os primrdios da islamizao deste pas, cuja populao abraou definitivamente o
     isl aps o ano 500/1107.
348                                                                                    frica do sculo VII ao XI



mapas). A seis dias de marcha de Andjm encontrava-se a cidade ou, melhor, o
centro dos zaghwa, em torno do qual viviam muitos ramos deste povo criador
de camelos. Al-Idrs nada nos diz sobre a situao poltica deste agrupamento
tubu que, nesta poca, provavelmente no dependia do rei do Knem. Falando
dos zaghwa, ele sublinha que o seu territrio  vizinho do Fezzn; ele inclui
deste modo o pas do Kawr entre os territrios habitados pelos zaghwa74. Em
outro captulo, al-Idrs fala de dois centros dos zaghwa, a saber, de Saghwa
(provavelmente idntico a Sakawa, nome dado aos zaghwa no Sul do atual
Wada) e Shma (talvez Tin-Shaman em nossos mapas, ao Norte de Agads).
Os recursos destes dois ramos zaghwa provinham da criao (eles alimentavam-
-se de leite, manteiga e da carne dos seus rebanhos) e do cultivo do sorgo. Entre
os zaghwa, junto aos shma e saghwa, igualmente vivia um grupo de origem
berbere chamado sadrta. Tratava-se de nmades semelhantes aos zaghwa em
todos os seus hbitos de vida. Eles estavam, deste modo, em vias de se assimilar
aos teda-daza zaghwa75.


      O Saara Setentrional
    O Saara Setentrional engloba toda a regio situada entre o Atlas ao Norte e
o Ahaggar (Hoggar) ao Sul, a Oeste e Sudoeste de Ghadmes. Trata-se de um
territrio onde, em meio s hammda calcrias e dunas de areia do Grande Erg
ocidental e do Grande Erg oriental (o bld alatsh, ou "pas da sede"), h poos
e belssimos osis (bld albiyr, ou "pas dos poos"). Nos limites das reas de
cultivo (sobretudo palmeirais) destes osis, encontram-se vilarejos fortificados
denominados ksr (em rabe kusr). Eles foram fundados, do mesmo modo que os
palmeirais e os foggra que irrigam estes ltimos (sobretudo Twt), por diferentes
fraes ibaditas, mutazilitas ou at judias, do grande ramo berbere dos zanta.
    Podem-se dividir estes osis em trs grupos: os osis orientais, rea de poos
artesianos agrupados na base do Atlas; os osis ocidentais, irrigados por foggra,
formando uma faixa de cerca de 1.200 quilmetros, estendida entre o Atlas
saariano de Figg, por um lado, e o Tidikelt, por outro; a meio caminho entre
estes dois grupos, h um terceiro importante grupo de osis: o Mzb.
    O mais oriental destes trs grupos de osis  o osis de Sf, situado no meio
das areias, em uma rota que conduz do Djarid a Tuggurt e a Wargla. Este osis


74    Al-IDRS, 1866, p. 33 e seguintes; consultar N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 114 e seguintes.
75    Al-IDRS, 1866; referir-se a N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 119-120.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                 349




Figura 11.2    Mesquita do sculo X, na cidade de Tozeur, Djarid.[Fonte: M. Brett.]



era, desde o incio da dominao rabe na frica do Norte ou talvez antes, uma
importante etapa na rota comercial que unia a Tunsia Meridional, pas habitado
pelos berberes ibaditas do sculo II/VIII ao sculo VI/XII, aos centros berberes
ibaditas de Wd Rgh e de Wargla, assim como do Sudo. No sabemos em qual
poca foram fundados os palmeirais e os vilarejos de Sf. A primeira meno
concernente a este osis encontra-se nas antigas crnicas ibaditas que o chamavam
Sf ou Asf. Na segunda metade do sculo IV/X, Sf era habitada pelos berberes
ibaditas que mantinham estreitas relaes com o Djard, particularmente com a
cidade de Tozeur. Os habitantes de Sf pertenciam aos diversos ramos originrios
dos zanta ou aparentados a esta famlia berbere (como os lawta). Acrescentemos
ainda que, no Norte do Sf, al lado do distrito de Nefzwa, viviam como nmades
no sculo V/XI os ban mlt, igualmente pertencentes aos zanta76.


76   A histria do Sf -nos desconhecida. Todavia, sabemos que Srat al-Lawtya, uma clebre mulher
     ibadita que viveu na segunda metade do sculo V/XI, era originria deste osis. Foi nesta poca que
     uma caravana ibadita, retornando de Tdmekka (no Adrr dos Ifoghas, ao norte de Gao), passou pelo
     Sf, indo provavelmente a Tozeur.
350                                                          frica do sculo VII ao XI



    A aproximadamente a cem quilmetros a Oeste do osis de Sf seguem-
-se numerosos e importantes osis de Wd Rgh, situados em um corredor de
eroso cm largura de vinte quilmetros. Na poca que nos interessa, Wd Rgh,
por ns conhecido graas s fontes rabes (sobretudo pela crnicas ibaditas) com
o nome de (Wd) Rgh ou Argh, era cercado de vrias cidades e vilarejos for-
tificados (kusr). Posteriormente, na poca de Ibn Khaldn (sculo VIII/XIV),
havia cerca de trezentas localidades. Ns conhecemos os nomes de vrias destas
localidades, como Adjl al-Gharbiyya (Adjl ocidental), Adjl al-Sharkiyya
(Adjl oriental), Tdjt, Kasr Ban Nba, Tghrt (atual Tuggurt) e Waghlna.
Alm destas cinco cidades, as fontes ibaditas assinalam-nos ainda vrias outras
de menor importncia e difceis a identificar, salvo talvez Tn Tamerna, prova-
velmente idntica a Tamerna, Tn slmn (Sd Slmn) situado ao Norte de
Tuggurt e do osis de Akk (Gg).
    Rgh ou Argh deve o seu nome aos berberes rgha, frao dos maghrwa,
da grande famlia zanta. Entretanto, ao lado dos rgha, igualmente havia outras
populaes zanta, como os ban tfa, os maghrwa, os ban yandjsen e os
ban lant. Entres outros berberes que habitavam o Wd Rgh ou que viviam
como nmades nas cercanias deste osis,  necessrio igualmente citar os ban
warmz (warzemr) e os outros trs povos de hbitos bedunos, os ban warsifn,
os ban ghomra (ou ghomra) e os ban sindjsen. No  impossvel que estes
ltimos sejam idnticos aos ban sindjs, ramo maghrawiano que habitava o
Wd Rgh, segundo Ibn Khaldn, ainda no sculo VIII/XIV.
    A histria do Wd Rgh antes do sculo VI/XII  muito pouco conhecida.
Os indgenas deste pas atribuem a origem dos seus poos a Dhu `l-Karnayn
(o "bicornuto"), ou seja, a Alexandre o Grande. Contudo, os osis de Wd
Rgh jamais foram assinalados pelos Ancios e so, sem dvida, posteriores
 dominao romana na frica do Norte. A primeira aluso a esta regio nas
fontes escritas est ligada ao grande chefe nmade Aflah ibn `Abd al-Wahhb
(208/823-257/871).
    Na segunda metade do sculo IV/X, a populao de Wd Rgh compunha-
-se sobretudo de diferentes fraes de maghrwa ibaditas. Em 471/1078-1079,
comeou uma guerra civil que provocou a runa deste grupo de osis. Outra
guerra teve lugar no Wd Rgh em 502/1108-1109. Acrescentemos ainda que
os osis de Wd Rgh desempenhavam, nos sculos IV/X e V/XI, um impor-
tante papel na vida dos ibaditas norte-africanos.
    O mais importante dentre todos os osis orientais do Saara Setentrional  o
Wargla, Wrdjln ou Wrkln, para os gegrafos rabes medievais. As origens
de Wargla so-nos desconhecidas. Com efeito, no temos nenhuma informa-
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul          351



o sobre este osis antes da conquista rabe. Entretanto, no  impossvel
que na poca do Baixo Imprio tenha existido, nesta localizao, um vilarejo
que seria um pouso na rota de caravanas que ligava a Numdia ao Hoggar e,
provavelmente,  curva do Nger. Era atravs desta rota que acontecia o trfico,
na Antiguidade sem dvida assaz modesto, entre a Numdia e o Saara Central.
Pode-se encontrar o nome Wargla naquele da cabila moura dos Urceliani, da
qual trata Corippe no sculo VI77. Talvez se trate de indivduos pertencentes a
esta populao que tenham construdo algumas habitaes em Wargla, em uma
poca anterior  invaso muulmana. Ao lado destas habitaes primitivas, havia
no osis de Wargla vrios verdadeiros vilarejos, j existentes no momento da
chegada dos primeiros rabes do Magreb, ou seja, aproximadamente em meados
do sculo I/VII. V. Largeau78 assinala onze burgos ou vilarejos existentes nesta
poca no osis de Wargla, cujas runas ainda so vivveis.
    Wargla  mencionado nas fontes rabes, com o nome de Wrkln, pela pri-
meira vez na poca do califa umayyade Hishm ibn `Abd al-Malik (105/724-
-125/743). Caso dermos crdito a al-Zuhr (meados do sculo VI/XII), foi nesta
poca que os habitantes de Wargla foram convertidos ao isl79.
    Aparentemente, os habitantes do osis de Wargla rapidamente adotaram,
como quase todos os outros berberes, as doutrinas kharidjitas, em sinal de pro-
testo contra a opresso do governo ortodoxo. Eles se tornaram ibaditas, aliando-
-se ao ramo mais moderado desta seita, e rapidamente estabeleceram laos
estreitos com os imames ibaditas do Thert80.
    No tocante  cidade de Sadrta (ou Sedrta), ela aparenta ter sido a capital
do osis de Wargla entre os sculos IV/X e VI/XII. O nome desta cidade tem
como origem aquele dos berberes sadrta, dos quais uma frao habitava o
Mzb, nas proximidades de Biskra. As runas de Sadrta esto situadas a 14
quilmetros ao Sul da cidade de Wargla. Nestas runas foram encontrados ves-
tgios de uma mesquita e do tmulo do imame Ya'kb ibn Aflah, ltimo imame
rustmida, refugiado em Wargla aps a tomada de Thert pelo exrcito fatmida,
em 296/90881. No ano 322/934, a cidade de Sadrta foi cercada pelo exrcito
fatmida e a sua populao abandonou a cidade, refugiando-se em Karma (atu-
almente Gara Krma, ao Sul de Wargla).


77   CORIPPE, 1970, p. 128; T. LEWICKI, 1976, p. 10.
78   V. LARGEAU, 1879, passim.
79 Al-ZUHR, 1968, pp. 181 e 340.
80   Consultar T. LEWICKI, 1976, pp. 9-11.
81   Conferir M. VAN BERCHEM, 1952, 1954.
352                                                                               frica do sculo VII ao XI



    Posteriormente,  poca de al-Bakr (sculo V/XI), havia no osis de War-
gla sete "castelos", dentre os quais o maior chamava-se em berbere Aghren
en-kammen, nome absolutamente desconhecido dos autores ibaditas. Ao lado
destas cidades e "castelos", as fontes escritas mencionam vrios burgos ou vila-
rejos berberes situados no osis de Wargla, como Fadjha, Kasr Bakr (ou Tn
Bakr, Kasr Ban Bakr), Aghlm, Tn mswen, Tn B Mts, Tamwat e Ifrn.
    Graas s fontes escritas e sobretudo s crnicas ibaditas, temos igualmente
algumas informaes acerca da composio da populao do osis de Wargla do
sculo II/VIII ao sculo VI/XII. J vimos acima que o nome do osis provm da
cabila dos Urceliani ou Wrdjln, ramo dos zanta que o fundaram, segundo Ibn
Khaldn. Mencionamos igualmente que, dentre os antigos habitantes de Wargla,
havia tambm uma frao dos sadrta, ramo dos lawta. Entre outros berberes
que habitavam o osis de Wargla,  necessrio citar ainda os ban ydjrn (ler
ygrn), chamados ykrn (ler ygrn) por Ibn Hawkal, os tinwuta, conhecidos
de Ghadmes, os ban warzemr, dos quais uma frao vivia como nmade nas
cercanias de Wd Rgh, e a grande cabila dos ban wartzalen, habitante desde
outros tempos, tambm ela, do Wd Rgh82. Alm dos berberes ibaditas, wah-
bitas ou nukkaritas, no faltavam em Wargla muulmanos ortodoxos malikitas,
por vezes chamados pelos ibaditas asharitas. Acrescentemos ainda que Ykt
assinala, em sua breve descrio de Wargla, ao lado dos berberes, a presena de
um grupo tnico chamado madjdjna83. Trata-se aqui de cristos africanos de
origem romana, imigrados em Wargla aps a queda de Thert, seguidores do
ltimo imame rustmida do qual eram fiis servidores84. Aparentemente, os
habitantes berberes de Rgh e Wargla j estavam fortemente miscigenados com
negros antes do sculo VI/XII85.
    Todos os burgos e as cidades do osis de Wargla faziam parte de um distrito
chamado, no sculo V/XI, Iklm Wrdjln (distrito de Wrdjln). No incio do
sculo IV/X, havia no osis de Wargla um r's (chefe) que residia em Tghyrt.
Al-Wisyn menciona um r's de Tghyrt chamado Ism'l ibn Ksim, ao lado
do qual havia em Wargla os wult Wrdjln (governadores de Wrdjln), sem


82    Ibn HAWKAL, 1964, pp. 103-104.
83    YKT, 1866-1873, vol. 4, p. 920.
84    Consultar T. LEWICKI, 1976, pp. 79-90.
85    A situao racial em Wargla e Wd Rgh era provavelmente similar, nesta poca, quela do incio do
      sculo X/XIV, descrita por Jean-Lon l'Africain, segundo o qual, em sua Description de l'Afrique, "os
      homens so majoritariamente negros [...] porque estes indivduos tm muitas escravas negras com as
      quais eles deitam, de tal modo que eles tm crianas negras". Conferir Jean-Lon l'Africain, 1956, p.
      437 e seguintes.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul           353




Figura 11.3    Um dos osis do Mzb. [Fonte:  Werner Forman Archives.]




dvida subordinados a este r's. Na primeira metade do sculo V/XI, contava-se
em Wargla vinte e trs mutawall, provavelmente administradores dos burgos,
cuja competncia -nos todavia desconhecida86. Ao lado dos r's e dos governa-
dores, as fontes ibaditas assinalam em Wargla a existncia de notveis (aos quais
provavelmente pertenciam, antes de tudo, os grandes comerciantes) chamados
a'yn e akbir. Tal era a situao no incio do sculo IV/X.
   Acrescentemos ainda que um determinado papel era igualmente desempe-
nhado, no osis de Wargla, pelos conselhos dos habitantes de todos os vilarejos
deste osis. Certa vez, estes conselhos reuniram-se no vilarejo de Tamwat.
Aps a queda do imamado dos rustmidas, cuja soberania era reconhecida pelos
habitantes de Wargla, este osis tornou-se totalmente independente, malgrado
os esforos dos fatmidas que tentaram conquist-lo durante a primeira metade
do sculo IV/X, sem dvida em virtude da sua importncia econmica. Poste-


86   T. LEWICKI, 1976, pp. 10-11.
354                                                                                  frica do sculo VII ao XI



riormente, durante certo tempo, Wargla dependia da dinastia dos ban hammd.
Com efeito, o sulto hammadita al-Nsir ibn `Alanns (454/1062-482/1089)
nomeou um governador neste osis.
    O papel comercial de Wargla era considervel, haja vista que esta cidade
estava na extremidade da via seguida por todos os comerciantes norte-africanos
e egpcios a caminho do Sudo Ocidental. Consideremos agora as relaes de
Wargla com os grandes centros comerciais da frica do Norte e com os mer-
cados do Sudo Ocidental e Central.
    Desde logo, aproximadamente na metade do sculo III/IX, uma rota direta,
passando por Laghwt, interligava Wargla e Thert, ao passo que uma outra
via comercial existia entre Wargla e a cidade de Sidjilmsa, constituindo o
mais importante terminal norte dentre as pistas das caravanas entre a frica
Setentrional e o Sudo Ocidental, assim como o lugar de destino do ouro e dos
escravos provenientes de Gana e do pais dos wangara. Originalmente, Warga
no passava de uma das etapas da grande rota entre o Sudo e o Egito; esta
rota atravessava a Tripolitnia e o Djard, dirigindo-se a Wargla e, em seguida,
Sidjilmsa. Contudo, os mercadores de Wargla rapidamente comeam a tomar
parte ativa no comrcio de Sidjilmsa com os pases aurferos do Sudo Oci-
dental. Efetivamente, os gegrafos rabes assinalam frequentemente a presena
dos mercadores de Wargla nesta atividade, aparentemente vindos de Sidjilmsa,
embora no seja impossvel que estes mercadores tenham chegado a Gana e a
Wankra pela via de Tdmekka e Kw-Kw (Gao)87.
    Outra rota ligava o Mzb (Zbn em nossos mapas)  cidade de Wargla e ao
"pas dos negros". Ns a conhecemos graas a al-Idrs, que acrescenta que, por
esta via, exportavam-se as tmaras do Mzb para o Sudo88.
    A rota comercial seguinte era a via Wargla-Tlemcen, por ns conhecida gra-
as a al-Bakr, que assinala igualmente uma via interligando a capital do Estado
hammadita Kal'at Ab Tawl (Kal'at Ban Hammd, atualmente em runas, a 30
quilmetros do Bordj Areridj)  cidade de Wargla89.
    Aparentemente, a mais antiga e direta rota unindo Wargla e, por inter-
mdio desta, todo o Magreb ao Sudo era a pista conduzindo de Wargla a
Tdmekka, no Adrr dos Ifoghas (atualmente as runas de Es-Sk, situadas a


87    A mais antiga meno da via direta, interligando o Egito a Sidjilmsa, provm da crnica ibadita de Ab
      Zakarya' al-Wardjln (sculo VI/XII) e concerne a um fato que se situa no incio do sculo IV/X. Esta
      rota atravessava Tozeur e Wargla para desembocar diretamente em Sidjilmsa; referir-se a T. Lewicki, 1960.
88    Al-IDRS, 1866, p. 4; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 108.
89    Al-BAKR, 1911, p. 182; 1913, p. 340; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 86.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                      355



45 quilmetros do vilarejo de Kidal) e, deste ponto,  cidade de Gao. Segundo
al-Bakr, o ponto de partida desta via era Tdmekka, de onde se ia a Kayrawn,
passando por Wargla e por Kastliya (Tozeur)90. Sabemos, graas s fontes iba-
ditas, que o comrcio entre Wargla e Tdmekka j existia na segunda metade
do sculo IV/X e que um dos objetos deste trfico eram vestimentas, trocadas
por ouro91.
    Alm da rota Wargla-Tdmekka-Gao, havia ainda outra grande rota trans-
-saariana que interligava a cidade de Wargla aos mercados do Sudo Ocidental.
Gostaria aqui de falar da rota Wargla-Gana. Esta rota era muito mais importante
que a pista Wargla-Tdmekka, pois a cidade de Gana era um grande entreposto
para o ouro nela proveniente das grandes regies aurferas de Bambuk e Bure. A
via Wargla-Gana passava pela cidade de Sidjilmsa, no Tafillet, grande emprio
saariano, a verdadeira porta do Sudo. Os soberanos de Sidjilmsa (pertencen-
tes aos miknsa, aparentados aos zanta) haviam adotado as doutrinas da seita
sufrita, muitos prximas daquelas dos ibaditas, embora mantendo relaes muito
corretas com os imames rustmidas do Thert. Tudo leva a crer que o itiner-
rio Wargla-Sidjilmsa passava por El-Gola. Quanto  segunda parte da rota
Wargla-Gana, ela se dirigia, aps deixar Sidjilmsa, rumo  cidade de Tmdlt,
no Ss al-Aks (Tmdlt-Wka em nossos mapas, no Sudoeste marroquino).
Conhecemos esta via graas a al-Bakr, que oferece igualmente os nomes das
duas seguintes etapas, a saber, Izil, Kdiat de Idjl, e a cidade de Awdghust,
um importante mercado situado no Sul da atual Mauritnia, onde se encontram
hoje as runas de Tegdaoust92. Segundo al-Zuhr, a rota de Sidjilmsa a Gana
igualmente atravessava a cidade de Azuk (Azug), no Adrr mauritano93. Havia
igualmente outra via de Wargla a Gana, passando por Tdmekka. A via mais
direta que interligava Wargla e Thert passava pelo Mzb, por Tilghment e por
Laghwt, ou seja, pelo grupo central de osis do Saara Setentrional, situado entre
Wd Rgh e Wargla, de um lado, e o Twt-Gurra, do outro.
    Segundo Ibn Khaldn, o nome Mzb provm de um grupo zanta que
fundou os vilarejos desta regio. Entretanto, os ban mzb e a prpria regio
j eram conhecidos pelos ibaditas no sculo III/IX, com o nome arabizado de

90   N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 84-87; conferir T. LEWICKI, 1976, pp. 32-41.
91   N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 89 e 91. Aparentemente foi pela mesma via que
     Kayad, pai de Ab Yazd Makhlad, dirigiu-se de Tdmekka a Gao. Este ltimo nasceu em Tdmekka
     aproximadamente em 272/885. Consultar, mais adiante, o captulo 12.
92   Al-BAKR, 1911, p. 155 e seguintes; 1913, p. 295 e seguintes; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981.
     Para uma anlise dos dados de al-Bakr, conferir V. MONTEIL, 1968. Consultar igualmente mais adiante.
93   Al-ZUHR, 1968, p. 190 e seguintes; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 95-98.
356                                                          frica do sculo VII ao XI



mus'ab. Efetivamente, as crnicas ibaditas mencionam os ban mus'ab ou Djabal
Mus'ab (o Mzb dos nossos mapas). Os ban mus'ab professavam originalmente
a doutrina mutazilita, porm mais tarde (no sculo V/XI) eles foram convertidos
ao ibadismo.
    Dentre os vilarejos fundados no Saara Setentrional pelos zanta,  necessrio
mencionar a fortaleza de Tlghment (atualmente Tilghment ou Tilrhemt) e a
cidade de Laghwt (Laghouat), j conhecida no sculo IV/X com o nome de
al-Aghwt, a qual se encontrava sob o domnio do chefe zanta al-Khayr ibn
Muhammad ibn Khazar al-Zant.
    Outra cidade importante nesta regio era o ksar el-Gola, atualmente Taurrt
al-Mnia que, muito provavelmente, estabelecia a juno de Wargla com a rota
de Sidjilmsa. Aparente e igualmente em el-Gola ligava-se a via conduzindo
de Wargla a Tdmekka. El-Gola  mencionada por al-Bakr com o nome de
al-Kal'a ("a fortaleza"). Tratava-se de uma cidade muito habitada "que abrigava
uma mesquita e vestgios de antigos monumentos"94. El-Gola est situada
a Leste do Grande Erg ocidental, em uma montanha cnica que, segundo a
tradio local, era outrora cercada de vastos campos e cereais, bem como de
numerosas palmeiras irrigadas por vinte e quatro foggra.
    O grupo ocidental dos osis do Saara Setentrional  formado pelo Gurra,
pelo Twt e pelo Tidikelt, cuja unidade geogrfica est muito evidente. Destes
trs grupos, o Gurra  o mais povoado e o mais rico em gua e palmeiras. O
Twt constitui uma "rua de palmeiras" que se estende por mais de 200 quil-
metros, entre Bda e Taurrt; ele  menos povoado que o Gurra e o nmero de
palmeiras deste grupo de osis no ultrapassava seno ligeiramente o nmero
de tamareiras do Gurra. Finalmente, o Tidikelt possui somente a metade do
nmero de palmeiras do Gurra. Os osis do grupo ocidental so irrigados por
meio de canais subterrneos de captao e aduo das guas, chamados foggra.
    A histria do Gurra, do Twt e do Tidikelt  praticamente desconhecida
at o sculo VIII/XIV. Supe-se, em geral, que todos estes osis so de funda-
o recente, remontando do sculo VI da era crist, para o Gurra, at o sculo
XI/XVII para alguns do Tidikelt. Encontrou-se em Tamentt, no Twt, um
dolo de pedra com cabea de bode, o que nos autoriza a crer que este lugar foi
habitado, antes do Isl, por uma populao lbia berbere, provavelmente vinda
da Lbia oriental, de onde proviria, talvez de Swa, o culto de Amon com cabea




94    Al-BAKR, 1911, p. 77; 1913, pp. 156-157.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                                     357



de bode. Estes recm-chegados igualmente emprestaram dos lbios orientais a
arte de cavar as foggra.
   No tocante  converso ao judasmo dos berberes saarianos, ela comeou
provavelmente no sculo II da era crist, em decorrncia da disperso dos judeus
da Cirenaica que se salvaram na Mauritnia e no Saara, aps a represso romana
ordenada por Trajano. Mais tarde, houve uma nova imigrao judia no Gurra e
no Twt. Segundo a tradio local, a construo de uma sinagoga em Tamentt
ocorreu em 517 da era crist e outra foi construda em 72595.
   Um novo avano das fraes zanta em direo ao Gurra e ao Twt teve
lugar em meados do sculo V/XI. O seu segundo deslocamento foi provocado
pela invaso dos ban hill, assim como pela invaso dos almorvidas no Mar-
rocos, em consequncia da qual, alguns berberes, zanta e outros, muulmanos
ou convertidos ao judasmo, refugiaram-se no Saara.


     O Saara Central
    No centro do Saara e ao Sul do El-Gola e de Wargla h um macio de
terras altas chamado Ahaggar ou Hoggar, cujos anexos so o Tassili-n-Ajjer,
a Nordeste, e o Muydir, a Oeste. Dois outros macios prolongam o Ahaggar
rumo ao Sul, a saber, o Ar e o Adrr dos Ifoghas. Estas regies saarianas eram
ocupadas, do sculo II/VIII ao sculo VI/XII, por diversos agrupamentos
berberes originrios do ramo dito sanhdja, ancestrais dos atuais tuaregues.
Nenhuma cidade ou palmeiral digno de nota existiu no Ahaggar ou no Tassili-
-n-Ajjer nesta poca.
    Em contrapartida, no Adrr dos Ifhogas e no Ar, as fontes rabes medie-
vais nos indicam a existncia de verdadeiras cidades cuja populao se ocupava
do comrcio, porm nas quais as palmeiras ou jardins (aghren) ou inexistiam
por completo, como era o caso em Tdmekka, no Adrr dos Ifhogas, ou eram
insignificantes.
    O Tassili-n-Ajjer deve o seu nome aos berberes adjdjer ou azger, cuja descri-
o mais antiga -nos fornecida por al-Idrs96. Segundo este autor, que confere
aos adjdjer o nome azkr (para azgr), tratava-se de um povo cameleiro cujo cen-
tro poltico, situado talvez na direo das atuais Ght ou Djnet, encontrava-se


95   Acerca da converso ao judasmo, consultar H. Z. Hirschberg, 1974, vol. I; o papel comercial dos judeus
      discutido por M. ABITBOL, 1981.
96   Al-IDRS, 1866, p. 36 e seguintes; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 121-122.
358                                                                             frica do sculo VII ao XI



a dezoito dias de caminhada de Ghadmes e a doze dias da cidade de Teswa,
no Fezzn. Aparentemente, esta ltima rota  idntica  antiga rota dos "tan-
ques garamanticos" que interligava, no primeiro milnio antes da era crist, o
Fezzn a Gao, atravessando o pas adjdjer, o Hoggar e o Adrr dos Ifoghas. A
existncia desta antiga rota  comprovada pelas descobertas de Abalessa e por
vrias moedas antigas encontradas nestas localidades.
   No tangente  via Azkr-Ghadmes (provavelmente com incio na rea de
Ght ou Djnet), ela deve ser idntica  parte setentrional da rota Tdmekka-
-Ghadmes, descrita no sculo V/XI por al-Bakr. Entretanto, a localizao
exata das etapas desta rota -nos desconhecida.
   Sabemos muito pouco acerca da histria do Hoggar do sculo II/VIII ao
sculo VI/XII. Segundo a tradio local, antes do isl habitava no Ahaggar um
povo idlatra de lngua tuaregue chamado isebeten (ou isabeten, no singular
asabat), praticante de uma agricultura pr-tuaregue (figos, vinhas, palmeirais)
dotada de canais de irrigao. A atual cabila de Dag-Ghli reivindica-se des-
cendente destes isebeten e verdadeira proprietria das terras. Posteriormente,
o Hoggar foi invadido pelos lamta, em seguida pelos hawwra, os quais lhe
conferiram o seu nome (pela mudana do fonema berbere ww e gg, atestada
por Ibn Khaldn). Segundo este autor, uma frao dos hawwra atravessou as
areias e estabeleceu-se ao lado dos lamta "portadores de vu", habitantes nas
proximidades da cidade de Kw-Kw (Gao), no "pas dos negros"97. Ibn Battta,
que atravessou o Ahaggar, diz que os seus habitantes portavam um vu sobre o
rosto98. Tudo leva a crer que a chegada dos ahaggar hawwra no territrio que
eles atualmente ocupam deva estar relacionada com a derrota infringida aos
hawwra do Aurs pelo prncipe fatmida al-Mu'izz, em 342/953, assim como
com disperso destes rebeldes, dentre os quais, alguns, fugiram "at o pas dos
negros", aparentemente rumo ao atual Ahaggar. As fontes rabes mencionam
vrias regies (ou lugares) do Ar que j eram conhecidas no sculo III/IX.
Al-Ya'kb cita, entre os reinos dependentes do Estado sudans de Kw-Kw
(na curva do Nger), trs reinos que estavam situados, ao que tudo indica, no Ar.
Trata-se aqui dos reinos de Maranda, al-Hazban (no manuscrito al-Harbar) e
Tikarkarn (no manuscrito Tidkarr)99.
   O primeiro dentre estes reinos, por ns igualmente conhecido atravs do
Kitb alBuldn de Ibn al-Fakh al-Hamadn (escrito aproximadamente em

97    N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 327.
98    Ibn BATTTA, 1969, vol. IV, p. 444 e seguintes; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 304.
99    Al-YA'KB, 1883, p. 219; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 21.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                           359



290-903) e mais tarde graas s obras geogrficas de Ibn Hawkal e al-Idrs,
deve o seu nome  pequena cidade e ao ponto d'gua (atual Marandet) situados
ao Sul de Agads. Ali ainda existem os restos de um antigo vilarejo onde foram
encontrados, segundo R. Mauny, os vestgios de uma antiga mina de cobre100.
Segundo Ibn al-Fakh, o povo chamado maranda habitava alm de Kw-Kw
e o seu "pas" (ou antes, a sua capital) formava uma etapa na grande via trans-
-saariana de Gao at os osis do Egito101. Na segunda metade do sculo IV/X,
Ibn Hawkal menciona Maranda como uma etapa na rota conduzindo de Gana
a Adjadbya, na Cirenaica. Ela estava situada a um ms de caminhada da cidade
de Kw-Kw (Gao), constituindo o pouso seguinte (aps Gao) desta via que
em seguida atravessava a cidade de Zawla, no Fezzn102. Segundo al-Idrs,
Maranda era uma cidade bem povoada, "um refgio e um lugar de repouso
para aqueles que vo e que vm, no curso dos seus deslocamentos e expedies".
Todavia, segundo o mesmo autor, "os viajantes raramente passam por l"103.
    Quanto a al-Hazban (al-Hazbin), devemos a sua correo a J. Marquart, que
a identifica como sendo Azben ou Azbin104. Tratava-se, segundo H. Barth, do
antigo nome do Ar, empregado pela populao negra ou mestia deste pas e
ainda utilizado nos tempos deste viajente, ou seja, aproximadamente em meados
do sculo XIX105.
    O terceiro reino citado por Al-Ya'kb chama-se Tikarkarn; trata-se do plural
feminino berbere de Takarkart, denominao que ns encontramos no Tacarcart
dos nossos mapas. Esta falsia encontra-se a meio caminho entre as cidades de
Tahua e Agads, em uma regio onde no faltam os testemunhos de uma antiga
civilizao. No sculo VIII/XIV, Ibn Battta fala de um sulto berbere chamado
al-Takarkar, que tinha um diferendo com o sulto de Takedda (atualmente
Azelik, no Sudoeste do Ar). Em outro trecho da obra de Ibn Battta, o sulto
em questo leva o nome de al-Karkar, sem o prefixo berbere ta106.
    Al lado de Azbin, como vimos acima, antigo nome do Ar, algumas fontes
rabes mencionam igualmente esta ltima denominao. Ns a encontramos



100 R. MAUNY, 1961, p. 138.
101 Ibn ALFAKH, 1885, p. 68; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 27.
102 Ibn HAWKAL, 1938, p. 92; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 46.
103 Al-IDRS, 1866, p. 41; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 46.
104 J. MARQUART, 1913, p. 1 XXVIII e CIXCXVI.
105 H. BARTH, 1857-1858, vol. 1, p. 382.
106 Ibn BATTTA, 1969, vol. IV, p. 442; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 303.
360                                                                              frica do sculo VII ao XI



em al-Bakr sob a forma Hayr ou Hr107. A forma rabe moderna deste nome
 Ahr, em tamashek Ar.
    O macio do Adrr dos Ifoghas no era desconhecido, tampouco ele, dos
antigos gegrafos rabes, graas sobretudo  cidade de Tdmekka (atualmente
runas de Es-Sk, situadas a 45 quilmetros ao Norte do atual vilarejo de Kidal),
o seu centro poltico. Tdmekka igualmente constitua uma importante etapa da
via das caravanas que conduzia de Gao a Ghadmes e  cidade de Trpoli. De
Gao a Tdmekka havia nove dias de caminhada e de Tdmekka a Ghadmes
havia outros quarenta, atravessando o pas dos saghmra e quatro desertos dos
quais encontramos uma descrio em Al-Bakr108.
    Os saghmra eram os berberes que habitavam em uma regio estendida ao
Norte, ou antes Nordeste, de Tdmekka, at o ponto situado distante seis dias
de marcha (ou seja, aproximadamente 120 quilmetros em linha reta) das runas
de Es-Sk. Eles igualmente ocupavam o pas dependente de Tdmekka, situado
ao Sul desta cidade, visvis da cidade de Gao. H. Lhote identifica este grupo
com os tuaregues isekkamaren (no singular, asekkamar) do qual uma parte at
hoje vive como nmade no Adrar dos Ifoghas109.
    Tdmekka j existia no sculo III/IX como um importante centro comer-
cial, sobretudo visitado por mercadores berberes ibaditas de Wargla, Djard e
Djabal Nafsa, os quais frequentavam esta cidade para nela adquirem o ouro,
l abundante, proveniente das regies aurferas prximas a Gana. Tratava-se
igualmente do entreposto das mercadorias magrebinas, sobretudo roupas, as
quais chegavam pela rota de Wargla. Tdmekka era mais bem construda que
Gana e Gao; entretanto ela no possua reas cultivadas110.
    No sculo IV/X, Tdmekka constitua um Estado governado pelos reis per-
tencentes aos ban tnmak (um ramo dos sanhdja). Segundo Ykt, o nome
deste Estado era Tdmk e sua capital Zakrn, devendo ser corrigida para
Akrm (ler Agrm). Entretanto, os habitantes desta cidade no pertenciam ao
ramo berbere dos sanhdja, mas aos zanta. Enquanto os habitantes zanta da
capital eram muulmanos ibaditas desde o sculo III/IX, os sanhdja de Tdmk
somente se converteriam no ano 503/1109-1110111.



107 Al-BAKR, 1911, p. 183; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 87.
108 Al-BAKR, 1911, pp. 181-182; 1913, pp. 339-343; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 85-86.
109 H. LHOTE, 1955, p. 126 e seguintes.
110 N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 86-87.
111 YKT, 1866-1873, vol. II, p. 938; conferir T. LEWICKI, 1981, pp. 439-443.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                            361



   Descobriu-se em um velho stio, Tasalt, antigas exploraes de cobre e de
um mineral que se assemelha  turquesa, outrora utilizado para a confeco das
famosas "prolas de Gao". Em nossa opinio, trata-se da cidade chamada Tasala
ou Tasal, mencionada por al-Zuhr. Segundo este gegrafo, a cidade de Tasala
(Tasal) estava situada a nove dias de caminhada de Tdmekka. Este detalhe
autoriza-nos a aproximar esta cidade de Tasalt dos nossos mapas, situada a 180
quilmetros ao Norte de Es-Sk em linha reta. Os habitantes de Tasal (Tasalt),
 imagem daqueles de Tdmekka, estavam em guerra contra os habitantes de
Gana; eles foram islamizados em 503/1109112.
   A uma distncia de seis dias de caminhada de Tdmekka, encontrava-se,
caso dermos crdito a al-Bakr, uma regio chamada Ttak ou Tawtak, onde
existiam minas subterrneas de sal113. A provncia de Ttak deve o seu nome a
um ramo dos sanhdja, por ns conhecido atravs da lista das cabilas berberes
de Ibn Hawkal114. A posio exata desta regio nos escapa. No  impossvel
que devamos aproximar o seu nome, assim como o nome da cabila de Ttak,
daquele de Tatok, uma nobre frao tuaregue habitante atualmente do Ahnet,
regio situada ao Norte do Adrr dos Ifoghas e ao Norte de Tamanraset.


    O Saara Ocidental
    A situao tnica e poltica desta poro do Saara, estendida a Oeste do
Adrr dos Ifoghas e ao Sul do Marrocos at o Oceano Atlntico,  do nosso
conhecimento graas s fontes rabes dos sculos I/VII e VI/XII.
    A informao mais antiga concerne  expedio do general `Ukba ibn Nfi'
no Sul do Marrocos. Este ltimo entrou, em 62/682, no al-Ss al-Aks e atra-
vessou inclusive as fronteiras meridionais deste provncia, penetrando o Saara,
onde "atacou os massfa e, tendo feito uma boa quantidade de prisioneiros,
retrocedeu em seus passos"115.
    No acreditamos que a expedio de `Ukba ibn Nfi' tivesse como objetivo a
conquista rabe duradoura e a islamizao do Marrocos e do Saara Ocidental,
embora um historiador rabe medieval fale da converso ao isl, sob a presso
deste general, dos berberes sul-marroquinos do grupo djazla. Porm, aparen-


112 Al-ZUHR, 1968, pp. 181-182; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 98-99.
113 Al-BAKR, 1911, p. 183; 1913, p. 344; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 87.
114 Ibn HAWKAL, 1938, p. 106; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 50; conferir T.
    LEWICKI, 1959.
115 Ibn KHALDN, 1925-1926.
362                                                                           frica do sculo VII ao XI



temente antes se tratava de uma expedio de reconhecimento em direo s
regies aurferas do Sudo Ocidental, expedio similar quela realizada pelo
mesmo `Ukba ibn Nfi' em 47/666-667, com o objetivo de examinar a rota
comercial conduzindo da costa da Tripolitnia, atravs do Fezzn e do Kawr,
em direo ao Lago Chade.
    Vinte e cinco anos aps `Ukba ibn Nfi', o novo governador rabe da Ifrkiya,
Ms ibn Nusayr, conquistou, pacificou e converteu ao isl a maior parte dos ter-
ritrios do atual Marrocos. Entre 87/705-706 e 90/708-709, Ms ibn Nusayr
chegou at o pas de al-Ss al-Aks, cujos habitantes adotaram o isl e recebe-
ram como governador Marwn, filho de Ms ibn Nusayr.
    Entretanto, a conquista definitiva desta provncia e a sua converso ao isl
aconteceram somente durante o regime do governador da Ifrkiya chamado
`Ubayd Allh ibn al-Habhb (116/734-122/740), em consequncia da expedi-
o do general rabe Habb ibn Ab `Ubayda. Esta expedio era dirigida no
somente contra o Sul do Marrocos, mas, igualmente, contra o Sudo Ocidental.
Habb ibn Ab `Ubayda retornou vencedor desta expedio, trazendo consigo
numerosos prisioneiros e grande quantidade de ouro116.
    O seu filho Ism'l aparentemente continuou as expedies contra os ber-
beres, levando uma vida nmade no Saara Ocidental.  sem dvida destas
expedies que fala o eminente sectrio muulmano Abu `l-Khattb al-Azd (ou
al-Asad), que pereceu em 145/762 ou 147/764. Pois, em um dos seus relatos
transmitidos por Ibn al-Fakh, ele cita as seguintes palavras do comandante
rabe al-Mushtar ibn al-Aswad: "Eu organizei vinte expedies de guerra con-
tra o pas de Anbiy, partindo de al-Ss al-Aks. Eu vi o Nilo (aqui: Senegal);
entre este rio e um mar salgado (aqui: Oceano Atlntico) encontrava-se uma
colina arenosa, sob a qual nascia este rio.117"
    Seguindo esta tradio igualmente surge pela primeira vez o nome Anbiy
(cuja pronncia no est todavia definida) para designar os territrios situados
entre al-Ss al-Aks e o rio Senegal. Este nome aparece mais tarde na obra de
al-Fazr (aproximadamente 172/788) parcialmente transmitido por al-Mas'd
(morto em 345/956) para designar os territrios situados entre Sidjilmsa e o
reino de Gana, ou seja, por pouco que no, quase a totalidade do Saara ociden-
tal118. De acordo com outro trecho da obra de Ibn al-Fakh, este pas estende-se
por uma distncia equivalente a setenta dias de marcha atravs de plancies e

116 Acerca destas expedies, consultar T. LEWICKI, 1970.
117 Ibn ALFAKH, 1885, p. 64; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 27.
118 Al-MAS'D, 1861-1877, vol. 4, p. 37 e seguintes; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 32.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                           363



desertos119. Ao final do sculo III/IX, al-Ya'kb fala de Anbiy na qualidade de
um povo berbere do grupo sanhdja (zenaga), cujo pas estendia-se de Sidjilmsa
at a cidade e reino berbere de Ghast (Awdghust junto aos outros autores),
situado na periferia sudeste dos territrios que aqui nos interessam120. Este
estado de coisas indica que sob este nome enigmtico escondia-se a mais antiga
federao dos berberes do Saara Ocidental. Segundo Ibn Khaldn, esta federa-
o compunha-se dos massfa, dos lamtna e dos djuddla; a sua queda dataria,
segundo este historiador, de 306/919121. Precisamente contra esta federao se
haviam dirigido as expedies rabes organizadas pelo governador `Ubayd Allh
ibn al-Habhb.
    Aparentemente, estas expedies no durariam, entretanto, seno pouco
tempo e logrou-se assaz rapidamente alcanar um acordo entre os muulmanos
da frica do Norte e os chefes da federao de Anbiy, sucesso que permitiria
em seguida pacificar os territrios do Saara Ocidental. Isso gerou as condies
favorveis para o comrcio trans-saariano nestes territrios, assim como para
a propagao da religio muulmana, sobretudo realizada pelos mercadores
norte-africanos, os quais eram simultaneamente missionrios pregadores da f
do Profeta.  a este breve perodo que se referem, em nossa opinio, as seguin-
tes palavras de Ibn Khaldn: "Aquando da conquista de Ifrkiya e do Magreb
(pelos rabes), mercadores penetraram na poro ocidental do pas do Sudo e
no encontraram junto a eles nenhum rei mais poderoso que aquele de Gana.122"
    Estas relaes entre o Magreb muulmano e o Sudo Ocidental desdobraram-
-se em certa aproximao entre os mercadores norte-africanos e os nmades
berberes do Saara Ocidental; uma das consequncias desta aproximao foram
as primeiras converses ao isl de berberes desta regio.
    O primeiro chefe sanhdja que comeou a reinar no Saara ocidental foi
Tltn ibn Tkln (ou Itltn ibn Talkkn) pertencente  cabila dos lamtna.
Segundo Ibn Ab Zar', ele reinava sobre todo o territrio estendido sobre uma
rea cujo comprimento e a largura representavam trs meses de viagem. Ele
podia arregimentar 100.000 camelos de raa. O seu reinado foi longo e ele
morreu com a idade de 80 anos, em 222/837. O seu neto, al-Athr ibn Btin
sucedeu-o e reinou at a sua morte em 287/900. O ltimo rei do Estado dos


119 Ibn ALFAKH, 1885, p. 81; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 28.
120 Al-YA'KB, 1892, p. 360; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 22.
121 N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 328. Acerca da origem do nome Anbiy, consultar
    H. T. NORRIS, 1972, p. 72.
122 N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 332.
364                                                                      frica do sculo VII ao XI



sanhdja foi o filho de al-Athr, Tamm, que comandou estas cabilas at 306/918.
Ele foi morto pelos notveis sanhdja, revoltados contra ele. Em consequncia,
uma ruptura produziu-se entre as cabilas sanhdja e somente aps cento e vinte
anos estas cabilas lograram novamente se reunir, sob o comando do emir Ab
`Abd Allh Muhammad ibn Tft (Tfawt), conhecido pelo nome de Trsina,
um dos chefes dos lamtna (426/1035). O seu reinado no duraria mais que
trs anos. Em seguida foi o seu cunhado, Yahy al-Djuddl, que se tornaria o
chefe da federao dos sanhdja. Foi graas a ele que as cabilas sanhdja, as quais
at ento no eram seno superficialmente muulmanas, foram convertidas ao
sunismo pelo missionrio `Abd Allh ibn Ysn al-Djazl, trazido pelo emir
Yahy ibn Ibrhm da sua viagem  frica do Norte123.
    Segundo uma tradio relatada por Ibn Khaldn, a supremacia junto aos
sanhdja pertencia, antes de tudo, aos lamtna, os quais j formavam um grande
reino no tempo do emir umayyade `Abd al-Rahmn (139/756-172/788). Ibn
Khaldn em seguida enumera os soberanos do Estado sanhdja at Awrkan
ibn Urtantak124.
    Outra fonte citada por Ibn Khaldn menciona o mais clebre rei dos
sanhdja, reinante "em todo o Saara" durante o sculo IV/X. Tratava-se de um
certo Tnazwa ibn Wanshk ibn Bzr, tambm conhecido como Baryn ibn
Wanshk ibn Izr. Tudo levaria a crer que este prncipe teria sido o mesmo que
aquele conhecido por al-Bakr como Tn Yartn ibn Wsn ibn Nazr, o qual
reinou entre 350/961 e 360/971125. Ibn Hawkal menciona o rei Tanbartn ibn
Isfishr, por ele nomeado "prncipe de todos os sanhdja", que talvez fosse o
mesmo que os dois precedentes126.
    Aps ter atravessado o pas dos anbiy, chegava-se, segundo al-Ya'kb,
 regio chamada Ghast, reino "pago" cujo rei fazia incurses no "pas dos
negros"127. A populao deste distrito era parcialmente sedentria. Trata-se aqui
da cidade e do reino berberes mais bem conhecidos pelos antigos autores rabes
sob o nome Awdghust. Era um importante centro comercial, distante dez dias
de caminhada da cidade de Gana. Ns devemos esta informao ao gegrafo
rabe Ibn Hawkal, que passou por Awdghust em 340/951-952 e acrescenta


123 Ibn AB ZAR', 1843-1846, p. 76. Sobre Ibn Ysn e os primrdios dos almorvidas, conferir, mais
    adiante, o captulo 13.
124 Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 1, p. 236.
125 Ibid.; ALBAKR, 1911, p. 159.
126 Ibn HAWKAL, 1964, p. 98; 1938, p. 100.
127 Al-YA'KB, 1892, p. 360; 1937, pp. 226-227; 1962, p. 31.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                           365



haver uma distncia de dois dias de caminhada a separarem Awdghust da
cidade de Sidjilmsa128. Segundo al-Muhallab (escrevendo aproximadamente
ao final do sculo IV/X), Awdghust era, a um s tempo, o nome de uma vasta
regio e a capital deste pas, situando-se a uma distncia equivalente a quarenta
dias de caminhada de Sidjilmsa, atravs de areias e desertos. Segundo outro
excerto da mesma fonte, Awdghust comportaria belos mercados e os viajantes
para l afluam de toda parte; os habitantes eram muulmanos. O chefe do pas
era um homem da cabila dos sanhdja129.
    Segundo al-Bakr, o Estado de Awdghust estaria, dos anos 350/961 a
360/971, sob o reinado de Tn Yartn, originrio da cabila dos sanhdja, cujo
reino estendia-se ao equivalente a uma distncia de dois meses de caminhada.
Assim sendo, aparentemente e durante certo tempo, o reino de Awdghust
pertenceu  federao das cabilas sanhdja.
    Mais de vinte reis negros reconheciam o rei de Awdghust como soberano.
Mais tarde, o rei berbere de Awdghust reconheceu (at 446/1054) a suprema-
cia do rei de Gana (contrariamente aos lantma, massfa e djuddla que eram
independentes deste Estado negro). Awdghust era, nesta poca, uma grande
cidade compreendendo uma numerosa e riqussima populao, composta de
rabes e berberes (entre outros, indivduos provenientes das cabilas dos nafsa,
dos lawta, dos zanta, dos nafzwa e tambm dos berkadjna). No mercado de
Awdghust, "sempre repleto de gente", pagava-se com ouro em p130.
    A cidade estava erguida sobre uma plancie arenosa, ao p de uma montanha
desprovida de vegetao; ela era cercada de jardins e tamareiras. Awdghust
corresponde, aparentemente, a Tegdaoust, runas a Sudoeste de Tisht (aproxi-
madamente a 200 quilmetros) e a oeste-noroeste de Kumbi Saleh (ou antiga
Gana), da qual estava distante cerca de 400 quilmetros131.
    Na primeira metade do sculo V/XI, o reino berbere e aparentemente muul-
mano de Awdghust estava submetido ao reino "pago" sudans de Gana. Foi sob
este pretexto que Awdghust foi atacada e conquistada pelos lamtna, massfa e
djuddla da antiga federao dos sanhdja, transformada aproximadamente em
meados do sculo V/XI em Estado Almorvida.


128 Ibn HAWKAL, 1964, vol. I, pp. 90-100. N. LEVTZION (1968a) acredita que Ibn Hawkal jamais tenha
    penetrado em Awdghust.
129 Consultar D. ROBERT, S. ROBERT e J. DEVISSE (org.), 1970, pp. 19-20.
130 Al-BAKR, 1911, pp. 50-52.
131 Acerca das escavaes em Tegdaoust, conferir D. ROBERT, 1970; D. ROBERT, S. ROBERT e J.
    DEVISSE (org.), 1970; C. VANACKER, 1979.
366                                                                          frica do sculo VII ao XI



   A maioria da populao do Saara Ocidental, do sculo I/VII ao sculo V/XI,
era constituda por berberes do ramo sanhdja (lamtna, massfa e djuddla). Os
lamtna e djuddla habitavam o extremo Sul do pas do Isl, vizinhos aos negros,
fazendo outrora parte do grande Estado sanhdja de Anbiy. Segundo al-Idrs,
era aos lamtna que pertencia o pas de Tzukkght (atual Skiyat al-Hamr')132.
Os territrios dos lamtna englobavam igualmente ao Norte o pas de Nl, no
Sul do Marrocos133. Mais distante, rumo ao Sul, os seus territrios tocavam Izal
(ou Ayzal), correspondente a Kdiat de Idjl em nossos mapas. Ainda mais dis-
tante ao Sul, conhecemos uma regio chamada lamtna, situada a Noroeste da
regio de Tgant, no Sudeste da Mauritnia. Os lamtna igualmente ocuparam,
aproximadamente no ano 446/1054-1055, o Adrr mauritano (o Adrr Tmr),
em seguida denominado Djabal Lamtna. Tratava-se de um pas coberto de
palmeirais e tamareiras, plantadas por um povo ali estabelecido desde muito
tempo, os bafr, citados por tradies locais e algumas fontes portuguesas.
   A sede do Djabal Lamtna era a cidade de Azuk, formada ao longo dos
sculos V/XI e VI/XII, em torno da fortaleza almorvida de mesmo nome. Ela
representava uma ligao importante na rota que conduz de Sidjilmsa ao Sudo
Ocidental. Para os negros, esta cidade tinha o nome de Kkadam (al-Idrs) ou
Kkadam134. Trata-se de Azug dos nossos mapas, uma pequena localidade com
antigas runas almorvidas e pr-almorvidas, situada no Norte da Mauritnia,
no distante da moderna cidade de Atr135.
   Os ban massfa habitavam o deserto na regio pela qual passava a pista
interligando a cidade de Sidjilmsa quela de Gana. Eles no tinham nenhuma
cidade, excetuando-se Wd Dar'a ou Tymetn, situada a cinco dias de marcha
de Sidjilmsa136.
   Aproximadamente em meados do sculo VI/XII, os massfa atingiam, ao
Sul, a cidade de Azuk. No Sudeste, eles tomavam posse da salina de Taghza;
por este lugar passava a pista de caravanas conduzindo a wlten (ou Walta),


132 O nome "Tzukkght" (para Tazuggaght)  o feminino da palavra berbere azeggagh (rota). Quanto
    ao nome "Skiyat al-Hamr'", ele significa "o canal vermelho". Este pas  conhecido na obra de Ibn
    Khaldn e o seu centro al-Hamr' encontra-se no mapa de Abraham Cresques (sculo XIV) com o
    nome Alamara.
133 Nl ou antes Nl Lamta, hoje sobrevive na plancie de Wd Nn, no entorno de Goulimine, sudoeste
    marroquino, entre o Anti-Atlas e o Wd Dar'a. Consultar V. MONTEIL, 1968, p. 97.
134 Al-Idrs, 1866, pp. 59-60; YKT, 1866-1873, vol. 4, p. 229.
135 R. MAUNY, 1955a.
136 Segundo V. MONTEIL (1968, p. 90), esta cidade encontrava-se na regio do atual Tagounit, a 20
    quilmetros ao norte do cotovelo de Dar'a.
O papel do Saara e dos saarianos nas relaes entre o Norte e o Sul                         367



importante lugar de comrcio situado na extremidade sul do Saara Ocidental e
submetido, no sculo VIII/XIV, aos reis do Mali.
    No Sudoeste do territrio ocupado pelos ban lamtna, habitava, no sculo
V/XI e posteriormente, o grupo sanhdja dos ban djuddla, provavelmente des-
cendentes dos antigos getlios. Segundo al-Bakr, eles viviam no Norte do baixo
Senegal, prximos ao mar, do qual no estavam separados por nenhum outra
populao. Em razo disso, os djuddla habitavam o atual Sudoeste da Mau-
ritnia e igualmente ocupavam as cercanias do reino de al-Djabal al-Lamm'
(Cabo Branco)137.
    No tocante  populao do reino de Awdghust, os nmades que constituam
a sua maioria eram os sanhdja (zenaga) propriamente ditos. A populao da
capital era composta, como dissemos acima, de nativos da Ifrkiya e de indi-
vduos pertencentes aos barkadjna, nafsa, lawta, zanta e, sobretudo, aos
nafzwa; havia igualmente, embora em nmero mais reduzido, pessoas origin-
rias de todas as cidades muulmanas. Tratava-se aqui de comerciantes origin-
rios de diferentes fraes estabelecidas no Djabal Nafsa, no Bild al-Djard,
assim como nos osis do Sf, do Wargla e do Wd Rgh. Com efeito, as fontes
ibaditas mencionam eventualmente as viagens de comerciantes ibaditas que
vinham destes pases at Awdghust.
    Resultam das escavaes arqueolgicas, bem como das tradies coletadas
por estudiosos franceses, que em alguns lugares do Saara Ocidental no faltem
tampouco, ao lado da populao nmade, grupos de agricultores, cujos descen-
dentes sobreviveram at os dias atuais. Possumos alguns escritos portugueses
dos sculos IX/XV e X/XVI, segundo os quais  possvel descobrir a naciona-
lidade destes agricultores. Segundo estes documentos, eles pertenciam a dois
grupos distintos. Os agricultores brancos chamavam-se baffor ou abofur (nas
tradies locais bafr) e os agricultores negros barbar (Barbara, barbir, brba-
ros), sendo aparentados aos soninqus.
    As mais antigas, dentre estas populaes, deixaram no Adrr mauritano um
nmero considervel de runas de vilarejos e de stios arqueolgicos138. Estes
antigos stios so atribudos pela tradio local a um povo enigmtico dito
baffor, abofur ou bafr, habitante do Adrr mauritano at antes da chegada dos
mamtna139. Segundo algumas dentre estas tradies, os bafr eram brancos (o


137 C. E. de FOUCAULD (1940) menciona uma "tribo" tuaregue marabuta do Ar e do Azawagh, chamada
    ighdlen. Aparentemente, trata-se aqui dos descendentes dos djuddla da Alta Idade Mdia.
138 Conferir R. MAUNY, 1955a.
139 Consultar A. J. LUCAS, 1931; C. MODAT, 1919.
368                                                                          frica do sculo VII ao XI



que para ns  o mais plausvel) pertencentes ao grupo berbere dos zanta140.
Segundo as tradies mauritanas, os autctones no-muulmanos do Adrr
Tmr eram cultivadores e a eles se deve a plantao das primeiras palmeiras
em Adrr. Em nossa opinio, poder-se-ia identificar os bafr com a cabila lbia
(moura) dos bvaros, ativa no Oeste da frica do Norte nos sculos III e IV
da era crist. Eles emigraram em seguida para a atual Mauritnia e deixaram
a sua cultura e o seu nome para os habitantes do Adrr Tmr, o qual, no incio
do sculo XVI, ainda portava o nome "montanha de Baffor", como podemos
observar em um captulo do relato de Valentim Fernandes141.
    Segundo as fontes rabes do sculo VI/XII (Kitb alIstibsr e al-Zuhr),
os negros chamados barbar ou Barbara (no plural rabe barbir) formavam a
populao do pas sudans de Zfunu, atual Diafunu. Eles faziam parte dos
djanwa, ou seja, dos negros e tambm habitavam, segundo al-Zuhr, o centro
do deserto (tratava-se provavelmente dos desertos e das estepes do Sudeste da
Mauritnia) e os territrios prximos de Gana e Tdmekka (ao Norte de Gao),
cujos habitantes invadiam as suas terras para se apoderarem de escravos. Eles
possuam os seus reis e vestiam-se com peles, hbito normal em um povo com-
posto em parte por nmades. Os barbara acreditavam ser os mais nobres entre
os povos sudaneses e pretendiam que os soberanos de Gana fossem originrios
da sua cabila142.
    Os Barbara seriam, portanto, uma frao dos soninqus. No poderamos ns
identificar al-barbir (Barbara, barbar) a um povo negro chamado al-barbar que,
dando crdito  tradio local, habitava outrora a cidade de Tisht no Sudeste da
Mauritnia? Alguns observadores assimilam este legendrio povo a um povo de
agricultores de pele negra, chamados brbaros nas antigas crnicas portuguesas,
surgido nos sculos XV e XVI da era crist no Adrr mauritano, ao lado dos
"azenguios" ou zenaga (sanhdja) berberes.
    Assim apresenta-se a histria e a geografia histrica do Saara do sculo I/VII
ao sculo VI/XII. Ns dela apresentamos somente os fatos essenciais, remetendo
o leitor s fontes rabes e s monografias especiais.


140 Estas tradies encontram-se confirmadas por um interessante trecho do Kitb al-Bayn al-mughrib
    de Ibn `Idhr al-Marrkush (incio do sculo VIII/XIV), que ao falar das campanhas de Ibn Ysn,
    fundador do Estado Almorvida, diz o seguinte: "Perto dos lamtna, havia um macio habitado por
    tribos berberes no-muulmanas. `Abd Allh ibn Ysn convidou-os a adotarem a religio. Eles recusa-
    ram. Yahy ibn `Umar ordenou atac-los: os lamtna massacraram-nos e fizeram prisioneiros os quais
    dividiram entre si."
141 P. de CENIVAL e T. MONOD, 1938, p. 154; T. LEWICKI, 1978.
142 Kitb al-ISTIBSR, 1852; Al-ZUHR, 1968, p. 181.
O advento dos fatmidas                                                     369



                                       CAPTULO 12


                          O advento dos fatmidas
                                         Ivan Hrbek




    O estabelecimento da dinastia
    fatmida: o papel dos kutma
    Ao final do sculo III/IX, grande parte do Ocidente muulmano (Magreb
e Espanha) j escapava ao controle do califado abssida de Bagd; os umayya-
des estavam solidamente instalados na Andaluzia, a dinastia idrsida reinava
em algumas cidades e sobre grupos berberes do extremo oeste muulmano
(al-Maghrib al-Akh), assim como sobre os territrios limtrofes entre as terras
habitadas e o deserto, muitos Estados kharidjitas independentes estendiam-se
do Djabal Nafsa at Sidjilmsa. Somente os aghlbidas da Ifrkiya reconheciam
a soberania de Bagd, porm, aps um sculo de independncia de fato, os seus
laos com os abssidas eram puramente formais1.
    No mbito religioso  no podemos esquecer que no Isl as esferas poltica
e religiosa esto estreitamente imbricadas  o Magreb estava dividido entre a
ortodoxia sunita, com Kayrawn representando umas das cidadelas do direito
malikita, e a heterodoxia de diversas seitas kharidjitas (ibaditas, sufritas, nukka-
ritas etc.). Embora os idrsidas tenham pertencido  famlia de `Al e o seu
estabelecimento tenha precedido a propaganda xiita, aparentemente, os dogmas


1   Consultar, acima, o captulo 10.
370                                                           frica do sculo VII ao XI



da doutrina xiita, tal como haviam sido elaborados no Oriente, estavam pouco
propagados e, ainda menos, eram seguidos em seu reino.
    Tudo se transforma com a chegada na frica do Norte, ao final do sculo III/
IX, dos ismaelianos, vigorosa e extremamente ativa seita xiita. Um dos dogmas
fundamentais da f xiita  que a direo (imamado) da comunidade muulmana
pertence de direito aos descendentes de Maom, pela sua filha Ftima e pelo
seu marido `Al, o quarto califa. Diferentemente do califa sunita, o imame xiita
herdara de Maom no to somente a sua soberania temporal, mas, igualmente,
a prerrogativa de interpretar a lei islmica (shari'a), os imames encontravam-se,
infalivelmente, acima de qualquer reprovao. Ao primeiro imame, `Al, sucedeu
o seu filho al-Hasan, em seguida o seu outro filho, al-Husayn, na linhagem do
qual foi conservado o imamado. Outra parte desta doutrina consiste na crena
segundo a qual o ltimo dos imames visveis no estaria morto, mas teria ido
refugiar-se em um lugar secreto de onde sairia em momento oportuno, na qua-
lidade de "mahdi" (o bem dirigido), para restaurar o verdadeiro isl, conquistar o
mundo e "fazer reinar sobre a Terra a justia e a equidade, em lugar da opresso
e da tirania do mundo atual". No tocante a saber quem seria o ltimo imame
visvel e o primeiro escondido (portanto, o mahdi), os xiitas todavia se dividem
em numerosos grupos. Para a maioria dentre eles, o imame escondido  o dcimo
segundo, Maom, desaparecido em 264/878, sem descendncia. Os seus fiis so
conhecidos pelo nome de duodecimanos (ithn `ashariyya), os quais atualmente
formam a maioria dos xiitas.
    Outro grupo, embora concordando com os duodecimanos sobre a sucesso
at o sexto imame, Dja'far al-Sdik, deles se afasta a partir deste ponto, profes-
sando o imamado do filho primognito de Dja'far, Ism'l (morto em 144/761),
preferencialmente ao seu irmo, reconhecido pela maioria da seita. Ism'l (e
mais tarde o seu filho Maom) tornou-se assim para eles o stimo imame, o
imame escondido; os adeptos desta seita tomaram, portanto, o nome de ismae-
lianos (ism'liyya), tambm chamados setimanos (sab'iyya).
    A histria desta seita e a maneira pela qual tomaram forma as suas doutrinas
especficas, atravs das quais ela se diferencia dos outros xiitas, so assaz mal
conhecidas. Como frequentemente  o caso no tocante s seitas dissidentes,
o movimento ismaeliano ramificou-se em vrias correntes, um dos principais
pontos de divergncia referindo-se  natureza dos imames. Por um lado, havia
aqueles que, fiis  doutrina original, permaneciam fiis a Maom ibn Ism'l, o
imame escondido, acreditando que `Al e Maom ibn Ism'l eram profetas e que
o imame escondido, ressurgindo na forma de mahdi, traria uma nova f islmica.
Outra dissidncia, de onde provieram os fatmidas, aceitava a doutrina segundo
O advento dos fatmidas                                                         371
Figura 12.1    O Magreb na primeira metade do sculo V/XI. [Fonte: I. Hrbek.]
372                                                                                   frica do sculo VII ao XI



a qual havia imames visveis  frente da comunidade muulmana. Segundo a
verso fatmida oficial, a linhagem dos califas fatmidas fora precedida de uma
srie de "imames escondidos", descendentes de Maom ibn Ism'l. Porm, no
incio do seu domnio na frica do Norte, a sua doutrina apresentava um aspecto
particular: o segundo soberano da dinastia, al-K'im bi-Amr Allh, que detinha
um estatuto especial e era considerado como o mahdi que introduziria a era
messinica. Somente quando a sua morte dissipou as esperanas em si, a figura
do imame como chefe temporal e espiritual tomou uma posio dominante no
pensamento ismaeliano, relegando-se a figura do mahdi ao segundo plano.
    Os ismaelianos organizaram uma das mais sutis e eficazes propagandas
polticas e religiosas. Os seus dirigentes providenciaram a sada do retiro dos
missionrios (d', no plural du't), dentre os quais um dos mais importantes
encontrava-se em Salamiyya, na Sria, para envi-los pregar a sua doutrina
e, especialmente, o prximo retorno do imame escondido, o esperado mahdi.
Estes missionrios conquistaram numerosos adeptos em diversas provncias do
mundo islmico, no Sul do Iraque, no Barein, na Prsia e igualmente no Imen.
O ismaelismo, com as suas promessas imprecisas de uma nova era de reforma
e justia social, acompanhada do surgimento do mahdi, seduziu vrias camadas
sociais descontentes com a ordem estabelecida. Em cada regio, os missionrios
exploraram habilmente algumas queixas da populao; em vrios lugares, eles
lograram fundar pequenos Estados, entretanto, foi na frica do Norte, primei-
ramente junto aos berberes kutma, que o seu proselitismo alcanou os seus
maiores sucessos. nicos entre todas as correntes xiitas ismaelianas, os fatmi-
das foram capazes de fundar e conservar um imprio que duraria mais de dois
sculos, quase capaz de atingir o objetivo universal da doutrina2.
    O ramo kutma dos berberes habitava a regio da Pequena Kabylia, entre
Djidjelli, Stif e Constantine, nos limites extremo-orientais da antiga Mau-
ritnia romana. Embora os aghlbidas se considerassem oficialmente como
os mestres desta regio, eles somente raramente tentaram fazer prevalecer os
seus direitos, de modo que os kutma eram praticamente independentes. Ibn
Khaldn assinala que "eles jamais foram submetidos aos aghlbidas"3. Em que
pese a descrio do poder aghlbida, os kutma demonstravam profunda averso
pelos conquistadores e chefes rabes da Ifrkiya, averso por eles manifestada ao



2     As obras sobre os ismaelianos so assaz numerosas; os mais importantes e recentes estudos so aqueles de B.
      LEWIS, 1940; W. IVANOW, 1952; A. S. TRITTON, 1958; W. MADELUNG, 1961; S. M. STERN, 1961.
3     Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 2, p. 31.
O advento dos fatmidas                                                       373



concederem frequentemente refgio a numerosos desertores do exrcito (djund)
aghlbida.
    A trgua entre os aghlbidas e os rustmidas de Thert, ao final do sculo III/
IX, permitiu aos primeiros novamente esforarem-se para submeter os kutma.
Os seus exrcitos comearam ocupando algumas fortalezas nas proximidades da
zona kutma independente. Tendo se dissipado a esperana de uma ajuda rus-
tmida, a influncia do kharidjismo junto aos kutma, dantes jamais relevante,
ps-se a declinar, abrindo assim a via para a propaganda ismaeliana. A f xiita
no era de todo desconhecida no Magreb, haja vista que no sculo III/IX, dois
missionrios, Ab Sufyn e al-Hulwn, haviam desenvolvido nestas regies
uma breve campanha de propaganda, coroada de sucesso4.
    Mais duradouras e finalmente de importncia decisiva foram as atividades de
outro propagandista (d') nativo do Imen, Ab `Abd Allh al-Shi', que fora
enviado junto aos kutma aproximadamente ao final do sculo. Tendo estabele-
cido laos com alguns xeques kutma no curso da sua peregrinao  Meca, ele
os acompanhou at o seu pas em 280/893.
    Dificilmente concebemos a atrao que poderia existir para os kutma em
relao ao xiismo ismaeliano pregado por Ab `Abd Allh.  complexo discernir
um carter nitidamente social no ramo fatmida do ismaelismo. No Magreb, os
seus membros exploravam o descontentamento geral da populao local e, em
certa medida, o expansionismo kutma, porm at estes berberes jamais assimi-
laram a sua doutrina. Uma vez no poder no Magreb e posteriormente no Egito,
os fatmidas jamais realizaram a menor transformao social e jamais tiveram
a inteno de faz-lo; os seus escritos doutrinrios no fazem meno alguma
de similares preocupaes. Foi em outro ramo do ismaelismo, dos karmates de
Barein e da Arbia Oriental, que tomavam corpo as primitivas ideias sociais do
movimento, em defesa dos ideais de justia social e igualdade. Nada distinguia,
no plano social, o regime fatmida dos outros regimes islmicos5.
    Sejam quais tenham sido as razes, a maioria dos kutma no tardaria a
ser ganha pela propaganda de Ab `Abd Allh, em favor dos descendentes de
`Al e Ftima, ento representada pelo imame `Ubayd Allh. Em alguns anos,
os diversos cls kutma foram unificados em um poderoso exrcito, cimentado
pela asabiyya (solidariedade tnica) e pela mesma lealdade perante o imame
fatmida, o mahdi esperado, que deveria livrar o mundo dos opressores, fossem
estes ltimos os aghlbidas ou os seus longnquos mestres abssidas de Bagd.

4   F. DACHRAOUI, 1964.
5   C. CAHEN, 1961, pp. 13-15.
374                                                                                frica do sculo VII ao XI



    A luta decisiva contra os aghlbidas comeou em 290/903, quando as tropas
kutma desceram das suas montanhas para as plancies da Ifrkiya. As foras
aghlbidas foram facilmente vencidas e aps alguns anos, a maior parte da
Ifrkiya estava nas mos de Ab `Abd Allh; a poltica fiscal implantada por
este ltimo aumentou a adeso da populao  sua causa quando ele procla-
mou ilegais todos os impostos no-cannicos e devolveu aos habitantes cidades
tomadas como butim pelos kutma. Ziydat Allh III, o ltimo emir aghlbida,
aumentou, em contrrio, a carga fiscal dos seus sujeitos para financiar o seu
exrcito, medida que foi muito impopular junto s massas. Aps uma longa
campanha, Ab `Abd Allh amparou-se de Kayrawn, capital da Ifrkiya. Per-
cebendo consumada a sua derrota, Ziydat Allh deixou a sua residncia de
Rakkda e refugiou-se no Egito. Assim chegou ao final o perodo aghlbida da
histria da frica do Norte.
    Aps os primeiros sucessos dos seus partidrios na Ifrkiya, o imame `Ubayd
Allh, que at ento vivera em Salamiyya, na Sria, decidiu instalar-se no Magreb.
Em lugar de juntar-se a Ab `Abd Allh, na Ifrkiya, ele se dirigiu a Sidjilmsa,
a capital do Imprio Kharidjita Midrarida, no Sul do Marrocos. Tratou-se de
um curioso episdio, at o presente desprovido de explicao satisfatria. Por
quais razes o imame teria se fixado nesta regio extremo-ocidental, quando
uma vasta regio j se encontrava sob controle dos seus partidrios? Pretendia ele
criar um segundo centro em Sidjilmsa e apoderar-se do fluxo de ouro sudans
que ali chegava6? Sejam quais tenham sido as suas intenes, ele foi colocado
em crcere privado pouco tempo aps a sua chegada, sendo em seguida detido
e lanado na priso por al-Yas' ibn Midrr.
    Em 296/909, Ab `Abd Allh conduziu o exrcito kutma a Sidjilmsa para
libertar o seu mestre; no curso desta expedio e com o apoio das populaes
locais, ele venceu os rustmidas em Thert. Sidjilmsa capitulou sem combate e
`Ubayd Allh foi solto7. No ano seguinte, este ltimo fez a sua entrada triunfal
em Rakkda, onde foi proclamado "prncipe dos crdulos" (ttulo de califa) e
mahdi; segundo a doutrina ismaeliana, isso significava o fim da tirania e o incio
de uma nova idade de ouro.
    A origem de `Ubayd Allh e, por conseguinte, dos fatmidas, -nos ainda
obscura. Acerca da questo da legitimidade dos seus ttulos, os historiadores


6     J. DEVISSE, 1970.
7     Alguns historiadores sunitas afirmam que `Ubayd Allh foi morto na priso e que Ab `Abd Allh
      somente encontrou o seu servidor, por ele apresentado aos seus fiis como um verdadeiro mahdi. Conferir
      Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. 3.
O advento dos fatmidas                                                                                375



muulmanos esto divididos em dois campos. Os adversrios dos fatmidas
negam que eles sejam descendentes de `Al e de Ftima, considerando-os impos-
tores; deve-se observar que a autenticidade da sua descendncia jamais fora
contestada antes do ano 402/1011, data na qual o califa abssida de Bagd
publicou um manifesto, assinado por vrios notveis sunitas e xiitas, dentre os
quais vrios shuraf', denunciando a impostura das pretenses fatmidas8. Pos-
teriormente, encontraramos inclusive junto a notveis historiadores sunitas,
como Ibn al-Athr, Ibn Khaldn e al-Makrz, defensores da sua legitimidade.
Trata-se aqui de uma questo assaz complexa,  qual a pesquisa moderna no
foi capaz de oferecer resposta satisfatria9. Porm, o fato mais importante  que
os seus discpulos imediatos na frica do Norte jamais contestaram que eles
descendiam de `Al.
    `Ubayd Allh al-Mahd, reinante de 297/909 a 322/934, primeiramente
estabeleceu a sua residncia em Rakkda, comeando entretanto a construir,
pouco aps, uma nova capital na costa leste, al-Mahdiyya, onde instalou-se em
308/920. Em seguida, aps a revolta de Ab Yazd, o califa al-Mansr (334/946-
-341/953) fundou uma nova capital a Leste de Kayrawn, Sabra-Mansriyya,
concluda em 337/949. Os seus sucessores nela residiram at 362/973, data na
qual o ltimo dos fatmidas da frica do Norte, al-Mu'izz, partiria definitiva-
mente para o Egito.
    A fundao de um Estado xiita na frica do Norte selou a ciso do mundo
muulmano em trs imprios hostis; o califado abssida em Bagd, o cali-
fado fatmida na frica do Norte e o emirado umayyade de Crdova, `Abd
al-Rahmn III, perante o espetculo de dois califas, um hertico na Tunsia e
um ortodoxo na longnqua cidade de Bagd, proclamou o seu prprio califado.
Houve, portanto, durante certo tempo, trs califas no Isl. A debacle do califado
umayyade, em 422/1032, reduziu este nmero a dois e a extino dos fatmidas,
em 566/1171, a somente um, aquele dos abssidas em Bagd.


    A luta pela hegemonia na frica do Norte
    Se a derrubada da dinastia aghlbida e a ocupao da Ifrkiya propriamente
dita consumaram-se, por sua vez, em um perodo de tempo relativamente curto, as


8   Vrios historiadores conservaram o texto do manifesto; conferir P. H. MAMOUR, 1934, p. 201 e seguintes.
9   Alm dos estudos acima citados na nota 2, igualmente consultar ibid.; W. IVANOW, 1942, 1952;
    al-HAMDN, 1958 e M. CANARD, 1965.
376                                                                              frica do sculo VII ao XI



conquistas fatmidas no Magreb, quanto a elas, revelar-se-iam posteriormente mais
lentas e difceis. Isso se explica parcialmente pela fragilidade da situao no interior
deste reino e, por outra parte, pelas bases estreitas do seu poderio militar.
    A nova doutrina do xiismo ismaeliano no podia deixar de provocar insta-
bilidade em uma regio j dividida entre o sunismo malikita e o kharidjismo,
em suas formas ibadita e sufrita. Todos estes grupos no aceitavam, seno a
contragosto, a dominao dos fatmidas e muito amide manifestavam a sua
oposio, severamente reprimida ou abafada pela corrupo. A cidadela da opo-
sio sunita era Kayrawn, clebre centro da ortodoxia malikita, cuja influncia
sobre as populaes urbanas e rurais permanecia intacta. Embora estes grupos
sunitas jamais houvessem passado  revolta declarada, a sua resistncia passiva e
a eventualidade de v-los unirem-se s mais extremistas foras kharidjitas con-
tribuam para criar dificuldades  dinastia. Os califas expressavam abertamente
o seu desprezo e at o seu dio visvis das populaes locais, podemos supor
que estes sentimentos eram recprocos10.
    Desde o incio, os fatmidas consideraram a frica do Norte unicamente
como um trampolim para novas conquistas rumo ao Leste, o que lhes permitiria
suplantar os abssidas e realizar os seus sonhos de dominao universal. Estes
grandiosos projetos os obrigaram a manter poderosas e onerosas foras arma-
das (terra e mar). Embora o d' Ab `Abd Allh tenha sido muito popular nos
primrdios, ao abolir numerosos impostos ilegais, esta poltica foi rapidamente
alterada e o Estado Fatmida reintroduziu alguns impostos no-cannicos, dire-
tos e indiretos, pedgios e outras contribuies. Encontra-se nas crnicas um eco
de descontentamento generalizado, suscitado pela poltica fiscal dos governantes
"para quem todos os pretextos eram vlidos para tolher o povo"11.
    A situao militar apresentou precariedade desde o incio, pois os nicos
apoiadores da dinastia eram os kutma e alguns outros ramos ou cls sanhdja.
Em suplemento, estes contingentes "tribais" no podiam ser mantidos seno atra-
vs da promessa de pilhagens e de butim; quando estas promessas no podiam
ser mantidas, eles no tardavam em se revoltar. Esta tendncia manifestou-se
apenas dois anos aps a ascenso ao trono de `Ubayd Allh, quando este ltimo
determinou o assassinato de Ab `Abd Allh e do seu irmo, por razes que
conhecemos mal12. Os kutma responderam entrando em dissidncia e procla-


10    Conferir numerosos exemplos desta postura em M. CANARD (org.), 1958.
11    Ibn `IDHR, 1948-1951, vol. 1, p. 186 e seguintes.
12    O conflito entre o mahdi e o seu d' explica-se ou porque este ltimo duvidava que o seu mestre fosse
      de fato o mahdi ou porque o mestre temia a potncia e os dons de persuaso de Ab `Abd Allh.
O advento dos fatmidas                                                                      377




Figura 12.2 Vista panormica da pennsula de Mahdiyya (nos anos 1970). [Fonte: clich KAHIA; foto
fornecida pelo Ofcio da Topografia e da Cartografia, Tnis.]
378                                                                           frica do sculo VII ao XI



mando um novo mahdi que era uma criana; a revolta foi rpida e ferozmente
reprimida. Estima-se, em geral, que os kutma tenham formado o pilar do poder
fatmida e  inegvel que eles ajudaram a dinastia a conquistar o Magreb e o
Egito, neste aspecto eles desempenharam um papel que no se pode subestimar;
existem numerosos exemplos de desordens por eles provocadas, das suas rebe-
lies e da sua felonia. Perante tal estado de coisas, era natural que o fundador
da dinastia buscasse alhures recrutas mais confiveis para o seu exrcito. Ele
os encontrou em meio a vrias populaes eslavas da pennsula balcnica: os
sakliba (no singular sakllab), como os chamavam os rabes, j serviam como
guardas sob os ltimos aghlbidas, porm foi sob `Ubayd Allh e os seus suces-
sores imediatos que as tropas sakliba tornaram-se o segundo e mais estvel
pilar do sistema militar e inclusive administrativo fatmida13. Eslavos do Sul,
em sua maioria dalmacianos, srvios, blgaros, os sakliba haviam chegado 
frica do Norte por diversas vias, ou como escravos importados e vendidos
pelos venezianos, ou como cativos, aps incurses rabes nas costas do Adri-
tico. No Imprio Fatmida, eles desempenharam um papel anlogo quele dos
soldados-escravos turcos nas pores orientais do mundo islmico, servindo no
somente como tropas de elite, mas, igualmente, como administradores, governa-
dores e cortesos, renomados pelas suas proezas militares assim como pela sua
lealdade. Alguns dentre eles acederam s mais altas funes, como Djawhar, o
futuro conquistador do Egito e fundador do Cairo e da mesquita e universidade
de al-Azhar. Sob al-Mu'izz, dois sakliba, Kaysar e Muzaffar, foram nomeados
respectivamente governadores das provncias ocidental e oriental da frica do
Norte, alm de ter havido vrios outros no entourage imediato dos califas.
    Foi graas  ajuda destes dois contingentes kutma e sakliba que o pequeno
reino fatmida de Ifrkiya transformou-se em um imprio estendido do Atlntico
 Sria, tornando-se uma das grandes potncias mediterrneas dos sculos IV/X
e V/XI. Em contrapartida, os africanos negros no desempenharam um papel
anlogo quele que mais tarde seria o seu, durante a fase egpcia. Entretanto,
havia negros nas foras armadas, chamados zawl, do nome do grande mercado
de escravos do Fezzn, o que aparentemente indica a sua origem chadiana14.
    Embora os fatmidas sejam considerados a primeira dinastia a realizar a uni-
dade poltica de toda a frica do Norte (Ifrkiya e Magreb), um estudo minucioso
mostra a qual ponto a sua autoridade era frgil no Oeste da Ifrkiya propria-
mente dita. Seria fastidioso enumerar ou relatar todas as campanhas lanadas no

13    Acerca do papel dos sakliba no Imprio Fatmida, conferir I. HRBEK, 1953.
14    Ibn HAMMD, 1927, pp. 34-35.
O advento dos fatmidas                                                       379



Magreb sob os reinos de `Ubayd Allh, al-K'im, al-Mansr (334/946-341/953)
e al-Mu'izz (341/953-365/975). Numerosas regies ou cidades conquistadas
pelos exrcitos fatmidas exigiram s-lo, nova e posteriormente, em mltiplas
ocasies, haja vista que as populaes, os chefes ou os emires aproveitavam a
primeira oportunidade para desestabilizar o jugo estrangeiro. Foi assim que
Thert, conquistada pela primeira vez em 295/908, foi novamente dominada em
299/911, em seguida, uma terceira vez em 322/934; Fez, primeiramente tomada
em 308/920, foi retomada em 322/934, em 423/1032 e em 347/958. Igualmente
no tocante a Sidjilmsa, onde os governadores fatmidas alternavam-se com os
emires midraridas. Inclusive a regio dos awrs, muito prxima da Ifrkiya, no
seria pacificada seno em 342/953.
    Vrias regies da frica do Norte sempre escaparam  autoridade dos fat-
midas. Aps a tomada de Thert, o ltimo imame rustmida refugiou-se com
o seu povo em Wargla, onde os ibaditas, sem todavia tentarem fundar um
novo imamado, permaneceram independentes e espalharam-se inclusive at o
Mzb. O Djabal Nafsa, antiga fortaleza dos ibaditas, jamais foi conquistado
e foi, durante toda a durao do sculo IV/X, o centro de um pequeno Estado
independente.
    No transcorrer do sculo IV/X, toda a faixa ao longo da extremidade seten-
trional do Saara permaneceu nas mos dos zanta, os quais controlavam os
pontos de chegada do comrcio caravaneiro, mantido com a regio do lago
Chade e Gao. Os califas fatmidas jamais foram capazes de impor o seu domnio
sobre esta poro do Magreb. Foi em Sidjilmsa, o ponto de chegada situado
mais a Oeste, que eles se esforaram para interceptar o afluxo do ouro sudans,
to necessrio para os seus grandiosos projetos de conquista. Aparentemente, o
controle da rota ocidental do ouro, no a colonizao da totalidade do Magreb,
teria sido o principal objetivo da sua poltica norte-africana15.
    As tentativas fatmidas de aplicar esta poltica foram constantemente contra-
riadas, a um s tempo, pelas foras centrfugas locais e pelos inimigos externos,
unidos em sua oposio  dinastia xiita. A tradicional rivalidade, opondo os
berberes zanta e os sanhdja, em razo das diferenas entre os seus respectivos
modos de vida, os seus interesses comerciais e as suas crenas religiosas, logo
tornar-se-ia parte integrante do duelo de dimenses mais grandiosas que trava-
riam, no sculo IV/X, as duas grandes potncias do Isl no Oeste: os umayya-
des da Espanha e os fatmidas da Ifrkiya. No possuindo fronteiras comuns,


15   J. DEVISSE, 1970, p. 144.
380                                                                            frica do sculo VII ao XI



estes dois imprios no deixariam de travar uma luta mortal pela hegemonia,
atravs dos seus aliados berberes; enquanto, em geral (salvo algumas excees),
os zanta e, especialmente, os mais temidos entre eles, os maghrwa, defen-
diam os interesses e pretenses dos califas de Crdova, os grupos sanhdja, por
sua vez, notadamente os ban zr, enfileiravam-se, de modo resoluto, do lado
fatmida16. Durante um sculo e meio, as duas alianas inimigas conheceram,
alternadamente, sucessos e revezes; no entanto, enquanto a base do poder dos
fatmidas permaneceu na Ifrkiya (at a oitava dcada do sculo IV/X), foi a
aliana sanhdja-fatmidas que logrou maiores xitos. No decorrer deste per-
odo, os seus exrcitos alcanaram ao menos duas vezes o Magreb Ocidental; em
322/934, um exrcito fatmida conduzido por Maysr al-Saklb reconquistou
Fez e reinstalou os idrsidas em seu territrio, sob protetorado fatmida. A
campanha de Djawhar, em 347/958-348/959, foi de amplitude muito grande;
com um enorme exrcito kutma e sanhdja comandado por Zr ibn Mand,
Djawhar amparou-se de importantes territrios no Marrocos, at as margens
atlnticas, excetuando-se Tanger e Ceuta, as quais permaneceram em mos
umayyades. Contudo, este grande sucesso no foi suficiente para garantir de
modo duradouro o controle fatmida sobre estas longnquas regies: oito anos
mais tarde, Djawhar deveu novamente lanar uma expedio a esta zona, para
reconduzi-la  soberania dos seus mestres. Pouco aps, enquanto a maior por-
o das foras fatmidas se reagrupava para atacar o Egito, o Magreb ocidental
entrava na rbita umayyade e seria para sempre perdido pelos fatmidas e os
seus vassalos zridas.
    Desde o incio entrev-se, como pano de fundo da luta entre fatmidas-
-umayyades e sanhdja-zanta, a perspectiva do controle do ouro sudans e dos
pontos de chegada das rotas caravaneiras. Os historiadores encontram-se ainda
no incio da avaliao acerca da amplitude das implicaes deste fator para a
histria da frica Ocidental e do Norte, particularmente no tocante  interpre-
tao da histria dos fatmidas17.
    J evocamos o crescente descontentamento suscitado em amplas camadas
da populao pela opresso fiscal e religiosa dos fatmidas. At os ltimos anos
do reinado de al-K'im, as manifestaes exteriorizadas deste descontenta-
mento no tomaram contornos ameaadores e as poucas rebelies ou revoltas


16    Acerca da rivalidade entre os sanhdja e os zanta, conferir H. TERRASSE, 1949-1950, vol. 1; L.
      GOLVIN, 1957; H. R. IDRIS, 1962 e E. LVIPROVENAL, 1959-1953, vol. 2.
17    Os primeiros trabalhos sobre este problema foram realizados por J. DEVISSE, 1970; consultar igual-
      mente C. CAHEN, 1981.
O advento dos fatmidas                                                                381



localizadas, ocorridas aqui ou acol, foram facilmente reprimidas. Porm, em
332/943-944, eclodiu um terrvel levante ou, mais exatamente, uma verdadeira
revoluo, a qual no esteve distante de totalmente destruir o Estado Fatmida.
O seu chefe foi Ab Yazd Makhlad ibn Kaydd, comumente chamado Ab
l-himr, "o homem montado no asno", nascido em Tdmekka ou Gao (Kw-
-Kw) no Sudo, filho de um negociante zanta de Bild al-Djard e da sua
escrava negra18. Desde a sua primeira infncia, Ab Yazd primou pelo conhe-
cimento e pelo ensino da doutrina ibadita e rapidamente tornou-se uma das
figuras dirigentes do ramo nukkarita, a ala extremista do ibadismo. Quando
`Ubayd Allh estabeleceu a dominao xiita, Ab Yazd consagrou todos os seus
dons de orador, o seu zelo missionrio e a sua crescente influncia para mobilizar
o seu povo com o objetivo de destruir a dinastia mpia. Deixando Djard, onde a
sua atividade despertara temores junto s autoridades, ele refugiou-se no Magreb
Central. Junto aos berberes das montanhas do Awrs, assim como em meio s
massas camponesas das plancies, ele pregou a guerra santa contra os fatmidas,
preconizando a criao de um Estado democrtico, dirigido por um conselho de
xeques pios e governado segundo a doutrina kharidjita. Ele obteve algum apoio
junto aos umayyades da Espanha e concluiu uma aliana relativamente precria
com a burguesia malikita ortodoxa de Kayrawn. Nos seis meses subsequentes
ao desencadeamento da revolta declarada, o seu exrcito de fiis fanticos varreu
as plancies da Ifrkiya, amparou-se de Kayrawn em 333/944 e desafiou as tro-
pas fatmidas durante vrias violentas batalhas. Em seguida, durante seis meses,
Ab Yazd cercou al-Mahdiyya, ltimo reduto do poder fatmida, defendida pelo
califa al-K'im com as suas tropas kutma e sakliba. O domnio xiita na frica
do Norte estava a um passo da runa19.
    Para um exrcito no formado de soldados profissionais, um cerco prolon-
gado sempre tem efeito desgastante e desmoralizante, e as tropas de Ab Yazd,
provenientes de diversas cabilas, rapidamente comeariam a se dispersar e retor-
nar aos seus lugares de origem. Nem mesmo a morte de al-K'im, em 334/946,
melhoria a situao das foras rebeldes, em progressiva deteriorao.
    O novo califa, al-Mansr, tomou medidas enrgicas para abafar a revolta;
com foras renovadas, vindas sobretudo da Siclia, ele retomou Kayrawn e, no
curso de uma campanha de seis meses, infringiu uma derrota decisiva ao exrcito
kharidjita. Durante um ano, Ab Yazd prosseguiu a luta com os seus ltimos


18   Ibn HAMMD (1927, p. 33) afirma que foi em Tdmekka, ao passo que Ibn KHALDN (1925-1926,
     vol. 3, p. 201) reporta ser ele nativo de Gao.
19   Acerca da revolta, conferir R. LE TOURNEAU, 1954.
382                                                                            frica do sculo VII ao XI



fiis, nos montes do Hodna; em 336/947, ele sucumbiria em razo de ferimen-
tos sofridos em uma das escaramuas com as foras fatmidas; o seu filho Fadl
continuaria as hostilidades ainda durante um ano, porm, aps a sua morte, as
ondas de revolta diminuram pouco a pouco.
    A revolta de Ab Yazd foi a mais potente entre todas as ocorridas contra
os fatmidas e quase derrubou este regime. Em 358/968-969, uma nova revolta
dos ibaditas wahbitas, conduzida por Ab Khazar em Bild al-Djard, no Mzb
e na Tripolitnia, cujos principais contingentes haviam sido oferecidos pelos
berberes mazta, no colocou seriamente em perigo o regime e foi rapidamente
reprimida20. A vitria de al-Mansr sobre Ab Yazd anunciou o incio do
declnio da influncia kharidjita na frica do Norte. Aps a invaso dos ban
hill, no sculo V/XI, este declnio continuaria se acelerando; os ibaditas mais
intransigentes retiraram-se em algumas regies afastadas, ao passo que a maioria
dentre eles converteu-se paulatinamente ao isl sunita ortodoxo.


      A formao do Imprio Fatmida:
      Siclia, Mediterrneo, Egito
    Os fatmidas herdaram dos seus predecessores, os aghlbidas, o interesse dedi-
cado por estes ltimos  Siclia. Fora necessrio aos aghlbidas mais de setenta
anos (de 212/827 a 289/902) para a conquista de toda a Siclia, tornando -a parte
do mundo muulmano durante dois sculos21. O domnio fatmida na Siclia no
comeou sob bons auspcios: os habitantes da ilha expulsaram, sucessivamente,
os dois governadores nomeados aps 297/909 por `Ubayd Allh, elegendo em
300/912 o seu prprio governador, Ahmad ibn Kurhub. Este ltimo declarou-se
a favor do califa abssida e enviou a sua frota contra a Ifrkiya em duas ocasies.
Vencido em sua segunda expedio, aps ter reinado durante quatro anos como
soberano independente, Ibn Kurhub foi abandonado pelas suas tropas e entregue
ao califa fatmida, que determinou a sua morte em 304/916. Somente ento a
Siclia foi novamente ligada  esfera fatmida; entretanto, ela foi em seguida,
ao longo de trinta anos, o palco de uma grande agitao, desdobrada em guerra
civil. A populao muulmana estava dividida; havia constantemente atritos
entre os rabes da Espanha e da frica do Norte, por um lado, e os berberes,
por outra parte. A situao era ainda complicada pelas cises originrias na velha

20    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 2, p. 548.
21    No tocante  histria da Siclia  poca muulmana, conferir a obra de M. AMARI, 1933-1939.
O advento dos fatmidas                                                     383



rivalidade entre iemenitas do Sul da Arbia, includos os kalbitas, e os rabes
do Norte. A situao no melhoraria e a ordem no seria restabelecida seno
quando o califa enviou al-Hasan ibn `Al al-Kalb como governador, em 336/948.
Sob al-Kalb (morto em 354/965) e os seus sucessores, os quais formaram a
dinastia dos kalbitas, a Siclia muulmana tornou-se uma provncia prspera e
gozou de crescente autonomia.
    Os muulmanos reorganizaram a Siclia, conservando as slidas bases sobre
as quais os bizantinos a haviam estabelecido. Eles aliviaram um pouco o pesado
sistema fiscal bizantino, dividiram vrios latifndios em pequenas unidades de
explorao as quais os camponeses, arrendatrios ou proprietrios, submeteram
a uma cultura intensiva, aperfeioando a agricultura pela introduo de novas
tcnicas e de novas espcies vegetais. Os autores rabes enfatizam a abundncia
de metais e outros minerais, como o sal amonaco (cloreto de amnia), precioso
produto de exportao. Foi nesta poca que se comeou a cultivar os ctricos, a
cana de acar, as palmeiras e amoreiras. Em relao ao cultivo do algodo, ele
ainda duraria um longo tempo, at o sculo VIII/XIV. A produo de horta-
lias teve um progresso ainda mais notvel: a Siclia exportava para a Europa
Ocidental cebola, espinafre, melo etc.
    O comrcio com a Ifrkiya igualmente revestia-se de grande importncia;
os dois pases trocavam produtos de base: o leo da Ifrkiya contra o gro e
a madeira da Siclia. Enquanto os outros pases muulmanos, como sabemos,
careciam de madeira, a Ifrkiya, sob os aghlbidas e depois sob os fatmidas,
pde, graas  madeira siciliana, compor uma temida frota e tornar-se uma das
principais potncias martimas do Mediterrneo central. Tambm da Siclia
provinham, especialmente, os experientes marinheiros que formavam o pessoal
de bordo das embarcaes fatmidas (e, posteriormente, dos zridas).
    O domnio da Siclia concedeu aos fatmidas a supremacia estratgica no
Mediterrneo e Palermo tornou-se uma importante base naval. Para financiar os
seus onerosos projetos de conquista, os fatmidas contavam com o butim adqui-
rido pelas expedies que corsrios ou o prprio Estado organizavam nas costas
da Europa crist ou da Espanha muulmana. Malta, a Sardenha, a Crsega, as
Baleares e outras ilhas experimentaram, desde o reino de `Ubayd Allh, a potn-
cia da frota que ele herdara dos aghlbidas. Esta frota esteve particularmente
ativa entre 309/922 e 316/929, submetendo  pilhagem, quase anualmente, as
duas margens do Adritico, a costa do mar Tirreno e o Sul da Itlia (principal-
mente Taranto e Otranto). A expedio de 323/934-935 igualmente conheceu
grande sucesso; a frota amparou-se de Gnova e devastou a costa meridional
da Frana e toda a costa da Calbria; por toda parte, os corsrios dedicavam-se
384                                                            frica do sculo VII ao XI



 pilhagem e capturavam os habitantes para vend-los como escravos. Tudo
leva a crer que a revolta de Ab Yazd tenha tido como efeito restringir esta
atividade naval, a qual no retomaria certo vigor seno no reinado de al-Mu'izz.
Em 344/955-956, a frota fatmida realizou uma incurso na costa da Espanha
umayyade; no ano seguinte, Djawhar conquistou uma grande vitria sobre a
frota bizantina e procedeu ao desembarque de tropas no Sul da Itlia. Porm, a
sua frota foi dispersa e, em larga medida, destruda por uma tempestade no curso
da sua viagem de retorno. Os fatmidas gozavam no Mediterrneo de tamanha
supremacia que, alguns sculos mais tarde, Ibn Khaldn notaria nostalgicamente
que "os cristos no podiam nada lanar ao mar, sequer uma prancha"22.
    A ocupao da Siclia naturalmente lanou os fatmidas em um conflito com
os bizantinos, aos quais ela pertencera anteriormente. O crescimento do poderio
martimo dos fatmidas e a evoluo da situao poltica no mundo mediterr-
neo rapidamente reduziram os bizantinos  posio defensiva e os conduziram
a buscar uma trgua. J sob `Ubayd Allh, o imperador bizantino engajara-se,
atravs de um tratado, a anualmente pagar um tributo de 20.000 moedas de
ouro. O califa, por sua vez, pretendia fortalecer a sua posio perante Bizncio,
formando uma aliana com os blgaros; embaixadores blgaros dirigiram-se 
corte do califa, em al-Mahdiyya, porm, durante a viagem de retorno, o navio
que os conduzia juntamente com os embaixadores fatmidas foi capturado pelos
bizantinos e o projeto de aliana fracassou. O imperador colocou em liberdade
os enviados do califa e este ltimo, reconhecendo esta ao magnnima, reduziu
pela metade o tributo exigido de Bizncio.
    O imperador tentou, sem grande sucesso, oferecer o seu apoio  populao
bizantina de Agrigente, na Siclia, rebelada contra o califa al-K'im. Durante a
guerra que ops al-Mu'izz e os umayyades da Espanha, o imperador, que apoiava
estes ltimos, prometeu retirar as suas tropas se o califa lhe acordasse uma trgua
de longa durao. Al-Mu'izz primeiramente recusou e, somente quando a sua
frota, aps algumas vitrias, conheceu igualmente algumas derrotas, finalmente
aceitou receber os embaixadores de Bizncio e concluir uma trgua de cinco
anos (em 346/957-958)23. Alguns anos mais tarde, os bizantinos recusaram-se a
continuar pagando o tributo e reacenderam a guerra na Siclia; entretanto, o seu
exrcito sofreria uma derrota desastrosa em Rametta e a sua frota foi vencida na
batalha dos Estreitos, em 354/965. As negociaes subsequentes desdobraram-


22    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 2, p. 202.
23    Consultar S. M. STERN, 1950.
O advento dos fatmidas                                                        385



-se em um tratado de paz, em 356/967, atravs do qual al-Mu'izz pretendia ter
as mos livres para atacar o Egito.
    A ideia imperial era inerente ao ismaelismo, do qual os fatmidas eram os
expoentes. Dentre todas as dinastias xiitas ismaelianas, somente a dinastia fat-
mida estava em condies de atingir o objetivo que comportava o carter uni-
versal desta doutrina. A dominao por ela exercida sobre uma poro da frica
do Norte no representava para si seno uma primeira etapa rumo  criao
de um imprio universal que seria dirigido pelos descendentes do Profeta, em
conformidade com a doutrina esotrica do ismaelismo. Para acelerar a realizao
deste projeto, era necessrio que os fatmidas, dominantes somente em uma
regio perifrica, a Ifrkiya e o Magreb, estendessem o seu poder sobre o que
representava o corao do mundo muulmano, em outros termos, a regio com-
preendida entre o Egito e o Ir, esses inclusive. Entretanto, os califas eram assaz
realistas para compreenderem que a frica do Norte deveria temporariamente
formar a base econmica e estratgica da sua ao; e, efetivamente, foram os
recursos humanos e materiais desta regio que lhes permitiram empreender a
sua marcha vitoriosa em direo ao Oriente.
    Aps ter estabelecido o seu domnio na Ifrkiya, `Ybayd Allh al-Mahd,
julgou, de modo assaz prematuro, que chegara o tempo de conquistar o Egito. O
seu filho al-K'im dirigiu duas expedies contra o Egito em 301-302/913-915
e em 307-309/919-921. O exrcito fatmida obteve alguns sucessos no incio
de cada uma destas campanhas; avanou, na primeira vez, alm dos limites
de Alexandria, at as portas de Fustt e, na segunda ocasio, at o Fayym;
no entanto, as duas expedies terminaram em grandes derrotas. No curso da
segunda expedio, a frota fatmida foi inteiramente destruda. O nico resul-
tado tangvel foi a ocupao permanente de Barka (Cirenaica), a qual constitui-
ria uma importante base para novas conquistas. Aps a sua chegada ao trono,
al-K'im organizou, em 325/937, uma terceira expedio, igualmente fracassada.
Estas derrotas recorrentes antes de tudo eram provocadas pela insuficincia de
recursos inicialmente disponveis ao Estado. Foi necessrio esperar quase meio
sculo para que, com a melhora da situao econmica, militar e poltica, os
fatmidas pudessem novamente empreender, desta feita com xito, a conquista
do Egito. Entrementes, a Ifrkiya e as suas possesses (a Siclia, parte da Arg-
lia e da Lbia) conheceram um perodo de prosperidade sem precedentes. Esta
bonana devia-se, parcialmente, ao papel que a Ifrkiya,  poca um entreposto
de primeira importncia, desempenhava no seio do comrcio mediterrneo,
alm do controle que ela, por outra parte, exercia, sobre a importao do ouro
do Sudo Ocidental. O exrcito e a marinha tornaram-se mais eficazes graas
386                                                                               frica do sculo VII ao XI



 experincia adquirida em vrias campanhas, no Magreb e no Mediterrneo
Central, campanhas no curso das quais numerosos generais e almirantes deram
prova das suas qualidades de direo. Finalmente e sobretudo, os fatmidas
lograram constituir uma administrao centralizada muito eficaz, assegurando
assim o abastecimento regular das tropas.
    Estes progressos, bem como os sucessos obtidos no Magreb pelas foras
fatmidas, permitiram ao quarto califa, al-Mu'izz, lanar contra o Egito um
ataque vitorioso. A conquista, minuciosamente preparada e sustentada por uma
hbil propaganda poltica, foi conduzida sem grandes dificuldades por Djawhar,
que entrou em Fustt, no dia 12 sha'bn 358/I de julho de 969. Pouco aps, ele
determinou a construo de uma nova capital, O Cairo (em rabe, al-Khira)24,
e no ano seguinte fundou a mesquita al-Azhar. Quatro anos aps a conquista,
em 362/973, al-Mu'izz transferiu-se de Ifrkiya para o Cairo e transformou o
Egito no centro de um imprio que sobreviveria aos fatmidas e duraria cinco
sculos25. Este deslocamento para o Leste do Estado Fatmida teve profundas e
mltiplas consequncias para a Histria da frica do Norte.


      Retorno  hegemonia berbere26
   No curso dos duros combates travados contra o rebelde Ab Yazd, os talkta,
ramo dos sanhdja, se haviam mostrado, sob a direo de Zr ibn Mand, fiis
 causa dos fatmidas. Aps a derrota de Ab Yazd, o califa, para demonstrar o
seu reconhecimento a Zr, nomeou-o chefe de todos os sanhdja e do seu terri-
trio27. Durante o restante do perodo no qual os fatmidas reinaram no Magreb,
Zr e o seu filho Bulukkn dirigiram, ss ou acompanhados de generais fatmi-
das, vrias campanhas vitoriosas contra os zanta e os maghrwa, no centro e no
Oeste do Magreb. Mais tarde, nos tempos de al-Mu'izz, os zridas receberam o
governo do centro magrebino (Ashr, Tiret, Bghya, Msla, Mzb) e cidades
que eles haviam fundado (Argel, Milyna, Mda).



24    O nome da cidade explica-se pela data da sua fundao, momento em que o planeta Marte (al-KHIR,
      literalmente "o dominador") estava na ascendente.
25 Acerca do Egito fatmida, consultar acima o captulo 9, assim como UNESCO, Histria Geral da frica,
   vol. IV, captulo 15.
26    O estudo mais detalhado e recente sobre o perodo ps-fatmida  aquele de H. R. IDRIS, 1962; conferir
      igualmente L. GOLVIN, 1957.
27    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 2, pp. 539-540.
O advento dos fatmidas                                                      387



    Portanto, era natural que o califa, antes de definitivamente partir para o
Egito, em 359/970, fizesse de Bulukkn ibn Zr28 o seu tenente para a poro
ocidental do imprio. Este fato,  primeira vista e aparentemente em nada
revolucionrio, na realidade inaugurou uma nova era na histria da frica do
Norte. Antes do advento dos zridas, as principais dinastias haviam todas sido
de origem oriental: os idrsidas, os rustmidas, os aghlbidas, os fatmidas. Os
zridas eram a primeira famlia reinante de origem berbere; alm disso, eles
abriram o perodo da histria magrebina durante o qual o poder poltico per-
tenceria, exclusivamente, a dinastias berberes: os almorvidas, os almohades, os
zayyanidas, os marnidas, os hafsidas.
    Outra mudana, porm de menor importncia, consistiu na ascenso dos
sanhdja. O exrcito fatmida, deslocado em direo  conquista do Oriente, era
sobretudo composto de kutma; a partir desta poca, os kutma espalharam-se
invariavelmente no Egito, na Palestina e na Sria, onde os notamos no comando
das tropas fatmidas revoltarem-se ou tornarem-se simples cidados. O xodo
dos guerreiros kutma permitiu aos berberes sanhdja estabelecerem e consoli-
darem a sua hegemonia na poro oriental do Magreb.
    Sob os trs primeiros zridas  Bulukkn (361/972-373/984, al-Mansr
(373/984-386/996) e Bds (386/996-406-1016)  as relaes com os fatmidas
permaneceram, em geral, razoveis. O emir pagava regularmente um tributo ao
Cairo e enviava, eventualmente, preciosos presentes ao califa; o califa determi-
nava, entretanto, o controle da administrao do emir pelos seus representantes.
Os zridas tentavam, ao mesmo tempo, adquirir maior independncia real, sem
contudo deixarem de manter de direito a condio de vassalos dos fatmidas.
Estes ltimos, evidentemente, notavam estas pretenses, mas, como por diver-
sas razes eles no desejavam uma ruptura declarada, eles empregaram por
vezes meios obtusos para conduzirem os seus vassalos  obedincia. Quando
al-Mansr destituiu um poderoso representante fatmida na Ifrkiya, declarando
tratar-se somente de um simples funcionrio substituvel atravs de um simples
toque de pluma, o califa no reagiu abertamente. Porm, em 375/986, ele enviou
um d' junto aos kutma com o objetivo de rebel-los contra al-Mansr. Aps
alguns anos de combate, o levante foi reprimido com excepcional crueldade e o
d' foi executado. Os kutma perderam definitivamente toda a fora poltica ou
militar na regio e a autoridade dos zridas se viu fortalecida. Bds demonstrou
maior submisso ao Cairo, recebendo como recompensa a provncia de Barka; no


28   Zr IBN MAND foi morto em 306/971, em uma batalha contra os maghrwa.
388                                                             frica do sculo VII ao XI



entanto, quando o seu tio Hammd proclamou-se independente, ele no obteve
nenhuma ajuda do seu soberano. Aparentemente, sempre mais absorvidos pela
sua poltica oriental, os fatmidas progressivamente desinteressaram-se pela por-
o ocidental do seu imprio.  difcil saber se a sua postura deve ser atribuda ao
declnio econmico da Ifrkiya ou  impossibilidade de l intervir militarmente,
ou ainda, simultaneamente, a estas duas causas. Quando, na metade do sculo
V/XI, produziu-se finalmente a ruptura definitiva, as represlias dos fatmidas
no ganhariam a forma de interveno direta, tomando formas derivativas: eles
enviaram bandos de rabes nmades contra os seus antigos vassalos.
    Os dois primeiros zridas, Bulukkn e al-Mansr, prosseguiram com vigor a
ofensiva desencadeada no Oeste contra os zanta e os seus protetores umayyades.
Bulukkn cassou os zanta do centro do Magreb e reconquistou todo o territrio
do Marrocos, excetuando-se Ceuta que os umayyades conservaram. To logo o
seu exrcito retirou-se, os zanta entre Tanger e o rio Mulya recomearam a
nomear o califa de Crdova em suas khutba. No incio do seu reinado, al-Mansr
tentou em vo restabelecer o seu domnio sobre Fez e Sidjilmsa (385/995);
absorvido pela revolta dos kutma e compreendendo ser-lhe talvez impossvel,
em razo do seu esprito de independncia, submeter todas as populaes do
Magreb Ocidental, ele renunciou  ofensiva e dedicou-se a fortalecer a sua
autoridade na provncia central, a Ifrkiya.
    O reino de Bds viveu importantes acontecimentos que modificariam dura-
douramente o mapa poltico do Magreb. O primeiro foi a vigorosa ofensiva
que os zanta, especialmente os maghrwa, realizaram em 389/998-999 contra
o centro do Magreb, onde avanaram at Trpoli. Simultaneamente, os zanta
habitantes no territrio dos zridas rebelaram-se, atraindo para a sua revolta at
membros da famlia reinante. A situao foi salva graas ao mrito militar e 
energia de um tio de Bds, Hammd ibn Bulukkn, que pacificaria o centro do
Magreb e rechaaria os zanta para o Marrocos. Bds foi obrigado a dar ao seu
tio vastos feudos no centro do Magreb, onde Hammd fundou, em 398/1007-
-1008, a sua prpria capital, a cidade fortificada de K'l'a dos ban hammd, a
qual representou um dos mais imponentes monumentos da arquitetura norte-
-africana. A sua posio estratgica era at superior quela de Ashr, a primeira
capital dos zridas, em virtude do seu controle sobre importantes rotas comer-
ciais e uma vasta regio. Pouco aps, em 405/1015, Hammd proclamou-se
independente, rompeu as suas relaes com os fatmidas e declarou fidelidade
aos abssidas. Assim sendo, a dinastia sanhdja dividiu-se em dois ramos: os
zridas, os quais conservavam a Ifrkiya propriamente dita, e os hammdidas,
reinantes no Magreb Central. Embora Bds e, aps a sua morte, o seu sucessor
O advento dos fatmidas                                                          389



al-Mu'izz (406/1016-454/1062), finalmente tenham vencido Hammd, eles
foram obrigados a reconhecerem a sua independncia; sucedeu-se uma paz
conturbada entre os dos ramos.
    A mudana de alinhamento de Hammd teve como efeito um renascimento
do sunismo. Os habitantes da Ifrkiya e do centro magrebino eram, em sua maio-
ria, opostos ao xiismo ismaeliano, religio oficial dos fatmidas e dos zridas; mas,
em linhas gerais, tratava-se at ento de uma oposio passiva. No ltimo ano do
reinado de Bds, ocorreram os primeiros massacres de xiitas em Bdja e Tnis;
posteriormente, durante grandes pogroms, milhares de xiitas foram mortos e as
suas casas saqueadas, em Kayrawn e outros pontos da Ifrkiya. Este movimento,
expresso dos sentimentos das massas nas cidades e nos campos, demonstrou
claramente a al-Mu'izz, logo no incio do seu longo reinado, quais riscos corriam,
ao pertencerem a uma seita heterodoxa, os dirigentes de um pas cuja populao
era predominantemente fiel  ortodoxia sunita. Isso no significa que a questo
religiosa tenha desempenhado o papel mais importante na ruptura que sobreveio
entre os zridas e os fatmidas, em meados do sculo V/XI, porm ela certamente
contribuiu para a deciso de al-Mu'izz, quando ele retirou a sua fidelidade aos
fatmidas do Cairo, retornando assim  ortodoxia. A poltica dos hammdidas
mostra perfeitamente que a principal causa da mudana na orientao de fide-
lidade entre abssidas e fatmidas no era de ordem religiosa: o fundador desta
dinastia, Hammd, concedeu a sua fidelidade aos fatmidas nos anos finais do
seu reinado; mais tarde, o seu filho, al-K'id (419/1028-446/1054), mudando
de orientao duas vezes em cinco ou seis anos, reconheceu como soberanos
primeiramente os abssidas e depois os fatmidas.
    A unidade do Magreb, buscada pelos fatmidas sem jamais ser alcanada de
modo duradouro, no sobreviveria  sua partida para o Oriente. A tendncia
dos berberes  ciso e a sua oposio a qualquer centralizao estariam  ori-
gem das tmidas tentativas realizadas pelos zridas para continuarem a poltica
de unificao iniciada pelos seus soberanos. Na primeira metade do sculo V/
XI, o mapa poltico de Magreb apresentava-se segundo este perfil: a Leste, o
reino zrida da Ifrkiya constitua o mais avanado e estvel Estado; no Oeste
do emirado zrida, os hammdidas haviam fundado um Estado independente
que travava uma guerra permanente contra os zanta e, eventualmente, contra os
zridas; aps a parida dos fatmidas e a queda do califado umayyade na Espanha,
diversos grupos de zanta tiraram proveito da ocasio para fundarem alguns
pequenos Estados independentes em Tlemcen, Sidjilmsa, Fez e alhures; eles
formavam um grupo lingustico e tnico sem qualquer outro lao poltico seno
a sua hostilidade visvis dos sanhdja, jamais logrando, portanto, constituir
390                                                             frica do sculo VII ao XI



uma organizao poltica centralizada; estabelecidos na costa atlntica, herti-
cos, os barghawta souberam preservar a sua independncia contra os ataques
dos zridas e, posteriormente, dos zanta; os ghomra ocupavam uma posio
similar no Norte do Marrocos; a sua independncia foi ainda mais fortalecida
pelo declnio dos umayyades; os numerosos grupos masmda do Sul marroquino
(no Anti-Atlas e no Ss) continuavam a formar pequenas comunidades inde-
pendentes desprovidas de qualquer organizao unificadora superior (conferir
Figura 12.1).
    De modo geral, a situao dos berberes no era muito diferente do que fora
antes da conquista rabe; o elemento rabe da populao somente estava repre-
sentado nas cidades e a sua importncia diminua quando se rumava do Leste
para o Oeste. A organizao poltica variava destarte: a estrutura estatal era
mais desenvolvida na Ifrkiya, ao passo que no Oeste do Magreb, as diferentes
sociedades ainda no formavam Estados.
    A situao religiosa conheceu profundas mudanas aps a partida dos fat-
midas: em meados do sculo V/XI, o Magreb apresentava-se, em seu conjunto,
como uma regio de ortodoxia sunita, sem nenhum trao de xiismo e contando
somente com alguns pequenos enclaves de kharidjismo. O recuo do kharidjismo
pode ser considerado como uma consequncia direta da preponderncia pol-
tica alcanada pelos berberes. O kharidjismo perdera a sua razo de ser como
ideologia em virtude da resistncia berbere frente aos conquistadores rabes e
s dinastias sunitas. Tambm  uma das ironias da histria o fato dos fatmidas,
uma das mais gloriosas e poderosas dinastias xiitas, terem, ao infringirem graves
derrotas e pesadas perdas ao kharidjismo norte-africano, preparado a vitria
definitiva do sunismo malikita no Leste e no centro do Magreb. Aps a derrota
de Ab Yazd, o kharidjismo deixou de representar uma potncia poltica na
frica do Norte; ele no subsistiria seno em pequenas comunidades perifricas
e foi reduzido  defensiva. Mas, a derrota do kharidjismo, distante de corroborar
a causa do xiismo, somente contribuiu para facilitar o renascimento sunita.


      A invaso dos ban hill e dos ban sulaym
    Quando em 439/1047, o emir zrida al-Mu'izz ibn Bds finalmente rompeu
a sua fidelidade ao califa fatmida al-Mustansir, para oferec-la ao califa abssida
de Bagd, abandonando assim o seu xiismo para abraar o sunismo, a vingana
dos fatmidas tomou uma forma particular. Como lhes era impossvel enviar um
exrcito contra o rebelde, o vizir al-Yazr aconselhou ao seu mestre punir os
O advento dos fatmidas                                                      391



sanhdja enviando  Ifrkiya um bando de rabes nmades, os ban hill e os
ban sulaym, os quais viviam nesta poca no Alto Egito.
    Aparentemente, no foi muito difcil persuadir os chefes das duas cabilas a
imigrarem para o Oeste, haja vista que eles podiam esperar encontrar na Ifrkiya
grandes riquezas a pilhar e melhores pastagens, comparativamente quelas do
Alto Egito. Como estes nmades eram bem conhecidos pelo seu esprito de
independncia e indisciplina, devia ser evidente que eles no trariam a frica
do Norte para a rbita de domnio dos fatmidas e tampouco formariam um
Estado vassalo, fcil de governar. Por conseguinte, os fatmidas no pretenderam
reconquistar as suas provncias perdidas, mas somente vingarem-se dos zridas e,
pela mesma ocasio, livrarem-se de nmades indesejveis e turbulentos.
    Os rabes iniciaram a sua migrao em 442/1050-1051. Eles comearam
devastando a provncia de Barka. Os ban hill em seguida rumaram em dire-
o ao Oeste, ao passo que os ban sulaym permaneceram em Barka por vrias
dcadas. Quando a linha de frente dos ban hill atingiu o Sul da Tunsia,
al-Mu'izz, desconhecendo os planos de al-Yazr, no compreendeu imediata-
mente a desgraa que se aproximava do seu reino. Ao contrrio, ele fez chamado
aos invasores, acreditando que eles poderiam ser seus aliados e at esposou uma
das suas filhas com um daqueles chefes. A seu convite, a maior parte dos ban
hill deixou Barka e brevemente os seus bandos lanaram-se no Sul do emirado
zrida. Quando se deu conta que a pilhagem das cidades e vilarejos somente
aumentava, al-Mu'izz perdeu toda a esperana de transformar os nmades no
principal elemento do seu exrcito. Ele tentou interromper as suas incurses,
porm o seu exrcito, majoritariamente composto de negros, foi colocado em
debandada, malgrado a sua superioridade numrica, em vrias batalhas, dentre
as quais aquela de Haydarn, na regio de Gabs, em 443/1051-1052, tornou-se
a mais clebre29. Os campos, os principais vilarejos e inclusive algumas cidades
caram nas mos dos nmades; a desordem e a insegurana no cessavam de
se espalhar. Mesmo esposando trs dentre as suas filhas com emires rabes,
al-Mu'izz no logrou impor um termo  devastao do seu pas; tampouco
em nada lhe serviu reconhecer novamente a soberania do califa fatmida, em
446/1054-1055. Ao final, ele foi obrigado a abandonar Kayrawn em 449/1057,
refugiando-se em al-Mahdiyya, transformada na nova capital de um Estado
consideravelmente reduzido. No imediato posterior, Kayrawn foi saqueada
pelos ban hill, desastre do qual esta cidade jamais se recomporia.


29   Conferir M. BRETT, 1975.
392                                                                      frica do sculo VII ao XI



    Quando os rabes invadiram o Magreb Central, os hammdidas de Kal'a,
progressivamente envolvidos no complexo jogo de rivalidades entre cabilas, ten-
taram tirar proveito das dificuldades que afligiam os seus primos zridas. Com a
ajuda de uma parte dos ban hill, eles atacaram a Ifrkiya, causando deste modo
novas devastaes. Em 457/1065, uma ampla coalizo de berberes e ban hill
(foras sanhdja, zanta e dois grupos de ban hill, os athbadj e os `ad) sofreu,
sob a direo do emir hammdida al-Nsir, uma grave derrota na batalha de
Sabba, contra outros grupos rabes (os riyh, os zughba e os ban sulaym). Esta
derrota no produziu consequncias imediatas to sbitas quanto aquela dos
zridas em haydarn, porm os ban hill progressivamente adquiriram tamanho
poderio que al-Nsir deveu abandonar a sua capital, Kal'a, transferindo-se para
Bidjya (Bougie), fundada pouco tempo antes, cedendo aos nmades o Sul do
seu territrio. Bidjya, a nova capital dos hammdidas, cairia em mos almadas,
um sculo mais tarde e  imagem de al-Mahdiyya. Entrementes, os nmades
rabes, vindos com as suas famlias e os seus rebanhos, ocuparam grande parte
da Ifrkiya e do centro do Magreb, onde fundaram numerosos principados inde-
pendentes. Estes principados estavam continuamente em guerra entre si, contra
o que restava dos Estados zrida e hammdida ou ainda contra outros pequenos
Estados, criados sobre as runas dos precedentes. Estas guerras somente aumen-
tariam a desordem generalizada e precipitariam o declnio econmico. Os ban
hill continuariam a exercer um inconteste domnio at a chegada dos almadas,
os quais restabeleceriam a ordem em meados do sculo VI/XII.
    Eis, resumidamente, o que foi a migrao dos ban hill, tal qual ela nos 
relatada por documentos rabes contemporneos ou posteriores. Ibn Khaldn
foi o primeiro historiador a enfatizar o papel destrutivo dos bedunos, por ele
comparados a uma "nuvem de rs famintas"30. Os historiadores modernos, em
sua maioria, aquiescem a esta opinio; alguns inclusive sublinharam os aspectos
negativos da chegada dos rabes nmades, chamando-a "a catstrofe hilaliana" e
assinalando as suas infelizes consequncias para a histria da frica do Norte.
    Tentou-se, recentemente, revisar a hiptese da catstrofe hilaliana e reexa-
minar algumas das questes correlatas. Segundo estes trabalhos, os nmades
rabes no teriam sido to numerosos, a sua invaso no teria causado tanta
devastao e, antes da sua chegada, a sociedade e a economia norte-africanas j
apresentariam sinais de declnio31. Por outra parte, acredita-se atualmente que


30    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol.2, p. 35.
31    Conferir a polmica entre C. PONCET (1954) e J. PONCET (1967), por um lado, e H. R. IDRIS
      (1968a, 1968b) e C. CAHEN (1968), por outra parte.
O advento dos fatmidas                                                       393



os rabes tenham deixado o Egito principalmente em razo da situao eco-
nmica, de uma estiagem e uma fome catastrficas, ocorridas sob o reinado de
al-Mustansir, abstraindo-se razes polticas32. A controvrsia contribuiu para o
esclarecimento de vrios pontos e, em certa medida, corrigiu a opinio parcial
segundo a qual os ban hill teriam sido os nicos responsveis pelo declnio
que sucedeu a sua chegada  frica do Norte.
    Todavia,  necessrio insistir no fato de que a chegada de grande nmero 
seja qual for exatamente este nmero  de rabes nmades marcou, sob mltiplos
aspectos, um ponto de inflexo na histria da frica do Norte. Embora a arabi-
zao, ao menos na Ifrkiya, estivesse j assaz avanada, os campos ainda eram,
em grande parte, habitados por cultivadores de lnguas berberes. Enquanto os
rabes, os quais haviam uma primeira vez conquistado a regio no sculo II/VIII,
haviam sido absorvidos pela populao berbere, os ban hill e os ban sulaym
estiveram na origem de um processo inverso; no se tratou do efeito de uma
poltica deliberada, foram relaes que, necessariamente, estabeleceram-se entre
as populaes sedentrias e os nmades. Certos grupos zanta, especialmente os
ban marn, foram obrigados a se retirarem para o Oeste para ceder lugar aos
rabes. Estes ltimos no penetraram nem nas regies costeiras e tampouco nos
macios das montanhas, transformados em refgio dos berberes sedentrios, no
entanto, as plancies da metade oriental do Magreb progressivamente caram
em seu raio de influncia. A maioria dos dialetos rabes atualmente falados nos
campos norte-africanos provm da lngua dos ban hill e ban sulaym. Em
contrapartida, estes nmades quase no ou em nada contriburam para a isla-
mizao da frica do Norte, pois o seu isl era assaz superficial e a populao
desta regio, por eles invadida, j era inteiramente muulmana h vrios sculos.
    No tocante aos danos causados pela sua chegada, h em geral concordncia
em pensar que eles foram considerveis, embora o termo "catstrofe" sugira exa-
gero. A presena de milhares de nmades com os seus rebanhos certamente teve
importantes consequncias na vida econmica do pas e a extenso das pastagens
aconteceu em detrimento dos cultivadores. O equilbrio anteriormente reinante
na frica do Norte, entre o elemento nmade e o elemento sedentrio da popu-
lao, foi assim comprometido por vrios sculos, resultando no abandono pelos
cultivadores de grande parte do solo cultivvel, em proveito dos bedunos.
    A natural anarquia subsequente  queda dos Estados zridas e, em seguida,
hammditas, talvez no tenha sido to generalizada quanto relata Ibn Khaldn,


32   Consultar recente estudo de R. DAGHFS, 1981.
394                                                          frica do sculo VII ao XI



haja vista que os numerosos chefes rabes, fundadores dos seus prprios peque-
nos Estados, restabeleceram at certo ponto a ordem; entretanto,  certo que a
presena de to grande nmero de grupos rabes independentes e indisciplina-
dos constituiu, em geral, uma causa de insegurana.
    Conquanto a invaso rabe tenha provocado srios danos em Kayrawn e
em outras cidades, evidenciar-se-ia que o declnio das relaes exteriores resul-
taria em uma consequncia ainda mais grave da conquista, pois elas doravante
dependeriam do instvel humor de cabilas errantes. O declnio das cidades foi
mais rpido no interior que nas regies litorneas; enquanto Kayrawn perderia
em larga medida a sua importncia, a kal'a dos ban hammd seria progres-
sivamente abandonada pelos seus habitantes. Os nmades, refluindo para o
Egito, ali igualmente levaram a anarquia: os lawta, provenientes da Cirenaica,
devastaram o Oeste e o Norte do pas e lanaram-se sobre o Delta.
    As principais vtimas da desordem trazida pelos nmades foram os zridas
e os hammdidas, cujos emirados foram ao final reduzidos s faixas costeiras
no entorno de al-Mahdiyya e Bidjya. A penetrao dos rabes nmades no
interior das terras contribuiu para voltar os berberes sanhdja para o mar e
inclusive acentuou a oposio entre as regies interioranas e costeiras. A pira-
taria florescia naquilo que restava dos Estados zridas e hammdidas. Bidjya,
mais bem situada que al-Mahdiyya, onde faltava madeira para a construo de
embarcaes, tornou-se um importante porto, dedicado a um ativo comrcio
com outras regies do mundo mediterrneo, notadamente, com as cidades da
Itlia. Os hammdidas lograram, no incio do sculo VI/XII, conquistar a ilha
de Djerba.
    A economia da frica do Norte foi seriamente abalada. Embora atualmente
se prefira falar em uma infiltrao dos ban hill, em detrimento de uma invaso,
os resultados foram os mesmos. A economia do Magreb oriental, fundada na
ocupao do solo por cultivadores sedentrios, cedeu progressivamente lugar a
uma economia caracterizada pelo nomadismo e a criao de rebanhos, verda-
deira revoluo em respeito  qual estamos bem documentados, graas a al-Bakr
e al-Idrs. Estas profundas transformaes reproduziram-se no Leste magre-
bino no momento em que outros nmades, os almorvidas, faziam irrupo no
Oeste. O conjunto destes acontecimentos marca o incio de um novo captulo
na histria do Magreb.
Os almorvidas                                                           395



                                       CAPTULO 13


                                 Os almorvidas
                                  Ivan Hrbek e Jean Devisse




    Aproximadamente quando os ban hill e os ban sulaym comeavam a pene-
trar na frica do Norte pelo Leste1, na outra extremidade do Magreb nascia
um segundo movimento, relativo aos berberes do deserto que, em pouco tempo,
invadiriam as partes ocidental e central desta regio. Manifestaes do dinamismo
nmade, estes dois movimentos contemporneos, dos almorvidas no Oeste e dos
hill pelo Leste, desdobraram-se ambos na consolidao temporria do domnio
nmade nestas sociedades sedentrias e sobre os Estados dantes constitudos. 
verossmil que tenha sido precisamente o exemplo dos almorvidas e dos hill o
moto inspirador para o grande historiador magrebino Ibn Khaldn na formulao
da sua tese concernente  supremacia militar dos nmades sobre as populaes
sedentrias  uma das pedras angulares da sua teoria scio-histrica.


    As origens polticas, econmicas e
    religiosas do movimento almorvida
  A verso geralmente aceita, acerca da gnese do movimento almorvida, relata
como, no caminho de volta da sua peregrinao  Meca, Yahy ibn Ibrhm, um


1   Consultar, acima, o captulo 12.
396                                                                              frica do sculo VII ao XI




Figura 13.1   O imprio almorvida: cidades e monumentos. [Fonte: J. Devisse.]
Os almorvidas                                                                                   397



dos chefes dos berberes djuddla do Saara Ocidental, solicitou a Ab `Imrn
al-Fs (morto em 430/1039), eminente jurista malikita de kayrawn2, a desig-
nao de algum que o acompanhasse para ir ensinar a verdadeira religio do
isl ao seu povo, apenas detentor de insuficientes noes. Como Ab `Imrn no
foi capaz de encontrar, em Kayrawn, quem aceitasse ir viver no deserto junto
aos selvagens sanhdja, ele aconselhou Yahy a se encontrar com um dos seus
antigos discpulos, Waggg ibn Zalw (ou Zall) al-Lamt, em Malks, prxima
a Sidjilmsa, afim de pedir-lhe o seu auxlio. Waggg recomendou ento, na
aparente qualidade de mais apto para a realizao desta obra missionria, o seu
aluno `Abdallh ibn Ysn al-Djazl, cuja me era originria do Saara3.
    Outra tradio, conservada por al-Kd `Iyad (morto em 544/1149) e
Ibn al-Athr (morto em 630/1233) no menciona nem Yahy ibn Ibrhm e
tampouco Ab `Imrn al-Fs, fazendo entretanto objeto de outro peregrino
djuddla, Djawhar ibn Sakkam, que, no caminho de retorno da Meca, ter-se-ia
diretamente dirigido a Waggg, pedindo-lhe que enviasse algum ensinar o isl
e as suas prescries religiosas ao seu povo. Waggg construra na plancie do
Ss uma morada consagrada ao estudo e  orao, conhecida pelo nome de Dr
almurbitn. Foi entre os membros deste dr que Waggg escolheu `Abdallh
ibn Ysn, "homem sbio e piedoso"4.
    Malgrado estas divergncias entre as fontes, os seguintes pontos so defini-
tivos: o carter superficial da islamizao dos sanhdja do Saara Ocidental; a
vontade de alguns chefes djuddla em remediar esta situao; o papel desem-
penhado pela peregrinao, ao levar estes homens a tomarem conscincia do
nvel medocre do isl praticado pelos seus compatriotas; o lao existente entre
o movimento almorvida e o malikismo militante, representado pela corrente
Ab `Imrn, Waggg e `Abdallh ibn Ysn.
    Todos estes elementos indicam que a religio desempenhou um papel deci-
sivo na emergncia do movimento almorvida. Qualquer movimento religioso
 gerado em um quadro social determinado, do qual ele reflete as tenses e
contradies. Portanto, convm analisar todas as circunstncias que presidiram

2   A propsito de Ab `Imrn, conferir H. R. IDRIS, 1955, p. 54; a visita de Yahy ibn Ibrhm aconteceu,
    portanto e necessariamente, antes da morte de Ab `Imrn. A data de 444/1052-1053, sugerida por Ibn
    `Idhr (1948-1951, vol. 3, p. 242), e aquela de 440/1048-1049, encontrada no al-Hulal al-Mawshiyya
    (1936, p. 9), J. M. CUOQ (1975, p. 365) e N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS ([org.], 1981, p. 311)
    so, por conseguinte, errneas.
3   Al-Bakr, 1913, p. 165; V. MONTEIL, 1968, pp. 59-60; J. M. CUOQ, 1975, p. 87; N. LEVTZION e
    J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 71.
4   Consultar H. T. NORRIS, 1971, pp. 255-256; J. M. CUOQ, 1975, pp. 125-126; N. LEVTZION e J.
    F. P. HOPKINS (org.), 1981, pp. 101-103.
398                                                                               frica do sculo VII ao XI



a sua gnese, com vistas a estabelecer, na medida do possvel, quais foram os
verdadeiros motivos e causas5.
   Na primeira metade do sculo V/XI, a regio do Marrocos e o seu prolon-
gamento em direo ao Sul, at o rio Senegal, eram povoados pelos berberes,
ento divididos em numerosas faces hostis e combatentes entre si. O prprio
Marrocos fora, no sculo precedente, objeto de uma luta entre as duas grandes
potncias do Oeste: os umayyades da Espanha e os fatmidas. Estas dinastias
no haviam intervindo direta e concretamente seno em raras ocasies, dei-
xando os seus aliados berberes travarem a batalha em seu lugar. Por via de regra
(houve excees), os umayyades eram representados pelo grupo dos zanta, ao
passo que os fatmidas, sobretudo aps a transferncia da sua capital da Ifrkiya
para o Egito, reservavam esta tarefa aos zridas sanhdja, os quais eles haviam
transformado em lugares-tenentes6. Um dos principais objetivos desta luta era
assegurar o controle das rotas comerciais conduzindo ao Sudo ocidental e/
ou do comrcio do ouro. A desintegrao umayyade na Espanha em nada ate-
nuou a crueldade da luta, vrios principados zanta do Marrocos continuavam
por sua prpria conta no somente a combaterem os zridas, mas, frequente e
igualmente, a digladiarem entre si. Os ban ifran estabeleceram-se em Sal e
Tadla, enquanto os maghrwa, os quais haviam conquistado a sua independn-
cia em relao aos umayyades desde 390/1000, estendiam progressivamente
o seu domnio de Fez at Sidjilmsa, Aghmt, Tmdlt e as regies do Wd
Dar'a, at ento controladas pelos sanhdja do Saara. Estas lutas incessantes e a
anarquia prevalente tornavam intolervel a vida em seu quotidiano, impedindo
qualquer atividade econmica normal sob os zanta7. O particularismo berbere
aparenta ter, nesta poca, atingido o seu pice. Alguns chefes e dirigentes mais
responsveis notaram que uma mudana radical era imperativa. Nas condies

5     Alguns pesquisadores modernos tendem a minimizar os aspectos religiosos do movimento, reduzindo-o
      a um simples conflito de interesses materiais entre nmades e sedentrios ou entre diferentes grupos
      berberes: referir-se a A. BEL, 1903, p. VII; H. TERRASSE, 1949-1950, vol. 1, p. 217 e seguintes; J. B.
      VIL, 1956, p. 57; assim como as perspectivas opostas de P. F. de MORAES FARIAS (1967, p. 798)
      e H. T. NORRIS (1971, pp. 267-268). O presente captulo tenta levar em conta todos os aspectos do
      movimento, interpretando-os dialeticamente, na qualidade de fatores interdependentes.
6     Consultar, acima, o captulo 12.
7     Ibn Ab Zar' (1843-1846, vol. 1, pp. 71-72) descreve em detalhes a deteriorao da situao poltica e
      econmica no curso do segundo quarto do sculo V/XI. Ibn `IDHR (1948-1951, vol. 4, p. 10; N.
      LEVTZION e J. F. P. HOPKINS [org.], 1981, p. 219 e seguintes) reporta que, atravessando o Marrocos
      em seu retorno de d'al-Andalus, Ibn Ysn ficou estupefato ao constatar a diviso do pas em numerosas
      cabilas hostis. Os berberes agiam do mesmo modo que os mulk al-taw'if, na Andaluzia, quando no
      de maneira ainda pior. Um membro da cabila dos masmuda a quem ele perguntara se estas pessoas no
      acreditavam nem em Deus e tampouco em Maom respondeu-lhe: " verdade, mas ningum entre ns
      admite que um membro de outra `tribo' lhe seja superior."
Os almorvidas                                                                                     399



ento vigentes, somente um movimento de inspirao islmica poderia realizar
a unificao dos berberes.
    A situao era idntica ao Sul do Marrocos, junto aos sanhdja "cobertos pelo
vu" (mulaththamn) do Saara. Estes sanhdja nmades (distintos dos sanhdja
sedentrios da Ifrkiya) formavam trs ramos principais: os massfa, no Norte e a
Leste (no Wd Dar'a, em Hawd e Taghza), os lamtna, no centro e ao Sul (no
Adrr e em Tgant) e os djuddla (ou guddla) a Oeste, no Saara atlntico8. At
o incio do sculo IV/X, os berberes do Saara Ocidental eram conhecidos pelo
nome anbiy9 e ainda no sabemos com certeza se esta denominao designava
uma vaga confederao dos trs principais ramos10 ou era apenas outra nomen-
clatura dentre as suas consortes.
    Que algumas tentativas de unificao dos sanhdja tenham ocorrido no
sculo IV/X  qui com vistas a melhor controlar as rotas comerciais ou a
proceder a conquistas no Sudo , isso  atestado por Ibn Hawkal e al-Bakr,
os quais mencionam um certo Tn-Bartn (ou Tn-Yartn), "rei de todos os
sanhdja" ou "soberano de Awdghust" de 340/951 a 350/96111. Embora estes
dois autores, ambos, no indiquem o ramo ao qual pertencia Tn-Bartn, este
ltimo provavelmente seria um lamtna12. A natureza e a importncia desta
confederao no se encontram expostas em parte alguma e no nos chegam
informaes se os trs principais ramos dos sanhdja dela faziam parte.
    Segundo Ibn Ab Zar', autor relativamente mais recente (ele escrevia apro-
ximadamente em 726/1326), o Saara Ocidental conheceu em seguida um longo
perodo de desunio, confuso e anarquia, sendo impossvel para os sanhdja
colocarem-se em acordo no tocante a um chefe nico, at o advento de Trashna
al-Lamtn, por eles alado  condio de soberano13. Embora al-Bakr mencione
um certo Trasna (ou Trashna) al-Lamtn como sendo este chefe lamtna,



8    Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 2, p. 64; J. M. CUOQ, 1975, p. 332; N. LEVTZION e J. F. P.
     HOPKINS ([org.], 1981, p. 327) recenseiam sete cabilas sanhdja (os djuddla, os lamtna, os massfa,
     os watzla, os trga, os zaghwa e os lamta); entretanto, aparentam considerar que unicamente os trs
     primeiros grupos formariam a "raa dos sanhdja", cabendo aos outros a condio de "seus irmos".
9    Nenhuma explicao satisfatria foi at hoje proposta para esta denominao.
10   Essa  a opinio de J. MARQUART (1913, p. 325).
11   Ibn HAWKAL, 1938, pp. 100-101; J. M. CUOQ, 1975, pp. 73-74; al-BAKR, 1913, p. 159; V. MON
     TEIL, 1968, p. 53 (este ltimo autor informa as datas errneas de 340/961 e 350/971).
12   Os seus estreitos laos com o bild al-Sdn e o fato de ter sido designado como "o soberano de
     Awdghust" indicam o seu estabelecimento na parte sul do deserto, como era o caso dos lamtna.
13 Ibn AB ZAR', 1843-1846, vol. 1, p. 76; J. M. CUOQ, 1975, p. 231. Igualmente citado em Ibn
   KHALDN, 1925-1926, vol. 1, p. 236; J. M. CUOQ, 1975, p. 333.
400                                                                             frica do sculo VII ao XI



morto em algum lugar do Sudo ao combater os negros14, aparentemente pouco
tempo antes da ascenso almorvida. Aps a sua morte, seria o seu genro, Yahy
ibn Ibrhm al-Djuddl, que lhe sucederia  frente dos sanhdja  exatamente
aquele que trouxe `Abdallh ibn Ysn junto aos sanhdja15.
    Sem que se possa descartar a hiptese de que este relato seja uma tentativa
posterior de racionalizao do perodo anterior aos almorvidas da histria dos
sanhdja16, ele no deixa de refletir, em seu conjunto, as condies anrquicas
prevalentes ao Sul do Marrocos, curtos perodos de unidade entre os diferentes
ramos sanhdja alternados com perodos de diviso, rivalidades e lutas brutais.
Nenhuma confederao logrou impor de modo duradouro a sua supremacia no
deserto e foram frequentes as mudanas em suas direes17.
    Esta situao que reinava entre os diferentes grupos sanhdja no deixou
de afetar a sua prosperidade econmica. Embora a condio de pastor nmade
constitusse o modo de vida fundamental da maioria dos sanhdja do deserto,
o comrcio das caravanas desenvolvido entre o Magreb e o Sudo, passando
pelo seu territrio, representava para eles uma aprecivel fonte suplementar de
renda. Os seus chefes tiraram muitas vantagens com o controle das rotas e dos
centros comerciais, cobrando taxas e direitos e recebendo presentes, em troca
da sua proteo e pelos seus servios.
    At o terceiro quarto do sculo IV/X, a confederao sanhdja, firmemente
dirigida por Tn-Bartn, controlava as cruciais minas de sal de Awll e deti-
nha o monoplio do comrcio de sal em trnsito por Awdghust e em dire-
o a Gana. Embora certos elementos arqueolgicos mostrem que a cidade de
Awdghust todavia no atingira o seu apogeu nesta poca, ela no deixava de
ser um importante centro comercial, controlado pelo chefe sanhdja e majo-
ritariamente habitado por sanhdja18. Aps 360/970, entretanto, o comrcio
de Awdghust comeou a ser controlado pelos zanta e pelos comerciantes
rabes da Ifrkiya. As circunstncias desta mudana no esto inteiramente
elucidadas; no entanto  fato que, at a conquista da cidade pelos almorvidas,
em 446/1054, os sanhdja estiveram quase totalmente excludos deste lucrativo


14    Al-BAKR, 1913, p. 164; V. MONTEIL, 1968, p. 59; J. M. CUOQ, 1975, p. 86.
15    Ibn AB ZAR' (1843-1846, vol. 1, p. 76) indica que cento e vinte anos se passaram entre o reino de
      Tn-Bartn e aquele de Trashna, porm este  um perodo demasiado longo. Al-Bakr no oferece
      nenhuma data.
16    Conferir N. LEVTZION, 1978, pp. 653-655; 1979, p. 90.
17    A tradio moura menciona a existncia de dezesseis confederaes deste tipo no Saara Ocidental, ao
      longo dos trs ltimos sculos; F. de La CHAPELLE, 1930, p. 48.
18    Conferir J. DEVISSE, 1970, pp. 121-122.
Os almorvidas                                                               401



comrcio. Outro duro golpe conferido  prosperidade dos sanhdja fora a aber-
tura em Tantintal (Taghza) de uma nova mina de sal que comeou a alimentar
Gana e outras regies do Sudo, quebrando assim o monoplio de Awll.
    O enfraquecimento dos sanhdja, aproximadamente ao final do sculo IV/X
e no incio do sculo V/XI, permitira aos berberes maghrwa de Sidjilmsa
colocarem sob o seu controle e ocuparem, no Dar'a, em Aghmt e Tmdlt,
vastas extenses de pastagens apresentando vital importncia para a economia
nmade dos diferentes grupos sanhdja do Norte19.
    Assim sendo, na primeira metade do sculo V/XI, os sanhdja do Saara
Ocidental haviam, em grande parte, perdido a sua supremacia de outrora  ao
Norte e, igualmente, no Sul, onde os seus inimigos hereditrios, os berberes
zanta, se haviam amparado no somente dos terminais das rotas trans-saarianas
(Sidjilmsa e Awdghust) mas, inclusive, das suas melhores pastagens.
    Caso examinarmos, atualmente, a situao religiosa em vigor na poro mais
ocidental do mundo islmico, s vsperas da ascenso dos almorvidas, constata-
remos no to somente uma diversidade de seitas heterodoxas, mas, igualmente,
graus variveis de islamizao, incluindo um conhecimento muito superficial
dos princpios fundamentais desta religio, junto aos berberes do deserto e das
montanhas, at a existncia de instituies islmicas altamente desenvolvidas
em algumas cidades e regies.
    A mais notvel das seitas heterodoxas era aquela dos barghawta, cabila
berbere vivendo nas plancies atlnticas do Marrocos, entre Sal e Saf. A sua
religio fora fundada j no sculo II/VIII por um "profeta" chamado Slih, que
redigira o Coro em lngua berbere e elaborara um conjunto doutrinrio no qual
velhas crenas berberes amalgamavam-se a elementos islmicos. Malgrado, aqui
ou acol, algumas tentativas dos idrsidas, dos umayyades e dos fatmidas para
extirpar esta heterodoxia, os barghawta jamais seriam vencidos. Travar a jihad
contra eles era dever permanente para todos os ocupantes do ribt (monastrio
fortificado) construdo em Sal para opor as suas incurses no "pas do isl"
(bild alislm)20.
    No Sul marroquino, na regio do Ss, nas montanhas do Atlas, bem como
no vale do Dar'a, viviam grupos de xiitas de diversas denominaes. A mais
importante seita no-ortodoxa implantada em meio aos berberes, entretanto,
era aquela dos kharidjitas e, junto a estes ltimos, mais especificamente os iba-


19   Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 1, p. 257.
20   Referir-se a R. LE TOURNEAU, 1958 e, acima, ao captulo 3.
402                                                          frica do sculo VII ao XI



ditas21. Embora, aps o advento dos fatmidas e o fracasso da revolta de Ab
Yazd na Ifrkiya, os kharidjitas tenham visto declinar o seu papel poltico no
Magreb mediterrneo, as suas posio e influncia permaneciam fortes no Saara
e no Sudo, em particular, como comerciantes e missionrios22. Por algumas
razes, a doutrina ibadita atraiu especialmente o ramo zanta dos berberes, ao
passo que os sanhdja eram preferencialmente levados a adotarem o isl xiita e,
posteriormente, o isl sunita, em sua forma milikita.
    Todas as fontes rabes antigas das quais dispomos, concernentes ao surgi-
mento do movimento almorvida, convergem acerca do carter superficial da
islamizao dos povos do Saara, sublinhando a sua ignorncia e negligncia em
matria de religio. Havia, bem entendido, entre os chefes e dirigentes, pessoas
com um conhecimento mais profundo do isl, homens que haviam realizado
a peregrinao  Meca e, inclusive, vrios fukah' que tentaram elevar o nvel
religioso dos seus compatriotas. No Sul do Marrocos existiam alguns focos de
malikismo militante, como o dr almurbitn de Waggg ibn Zalw, porm,
aparentemente, antes da vinda de `Abdallh ibn Ysn, os seus esforos no
tiveram nenhum fruto concreto.
    Sabe-se como a sua peregrinao  Meca e a sua viagem atravs dos mais
desenvolvidos pases muulmanos contriburam para ampliar os horizontes reli-
gioso e cultural dos pios visitantes oriundos da periferia do mundo muulmano.
Os peregrinos adquiriam conscincia do profundo contraste existente entre o
islamismo superficial do seu prprio povo e o isl praticado no corao do ec-
meno23 islmico. No transcorrer da histria, a peregrinao foi uma experincia
estimulante para mais de um reformador ou "revivescente" do Magreb, do Saara
e do cinturo sudans.
    No curso da primeira metade do sculo V/XI, o mundo muulmano conhe-
ceu um renascimento do isl sunita ortodoxo do Magreb, no Oeste, at o Ir, ao
Leste. Este reflorescimento consistia, especialmente, em uma reao vigorosa s
tentativas de algumas dinastias xiitas, como os fatmidas ou os buwayhidas, sob
o domnio das quais vivia grande parte dos pases muulmanos, de imporem a
sua religio particular a uma populao at ento sunita24. Nesta luta ideolgica
contra a sh'ia e outras doutrinas heterodoxas, os fukah' malikitas da frica do
Norte desempenharam um papel decisivo, particularmente aqueles dentre eles


21    Consultar, acima, os captulos 10, 11 e 12.
22    Conferir, acima, os captulos 3 e 11.
23    Verificar a nota 94, acima, no captulo 8.
24    Consultar, acima, o captulo 2.
Os almorvidas                                                                                         403



que eram originrios da antiga fortaleza malikita de Kayrawn25. Os fukah'
malikitas encorajaram os zridas a deixarem a rbita fatmida e a reconhecerem
os abssidas como chefes supremos da comunidade islmica; eles igualmente
inspiraram a organizao de pogrom contra os xiitas da Ifrkiya, buscando assim
extirpar da regio qualquer heresia ou outra madhhab (escola de jurisprudncia
islmica) diferente das suas26. Uma das grandes figuras de Kayrawn e o mais
ativo militante dos malikitas foi precisamente Ab `Imrn al-Fs, o homem
a quem o chefe djuddla Yahy ibn Ibrhm visitou, em Kayrawn, no ano
403/1038.


     As primeiras atividades reformistas de Ibn Ysn
   Pouco se sabe acerca da vida levada por `Abdallh ibn Ysn antes de ser
enviado junto aos sanhdja do deserto. Ele era oriundo da cabila de Djazla,
ramo berbere do Sul marroquino, e a sua me era originria do vilarejo de
Tammnwt, na extremidade do deserto que margeia Gana27. Algumas fontes
posteriores reportam ter ele estudado durante sete anos na Espanha muul-
mana28, entretanto, al-Bakr, que foi quase seu contemporneo, emite srias
reservas quanto  extenso do seu conhecimento do Coro e da lei islmica29.
A sua posio no seio do dr almurbitn de Waggg no est, tampouco ela,
esclarecida. Aparentemente, ele continuou a obedecer a Waggg, diretor da
escola e chefe espiritual, at a morte deste ltimo, o que sugere que ele ocupava
uma posio antes subalterna. O fato, em contrapartida, de Waggg t-lo esco-
lhido para ir evangelizar os sanhdja certamente significa que ele reconhecia
plenamente o seu saber religioso e a sua fora de carter30.
   A histria das atividades reformistas de Ibn Ysn junto aos sanhdja no 
conhecida seno em suas linhas gerais; a cronologia  imprecisa e confusa, com-
portando ao menos dois longos perodos (o primeiro entre 430/1039 e 440/1048
e o segundo entre 446/1054 e 450/1058) sobre os quais ns no possumos


25   No tocante ao malikismo na Ifrkiya, conferir H. R. IDRIS, 1955 e 1972; H. MONS, 1962.
26   "O ano 1048 marcou a completa vitria da escola malikita no Ocidente." E. LVIPROVENAL, 1948, p. 251.
27   Al-BAKR, 1913, p. 165.
28   Ibn `IDHR, 1967, vol. 4, p. 10; al-HULAL ALMAWSHIYYA, 1936, p. 10.
29   Al-BAKR, 1913, pp. 169-170. Convm todavia no esquecer que este autor, eminente sbio andaluz,
     nutria certos preconceitos desfavorveis contra os rudes berberes do Saara.
30   Segundo o kd `Iyd, citado em H. T. NORRIS, 1971, p. 256: "Abdullh ibn Ysn tinha a reputao de
     um homem sbio e piedoso."
404                                                                             frica do sculo VII ao XI



nenhum elemento informativo concreto.  possvel distinguir duas fases nas
atividades de Ibn Ysn no deserto: no curso da primeira, ele tentou fortalecer
ou reformar a f dos djuddla e logrou reunir em torno de si certo nmero de
discpulos. Esta fase comeou aproximadamente em 430/1039 e findou em
445/1053, com um violento enfrentamento entre o reformador e os dirigentes
djuddla, ao termo do qual, Ibn Ysn foi caado. No decorrer da segunda fase,
cuja durao estendeu-se at a sua morte, em 451/1059, os lamtna tornaram-se
o piv do movimento almorvida.
    Inicialmente, conquistada a proteo de Yahy ibn Ibrhm, tudo se desen-
rolou relativamente bem; segundo os prprios termos do kd `Iyd: "Ele levou
[Ibrhm e] o seu povo  admisso do seu cdigo de vida e dos seus ideais [...].
Ele pediu e imps estrita e rigorosa observncia da reforma das prticas con-
trrias  lei e do castigo severo [daqueles] que se recusassem a seguir a via do
ensino autntico. Ele continuou a gozar da hospitalidade destas cabilas at o
dia em que adquiriu em seu seio uma posio proeminente e elas proclamaram
a f verdadeira31."
    Deste longo perodo, somente dois acontecimentos foram consignados: um
ataque contra os lamtna, levados a refugiarem-se em suas montanhas (o Adrr),
e a fundao da cidade de Arat-n-anna na qual, em conformidade com as con-
cepes igualitaristas de Ibn Ysn, todas as casas deviam ter a mesma altura32.
    Aps mais de dez anos passados entre os djuddla, Ibn Ysn entrou em
desacordo com o fakh Djawhar ibn Sakkan e com dois nobres djuddla, `Ayr e
In-Takk. Este conflito aparenta ter se relacionado, simultaneamente, a desen-
tendimentos religiosos e a uma luta pelo poder, aps a morte de Yahy ibn
Ibrhm al-Djuddl33.
    As rgidas exigncias de Ibn Ysn em matria de disciplina e observncia
de todos os deveres religiosos, assim como as suas convices puritanas e igua-
litaristas, provavelmente no encontraram o eco por ele esperado; mestre sem
indulgncia, ele expunha o seu desprezo pelos valores sociais e tabus em vigor
entre os sanhdja. Aquando da luta sucessria posterior  morte de Yahy, ele


31    Conferir H. T. NORRIS, 1971, p. 256. Outras fontes expressam idntico parecer.
32    Al-BAKR, 1913, p. 165. Embora geralmente se relacione Arat-n-anna ao atual Aratane, poo situado
      entre Tisht e Walta, no Leste da Mauritnia, algumas objees de ordem arqueolgica depem contra
      esta hiptese. Consultar D. JACQUES MEUNI, 1961. Aratane  um topnimo muito difundido;
      referir-se a H. T. NORRIS, 1971, p. 258.
33    No se sabe claramente o que adveio a este homem, que conduzira Ibn Ysn junto aos sanhdja do Saara;
      segundo alguns historiadores, ele j estaria morto quando os djuddla cassaram Ibn Ysn; para outros,
      a sua morte sobreveio antes do "refgio na ilha"; consultar logo adiante.
Os almorvidas                                                                                     405



aparentemente perfilou-se ao lado de um infeliz pretendente34 e foi obrigado a
deixar a sua morada em Arat-n-anna35. O episdio, em sua totalidade, mostra
os poderes de Ibn Ysn eram antes limitados, no lhe permitindo impor a sua
vontade.
    Durante e aps a crise, Ibn Ysn gozou do total apoio do seu mestre Waggg,
o qual, embora desaprovasse o extremismo do seu aluno e os seus excessos
sanguinrios, apoiou-o e dirigiu uma severa reprimenda a todos aqueles que
tivessem se recusado a obedec-lo. Ele novamente enviou Ibn Ysn junto aos
sanhdja, porm desta feita em meio aos lamtna, cujo chefe era Yahy Ibn
`Umar. Foi entre os lamtna que Ibn Ysn encontrou o apoio poltico necessrio
 realizao dos seus objetivos. Esta situao representou um ponto de inflexo
decisivo na histria do movimento almorvida, explicando em larga escala a
proeminncia dos lamtna no seio deste ltimo. Todos estes eventos acontece-
ram antes de 447/1055 e, aparentemente, nesta poca existiam graves tenses
entre os djuddla e lamtna, provavelmente em razo de divergncias polticas
tangentes  orientao futura do movimento36.
    O retiro de Ibn Ysn e, em seguida, o seu posterior retorno para uma segunda
misso podem ser considerados como uma espcie de hidjra, assim como grande
parte dos seus atos denotam uma nova entrada em vigor de hbitos islmicos
prprios aos primrdios. Um dos aspectos deste retorno s origens foi a reforma
das tticas militares tradicionais dos berberes, visando recolocar em vigor con-
cepes originais na conduta da jihad37.


     A transformao de um movimento reformador em jihad
   Em virtude da sua posio dominante no seio do movimento, os lamtna
foram muito amide considerados como a voz dos almorvidas por excelncia.
Antes de prosseguirmos com a histria do movimento, devemos abordar o pro-
blema colocado pela origem do termo "almorvidas" (em rabe: alMurbitn).



34   A. M. al-`ABBD, 1960, p. 149; H. T. NORRIS, 1971, pp. 260-262.
35   Al-BAKR, 1913, p. 165: "Eles [os djuddla] recusaram-se a ouvir os seus conselhos, eliminaram o seu
     controle sobre a administrao do tesouro pblico, demoliram a sua casa e pilharam tudo o que ela
     guardava em mveis e trajes."
36   J. DEVISSE, 1970, p. 115, n. 10.
37   Consultar, a este respeito, a penetrante anlise de P. de MORAES FARIAS, 1967, pp. 811-817, bem
     como algumas observaes de H. T. NORRIS, 1971, p. 266, n. 45.
406                                                                                  frica do sculo VII ao XI



    Ainda muito recentemente, considerava-se que esta palavra derivasse de
ribt (pois que, alMurbitn significa "as pessoas do ribt) ou de rbita, termo
ao qual se d o sentido de "lugar fortificado fronteirio ou costeiro" ou ainda
"centro fortificado consagrado s prticas religiosas e ascticas e/ou  propagao
da f". Esta interpretao tem como nico fundamento o relato de um autor
rabe relativamente tardio, Ibn Ab Zar' (morto em 726/1326), segundo o qual,
aps o seu desacordo com os Djuddla, Ibn Ysn se teria recolhido em uma
ilha onde, com sete companheiros, teria construdo uma rbita; posteriormente,
ele teria ali iniciado numerosos outros discpulos, os quais teriam denominado
alMurbitn, em razo da sua adeso a esta rbita38. Ibn Khaldn (morto em
808/1406) igualmente evoca o retiro de Ibn Ysn em uma ilha, mas, no faz
aluso alguma a um ribt, no sentido de uma fortaleza ou eremitrio39. Nenhuma
das fontes mais antigas menciona a existncia de tal construo e, como observa
a justo ttulo P. de Moraes Faria, "questionam-se as razes pelas quais o relato
de Ibn Ab Zar' tenha sido aceito, tal qual, pela maioria dos historiadores40".
    A escola moderna, tal qual representada por A. M. al-`Abbd, A. Huici
Miranda, P. de Moraes Faria, H. T. Norris, N. Levtzion e F. Meier41, abando-
nou definitivamente a ideia segundo a qual alMurbitn significaria "as pes-
soas do ribt". Esta palavra aparenta derivar da raiz rbt, cujo significado no
Coro  muito prximo de "conduzir a jihad de modo justo", porm ela igual-
mente remete  noo de atos de piedade, de devoo  causa do isl. O termo
ribt poderia, outrossim, designar o conjunto dos preceitos islmicos (da'wat
alhakk, "exortao da verdade") estabelecidos por Ibn Ysn e endereados aos
sanhdja42. No est excluda a hiptese de que o termo alMurbitn derive, de
um modo ou outro, do dr almurbitn de Waggg, no qual Ibn Ysn vivera
antes da sua misso.
    A prova definitiva de que nenhum ribt (posto fortificado avanado) tenha
sido construdo na ilha foi trazida pela misso arqueolgica do IFAN (Ins-


38    Ibn AB ZAR', 1843-1846, vol. 1, p. 79; conferir as crticas, formuladas em contrrio a esta fonte, por
      A. HUICI MIRANDA, 1959a e 1960.
39 Ibn KHALDN, 1925-1926, vol. 1, p. 238; o texto indica que os membros da comunidade viviam em
   ambiente natural de matas, no havendo nada construdo semelhante a um ribt ou rbita.
40    P. de MORAES FARIAS, 1967, p. 805.
41 Consultar a bibliografia.
42 A primeira acepo de rabata  "ligar, aderir"; aquela concernente a ribt equivale a "fita, faixa, ligadura";
   rbita significava "lao, adeso, ligao", antes de igualmente tomar o sentido de "confederao, liga,
   unio" etc. A evoluo semntica que conduz  ideia de "posto fortificado avanado", alm de outros
   sentidos aparentes,  analisada por P. de MORAES FARIAS (1967, p. 813 e seguintes) e, em maiores
   detalhes, por F. MEIER (1981).
Os almorvidas                                                                               407



tituto Fundamental da frica Negra), efetuada na ilha de Tidra, prxima 
costa da Mauritnia, em 1966. Vestgio algum de qualquer ribt foi descoberto
nesta ilha. A construo de um edifcio do tipo mencionado por Ibn Ab Zar'
seria fisicamente impossvel na ilha, em razo da ausncia de argila e pedras43.
Em contrapartida, o retiro de Ibn Ysn e dos seus primeiros adeptos na ilha
martima permanece verossmil, caso cotejemos o texto de Ibn Ab Zar' com os
resultados das pesquisas efetuadas em Tidra. O testemunho de Ibn Khaldn,
segundo o qual os primeiros almorvidas viviam em meio s matas, no pode
ser totalmente descartado.
    O retiro de Ibn Ysn  imitao consciente do hidjra do profeta Maom
 no pode ser datado com preciso: provavelmente, ele teve lugar antes de
444/1052-1053, haja vista que, um ano depois, os discpulos de Ibn Ysn j
atacavam a cidade de Sidjilmsa. Quando Ibn Ysn abandonou o seu retiro e
encontrou, junto aos lamtna e, especialmente no seio das famlias dirigentes,
nas pessoas de Yahy ibn `Umar e do seu irmo Ab Bakr, os seus mais fiis
partidrios, o movimento entrou em uma fase decisiva. De movimento refor-
mador, tornou-se um movimento militante, cujos membros estavam decididos a
expandir a doutrina junto a outros sanhdja e at em outras populaes, atravs
da persuaso ou pelo jihad. Conquanto, desde o incio, Ibn Ysn tenha desejado
conferir ao seu movimento um carter "supra-tribal", os alMurbitn eram e
permaneceriam membros de diferentes ramos berberes. A direo do movi-
mento estava nas mos dos lamtna e do seu chefe Yahy ibn `Umar, a quem
Ibn Ysn delegou o comando militar, com o ttulo de amr, e os outros ramos
fundadores, os massfa e djuddla (ao menos inicialmente), aceitariam este
comando supremo. Os membros das diferentes cabilas foram, mais ou menos,
deixados sob a autoridade dos seus chefes tradicionais e permaneceram como
guerreiros "tribais", embora doravante lutassem sob a bandeira do Isl.
    Uma espcie de duplo poder constituiu-se, pois que Ibn Ysn no somente
se ocupava dos assuntos religiosos e jurdicos da comunidade, mas igualmente
administrava o tesouro pblico, detendo a autoridade suprema inclusive acima
de Yahy ibn `Umar44. Ele tomou pessoalmente parte at das campanhas.
    A unificao dos sanhdja no constituiu tarefa fcil: os djuddla, vencidos
pelos lamtna aps o retorno de Ibn Ysn ao deserto e forados a aderirem ao


43   Conferir H. J. HUGOT, 1966; P. de MORAES FARIAS, 1967, pp. 821-843; bem como a recapitulao
     da questo realizada por A. GAUDIO (1978, pp. 52-55).
44   Al-BAKR, 1913, p. 166-167. Ibn YSN ordenou a flagelao de Yahy, que a ela submeteu-se antes
     mesmo de conhecer os motivos.
408                                                                            frica do sculo VII ao XI



movimento, permaneceram e separaram-se assim que a ocasio se apresentou.
Enquanto grande parte dos exrcitos almorvidas combatia no Sul marroquino,
eles se rebelaram; Yahy ibn `Umar foi enviado para reprimi-los, aparentemente
sem sucesso, pois ele foi cercado em Azuk (Azug), no Adrr45. O primeiro
amr dos almorvidas foi morto (em 448/1056) na batalha de Tabfrll, no
curso da qual o seu exrcito foi derrotado apesar do reforo das tropas de Lab
ibn Wr-Dyb, chefe do Takrr46. Os almorvidas no realizaram nenhuma
outra tentativa para combaterem os djuddla, porm as relaes entre as duas
cabilas permaneceram tensas. Assim sendo, membros deste ltimo ramo ulte-
riormente participariam em campanhas almorvidas no Magreb e os djuddla
foram contados nas fileiras como autnticos almorvidas. As relaes entre o
movimento e os massfa esto muito menos elucidadas: segundo Ibn Khaldn,
um conflito eclodiu entre estes ltimos e os lamtna, porm ele aparenta ter sido
rapidamente solucionado e, ao longo das suas posteriores aes, os massfa e
os lamtna permaneceram como slidos aliados. No tocante s outras correntes
berberes, os lamta foram submetidos pouco aps o nascimento do movimento
e aliaram-se  causa almorvida, a exemplo de certos zanta e masmda.
    A despeito de todas as cises internas e das tendncias secessionistas, o novo
sistema poltico e religioso e a existncia de interesses comuns conduziram os
berberes sanhdja a se unirem. Aqueles dentre eles que viviam ao longo das
rotas comerciais desejavam retomar o controle destes grandes eixos e sobre o
comrcio neles efetuado. As cabilas aliadas do Norte, os lamta e os Djazla47, e
com eles uma frao dos lamtna, pretendiam reconquistar as ricas pastagens
compreendidas entre as montanhas do Atlas e o Saara. Em ambos os casos, os
zanta eram o inimigo comum. Conquanto todos os zanta no professassem a
f kharidjita, esta ltima tinha muitos adeptos entre eles e a sua heresia concedia
aos almorvidas malikitas uma razo suplementar para atac-los. A conquista
almorvida foi, em certa medida, uma vingana dos sanhdja do deserto contra
estes zanta, os quais, na poca precedente, haviam dominado o Magreb Oci-
dental. Os sucessos iniciais dos almorvidas deveram-se em larga escala  situ-
ao prxima da anarquia que reinava no Marrocos sob as dinastias maghrwa,
das quais numerosos indivduos acolheram os conquistadores como libertadores,



45    Azuk encontra-se a 15 quilmetros de Atr que, segundo al-Bakr, fora construda pelo irmo de Yahy,
      Yann ibn `Umar. Acerca deste stio, consultar B. SAISON, 1981 (figura 13.2)
46    Al-BAKR, 1913, pp. 167-168. Acerca do Takrr, conferir atualmente A. R. BA, 1984.
47    Entre os chefes espirituais do movimento, Waggg era um lamta e Ysn um Djazla.
Os almorvidas                                                                                        409



capazes de impor um termo  sua opresso48. Durante cinco anos, de 446/1054
a 451/1059, os almorvidas dedicaram-se a quebrar a supremacia dos zanta na
frica do Norte. As primeiras campanhas foram conduzidas diretamente contra
os territrios dos zanta, no vale do Dar'a, antes de serem direcionadas contra
Sidjilmsa, cujos habitantes haviam reclamado junto a Ibn Ysn da tirania do
seu chefe maghrwa, Mas'd ibn Wndn. Aps o fracasso de uma tentativa
de soluo pacfica, os almorvidas conquistaram a cidade, mataram Mas'd
e instalaram um dos seus no cargo de governador. Amparando-se assim do
terminal norte do comrcio das caravanas, as foras almorvidas voltaram-se
para o Sul, contra Awdghust. Aps a conquista desta cidade, eles massacraram
impiedosamente os habitantes zanta. Deste modo, o segundo destino da rota
trans-saariana caia em mos almorvidas, assegurando-lhes na mesma ocasio
o controle sobre o comrcio efetuado na parte ocidental da regio49.
    Entrementes, a populao de Sidjilmsa, aparentemente descontente com
o austero regime implantado pelos almorvidas puritanos, sublevara-se, mas-
sacrando a pequena guarnio. Uma nova campanha foi necessria para res-
tabelecer a situao. Dada a ausncia da maior parte do exrcito almorvida,
sobrevieram as secesses, j evocadas, dos Djuddla, no Sul, e a morte de Yahy
ibn `Umar. A ala norte, desde ento comandada por Ab Bakr, elevado  con-
dio de amr aps a morte do seu irmo Yahy, reconquistou Sidjilmsa e as
pastagens do Dar'a.
    Durante os anos seguintes, Ibn Ysn demonstrou no ser somente um pio
reformador e um rude guerreiro, mas, igualmente, um desenlace poltico. Atravs
de uma hbil ao diplomtica, ele obter sem uso da fora a submisso dos ber-
beres masmda das montanhas do Atlas. Outrossim, aps longas negociaes,
ele viu a importante cidade de Aghmt, juntamente com toda a regio do Ss,
cair sob o seu controle (em 450/1058). Objetivando cimentar esta nova aliana,
Ab Bakr esposou Zaynab, uma das filhas do soberano de Aghmt, e esta unio
permitiu aos almorvidas, sem derramamento de sangue, vastas regies do Sul
do Marrocos. Naturalmente, as diversas heresias e religies heterodoxas, flores-
centes nesta poro marroquina, foram todas extirpadas, ao passo que a doutrina
malikita impunha-se por toda parte, em sua forma almorvida.


48   Aps o advento dos fatmidas, os malikitas da frica do Norte haviam desempenhado o papel de
     defensores das populaes oprimidas; os almorvidas, ao menos inicialmente, permaneceram fiis a esta
     tradio e atraram muita simpatia ao abolirem todos os impostos ilegais (no-cannicos).
49   No tocante  conquista e s suas incidncias sobre o conjunto da situao econmica do Magreb, do
     Saara e do Sudo, conferir J. DEVISSE, 1970, p. 152 e seguintes.
410                                                                               frica do sculo VII ao XI




Figura 13.2    Marrakesh: escavaes no primeiro palcio almorvida. [Fonte: J. Terrasse.]



    Em sua luta contra os mais temidos adversrios da ortodoxia, os barghawta,
os almorvidas sofreram, todavia, a sua primeira derrota: eles foram vencidos
em 451/1059, e Ibn Ysn foi morto em circunstncias mal elucidadas durante a
batalha ocorrida nas proximidades de Kurfalat50. Ab Bakr ibn `Umar tornou-se
o seu sucessor  frente da comunidade almorvida.
    Embora a morte do fundador tenha provocado uma crise momentnea (os
massfa ter-se-iam ento sublevado), a solidez da obra realizada por Ibn Ysn
denota-se em virtude do movimento, em seu conjunto, distante de se desintegrar,
reencontrou, aps um curto perodo, um novo vigor e inclusive cresceu, estado
de coisas que lhe permitiu continuar vitoriosamente a propagar a nova doutrina
e a expandir as suas conquistas.
    Aps o desaparecimento de Ibn Ysn, a comunidade religiosa transformou-
-se em reino. Como o poder espiritual comeava a perder a sua importncia de
outrora51, o papel do amr ganhou o primeiro plano e o detentor desta digni-


50    Al-BAKR, 1913, p. 168. O lugar encontra-se, aproximadamente, a 40 quilmetros ao sul de Rabat.
51    A Ibn Ysn sucedeu, como chefe religioso, Sulaymn ibn `Add, outro companheiro de Waggg ibn
      Zalw. Havia,  poca, outros consultores jurdicos, como o imame al-Hadram, o kd de Azk, ou
      Limtd al-Lamtn, porm nenhum dentre eles logrou adquirir a influncia e a posio do fundador do
      movimento. Consultar H. T. NORRIS, 1971, pp. 267-268.
Os almorvidas                                                                                      411



dade fundou uma dinastia. Simultaneamente, uma hierarquia estabeleceu-se:
o primeiro posto no seio do reino coube aos lamtna, o ramo dos dirigentes,
de modo que os almorvidas foram, muito amide, chamados allamtniyyn
almurbitn, ou simplesmente lamtna. O ttulo de almurbit foi reservado
aos membros dos trs ramos fundadores, ao passo que os membros das outras
cabilas, como os djazla, os lamta, os masmda etc., os quais serviam no exrcito,
no eram considerados como murbitn, cabendo a condio de "partidrios"
(alhasham). Esta monopolizao do ttulo pelas correntes fundadoras testemu-
nha do surgimento de uma aristocracia.
    "Os portadores do vu" (almulaththamn) era outra expresso designando
os almorvidas: ela tem a sua origem no tradicional costume, observado pelos
sanhdja do deserto, de portar um vu na parte inferior do rosto. Na Espanha
muulmana, vestir este vu era considerado o privilgio dos verdadeiros almo-
rvidas, no sendo estendido a ningum salvo fosse um sanhdja52. Tratava-se
de uma espcie de uniforme ou particularidade de vestimenta reservada  classe
dirigente.
    A histria dos dez primeiros anos do reinado de Ab Bakr (at 462/1069)
 mal conhecida e nada sabemos com preciso acerca das atividades dos almo-
rvidas durante este perodo53. Um longo lapso de tempo talvez tenha sido
necessrio para a consolidao do novo poder e para a resoluo das inevitveis
crises, inerentes a uma confederao de recente formao que reunia populaes
de forte tradio independentista.
    A fundao de Marrakesh, transformada na nova capital ao Norte do macio
do Atlas, em 463/1070, marca a abertura de um novo captulo na histria do
movimento almorvida54. A data igualmente  significativa na justa medida em
que precisamente nesta poca ocorreu a exploso do movimento em dois grupos,
um comandado, ao Sul, por Ab Bakr e, ao Norte, outro cuja direo coube



52   REFERIRSE A E. LVIPROVENAL, 1934, pp. 200-218. Alguns autores dedicaram-se  questo
     concernente  origem e ao papel do vu junto aos berberes do deserto; conferir R. CORSO, 1949; J.
     NICOLAISEN, 1963; J. H, KEENAN, 1977; H. T. NORRIS, 1972, pp. 19-41; F. MEIER, 1981, pp.
     143-163.
53 O fato de os prprios contemporneos ignorarem quase completamente estas atividades  confirmado por
   al-Bakr (1913, p. 170), quando escreve: "hoje [ano 460/1067-1068] [...] o seu imprio est fracionado
   e a sua potncia difusa. Atualmente, eles se mantm no deserto".
54 Em razo de numerosas fontes rabes indicarem a fundao de Marrakech em 454/1062, esta data foi por
   muito tempo aceita sem discusso. E. LVIPROVENAL (1957), A. HUICI MIRANDA (1959b)
   e G. Deverdun (1959-1966) submeteram todos os documentos literrios e arqueolgicos existentes a
   um exame crtico, permitindo-lhe assim estabelecerem a nova datao.
412                                                                              frica do sculo VII ao XI



ao primo de Ab Bakr, Ysuf ibn Tshfn55. Esta ciso reproduziu-se gradual-
mente e sem premeditao; antes mesmo que a construo de Marrakesh estive
concluda; Ab Bakr foi chamado para o deserto, onde graves rupturas entre
os lamtna e massfa ameaavam a unidade do movimento. Ysuf ibn Tshfn
foi encarregado de substitu-lo no Norte, com a misso de dar continuidade 
campanha contra os zanta56. Aps solucionar o conflito no Saara, Ab Bakr
retornou ao Norte para retomar a frente do conjunto do movimento. Entremen-
tes, Ysuf ibn Tshfn consolidara, todavia, a sua posio e comprara escravos
negros do Sudo e cristos capturados na Espanha para fortalecer as suas tropas,
de modo a no depender unicamente dos guerreiros sanhdja. Bem entendido,
ele no estava em absoluto disposto a ceder o seu slido poder ao seu primo,
conquanto ainda lhe reconhecesse como seu superior. Por razes diversas, Ab
Bakr renunciou a fazer valer os seus direitos57 e transferiu gratuitamente a sua
autoridade a Ysuf. Segundo a cronologia revisada, estes acontecimentos ocor-
reram em 465/1072; Ab Bakr retornou ento em definitivo ao deserto e jamais
novamente esteve no Norte. No entanto, continuou a ser reconhecido como o
chefe da totalidade do Imprio Almorvida, at a sua morte em 480/1087. Os
dinares de ouro dos almorvidas foram cunhados at esta data com o nome de
Ab Bakr ibn `Umar e Ysuf ibn Tshfn, ele prprio continuou a nominalmente
a dedicar lealdade ao seu primo58.


55    O esquema abaixo mostra (de modo simplificado) a genealogia dos primeiros amr almorvidas:

                                                    Ibrhm


                                   `Umar                            Tshfn


                        1. Yahy           2. Ab Bakr                3. Ysuf


                                                            dinastia dos almorvidas



56    Ab Bakr imediatamente separar-se-ia de Zaynab, que se casaria, em segundas npcias, com Ysuf ibn
      Tshfn, trazendo-lhe um considervel dote.
57    Ele prprio proclamava no ser capaz de viver fora do deserto; conferir Al-Hulal al-Mawshiyya, 1936,
      p. 15. Embora esta ligao ao modo de vida nmade tenha inevitavelmente desempenhado determinado
      papel na deciso de Ab Bakr, convm observar que as suas foras armadas eram muito mais fracas que
      aquelas do seu primo.
58 O nome de ibn Tshfn no apareceria nas peas de moeda seno aps 480/1087, data em que ele se
   tornou, nominal e concretamente, o nico soberano dos almorvidas.
Os almorvidas                                                                                    413



     As conquistas ao Norte
    De 468/1075 a 476/1083, o exrcito almorvida, dirigido por Ysuf ibn
Tshfn, conquistara progressivamente o Marrocos e as regies ocidentais da
Arglia. Fez cara em 468/1075,  imagem subsequente de outras cidades da
plancie atlntica. Sete anos depois, Tlemcen e Oran estavam dominadas e, em
476/1083, as tropas almorvidas garantiram o controle do Estreito de Gibraltar,
ao ampararem-se de Ceuta. A Espanha muulmana doravante perfilar-se-ia
segundo o horizonte dos guerreiros do deserto.
    Na pennsula ibrica, o outrora florescente califado umayyade desabara nos
primeiros decnios do sculo V/XI. Das suas cinzas nasceu um conjunto de
pequenos Estados, envolvidos em querelas fratricidas e incapazes de resistirem
s vigorosas tentativas dos Estados cristos do Norte em submet-los. Nada
menos que vinte pequenos Estados se haviam assim formado em diversas pro-
vncias e cidades, nos quais reinavam emires e reizetes aos quais coletivamente
se designa pelo nome mulk altaw'if ("reis de partidos", em espanhol: reyes
de taifas).
    A ofensiva crist culminou com a conquista de Toledo (Tulaytula), em
478/1085, tornando-se em breve claro que os cristos visavam absorver total-
mente os mulk altaw'if e no se satisfariam com a sua vassalagem e com
os seus tributos. Os jurisconsultos muulmanos comearam a alarmarem-se
com esta situao que ameaava varrer o Isl e a sua civilizao de al-Andaluz.
Como os reizetes muulmanos eram totalmente incapazes de oporem a menor
resistncia sria ao avano cristo, nada restava seno pedir ajuda ao estrangeiro.
 poca, o nico poder em condies de assumir esta tarefa era o reino dos
almorvidas, ento no apogeu do seu poderio e reputado detentor de um corpo
religioso devotado  jihad. Mediante o convite do chefe abssida de Sevilha, o
al-Mu'tamid, exrcito almorvida conduzido por Ysuf ibn Tshfn, atravessou
o Estreito de Gibraltar, em 479/108659. Aps um avano sem resistncia atravs
do Sul da Espanha, as foras almorvidas infringiram s tropas castelhanas, con-
duzidas pelo Rei Alfonso VI, uma espetacular derrota em al-Zallka (Sagrajas),
proximamente a Badajoz60. Uma onda de entusiasmo percorreu al-Andaluz e


59   O texto da missiva com o convite encontra-se em al-Makkar, 1855-1861, vol. 2, p. 674. Aos seus
     detratores, os quais pressentiam o perigo de uma tomada de poder pelos almorvidas em al-Andalus,
     al-Mu'tamid retorquiu todavia preferir ser cameleiro na frica que criador de porcos em Castela.
60   Acerca desta batalha, referir-se a E. LVIPROVENAL, E. GARCIA GOMEZ e J. OLIVER
     ASN, 1950.
414                                                                             frica do sculo VII ao XI



Ysuf reconquistou o Marrocos, como prometera. Um ano mais tarde, a morte
de Ab Bakr dele faria, nominal e concretamente, o soberano do imprio.
    Todavia, os graves problemas que atingiam a Espanha muulmana estavam
distantes de serem definitivamente resolvidos. Pouco aps a retirada de Ibn
Tshfn, os cristos retomariam os seus ataques, colaborando para novas cises
entre os pequenos soberanos. Apressados para novamente intervirem, os almo-
rvidas conquistaram uma nova vitria em 481/1088, por ocasio da batalha
de Aledo. Entretanto, os mulk altaw'if abertamente manifestariam a sua
hostilidade perante os seus libertadores, pelos quais demonstravam tanto temor
quanto ao existente visvis dos inimigos cristos, por conseguinte, Ibn Tshfn
deixaria al-Andaluz uma segunda vez.
    Os limites da sua pacincia estariam doravante atingidos e, em 483/1090,
ele retornaria, porm desta feita como conquistador e no mais como aliado.
Fortalecido por fatw (pareceres jurdicos) assinados por numerosos fukh'
marroquinos e andaluzes61, ele dirigiu uma campanha contra os mulk altaw'if,
acusados de diversos crimes contra o Isl  colaborao com os cristos, corrup-
o, arrecadao ilegal de impostos etc. Agindo metodicamente, as foras almo-
rvidas conquistaram ou ocuparam todas as principais cidades e, em 487/1094,
a totalidade da Espanha muulmana estava anexada, excetuando-se Toledo, em
mos crists e Saragoza, onde a dinastia dos Ban Hd foi autorizada a perma-
necer no poder e a formar um Estado-tampo. Todos os soberanos muulmanos
foram depostos62 e a unidade da Espanha muulmana foi restaurada, desta feita
sob o domnio dos almorvidas63.
    No Leste, as conquistas almorvidas somente atingiram a cidade Argel e as
suas cercanias imediatas. As razes pelas quais os almorvidas no penetraram
mais rumo ao Leste, na Ifrkiya, detendo-se ali, sem realizar a unificao de todo
o Magreb, permanecem desconhecidas. No h dvidas que eles no encontra-
ram os rabes hill, os quais nesta poca percorriam as regies mais ao Sul da
Ifrkiya e do Leste argelino. Os Estados hammdidas das regies centrais da
Arglia certamente opuseram alguma resistncia ao avano almorvida e com-


61    No haveria ningum, at mesmo o grande erudito iraquiano al-Ghazl (morto em 505/1111), que no
      tenha apoiado a guerra travada por Ibn Tshfn contra os reizetes andaluzes. Fato que no impediria a
      posterior queima dos seus livros pelos fukh' almorvidas.
62 Al-Mu'tamid de Sevilha foi deportado para o Marrocos, onde viveu acorrentado e em total desgraa, at
   a sua morte, em Aghmt, no ano 488/1095. Ele expressou o seu sofrimento em elegias que esto entre
   as obras-primas da poesia rabe.
63    Valncia, onde Rodrigo Diaz de Vivar, dito El Cid, o heri da grande epopeia espanhola, fundou um
      principado independente, no cairia em mos almorvidas seno em 495/1102.
Os almorvidas                                                                          415




Figura 13.3.a Ornamentos almorvidas: detalhes de uma porta em bronze (Fez). [Fonte: UNESCO/
Dominique Roger.]
416                                                                     frica do sculo VII ao XI




Figura 13.3b Ornamentos almorvidas de uma porta da poca, com aldraba em bronze (Fez). [Fonte:
UNESCO/Dominique Roger.]
Os almorvidas                                                                                      417



bates, dos quais os hammdidas saram vencedores, inclusive tiveram lugar em
torno de Tlemcen; entretanto, os almorvidas aparentemente demonstraram
certa hesitao em atacar vigorosamente um povo pertencente a um mesmo
ramo dos sanhdja que eles prprios. A explicao mais plausvel aparenta, toda-
via, ser concernente  deteriorao na Espanha muulmana, sempre atraindo
progressiva ateno de Ysuf ibn Tshfn; no dispondo de tropas suficiente-
mente numerosas para combater em duas frentes e consciente da reputao de
combatentes do Isl, da qual gozavam os almorvidas, Ysuf escolhera realizar
campanha contra os cristos.
    Aquilo, originalmente no mais que um movimento local por reformas junto
aos berberes do deserto, tornara-se um imprio, entre os rios brio e Senegal;
este imprio reuniria, em um espectro de 30 graus de longitude, paisagens e
zonas de produo e tradio cultural muito diversas, das mais frteis plancies
da Espanha e do Marrocos at os desertos mauritanos.


     A nova situao ao Sul do Saara
    A situao ao Sul do Imprio Almorvida , infelizmente, muito menos
conhecida, comparativamente quela da parte setentrional. Tudo se torna difcil
em razo da raridade das fontes; escritas, elas provm da literatura histrica
rabe  fortemente distante dos lugares, no espao e, eventualmente, inclu-
sive no tempo; orais, elas sofreram mltiplas modificaes que comeamos a
saber estudar de modo crtico, porm sem contudo tornar assaz iniludvel a sua
utilizao; as primeiras emanam dos muulmanos do Norte; as segundas dos
sahelianos negros que, mesmo quando e eventualmente j muulmanos, no
necessariamente adotam os mesmos pontos de vista que os prprios a homens
da poro norte do continente.
    No se conhece, com preciso, a situao que existe no vale do Senegal.
Aparenta ser atualmente indubitvel que os pontos importantes onde se desen-
volvem cidades e mercados no estejam na costa martima, situando-se assaz dis-
tantes, rumo ao interior. Sabe hoje, graas s escavaes, que Sintiu-Bara64  um
importante stio, desde os sculos V e VI da era crist65, que Ogo foi fortemente


64   A ortografia do nome deste stio coloca problemas. G. THILMANS e A. RAVIS (1983) adotam
     Sintiou, segundo parmetros fonticos franceses; Y. FALL (1982) e a maioria dos autores senegaleses
     escrevem, por sua vez, Sincu.
65 G. THILMANS e A. RAVIS, 1983.
418                                                                               frica do sculo VII ao XI



habitada e que nela se fundiu ferro no sculo IX66. Al-Bakr e al-Idrs citam
ambos o nome de Sill, sob diversas formas; existem, na regio de Kadi, vrias
localidades que possuem este nome; um recente artigo67 permite-nos entrever-
mos que o stio de uma delas  Sill Rindaw  remonta  poca da qual aqui
tratamos: os vestgios de trabalho do ferro que l foram encontrados  todavia
no precisamente datados, mas provavelmente antigos  mostram perfeitamente
a importncia das pesquisas a serem realizadas nesta regio68. O conjunto dos
trabalhos de prospeco ou pesquisa efetuados h alguns anos, tanto do lado
mauritano quanto senegals do rio, revela o interesse pelas informaes que se
extrairo da pesquisa arqueolgica durante os prximos decnios69.
    Sem que os textos sejam claros e de fcil interpretao, aprendemos com
al-Bakr e al-Idrs que Sill e Takrr, ambas ainda insuficientemente localiza-
das, dividem entre si o domnio econmico sobre o mdio curso do rio Senegal,
nos sculos V/XI e VI/XII70. Deste modo, tudo concorre para nos dar certeza
que esta regio mdia do rio abrigava, entre os sculos VI e XII, uma atividade
 particularmente no mbito da pesca  e uma pujana das quais somente
mnimos ecos so perceptveis nas fontes escritas e nas tradies orais. Ainda
sero necessrios longos trabalhos para se alcanarem resultados, certamente,
espetaculares.
    Ligeiramente mais ao Sul, devemos a T. Lewicki o conhecimento um
pouco melhor sobre um reino, por muito tempo no obscurantismo: o Diafunu
(Zfun(u)); aprendemos que este reino torna-se muulmano no sculo V/XI
e que se situava, grosso modo, proximamente  confluncia do Kolombin e do
Senegal71.



66    Consultar B. CHAVANE, 1985.
67    Y. FALL, 1982.
68    D. ROBERTCHALEIX e M. SOGNANE, 1983.
69    B. Tandia, 1982-1983, entre muitos outros trabalhos. Os principais resultados de uma prospeco na
      Mauritnia, em junho de 1982, de Selibaby a Bogh so os seguintes: descoberta de um importante
      nmero de cermicas entalhadas, comparveis quelas que, no tocante a Sincu-Bara, so consideradas
      como originadas nos sculos V e VI da era crist; tais cermicas foram encontradas, do lado senegals,
      em Cascas, Sintiu-Bara, Matam, Ogo e Bakel; do lado mauritano, exatamente em simetria com os stios
      precedentes, em vinte localizaes; poder-se-ia tratar de um indicador cultural de grande importncia.
      Descoberta de grande quantidade de discos de tear (conferir bibliografia: R. MAUNY, 1955b e G.
      THILMANS, 1979, p. 29) em trinta e sete stios do lado mauritano (e, em numerosos casos, do lado
      senegals). Descoberta de milhares de suportes de fornos para fundio de ferro (conferir D. ROBERT
      CHALEIX e M. SOGNANE, 1983).
70    A. R. BA, 1984.
71    T. LEWICKI, 1971a; M. LEWICKI oferece a transcrio em rabe: Zfun(u).
Os almorvidas                                                                                              419



    A cidade de Azuk, segundo as primeiras sondagens efetuadas72, ativa entre
o final do sculo IV/X e meados do sculo VI/XII, tinha provavelmente uma
funo muito importante de correia de transmisso relativamente a este "sistema
senegals73".
    Todas estas informaes, em sua maioria obtidas h menos de quinze anos,
no nos permitem no entanto retraar a histria precisa desta zona, to impor-
tante em virtude dos seus contatos com os almorvidas. A tese recente de
Abdurahmane Ba74 formula hipteses sedutoras acerca da remota existncia de
dinastias aliadas aos produtores de ferro e combatidas, assim como os seus alia-
dos, pelos islamizadores, pr-almorvidas e negros, do Takrr; deve-se provavel-
mente acrescentar: e do Diafunu; Sill ainda no era muulmana no sculo V/XI.
    A vida poltica desta zona comea a sair do obscurantismo, ao menos no
tocante s hipteses. Permanece difcil saber quem, de Sill, do Takrr ou do
Diafunu, controlava melhor a circulao do ouro proveniente, como se sabe, de
regies mais meridionais, entre Falm e Bafing, em direo s mais setentrio-
nais. Veremos mais adiante75 que a instalao dos almorvidas no Sul da atual
Mauritnia teve incontestveis consequncias na geografia da circulao do ouro
e na rivalidade entre as cidades rivais do Senegal.
    Teriam os almorvidas, encontrado, s margens do Senegal, prncipes j
muulmanos com os quais os Berberes teriam estado desde as origens da isla-
mizao nesta zona? Ou teriam eles iniciado e acelerado a converso das cidades
do mdio Senegal? A resposta a estas questes comporta grande interesse. Os
ltimos trabalhos76 tendem a sublinhar que a islamizao  anterior  poca
almorvida e teria provocado a queda de uma dinastia takruriana, mais antiga e
muito ligada aos fundidores de ferro "pagos" e mgicos. H muito a trabalhar


72   B. SAISON, 1981.
73   A grafia do nome desta cidade, sugerida pelos autores rabes, suscita grandes problemas. Segundo os
     manuscritos e a atribuio de vogais, obtm-se muitas grafias distintas.
74   A. R. BA, 1984.
75   Consultar, mais adiante, o captulo 14, no que tange aos itinerrios descritos por al-Idrs, os quais valori-
     zam consideravelmente o vale do Senegal, comparativamente aos itinerrios dos dois sculos precedentes.
76   A. R. BA, 1984. Consultar igualmente a tese de doutorado recentemente defendida em Dakar por M.
     Oumar Kane (dezembro de 1986); ela mostra muito bem, referenciando-se em tradies soninqus,
     que mercadores soninqus  jula  introduziram o Isl ao sul do rio Senegal, talvez desde o sculo IX,
     em todo caso desde o sculo X. Onze famlias marabutas soninqus do Fouta Toro pretendem, ainda
     atualmente, remontar as esta longnqua origem. M. Kane observa que da palavra jula derivam os verbos
     julde (rezar) e julaade (comerciar). Embora estes comerciantes soninqus no tenham sido seno guias
     para mercadores muulmanos do Norte, a introduo do Isl a eles devida  muito anterior ao perodo
     dos almorvidas.  justamente isso que tambm declara, enfaticamente embora em outros termos, a
     relao de al-Bakr.
420                                                                                  frica do sculo VII ao XI



em respeito a estas questes, porm a pesquisa avana rapidamente. De toda
forma, est desde logo claro que o Isl desempenha um papel muito impor-
tante nos sculos IV/X e V/XI, no vale do Senegal77, e que o entendimento
entre almorvidas e soberanos provavelmente pesou fortemente para assegurar
o sucesso dos guerreiros cobertos pelo vu vindos do Norte; eles encontraram,
no vale, homens de guerra, escravos e ouro78.
    Mais a Leste, a situao  certamente menos favorvel para os almorvidas.
Atualmente, sabe-se perfeitamente que o delta interior do Nger  uma zona de
trocas, urbanizada antes da chegada do Isl79. Grande parte do ouro produzido
at a zona florestal  provavelmente reunido nesta regio e os comerciantes
negros que o coletam esto ligados, no Norte, no mais tardar desde o sculo
IV/X, com Gana assim como, provvel e eventualmente, com Gao. Os prn-
cipes que governam a partir destas duas cidades controlam a venda do metal
precioso para o Norte. O soberano de Gana no  muulmano no momento da
expanso almorvida, conquanto mantenha excelentes relaes com os muul-
manos. Estes ltimos, como provam as pesquisas efetuadas em Kumbi Saleh80,
residem em grande nmero na cidade comercial onde os acolhe amigavelmente
o soberano de Gana e onde eles podem orar em uma monumental mesquita,
certamente desde o sculo IV/X81. O conjunto do sistema Gana-delta interior
do Nger  operante muito tempo antes dos almorvidas e certamente hostil aos
sanhdja  est habituado a tratar com os mercadores da Ifrkiya82. Um choque
esta, portanto, configurado entre os almorvidas e o sistema gans; ele  to
verossmil que estes ltimos dispem, atravs do simples jogo das proximidades
geogrficas que souberam explorar, de uma espcie de acesso alternativo para o
ouro pelas cidades do Senegal. Entretanto,  muito difcil, ainda hoje, identificar
os eventuais contornos adquiridos por este enfrentamento.
    Seria necessrio, para responder a esta questo, primeira e exatamente avaliar
as formas e o grau de islamizao atingidos no Sahel, aquando do desenvolvi-


77     conhecida a aluso feita por al-Bakr ( J. M. CUOQ, 1975, p. 90)  presena de Labi (?), filho de Wr
      Dybi, chefe do Takrr, junto  Ab Bakr en 1056. Isso aparenta perfeitamente implicar que o Takrr
      seria, neste momento, muulmano h pelo menos duas geraes.
78 Consultar, mais adiante, o captulo 14, particularmente acerca da noo de sistemas rivais, naquele
   momento, a partir das cidades ribeirinhas ao Senegal e a partir de Gana.
79    S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b; J. DEVISSE, 1982
80    S. BERTHIER, 1983. Igualmente referir-se aos Anais do Instituto Mauritano de Estudos Cientficos, 2o ano.
81 Trata-se daquilo que autorizam crer as dataes obtidas por carbono 14, realizadas para os perodos mais
   remotos da organizao da cidade e da sua mesquita.
82 Conferir J. DEVISSE, 1970.
Os almorvidas                                                                                           421



mento almorvida. Toda a pesquisa converge hoje para permitir acreditar que
o primeiro grande esforo  jihad  concertado e racional de converso seria
obra dos saarianos  os almorvidas , datado do sculo V/XI83. No que tange
aos dois ou trs sculos anteriores, os progressos do Isl foram provavelmente
mais pontuais, ligados  presena dos mercadores do Norte e  urbanizao84.
   Pode-se, provavelmente em justa causa, considerar que uma primeira fase,
muito "individual" e talvez eventualmente "estatal" no caso dos fatmidas85,
portanto muito ideolgica, marcou pontualmente os portos do trfico trans-
-saariano sem muito influenciar nas campanhas e sem exigir muitos esforos
de instruo e formao religiosa. A esta poca pertencem as primeiras comu-
nidades de Awdghust, de Gana, talvez de Tdmekka, de Gao e, sem dvida, de
algumas outras cidades do Senegal ou do delta interior;  plausvel ligar a este
momento a clebre anedota sobre a converso do de Mallal.
   Os almorvidas consideraram muito seriamente o seu papel na qualidade de
reformadores e ensinadores do sunismo. Eles no partiram do senso comum86,
conferindo, provavelmente pela primeira vez, uma referncia geogrfica 
comunidade muulmana da frica do Oeste; posteriormente a eles, ela adquire
fronteiras mais ntidas. A desestabilizao, ao Sul do Saara, consequncia da
conquista almorvida, foi certamente considervel; ela se conjuga, outrossim,
com a contra-ofensiva generalizada do sunismo, caracterstica do sculo V/XI,
aps os triunfos xiitas do sculo precedente. Juntamente com este pano de fundo
deveria ser possvel apreciar as relaes com Gana.
   Conquistada ou convertida ao sunismo-malikismo, Gana passa oficialmente
 rbita do isl ao final do sculo V/XI; cabendo-lhe, talvez, ter contribudo para
igualmente assegurar a passagem de Tdmekka para o sunismo87. A arqueologia
ainda no oferece seno vagas indicaes: certamente, em profundidade  a
cerca de cinco metros abaixo da atual superfcie , so encontrados vestgios de
provvel destruio; indubitavelmente, a mesquita mudou de dimenses aps o


83   Ibn SAMMAK, 1381, em J. M. CUOQ, 1975, p. 364.
84   Consultar, acima, o captulo 3.
85   Referncia ao caso, em vias de exame, de Awdghust. Igualmente consultar, acima, o captulo 12.
86   Consultar, acima, o captulo 3.
87   J. M. CUOQ, 1975, p. 120 (texto de al-Zuhr): "Nas circunvizinhanas de Gana, a quinze dias de marcha,
     h duas cidades: a primeira  Silla, a segunda Tdmekka. Entre estas duas cidades, transcorrem nove dias.
     A populao destas duas cidades tornou-se muulmana aps a sua consorte de Gana, sete anos mais tarde,
     aps guerras entre si e numerosas revoltas. As pessoas de Gana pediram, para triunfar sobre os rivais, a
     assistncia dos murbitn." T. Lewicki (1979, p. 166) cita este texto, introduzindo outra transcrio do
     primeiro topnimo: N-s-la. Igualmente referir-se a D. C. CONRAD e H. J. FISHER, 1982, 1983.
422                                                                frica do sculo VII ao XI
Figura 13.4   Os pases da bacia do Senegal na poca almorvida.
Os almorvidas                                                                                               423



final do sculo V/XI;  inquestionvel que a cidade comercial, situada no ponto
de referncia chamado Kumbi Saleh, adquire seu mais notvel desenvolvimento
nos sculos VII/XIII e VIII/XIV88; estes indicadores tendem a denotar uma
destruio pelos almorvidas, os quais no possuam razo alguma para poupar,
nesta localidade no mais que em Awdghust, os seus adversrios zanta89.
Porm faltam ainda provas cabais e, em todo caso,  imagem de Awdghust, o
eventual ataque no se desdobrou na completa destruio da cidade comercial,
muito em contrrio. Questes essenciais todavia se impem  arqueologia, as
quais, at o momento, no aparentam despertar relevante interesse.
    Caso tenha havido choque, qual teria sido o destino da capital real90? Seria
imperioso pensar que ela teria recuado mais para o Sul ou, igualmente, teria
adotado o Isl? Quais teriam sido as ulteriores relaes com os seus vizinhos
ao Sul, os soso, de cujos textos dos sculos VIII/XIV e IX/XV indicam-nos a
vitria sobre Gana enfraquecida91? Trata-se, at o presente, de todo o destino
do "sistema gans", relativamente ao delta interior92, que nos escapa em larga
medida. Eis uma grande lacuna.
    R. M. A. Bedaux no hesita em identificar nos movimentos guerreiros, pelos
quais o Sahel seria ento afetado, a causa da reocupao ou da ocupao de
importantes stios do delta interior do Nger93 e, igualmente, o motivo para a
instalao dos tellem nos antigos stios tolly da falsia de Bandiagara94. Alguns
autores acreditam inclusive que a desestabilizao tenha atingido, paulatina-
mente, os territrios do Chade95.
    Os prncipes de Gao eram muulmanos desde o sculo IV/X96. Ao final do
sculo V/XI h indcios, igualmente de difcil interpretao, de relaes com a

88   S. BERTHIER, 1983.
89   J. DEVISSE, 1970.
90   Conferir os argumentos contra a pressuposta conquista de Gana pelos almorvidas em D. C. CONRAD
     e H. J. FISCHER, 1982.
91   J. M. CUOQ, 1975, p. 343 (Ibn Khaldn), p. 388 (al-Mahrz): as tradues mereceriam serssima reviso.
     Haja vista a dificuldade dos textos, elas so susceptveis a leituras muito distintas das ideias originais do
     autor.
92 Consultar, mais adiante, o captulo 14.
93 R. M. A. BEDAUX, T. S. CONSTANDSEWESTERMANN, L. HACQUEBORD, A. G. LANGE
   e J. D. VAN DER WAALS, 1978.
94   R. M. A. BEDAUX e R. BOLLAND.
95   H. T. NORRIS, 1972. Esta interpretao no goza da unanimidade junto aos pesquisadores. No tocante
     a este ponto, uma vez mais, ainda resta muito a trabalhar.
96   Al-Muhallab (morto em 380/990) em J. M. CUOQ, 1975, p. 77; "O rei do pas declara-se muulmano
     perante os seus sujeitos, muitos dentre esses seguem-no, igualmente declarando-se muulmanos". Acerca
     do papel que Thert logrou desempenhar neste mbito, referir-se a T. LEWICKI, 1962.
424                                                                               frica do sculo VII ao XI



Espanha almorvida. Estelas funerrias reais97 foram encontradas na necrpole
de Gao-San, ao Norte de Gao. As duas mais antigas destas estelas teriam sido
gravadas em mrmore proveniente da Espanha98: elas correspondem a sobera-
nos, incontestavelmente muulmanos e aparentemente sunitas. Todavia no se
sabe muito alm a este respeito99.
    Sequer se conhece o verdadeiro paradeiro de Ab Bakr em seus esforos
para converter o Sahel. A data e o lugar da sua morte variam consideravelmente
segundo as fontes100. As fontes baseadas na tradio oral, na Mauritnia, igual-
mente so imprecisas101.
    Notoriamente, a ltima palavra est distante de ser dita e a histria dos
almorvidas102 ainda reserva grandes surpresas, at mesmo em seu aspecto reli-
gioso: pela primeira vez, uma dominao sunita coerente apresenta um perfil
global e um limite para o Dr alislm, perante um mundo negro com diferentes
sistemas religiosos; visvis destas sociedades que o Isl considera "pags", a
tolerncia ou a indiferena no so mais adequadas. Esta novidade repercutiria
em importantes desenvolvimentos nos sculos seguintes.


      Do brio ao Senegal, organizao de um
      espao: o fracasso dos almorvidas
   As economias do Norte do conjunto almorvida estavam j fortemente orga-
nizadas antes da conquista sanhdja. Elas se beneficiavam desde ento do afluxo
do ouro da frica Ocidental. Durante demasiado tempo, escreveu-se que as con-
quistas almorvidas haviam devastado a poro ocidental da frica. As pesquisas
realizadas estes ltimos anos provam que, ao contrrio, a integrao econmica

97    J. M. CUOQ, 1975, p. 111 e seguintes.
98    J. SAUVAGET, 1949, pp. 123-141. Igualmente conferir M. M. VIR, 1958, pp. 368-376.
99    M. de MORAES FARIAS, da Universidade de Birmingham, que j ofereceu notveis contribuies
      no tocante  histria dos almorvidas, prepara um estudo global sobre as estelas epigrafadas da zona
      saheliana, em colaborao com pesquisadores malineses, mauritanos e franceses; graas a ele, ser-nos-
      possvel saber muito mais em alguns anos. Referir-se igualmente a J. O. HUNWICK, 1980.
100 A meno inicial, no-datada, da morte de Ab Bakr encontra-se em um texto do final do sculo VII/
    XIII ( J. M. CUOQ, 1975, p. 176). No sculo VII/XIII, Ibn al-Athr (ibid., p. 194) situa esta morte em
    462/1069-1070. No sculo VIII/XIV, hesita-se entre 469/1076-1077 e 480/1087-1088. Considerveis
    discrepncias tambm so observadas no que tange  morte de `Abd Allh ibn Ysn: entre 450/1058 e
    452/1060.
101 A. OULD ELBAH, 1982.
102 Duas importantes teses so aguardadas, da parte dos historiadores franceses V. LAGARDRE e A.
    NGRE, os quais j publicaram interessantes estudos preparatrios.
Os almorvidas                                                                                          425



das regies sahelianas com as economias setentrionais fora ento muito intensa.
A criao ou o fortalecimento de novas correias de transmisso, etapas nas rotas
interligando o Senegal e o Marrocos, mostra que as pistas eram muito frequen-
tadas103. Prevalece, por vezes, junto a alguns historiadores, a opinio segundo a
qual o conjunto almorvida teria sido dividido, literal e amigavelmente, entre
Ab Bakr e Ysuf ibn Tshfn: a manuteno de gravao das moedas com o
nome de Ab Bakr na oficina de Sidjilmsa, at o desaparecimento deste ltimo
oferece um primeiro desmentido; a descoberta, na Mauritnia, de dinares cunha-
dos no sculo VI/XII na Andaluzia equivale a uma segunda104. Circulava-se, de
Norte a Sul, em um imenso imprio. Afinal, como poderia ser diferente, haja
vista que o Norte necessitava do ouro di Sul105. Deve-se, portanto, considerar
em seu conjunto, do ponto de vista econmico, a extensa faixa atlntica que
unia pases de economias complementares. A demanda pelos produtos "do Sul"
consequentemente cresceu, ao que tudo indica, at meados do sculo VI/XII.
Bem entendido, a manuteno desta unidade econmica no impediu a existn-
cia de duas administraes, uma em Marrakesh, outra no Sahel; dois exrcitos,
um ao Sul, fiel ao dromedrio, outro exclusivamente montado a cavalo, desde o
final do sculo V/XI106; talvez, duas vidas polticas divergentes107. Entretanto, a
unidade econmica est solidamente atestada pelas fontes. O Sul do Marrocos
tirou amplo proveito deste desenvolvimento. Al-Idrs oferece uma eloquente
evocao deste enriquecimento em relao a Aghmt-Warka, prxima da regio
de Tn'ml, onde nasce o movimento almohade:
    Os habitantes de Aghmt so hawwra, rabes berberizados por circunvizinhana.
    Trata-se de ricos mercadores que vivem na bonana. Eles penetram no pas negro
    com caravanas de camelos que transportam muitas arrobas em mercadorias: cobre
    vermelho, cobre pintado, cobertas, roupas em l, turbantes, casacos, vidraria, madre-
    prola, pedras preciosas, ervas de todo tipo, perfumes, objetos em ferro fundido...
    Sob o reino dos mulaththamn [almorvidas], ningum era mais rico e abastado que



103 Consultar, a seguir, o captulo 14. Azuk, na atual Mauritnia, Tabalbala, no Marrocos oriental, Zagra e
    Tmdlt no sul marroquino, constam entre as cidades, de maior ou menor importncia, provavelmente
    construdas pelos almorvidas. Conferir, sobre Azuk: B. Saison, 1981; sobre Tabalbala: F. D. Champault,
    1969; sobre Zagra: J. MEUNI e C. ALLAIN, 1956; sobre Tmdlt: B. ROSENBERGER, 1970b.
104 G. S. COLIN, A. O. BABACAR, N. GHALI e J. DEVISSE, 1983.
105 Consultar, a seguir, o captulo 14, especialmente a figura 14.4, referente s oficinas de cunhagem almo-
    rvidas.
106 Detalhamento extrado de V. LAGARDRE, 1983.
107 Conferir, mais adiante, pp. 574-575.
426                                                                         frica do sculo VII ao XI




Figura 13.5.a Cunho monetrio almorvida e instrumentos de gravao em moedas, encontrados na
Arglia. [Fonte: Ministrio da Cultura e do Turismo da Arglia.]




Figura 13.5.b   Peas de moeda almorvida em ouro. [Fonte:  Bernard Nantet.]
Os almorvidas                                                                                      427



    os indivduos de Aghmt. Na porta das suas moradas, eles colocam smbolos que
    indicavam a medida da sua fortuna.
    Aghmt no estava sozinha a se beneficiar da prosperidade econmica. Toda
a parte montanhosa do Marrocos forneceu, mais que nunca, cobre, ferro e prata
para a exportao, e verdadeiras batalhas pelo controle das minas opuseram,
no sculo VI/XII, os partidrios dos almadas e aqueles dos almorvidas108. As
escavaes realizadas na regio de Chichwa109, a Oeste de Marrakesh, reve-
laram a riqueza do habitat na poca almorvida; os ornamentos em estuque110
e os detalhes pintados111 merecem a comparao com outros, encontrados no
Norte e no Sul.
    Muito naturalmente, a prosperidade econmica, cujo espectro no envolveria,
evidentemente, seno alguns meios urbanos e os prximos do poder, permitiu o
desenvolvimento de um luxo, por vezes ostentatrio, futura e fortemente con-
denado pelos almadas. Numerosas mesquitas, suntuosamente decoradas, datam
deste momento (conferir Figura 13.1); mas, igualmente, belos monumentos
civis dentre os quais, alguns, a exemplo da fonte de Marrakesh, percorreram o
tempo at os nossos dias. Nenhuma cidade logrou oferecer tamanha profuso
de importantes vestgios quanto a mais original criao urbana dos almorvidas,
a cidade de Marrakesh: al-Idrs brinda-nos com uma interessante imagem da
cidade aquando da sua criao: "[Ela] est em terreno plano e no possui em
seu entorno seno uma pequena colina chamada Idjalliz, de onde foi extrada a
pedra que serviu  construir o palcio do "emir dos muulmanos", `Al ibn Ysuf
ibn Tshfn, palcio conhecido pelo nome Dr al-hadjar (a casa de pedra). Na
localizao, no h pedra alguma, salvo nesta colina. A cidade igualmente fora
construda em argila, tijolos cozidos e terra batida112". A arqueologia permitiu
reencontrar o palcio em questo, "maravilha da arquitetura" nesta regio para a
poca considerada113; ela igualmente permitiu restituir uma parte da planta da
mesquita almorvida e revelar uma fonte maravilhosamente decorada, oferecida


108 Excelente traduo do texto de Al-Idrs, muito precisa, em M. HADJSADOK, 1983, pp. 73-74.
109 B. ROSENBERGER, 1970b; P. BERTHIER, 1962.
110 P. BERTHIER, 1962, a comparar com outros, na Espanha, da mesma poca. Referir-se a C. EWERT,
    1971. (Relatrio B. ROSENBERGER, em HT, 12, 1972, pp. 219-221.)
111 As decoraes geomtricas pintadas em vermelho sobre fundo branco de Chichwa, evidentemente, tm
    uma ligao com aquelas, da mesma poca, encontradas em Marrakesh. Talvez seja pertinente questionar
    sobre a possibilidade de uma eventual relao com os ornamentos de Walta.
112 M. HADJSADOK, 1983, p. 75.
113 J. MEUNI e H. TERRASSE, 1952, pp. 11-19 e 20-21: decorao pintada comparvel quelas de
    Chichwa.
428                                                                          frica do sculo VII ao XI



aos habitantes para as ablues114. A extremidade mais setentrional da luxuriante
decorao almorvida encontrava-se na Espanha, s margens do brio, na Alja-
feria de Saragoza; nada alm de elementos dos arcos subsiste.
    Marrakesh tambm se tornou, dando crdito a G. Wiet e E. Lvi-Provenal115,
um centro de brilhante literatura, onde os poetas da corte, vindos da Espanha
prosseguiram a sua carreira, iniciada junto aos reyes de taifas116 e arruinada pela
conquista almorvida de al-Andaluz e pelo concomitante rigorismo dos seus
primrdios. O rigorismo inicial que, por exemplo, suscitou as profundas reservas
de al-Bakr em relao aos almorvidas, paulatinamente se atenuou, em seus
atos e comportamentos. A cultura muulmana da poca fora, pela primeira vez
com tamanha intensidade, transplantada para o Marrocos. Consigo trouxera o
luxo e o gosto pela vida fastuosa: os adversrios dos almorvidas far-lhes-iam
reprimendas a este respeito. Todavia, o rigorismo jurdico dos fukah', aliados
da dinastia, muito amide em contraste com as facilidades da vida brilhante de
Marrakesh, no desapareceu; ele imps um malikismo por vezes obscuro  este
fato  de grande importncia para a histria do Isl ocidental, inclusive na frica
, porm ele tambm suscitou, pelos seus excessos, muitas reaes hostis117.
    Os estudos de V. Lagardre evidenciaram, muito recentemente, a profun-
didade do ressentimento suscitado na Espanha e no Marrocos e, qui mais
amplamente ainda, pela poltica hostil imposta  dinastia pelos fukah' malikitas.
Estes ltimos estiveram s voltas, particularmente, com as obras de al-Ghazl,
introduzidas neste momento no Ocidente, cujo tom mstico desconcertava os
fukah' partidrios dos almorvidas. Uma carta de novembro de 1143, endere-
ada pelo soberano almorvida, Ab Marwn `Abd al-Malik b. `Abd al-`Azz, a
um futuro kd de Valncia, mostra perfeitamente a orientao, neste momento,
do poder dominante e os seus temores:
      Quando vs encontrardes um livro hertico ou fator de qualquer heresia, protegei-
      -vos contra si e, especialmente, das obras de Ab Hmid al-Ghazl. Segui-lhes
      o rastro,  guisa de destruir por completo a sua memria, por intermdio de um
      "auto-de-f" [acrescentamos as aspas, pois que a expresso aparenta-nos no convir




114 H. TERRASSE, J. MEUNI e G. DEVERDUN, 1957.
115 G. WIET, 1966, pp. 230-231; E. LVIPROVENAL, 1948, sobretudo pp. 239-318.
116 Aps a clebre obra de H. PERES (1953), pode-se consultar: S. KHALIS, 1966.
117 V. LAGARDRE (1981) muito bem demonstrou que os almorvidas, momentaneamente tentados a
    uma abertura para o chafismo e para o sufismo, se haviam reconduzido, com `Al ibn Ysuf ibn Tshfn,
    a um rigorismo implacvel.
Os almorvidas                                                                                   429



     perfeio] incessante; fazei perquiries e exigi sermes de quem supondes destes
    ocultar.
    O clima dos ltimos decnios de poder almorvida fora envenenado pela
represso dos juristas malikitas, apoiados pelos prncipes; esta represso confe-
riu verossimilitude s reprimendas endereadas, particularmente pelo nascente
movimento almohade,  dinastia reinante. At mesmo a legitimidade desta
ltima aparentava ser questionada pela exegese de um texto de al-Ghazl, muito
popular, segundo V. Lagardre:
    A poca anterior ao Isl no passa de erro e cegueira. Em seguida, graas  profe-
    cia, chegaria o momento da verdade e do bom caminho. A profecia  seguida pelo
    califado que, a seu turno,  seguido pela monarquia; esta ltima revive a tirania, o
    orgulho e a vaidade. Ora, como se constata a tendncia divina em fazer retornar as
    coisas ao seu ponto original, deriva-se que a verdade e a profecia sero necessaria-
    mente revividas pela santidade...
    Podemos dizer, assaz claramente, que o poder estabelecido, tirnico, orgu-
lhoso e vaidoso, no possua, em que pese o apoio formal dos juristas malikitas,
nem justificao dinstica, nem profundo valor religioso118. A oposio "legiti-
mista" aos olhos dos abssidas, unitarista e prxima das aspiraes ghazalianas
de Ibn Tmart, adquire muito maior relevo em tal contexto119.
    V. Lagardre estudo, artigo aps artigo, a fraqueza da administrao almo-
rvida120. Esta ltima inexiste por completo em nvel local: o poder  exercido
graas aos parentes e aos clientes. Em mais de um caso, os defeitos condenados
junto aos soberanos de al-Andaluz, nos tempos virtuosos dos primrdios, rapi-
damente reapareceram, especialmente no campo fiscal. A rigidez estampada na
esfera jurdica e nos procedimentos inquisitrios121 dificilmente esconde certa
flutuao doutrinria e no so raras as revoltas. Aquela que varreria a dinastia se
desenvolve, no Atlas, sem que o poder almorvida possa fazer algo, seno cont-
-la tanto quanto possvel. A arma utilizada por Ysuf ibn Tshfn contra os reyes
de taifas, ao final do sculo V/XI, voltar-se-ia contra os almorvidas, acusados
a seu turno de opresso, injustia, corrupo e devassido; alm de fraco rigor

118 Os textos citados so tomados por emprstimo junto a V. LAGARDRE, 1983.
119 V. LAGARDRE (1981, p. 53) insiste no fato de Ibn Tmart ser um discpulo de Ab Ms `Is b.
    Sulaymn al-Rafrgh, originrio da provncia de Tdila e nutrido pelo ensino contemplativo oriental;
    embora os almohades no se tenham reivindicado destes textos, a aproximao  interessante.
120 V. LAGARDRE, 1978, 1979, 1983. Outros trabalhos esto anunciados.
121 A condenao que atinge as obras de al-Ghazl, queimadas por ordem dos almorvidas, confere uma
    sombra de rancor em relao ao seu soberano (V. LAGARDRE, 1983).
430                                                          frica do sculo VII ao XI



religioso. A riqueza  incontestvel  do aparelho de Estado almorvida no
mais lhe permitiria suportar o assalto, chamejante e certamente bem organizado
em suas bases montanhosas, dos almadas.
    A histria foi, por muito tempo, implacvel para os almorvidas, acusados de
todos os erros possveis e suspeitos de intervirem como "brbaros" em um mundo
hispnico onde se estabeleciam compromissos com base em capitulaes entre
muulmanos e cristos. Eles se chocaram com muitos interesses para que fosse
possvel facilmente perdoar a sua irrupo; introduziram personagens novos em
demasia, dentre os quais os negros, a ponto de no permitir suscitar desconfiana
e hostilidade. Seria muito interessante, nos anos vindouros, observar o processo
j iniciado de reabilitao desta dinastia e de busca de uma apreciao mais
bem ponderada acerca do seu papel histrico. Desde logo,  apaixonante buscar
medir a marca deixada na memria coletiva pelos almorvidas. A experincia j
realizada, neste mbito, por um jovem pesquisador mauritano, mostra quo inte-
ressantes seriam tais investigaes caso fossem sistematicamente conduzidas122.




122 Consultar A. OULD ELBAH, 1982.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                            431



                                       CAPTULO 14


                    Comrcio e rotas do trfico
                      na frica Ocidental
                                              Jean Devisse




    Aps vinte anos, a pesquisa consideravelmente modificou as bases informa-
tivas das quais dispomos para o estudo deste assunto. Trata-se, inicialmente, de
numerosas descobertas devidas  arqueologia, particularmente ao Sul do Saara,
e dos relevantes progressos de uma numismtica totalmente renovada pelas pes-
quisas laboratoriais, especialmente para a nossa poca e no tocante s moedas
muulmanas em questo. Igualmente referimo-nos  releitura crtica das fontes
escritas ou  aplicao dos mtodos da histria econmica a estes perodos remo-
tos. Quase invariavelmente, os recentes trabalhos contribuem, a um s tempo,
para fortemente questionar os supostos resultados consumados e assimilados h
dois decnios, para profundamente modificar o prprio esprito da pesquisa e
abrir novas e muito amplas perspectivas rumo a novas investigaes.
    A priori, convm tomar duas precaues. A primeira, de ordem metodolgica:
o simples enunciado de descobertas arqueolgicas no , em absoluto, suficiente
para associar algumas sries de ndices atualizados. As exigncias da histria eco-
nmica, com os seus mtodos estatsticos ou ao menos seriais, os seus esforos
de necessria generalizao e a sua necessidade de raciocinar mediante amplas
perspectivas, sobrepem-se imediata e consequentemente s micro-anlises e
certezas parciais.
    Segunda precauo preliminar, sem a qual muitos dos elementos do racioc-
nio a seguir tornar-se-iam obscuros: cabe levar em conta algumas elementares
432                                                                                 frica do sculo VII ao XI



preocupaes terminolgicas. A remota existncia de uma economia, baseada
em trocas locais estabelecidas atravs da permuta de objetos consumveis ou
produtos de fabricao local,  na frica, como em outros lugares, incontestvel,
de todo modo e inequivocamente, em nossa poca. Ela no diz respeito, direta-
mente, ao tema aqui abordado. Uma economia de trocas remotas, mobilizando
comerciantes, est fundada na existncia de "mercados de oferta"  ou de con-
sumo  de determinados produtos, raros e caros, os quais somente podem vir
do exterior: sal, cola, ouro, trigo, utenslios, cobre podem ser exemplos de tais
produtos; em torno destes e outros so tramados os fios de um comrcio de tro-
cas, adquirindo propores transaarianas, somente na justa medida da existncia
de uma insubstituvel complementaridade, entre as demandas do Norte e do
Sul; conviria jamais esquecer esta exigncia. Pode-se criar, a partir de circuitos
existentes, necessidades novas para novos produtos, junto a longnquos parceiros;
no se cria trocas perigosas a distncias muito relevantes sem a peremptria
existncia de necessidades imperiosas.
    Sobretudo e absolutamente, compreender-se-ia algo do subsequente estudo,
versado sobre os desenvolvimentos do comrcio transaariano do ouro, caso no
fossem consideradas duas noes essenciais: aquela referente s demandas e
sua consorte, tangente s ofertas de moeda1. A demanda por smbolos de troca
surge to logo exista o desejo por um mediato, a preservar temporariamente a
liberdade da parte que recm trocasse o produto da sua venda, por um smbolo,
no necessariamente correspondente ao produto oferecido pelo comprador. Em
toda a frica, a arqueologia e os textos tm suficientemente demonstrado, em
respeito ao perodo do qual nos aqui nos ocupamos, a existncia de tais sm-
bolos (cruzetas de cobre, objetos de ferro, tecidos), este fato consumado inibe a
inaugurao de qualquer debate; a frica conhece a necessidade dos smbolos
monetrios. Ela igualmente est consciente do valor do ouro e sabe constituir
reservas em ourivesaria, verdadeiras poupanas para os momentos adversos.
    Assim sendo, o comrcio transaariano no  uma evidncia intemporal. Ele
apresenta, sob a sua forma de travessias anuais em busca do ouro do Sul, sobre
dromedrios conduzidos em caravanas, um progresso que  necessrio reco-


1     Acerca da noo de demanda e oferta de moeda, referir-se a C. CIPOLLA, 1961; G. P. HENNEQUIN,
      1972, 1974. As demandas podem ser apreciadas com o auxlio de fontes de todo tipo que as descrevem,
      dos achados monetrios e dos vestgios em ouro ou prata, descobertos pelos arquelogos. As ofertas esto
      diretamente ligadas aos testemunhos, de todo tipo, concernentes a moedagens passadas; atualmente,
      elas so estudadas atravs de um novo mtodo derivado da antiga numismtica e pela recm inaugurada
      mega-numismtica, baseada nas sries estatsticas; os resultados das pesquisas foram profundamente
      alterados, h alguns anos, graas a trabalhos em laboratrio.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                     433



nhecer e estudar. Ele igualmente conhece importantes transformaes, as quais
convm o melhor possvel acompanhar.


    O Saara, espao limtrofe cujas extenses
    ampliaramse desde o perodo Neoltico
    As possibilidades de travessia do deserto
    O perodo, compreendido entre os sculos VII e XI,  de suma importncia
em respeito s relaes transaarianas: ele v surgirem, variveis em seus traos
atravs do tempo, os eixos de interligao regular entre as economias circun-
dantes do Mediterrneo, particularmente demandantes por ouro, e aquelas
do Sahel saariano meridional e das savanas que o ligam  floresta, quanto
a si, consumidoras do sal que elas pouco produzem. Entretanto, este debate
permaneceu aberto por longo tempo, acerca da eventual antiguidade destas
travessias.
    A unidade cultural entre o Saara dos caadores e os seus limites meridio-
nais, foi, em se tratando de perodos muito antigos, ainda muito recentemente
demonstrada de forma magistral2, porm esta unidade concerne, justamente,
s zonas do Nilo, do Saara Central, do Hoggar ao Tibesti, e do Atlas saariano;
deixando completamente fora do debate todo o atual Sudoeste da Arglia, a
Mauritnia e o Mali3. Acerca destas ltimas regies, H. Hugot mostra perfei-
tamente que, antes do terceiro milnio da era crist, quando o agravamento da
desertificao arruinou os esforos anteriores, o Saara viveu uma neolitizao
ativa: os vestgios de cermica, descobertos em quantidade, constituem um
testemunho deste processo4. O Saara circunscreve-se  vida fcil de relao,
quando as isoietas vitais paulatinamente distanciam-se em direo ao Norte
e ao Sul.
    Ao ler o mapa atual das isoietas (Figura 14.1), percebe-se a amplitude da
zona de pastagens, absolutamente insuficientes ou muito medocres, que separa
em aproximadamente 1000 quilmetros, as zonas de melhor capim do Norte
e do Sul. Esta situao no  provavelmente to diferente, em linhas gerais, do



2    J. LECLANT e P. HUARD, 1980; sobretudo conferir as concluses, p. 517-528.
3    Ibid., mapa p. 80.
4    H. J. HUGOT, 1979, sobretudo p. 213 e seguintes, bem como p. 673 e subsequentes; J. P. ROSET, 1983;
     R. KUPER (org.), 1978; Colquio de Nouakchott, 1976; C. TOUPET, 1977.
434                                                                                frica do sculo VII ao XI



que era h 1500 ou 1600 anos5, embora inumerveis pejoraes locais tenham,
aqui ou acol, agravado a situao6 e crises muito recentes tenham reacomodado
os parmetros da questo tangente aos progressos da desertificao no Sahel
Meridional do Saara.
   Salvo em alguns raros pontos nos quais se aproximam as isoietas de 50
milmetros, norte e sul, a travessia do Saara exige que se possa encontrar poos
seguros e osis ou viajar com animais pouco exigentes em gua7, transportando
uma parte relevante da gua necessria  sobrevivncia dos homens8. Esta tra-
vessia  perigosa e no se realiza seno mediante fortes razes.
   Esta constatao, relativamente ao qual todos os pesquisadores atualmente
concordam, torna um tanto acadmicos os antigos debates sobre as grandes
travessias do espao saariano nos tempos mais remotos9. Ainda que um dia se
confirme a sua existncia, o distanciamento inexorvel entre as duas margens
do deserto10 as teria tornado difceis ou impossveis, em trajeto contnuo, no
que diz respeito ao que se convencionou denominar Antiguidade11. Entre os
sculos IV e VII da era crist, populaes estabelecidas no Saara em condies
e datas mal conhecidas, provavelmente de lngua berbere, desempenhariam um
papel importante nas relaes de travessia12. O papel econmico destes grupos
saarianos, antes do sculo VIII, -nos muito mal conhecido. Isto no constitui
uma razo para negar a existncia de relaes segmentrias, por seu intermdio,

5     A literatura sobre a evoluo climtica do Saara alcanou atualmente bom nvel de sntese; consultar,
      por exemplo, acerca das consequncias humanas: R. KUPER (org.), 1978; H. J. HUGOT, 1979; J.
      LECLANT e P. HUARD, 1980; assim como, sobre as transformaes das condies de vida, cati-
      vantes pginas em T. MONOD (1958) relativas a Madjbat al-Kubr. Igualmente consultar-se- S.
      E. NICHOLSON, 1979, pp. 31-50; resumo de S. E. NICHOLSON, 1976, uma importante tese. De
      modo geral, os progressos da pesquisa sobre a histria da evoluo ambiental na frica Ocidental so
      regularmente publicados no Bulletin de l'ASEQUA (Dakar).
6     J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores (1983) contm um estudo preciso da evoluo
      histrica do lenol fretico em Awdghust, assim como acerca das causas do seu esgotamento.
7     No tocante ao dromedrio e a sua posio histrica: R. MAUNY, 1961, p. 287 e seguintes; C. de LES
      PINAY, 1981.
8     T. MONOD (1973a, p. 31) mostra perfeitamente que o Saara  o mais difcil de todos os desertos, em
      razo de 60% de o seu territrio ser afetado pela aridez, dos quais 15% totalmente varridos de qualquer
      vegetao.
9     Por exemplo, O. du PUYGAUDEAU, 1966.
10    Sobre as consequncias, ao sul, deste distanciamento, conferir os estudos muito sugestivos de S. DAVEAU
      e C. TOUPET (1963) e de C. TOUPET (1977). Eles oferecem ilustraes que correspondem ao per-
      odo aqui estudado.
11 Os mais recentes trabalhos concluem pela negativa, em matria de relaes comerciais transaarianas
   regulares aps o final do Neoltico; consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 20;
   J. DESANGES, 1976, pp. 213, 374; G. CAMPS, 1980, p. 65 e subsequentes.
12    Referir-se a H. T. NORRIS, 1972; T. LEWICKI, 1978; G. CAMPS, 1980, assim como ao captulo 11, acima.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        435




Figura 14.1    A zona desrtica a ser atravessada: mapa atual das isoietas. [Fonte: Hugot, 1979, e Godinho,
1956.]
436                                                                            frica do sculo VII ao XI



entre a frica Setentrional e pontos progressivamente mais distantes no interior
do deserto13 ou mesmo em direo ao Sul e  zona saheliana. As confederaes
"berberes" dos sculos V e VI14 tiveram, inaugurais, a ocasio de tentar a tra-
vessia, graas  rpida difuso do dromedrio15, desde h alguns sculos. Com
efeito, somente este animal poderia permitir longas expedies, de um a dois mil
quilmetros, entre as duas margens do Saara. Sequer as carroas, em cuja efici-
ncia econmica no acreditamos muito16, nem os cavalos, ento recentemente
introduzidos no Saara17, tampouco os asnos velhos e moderados, habituais nessas
regies, e nem os lentos bois de carga, cuja existncia atestam as marcas rupes-
tres18, nenhum dentre esses corresponde s exigncias de um difcil comrcio
ponderado a longa distncia; o que caracterizaria as caravanas, ao menos a
partir do sculo X, seria o nmero de carregadores para as importantes cargas
destinadas  troca pelo principal produto procurado no Sul do Saara: o ouro.
    Resta saber quais os itinerrios capazes de limitarem os riscos. O cuidado,
conferido pelos autores rabes dos sculos X, XI, XII, ao descrever em rol os
itinerrios do trfico transaariano, indica perfeitamente que toda improvisao
poderia ser fatal. Existem zonas de passagem privilegiadas que as condies fsi-
cas aconselham e o hbito viria a consagrar. Por vezes, menciona-se  Al-Bakr
a ele alude no sculo XI, embora sem atribuir real importncia19  um itinerrio
no litoral; a pesquisa atual revela as suas dificuldades, conseguintemente os seus
perigos: entre os graus 26 e 24 de latitude, a costa, completamente inspita, est
completamente desprovida de qualquer trao humano, inclusive no tocante 
poca neoltica20.




13    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, pp. 514-515.
14    UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, p. 508; G. CAMPS, 1980. Igualmente questionou-se acerca
      da eventual presena de berberfonos de religio judia nestas regies.
15 Uma recente atualizao (C. de LESPINAY, 1981; H. J. HUGOT, 1979, p. 145) faz observar que no
   se encontra nenhum vestgio de ossamentos de dromedrios nos abrigos neolticos, convenientemente
   datados, do Saara, assim como so tardias as suas representaes atravs de pinturas ou esculturas.
16 G. CAMPS, 1980, p. 65; H. J. HUGOT, 1979, p. 566 e seguintes.
17 H. J. HUGOT, 1979, p. 111 e subsequentes.
18 H. J. HUGO, 1979, pp. 675, 574-575; Hugot acredita na importncia histrica das carroas puxadas
   por bois; porm elas so inadequadas para um real comrcio transaariano, aparentemente para ns, no
   entanto  Hugot mostra perfeitamente p. 573  elas podem ter desempenhado um papel no transporte,
   em menores distncias, de materiais como a madeira, a argila, o junco, particularmente nas savanas
   meridionais do Sahel.
19    J. M. CUOQ, 1975, p. 95.
20 N. PETITMAIRE, 1978, p. 327; a completar com J. C. ROSSO e N. PETITMAIRE, 1978
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                          437



    Mais a Leste, no atual territrio da Mauritnia, a aproximao das isoietas de
50 mm, norte e sul, cria uma zona relativamente propicia s relaes; ali instalar-
-se-ia Azuk. Ainda mais a Leste, existem ao Norte o vale do Saura, o Gurra
e o Twt, os quais logo atraram a ateno dos caravaneiros21; a excepcional
importncia deste eixo o tornaria, a partir do sculo X, um dos mais frequenta-
dos pontos de passagem das caravanas. Mais a Leste, far-se-ia necessrio ir at
o Mzb, a Wargla e rumar em direo ao Sul, at o Adrr dos Ifoghas e o vale
do Tilemsi22, para encontrar um eixo to cmodo quanto o anterior; entretanto,
Wargla somente aparece na histria no sculo VIII23; talvez seja ela ento uma
etapa, na rota que vai do Thert rumo a Gao24; proximamente a ela, foi criada
Isedraten (Sadrta), a cidade-refgio para os ibaditas, expulsos do Thert em
razo do triunfo dos fatmidas, no incio do sculo X; Isedraten no viveu por
muito tempo em ambiente difcil25. O Mzb, onde as cidades desenvolvem-se no
sculo XI26, assim como Wargla, prspera aps o sculo X, constituem um polo
de desenvolvimento das relaes transaarianas, comparveis ao Twt.
    No ltimo quarto do sculo VIII, considerava-se, em Thert, que "as rotas a
conduzirem ao Sudo se abrem aos negcios e ao trfico"27. Pode-se, portanto
datar, da segunda metade do sculo VIII, o primeiro impulso em direo s
relaes com o BildalSdn; entretanto, estas relaes somente puderam ser
estabelecidas e comprovadas de modo fidedigno no sculo X. Se as populaes
de lngua berbere foram as primeiras a testarem os trajetos transaarianos, fez-se
necessrio, para abrir estes ltimos ao comrcio regular, incitaes econmicas e
uma vontade humana, das quais, em Tahert, no se entreveem seno os prdro-
mos; as "condies naturais" no bastam para criar os itinerrios; necessidades
econmicas no imprescindveis.
    Mais a Leste, a existncia de antigas relaes  tanto mais evidente quanto se
alcana para as margens do Nilo. Contudo, os trabalhos atualmente publicados
no permitem traar um percurso muito seguro. O papel dos garamantes per-
manece objeto de controvrsias28; atualmente supe-se terem existido existiram

21   Referir-se a J. L. ECHALLIER (1970), que data do sculo X as mais antigas instalaes no Twt e no Gurra.
22   J. P. BLANCK (1968) mostra que o vale do Tilemsi ainda era drenada, provavelmente, 5.500 anos antes
     da era crist, sendo-o, certamente, h 10.000 anos.
23   T. LEWICKI, 1976.
24   Ibid., p. 12.
25   A cidade foi abandonada ao longo do sculo XI.
26   H. DIDILLON, J. M. DIDILLON, C. DONNADIEU e P. DONNADIEU, 1977, p. 32; A. RAVE
     REAU, 1981.
27   T. LEWICKI, 1962.
28   Consultar R. C. C. LAW, 1967b; J. DESANGES, 1962, 1976; G. CAMPS, 1980.
438                                                                               frica do sculo VII ao XI



trocas entre Fezzm e Lago Chade; igualmente h indcios de produo salina,
ao Sul, no Kawr29; no entanto, nada todavia permite resumir ou esboar um
esquema de eventuais trocas com os povos que vivem ao Sul do Lago Chade30.
Talvez um eixo, interligando o Chade  Tripolitnia, tenha servido  exportao
de escravos, a partir de uma data cuja preciso  impossvel determinar; eis o
que a leitura de al-Ya'kb sugere-nos pensar, ao descrever a situao em mea-
dos do sculo IX31.
    Atingindo as proximidades do Nilo, percebe-se que os laos foram h muito
mais tempo estabelecidos, s margens do rio e na via de um eixo paralelo ao
curso d'gua, a Oeste, ao longo do conjunto de osis; entre estes ltimos e o rio,
ligaes transversais igualmente existem32; assim como pelas caravanas esto
asseguradas as comunicaes com o Mar Vermelho, ao menos a partir da poca
helnica33. Nada muda desde os tempos antigos do Egito faranico at a poca
que estudamos, excetuando-se talvez um parmetro: as relaes com a Nbia.
Estas ltimas foram congeladas atravs de um pacto  bakt  entre os mulu-
manos, senhores do Egito e a dinastia dos Makurra. Este pacto, conveniente
para ambas as partes34, segundo o qual seriam anualmente enviados ao Norte
diversas centenas de escravos negros, seria executado relativa e regularmente, at
o tempo de Mamlk. O obstculo nubiano provavelmente transtorna, para os
muulmanos do Egito, o acesso direto  bacia chadiana, passando pelo DrFr;
assim invariavelmente seria at o sculo XIV, revestindo este fato de grande
interesse econmico. Este estado de coisas jamais impediu, aos senhores mul-
umanos do Egito, a sua chegada s reservas de ouro do Wd al-`Allk ou da
Nbia, porm as suas relaes com o Bild alSdn tornam-se, em razo das
circunstncia, muito complicadas. O nico itinerrio livre passa por uma velha
rota, bem conhecido na Antiguidade em seu primeiro trecho, do Nilo ao osis
de Swa; nos sculos V e VI, inteligentes monges marcaram este itinerrio,
transplantando um comrcio de relquias do Santo Menas, cujo monastrio est

29    D. LANGE, 1978, pp. 497-499.
30    J. P. LEBEUF, A. M. D. LEBEUF, F. TREINENCLAUSTRE e J. COURTIN, 1980; J. P. LEBEUF,
      1981. Neste ltimo trabalho de sntese, o autor aborda a penetrao do sul, no sculo IX, de caadores
      lanceiros, vindos do Norte do Lago Chade.
31    J. M. CUOQ, 1975, p. 49. Conferir D. LANGE e S. BERTHOUD (1977, pp. 34-35) cujas hipteses
      aparentem ser totalmente razoveis.
32 Acerca do sistema de rotas, consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, captulo 20.
33    Sobre o desenvolvimento destas relaes com o Mar Vermelho na poca fatmida, referir-se a J. C.
      GARCIN, 1976, p. 71 e subsequentes.
34    No tocante ao bakt, consultar L. TOROK, 1978. Sobre o perodo fatmida, conferir I. B. BESHIR, 1975.
      Igualmente, acima consultar o captulo 8.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       439



situado prximo a Alexandria35. Diversos estudos permitem admitir que a rota
passa pelo osis de Kufra36. Em seguida, atravessava-se provavelmente o Kawr,
de Leste a Oeste, passando por al-kasba (Gezabi)37 e alcanando Maranda
(Marandet) e Gao.
    Relativamente a esta rota, al-Ya'kb fala vagamente, utilizando todavia o
tempo presente, no sculo IX38; Ibn Hawkal a considera abandonada, um sculo
mais tarde, em razo dos seus perigos39. Este ltimo marca uma ruptura impor-
tante atravs das suas descries. Quando se traa (Figura 14.2) um grfico do
conjunto dos itinerrios por ele descritos, constata-se que ele atribui decadncia,
de modo impressionante, ao itinerrio "egpcio"; contudo, igualmente observa-se
a sua "ignorncia" acerca das relaes mantidas entre as regies onde vivem os
ibaditas e o Sudo40, concentrando a sua ateno somente  rota "fatmida", de
Sidjilmsa a Gana; ele ainda diz, explicitamente, ser esta a rota principal, a mais
frequentada "em seu tempo"41. To logo se ultrapassa Gana, ao Sul,  flagrante a
inexatido das informaes fornecidas: localizaes fantasiosas, distncias com-
pletamente imprecisas; inclusive, no mapa anexado ao seu texto, Ibn hawkl se
resguarda atento, ao colocar os nomes por ele citados (Sma, Kgha, Ghiyr,
Kuzam), os quais retomariam os seus sucessores; ele se contenta em mencionar
que se trata, nesta regio, dos "cantes do territrio dos negros42".
    Portanto, estamos prevenidos: todo o referente  descrio dos itinerrios
reveste-se de um carter poltico e depende da escolha do autor.  especialmente
flagrante, em se tratando da velha rota do Egito, que uma fonte iraniana, o
Huddal`Alm, lembre, em 982-983, serem necessrios oitenta dias para efetuar
este trajeto, ao longo do qual no se encontra seno um nico lugar onde existam
gua e forragem, via empregada pelos comerciantes egpcios para levarem "sal,
vidro, chumbo" ao Bild alSdm43.
    O ostracismo lanado por Ibn Hawkal sobre a rota egpcia, provavelmente,
no deriva seno de causas ideolgicas e polticas; ao que tudo indica, ele cor-

35   J. DEVISSE, 1979a, p. 38 e seguintes.
36   T. LEWICKI, 1965c.
37   D. LANGE e S. BERTHOUD, 1977, p. 33. Acerca deste itinerrio, acima consultar o captulo 11.
38   J. M. CUOQ, 1975, p. 49.
39   Ibn HAWKAL, 1964, pp. 58, 153.
40 Ibid., 1964, p. 68. Ibaditas e nukkaritas so por ele tratados como "gente mpia e hipcrita" e "seces-
   sionistas".
41   Ibid., p. 58
42   Ibid., p. 61.
43   J. M. CUOQ, 1975, p. 69.
440                                                                              frica do sculo VII ao XI



responde s profundas mudanas econmicas ocorridas entre os sculos IX e X:
nem al-Bakr e tampouco al-Idrs, estes dois grandes descritores de itinerrios
transaarianos no mais mencionariam o caminho do Egito; algo certamente
ocorreu, entre os sculos IX e X, levando ao seu abandono.
   Em verdade, o essencial ocorreria nos sculos IX, X, XI, entre Tripolitnia,
Chade e Atlntico, cabendo ao outro espao, em torno do Nilo, um destino
muito diferente.


      A vida na zona saheliana tal qual atualmente
      descoberta pela pesquisa arqueolgica44
    Por si prprias, as recentes pesquisas, dedicadas ao ferro e ao cobre45 na frica
Ocidental, colocam em xeque grande parte das ideias transmitidas para perodos
anteriores  era crist. No tocante  poca anterior s grandes travessias comer-
ciais saarianas, estes dois produtos essenciais eram, no Sul do deserto, comer-
cializveis a longa distncia sem intervenes setentrionais46. Caso consultemos
o mapa dos stios47, sobre os quais a arqueologia recm nos informa e agora
datados, podemos fazer surpreendentes constataes, quanto  importncia do
vale do mdio Nger e do territrio do Senegal, em suas recentes descobertas.
    Antes do sculo V, os stios da regio de Bandiagara-Tolloy (do V ao II
sculo antes da era crist), de Jenn-Jeno (fase I, de -200 a +50, e fase II de
+50 a +400) e de Begho, forneceram provas sobre intensidade da vida nas trs
regies consideradas.
    Para os sculos V, VI, VII da era crist, sem ser necessrio pensar nas influ-
ncias transaarianas, a vida  ativa, as escavaes provam-no tanto no tangente
ao vale do Senegal48, quanto em referncia  metade Sul deste pas; ela , igual
e notavelmente, efervescente do Niani a Tondidaru, ao longo do vale do Nger,
at as proximidades do atual Niamey. Marandet, Ife e stios da Costa do Marfim,

44    Consultar J. DEVISSE (1982), que oferece a bibliografia recente e um mapa dos stios, bem como S. K.
      MCINTOSH e R. J. MCLNTOSH (1981).
45    Alm de S. BERNUS e P. GOULETQUER (1974, 1976), referir-se a D. CALVOCORESSI e N.
      DAVID (1979), e D. GREBENART (1983).
46    Conferir especialmente R. J. MCINTOSH e S. K. MCINTOSH, 1981; S. K. MCLNTOSH e R. J.
      MCINTOSH, 1980b. Eu retomo a maioria das suas concluses.
47    Consultar R. J. MCINTOSH e S. K. MCINTOSH, 1981; J. DEVISSE, 1982.
48 Ainda inditas, pesquisas muito recentes, sobre a margem mauritana do rio Senegal, oferecem uma
   impressionante profuso de fatos novos. Convm acompanhar atentamente as prximas publicaes do
   Instituto Mauritano de Pesquisa Cientfica.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                             441




Figura 14.2    Itinerrios descritos por Ibn Hawkal. [Fonte: J. Devisse.]
442                                                                                   frica do sculo VII ao XI



igualmente, mostram uma vida muito ativa. A vida coletiva organizada, com
trabalho em metais, diviso do trabalho, trocas, est organizada no Sahel, antes
de qualquer indcio de um poderoso comrcio saariano. Pode-se atualmente
dizer, sem medo de futuros desmentidos cientficos, que toda a infraestrutura do
povoamento e da vida econmica j existe, nos vales do Senegal e do Nger, bem
como, indubitvel e igualmente, mais ao Sul, durante estes "sculos obscuros"49.
    Caso passarmos aos sculos VIII e IX, perceberemos que, alm do desen-
volvimento contnuo, inclusive perene nos sculos X e XI, as nicas novidades
consistem no surgimento das cidades comerciais do Norte: Tegdaoust, Kumbi,
Saleh; as mesmas tendncias caracterizam os sculos X e XI com a emergncia
de Azuk, em seguida de Walata, e o novo revigoramento da vida nas regies
do Senegal e do Nger.
    A anlise detalhada dos resultados obtidos nos canteiros de escavaes, for-
talece a convico relativa ao ressurgimento de importantes culturas sahelia-
nas, atravs da pesquisa, culturas estas com as quais entrariam em contato os
comerciantes vindos do Norte. Em respeito aos perodos anteriores ao sculo
VII, Tondidarou50, Jenn-Jeno51, Bandiagara52 forneceram uma ampla coleta de
informaes; as observaes de S. K. McIntosh e R. J. McIntosh so particu-
larmente importantes, quando se trata do comrcio de cobre e ferro no delta
interior do Nger53. No que tange s diversas regies do Senegal, as informaes
so menos detalhadas54; contudo, a prpria importncia das zonas prospectada
deu lugar a avaliaes discutveis, embora no negligenciveis, sobre a densidade
da populao entre o rio e a Gmbia, durante o primeiro milnio55. O stio de


49    Bem entendido, este salto para trs em nossos conhecimentos no saberia convencer-nos que, entre o V
      e o VII, ns nos encontramos nas origens da vida organizada, das trocas e do desenvolvimento cultural
      na frica saheliana. As recentes descobertas, relativas ao ferro e ao cobre, bastariam, em si e unicamente,
      para salvaguardar contra este erro de apreciao. Estas descobertas desafiam as orientaes dadas por J.
      ANQUANDAH (1976)  sua descrio da evoluo econmica do Sahel.
50    J. F. SALIEGE, Y. PERSON, I. BARRY e P. FONTES, 1980. Datao com carbono 14, retificadas,
      muito precisas: 1330 BP  40, 1245 BP  40, ou seja, entre +620 e +655.
51    S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b: o stio, segundo estes autores, possua vida urbana desde
      o sculo II; aproximadamente em 900-1000 da era crist, eles estimam a rea urbana em 40 hectares.
52    R. M. A. BEDAUX, 1972.
53    Ocorreram, particularmente aps os perodos II e III (50 a 400 e 400 a 900), algumas raras importaes
      de cobre que, evidentemente, no podem provir do comrcio transaariano; S. K. MCINTOSH e R. J.
      MCINTOSH, 1980b, p. 76. Os autores sustentam o mesmo raciocnio no tocante ao ferro, no produ-
      zido localmente e provavelmente trocado com regies produtoras situadas rio acima.
54    Conferir G. THILMANS, C. DESCAMPS e B. KHAYAT, 1980.
55    V. MARTIN e C. BECKER, 1974b. Reportar-se ao Atlas national du Senegal (1977, folha 8, p. 51)
      para os stios pr-histricos da Senegmbia.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                   443



Sintiu-Bara, ainda no totalmente publicado, forneceu um material em bronze
de grande interesse56. A descoberta, nos stios prximos ao rio, de numerosos
discos para fabricao de cordas, para este perodo,  ainda demasiado recente
para ser interpretada com segurana; ela todavia implica, tambm ela, um bom
desenvolvimento das tcnicas57. Tegdaoust forneceu, para os sculos VIII e IX,
assim como e at mesmo, para tempos mais remotos, os abundantes e coerentes
vestgios de uma metalurgia de ligas em cobre, da qual um dos primeiros mate-
riais provavelmente provinha de Akdjudjt58; provas arqueolgicas da utilizao
de formas de cera descartveis l foram reencontradas para os mesmos perodos
remotos59; esta metalurgia local, aparentemente capaz de garantir a continuidade
daquela anterior, sobre a qual N. Lambert dedicou os seus estudos60, certamente
desempenhou, muito cedo, um papel econmico inter-regional.
    Finalmente, ao reunirmos as ainda muito raras informaes, trazidas em
matria tangente ao habitat,  criao,  agricultura e  alimentao, notaremos,
para esta poca anterior aos sculos VIII e IX, alguns recentes e importantes
resultados, sempre tomados por emprstimo das pesquisas arqueolgicas. Em
Jenn-Jeno, duas espcies de bovinos e peixes so consumidas desde o primeiro
perodo; o arroz (Oryza glaberrima) talvez j fosse igualmente consumido61; ele
est comprovado aps os anos ps +400 e anteriores a +900 (fase III), assim
como o paino62. Entretanto, a expectativa de vida todavia aparenta ser muito
curta, considerando-se a idade dos esqueletos descobertos; seis certamente no
viveram mais que vinte e cinco anos, um viveu mais que trinta anos, trs, entre
trinta e trinta e cinco anos, e um entre quarenta e cinco e cinquenta e cinco
anos63. Em Tegdaoust, desde a origem  no sculo VIII ou antes  o boi  abun-
dante; as aves  a galinha-da-guin  e os animais domsticos ou de criao
constituem importantes elementos na alimentao64. Em Niani, a existncia


56   A. RAVISE e G. THILMANS, 1978, 1983.
57   G. THILMANS (1979) informa uma lista das descobertas realizadas em quarenta e dois stios, dentre
     os quais dez forneceram mais de dez exemplares. Um tear foi, aparentemente, igualmente descoberto
     em Tegdaoust (D. ROBERT, 1980).
58   Consultar C. VANACKER, 1979, p. 136 e seguintes; J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e cola-
     boradores, 1983; J. POLET, 1985; D. ROBERTCHALEIX, no prelo; B. SAISON, no prelo.
59   D. ROBERTCHALEIX, no prelo.
60   Conferir N. LAMBERT, 1971.
61   S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, p. 188.
62 Ibid., p. 190.
63 Ibid., p. 177 e seguintes.
64 J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983.
444                                                                                frica do sculo VII ao XI



do sorgo est comprovada nos sculos VIII e IX, bem como, provavelmente h
lentilha, nos sculos IX e X65.
   Portanto e atualmente, tudo permite mostrar que as sociedades, com as quais
os homens do Norte estabeleceriam contato, atravs do Saara, eram coerentes,
bem organizadas, providas de cidades, capazes de realizar trocas, por vezes, lon-
gnquas; seria necessrio acrescentar a tudo o que foi dito, segundo esta ltima
perspectiva, a provvel existncia, desde ento, de laos para a troca do sal66; 
necessrio aqui lembrar o testemunho de Hudd al`Alm, acima citado, assim
como aquele de al-Muhallab, que mostra terem sido as suas reservas de sal, no
sculo X, a principal riqueza dos prncipes de Gao67.


      A Situao ao Norte do Saara
    Para ns bastar reter, dentre os elementos da situao ao Norte do Saara,
aqueles eventualmente importantes no que tange  histria econmica68 e quela
referente s relaes transaarianas.
    No atual Marrocos, cinco zonas nos interessam. Uma delas, nas plancies
atlnticas e em boa parte do Rf, encontra-se nas mos de povos que perma-
neceriam independentes durante longo tempo; os mais representativos, os
barghawta resistem a qualquer dominao, ao menos at a poca almorvida;
eles no deixam de desempenhar certo papel, ainda atualmente mal conhecido,
em virtude das suas relaes econmicas, em particular, com a Espanha muul-
mana; aparentemente, a suas relaes com o Sahel permaneceram nulas. Os
idrsidas, divididos em numerosos ramos reinantes, dominam o Norte, em torno
da sua capital Fez, por eles construda, e nas cercanias de Meknas, mas, igual-
mente o Atlas-Mdio. Considerando os trabalhos publicados at o presente, eles
no estabeleceram relaes com o mundo negro69. Ao Norte, um conjunto de


65    W. FILIPOWIAK, 1979, pp. 107 e 113.
66    J. DEVISSE, 1970; entre a costa atlntica e o Nger; o Tgant mauritano e Awdghust constituem
      importantes correias de transmisso;  provavelmente necessrio pensar em trocas comparveis entre o
      Kawr e o Chade (D. LANGE e S. BERTHOUD, 1977), entre o Ar e as regies vizinhas etc. Trata-se
      igualmente da opinio de S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH (1980b, p. 446), os quais acreditam,
      sem estudar o dossi acima, que o comrcio do sal era muito vivo, no sul do Saara, desde o sculo V.
67 J. M. CUOQ, 1975, p. 78.
68    Acerca das relaes econmicas entre as regies do Norte do continente, referir-se a C. VANACKER, 1973.
69    D. EUSTACHE, 1970-1971. No existe, segundo o catlogo minuciosamente elaborado por este autor,
      nem sequer um nico trao de cunhagem em ouro para os idrsidas. O argumento  forte, porm no
      decisivo, em se tratando das relaes com o Sul.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        445



portos, do Ceuta a Honayn, garante uma ligao constante por cabotagem com
a vizinha Espanha; estes portos dependem, relativa, direta e permanentemente,
da economia andaluza70. O Ss, entre o Atlas e o Anti-Atlas, desfrutou, desde
muito cedo junto aos autores rabes, de uma reputao de terra de abundn-
cia71; l surge um primeiro destino das rotas em direo ao Sul: Tmdt72; elas
se multiplicam, de ambos os lados do Atlas e no vale do Dar'a, at o sculo X.
Finalmente, do lado oposto saariano do Atlas-Mdio, encontra-se Sidjilmsa,
de cuja fundao al-Bahr reporta diversas e contraditrias verses, comeando a
desempenhar, sem dvida alguma na segunda metade do sculo VIII, um papel
de porto de caravanas para as relaes com o Sul73.
    Ao Sul  todos os autores o confirmam  abre-se o domnio dos grandes
cameleiros, mestres do deserto, os quais no conhecem nem o po e tampouco
a agricultura, vivendo em profunda simbiose com o camelo. Dentre eles, no
sculo X, Ibn-lau-al j cita os ban massfa, excelentes conhecedores das rotas,
cobertos pelo vu, os quais atravessam o deserto no inverno74; pouco antes, Ibn
al-Fakh mencionara os lamta, j fabricantes de clebres escudos de defesa, "por
eles submersos durante 1 ano em leite azedo. O sabre ricocheteia sobre estes
escudos"75; reconheceu-se as "adargas", de cujas longamente falou R. Mauny76. A
islamizao destes grupos foi estudada por T. Lewicki77; sem sombra de dvidas,
resta muito a ser descoberto sobre este complexo tema.
    O polo ifrikiyano apresenta maior importncia, aps a pacificao dos berbe-
res e, mais particularmente,  poca aghlbida. Para ns, o mais relevante sobre
este assunto, indubitavelmente, em se tratando das relaes transaarianas,  a
existncia de uma cunhagem de dinares78.




70   Oferecendo crdito a Ibn HAWKAL, no sculo X, a influncia espanhola estende-se at Sebou, na costa
     atlntica; consultar Ibn hawkal, 1964, p. 77.
71   Ibn HAWKAL, 1964, p. 89.
72   B. ROSENBERGER, 1970b, p. 106; a cidade existe no sculo X: al-Ya'kb faz meno.
73   Al-YA'KB (conferir J. M. CUOQ, 1975, p. 48) informa que cinquenta dias aproximadamente separam
     esta cidade do pas dos negros. Para Ibn Hawkal em contrapartida, no sculo X, o comrcio de Sidjilmsa
     com o Sul est "interrompido".
74 Ibn HAWKAL, 1964, p. 100.
75   J. M. CUOQ, 1975, p. 54; o texto data de 903.
76   R. MAUNY, 1961.
77   T. LEWICKI, 1970.
78   Este ponto est insuficientemente aprofundado em J. DEVISSE, 1970, p. 140.
446                                                                                 frica do sculo VII ao XI



    Dispomos de uma pesquisa de S. Ehrenkreutz79 sobre 45 moedas aghlbidas,
todas de excelente grau de pureza80 (em mdia 98,99%); a repartio cronolgica
mostra serem as mais pobres cunhagens em ouro aquelas datadas do incio do
sculo IX, dotadas, aps 817, de muito boa qualidade; as peas com 100% de
ouro surgem entre os anos 841 e 86381. Portanto, os Aghlbidas adquiriram
ouro para a sua cunhagem. Seria este ouro proveniente, em grande parte, da
conquista da Siclia82? Teria ele, em contrrio, sido trazido no sculo IX do
BildalSdn83? Todavia h muita controvrsia entre os historiadores84. Por
um lado, ns no dispomos, para a poca aghlbida, das importantes pesqui-
sas de laboratrio realizadas por R. Messier, dedicadas aos dinares das pocas
posteriores85. Por outra parte, a documentao  minguada e de difcil interpre-
tao. T. Lewicki salientou, em diversos trabalhos consagrados aos ibaditas86,
que estes ltimos opunham uma barreira poltica e ideolgica  penetrao dos
aghlbidas em direo ao Sul; ele nunca afirmou e tampouco demonstrou que,
embora tivessem o monoplio sobre a circulao nos caminhos saarianos, eles
no haviam vendido ouro aos chefes dos kayrwan. Al-Bakr, no sculo IX,
atribui a escavao de poos, na rota interligando Tmdlt e Awdghust, a `Abd
al-Rahmn ibn Ab `Ubayda al-Fihr; este ltimo amparou-se do governo da
Ifrkiya em 74787; ele foi assassinado em 755. Uma fonte recentemente publicada
afirma que, em 135/752-753, ele pilhou Tlemcen e subjugou todo o Magreb88.
Atribui-se a este mesmo homem uma 4 expedio, nitidamente muito anterior

79    A. S. EHRENKREUTZ, 1963.
80    Ibid., p. 251; somente um contm 83% de ouro; para os outros seis entre 95 e 97% de ouro; vinte e dois
      contm 99%; em trs h 100% de concentrao do metal.
81    Ibid., 1963, p. 252.
82    Trata-se de uma hiptese de M. TAIBI, 1966, pp. 250-251
83    Ibid., p. 458; o autor observa a importncia da participao dos negros na guarda do emir; estes ltimos
      podem,  bem verdade, provir da regio chadiana e do eixo de exportao de escravos, do qual foi ques-
      to mais acima. De todo modo, a vinda de negros para a Ifrkiya  indiretamente sublinhada por um
      recente estudo do temporal da abadia de Monreale, aps a reconquista normanda do sculo XI. Negros,
      vindos da Ifrkiya, figuram em meio  mo-de-obra muulmana disponvel para a abadia; consultar M.
      BERCHER, A. COURTEAUX e J. MOUTON, 1979.
84    H. DJAIT, M. TAIBI, F. DACHRAOUI, A. BOUIB e M. A. M'RABET ([sem datao], p. 57)
      pensam que as relaes com o mundo negro permanecem na esfera das hipteses; M. TAIBI (1966, p.
      173) considera que a atividade da to viva da Ifrkiya nos sculos X e XI, da qual falam as cartas dos
      mercadores judeus estudadas por S. Goitein, implica que a mesma atividade j existia no sculo IX. O
      que postula a importao de ouro africano.
85 Consultar, a seguir, p. 415, nota 127.
86 Bibliografia, para o essencial, em J. DEVISSE, 1970, p. 124.
87    Referir-se a E. LVIPROVENAL, 1960a.
88 H. R. IDRIS, 1971, p. 124.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                              447



(em torno de 734), em direo aos pases do ouro, que lhe teria sido confiada
pelo governo da Ifrkiya89. Embora o raide tenha sido histrico, conquanto
tenha originado as escavaes dos poos em questo, o mais meridional locali-
zado mais ao Sul, no paralelo 23, todavia estaramos muito aqum, tratando-se
da organizao de uma rota em direo a Awdghust (no paralelo 17) e rumo
ao pas do ouro90. Aparenta ser curioso que um ifrikiyano tenha determinado
a explorao de uma estrada to ocidental, em total detrimento daquela, mais
evidentemente acessvel, que passava pelo Mzb. Atualmente, no  possvel
conhecer em detalhes como podem ter sido as relaes econmicas, nos sculos
VIII e IX, entre a Ifrkiya e a frica Ocidental, e sequer saber da existncia de
uma poltica coerente dos Aghlbidas neste mbito. Quando muito, pode-se
acreditar como relativamente confivel que os ibaditas, senhores das regies
compreendidas entre a Tripolitnia Meridional  Djabal Nafsa  at a atual
Arglia Ocidental, tentaram, eles prprios, desde ento, organizar uma relao
regular trans-saariana. A presena de ouro na Ifrkiya corrobora esta apreciao;
a certeza da existncia de relaes entre Thert e Gao conduz a atribuir ainda
maior crdito a esta hiptese. Assim sendo, Thert torna-se uma das principais
chaves nas primeiras relaes transaarianas regulares que conhecemos. Estas
relaes dizem respeito a Gao, absolutamente a Gana, e cabe questionar se os
comerciantes do Thert no teriam tentado fornecer a Gao o sal que os prn-
cipes deste local estocavam e revendiam. Finalmente,  necessrio lembrar que
o imame de Thert, atravs de uma aliana matrimonial com os Midraritas de
Sidjilmasa procurou obter uma eventual participao no nascente comrcio da
rota ocidental.
    Assim, no tocante aos sculos VIII e IX, aguardando que uma melhor docu-
mentao seja, eventualmente, colocada  disposio dos pesquisadores, parti-
cularmente pelas investigaes de Sidjilmsa e Thert, encontramo-nos neste
mbito, reduzidos a hipteses, quanto ao estabelecimento dos futuros grandes
portos setentrionais do comrcio transaariano: Tmdlt, Sidjilmsa, Thert,
Wargla, as cidades do Djard; e, igualmente,  primeira organizao das cara-
vanas transaarianas.
    Aqui, uma vez mais, como no caso da rota do Egito, deve-se imediatamente
observar que todos os parmetros do problema mudam com as descries de Ibn
Hawkal, que faz referncia a uma situao de meados do sculo X, assim como
com aquela de al-Bakr, que atravs de numerosos emprstimos por ele feitos

89   Ibn `ABD ALHAKAM, 1922, p. 217.
90 Conferir S. DAVEAU, 1970, pp. 33-35.
448                                                                            frica do sculo VII ao XI



junto a al-Warrk, autor do sculo X, por vezes igualmente fala da situao do
sculo X. Tudo nos conduz a constatar que este sculo  ou o perodo dos anos
entre 850 e 950  seja aquele onde se reproduziram os acontecimentos decisivos
desdobrados no comrcio transaariano regular.


      Qual comrcio, em busca de quais bens?
    Caso nos posicionemos no sculo VIII, os dois ltimos milnios recm
ampliaram, entre as duas zonas das quais foi questo logo acima, as dificuldades
geogrficas tangentes  comunicao; mas, igualmente e h alguns sculos, um
precioso meio de travessia do deserto  o dromedrio  est em ao.
    Falta todavia um elo essencial: o que se pode ir buscar do outro lado do
deserto? No tocante ao Sul, a resposta  provavelmente muito curta, as necessi-
dades de uma alimentao muito diferente, em seus ingredientes e equilbrios,
daquela do Mediterrneo so certamente melhor satisfeitas pelo Sul adjacente
que pelo Norte transaariano; sem dvida o sal, embora no abundante, est ele
em suficincia relativa, graas  multiplicidade de procedimentos e pontos de
extrao ou de fabricao. No se deve incorrer em abusos inspirados pelas fon-
tes rabes posteriores a Ibn Hawkal; estas ltimas criam, para ns, a impresso
que a frica saheliana, supostamente isenta de sal, estaria a merc dos merca-
dores vindos do Norte e da sua oferta deste produto.
    Em realidade e sem negar a imensa disparidade nos preos do sal importado
do Norte91 comparativamente queles praticados no Mediterrneo, pode -se
nuanar o raciocnio. Awll  assim assinalam Ibn Hawkal, al-Bakr e al-Idrs
 no cessou de produzir e exportar sal; para o primeiro, foi a principal mina de
sal do Saara92; o segundo insiste nos aspectos da via da regio produtora onde
se consome tartarugas marinhas93, em uma extenso costeira que igualmente
fornece mbar-cinzento94; o terceiro mostra que a mina ainda usufrui de um
importante papel regional e que a sua produo, transportada por barcos pelo
"Nilo", alcana o conjunto do "Pas dos Negros"95. Todo o raciocnio de Ibn
Hawkal e dos outros subsequentes consiste em mostrar que os comerciantes


91    J. DEVISSE, 1970, p. 111 e seguintes, com as nuances que agora introduzimos.
92    Ibn HAWKAL, 1964, p. 91; ele aparenta, na realidade, no conhecer nenhuma outra.
93    R. MAUNY, 1961, p. 260.
94    Ibid., p.155.
95    Ibid., p.407.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                                  449



vindos do Norte, antes cliente de Awll, e obrigados, a partir desta mina, a
passarem por Awdghust, notavelmente bem situada em um timo ponto de
gua entre a costa e o vale do Nger, progressivamente descobriram o meio de
encurtar tal itinerrio atravs da explorao de reservas salinas localizadas no
eixo norte-sul, em pleno Saara. Eles adquiriram, por conseguinte, os meios
para uma crescente presso sobre o mercado do sal no Sul, alm de ampliarem,
atravs dos exemplos de Gana e Awdghust, a impresso de uma necessidade
insatisfeita, quando se trata de uma presso progressivamente mais forte para o
escoamento de um produto monopolizado em sua produo e transporte. Porm,
a histria da produo e do consumo do sal na savana e na floresta permanece
a ser escrita e esta produo, provavelmente, escapa,  presso do Norte. O Sul
no tem maior necessidade de cobre, contrariamente ao que se pensava h vinte
anos, nem de ferro, produto j existente, de modo disperso mas suficiente. Em
caso de demanda, ela existe em maior grau no Norte que no Sul.
    Provavelmente, muito se exagerou, tratando-se da frica Ocidental e do nosso
perodo, a demanda por escravos. Claude Cahen observava, desde 1964, que o
interesse do comrcio de longa distncia, segundo fontes rabes dos sculos IX e
X96, era muito lucidamente estimado em funo das margens de ganho real, con-
siderando a gravidade dos riscos inerentes; ele igualmente assinalava que o comr-
cio de escravos no aparentava, em geral, apresentar-se como fonte de grandes
lucros97. Todavia, a importao, informa ainda Claude Cahen, era indispensvel
pois "o desenvolvimento econmico geral [...] exigia e permitia o emprego de uma
crescente mo-de-obra,  qual a escravatura apresentava-se como o meio mais
fcil de prover"98. Fluxo portanto certo, embora provavelmente no consistindo o
principal motor econmico, o trfico de escravos no explica o comrcio transaa-
riano. A demanda anual est, ao que tudo indica, limitada99 e melhor organizada
no quadrante nordeste, comparativamente ao consorte noroeste.
    Segundo as evidncias, o Norte no apresenta necessidades alimentcias; a
distncia e a disparidade das bases nutricionais conduzem a no conceber que
se tenha atravessado o Saara para buscar paino, noz-de-cola  incidente no
Norte somente aps o sculo XIII  ou pimenta  buscada na sia pelos mer-


96   C. CAHEN, 1977, p. 339. Fontes estudadas: Tabassur al-Tidjra (Iraque, sculo IX) e Mahsin al-Tidjra,
     do sujeito fatmida Ab l-Fadl al-Dimashk.
97   Ibid., p. 341: os altssimos preos so a exceo; em geral, os preos de venda situam-se entre 30 e 60 dinares.
98   Ibid.
99   O exemplo do bakt, entre a Nbia e o Egito, permite refletir em linhas gerais: quinhentos escravos, no
     mximo, so enviados anualmente para Assu, em troca das mercadorias das quais necessita a corte nbia.
450                                                                                frica do sculo VII ao XI



cadores rabes e cujas variantes africanas no seriam destinadas a uma modesta
comercializao seno muito posteriormente. Igualmente, nada permite pensar
em buscar, no Sul, tecidos tingidos com ndigo; nada prova, inclusive que a sua
produo tenha sido relevante antes do sculo XI100.
    Portanto e irresistivelmente, somos remetidos ao produto de cujos autores
rabes, invariavelmente, falam e ao qual todos os historiadores dedicaram aten-
o: o ouro. A bibliografia sobre esta temtica  enorme; h do melhor e do pior.
A nossa preocupao aqui, no reside em bases arqueolgicas ou etnolgicas,
mas, sobretudo, econmicas; mediante quais condies, em qual momento, com
quais finalidades a demanda pelo ouro, no Norte, teria conduzido  organizao
de intercmbios regulares com o Sahel?
    O mundo muulmano, grande consumidor de ouro desde as reformas do
final do sculo VII, postou-se, no que tange s suas periferias e em razo de
ser, ele prprio um produtor relativamente pequeno de ouro, como uma vasta
zona de demanda. O ouro vem da sia, da Nbia e da recuperao de tesouros
faranicos, muito mais provavelmente, a esta poca, que da frica Ocidental ou
do atual Zimbbue101. O ocidente muulmano, excetuando-se a j mencionada
Ifrkiya aghlbida, grava ouro antes do sculo X102; doravante, em contrrio,
ele se torna um grande consumidor de ouro monetrio. Outrossim, justamente
a partir deste momento e a correspondncia no  evidentemente fortuita, as
informaes pela primeira vez emanadas, inclusive de autores ocidentais, acerca
da produo aurfera africana, tornam-se menos msticas e geograficamente
mais precisas, ao menos relativamente.
    Convm aqui abrir um longo parntesis. Todos os tericos muulmanos da
moeda estabelecem uma diferena entre ouro e prata brutos, no-refinados, e
estes mesmos metais uma vez processados. Em Meca, s vsperas da hgira, o
ouro bruto chama-se tibr, a moeda, `ayn103. R. Brunschwig estabelece a mesma

100 Tudo o que precede  muito verossmil, tratando-se das relaes da frica do Norte e do Bild al-Sdn.
    Seria talvez necessrio matizar as coisas, desde logo, para a Tripolitnia; o fato de Ibn Hawkal falar da
    produo e da exportao de tecidos em l para Adjadbya (Ibn HAWKAL, 1964, p. 63) conduz a
    pensar na questo do possvel papel do alume do Kawr, em termos aproximados queles oportunamente
    evocados por D. LANGE e S. BERTHOUD (1977).
101 Bibliografia imensa e fastidiosa sobre estas questes. Com proficuidade e recentemente, consultar-se-:
    C. CAHEN, 1979, 1980. Deve-se aqui lembrar que R. Summers (1969) estima que a explorao do
    ouro meridional tenha comeado no sculo VI, assim como que ela j estaria desenvolvida no sculo
    VIII, alimentando uma forte exportao desde o sculo X; ningum procedeu, at o momento e a partir
    destes dados, a um estudo econmico sobre o conjunto da comercializao do ouro do Sul comparvel
    quele que, numerosos, realizamos no tocante ao ouro oeste-africano.
102 Finalmente, C. CAHEN, 1979.
103 G. P. HENNEQUIN, 1972, pp. 7-8, nota 5.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                            451



distino, em seu relativamente recente artigo104, entre tibr ou sbika e dinar. Esta
simples constatao deve conferir prudncia quando se traduz tibr por "ouro
em p". O balano das ocorrncias tibr e dhahab nas fontes traduzidas por J. M.
Cuoq105 revela-se digno de comentrio.
    Para os primeiros autores, al-Fazr e Ibn al-Fakh106, dhahab designa o ouro,
incluindo aquele "que brota como cenouras"107. A grande importncia em geral
conferida ao texto de al-Bakr, sobre este ponto, conduziu-nos a solicitar, a um
jovem pesquisador tunisiano, especialista em rabe e excelente linguista, uma
traduo tanto quanto possvel a mais precisa108. Eis a proposio: "Caso se
encontre, em qualquer uma dentre as minas de ouro do seu pas, uma poro109
de ouro, o rei dela triar110 o melhor; porm, ele dela deixar  gente os rejei-
tos de ouro nativo111. Sem isso o ouro112 puro, nas mos da gente, tornar-se-ia
demasiado abundante at perder valor. O fracionamento vai de uma kiya a um
ratl. Reporta-se existir consigo uma, "similar a uma enorme pedra"113.
    Esta traduo traz uma nova soluo para a interpretao a ser dada ao par
tibrdhahab. Em todas as obras por ele consultadas, M. Ghali encontrou o sentido
de tibr indicado logo acima: ouro nativo, no processado, no trabalhado, em lascas
ou em p, em oposio ao ouro trabalhado: dhahab114. Contrria e invariavelmente,
dhahab implica um trabalho de refino: trata-se da busca do mais puro metal, no
tocante ao ouro tanto quanto para a prata115. Assim sendo, a oposio entre um ouro

104 R. BRUNSCHWIG, 1967.
105 J. M. CUOQ, 1975.
106 Ibid., pp. 42, 54.
107 Posteriormente, no sculo XIV, al-`Umar diz que as razes do nadjl esto em tibr ( J. M. CUOQ, 1975,
    p. 273); admitindo a possibilidade de falar, um pouco adiante, da extrao do dhahab (ibidem, p. 280).
108 Trata-se de M. Nouredine Ghali, quem prepara um doutorado em histria.
109 A palavra rabe implica raridade: Ghali insiste na ideia segundo a qual se trataria de uma poro de ouro
    puro, encontrada em meio ao minrio.
110 O termo rabe astasf implica a ideia de "desnatar" de "extrair o melhor".
111 Em rabe: al-tibra dakka; al-Mundjid fi `l-lughat wa `l-adad wa `l-ulm (BEYROUTH, 1975, p. 58 c)
    fornecido por tibra: ouro no processado e no trabalhado em sua lixiviao.
112 Trata-se em rabe, desta feita, de al-dhahab, deste modo claramente distinguido da nominao precedente.
113 Este trecho  traduzido por V. MONTEIL (1968, p. 73): "Caso se descubra ouro nativo, o rei se apodera: ele
    no deixa aos seus sujeitos seno o ouro em p..."; e por J. M. CUOQ (1975, p. 101): "Caso se descubra ouro
    em pepitas nas minas do pas, o rei se lho reserva; abandonando ento aos seus sujeitos o ouro em p...".
114 R. BLACHRE, M. CHOUMI e C. DENIZEAU (1967) oferecem uma citao provavelmente
    tomada por emprstimo junto a Ibn `Abd al-Hakam: "Ele trocou com Zurra ouro nativo (tibr) contra
    ouro fino (dhahab)."
115 M. Ghali oferece-me uma citao (sem referncia de autor) tomada por emprstimo junto a al-Mundjid
    fi `l-lughat wa `l-ulum, p. 239 c, 240 a: "ele encontrou o dhahab em seu minrio; ele foi arrebatado como
    se fosse enlouquecer".
452                                                                                 frica do sculo VII ao XI



no trabalhado e o "corao do puro metal", abstrado da sua lixiviao, aparenta-
-nos totalmente adequada para a compreenso do texto de al-Bakr. Um pouco
mais alm, em seu texto, al-Bakr escreve que os naghmrata comercializam tibr116.
No existe explicao possvel para esta contradio: o tibr, deixado aos particulares,
seria comercializado por mercadores especialistas, os naghmrata (ancestrais dos
wangara), os quais agiriam fora do controle do soberano. Por conseguinte, o que
dizer ento da explicao do prprio al-Bakr117, segundo a qual o soberano regula-
menta a circulao do ouro guardando as pepitas, com o objetivo de no depreciar
o metal pelo excesso de abundncia? A incoerncia, seria ela a regra em Gana, em
matria econmica? No acreditamos absolutamente. A oposio classicamente
feita entre pepitas e p no se sustenta. A oposio diz respeito  outra coisa: o ouro
"puro", aquele que o poder se reserva por definio, destinado a ser processado, 
o dhahab; como um andaluz do sculo XI, nutrido de cultura rabe, poderia ele se
expressar de outra forma? Tibr  o ouro "natural", igualmente de excelente quali-
dade, em comercializao por outras vias, fora da rbita do poder.
    Um sculo mais tarde, al-Idrs, muito bem informado, contrariamente ao
que muito amide se escreveu, traz novos detalhes118: os mercadores do Norte
levam ouro (tibr) de Takrr119 e os wangara fornecem ouro (tibr) que  poste-
riormente processado em Wargla120; o seu texto no deixa margem a dvidas: os
wangara no podem agir sem o controle do soberano de Gana.
    Tudo leva-nos a crer que ao opor geometricamente pepitas, para a produo
de dhahab, ao ouro em p, para aquela destinada ao tibr, muito se empobreceu
o debate, ao qual confere maior abertura a distino entre ouro no tratado e
ouro monetizado. Sem sombra de dvida, o debate no poderia ser conduzido
a concluses claras seno pela classificao e traduo sistemtica de todos os
empregos das duas palavras. Ns gostaramos, entrementes, de sugerir que outras
hipteses poderiam ajudar a resolver este problema.
    Finalmente, o termo dhahab  pouco empregado quando se trata das fon-
tes relativas  frica Ocidental; presente nos sculos VIII e X, ele desaparece,
segundo al-Bakr, salvo em duas fontes do sculo XIV121. Contrariamente, a


116 J. M. CUOQ, 1975, p. 102.
117 Ibid., p. 101.
118 Conferir T. LEWICKI, 1966, um estudo muito documentado.
119 J. M. CUOQ, 1975, p. 129.
120 Ibid., p. 164.
121 Al-`Umar ( J. M. CUOQ, 1975, pp. 264-265) no , ao final das contas, muito mais claro que al-Bakr: o
    sulto, diz ele, tem em sua dependncia o pas do "refgio do ouro" (tibr), porm, caso fizesse a conquista
    de uma das cidades do ouro (dhahab) [p. 265], a produo interromper-se-ia; a oposio torna-se mais
    ntida quando se admite que dhahab refere-se perfeitamente ao ouro "do poder".
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                      453



continuidade do emprego de tibr  notvel122; talvez Ibn Khaldn123, em seguida
Ibn Hadjar al-`Askaln124, ofeream um elemento da resposta, sobretudo o
ltimo, que relembra que tibr significa ouro no tratado.
    Desde logo, ns no hesitamos, no que nos compete, a substituir o par
"p-pepita" por aquele, muito mais importante para a histria econmica, "ouro
no tratado  ouro refinado e trabalhado".
    Um passo suplementar, a partir deste ponto, talvez permita compreender o
progressivo abandono de dhahab em proveito de tibr, em se tratando do Bild
alSdn. Tibr, provvel e paulatinamente, passou a designar, qual fosse a pro-
venincia socioeconmica, o ouro da frica Ocidental, qual fosse a forma a ele
conferida (paletas, p, pepitas ou lingotes), enquanto qualidade especfica de
um ouro assaz puro, mesmo sem refino, a ser diretamente utilizado no cunhar,
sem depurao porque ele contm poucas impurezas e sem liga. Na realidade, os
trabalhos de laboratrio125 demonstraram que este ouro contm prata com fraco
percentual de cobre126;  inclusive atravs deste fraco percentual de cobre que
R. A. K. Messier prope identificar, para os dinares por ele estudados, aqueles
produzidos com o concurso do ouro sudans127.
    As anlises de laboratrio que atualmente efetuamos sobre o ouro da Falm
e com alguns dinares almorvidas128 confirmam os resultados de Messier,
precisando-os ligeiramente; encontramos concentraes de prata comparveis
quelas por ele publicadas; deve-se acrescentar a platina, em fraca porm carac-
terstica incidncia, da qual ele no fala129.
     notvel, este problema semntico de alcance econmico no  simples;
seria um dia necessrio esclarec-lo em definitivo.



122 Al-MAS'D ( J. M. CUOQ, 1975, p. 62), Ibn HAWKAL ( J. M. CUOQ, 1975, p. 75), al-BAKR
    ( J. M. CUOQ, 1975, pp. 84, 101-102), al-IDRS ( J. M. CUOQ, 1975, pp. 129-164), Ab HMID
    ALGHARNT ( J. M. CUOQ, 1975, p. 169) e assim sucessivamente, at o final do sculo XV.
123 J. M. CUOQ, 1975, p. 347 e seguintes.
124 Ibid., p. 394.
125 R. A. K. MESSIER, 1974.
126 Ns encontramos, aquando das escavaes de Tegdaoust, em um estrato arqueolgico correspondente ao
    sculo IX, um fragmento de crisol no qual se encontra uma pequena esfera de ouro inclusa; esta esfera
    esta envolta de cobre oxidado.
127 R. A. K. MESSIER, 1974, p. 37; o cobre no est presente seno a menos de 1,5% neste ouro, o que,
    para o autor, exclui a possibilidade de se t-lo acrescentado por liga.
128 Estes trabalhos sero publicados proximamente pelo Instituto Mauritano de Pesquisa Cientfica.
129 Eu devo estas informaes  gentileza de M. S. Robert, agregado para pesquisa do Instituto Mauritano
    de Pesquisa Cientfica.
454                                                                                   frica do sculo VII ao XI



   Caso, como sugerimos, tibr designe perfeitamente, ao menos a partir do sculo
XI, a qualidade de ouro oeste-africano utilizvel, sem refino e liga, para cunhar
moedas, compreenderemos melhor as razes pelas quais al-Bakr diz que este
ouro  o melhor do mundo, justificando a obstinao em adquiri-lo. Uma recente
pesquisa nos arquivos de Gnova confirma que, aps o sculo XIV, os genoveses
tendem igualmente a utilizar tibr para designar uma qualidade de ouro130.
   O ouro existia  as fontes o atestam  como ourivesaria na frica do Oeste;
porm, aparentemente, muulmanos ou no, os responsveis pelo poder ao
Sul do Saara jamais transformaram este ouro, mesmo aps 1050, em peas de
moeda; nenhum vestgio foi encontrado, at os dias atuais, de cunho monetrio
ou de uma oficina de processamento no Sul do deserto. A constatao leva a
levantar questes essenciais em matria de histria econmica. A produo
deste ouro, dispersa em milhares de poos, tornaria ela realista uma utilizao
monetria direta do ouro no Sul? Este ouro, mesmo processado em pea de 4
gramas, no teria apresentado um poder liberatrio demasiado forte para o tipo
de trocas locais, tal como, final e igualmente, era o caso no mesmo momento no
que tange s transaes locais das sociedades mediterrneas131?
   Contudo, a utilizao do ouro submetido  ourivesaria ou em lingotes ,
para os juristas muulmanos, legal para todos os tipos de transaes, tanto a Sul
quanto a Norte. Os tericos muulmanos estabelecem no dever existir diferena
de valor, na troca, entre dinares de amoedaes diferentes  salvo evidente e total
insuficincia de qualidade de alguns  e entre dinares e ouro em lingotes132. O
ouro submetido  ourivesaria entra, evidentemente, caso de boa qualidade, no
jogo regulamentado das trocas.
   No Norte, sobretudo a partir do sculo X, a amoedao pelo poder torna-se
a regra133; isso resulta parcialmente das crescentes pretenses pela hegemonia


130 J. A. CANCELLIERI, 1982. Escreve o autor que (pgina 14) nem a mais remota denominao de paliola
    e, tampouco aps 1400, sua consorte tibar, designam especificamente o ouro em p; na pgina 16, ele
    conclui tratar-se de ouro no refinado, de 21 quilates e, pgina 20, ele escreve, a propsito de libr, que
    se trata "de ouro bruto, no submetido a nenhuma correo de qualidade".
131 Conferir P. GRIERSON, 1961, p. 709.
132 G. P. HENNEQUIN, 1972, p. 9, nota 4: "Os metais preciosos continuaram, quase invariavelmente, a
    sua carreira `paramonetria', na qualidade de mercadorias universalmente aceitas, em concorrncia com
    a moeda cunhada". Hennequin ainda escreve, p. 10: " a amoedao do metal que dele faz um signo
    monetrio, nele incorporando uma espcie de mais-valia. Esta mais-valia existe ainda, ao menos em seu
    estado qualitativo".
133 Ibid. O autor no hesita em escrever: "O ato de nascimento da moeda, no sentido em que a entendemos,
    consiste na interveno da autoridade pblica", e na pgina 9, na nota 2: "O fato de um signo monetrio
    qualquer ter poder liberatrio ilimitado, vis--vis do poder pblico, basta para garantir a sua aceitao nos
    acertos privados, inclusive quando ela no provoca forosamente a eliminao imediata de instrumentos
    concorrentes e, portanto, o monoplio do signo privilegiado".
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                 455



territorial dos poderes muulmanos do Ocidente, dos progressos em sua admi-
nistrao, mas, igualmente, da situao econmica global de todo o Ocidente. O
comrcio apresenta-se, anual por obrigao de monetarizao, estimulado pelas
dinastias que batem o ouro, na frica Setentrional e, em seguida, na Espanha:
os governadores aghlbidas da Ifrkiya, no sculo IX, os fatmidas da Ifrkiya, no
sculo X, os umayyades da Espanha, no sculo X, os fatmidas no Egito, aps
970, os zridas da Ifrkiya e aps os almorvidas. Bem entendido,  sobretudo
quando as dinastias fatmida, umayyade e, em seguida, almorvida tomam a
cargo a amoedao,  qual o Ocidente muulmano no oferece precedente quan-
titativamente, que o carter vital do comrcio transaariano torna-se evidente.
    Entre a produo dispersa do tibr, no Sul, e os seus consumidores, sempre
mais organizados do Norte, quais seriam os intermedirios? As fontes rabes
no apresentam as coisas como bvias: Gana se encarrega. Contudo, nada nos 
dito acerca dos encaminhamentos histricos que derivaram para este estado de
coisas; nada nos informa sobre a eventual existncia de intermedirios  mer-
cadores cuja meno provvel, somente acontece no sculo X  entre mineiros
e o rei, entre mineiros e outros mercadores?
    Recentemente, buscou-se avaliar a capacidade de amoedao anual na Espa-
nha umayyade; bem entendido, convm apreciar com prudncia tais aproxima-
es. Entretanto, sabe-se que no ano da hgira correspondente a 1009-1010, esta
cunhagem representava 40.000 dinares para um ano de grande amoedao134, ou
seja, um peso em ouro de aproximadamente 160 quilos; tal volume  muito des-
proporcional com o nmero derrisrio de exemplares atualmente conservados
nos museus135; o mesmo autor estima que a cunhagem anual no Egito tulunida,
entre 879-880 e 904-905, no devia ultrapassar 100.000 dinares136, ou seja, cerca
de 400 quilos. As necessidades da cunhagem anual no Norte no poderiam ser
estimadas com exatido a partir destas duas ordens de grandeza. Podemos pen-
sar que elas oscilam, no mximo, em torno de uma tonelada, mesmo levando em
considerao as rivalidades e concorrncias, haja vista que estas ltimas sempre
agiram, pela excluso dos rivais, em proveito de to somente um beneficirio:
os aghlbidas, em seguida, os fatmidas, posteriormente os umayyades, depois
os zanta e, ulteriormente os almorvidas; o caso dos zridas na qualidade de
mais difcil a analisar.



134 A. S. EHRENKREUTZ, 1977, p. 270.
135 As causas do desaparecimento so inumerveis; conferir P. GRIERSON, 1975.
136 Consultar J. DEVISSE, 1970.
456                                                                              frica do sculo VII ao XI



    De todo modo e inclusive levando em conta as necessidades da ourivesaria,
da constituio de poupanas e das perdas anuais de moedas,  difcil imaginar
que a tonelagem importada anualmente possa fortemente ultrapassar duas tone-
ladas, trs no limite extremo. Eis volumes que talvez tornem ligeiramente exces-
sivos aqueles aos quais pensava Mauny em 1961137. Fixando o volume, arbitrria
e certamente em excesso, das necessidades em ouro mdias do Norte, a partir do
sculo X, em trs toneladas/ano, avaliamos que a tarefa no era inatingvel; ela
representava o carregamento de 30 ou 40 dromedrios. A aparente abundncia
de viajantes e as informaes extradas das fontes rabes conferem a impresso
que se trata de cifras demasiado modestas e que as caravanas eram mais impor-
tantes em nmero de dromedrios, ao menos na ida, alm de progressivamente
mais numerosas a cada ano. Aqui surgem nitidamente as dificuldades da histria
quantitativa para estes perodos remotos138. Invariavelmente, encontra-se posto
o srio problema relativo ao evidente desequilbrio material entre o peso das
matrias a serem trazidas do Norte, atravs do deserto, incidente sobre o nmero
de dromedrios a serem conduzidos, e o peso muito menor correspondente ao
retorno. Qual seria o destino dado dos dromedrios inteis? Seriam eles consu-
midos como alimento ou vendidos no Sahel, onde, desde logo, a sua tropa deveu
rapidamente proliferar? Eis uma nova pesquisa ainda no realizada.
    Quer retenhamos o volume "teto" que propomos  cerca de trs toneladas
 ou as cifras de R. Mauny, estes pesos, derrisrios para a economia moderna,
exigem comentrios. A sua pequenez explica, a um s tempo, a cobia da rivali-
dade pelo controle das rotas e a qual ponto a vigilncia sobre estas ltimas ou a
pilhagem das caravanas eram necessrias ou rentveis; mas, igualmente, a qual
ponto cada um dos destinos setentrionais da circulao deste ouro necessitava,
para que a sua cunhagem permanecesse digna de crdito e, na ausncia para o
Ocidente muulmano de qualquer outra zona importante onde se revitalizar em
ouro, de prova da regularidade anual das caravanas saarianas. Como se torna
explicvel que o aporte ao Cairo, muito mais tarde, de aproximadamente uma
tonelada de ouro, pelo mansa Kank Ms, tenha sido capaz de desestabilizar


137 Estimativa da produo exportvel anual  Bur: 4 toneladas; Galam: 500 quilos; Poura Lobi: 200 quilos;
    Gold Coast e Costa-do-Marfim: 4 toneladas; Kpelle, Serra Leoa: 300 quilos (R. MAUNY, 1961, pp. 310-
    -322).  bem verdade que estas estimativas repousam em cifras de produo atuais. Um trabalho recente
    de M. Kiethega estima que a produo da regio de Poura, no Burquina Faso, entre os sculos XVI e XIX,
    provavelmente jamais tenha excedido 50 quilos por ano, em mdia ( J. B. KIETHEGA, 1983).
138 Observemos, inclusive, que, mesmo se guardarmos um volume prximo daquele de R. MAUNY, ou seja,
    aproximadamente 6 a 7 toneladas/ano, to somente se atingiria um pequeno nmero de montarias no
    retorno para o Norte.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                           457



a cotao do ouro. Seria pueril imaginar que uma torrente de ouro tivesse sado
todo ano da frica do Oeste.
    Pode-se ainda, muito aproximativamente, estimar o trabalho que representa
esta produo exportvel anual, eventualmente aumentada pela quantidade de
ouro que permanece in loco, caso nos lembrarmos que um poo entre 2,5 e
5 gramas de ouro. Em poos cavados, so portanto necessrios de 240.000 a
480.000 poos por ano, o que representa uma considervel mobilizao de labor.
Mesmo se acrescentarmos a produo da ourivesaria, no  menos verdadeiro
que esta atividade, embora sazonal, deva ter anualmente mobilizado, na frica
do Oeste, centenas de milhares de pessoas, a partir do momento em que a
demanda mostrou-se forte e regular.
    O trfico anual regular das caravanas provedoras de ouro para as oficinas
monetaristas, quando teria ele comeado?
    Podemos descartar a primeira metade do sculo VIII, poca de instabilida-
des no Norte, de hesitaes na travessia do deserto, raides talvez espetaculares,
porm sem desdobramentos. O problema coloca-se, desta feita, seriamente na
segunda metade do sculo VIII e no sculo XI, perodo de criao ou de desen-
volvimento de Sidjilmsa, de ascenso de Thert, de desenvolvimento do trfico
ibadita. Todavia, nada permite responder a contento, porm, aparenta-nos que
nesta poca poderiam corresponder as trocas ainda fortuitas e pouco confiantes
s quais levam a pensar os textos de al-Ya'kb ou at Ibn Hawkal. Podemos aqui
relembrar o que escreve este ltimo para uma poca sensivelmente mais recente,
provavelmente quando ele reporta as informaes colhidas de uma testemunha:
"Eu ouvi, dizia ele, Tanbartn ibn Isfishr, ento prncipe de todos os sanhdja,
precisar que ele governava este povo h vinte anos e recebia anualmente a visita
de grupos por ele desconhecidos...". As escavaes de Tegdaoust, localizao
quase certa de Awdghust, trouxeram-nos preciosas informaes, justamente
sobra esta poca ainda to desconhecida dos sculos VIII e IX139. A metalurgia
do cobre j foi acima assinalada: vestgios so ainda muito abundantes: crisis,
moldes em cera perdida, escrias, pequenos lingotes; ela no implica relaes
transaarianas mas exige intercmbios140 e a venda de produtos. A produo



139 Sobre a cronologia do stio, conferir J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983, e
    J. POLEL, 1985; D. ROBERTCHALEIX, no prelo; B. SAISON, no prelo.
140 A abundncia das conchas importadas do litoral atlntico (D. ROBERT, 1980, p. 209 e B. SAISON,
    1979) implica ligaes regulares com o litoral. Sabemos o que foi dito acima acerca da eventual utilizao
    do cobre de Akdjudjt.
458                                                                                   frica do sculo VII ao XI



aurfera  indubitvel141: o ouro necessariamente vem do Sul. A presena das
fusaiolas142 implica a tecelagem e provavelmente o algodo, sem que todavia,
neste momento, possamos ir alm de conjeturas, haja vista que estes objetos
eram raros neste perodo. Uma produo, muito caracterstica nos sculos VIII
e IX, de cermicas locais com ornamentos pintados em cor branca impe143,
tambm ela, interessantes problemas: ela no cessa de relembrar produes
comparveis da poca crist na Nbia (Figura 14.3)144.
    Os objetos importados do Norte apresentam ainda maior interesse: eles ainda
no so muito abundantes, mas testemunham da existncia de travessias do
deserto. Pedras preciosas ou semipreciosas  em seguida muito mais recorrentes
 e cermicas envernizadas j esto presentes. A pesquisa sobre a provenincia,
muito minuciosa, ainda no permitiu alcanar concluses totalmente estveis,
salvo em um caso: alguns fragmentos de cermicas, presentes nos estratos infe-
riores do stio, provm da Ifrkiya145. Desde este momento, vidros igualmente
atravessaram o Saara146.
    Ainda no totalmente identificadas quanto  provenincia, porm segura-
mente vindas do Norte, estas preciosas "mercadorias" encontradas em Tegdaoust
provm de uma compra ou mais provavelmente de uma troca. A data dos estra-
tos onde elas foram encontradas  sem dvida anterior a 900. Indiscutivelmente,
trata-se das primeiras provas to precisas da existncia das relaes transaarianas
no que tange aos sculos VIII e IX.
    Reunidas todas as tramas do raciocnio, convm agora mostrar como as coisas
evoluram, ao que tudo indica, entre 900 e 1100 aproximadamente.




141 D. ROBERT, 1980, p. 209: fragmentos de crisol com gotas de ouro; B. Saison, 1979, p. 688: prato de
    uma balana de pequenas dimenses para pesar o ouro; J. Devisse (relatrio no publicado): fragmento
    de crisol com incluso de ouro recoberto de cobre.
142 D. ROBERT, 1980, p. 209; B. SAISON, 1979; J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colabora-
    dores 1983; H. HUGOT, em sua tese sobre o Neoltico saariano (1979), informa que as fusaiolas esto
    presentes no Neoltico, no Saara.
143 Referir-se a B. SAISON, 1979, pp. 548-549, par exemple. Ela est presente nos relatrios de escavaes
    e a sua fabricao continuou no sculo X. Estes potes cermicos no se assemelham quelas encontradas
    em Jenn-Jeno (S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, p. 453) ou em Kgha (citado por
    ibidem).
144 Conferir S. WENIG, 1978, vol. 1, p. 132, ilustraes 98 e 99; p. 133, ilust. 100; vol. 2, p. 321, ilust. 285;
    p. 322, ilust. 288.
145 B. SAISON, 1979, p. 688; J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983; C. VANA
    CKER, 1979.
146 J. Polet, 1980, p. 92; C. VANACKER, 1979.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                         459




Figura 14.3 Um exemplo de cermica moldada in loco, imitando potes importados do Magreb (data pro-
vvel: sculos X-XII). [Fonte: J. Devisse.]



    A evoluo do comrcio transaariano de 900 a 1100
    O crescimento da demanda monetria: os fatmidas na
    Ifrkiya, a concorrncia ummayyade, os almorvidas
   Ao final do sculo VII, Os soberanos umayyades do Oriente pretende-
ram oferecer  comunidade, da qual eles eram os califas, moedas conformes 
nova religio e economicamente fortes. O mundo muulmano viveu, durante
dois sculos, com base na noo terica de uma unidade ideolgica da moeda,
cunhada em nome do nico califa reconhecido e reinante em Damasco, depois
em Bagd. A moeda  portanto, para um muulmano e como atesta no sculo
XIII um texto de al-Makrz, um evidente fenmeno econmico, mas, igual-
mente, equivale ao ndice de uma determinada percepo do poder147.

147 Os autores muulmanos, sobretudo aps o sculo X, conceberam teorias sobre o emprego da moeda.
    Segundo R. BRUNSCHWIG (1967, p. 114), que estudou minuciosamente esta questo, Ibn Miska-
    wayh, um dos precursores aproximadamente em 980, mostra que a vida em sociedade e a diviso d
    trabalho geraram a necessidade de objetos remuneradores, os quais se prestam, em seguida, a pagar
    outros trabalhos e objetos, sendo aceitos sem contestao; certa raridade  imprescindvel a estes obje-
460                                                                                   frica do sculo VII ao XI



    A cunhagem das moedas , no mundo muulmano tanto quanto na tradio
romana, um direito real148 que os soberanos logram, em certa medida, fazer
duramente respeitar. Este monoplio da cunhagem149 nada tem a ver com a
cotao legal das moedas cunhadas150, haja vista que os smbolos recebidos
para as transaes permanecem no mbito do acordo entre os trocadores; 
evidentemente mais cmodo ter recurso a peas que inspiram confiana em
virtude da honestidade da cunhagem. Esta ltima, direito real e provedora dos
smbolos das relaes fiscais entre o poder e os seus dependentes, pode igual-
mente e portanto, na melhor das hipteses, ser admitida como um bom rbitro
das transaes econmicas; ela proclama, neste caso, a glria e a honestidade de
quem a ordenou e proclamou, nos flancos das peas, a glria de Deus, do seu
profeta e da dinastia reinante.
    O mapa (Figura 14.4) das oficinas de processamento do ouro, no momento
em que os fatmidas amparar-se-iam do poder,  eloquente. Uma oficina em
Kayrawn, em mos aghlbidas, e outra em Misr-Fustt, em poder dos ikhshi-
didas; o essencial do ouro  processado ou na Sria-Palestina, sob controle dos
ikhshididas, ou sob domnio dos abssidas. Nem a Espanha e tampouco o Norte
do continente processam muito ouro neste momento. Em contrrio, utilizando
os recursos locais, os umayyades da Espanha151 e os idrsidas, no atual Marrocos,
cunham dirrs em prata152. Para o processamento da prata, outra oficina ganhou
alguma importncia (Figura 14.5): Sidjilmsa  cujo crescente papel econmica
observamos , que certamente recebe ouro do Sul, sem todavia process-lo. Os

      tos; a inalterabilidade do ouro e a sua fcil fuso conferiram-lhe a ateno portada. Posteriormente
      (R. Brunschwig, 1967), Ibn Khaldn exps que a funo da moeda consiste em conservar as riquezas,
      cabendo-lhe circular como medida dos valores, ao contrrio de ser conservada como bem prprio. O
      Coro, inclusive, corrobora, ao proferir (surata IX, 34): "Aqueles que adquirem o ouro e a prata, abstendo-
      -se de dispend-los na via de Al, enfrentaro duros castigos".
148 Alguns historiadores (G. P. HENNEQUIN, 1972, p. 9) tendem a considerar que a moeda no exista
    seno mediante a interveno da autoridade pblica.
149 Acerca destes pontos, conferir P. GRIERSON, 1975, p. 130 e subsequentes.
150 Os historiadores muito discutem a questo consistente em saber se a cunhagem produz real ou sim-
    plesmente mais-valia moral (atravs da confiana que inspiram as peas) ao metal utilizado. De todo
    modo, qualquer poder, no Ocidente, em Bizncio ou no mundo muulmano, busca fazer respeitar o seu
    direito  cunhagem de um metal que ele escolhera cunhar. Sob este aspecto, existe uma rivalidade, qui
    conflitos, entre poderes; disputas que tm pouco diretamente a ver com os valores reais das cunhagens
    em questo. Referir-se a G. P. HENNEQUIN, 1972, p. 10.
151 No tocante s condies, regras e formas de cunhagem, estudo muito preciso em P. GRIERSON, 1975.
152 M. BARCELO, 1979, p. 313; nenhuma cunhagem de ouro, na Espanha, entre 127/744-745 e 316/928,
    ou seja, durante cento e oitenta e nove anos. A cunhagem dos dinares  retomada em 316/928 (conferir
    J. DEVISSE, 1970, p. 148). Fato ainda mais significativo, as poucas peas cunhadas, entre 93/711-712 e
    127/744- 745 na Espanha, foram produzidas segundo o modelo ifrikiyano; ela no asseguram, portanto,
    nenhuma independncia poltica ou econmica a al-Andalus.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                          461



fatmidas, com a sua poltica para o ouro153, abalaram esta situao: o sculo X
acompanhou a abertura das oficinas de cunhagem do ouro em regies do mundo
muulmano onde no antes houvera, sob estrita vigilncia das duas dinastias rivais,
os fatmidas da Ifrkiya e os umayyades da Espanha154 (Figura 14.6). Rivais dos
abssidas do Oriente, proclamando a decadncia do califado destes ltimos e,
igualmente, a sua inteno de reunificar o mundo muulmano que os abssidas
conduzem ao desalento155, os fatmidas obrigam-se, ideologicamente, a cunhar o
ouro. Os precursores no Isl, eles ousaram cunhar peas "califais" em ouro contra
o poder at ento reconhecido; as peas expressam a potncia e a glria do novo
poder156. O certame no  de fcil disputa. Embora a cunhagem abssida esteja
muito enfraquecida, conquanto a sua qualidade se tenha tornado medocre, a
cunhagem daqueles que governam o Egito em nome dos abssidas ainda merece
alto valor em ouro157:  necessrio, portanto, para impor uma moeda de ouro fat-
mida, que ela inspire uma confiana ao menos igual quela dos egpcios158. Noto-
riamente, as necessidades em ouro dos fatmidas esto triplamente motivadas, pela
ideologia, pelo realismo poltico e pelo realismo econmico159. A sua cunhagem
reveste-se, por conseguinte, para a histria das relaes econmicas africanas, de
uma importncia sem precedentes. Ela inaugura no Ocidente muulmano, outros-
sim, uma guerra ideolgica pela moeda que jamais cessaria em sua posteridade160.
    O estudo da cunhagem fatmida mostra que, to logo eles superaram as
graves dificuldades de meados do sculo X, os califas mantiveram a preocupao
de cunhar moedas de excelente qualidade, assim constituindo, a um s tempo,


153 Conferir a figura 14.4. Fontes: D. EUSTACHE, 1970-1971; B. ROSENBERGER, 1970a. Dataes
    foram obtidas para as minas de prata marroquinas: BASEQUA, 1978, nos 52-54, p. 19. Djebal AWAM:
    uma datao: +1020  90 = entre 840 e 1020. Zgunder no Tizi Ntest: +1250  90 = entre 610 e 790.
154 J. DEVISSE, 1970, 1979b. Referir-se  figura 14.6; igualmente consultar C. VANACKER, 1973, mapa
    n. 7.
155 Consultar E. LVIPROVENAL, 1950-1953, vol. 2 e 3, bem como J. DEVISSE, 1970.
156 M. CANARD, 1942-1947.
157 No que tange a estes aspectos, recente e muito minuciosamente estudados: C. CAHEN, 1965; A. S.
    EHRENKREUTZ, 1963 (valor dos dinares aghlbidas, p. 250; valor dos dinares ikhshididas, p. 257-258;
    e importante comparao global das qualidades de peas orientais e ocidentais, p. 264); A. S. Ehrenkreutz,
    1959, j mostrara (p. 139 e subsequentes) a relativa fraqueza da cunhagem abssida: aps meados do sculo
    IX, os valores caem por vezes at a 76% e existem poucas peas entre 95 e 99%; contrariamente, os dinares
    ikhshididas estudados (p. 153) so excelentes: dois possuem 96% de ouro, quatro 97%, doze 98% e dez 99%.
158 O Egito , no se deve esquecer, o alvo poltico e estratgico constante dos fatmidas at 969.
159 Importadora de trigo da Siclia (M. BRETT, 1969, p. 348) e de custosos produtos orientais vindos do
    Egito, a Ifrkiya, malgrado as suas exportaes, conhece um dficit da balana de pagamentos que torna
    necessria a exportao de metais cunhados (conferir S. D. GOITEIN, 1973).
160 Referir-se a A. LAUNOIS, 1964, no referente  poca que vai at os almorvidas, inclusive; em seguida,
    a K. Ben ROMDHANE, 1978, para a poca almada.
462                                                                                frica do sculo VII ao XI



uma reserva de metal precioso e um capital internacional de credibilidade: neste
aspecto, h uma poltica global ainda no to cuidadosamente estudada quanto
devido161. Aps 953 e, sobretudo, 975, os dinares cunhados em nome dos fat-
midas, em Sidjilmsa ou Mahdiyya, so demandados pelos comerciantes at no
Oriente, em virtude da sua excelente qualidade162.
    Atualmente, no mais  cabvel espanto, dada a convergncia de informaes,
constatar que os fatmidas tenham buscado garantir uma forte oferta de moeda de
ouro em em face de uma demanda, cuja razo finalmente, em larga escala, deve-se
 sua contribuio e, provavelmente, cujas origens no residem, a priori, na esfera
econmica163. Tampouco haveria maior razo  surpresa perante o cuidado confe-
rido, pelos fatmidas, ao organizarem o comrcio transaariano anual do ouro sobre
bases comparveis a tudo que precedeu. Eu estava, j em 1970164, persuadido deste
estado de coisas; os resultados das pesquisas efetuadas em Tegdaoust confirmaram
sobremaneira as minhas concluses de ento. Pesos em vidro, todos fatmidas
(Figura 14.7), foram descobertos, dentre os quais um determinado nmero em
posio estratigrfica, de tal modo que contribuem para a datao do stio165; seu
advento coincide com os momentos de maior atividade importadora da aglomera-
o, com o seu mais espetacular desenvolvimento urbano. Nada que cause espcie
para ns, nos tempos atuais, ao lermos o que escrevia al-Muhallab, no ltimo
quarto do sculo X, ou seja, em um momento em que a supremacia fatmida
todavia no estava posta em perigo: os habitantes de Awdghust tornaram-se
muulmanos no tempo do mdi `Ubayd Allh166. Em nada hesitamos, atualmente,

161 A. S. EHRENKREUTZ (1963) mostra o valor dos dinares cunhados, sobretudo aps 953 (pp. 256-
    -257). O quadro oferecido por este autor, para os dinares cunhados no Egito aps 969, igualmente 
    muito esclarecedor: muitas das peas contm entre 97 e 100% de ouro (p. 259); a comparao com a
    cunhagem aghlbida (p. 257) mostra a preocupao em fazer, ao menos, to bem quanto os preceptistas.
    Igualmente consultar J. DEVISSE, 1970. Algumas brevssimas pginas foram consagradas  cunhagem
    pura; conferir F. DACHRAOUI, 1981.
162 S. D. GOITEIN, 1967, p. 234; 1973, p. 30. Igualmente conferir J. DEVISSE, 1970, p. 144.
163 Deve-se pensar em sua "diplomacia do ouro", ostentatria como na "viagem" do Egito, em 969, ou
    destinada aos seus grandes agentes e clientes, na proclamao da glria da dinastia, relativamente  qual
    eles demonstram tamanha sensibilidade, a ponto de terem os seus propagandistas oficiais, conferindo
    a estes aspectos, ao menos, tanta ateno quanto ao sentido mais natural da economia. Porm, por sua
    vez, a sua poltica monetria provavelmente em muito fortaleceu a atividade econmica na Ifrkiya, nu
    curso da segunda metade do sculo e no incio do sculo XI. Consultar, a este respeito, S. D. GOITEN,
    1967, 1973; M. BRETT, 1969.
164 J. DEVISSE, 1970, p. 141 e subsequentes.
165 Acerca destas fichas em vidro, conferir o captulo de LAUNOIS e DEVISSE, em J. DEVISSE, D.
    ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983. Existe, no tangente a estes pesos em vidro, uma grande
    controvrsia, no ligada queles referentes ao nosso perodo, tratando-se daqueles fabricados pelos fat-
    midas do Egito; referir-se a P. BALOG, 1981 e M. L. BATES, 1981.
166 J. M. CUOQ, 1975, p. 76.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                463
Figura 14.4 Oficinas monetrias de cunhagem de ouro s vsperas da tomada do poder pelos fatmidas.
[Fonte: J. Devisse.]
464                                                                            frica do sculo VII ao XI
Figura 14.5   Cunhagem de dirrs no Magreb ocidental durante o perodo idrsida. [Fonte: J. Devisse.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                               465
Figura 14.6    Cunhagem do ouro no mundo muulmano ocidental aps 910. [Fonte: J. Devisse.]
466                                                                              frica do sculo VII ao XI



ao afirmar que, embora tenham permanentemente apresentado alguma pena para
abrirem caminho por Wargla e Tdmekka, via ibadita rumo aos Sdn, os fat-
midas transformaram o eixo Sidjilmsa-Gana, ao menos durante dois sculos, na
principal via de acesso ao ouro do Sudo, na artria de irrigao da sua cunhagem
em ouro, assim como, da constituio do seu tesouro de guerra167. Durante a sua
permanncia na Ifrkiya, aps o fracasso de Ab Yazd, eles cunharam peas que
inspiraram a confiana dos mercadores168.
    Entretanto, a luta feroz que trava o terceiro califado a partir de Crdova
contra a hegemonia fatmida, os sucessos alcanados pelos agentes cordoveses,
aps a partida dos fatmidas para o Egito, o desvio do ouro rumo  Espanha
ou, ao menos, para o Magreb ocidental, a transferncia da oficina de Sidjilmsa
para os ummayyades, mostram que, na primeira dcada do sculo X, ao mais
tardar, e sem em nada mudar a demanda anual por ouro, os beneficirios deste
fluxo deixaram de ser os fatmidas. Uma vez mais aqui se deve estar atento s
informaes provenientes das escavaes e do laboratrio169. Os ltimos pesos
fatmidas, at o momento descobertos em Tegdaoust, so, quando muito, pouco
posteriores ao ano 1000; no  impossvel que sejam anteriores a esta data. R.
Messier indica que os dinares fatmidas cunhados na Ifrkiya, a seu ver, aparen-
tam perfeitamente conter "ouro do Sudo", porm esta constatao no se aplica
em se tratando dos dinares destes mesmos fatmidas cunhados no Egito170; o
autor fixa a poca da mudana em 1047, por ocasio da ruptura entre ziridas e
fatmidas; segundo ele, 47% dos dinares anteriormente cunhados contm ouro
ocidental, contra apenas 24% no tocante  poca seguinte171: acreditamos que
os resultados seriam ainda mais significativos, inclusive para os ziridas, caso a
barra cronolgica fosse situada aproximadamente no ano 1000. Tudo, com efeito,
conduz-nos a pensar que a irrigao da Ifrkiya com o ouro ocidental tenha ces-
sado aps 990 e que esta profunda transformao dos circuitos aurferos tenha




167 A partir deles, o eixo partindo de Sidjilmsa ou de Tmdlt ao "pas dos negros", atravs de diferentes
    itinerrios, torna-se notavelmente o mais bem descrito por Ibn HAWKAL e al-BAKR. Teremos a
    oportunidade de retomar este ponto mais adiante.
168 S. D. GOITEIN (1907, p. 237 e seguintes) oferece exemplos muito precisos deste sucesso.
169 Deve-se aqui relembrar que menos da quinta parte da superfcie construda de modo homogneo (12
    hectares) foi escavada e, certamente menos de dois teros, no tangente ao conjunto das runas de forte
    significado histrico, existentes no entorno de Noudacke.
170 R. A. K. MESSIER, 1974, p. 38-39; no Egito, eles contm muito mais cobre que o conveniente, em se
    tratando de "ouro do Sudo".
171 Ibidem, 1974, p. 39.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        467




Figura 14.7 Tegdaoust/Awdghust: pesos em vidro fatmidas. [Fonte: IMRS, Nouakchott.]



produzido consequncias na Ifrkiya, cujos ecos so perceptveis em todas as
publicaes de S. D. Goitein172.
   Os dez ltimos anos do sculo X marcam uma profunda mudana na cunha-
gem em ouro na esfera ocidental muulmana, com a ascenso da cunhagem
espanhola173 e o incio de um despertar sem precedentes das regies da frica
Ocidental, as mais prximas do Atlntico, para a circulao internacional.
   Quando, aps alcanar o ttulo "califal", a Espanha umayyade igualmente
decidiu cunhar ouro, aps 929, a cunhagem no foi muito brilhante; ela no o
realmente seria seno aps 987-988; em 988-989 surgem os dinares cunhados

172 S. D. GOITEIN, 1962, p. 570; a exportao do ouro e da prata  forte para o Egito; cartas de mercadores
    judeus instalados na Tunsia mencionam o declnio do comrcio entre 1030 e 1040, ao passo que as cartas
    do incio do sculo ainda falavam de prosperidade. Aproximadamente em 1040, uma correspondncia diz
    que o Ocidente inteiro no vale, doravante, mais nada" (S. D. GOITEIN, 1966, pp. 308-328). Acerca
    destes pontos, no podemos estar em acordo com M. Brett, que continua a acordar  invaso "hilaliana"
    uma importncia "catastrfica" na vida econmica da Tunsia (M. BRETT, 1969, p. 348). Igualmente
    contra esta opinio, R. A. K. MESSIER, 1974, p. 35.
173 J. DEVISSE, 1970, p. 146 e seguintes.
468                                                          frica do sculo VII ao XI



por conta dos umayyades em Sidjilmsa174. A cunhagem permanece, contudo e
essencialmente, concentrada nas oficinas cordovesas, sob olhar do poder.
   H pertinncia, para apreciar a importncia "mundial" destes fenmenos, em
fazer um breve desvio em direo  Europa crist. At o momento, conquanto
no tenhamos encontrado grande nmero de peas em ouro, vindas do mundo
muulmano no Ocidente, os estudos atualmente permitem um pouco melhor
apreciar a relao que teve este Ocidente com a cunhagem em ouro do Isl. C.
Cahen mostrou quo importante foi, em todo o Ocidente, a pea gravada e
sem efgie,  qual os ocidentais deram, a partir de uma raiz rabe nakasha cujo
particpio passado  manksh (gravado), o nome mancus175.
   Pensava-se at bem pouco que a Espanha crist houvesse manifestado
interesse pelos dinares assaz tardiamente, nos sculos XI e XII176; no entanto,
notava-se ento que a Galcia desejava dispor de pea em ouro desde o incio do
sculo IX e, igualmente, as Astrias no ltimo quarto do mesmo sculo; tratava-
-se para os cristos de adquirir moedas capazes de lhe permitirem comprar no
Sul muulmano, nico fornecedor possvel das mercadorias de luxo. O recente
belssimo trabalho de P. Bonnassie177 permitiu-nos relevante aprofundamento.
A Catalunha conhece peas ureas do Sul desde 972; aps 996, as menes
aumentam em nmero e, entre 1010 e 1020, trata-se de um verdadeiro afluxo
de metal, entre 1011 e 1020, 53% das transaes fundirias so saldadas por
intermdio de moeda em ouro, contra 1% entre 971 e 980178; as menes de
mancus levantadas por Bonnassie organizam-se como segue: 981-990  78;
991-1000  1.071; 1001-1010  1.220; 1011-1020  3.153. O autor nota que a
brutalidade do fenmeno surpreendeu os contemporneos179. Bonnassie conclui,
para o perodo final dos umayyades, favoravelmente  real circulao de peas
ureas na Catalunha crist180 e acredita, tambm ele, em uma forte vinda de ouro
do Sudo para alimentar esta cunhagem. Em 1018, os catales esto, graas a
este afluxo de ouro, em condies de cunhar as suas peas em ouro, pela primeira
vez desde o sculo IX. Aps 1020, a queda seria rpida181.


174 Ibid., p. 148.
175 C. CAHEN. 1965, pp. 417-419; 1980.
176 J. GAUTIERDALCHE, 1962.
177 P. BONNASSIE, 1975, p. 372 e seguintes.
178 Ibid., p. 373.
179 Ibid., p. 374.
180 Ibid., p. 378 e subsequentes.
181 Ibid., p. 388.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       469



    Basta confrontar estes resultados com aqueles que ns propnhamos em 1970
para constatar uma clarssima coincidncia cronolgica. Isso conduz o historiador
de economia a duas importantes concluses. A primeira  que, to fraca quanto
possam ter sido, as quantidades de ouro importadas eram imediatamente absorvi-
das pela cunhagem, geradora de uma moeda imediatamente colocada em circula-
o182: por conseguinte, h algumas razes a suscitarem pensar que uma parte do
ouro africano tenha possivelmente passado, ao menos no sculo XII, sob a forma
de moedas ureas ocidentais. A segunda concluso  que  poca as "fronteiras"
so de uma permeabilidade desconcertante, tamanha a demanda por ouro. Este
conjunto de fatores esclarece ainda melhor as razes da spera concorrncia entre
pases muulmanos do Ocidente para a obteno do ouro africano.
    O episdio umayyade seria ainda mais breve que o fatmida; entretanto, ele
evidentemente manteve a presso de uma forte demanda sobre a produo do ouro
africano e sobre a circulao trans-saariana. Os reyes de taifas igualmente cunharam,
mal e dificilmente, um pouco de ouro. Porm, a verdadeira converso aconteceria
posteriormente, com os almorvidas. Basta-nos aqui reter aquilo tocante a cunha-
gem e a economia almorvidas para mostrar que esta ltima etapa do nosso perodo
, provavelmente, a mais brilhante e importante para a histria das relaes transaa-
rianas; todavia, ainda mais mal conhecida, por vria confluncia de aspectos.
    O exame do mapa referente aos locais de cunhagem do ouro (Figura 14.8)
pelos almorvidas, imediatamente, mostra grandes novidades. A metade oriental do
Magreb est totalmente desmunida; Tlemcen, ela prpria, no passa de uma oficina
marginal. Contrariamente, o territrio do atual Marrocos, excetuando-se as plan-
cies atlnticas ao Sul de Seb, est amplamente dotado. Os destinos do comrcio
transaariano (Sidjilmsa, Aghmt, Nl Lamta) cunham o ouro, mas, igualmente,
Fez e Marrakesh, as capitais, e Sal, cidade estratgica (Figura 14.8). Sete oficinas
magrebinas ocidentais, quatorze espanhis183: estamos distantes da concentrao e
da vigilncia das pocas anteriores, ao menos que seja necessrio admitirmos que
a autoridade, mais bem respeitada, possa permitir a disperso das oficinas.
    O valor da cunhagem  incontestvel, todos os autores que a estudaram o
afirmam. O ltimo, R. Messier184, nota que 451/1059 a 488/1095, as cunhagens


182 P. BONNASSIE (1975) no exclui que este ouro, do qual ele mostra por quais procedimentos os catales
    adquiriam-no, tenha parcialmente retornado rumo ao Sul para pagar as suas compras.
183 R. A. K. MESSIER, 1980: em meio a 1.503 dinares estudados, 663 provm das oficinas magrebinas, 214
    de Sidjilmsa, 173 de Aghmt, 118 de Fez, 78 de Nl, 67 de Marrakesh, 13 de Tlemcen; 840 provm
    das oficinas espanholas. Trata-se, bem entendido, dos exemplares atualmente encontrados e conservados,
    absolutamente, em caso algum, do nmero total dos exemplares cunhados  poca.
184 Ibid.
470                                                                          frica do sculo VII ao XI
Figura 14.8   Cunhagem em ouro dos almorvidas. Oficinas de cunhagem. [Fonte: J. Devisse.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       471



tm lugar na frica antes da conquista de al-Andalus, tendo os mais antigos
dinares cunhados em Sidjilmsa, no ano 448/1056-1057. Convm acrescentar
s sries publicadas por este autor seis dinares descobertos na Mauritnia185. Ao
total, a cunhagem  sobretudo importante aps 1100.
    Caso passemos do quantitativo ao qualitativo, sempre com R. Messier186,
veremos primeiramente que o valor da produo  pior que  poca fatmida,
havendo na composio destas peas certa quantidade de prata (por vezes mais
de 10%) e cobre. As variaes so relativamente fortes entre as cunhagens,
mas a liga ouro-prata-cobre conduz Messier a imaginar tratar-se de ouro do
Sudo, especialmente no tocante  produo de Sidjilmsa187 e nas outras ofi-
cinas magrebinas, os dinares espanhis, quanto a eles, possuem, em 51% dos
casos, composio diferente.
    A abundncia e a regularidade das cunhagens, praticamente sem rivais at
o Egito fatmida, a qual ento est seguramente privada do ouro do Sudo,
fazem dos dinares almorvidas, fato indito no Isl ocidental, uma moeda de
grande valor econmico, embora ela no atinja os prestigiosos valores das peas
fatmidas188. O Ocidente demandou os marabotins com insistncia189; o prprio
mundo fatmida, aps 1070, deseja receber os dinares almorvidas190.
    Resta-nos, para concluir com estes problemas relativos  cunhagem, colocar
questes muito difceis, para as quais no existe atualmente nenhuma resposta
definitiva.
    Seria o ouro da frica Ocidental tratado antes da sua exportao para o
Norte? Al-Bakr fala em refino do ouro, associando contudo esta particulari-
dade  exportao de fios para a filigrana191. Ns tendemos, como vimos acima,
a pensar que o tibr no sofria nenhum refino  posio corroborada pelas an-
lises de R. Messier  e que ele era utilizado tal qual nas oficinas monetrias.


185 G. S. COLIN, A. O. BABAKAR, N. GHALI e J. DEVISSE, 1983. Deve-se igualmente acrescentar
    um dinar em naskh (escrita cursiva), publicado em A. LAUNOIS, 1967.
186 R. A. K. MESSIER, 1974.
187 No sem reservas: consultar A. HUICIMIRANDA, 1959a, sobre uma crise em 469/1076-1077.
188 Os dinares do Egito, sob condies aqui no cabveis de evocao, permanecem de excelente qualidade
    at o final do sculo XI (A. S. Ehrenkreutz, 1963, p. 259). A partir deste momento, eles perdem do seu
    valor, provavelmente assim contribuindo com a valorizao das peas almorvidas.
189 J. DEVISSE, 1972.
190 S. D. GOITEIN, 1967. Uma carta escrita em 1100 de Mahdiyya informa sobre grandes dificuldades na
    obteno do ouro e menciona o envio de 100 dinares cunhados em Aghmt, no ano 1088 (p. 235). Os
    banqueiros judeus de Fustt calculam com mais apreo em dinares almorvidas que em dinares fatmidas
    (p. 236). Igualmente conferir outros testemunhos interessantes em S. D. GOITEIN, 1973.
191 J. DEVISSE, 1970, p. 118.
472                                                                         frica do sculo VII ao XI




Figura 14.9 Tegdaoust/Awdghust: fios de ouro produzidos com uma pedra de filetagem. [Fonte: IMRS,
Nouakchott.]




Figura 14.10 Tegdaoust/Awdghust: meios lingotes de ouro encontrados em escavaes. [Fonte:  Bernard
Nantet.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       473



Quando muito, seria ele fundido no Sul para ser mais facilmente transportado.
Ns encontramos, em Tegdaoust, ouro preparado em fios, esticados com a
ajuda de pedras de filetagem igualmente encontradas (Figura 14.9); eles eram
visivelmente preparados para a filigrana192, o que parece confirmar a informa-
o de al-Bakr. Caso o ouro tenha sido fundido ao Sul do Saara, sob qual
forma teria ele sido finalmente exportado? Em pequenos lingotes divididos na
sua chegada, para com eles produzir "pudins" destinados ao processamento193,
ou ainda estes "pudins" poderiam eles ser recortados antes da exportao para
o Norte? A ideia da exportao de lingotes, at mesmo de "pudins" preparados
para o processamento,  tanto mais tentadora quanto no exista problema
algum de refino e que o ouro possa ser empregado sem refino nem liga, sem
demasiada preocupao com o seu valor em ouro. Ns descobrimos em Teg-
daoust cinco meios lingotes de ouro, juntamente com outros elementos em
ouro e prata (Figura 14.10 e 14.11)194. Os cinco meios lingotes, cortados com
tesoura aproximadamente ao meio, foram moldados ou em uma cova, cavada
no solo, ou em uma lingoteira. Um dentre eles comporta uma pequena incluso
com cobre. Seriam estes objetos destinados  ourivesaria local195, ou seu des-
tino seria a fragmentao em "pudins" para o processamento196?  necessrio
finalmente acrescentar a estas descobertas o caso, curioso, de um disco de ouro
de 1,75 gramas com superfcie martelada e irregular197.
    Estas questes permanecem ainda hoje sem resposta. Outras descobertas
arqueolgicas, os trabalhos laboratoriais e a futura reflexo histrica, em nada
duvidamos, daro cabo a estas questes aps tantas outras.




192 No publicado. Ser publicado ulteriormente. Referncias TEG 66 MIV 43 e 44. Um destes fios tem
    15,5 cm de comprimento.
193 Sobre as tcnicas de cunhagem, conferir P. GRIERSON (1975, p. 139 e subsequentes), que nos permite
    justamente de colocar estas questes. G. P. HENNEQUIN (1972, p. 13) assim descreve a operao de
    cunhagem: "Cunhava-se unicamente um dado nmero de peas em peso determinado de metal."
194 TEG 66 MIV 26, 27, 28, 47 e 48.
195 Dois anis, um brinco, um colar de prolas de ouro encontravam-se neste tesouro.
196 Diversos tipos de medidas (em relao ao mithkl, prprias aos dinares fatmidas do final do sculo X,
    relativos a pesos de vidro encontrados em Tegdaoust) mostram que estes lingotes podiam em mdia
    corresponder a 21 dinares, no mnimo, a 36 dinares, no mximo. Bem entendido, trata-se de uma abso-
    lutamente hipottica. Ao total, os cinco meios lingotes teriam fornecido de 100 a 150 dinares, segundo
    o caso.
197 O peso no corresponde a uma subdiviso conhecida do dinar. Tratar-se-ia de um disco preparado para
    a ourivesaria?
474                                                                              frica do sculo VII ao XI



      Rotas de comrcio, rotas aurferas, contatos
      comerciais ao Sul do deserto
    Alm das informaes arqueolgicas, dispomos ao Norte, para trabalharmos
sobre as travessias saarianas, de fontes escritas em rabe, particularmente, do
X ao XII sculo. J mostramos o quo ainda sumria  a geografia do Bild
alSdn da qual dispunha Ibn Hawkal.  necessrio agora refletir s contribui-
es maiores de al-Bakr e al-Idrs. No convm a priori escolher em favor de
um ou outro, mas compreender em virtude de quais preocupaes e em funo
de quais informaes escreveram eles.
    Al-Bakr forneceu uma lista das suas fontes informadoras que, em si, com-
porta a sua lgica198. Ns organizamos, na figura 14.12, sete itinerrios prin-
cipais entre o Bild alSdn e o mundo setentrional; cada qual, por pouco
que no, corresponde a um informador diferente. No tocante ao itinerrio
no 1, duas fontes so citadas: um dos mestres de al-Bakr, Ahmad ibn `Umar
al-`Udhr199, morto em Almeria no ano 1085, e o escritor Muhammad ibn Ysuf
al-Warrk (904-905/973-974), originrio da Espanha, conhecedor da frica,
desde a Ifrkiya, e ligado aos meios abaditas. Al-Bakr reconhece ter tomado por
emprstimo ao segundo a sua primeira instruo sobre Awdghust200. Houve
igualmente captao de informaes, sobre Awdghust, atravs de al-Warrk,
por parte de: Ab Bakr Ahmad ibn Khallf al-Fs e Ab Rustam, este ltimo
sendo originrio do Djabal Nafsa201. Desde logo, torna-se evidente que a con-
tribuio de al-Bakr sobre Awdghust seja muito documentada.
    De fato, se compararmos as precises relativas ao itinerrio no 1 ao que diz
al-Bakr sobre o itinerrio no 2, identificamos que as grandes diferenas so
provavelmente fruto de importantes desigualdades referentes s informaes das
quais ele disps. No tangente ao itinerrio no 7, as informaes concernentes a
Trakk, situado a dez dias de Rs al-Ma', foram fornecidas por `Abd al-Malik
ibn Nakhkhs al-Gharfa, que igualmente contribuiu os elementos da instru-
o consagrada a Bughrt, as margens do Nger, proximamente a Trakk, na
rota conduzindo de Gana a Tdmekka202. Outro personagem, `Al `Abd Allh


198 T. LEWICKI, 1965b.
199 E. LVIPROVENAL, 1960b, p. 157.
200 J. DEVISSE, 1970, p. 110 e seguintes.
201 T. LEWICKI, 1965b, p. 11. Sobre as condies de circulao sobre este eixo, acima consultar o captulo
    11. A paz somente ali seria restabelecida  fora em 306/919.
202 T. LEWICKI, 1965b, pp. 11-12.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       475



al-Makk203, ofereceu informaes sobre Sma, a quatro dias de Gana. Final-
mente, Mu'min ibn Ymar al-Hawwr fornece informaes sobre a rota que
vai de um ponto impreciso do litoral da Mauritnia, onde hibernam os barcos,
at o Nilo; o mesmo autor falou do trajeto de Aghmt a Nl204.
    O mtodo de trabalho de al-Bakr  claro. Ele no dispe de meio algum para
verificar diretamente as informaes nas quais confia. Ele as organiza, portanto, umas
aps as outras, sem possibilidade de recort-las, em funo dos seus informadores.
    Negligenciamos aqui os itinerrios mais orientais descritos por al-Bakr.
Um vai de Djdd ou de Adjadbya, no Knem205, por Zawla  importante
plataforma giratria das relaes saarianas , em cinquenta dias de trajeto206;
al-Bakr no lhe confere muita importncia, fato que absolutamente no indica
o contrrio; este itinerrio no est "conectado" com os outros, nem mesmo com
aquele de Ghadmes a Trpoli em dez dias207, passando pelo Djabal Nafsa, e
que, quanto a ele, est ligado a Tdmekka, Gao e Gana. Outro conduz, em vinte
dias, de Awdghust aos osis do Nilo, passando por Swa; assim alcanamos um
sistema niltico bem descrito.
    Caso retornemos ao Ocidente, constataremos, com apoio grfico, que as
descries de al-Bakr ganham clareza. O itinerrio no 1 concerne o eixo "real",
para o qual os detalhes abundam, de Tmdlt a Awdghust208. As relaes de
Awdghust so, finalmente, pouco numerosas: quinze dias para chegar a Gana209,
cem dias para alcanar Kayrawn210, este ltimo detalhe estando provavelmente
calcado na avaliao, mais realista, do trajeto em cem dias de Gao a Wargla, por
Tdmekka211. Rumo ao Sul, Awdghust surge como um beco sem sada. Quanto
s rotas que vm de Sidjilmsa, no tocante s quais al-Bakr est muito menos


203 Ibid., p. 12.
204 Ibid.
205 Al-BAKR, 1913.
206 Ibid., p. 27 e subsequentes. Em Zawla, diz al-Bakr, comea o "pas dos negros".
207 Ibid., p. 340 e seguintes.
208 Ibid., p. 296 e subsequentes. Sobre eixo, interpretao geogrfica completa de S. DAVEAU (1970), com
    mapa. Deve-se passar por Tamdlt para alcanar Sidjilmsa, aps Awdghust; al-Bakr, 1913. S. D.
    GOITEIN (1967, p. 212) insiste no fato que, como a situao est analisada sob a perspectiva do Cairo,
    no sculo XI, as caravanas que vm da frica Ocidental deveriam passar por Sidjilmsa e Kayrawn;
    igualmente, S. D.GOITEIN (1973, pp. 30, 50 e 151) oferece trs textos dos sculos XI e XII os quais
    mostram a vinda do Ocidente passando por Sidjilmsa.
209 Al-BAKR, 1913, p. 317. Sinal fundamental, ele d esta informao em um trecho incontestavelmente
    datado do sculo XI e no fornecido por al-Warrk.
210 Ibid., p. 303.
211 Al-BAKR, 1913, p. 338 e seguintes.
476                                                                          frica do sculo VII ao XI




Figura 14.11 Corrente de prata descoberta nas escavaes de Tegdaoust/Awdghust. Este objeto, infeliz-
mente, foi perdido em um laboratrio (data provvel: sculos XI/XII). [Fonte: J. Devisse.]



precisamente informado (itinerrio no 2 do nosso grfico), localizadas mais a
Leste, especialmente rumo ao sal de Tatintl212, elas no chegam a Awdghust,
mas em Gana213. Curiosamente, Awdghust no est interligada nem s aglo-
meraes do rio Senegal e tampouco a Awll; em ambos os casos, a situao 
improvvel; ela tem particular importncia no primeiro, caso considerarmos que
o prprio al-Bakr desde antes confere, alhures, a Sill o estatuto de concorrente



212 Al-Bakr  o nico a conferir este nome.
213 Al-Bakr, 1913, p. 322.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                     477



de Gana no tangente ao comrcio do ouro214. Em respeito ao trajeto de Awll a
Nl, ele deve a sua autonomia quela do informador (itinerrio no 6).
    O sistema de Gana  muito mais complexo e completo. Ele implica que
as relaes com esta cidade sejam muito importantes e que al-Bakr se tenha
beneficiado de muitas informaes. Porm, uma vez mais, a construo molda-
-segundo os seus informadores. Ao Sul, um itinerrio conduz a Ghiyr. A
localizao dos nomes, citados em nosso itinerrio no 4, ope os historiadores215.
Igualmente, o itinerrio no 5 alimenta controvrsias: Kgha est situado para
alguns a Oeste, para outros muito mais a Leste216.
    A regio do Senegal est descrita no itinerrio no 3: porm, uma vez mais,
localizaes e identificaes de distncias so imprecisas. De Kalanbu, ltima
cidade nomeada, alcanamos o "Sul". L residem os zafk, aos quais T. Lewicki
prope identificar aqueles que, posteriormente, Ykt nomeia zfn, por ele
situados as margens do Kolombin, a Oeste da atual Diara, portanto a Leste
das cidades das quais fala al-Bakr217. Lewicki logra pensar que, no sculo XI,
este povo tenha desempenhado um importante papel no mbito do comrcio
do ouro em direo ao Norte218. Mais ao "Sul" surgem outros grupos "pagos".
Nos trs casos dos itinerrios 3, 4 e 5, perfeitamente apresenta-se, para o nosso
conhecimento, o relativamente insupervel inconveniente traduzido, para o
trabalho crtico, na heterogeneidade das informaes bsicas utilizadas por
al-Bakr. Infelizmente, ele no  nem o primeiro e tampouco o ltimo a agir
destarte e, milagrosamente, sem ter deixado a Espanha, deixou-nos, por tama-
nho detalhamento, lanados ao debate e  crtica; ainda -nos imperioso, perante
as fontes, proceder ao distanciamento crtico que a sua prpria organizao torna
indispensvel.
    Caso deixarmos Gana atravs dos itinerrios no 7, inevitavelmente e ainda
mais de uma vez, o encontro com grandes dificuldades de interpretao (nota-
mos, por exemplo, que as cidades ao Norte, a Leste e ao Sul, invariavelmente
esto a quatro dias de distncia de Gana). O que  interessante aqui consiste
na grande brevidade do trajeto  fracionado  de Gana a Gao (dezessete dias),
como se o autor fora pouco ou mal informado; convm igualmente assinalar

214 Ibid., pp. 324-325.
215 No tocante a Samakanda (ibid., p. 334; o povo: os bakam que esto nus), consultar R. MAUNY, 1961,
    p. 126. O pas de Gharantal, neste itinerrio, permanece desconhecido (Al-BAKR, 1913, p. 332: cidade
    no muulmana onde os muulmanos so bem acolhidos).
216 Al-BAKR, 1913, p. 324 e seguintes; al-BAKR mostra que Kgha importa cauris, sal, cobre.
217 T. LEWICKI, 1971a. Os argumentos de T. Lewicki so slidos.
218 Ibid., p. 506.
478                                                                            frica do sculo VII ao XI
Figura 14.12   Itinerrios de al-Bakr; parte ocidental. [Fonte: J. Devisse.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                      479



a orientao "retorno para o Norte" dada  descrio dos trajetos em direo
a Wargla e ao Djard, a Ifrkiya, Ghadmes e Trpoli. Aqui, sem nomeao de
informador direto, porm os testemunhos reproduzidos mostram que efetiva-
mente circulava-se nestas rotas219 e no somente do Sul ao Norte, ao menos at
a dominao almorvida sobre o trajeto ocidental. Este circuito oriental "a partir
de Gana"  coerente do seu terminal meridional at a Kal'a dos ban hamm220
 portanto, a informao data do sculo XI  e ao seu terminal, em Trpoli221;
ns, aqui, temos toda a possibilidade de basearmo-nos em uma informao de
boa qualidade para o sculo XI, antes dos almorvidas. Al-Bakr faz meno a
um dubl de itinerrios, entre Tdmekka e Ghadmes para a busca de pedras
semipreciosas, que tal qual o veremos posteriormente, possui toda a probabili-
dade de ser perfeitamente identificado222.
    Inclusive, tem lugar em Tdmekka, dando crdito a al-Bakr, algo digno de
ateno. Os dinares dos quais se servem os habitantes, diz al-Bakr, so de "ouro
puro"223; eles tem, ademais, a particularidade de serem "carecas": assim de Slane
traduz ele literalmente a palavra rabe sul'. Al-Bakr se expressa de tal modo
que podemos, sem nos excedermos, pensar tratar-se de "pudins" preparados para
a exportao dirigida ao Norte, os quais no teriam todavia recebido gravao;
sul', neste caso, opor-se-ia a manksh que esteve antes presente. No se trata,
portanto, de tratamento monetrio, mas da sua etapa preparatria: as oficinas
esto no Norte.
    Assim sendo, sem diminuir, distantes desta postura, o interesse destes textos
em questo, somos conduzidos a uma atitude crtica, diferencial e seletiva, a
conferir maior ateno no tocante  qualidade semiolgica das informaes
fornecidas, em suma, a considerarmos que estas fontes, como todas as suas
consortes, merecem ser confrontadas com os resultados obtidos pelas pesquisas
orais ou arqueolgicas. Os mtodos, as motivaes, as informaes, no case de
al-Idrs, opem-no fortemente ao seu predecessor224. Al-Idrs no se contenta
em descrever, assaz empiricamente e em funo das suas "fichas", um conjunto
de itinerrios incoerentes entre si. Ele pretendeu atribuir um quadro rgido,

219 T. LEWICKI, 1979, pp. 164-166 e J. M. CUOQ, 1975, p. 172.
220 Al-BAKR, 1913, p. 105 e seguintes.
221 Definio do espao ifrikiyano totalmente concordante para al-Bakr (1913, p. 49).
222 Nada surpreendente que este leque de informaes relativo s relaes direcionadas ao Norte, a partir
    de Gao, insira-se em uma instruo autnoma: conferir al-Bakr, 1913, p. 324 e subsequentes. Al-Bakr
    denomina buzurghniyyn os especialistas do comrcio em Gao.
223 Al-BAKR, 1913, p. 339.
224 Acerca dos mtodos, consultar o importante estudo de T. LEWICKI, 1966.
480                                                                           frica do sculo VII ao XI



aquele dos climas (iklm) e das suas subdivises, a uma descrio da frica.
Embora ele indique,  imagem do seu predecessor, por vezes seguindo-o e
eventualmente atravs de fontes comuns, a durao dos trajetos em dias, trata
de modo totalmente distinto a informao (Figura 14.13)225.
    Tal como precedentemente, podemos mencionar muito brevemente os itiner-
rios orientais. O primeiro, com muito exagero em suas distncias, al-Idrs estuda,
na terceira seo do primeiro clima, um conjunto de trajetos terrestres, do Nger
ao Nilo, atravessando de passagem o Kawr. Aqui residem novas informaes que
exigem um atento estudo crtico. A terceira seo do segundo clima  igualmente
consagrada  descrio, sempre com fortes excessos para as distncias, de pistas do
Saara Central, constitudo em destino ao Norte de Ghadmes; este sistema apa-
renta ser muito mais autnomo em relao ao eixo Tdmekka-Wargla, comparati-
vamente s descries de al-Bakr. A descrio da quarta seo do segundo clima,
dedicada ao deserto niltico e ao Nilo, aparenta interesse medocre. Aquilo que
portanto nos impacta , no sculo XII, a ateno conferida s relaes Nger-Nilo
e Nger-Chade, assim como o retorno a uma maior autonomia do eixo "lbio",
com destino a Ghadmes e  Tripolitnia. Aqui residiriam as grandes novidades
caso as pesquisas futuras confirmassem o bom fundamento destas observaes.
    Caso revisitemos a primeira e a segunda sees  excepcionalmente  terceira
 dos primeiro, segundo e terceiro climas, as comparaes com al-Bakr tornam-
-se interessantes. O grande eixo meridiano, privilegiado por al-Bakr, desapare-
ceu. Ao Norte, Sidjilmsa substituiu Tmdlt226: este fato  talvez explicvel pela
persistente obstculo s relaes representado pelos barghawta. Dirigindo-nos
rumo ao Sul, desde ento se evita Awdghust e inclusive Gana. A grande novi-
dade consiste em alcanar-se diretamente as cidades do rio Senegal, malgrado as
grandes dificuldades devidas  travessia da Kamnriyya ou do deserto de Nsar.
Atingimos estas cidades, onde se encontra ouro, em cerca de quarenta dias. De
Sill ou Takrr, so necessrios quarenta dias para atingir Sidjilmsa, passando
pela Kamnriyya e por Azuk.  verdade que  erro de copista ou erro em si 
uma vez mais longa a passagem por Azuk, exigindo, ao total, cinquenta e dois
dias a partir do Senegal, rumo ao Norte: aproximamo-nos, assim, das antigas
avaliaes de Ibn Hawkal. Portanto, tudo conflui para a possvel existncia,
desde ento, de um eixo interligando Sidjilmsa ao rio Senegal, passando por
Azuk.


225 Conferir a Figura 14.13.
226 As fontes perfeitamente confirmam a grande predominncia de Sidjilmsa no sculo XI. Referir-se a S.
    D. GOITEIN, 1973, pp. 30-151.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                  481




Figura 14.13     Itinerrios de al-Idrs; parte ocidental. [Fonte: J. Devisse.]




   Awdghust  rejeitada por al-Idrs, demasiado distante a Leste: a um ms
de Awll. As suas relaes so bem menos importantes que aquelas de um ou
dois sculos prvios. A cidade  de notria menor importncia econmica vis
vis das cidades mercantes do Senegal  guarda laos acerca dos quais  dever
482                                                                              frica do sculo VII ao XI



insistir. Awdghust est, diz al-Idrs, a doze dias de Gana; igualmente est ela
 mesma distncia de Bars, outro acesso ao comrcio do Sul.
    Deve-se, por um instante, questionar a transcrio deste nome: Bars 
uma reconstituio; podemos propor outras, por exemplo, Bur.y.s; assim sendo,
torna-se interessante notar que, graficamente, pouco em rabe separa esta outra
transcrio de Y.r.s.n, a qual figura em al-Bakr.  necessrio notar, ao final das
contas, que assim igualmente procede em relao a Gh.r.n.t.l (al-Bakr) e no
tocante a Gh.rbl (al-Idrs). Um problema encontra-se, para ns, simplificado,
na justa medida em que  legtimo assimilar, em ambos os casos, com apenas
com nuances grficas, as localidades citadas pelos dois autores, duas a duas.
    Para al-Idrs, Bars  ou Bur.y.s  desempenha,  imagem de Y.r.s.n,
para al-Bakr, um importante papel em direo ao Sul: trata-se da extremidade
avanada do contato com os "lamlam" e com o Malal. Porm, al-Idrs  mais
preciso que o seu predecessor. Bars est ligada, outrossim e sempre a doze dias
 pressentimos algum artifcio227 , ao sistema do rio Senegal, atravs de Takrr.
Bars torna-se assim uma correspondncia de dois cetins mais setentrionais,
pelas cidades do rio e por Awdghust e por Gana; al-Bakr era menos preciso
no que tange ao papel desempenhado por Y.r.s.n228. No entanto, sob uma pers-
pectiva do Sul para o Norte, a partir de Bars, a dominao do Takrr sobre o
mdio curso do Senegal e o seu domnio sobre o comrcio do ouro, igualmente,
ganham um novo relevo e evidenciam as modificaes de equilbrio, sobrevindas
em um sculo na organizao dos circuitos de exportao do ouro.
    O sistema de Gana, integralmente rejeitado na segunda seo do primeiro
clima,  a um s tempo confuso em seu detalhamento  suscitando a chegada de
uma profuso de informaes contraditrias a engordarem os "fichrios" prepara-
trios  e mais realista, no tocante s distncias. Porm, deve-se notar a inexatido
dos dados referentes s relaes direcionadas ao Leste, at Gao e inclusive at a
curva do Nger: de Gana atinge-se o Noroeste  idas e vindas  rumo a Wargla
em trinta dias, sem parar em Tdmekka, e rumo a Ghadmes em trinta e oito dias.
    Para al-Idrs, toda esta segunda seo do primeiro clima, incluindo os
wankra e as cidades da curva at Trkk, est sob domnio de Gana229. Pode-


227 O gosto dos cartgrafos rabes por tais construes  conhecido. Esta constatao de colocar-nos em
    posio de desconfiana crtica ou de recusa. Pode-se notar outros exemplos: Ghna, Ghiyr e Gharbl
    esto ligadas em uma base de onze dias, Trakk, Samakanda e Gana, a uma distncia de seis dias. H
    certamente outros exemplos a serem levantados e, justamente, ali estariam fontes de importantes erros.
228 Contudo, ele diz ( J. M. CUOQ, 1975, p. 103): "Da regio de Y.r.s.n, indivduos sdan `adjam, chamados
    banu naghmarata, extraem tibr por eles comercializado."
229 Al-Idrs nota a opulncia da cidade muulmana onde vivem ricos comerciantes ( J. M. CUOQ, 1975, p. 133).
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        483



-se portanto lanar a hiptese segundo a qual haja agora dois grandes sistemas
concorrentes de busca pelo ouro. Um, norteado pelas cidades do Senegal, alcana
Sidjilmsa, atravs de Azuk230: pouco esforo para aqui notar o reflexo direto
da interveno almorvida e inclusive da poltica dos almorvidas aliados ao
Tarkrr. Outro, senhor dos pases do Nger,  dominado por Gana e est mais
estreitamente a Wargla que jamais231.
    Seria esta a real e duradoura imagem, daquilo que se reproduziu desde o
sculo X ou a efmera "fotografia" de um momento? Ao final das contas, no se
trataria de uma geografia mais ideolgica que econmica,  qual seria impru-
dente fiar-se cegamente232?
    Os itinerrios de al-Idrs, diferentes daqueles do seu predecessor, para toda
a zona saariana e de modo certamente significativo, no trazem os novos e
decisivos elementos com os quais se contava, aps dois sculos de relaes no
mbito das regies do Senegal e do Nger. Podem-se perfeitamente encontrar
explicaes para esta situao, dentre as quais a mais provvel seria que os
negros permitiam com reservas a circulao dos mercadores do Norte233 e que
a converso ao isl, real e ampla na curva do Senegal e em Gao, ao final do
sculo XI, ainda demonstrava-se incipiente mais ao Sul. De todo modo, no se
deve contar com al-Idrs, no mais, inclusive, que com os seus predecessores,
para conhecer em detalhes a vida dos negros ao Sul dos rios234. Uma vez mais,
a semiologia tem a sua importncia e no se deve acordar o mesmo crdito s
novas informaes concernentes s travessias do Saara e s repeties, mesmo
enriquecidas, para as regies mais meridionais.


230 Pode causar espanto que Asuk figure, a justo ttulo, haja vista a importncia adquirida por esta cidade
    aps a conquista almorvida, e que nada seja dito, por exemplo, de Tabalbala, osis provavelmente equi-
    pado, a esta poca, para as ligaes com o Norte (D. Champault, 1969, p. 23 e seguintes). Igualmente
    verdadeiro, Asuk  descrita por al-Idrs como uma cidade prspera, embora pequena ( J. M. CUOQ,
    1975, p. 164).
231 Compara este estudo dos itinerrios com J. O. HUNWICK, C. MEILLASSOUX e J. L. TRIAUD,
    1981.
232 Imediatamente, um exemplo incita  prudncia. Inexiste apreciao do trajeto Sidjilmsa-Gana, porm,
    al-Idrs ( J. M. CUOQ, 1975, pp. 129,149) longamente descreve a Madjba de Nsar, cuja travessia de
    quatorze dias no  servida d'gua em seu caminho: trata-se de uma regio onde o vento levanta as
    areias. Igualmente, quando descreve Asuk, al-Idrs ( J. M. CUOQ, 1975, p. 164) diz tratar-se de uma
    etapa em direo a Sill, Takrr ou Gana.
233 O cuidado dedicado por al-Idrs, tanto quanto, inclusive, aquele anterior de al-Bakr, notando quais
    seriam as cidades nas quais os mercadores do Norte teriam boa acolhida, permite entrever a crucialidade
    desta informao.
234 Entretanto, como veremos mais adiante, algumas novas informaes sobre os Estados do Takrr, por
    exemplo, atravessaram o Saara. E inclusive algumas notas novas surgem sobre as cidades ainda "pags",
    como Mallal.
484                                                                             frica do sculo VII ao XI



    A localizao dos pontos de intercmbios, como vimos desde o incio, est
amplamente ligada  situao das isoietas;  necessria relativamente pouca
gua para os animais e para o conjunto das atividades de vrios milhares de
homens. Infelizmente, os nossos conhecimentos sobre a evoluo do habitat em
zona saheliana ainda encontram-se em estdio muito embrionrio. Entretanto,
a arqueologia faz surgir questes em profuso (Figura 14.14). Gostaramos de
tudo conhecer sobre Sidjilmsa; infelizmente, no atual estado das coisas,  neces-
srio contentar-se com as fontes escritas que, acerca do trfico transaariano, pra-
ticamente nada oferecem. Igual situao persiste em relao a Aghmt. Tmdlt
est um pouco mais bem localizada, graas a B. Rosenberger235. T. Lewicki
forneceu-nos uma instruo muito cientfica sobre as relaes de Wargla com
todas as regies a frica Ocidental e Central236; deriva no conhecermos grande
coisa no tangente  atividade da cidade antes do sculo XI; nesta poca, a cidade
est em relao com Sidjilmsa237, Tdmekka, Gana e o "pas do ouro"238. Ao
Norte, ela mantm contatos comerciais com o Djard, com a Kal'a dos ban
hammd; provvel e igualmente, Wargla teria ligaes com o Chade, atravs de
caravanas. No sabemos, at o presente momento, nada acerca de Ghadmes,
alm do que dizem os textos, ou seja, pouca coisa239. Lamentavelmente, o balano
da pesquisa arqueolgica referente  poro setentrional da frica , em matria
de relaes transaarianas, igualmente pobre no tocante aos sculos X e XI, 
imagem dos dois sculos precedentes.
    As coisas, felizmente, ganham novos ares uma vez ultrapassado o deserto.
Para Azuk, ns sabemos atualmente que o stio comporta duas grandes ativi-
dades atravs dos tempos: uma entre os sculos X e XII, outra entre os sculos
XV e XVII240; os trabalhos em curso permitem entrever que a capital almorvida,
mencionada nos textos, oferecer interessantes informaes.
    No que tange a Awdghust, os resultados obtidos realam a importncia
urbana do stio, para os sculos e XI. As atividades l comearam mediante
um enquadramento no-urbano, desde os sculos VIII e IX. Nos sculos IX
e X, relativamente rpido sem todavia fundamental modificao cultural  a

235 B. ROSENBERGER, 1970a, p. 79.
236 T. LEWICKI, 1976.
237 Ibid., p. 16.
238 Ibid., pp. 42-43: no sculo X, um ibadita do Djard vai de Gana e desta localidade at Guyra (reconhe-
    cemos Ghiyr); ele encontra os habitantes deste lugar nus e morre nesta cidade (pp. 51-52 discusso
    sobre a localizao de Ghiyr).
239 Trabalhos em preparao de N. Ghali, acerca deste tema, na Universidade de Paris I.
240 B. SAISON, 1981.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                485



constncia da produo cermica local o atesta , a cidade ganhou contornos
urbanos, com ruas, praas, mesquita, apropriao privada do espao construdo
e desenvolvimento do luxo, ao menos nas sees onde viviam os comerciantes
vindos do Magreb. Todos os escavadores notaram uma quebra na vida da cidade,
em meados do sculo XI, porm a cidade reencontrou, sobre outras bases, uma
vida prpria aps esta data241. As dataes com carbono 14, os pesos de vidro
encontrados, a anlise dos objetos importados confirmam as dataes que pre-
cedem. Awdghust foi uma cidade de vrios milhares de habitantes, muito ativa
nos sculos X e XI e, sem dvida alguma, foi afetada por uma catstrofe em
meados deste intervalo. As mais profundas causas da sua decadncia ultrapassam
o quadro cronolgico e o campo atual de discusso242.
    As escavaes conduzidas em Gana (Kumbi Saleh) permitiram medir, l
igualmente, a longa durao da vida deste stio: em mais de 7 metros de espes-
sura estratificam-se ocupaes que vo do sculo VIII ao sculo XV243; uma
mesquita muito importante est relativamente aparente e conservada. A capi-
tal real da qual fala al-Bakr todavia no foi encontrada. At o momento, um
pequeno nmero de objetos importados do Norte foi encontrado; no entanto,
indcios de relaes com Awdghust so incontestveis.
    Sintiu-Bara encontra-se em uma zona histria de considervel interesse244,
onde os traos de existncia remota de aglomeraes so descobertos em larga
escala245. Os trabalhos consumados at o momento no permitem ligar este stio
queles dos quais falam al-Bakr ou al-Idrs. Vestgios de metalurgia local, l
descobertos, remontam aos sculos V e VI e, igualmente, numerosos indcios de
uma produo cermica de bela qualidade246. Convm, desde logo, no esquecer
o que diz al-Idrs acerca de Takrr e Bars, onde os contatos so garantidos
com os mercadores do Norte: ns sabemos, atravs da experincia de Tegdaoust,
o que isso significa e a descoberta de fragmentos de cermica envernizada em
Sintiu-Bara mostra que a espera no  v247.


241 As informaes esto reunidas e desenvolvidas em C. VANACKER, 1979: J. DEVISSE, D. ROBERT
    CHALEIX e colaboradores, 1983; J. POLET, 1985; D. ROBERTCHALEIX, no prelo; B. Saison, no prelo.
242 Especialmente conferir J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983.
243 D. ROBERT, S. ROBERT e B. SAISON, 1976. Igualmente consultar: relatrios anuais de escavaes
    mantidos pelo Instituto Mauritano da Pesquisa Cientfica e S. BERTHIER. 1983.
244 Consultar, acima, a descrio dos itinerrios e o mapa dos stios.
245 B. CHAVANE, 1980.
246 A. RAVISE e G. THILMANS, 1978, p. 57. Datao com carbono 14: 587  120, 1050  120. G.
    THILMANS e A. RAVISE. 1980.
247 G. Thilmans, D. Robert e A. Ravise, 1978.
486                                                                               frica do sculo VII ao XI
Figura 14.14   Os pontos do trfico transaariano, sculos IX-XI. [Fonte: J. Devisse.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                     487



    Niani tem uma vida brilhante na poca subsequente; no tocante quela que
nos interessa, no se nota trao fidedigno algum de ralaes com os circuitos
transaarianos248. Contudo, o fato da aglomerao muito bem existir, da sua pro-
vvel troca de produtos com as regies vizinhas, conduzem a questionar sobre a
sua eventual identificao com o Mallal, do qual fala al-Bakr.
    A investigao realizada em Jenn-Jeno, fundada em uma minuciosa estrati-
grafia e dataes precisas, conduz a resultados repletos de ineditismo. Entre 400
e 900, desde logo, uma cidade existe neste stio, proximamente  atual Jenn249;
esta localidade desenvolveu-se sobremaneira ao longo da poca seguinte, de
900 a 1400250. Infelizmente, at o presente momento, os resultados obtidos, de
essencial importncia para o comrcio regional, no dizem praticamente respeito
s relaes transaarianas.
    Begho todavia no forneceu tantos indcios e tampouco permitiu tantas
hipteses. Contudo, o simples fato dos mais antigos vestgios indicadores de
atividade remontarem ao sculo II, esta constatao mostra que no escaparemos
por muito tempo da questo relativa a saber se no teria existido uma circulao
de bens em zona de savana prxima  floresta, muito anteriormente ao que se
considerava at o presente251.
    Justamente a uma interrogao similar conduzem os resultados, to contes-
tados, das frutuosas e espetaculares pesquisas realizadas em Igbo-Ukwu252. T.
Shaw, combatido por muitos colegas, interrogou-se relativamente a saber se,
desde o sculo IX, no existiriam relaes entre esta regio, to prxima do delta
do Nger, e o mundo setentrional.
    Todas as recentes pesquisas reequilibram profundamente a histria dos
intercmbios tcnicos e comerciais: graas a elas, deixou-se de fazer da frica
do Oeste uma dependncia do Norte, intermediada pelas relaes transaaria-
nas. Aqui reconduzido s suas devidas propores cronolgicas e quantitativas,
o comrcio transaariano cessa, todavia, de encerrar considervel interesse. As
transformaes que ele introduziu, em todas as regies a Sul e Norte do deserto,
podero ser doravante medidas com maior indita sabedoria.


248 Esta no  a opinio de W. FILIPOWIAK (1979, p. 189), que acredita na chegada, no sculo X,
    de comerciantes rabes introduzindo em Niani construes em sambaqui, alm do cultivo de alguns
    legumes. Ns fazemos algumas reservas sobre estas interpretaes, particularmente, acerca da ligao
    estabelecida entre a arquitetura em sambaqui e a chegada de comerciantes rabes.
249 S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, p. 190: trata-se da fase III da ocupao do stio.
250 Trata-se da quarta e ltima fase de vida urbana neste lugar (ibid., pp. 191-192).
251 M. POSNANSKY, 1976. No bairro de Dwinfuor, o trabalho em ferro  atestado desde o sculo II.
252 T. SHAW, 1970, 1975a; O. Ikime (org.), 1980; consultar, mais adiante, os captulos 16 e 18.
488                                                                           frica do sculo VII ao XI



    Os resultados aqui e acol pela arqueologia concernem a histria econmica
e aquela das trocas transaarianas e lamentamos, amargamente, que to nfimas
informaes todavia estejam disponveis para Gao253, Tdmekka254, Bilma255 e
mesmo para o Ar256; para no mais falar das cidades situadas ao Norte do Saara.
Em todo caso, aparentemente ser feita a demonstrao acerca da utilidade his-
trica das escavaes nos stios urbanos ligados s relaes transaarianas, mesmo
indiretamente; cada qual extrair as informaes da sua escolha.
    A nossa atual imagem do comrcio transaariano no sculo XI  pouco realista
e, provvel e excessivamente, esquemtica, tamanha a abundncia de questes,
sobretudo de ordem econmica, para as quais nenhuma resposta ainda foi ofere-
cida; igual e enfaticamente, os resultados conhecidos das pesquisas arqueolgicas
revelam que tudo  mais complexo e diverso que o antes imaginado, na esfera
das trocas de produtos, tcnicas e inclusive modos e influncias.
    Entretanto, as fontes escritas e a arqueologia permitem desde j traar um
cenrio provisrio dos produtos que atravessavam o Saara. Lamentavelmente,
nem sempre h  inclusive com pouca frequncia  coincidncia entre, por um
lado, as informaes fornecidas pelas fontes rabes  refletindo as preocupaes
de exportadores setentrionais  e a arqueologia que, por sua parte, d conta
da compra pelos consumidores do Sul. Al-Bakr explica que, em Awdghust,
importava-se com elevados custos, por uma clientela de expatriados vindos do
Norte, trigo, tmaras, passas257; a arqueologia nada ofereceu, at o momento, que
o confirmasse. Al-Bakr, contudo, abre as portas para uma importante pesquisa
acerca tangente ao comrcio de tmaras, as quais aparentam ter muito preco-
cemente atravessado o Saara, talvez e inclusive acompanhadas do seu prprio
modo de cultivo. Nenhum texto aborda, no tocante a esta mesma Awdghust,
outras importaes de luxo para uma exigente clientela  a mesma que consumia
trigo e tmaras. As escavaes, quanto a elas, falam a este respeito. A importao
de objetos de uso semiluxuosos (lmpadas a leo envernizadas) (Figura 14.15)


253 Em que pesem as notveis pesquisas conduzidas por C. FLIGHT (Universidade de Birmingham).
254 T. LEWICKI, 1979: pouca ou nenhuma informao antes do sculo X. Desde esta poca, um mercador
    ibadita envia, de Tdmekka rumo ao Djard, 16 sacolas contendo cada uma 500 dinares, ou seja, 8.000
    ao total. A cidade, para LEWICKI (pp. 165-166), estaria, nesta poca, nas mos dos zanta.
255 O artigo frequentemente citado de D. LANGE e S. BERTHOUD (1977) mostra o quo proveitosa
    seria uma pesquisa arqueolgica no Kawr.
256 S. BEMUS e P. GOULETQUER, 1974. Ao passo que os resultados so espetaculares para a antiga
    metalurgia com cobre.
257 J. M. CUOQ, 1975, pp. 83-84. No tocante a este trfico, os ganhos certamente eram muito elevados,
    embora os consumidores e clientes fossem muulmanos, como aqueles que vendiam estes produtos raros.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                    489




Figura 14.15 Tegdaoust/Awdghust: lamparina a leo com reservatrio decorado com impresses pivotan-
tes. Cermica envernizada em verde. A extremidade do bico foi reconstituda. [Fonte: IMRS, Nouakchott.]




ou luxuosos (taas, vasos, incensrios envernizados, vidros decorados) cresce
fortemente, todos os pontos de escavao mostraram-no258 para este mesmo
perodo: trata-se da descoberta de milhares de testemunhos de um trfico de ele-
vado preo. No momento, nada comparvel foi encontrado para a mesma poca,
nos stios mais meridionais: nem Gao259, Sintiu-Bara260 ou Niani261, e tampouco
Jenn-Jeno262 so comparveis s riquezas de Tegdaoust. Igualmente no que
tange ao vidro, importado sob diversas formas (frascos, vasos, taas, recipientes
[Figura 14.16]) o mesmo perodo para Tegdaoust263 e, raramente, para os outros
stios investigados at o momento; B. Saison defendeu com muita pertinncia a
existncia de uma mesma sistemtica importao de restos de vidro, destinados,


258 C. VANACKER, 1979, p. 155; B. SAISON, 1979; J. POLET, 1980; D. ROBERT, 1980, p. 209; cres-
    cimento de 17% no sculo X; J. DEVISSE, 1982: 55% das importaes concernem  poca que vai do
    sculo IX ao sculo XI.
259 R. MAUNY, 1952.
260 G. THILMANS, D. ROBERT e A. RAVISE, 1978.
261 W. FILIPOWIAK, 1979.
262 S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b.
263 C. VANACKER, 1979: descobertas de objetos inteiros ou passveis de reconstituio; consultar o
    captulo de C. VANACKER, em J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores, 1983; J.
    DEVISSE, 1982: 42% dentre as descobertas realizadas para o vidro concernem o perodo que vai do
    sculo IX ao sculo XI.
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Figura 14.16 Tegdaoust/Awdghust: caneca em vidro importada, talvez da Ifrkiya ou do Egito (?) (restau-
rao: Instituto do Vidro em Mayence, Repblica Federal Alem). [Fonte: IMRS, Nouakchott.]



mediante refundio local,  fabricao de prolas, to amplamente demandadas
pelas elegncias, ao lado de outros elementos adornantes264.
    certamente necessrio, para termos uma ideia completa deste comrcio de
luxo transaariano destinado a satisfazer uma clientela norte-afriacana instalada
no Sahel, acrescentar ao trigo, s tmaras e passas, s cermicas e aos vidros, a
prata, cujo trabalho era igualmente assegurado em Tegdaoust265 e, provavelmente
tambm as pedras preciosas ou semipreciosas, as quais, por sua vez, circulavam
alm de Awdghust. A circulao de pedras preciosas ou semipreciosas comeou
antes de 900; em seguida, ampliou-se na justa medida das necessidades de um


264 B. SAISON, 1979, p. 659 e subsequentes. Numerosos moldes para prolas foram encontrados no curso
    das escavaes (por exemplo, B. SAISON, p. 510).
265 B. SAISON, 1979. Joias em prata: prancha VI, p. 595; D. ROBERT, 1980, p. 209: prola de prata e,
    no tesouro do qual se tratou mais acima, pulseira de prata e trs brincos. Deve-se aqui relembrar que,
    segundo al-BAKR (1913, p. 319), os ces da corte de Gana portam colares de ouro e prata guarnecidos
    com pequenos sinos fabricados com os mesmos metais.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                       491



importante mercado consumidor, aspecto sobre o qual os lugares de descobertas
muito esclarecem.
   A gata, verdadeira e vinda do Alto Egito,  rara266. O caso da amazonita
reveste-se de maior importncia; ela no  citada por Lewicki em seu cat-
logo das pedras mencionadas pelos autores rabes267; entretanto, a arqueolo-
gia concernente aos sculos dos quais nos ocupamos, dela fornece numerosos
fragmentos, de grande interesse268; as nicas minas identificadas encontram-se
a distancia muito grande da frica Ocidental; no Nordeste do Tibesti269 e no
Fezzn270. Em ambos os casos, a chegada de tais fragmentos desta bela rocha
verde  frica Ocidental, em nmero no desconsidervel, supe de alguma
forma uma longa transferncia do Nordeste rumo ao Oeste; um trabalho muito
recente informou-nos,  bem verdade, sobre a existncia de pequenas jazidas
de amazonita na Mauritnia, na regio de Tidjikdja271. A granada272 vem do
Magreb; Lewicki mostra que ela era importada no Egito na poca fatmida;
uma granada de bom tamanho foi encontrada em Tegdaoust273. No tocante 
pedra por al-Bakr chamada ts-n-samt274, Lewicki recusou a traduo proposta
por R. Mauny, "gata", demonstrando razo275, porm, a sua prpria traduo,
"cornalina" igualmente coloca problemas. Deve primeiramente sublinh-las
para liquidar com as lendrias importaes de cornalina indiana! H cornalina
em abundncia no mdio vale do Nilo, particularmente276, no causa portanto


266 T. LEWICKI, 1967a, p. 59 e subsequentes. Ela foi encontrada, sem datao e tampouco estratigrafia,
    nos tmulos de Killi e El-Waladji, no Mali, escavadas por Desplagnes (referir-se a A. M. D. LEBEUF
    e V. PAQUES, 1970, p. 14).
267 T. LEWICKI, 1967a.
268 A. M. D. LEBEUF e V. PAQUES, 1970, p. 14: objetos descobertos no tmulo de Killi, na verdade
    no-datado; C. VANACKER, 1979; B. SAISON, 1979; J. POLET, 1980, p. 91; D. ROBERT, 1980, p.
    209, em geral, para os perodos mais remotos da vida urbana de Awdghust.
269 P. HUARD, 1966, p. 381.
270 T. MONOD, 1948, p. 151 e seguintes.
271 S. AMBLARD, 1984, p. 216.
272 T. LEWICKI, 1967a, pp. 56-57: bidjd em rabe.
273 TEG 1963, MIV 409. Podemos, finalmente e no limite, interrogar no se tratar de outra pedra. Assina-
    lada por T. LEWICKI (1967a, segundo Ykt), uma espcie de sorte de zirco do qual uma variedade 
    vermelha  trata-se de um corndon ou de uma alumina cristalizada , muito dura e por vezes confundida
    com o rubi. Al-Bakr, diz Lewicki, assinala a existncia de uma mina onde esta pedra era abundante, na
    rota entre Sidjilmsa e Aghmt.
274 J. DEVISSE, 1970, p. 119, nota 2: "uma espcie de pedra que se assemelha  gata e eventualmente
    oferece uma mescla de vermelho, amarelo e branco".
275 T. LEWICKI, 1967a, pp. 53-54.
276 S. D. GOITEIN, 1973, p. 283: em 1046, envio de Alexandria a Tnis de dois pacotes de cornalina.
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espanto que sejam encontrados vestgios, para a nossa poca, na frica Ociden-
tal, desconsiderando as distncias277; contudo, a definio oferecida por al-Bakr
adapta-se muito melhor  calcednia que  cornalina; embora se encontre, em
Tegdaoust, numerosas amostras de calcednia para o perodo considerado278.
Caso lembrarmo-nos que a localizao proposta, pelo prprio Lewicki, no Hog-
gar279 corresponde perfeitamente a um lugar de extrao de calcednia, podemos
provavelmente concluir. Ao que serviriam estas pedras, para as quais o gosto 
muito vivo na frica do Oeste, nos sculos X e XI280? B. Saison trouxe, pela
primeira vez no tangente a Tegdaoust, as provas da importncia do trabalho
de bijuteria, associando metais, pedras e conchas281. Talvez se deva, finalmente,
mencionar a importao de cauris, sobre a histria trans-saariana dos quais
sabemos ainda to pouco. Eles surgem em Awdghust aproximadamente nos
sculos IX e X282, havendo indcios de vestgios da sua comercializao ao Norte
no sculo XI283.
    Bem entendido, em se tratando de Awdghust, estes produtos importa-
dos destinam-se, vale reiterar, a uma clientela rica vinda do Norte; quando ela
desaparece, aps 1100 no mais tardar, o luxo rapidamente desaparece. Sob esta
perspectiva, Awdghust no surge como um balco redistribuidor destes pro-
dutos importados em direo ao Sul  salvo excepcionalmente , apresentando-
-se como uma base de troca de alto valor, entre o ouro trabalhado, os couros




277 A. M. D. Lebeuf e V. Paques, 1970, p. 14: abundante em Killi e Waladji, no datados. Em Tegdaoust,
    descobertas no excepcionais: B. Saison, 1979; J. Polet, 1980; D. Robert, 1980; J. Devisse, 1982. Em
    Jenn-Jeno, uma prola de cornalina  assinalada (S. K. McIntosh e R. J. McIntosh, 1980b, p. 190) para
    o perodo que vai de +400 a +900.
278 C. Vanacker, 1979: quinze exemplares; B. Saison, 1979: numerosos exemplares; J. Polet, 1980, e D. Robert,
    1980; J. Devisse, 1982.
279 T. Lewicki, 1967a, p. 54: entre In Ouzzal e Timmisao, em uma rota secundria entre Ghadmmes e
    Tdmekka.
280 J. Devisse, 1970, p. 119, nota 1, plenamente confirmada pelas pesquisas arqueolgicas.
281 B. Saison, 1979, p. 385 e seguintes: prolas notavelmente talhadas em calcednia e cornalina, bijuterias
    cilndricas em amazonita, rejeitos de talhadura etc.
282 C. Vanacker, 1979: sobretudo sculo X; D. Robert, 1980, p. 209: sculo X; J. Devisse, 1981: sobretudo
    sculo IX.
283 S. D. Goitein, 1967, p. 154: eles fazem parte das mercadorias que frequentemente chegam aos portos da
    Ifrkiya; p. 275: chegam, no inverno, cauris no porto de Trpoli; o inspetor queixa-se que somente esta
    mercadoria tem pouca venda nesta estao; p. 373: em 1055-1056, meio-cauri  vendido, proveniente
    de Kayrawn, por uma soma equivalente a 55 dinares.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        493



curtidos284 e decorados, o mbar vindo da costa atlntica285, talvez a goma286,
e os produtos do Norte, dentre os quais somente o sal constitui uma matria
amplamente re-exportvel.
    A imagem deste comrcio,  notvel, torna-se muito mais complexa na justa
medida do refinamento dos nossos conhecimentos. Podemos desde logo colo-
car uma questo relativamente  qual os pesquisadores devero estar atentos:
existiria ou no, no conjunto das cidades do Sahel, uma "burguesia" assaz rica
e com gostos de certo modo comparveis queles dos magrebinos, a ponto de
criar um mercado de demanda pelos objetos de luxo dos quais acaba de ser
questo? Neste instante, a nossa resposta, reservada, situa-se antes no campo
da negativa, para esta poca. Awdghust constitui uma exceo. Esta cidade,
provvel e igualmente, representou um importante polo de metalurgia em cobre.
Importadora de matria-prima, ela aparenta realizar ligas assaz elaboradas, assim
como fabricar objetos de luxo, localmente consumidos  bijuteria e medalhas287
 ou re-exportados: D. Robert acredita que de Awdghust podiam partir para
Gana os fios de cobre que serviam  "moeda" em Gana288.
    Os resultados, atualmente atingidos no que tange a Awdghust, certamente
sero em todos os stios nos quais um trabalho comparvel for efetuado no
porvir. Equivalendo a dizer o quo somente podem ser provisrias as concluses
atuais sobre o trfico transaariano, mais dinmico, complexo e contraditrio que
outrora se imaginava. Na outra extremidade do deserto, D. Lange e S. Berthoud
recm mostravam que uma mesma complexidade surgia, para o mesmo perodo,
em respeito ao comrcio do Kawr, exportador de tmaras e sal para o Sul, mas,
igualmente, de alume para o Norte, at Wargla289.
    Estamos, desde logo, autorizados a questionar se estes comrcios no seriam,
sob o manto da "prestigiosa" troca sal-ouro, variveis, mutantes, submetidos aos
modos e s relaes de fora, menos estveis, comparativamente ao que levam
a pensar os textos e a estabilidade dos itinerrios. Tanto quanto, igualmente, se



284 Awdghust certamente participa da caa ao rix (os textos sugerem-no e as escavaes comprovaram)
    e  exportao de couros, inclusive talvez dos famosos escudos dos quais fala Ibn Hawkal (1964, p. 91).
    Conferir al-Bakr, 1913, p. 301.
285 O trfico com o litoral, comprovado pela importncia das conchas, tais como a Anadara senilis ou o
    Cymbium, jamais cessou.
286 Al-Bakr, 1913, p. 299.
287 C. Vanacker, 1979, p. 110 e seguintes; B. Saison, 1979.
288 D. Robert, 1980, pp. 209, 259, 284.
289 D. Lange e S. Berthoud, 1977, pp. 32-35.
494                                                                              frica do sculo VII ao XI



eles efetivamente modificaram, de ponta a ponta no Saara, os modos de vida e
as preferncias.
     necessrio retornar ao comrcio do ouro, ele prprio. Al-Bakr a ele faz
trs aluses explcitas: uma concerne Awdghust, as duas outras se inscrevem
na descrio de dois itinerrios totalmente separados dos outros (no 4 e no 5 da
Figura 14.12). Em relao ao primeiro, vai-se de Gana a Ghiyr290; passa-se,
aps quatro dias, em Samakanda, em seguida, aps dois dias, em Tka, para
em seguida alcanar, em um dia, um brao do "Nilo", atravessado a vau pelos
dromedrios; deste ponto, chega-se ao pas de Gharntl291, onde os muulmanos
no residem; ao passo que eles esto, segundo al-Bakr, instalados pouco mais
a Oeste, em Yarasna, onde se para. No referente ao segundo, ainda mais impre-
ciso292, que vai de Gana a Kgha, situado ao sudeste e onde se encontra as mais
belas minas (ma'din) de ouro. O que pensar das "penetraes rumo ao ouro" de
mercadores muulmanos, as quais permite supor o texto de al-Bakr, levando
estes mercadores bem alm, rumo ao Sul, ao contato quase direto com as zonas
produtoras, avano aparentemente muito mais profundo que aquele encontrado
em al-Idrs, um sculo mais tarde (Figura 14.17)? Para este ltimo, os dois
grandes eixos de comercializao do ouro so mais claramente organizados.
    O primeiro coloca em contato, em cidades relativamente setentrionais, como
Takrr e as suas dependncias, Bars ou Silla, comerciantes vindos do Norte e
mercadores negros que dependem de Takrr, circulando entre as aglomeraes
sob controle deste ltimo293. Deste modo, encontra-se constitudo um sistema
negro  o Takrr  de controle do comrcio em uma regio onde nada seme-
lhante havia um sculo antes, embora o prprio al-Bakr sugerisse que Silla
buscava ento rivalizar com Gana294. Bars, extremidade meridional deste sis-
tema, a doze dias295 de Gana, de Awdghust e de Takrr, localiza-se assaz bem
no Alto-Senegal, porm fora das zonas de produo aurfera.
    Caso compararmos as localizaes, segundo as indicaes fornecidas pelos
dois autores, de Ghiyr, Irasna, Ghiyr e Bars, constataremos que as infor-
maes de al-Idrs situam fortemente para o Norte os pontos de intercmbio

290 Grafias deste nome em Ibn Hawkal: Gh.r.y (ou Gh.r.y.w); em al-Bakr: Gh.yr; e junto a al-Idrs:
    Gh.yara. Conferir J. M. Cuoq, 1975, pp. 101-102.
291 Grafias deste nome em al-Bakr: Gh.r.n.t.l; em al-Idrs: Gh.rbil ou Gh.rbl.
292 J. M. CUOQ, 1975, p. 104.
293 Ibid., p. 130.
294 Ibid., p. 96: "[O rei de Silla] tem um vasto reino, muito povoado, ele pode praticamente rivalizar com
    aquele de Gana".
295 Absolutamente nove dias como afirma J. M. CUOQ (1975), neste caso, erroneamente, p. 130.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                      495



de ouro e diminuem, por conseguinte, o campo de prospeco dos comerciantes
muulmanos, vindos do Norte, no mundo negro. Podem existir muitas inter-
pretaes para tal mudana.  possvel, desde logo, reter que a organizao do
Takrr, evidentemente aps 1050, profundamente modificou a geografia da
circulao aurfera. Para apreciar globalmente a transformao ocorrida, deve-se
aqui relembrar o fato de, a partir de Takrr, rumo ao Norte, alcanar-se, segundo
al-Idrs, diretamente Azuk e Sidjilmsa.
    Al-Idrs em seguida descreve um segundo sistema de comercializao
do ouro, dominado por Gana296. Os pontos mais meridionais deste sistema
so Gharbl e Ghiyr297, esta ltima, distante onze dias de marcha de Gana,
localiza-se, a partir desta indicao, em um arco de crculo que recorta o Baule,
afluente do Senegal e o delta interior do Nger; aparentemente,  razovel pensar
prioritariamente no Baule, notando ao final das contas  novo problema  que
esta localizao aproximaria, perigosamente, Ghiyr de Bars e, desde logo, os
sistemas concorrentes de Takrr e Gana. Constatemos igualmente que Bars e
Ghiyr constituiriam as extremidades avanadas dos dois sistemas em direo
aos campos de produo do Galam e do Bambuk298. Mais a Leste, os wangara
ocupam um vasto territrio onde o ouro abunda. As prprias dimenses a ele
atribudas por al-Idrs (480 km X 240 km), a distncia por ele indicada entre
Gana e o pas dos wangara (oito dias), a localizao por ele fornecida de Trakk,
cidade dos wangara que depende de Gana, tudo conduza a considerar que esta
regio corresponde exatamente ao delta interior do Nger, entre a extremidade
sul, prxima do Bure, e as cercanias de Trakk. Trata-se de uma definio muito
extensiva do delta interior, porm ela corresponde perfeitamente ao texto. Con-
tudo, uma vez mais, no estamos na zona de produo do ouro299.
    Uma palavra ainda para sublinhar a necessidade de investigar, muito alm
daquilo j realizado, as atividades doe mercadores negros dos quais falam as
fontes a partir de al-Bakr. Pode-se discutir a traduo assumida por Cuoq300 do


296 Ibid., p. 137: "O conjunto dos pases que recm assinalamos est sob dependncia do soberano de Gana:
    [eles] lhe fornecem todo o necessrio, ele, em contrapartida, concede-lhes a sua proteo".
297 Relembremos que a primeira dentre estas localidades  chamada Gh-r.n.t.l. por al-Bakr e a segunda
    Gh.yr.
298 No  descabido constatar que, interpretando os dados de al-Bakr, J. L. TRIAUD chegue a concluses
    prximas, para Ghiyr, daquelas que propomos aqui para a interpretao de al-Idrs (consultar J. O.
    HUNWICK. C. MEILLASSOUX e J. L. TRIAUD, 1981; igualmente conferir R. MAUNY, 1961, p.
    124).
299 Sentimo-nos, igualmente neste mbito, totalmente de acordo com as concluses de S. K. MCINTOSH
    e R. J. MCINTOSH, 1981.
300 J. M. CUOQ, 1975, p. 102; al-Bakr, 1913, p. 333.
496                                                                            frica do sculo VII ao XI
Figura 14.17   Zonas de produo do ouro na frica Ocidental. [Fonte: J. Devisse.]
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                  497



excerto onde al-Bakr fala dos comerciantes `adjam (no-rabes): o importante
 que estes comerciantes, chamados ban n.gh.m.ran ou namghmarna301, so,
uma vez, assimilados por um copista302 aos wangh.m.rta, abrindo assim uma
importante discusso. Tanto mais quanto, todos os tradutores esto em acordo
neste ponto, estes comerciantes vendem ouro303. Bem entendido, seria um dia
necessrio retomar por completo a questo dos wangara304, a sua localizao e
o seu papel econmico. Deve-se, finalmente, relembrar o fato que, mesmo no
nomeados, comerciantes negros sejam assinalados por al-Bakr e al-Idrs em
Gharbl, Ghiyr, Bars, no Takrr, em Gana e Gao.
    Seria presunoso pretender acrescentar a estes debates, to complexos, solu-
es definitivas. Quando muito seria, uma vez mais, necessrio chamar a ateno
para algumas constataes. Para a poca de Ibn Hawkal, as zonas nas quais os
negros vivem e encontram ouro, muito indistintas e longnquas, so dadas basea-
das em distncias de um ms de trajeto a partir de Gana. Em seguida, assistimos
ao encurtamento desta distncia e chegamos, com al-Idrs, a uma soluo que
se assemelha ao razovel. Simultaneamente, quanto mais nos aproximamos deste
razovel, mais temos a impresso que os mercadores do Norte, informadores dos
autores de referncia, no tiveram acesso direto s zonas de produo aurfera,
tendo eles estado em contato com comerciantes negros, os quais to somente
comeamos a conhecer; ainda devemos levar em conta a hiptese, sugerida pelas
diferenas entre as avaliaes das distncias em al-Bakr e al-Idrs, de um recuo
destes mercadores para o Norte, entre os sculos XI e XII, na justa medida da
organizao das respostas dos sdn, muulmanos ou no, em face das presses
desde o sculo X exercidas, sobre a zona saheliana, pelos mercadores vindos do
Norte. A menos que no seja mais exata a hiptese oposta: Ibn Hawkal no
possui seno um conhecimento extremamente impreciso acerca do "pas dos
negros", uma vez ultrapassada a zona saheliana; al-Bakr, melhor informado,
exagera ainda as distncias dos mercadores ao Sul; al-Idrs est mais prximo
das realidades, as quais no mudaram desde o incio e denotam a firme deter-
minao dos soberanos negros em no permitir livre acesso s minas de ouro,
nem tampouco livre mercado para a venda do ouro. Ainda resta muito trabalho
para saber qual dentre estas duas hipteses mais se aproxima do real ocorrido.


301 Devo estas duas leituras a M. GHALI, segundo os manuscritos conhecidos.
302 Biblioteca Nacional de Paris, ms. 2218, p. 240; informao fornecida por M. GHALI.
303 M. GHALI prope a seguinte traduo: "os nunghamarta [ou w.n.gh.m.rt ou w.n.gh.m.rn], os quais
    so comerciantes [variante: eles so comerciantes], trazem ouro ao pas e s regies limtrofes".
304 Este nome aparece pela primeira vez com al-Idris. M. GHALI prope escrev-lo em transcrio: wan.
    kra.
498                                                                                 frica do sculo VII ao XI



      Consequncias culturais do aumento
      do trfico transaariano
    Em matria de gosto e bases alimentcias, quase nada mudou. O Norte,
limitado pelas possibilidades de exportar para o Sul o cultivo das suas plantas
de subsistncia, o trigo e as tmaras, bem como dos seus hbitos alimentcios,
exporta para os "expatriados", mercadores instalados ao Sul do deserto, a preos
elevados, os produtos do Norte que eles demandam. As tmaras conheceram, na
esfera das transferncias, um sucesso mais duradouro que o trigo305.
    A zona saariana vive sem agricultura, excetuando-se uma jardinagem de osis.
Ela se amplia, dando crdito a al-Idrs, porque o deserto progride, especialmente
rumo ao Sul306. Nesta zona, a carne seca de camelo e cortada, o leite de camela, as
gramneas de colheita307 constituem as bases alimentcias de povos que desconhe-
cem o po e economizam gua; a carne das serpentes  acrescentada, nas regies
onde abundam e onde a gua  ainda mais rara, como a Madjbat de Nsar308 ou
a regio situada ao Norte de Gao309; as fontes no dizem quase nada sobre a caa,
a qual deve entretanto constituir outra importante base alimentar310.
    Integrada a esta regio desrtica ou muito rida, todavia constituindo, em
funo do seu lenol fretico, uma exceo local, Awdghust v, no sculo X,
sobreporem-se duas alimentaes "de classe": aquela dos ricos311, vindos do
Norte em sua maioria, consumidores de trigo, frutas secas ou frutas local-
mente cultivadas (figos e passas), carne de boi ou carneiro, abundante e no
muito custosa; aquela dos mais pobres, neste caso essencialmente negros, os



305 J. M. CUOQ, 1975, p. 131; segundo al-Idrs, Sidjilmsa, o Tuwt e Wargla so, muito amide, consi-
    deradas zonas exportadoras.
306 J. M. CUOQ, 1975, p. 146 e subsequentes.
307 Acerca da funo da coleta, conferir R. MAUNY, 1961, p. 228 e seguintes.
308 J. M. CUOQ, 1975, pp. 148-149.
309 Al-Idrs, em J. M. CUOQ, 1975, pp. 151-152. L habitam os saghwa (zaghwa?), os quais utilizam o
    leite, a manteiga e a carne, por eles extrados dos dromedrios, tm poucos legumes, sem trigo, e cultivam
    um pouco de durra (paino).
310 Al-Bakri (1913, p. 321) no evoca a caa seno em funo dos produtos exportveis que ela fornece, a
    pele do lamt (rix) e do fenec. S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH encontraram, em Jenn-Jeno,
    para a poca mais remota, os vestgios de consumo de crocodilo, de tartaruga e de aves (1980b, p. 188).
    Conferir R. MAUNY, 1961, pp. 257-258.
311 J tivemos a oportunidade, mais acima, de sublinhar o seu gosto pelo luxo, notvel pela quantidade e
    qualidade dos objetos importados, assim como pelo luxo da casa. Um detalhe, jamais assinalado em outros
    canteiros arqueolgicos sahelianos, pode consumar o convencimento: vrios batons de kohl, destinados 
    maquiagem dos olhos, foram encontrados em Tegdaoust; eles so talhados e esculpidos em uma madeira
    imputrescvel.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                         499



quais utilizam a durra312, localmente cultivada e transformada em massa ou
discos, que enriquece o mel, importado do Sul313; a arqueologia, uma vez mais,
suplanta os textos: ns encontramos pratos com pequenos alvolos, com algu-
mas dezenas de centmetros de dimetro, os quais so todavia utilizados, no
Sul, para o cozimento de discos de milhete. No sculo XII, com a partida dos
mercadores do Norte, provavelmente deslocados aps a invaso almorvida, a
cidade alimenta-se essencialmente, dando crdito a al-Idrs314, de carne seca
de dromedrio, episodicamente acompanhada de trufas, durante algumas
semanas ao ano disponveis na regio; a cidade, na medida em que subsiste,
aparenta ter acompanhado o modo de vida alimentar dos pases que a cercam.
   Quando, a Oeste, atravessa-se o Senegal e o Nger, quando a Leste, chega-
-se ao Kawr, entra-se em outro mundo no que tange  alimentao. A durra,
amplamente cultivada315, o arroz316, o peixe fresco ou salgado317 ou defumado318,
a carne e o leite de bovinos e, mais raramente, de ovinos e caprinos319, todos
estes gneros constituem as bases do cardpio alimentar. Nada realmente mudou
em trs ou quatro sculos, salvo talvez a adjuno das tmaras aos recursos
habituais e, igualmente, da carne seca de dromedrio. A herana, em matria de
alimentao,  aqui muito antiga, nesta zona do milheto, demasiado equilibrada
pelo hbito, demasiado adaptada ao habitat320, a ponto de permitir mudanas.
Frequentemente, aqui  assinalado, nesta terceira zona alimentar, o consumo da

312 J. M. CUOQ, 1975, p. 149. O produto  durra , do qual se trata aqui,  o capim-elefante (penniserum),
    no o sorgo (conferir R. MAUNY, 1961, p. 238 e subsequentes). O sorgo  mais raro; a nica atestao
    arqueolgica at o momento concerne Niani (W. FILIPOWIAK, 1979, p. 107), referente aos sculos
    VIII e IX.  necessrio, no tocante a Awdghust, assinalar a relativa abundncia dos "celeiros", para a
    conservao de gros, descobertos na escavao, contudo e infelizmente, vazios de qualquer gro para os
    sculos aqui abordados. A abundncia do material de moagem (moedores), para estas mesmas pocas,
    no deixa dvida alguma acerca do consumo de cereais.
313 Sobre o mel, referir-se a R. MAUNY, 1961, p. 292.
314 J. M. CUOQ, 1975, p. 149.
315 Al-Bakr, 1913, pp. 324-325.
316 S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH. 1980b, p. 188; R. M. A. BEDAUX e colaboradores, 1978.
317 Al-Idrs ( J. M. CUOQ, 1975, p. 131): os peixes, abundantes, "constituem a dieta da maioria dos Sdn,
    os quais os pescam e salgam".
318 Acerca da possibilidade de terem existido instalaes para defumao desde o sculo IV ou V, consultar
    S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b.
319 Curiosamente, al-Bakr nota a ausncia de cabras e carneiros em Silla,  margens do Senegal, ao passo
    que os bovinos abundam (al-Bakr, 1913, pp. 324-325). Entre 50 e 400, o boi e o peixe so importantes
    na alimentao dos habitantes de Jenn-Jeno (S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, p. 189),
    os ovinos e caprinos no aparecem seno aps 900 (p. 191). R. MAUNY (1961, p. 280) j sublinhava
    que a introduo do carneiro paleo-egpcio, com chifres voltados para baixo (ovis longipes) aparenta ser
    assaz recente no Sahel.
320 S. K. MCINTOSH e R. 1. MCINTOSH, 1980b.
500                                                                          frica do sculo VII ao XI



cerveja de milheto321; se nos aparentam terem sido encontrados vestgios seus,
entretanto, o laboratrio dever confirmar ou infirmar.
   Trs domnios alimentares muito distintos, muito separados, cujo perfil imu-
tvel permaneceu, ao menos, at o sculo XII, em que pesem os contatos322.
Portanto, em nada surpreende que, em absoluto, tudo o que se reproduzia no
Norte em matria de tcnicas agrcolas, progressos de grande importncia323,
tenha ganhado o Sul, onde os perfis agrcolas, bem adaptados ao habitat, estavam
h muito estabilizados.
   Igualmente, a introduo de determinadas tcnicas e de alguns objetos no
conduz  sua integrao s culturas do Sul. Encontrou-se em Tegdaoust fornos
capazes de atingir e provavelmente ultrapassar 1.000 oC324; a sua morfologia 
aproximada daquela de fornos encontrados em Sabra Mansriyya, na Tunsia,
aparentemente da poca fatmida, e sua utilidade estaria ligada  preparao do
vidro; talvez estivessem eles relacionados com a fabricao de prolas ou  fuso
de ligas de cobre; sem dvida, serviram eles para o teste, cem vezes repetido, na
produo de vernizes coloridos sobre cermicas. Os fornos no sobreviveram 
tempestade almorvida. Posteriormente, eles no seriam reconstrudos e, apa-
rentemente, nenhum forno comparvel tenha sido fabricado alhures. Evidente-
mente, no se trata de incapacidade tcnica, tanto menos neste caso quanto no
tocante  produo dos objetos cermicos325: estes fornos em nada correspon-
diam ao que foi, global e definitivamente, indispensvel  vida dos sahelianos e
dos seus vizinhos do Sul.
   A abundante importao de lamparina a leo de alta qualidade no foi suce-
dida seno de uma fraca imitao local326. Por quais mtodos se iluminava no
Sul?
   A chegada de objetos em cermica, torneados e envernizados, teve uma influ-
ncia frequentemente evidente sobre as formas localmente produzidas, embora
obstculos tcnicos muito identificveis oponham-se  imitao pura e simples
das formas torneadas em formas modeladas, e reciprocamente. Porm, estes
objetos importados no modificaram substancialmente a produo cermica

321 Por exemplo: al-Idrs, em J. M. CUOQ, 1975, p. 132.
322 A insistncia com a qual al-Bakr e ainda mais al-Idrs, assim como muito mais tarde Ibn Battuta,
    notam as caractersticas da alimentao dos Sdn mostra, to somente em si, que uma fronteira est
    ultrapassada, no Sahel, entres padres alimentares.
323 L. BOLENS, 1974.
324 C. VANACKER, 1979, p. 124 e subsequentes.
325 J. DEVISSE, 1981a.
326 B. SAISON, 1979, p. 505.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                        501



local, milenar em suas tcnicas, adornos e formas. Quando muito, a demanda,
considervel, de uma populao com forte poder de compra teria superexcitado
a produo l onde existiam colnias de mercadores vindos do Norte; at o
momento, considerando as toneladas de entulhos encontrados em Tegdaoust,
ns tendemos a pensar que tal vigoroso impulso tenha sito efetivamente confe-
rido s produes locais; isso criou, certamente, grandes problemas em relao
ao bitopo; entretanto, a estabilidade das formas, dos adornos e das tcnicas,
espelha a estabilidade cultural dos negros, os quais produziam estas cermicas,
inclusive para uma clientela muulmana vinda do Norte. Salvo a imitao de
algumas formas e adornos importados, a zona de produo cermica da frica
negra preserva a sua autonomia perante quela do Norte327. Tampouco foi este
ltimo quem inspirou ao Sul o gosto to vivo  o qual atualmente nos vale
descobertas sempre mais surpreendentes  pela fabricao de estatuetas antropo-
morfas (Figura 14.18) ou animais, em terracota328; antigos stios oferecem uma
bela colheita, sobre a qual cabe reflexo, antes mesmo das suntuosas produes
dos sculos XIV e XV.
    O desenvolvimento das relaes transaarianas, a forte demanda por ouro ou couro
em direo ao Norte, a mais restrita demanda de produtos do Norte, rumo ao Sul,
excetuando-se o sal, provavelmente no provocaram, at o sculo VII, profundas trans-
formaes nos modos de vida culturais dos povos do Norte e tampouco do Sul.
    Pode-se atualmente estimar que elas tampouco sejam responsveis pelas
grandes e essenciais transferncias tecnolgicas, por exemplo, no que tange aos
metais, ou porque estes ltimos so muito anteriores, quer seja porque o Sul
tenha encontrado os seus prprios meios para a produo de metais h muito
tempo. Em respeito ao cobre, trabalhado h ao menos um milnio no Sul do
Saara, aquando da acelerao das relaes aqui abordadas, sabe-se hoje atravs
das escavaes que, entre os sculos VI e VIII, foram implantadas ao Sul do



327 Muito resta a ser realizado nestas duas zonas em questo; muito amide, os pesquisadores apressam-se
    em demasia, fixando os seus raciocnios aos domnios nos quais as tcnicas laboratoriais fazem-nos con-
    sideravelmente progredir. Permanece pouco contestvel que as formas da frica negra sejam locais, que
    os adornos pintados, to notveis em Jenn-Jeno (S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, pp.
    230, 261, 453) no sejam imitaes de objetos vindos do Norte, que as taas trpode ou quadrpodes de
    Niani ou dos tellem tenham, provavelmente, origens conhecidas sobre as quais se deve trabalhar. Tudo
    ou quase tudo ainda deve ser feito neste mbito.
328 Numerosas descobertas em Tegdaoust, a serem exibidas em publicaes. J disponveis: D. ROBERT,
    1966 e fotos anexas a este artigo. Igualmente consultar S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b,
    figura 14.18, prancha IX e p. 189. Recentes descobertas no Nger incitam a pensar que no chegamos
    ao final das surpresas.
502                                                                              frica do sculo VII ao XI




Figura 14.18 Tegdaoust/Awdghust: um exemplo indito de estatueta antropomrfica (vista de perfil)
datada da poca pr-islmica. Os cabelos, os olhos e a boca so identificados atravs de impresses de uma
haste oca. A terracota est revestida de um engobo ocre. [Fonte:  Bernard Nantet.]



deserto tcnicas de fabricao  moldes de cera perdida, bronzes no chumbo329,
soldas , sem todavia ser possvel dizer se estas invenes so autctones. Em
trs esferas, no entanto, transferncias  no unicamente do Norte para o Sul 
provavelmente tm uma profundidade e uma "durabilidade" reais.
    O clebre artigo de J. Schacht330 mostrou h muito tempo, no tocante 
arquitetura, aquilo que os trabalhos de T. Lewicki revelavam sobre os inter-
cmbios humanos e econmicos: o peso dos modelos ibaditas e a sua travessia
do deserto. Trata-se aqui de fatos que, muito evidentemente, no se referem
exclusivamente  arquitetura. Seria contudo arriscado concluir, da parte ao todo,
que a introduo de projetos de mesquitas significasse a introduo, a partir do
Norte, de toda arte de construir.

329 A. RAVISE e G. THILMANS, 1978. H toda uma investigao a ser conduzida sobre os bronzes com
    chumbo; marcaes j existem para Sintiu-Bara, Tegdaoust, Igbo-Ukwu; entretanto, o eventual sentido
    de circulao desta tcnica  at o momento desconhecido. No Neoltico, na Espanha e ano Marrocos,
    igualmente fabricou-se bronzes ao chumbo, porm no se pode daqui extrair um argumento difusionista
    decisivo.
330 J. SCHACHT, 1954. Bem entendido, este trabalho mereceria ser revisto, contudo, ele forneceu uma
    slida matria para reflexo.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                      503



    Insiste-se, todavia e ainda muito amide, com a ideia nascida de uma leitura
inocente das fontes, segundo a qual a arquitetura teria sido introduzida como
cincia no Sudo pelo mansa Kank Ms aps a sua peregrinao: tal proposio
equivale a confundir a construo de alguns monumentos, mesquitas ou pal-
cios, o urbanismo prprio ao Isl, com a arte de equipar os espaos vitais, onde
comea toda arquitetura. Por muito tempo oculta pela pretensiosa arquitetura em
pedra331, em seguida aquela do parpaing e da telha ondulada, a arquitetura em
terra torna-se novamente objeto de ateno e srios estudos332. As mais antigas
construes de Tegdaoust cedem grande espao ao tijolo moldado e os muros que
ela permitiu construir l tinham amplo desenvolvimento. A arte de construir em
banco moldado333 e, provavelmente, em tijolos334  anterior s relaes saarianas
mais intensas. Como se espantar quando sabemos a importncia da arquitetura em
tijolos moldados na cultura de Nagada e na Nbia antiga e medieval335: h razes
para fortemente apostar que o continente africano tenha muito cedo dominado
esta tcnica de preparao de um material verstil e cmodo.
    No curso da islamizao, os mercadores muulmanos provavelmente trouxe-
ram para o Sul do deserto as suas prprias percepes sobre a casa, em todo caso,
o urbanismo prprio  cidade muulmana. A transformao  perfeitamente
visvel em Tegdaoust: ruas e casas fechadas surgem, em muito pouco tempo,
em lugar de projetos muito mais simples, ao final dos sculos IX e X. Pode-se
inclusive levantar a questo sobre a possibilidade de algumas tcnicas terem
atravessado o Saara do Sul rumo ao Norte. Houve interrogaes, aquando das
escavaes do palcio almorvida de Marrakesh, no tocante  descoberta de
um muro em pedra, cujas duas partes construdas estavam separadas por uma
interseco de terra336; ns encontramos, em Tegdaoust, muros que apresentam


331 Ainda assim, cabe revisar totalmente as ideias recebidas no que tange ao papel de Kank Ms. A
    arquitetura de Tegdaoust e aquela de Kumbi Saleh empregam a pedra e datam dos sculos X-XI. As
    mesquitas encontradas nestes dois stios, datadas de antes do sculo XIV, so construdas em pedra.
332 L. PRUSSIN, 1981; modelo de belo trabalho neste campo: R. J. MCINTOSH, 1976.
333 S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH (1980b, p. 189 e seguintes): entre 50 e 900, os vestgios de
    construes em banco moldado foram encontrados. R. M. A. BEDAUX e colaboradores (1978): os tolloy
    construram celeiros em placas (colombins) de argila. L. PRUSSIN (1981) acredita que a casa circular,
    construda com colombins modelados segundo tcnicas semelhantes quelas da cermica, seria aquela
    que melhor se adapta s necessidades africanas.
334 J. POLET, 1980, p. 330. O surgimento dos tijolos libera as linhas e permite o surgimento dos ngulos.
    Acerca do notvel trabalho dos tijolos, referir-se a L. PRUSSIN, 1981; R. M. A. BEDAUX e colabo-
    radores, 1978, 113.
335 Dictionnaire archologique des techniques, vol. 1, p. 167.
336 J. MEUNIE e H. TERRASSE, 1952, pp. 10-11. Este castelo de pedra, Kasr al-Hadjar, foi construdo
    em trs meses (A. HUICIMIRANDA, 1959a).
504                                                                             frica do sculo VII ao XI



algum parentesco com aquele do qual recm foi questo; podemos questionar
se os almorvidas no teriam utilizado, em Marrakesh, uma tcnica saariana
ou saheliana337. A questo no seria digna de meno se no imediatamente
subjazesse uma segunda: aquela relativa  decorao pintada nos muros. Em
Tegdaoust, para os sculos X e XI, uma decorao  at o momento sem tem-
tica  pintada em vermelho e branco  recorrente; ela  realizada sobre uma
cama de banco muito fina. Estaramos ns autorizados a efetuar a aproximao
com as decoraes com temas vermelhos e brancos, descobertos em Marrakesh
e Chichwa, da poca almorvida, assim como de questionarmos as origens das
decoraes, to clebres at os nossos dias, de Walta338 ou de Ghadmes339?
    O debate est, igual e h muito tempo, efetivamente aberto no que tange 
penetrao da tecedura e do algodo ao Sul do Saara. Atenhamo-nos a identifi-
car o que se refere ao nosso perodo. Que a nudez dos sdn seja constantemente
assinalada pelos textos deriva, muito mais, das estruturas sociomentais dos reda-
tores que de um conhecimento objetivo acerca do vesturio dos negros. No h
motivo para espanto que certo grau de "no-civilizao" esteja ligado  nudez e
 ausncia de monotesmos. A arqueologia, at o momento, no responde com
clareza definitiva. As fusaiolas esto presentes em Tegdaoust desde as origens;
entretanto, elas no seriam abundantes seno nos perodos posteriores ao sculo
XII340. O uso de roupas em algodo  provvel em Tegdaoust, para a primeira
metade do sculo XI341; aproximadamente ao mesmo momento, aparentemente
correspondem os polens de algodoeiro encontrados em Ogo342, no Senegal.
Quando descreve a zona das cidades do rio Senegal, al-Bakr diz que em Silla
so utilizados como moeda pequenas tangas de algodo fabricadas em Tirinca,
onde o algodo no  muito abundante343.
    Caso agora reunamos as informaes que oferecem os textos, no escapa-
remos  ideia segundo a qual o vesturio em algodo ainda seja, nos sculos
XI e XII, um objeto de luxo e um smbolo de classe344. Para R. Bedaux, em


337 Sob esta tica, as escavaes de Azuk so de uma grande importncia.
338 G. J. DUCHEMIN, 1950.
339 A. M. RAMADAN, 1975, pp. 135-137.
340 Uma pesquisa consagrada a 155 fusaiolas decoradas, descobertas em Tegdaoust est integrada a J.
    DEVISSE, D. ROBERLCHALEIX e colaboradores, 1983; esta pesquisa foi conduzida por D.
    ROBERTCHALEIX.
341 D. ROBERT, 1980, p. 209.
342 B. CHAVANE, 1980, p. 139.
343 Al-BAKR, 1913, pp. 325-326.
344 Al-LDRS ( J. M. CUOQ, 1975, p. 129): em Silli e Takrr, a gente do povo veste l, os mais ricos, algo-
    do; em Gao (al-ldrs, em J. M. CUOQ, 1975, p. 139), os populares esto vestidos com peles de animais,
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                                                          505



contrrio, a curva do Nger j seria, a partir do sculo XI, um grande foco de
atividade345. Este difcil e importante dossi tem muito significado para a his-
tria das relaes transaarianas; ele pode significar, para o perodo em questo,
que as importaes de tecidos a partir do Norte permaneceram importantes at
o sculo XII; porm, o debate est muito aberto346.
    O terceiro dossi  ainda mais difcil e mais leve, no atual estdio das coi-
sas, que os dois precedentes. Trata-se de saber se o brusco surgimento de uma
demanda por ouro no teria provocado a transferncia, para o Sul do Saara, desde
o sculo X, de um sistema ponderal muulmano347. A presena em Tegdaoust,
desde as origens348, de balanas capazes de pesagens de fraca amplitude, (Figura
14.19), a chegada de pesos de vidro em Tegdaoust, Gao e Kumbi Saleh349 e,
provavelmente, a outros lugares, sob outras formas350, conduzem a uma resposta
prudente, embora assaz positiva: as bases de um sistema ponderal, desde o sculo
X, teriam perfeitamente sucedido a demanda por ouro no Norte. Mas de qual
sistema tratar-se-ia? A influncia fatmida tornou-se evidente e impactante
atravs dos pesos em vidro descobertos em Tegdaoust. No teria havido outros
sistemas, posteriormente, a partir da Espanha, no mundo almorvida351?


     os comerciantes vestem roupas tecidos e os nobres (?), vestimentas especiais (izr); Azuk (al-ldrs, em J.
     M. CUOQ, 1975, p. 164), usam-se roupas em l (kadawir; trata-se do nome das vestimentas dos comer-
     ciantes de Gao). Concluses essenciais e muito diferentes do que precede em R. M. A. BEDAUX e R.
     BOILAND, J 980.
345 R. M. A. BEDAUX e R. BOLLAND, 1980, p. 15.  bem verdade que o seu raciocnio refere-se aos
    sculos XI e XII e que, durante dois sculos, muitas mudanas muito possivelmente ocorreram.
346 Em Jenn-Jeno, nenhum vestgio de algodo; as fusaiolas descobertas pertencem s ltimas etapas da
    evoluo do stio.
347 Encontrar-se-, em J. DEVISSE, D. ROBERTCHALEIX e colaboradores (1983), um ensaio sobre
    este tema, redigido por J. DEVISSE, ele se baseia em um estudo de A. LAUNOIS. Convm seguir
    especialmente os serssimos trabalhos de Garrard; referir-se a T. F. GARRARD, 1975. 1982.
348 B. SAISON. 1979, p. 688.
349 R. MAUNY, 1961, p. 415. Primeiras observaes: os pesos de Kumbi Saleh foram encontrados na parte
    do tell arqueolgico da qual atualmente sabemos provavelmente corresponder aos sculos XlV-XV, no
    mximo ao sculo XIII. Tratar-se-ia, portanto, de pesos mais recentes que aqueles de Tegdaoust. Os
    seus pesos so de 0,65g a 2,43g, no tocante aos dois exemplares inteiros e, aparentemente, de 4,10, 6,54,
    7,8g para os trs outros. Nenhum  epigrfico. Os pesos esto hoje desaparecidos. Em respeito a Gao,
    dois exemplares: 5,77 e 10,12g, aproximadamente. Trata-se aqui de pesos de muito difcil classificao
    nos sistemas conhecidos.
350 R. MAUNY, 1961, p. 416: Kumbi Saleh, sempre mediante as mesmas condies estratigrficas: pesos de
    14,85g (pedra), de 14,4g (cobre), de 20,42g (ferro), de 20,24g (ferro). Para Gao: pesos de 14,9g (cobre)
    e 9,37g (cobre), que R. MAUNY atribui ao sculo XII. Um peso (?) descoberto em Jenn-Jeno (S. K.
    MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b), pesando cerca de 7g, coloca muitos problemas e eu serei,
    at o momento presente, assaz reservado em lig-lo ao sistema muulmano.
351 A diversidade dos sistemas muulmanos  bem conhecida, quer se trate de sistemas fracos, ligados s
    moedas, ou de sistemas mais fortes. Por exemplo (S. D. GOITEIN, 1967), o sistema de referncia da
506                                                                                 frica do sculo VII ao XI




Figura 14.19 Tegdaoust/Awdghust: uma das balanas descobertas, restaurada pelo Museu do Ferro, em
Nancy. Ferro martelado, fabricao local (data provvel: sculos XI-XII) [Fonte: IMRS, Nouakchott.]




      Geniza do Cairo  o seguinte: dirham = 3,125g; ratl = 450g; kiyya = 37,5g; kintr = 45kg; o sistema
      "califal" espanhol (E. LVYPROVENAL, 1950-1953, vol. 3, p. 143 e subsequentes): kiyya = 31,48g;
      ratl = 504g, estas medidas, elas prprias, so variveis segundo a natureza das mercadorias a serem pesa-
      das; o kintr era, na Espanha, aproximadamente de 50kg e o seu quarto constitua uma arroba, peso de
      grande importncia; o dirham peso aqui equivalia a 3,148g.  necessrio, portanto, sempre que possvel,
      reconstituir o sistema ao qual se ligam os pesos encontrados. Justamente o que tentamos realizar no que
      tange Tegdaoust III, a partir dos pesos descobertos.
Comrcio e rotas do trfico na frica Ocidental                             507



   Quais teriam sido, finalmente, as consequncias da melhora nos intercmbios
transaarianos para os Estados?
   Ao Sul, evidentemente, seja pela converso ao isl, seja pela necessidade
econmica de uma construo de Estado, algo ganhou corpo, com mais fora
no Takrr, em Gana, provavelmente em Gao e talvez alhures, que fortalecesse
os poderes, conferindo-lhes relevo, fora e nova legitimidade.
   No Norte, o ouro permitiu, no  duvidoso, a construo de aparelhos de
Estado muito mais fortes que outrora. Os fatmidas, os umayyades, os almo-
rvidas, sobretudo, extraram deste ouro uma potncia que fundamentou a sua
independncia e a sua expanso. Pode-se, ainda mais, atribuir ao enriqueci-
mento destas dinastias pelo ouro, especialmente da ltima e particularmente no
Marrocos, o florescimento de uma arte excepcionalmente brilhante e original.
O Ocidente muulmano ganhou, em dois sculos, uma face de considervel
importncia, inclusive para a histria interna do mundo muulmano.
   A histria das relaes transaarianas  um bom revelador, entre outros, das
constantes renovaes da pesquisa sobre a frica. Cada descoberta obriga a
recompor as linhas do quadro. O cobre vem abalar, em duas dcadas, atravs da
Mauritnia e do Ar, toda uma srie de antigos esquemas. O que sobrevir, ao
dia em que seriamente ocuparmo-nos das possibilidades de antigas exportaes
de estanho do Bauchi, ao dia em que, seriamente explorando as referncias entre
Chade e Nilo, notaremos ter seguramente demasiado negligenciado as relaes
Leste-Oeste, em proveito das relaes Norte-Sul?
   Igualmente esforamo-nos em abrir dossis, realizar balanos, propor rumos
para a pesquisa e temas de reflexo, em absoluto, tentamos oferecer uma satis-
fatria imagem, "congelada" e "definitiva", acerca desta questo. Ainda durante
dcadas, o filme desta histria consistir em regularmente montar e remontar,
em funo de uma pesquisa que, todavia, no se encontra seno na aurora das
revelaes que ela deve trazer. Nada melhor que este tema para mostrar a impor-
tncia da arqueologia; nada pode tornar mais prudente e modesto no enunciado
dos resultados alcanados.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                        509



                                     CAPTULO 15


         A regio do Chade na qualidade de
                   entroncamento
                                   Dierk Lange
                      em colaborao com Bawaro W. Barkindo




    Zona de savanas, a regio do Lago Chade  habitada, desde antes da era
crist por povos pastores e agricultores. Ao Norte, onde a savana transforma-se
lentamente em deserto,  o elemento nmade que prevalece, embora igualmente
encontre-se osis povoados por sedentrios. Ao Sul, sobretudo nas margens dos
rios que desguam no Lago Chade, predominam as culturas de sedentrios. A
desertificao do Saara e o progressivo enxugamento do Lago Chade levaram
povos de toda parte a se aproximarem do leito diminudo deste ltimo. A reu-
nio destas populaes de regies desertificadas e os seus esforos realizados
para a adaptao,  evoluo do habitat e das condies materiais, constituem o
pano de fundo diante do qual se desdobra a histria da regio.
    Para melhor compreender o significado dos fatos histricos, seria desejvel
indicar com preciso as mudanas climticas advindas durante o perodo levado
em considerao. Com efeito, o clima da zona saheliana  particularmente mal
conhecido relativamente ao primeiro milnio da era crist. Vrios indcios mos-
tram, entretanto, que em seu conjunto as condies climticas ao longo deste
perodo eram melhores que aquelas prevalentes nos tempos atuais. Notar-se-,
especialmente, que as guas do Lago Chade escoam, entre o sculo I e o in-
cio do sculo XIII da era crist, de modo quase contnuo, no Bahr al-Ghazl,
510                                                                               frica do sculo VII ao XI



supondo um nvel 286 metros superior ao nvel do mar1. Baseando-se em dados
diversos, J. Maley estima, por outro lado, que um impulso de umidade se tenha
manifestado em meados do I milnio da era crist e que no sculo XI a regio
saheliana tenha passado por uma fase rida2. A zona dos contatos entre seden-
trios e nmades deveria portanto estender-se mais ao Norte comparativamente
 poca atual.
    Por outra parte, no  absolutamente certo que a regio do Lago Chade
tenha sempre representado um frutuoso trevo de trocas e interaes. As data-
es atualmente disponveis tocantes  difuso das tcnicas relativas ao ferro
aparentam indicar que algumas populaes da regio permaneceram por muito
tempo  margem das grandes tendncias inovadoras. A este respeito, a principal
clivagem aparenta estabelecer-se entre o Oeste e o Leste, no entre o Norte e o
Sul. Efetivamente, agora sabemos que no Sul do Ar, em Ekne Wan Aparan, a
tcnica da fabricao do ferro era conhecida desde -540  903, o que concorda
com a datao de -440 140 antes da era crist, obtida em Taruga (cultura de
Nok), no centro da Nigria4. Na regio de Termit, entre o Ar e o Lago Chade,
o ferro aparenta inclusive ter sido trabalhado no sculo VII antes da era crist5.
Alhures, as tcnicas do ferro foram adotadas muito mais tardiamente. Em Koro
Toro, entre o Lago Chade e o Tibesti, descobriu-se vestgios de uma cultura
fundada na metalurgia do ferro. Chamada haddadiana, segundo o termo rabe
designando o "forjador", esta cultura no floresceu seno entre os sculos IV e
VIII da era crist. A cermica pintada nos mesmos stios permite estabelecer
aproximaes com duas grandes civilizaes do vale do Nilo, Mero e a Nbia
crist6. Outros dados esto disponveis para a regio prxima s bordas ao Sul
do Lago Chade. Segundo dataes relativamente imprecisas, o ferro no surge
no importante stio de Dama seno nos sculos V ou VI da era crist e as
tcnicas da sua fabricao foram adotadas ainda mais tardiamente7. Estas poucas
indicaes, procedentes da arqueologia do ferro, mostram que antes da funda-




1     J. MALEY, 1981, pp. 65, 101. O nvel atual do Lago Chade est situado a 282 metros.
2     Ibid., p. 65, 278.
3     D. GREBENART, comunicao pessoal.
4     B. E. B. FAGG, 1969. Igualmente consultar R. TYLECOTE, 1975.
5     G. QUECHON e J. P. ROSEL, 1974, p. 97.
6     F. TREINENCLAUSTRE, 1978. Igualmente referir-se a P. HUARD, 1966; Y. COPPENS. 1969.
7     C. CONNAH, 1971, p. 57. Procedendo a uma reavaliao das dataes anteriores, o mesmo autor agora
      prope a data de 50 da era crist para o surgimento do ferro em Dama (G. CONNAH, 1981, pp. 146-147).
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                         511



o do Knem, a regio do Lago Chade esteve mais marcada por clivagens e
desenvolvimentos desiguais que por fatores de unificao.
    Um processo de mais rpidas e espetaculares transformaes teve incio
aproximadamente em meados do primeiro milnio da era crist. Ele foi indire-
tamente desencadeado pela introduo do camelo a partir da frica do Norte
ou, com maior probabilidade, do vale do Nilo, assim como pela sua adoo
pelos zaghwa e pelos tubu. Com efeito, o camelo, muito melhor adaptado
s condies naturais do Saara, comparativamente ao cavalo, permitia realizar
longos trajetos sem dificuldade, assegurando contudo o transporte de cargas
relativamente pesadas. Entre o Fezzn e a regio do Lago Chade, as condies
naturais eram particularmente favorveis  travessia do Saara: toda uma srie de
pequenos osis e fontes naturais d'gua e, a meio trajeto, o muito extenso osis
de Kawr, constituam o traado ideal para uma via de caravanas.
    Igualmente existia uma possibilidade de comrcio com o vale do Nilo atravs
do Drfr e do Kordofn. Porm, a ausncia de quaisquer dados arqueolgicos
precisos acerca destes itinerrios no permite seno hipteses; seria verossmil
que, em um primeiro momento, o comrcio com o vale do Nilo tenha sido o
mais importante. Em contrapartida, a existncia no Fezzn do antigo reino dos
garamantes certamente constituiu um fator importante para a organizao do
comrcio a grandes distncias8; entretanto, uma vez mais, a ausncia de indi-
cadores sobre os osis meridionais do Fezzn e do Kawr, nos quais o olho nu
entrev vestgios de fortificaes de data incerta, reduz a suscitar hipteses9.
    Entretanto,  plausvel que, desde o sculo VII da era crist, a rota do Saara
Central tenha sido frequentada por pequenas caravanas fezzanezas, pois que
`Ukba ibn Nfi', o clebre conquistador rabe, dificilmente teria logrado penetrar
at o Kawr  tal como afirmam as fontes dos sculos III/IX  caso o traado
da rota no estivesse, antes dele, estabelecido pelos comerciantes, berberes ou
zaghwa10. O osis de Kawr11 certamente no era o objetivo final destas viagens:
alm desta etapa, os comerciantes sem dvida haviam j atingido a regio do
Lago Chade. Em uma poca ulterior, a rota central tornou-se a mais importante,


8    R. C. C. LAW, 1967b.
9    D. LANGE e S. BERTHOUD, 1977; igualmente consultar H. ZIEGERT, 1969.
10   Dois autores falam da expedio de `Ukba ibn Nfi' ao Kawr: Ibn `Abd al-Hakam, 1922, p. 195 e
     al-Bakr, 1911, pp. 13-14. O primeiro escreve antes de 257/871 e o segundo compe a sua obra em
     460/1068, porm, funda-se parcialmente em fontes anteriores. Conferir captulos 9 e 11 deste volume.
11   O nome Kawr , ao que tudo indica, de origem berbere, designando "os negros". Este significado subsiste
     em Hasaniyya (Mauritnia) onde o termo kri (plural: kowlr) aplica-se aos negro-africanos de estatuto
     livre.
512                                                                               frica do sculo VII ao XI



aps o estabelecimento de um comrcio regular entre a regio do Lago Chade
e a costa mediterrnea, aps as conquistas islmicas e a ascenso dos Estados
muulmanos, antes, na frica do Norte e, posteriormente, no Saara.
    No Sul, entorno do Lago Chade, um conjunto de fatores compreendendo,
alm da penetrao comercial, a utilizao de armas e ferramentas de melhor
qualidade, alm da adoo de novos modos de vida adaptados  evoluo das
circunstncias, conduziriam  fundao e expanso de um grande conjunto
poltico, o Knem-Bornu, cujos poderio unificador e capacidade de inovao
pesariam no destino do conjunto da regio, at o incio do perodo colonial.
Entretanto, antes de fornecer mais detalhes sobre a fundao e a primeira fase
de desenvolvimento deste conjunto poltico, convm fazer um sucinto e cronolo-
gicamente equilibrado balano dos principais povos ou, haja vista a insuficincia
de conhecimentos precisos, dos conjuntos lingusticos entre o Mdio-Nger e
as montanhas do Drfr.


      Povos e lnguas da regio do Chade
    Esclarecimentos muito instrutivos no tocante  histria antiga da frica so
oferecidos pelos gegrafos rabes. Preocupados em recriarem uma "imagem do
mundo" (srat alard) to exata quanto possvel, estes autores recolheram dados
geogrficos acerca dos pases muulmanos e sobre as terras situadas alm dos
limites do Isl. Deve-se, contudo, acolher as suas informaes com certa prudn-
cia, pois a maioria dentre eles jamais esteve na frica negra e recolheram estas
informaes junto a negociantes, os quais no estavam livres de preconceitos, e
peregrinos africanos negros, dentre os quais muitos haviam h muito deixado a
sua ptria e, por conseguinte, podiam no estar devidamente a par daquilo que se
passava em sua terra natal. Quando descrevem povos estrangeiros, os gegrafos
rabes frequentemente empregam clichs literrios e os nomes que atribuem so,
muito amide, termos genricos12. Assim sendo, encontramos, invariavelmente,
indivduos zandj na frica do Leste, Habash na Etipia e sdn na frica do
Oeste, sem contudo que seja devidamente estabelecida a especificidade destes
povos. Juntamente com os termos genricos, alguns autores igualmente citam
etnnimos transmitidos por viajantes, porm a sua identificao frequentemente
coloca problemas. Ademais, a localizao destas entidades tnicas no espao


12    Em respeito ao valor das fontes rabes deste perodo, consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol.
      I, captulo 5.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                    513



permanece, de autor a outro, muito incerta. Seria necessrio aguardar a Gogra
phie de Ibn Sa'd, no sculo VII/XIII, para encontrar informaes de grande
preciso sobre a regio do Lago Chade13. Elas no teriam equivalente seno na
poca moderna.
    Antes de Ibn Sa'd, a maioria dos gegrafos rabes cita, a propsito do
Sudo central (expresso utilizada aqui como sinnimo de "regio do Chade"),
o povo zaghwa. At o sculo IV/X, os autores rabes bem informados permi-
tem deduzir que os zaghwa dominavam no Knem; no entanto, al-Idrs, no
sculo VI/XII, fornece indicaes que fazem surgir o seu carter puramente
nmade14. Negligenciando as lies das fontes anteriores, os autores modernos
frequentemente minimizaram o papel dos zaghwa, estimando terem eles sido
um grupo marginal15 ou, em contrrio, supondo tratar-se de um grupo muito
vasto, idntico aos atuais tubu16. Veremos mais adiante que, na realidade, os
zaghwa estiveram submetidos a profundas transformaes, em decorrncia de
uma mudana dinstica no Knem, sobrevinda em meados da segunda metade
do sculo V/XI. O equilbrio tnico e a relao entre sedentrios e nmades no
foram os mesmos, antes e aps o advento da nova dinastia no Knem.
    A principal fonte interna, o Dwan saltn Barn, contm uma nomenclatura
tnica que no podemos mesclar com aquela das fontes externas. Os cronistas da
corte real dedicaram-se, efetivamente, a indicar, at o final do sculo VII/XIII,
os nomes dos grupos dos quais provinham as sucessivas rainhas-mes. Assim
sendo, sabemos que nos sculos IV/X e V/XI, os reis do Knem esposavam
mulheres pertencentes aos tomaghra, aos kay e aos tubu17. Atualmente, o nome
tomaghra aplica-se a um cl existente em meio aos teda, aos knembu e aos
kanuri. O nome kay designa um cl kanuri e tubu  o nome genrico que os
knembu conferem aos teda-daza. Segundo a mais verossmil hiptese, as tra-
dies consignadas no Dwn evocam as sucessivas alianas matrimoniais entre
os reis do Knem e os diferentes grupos nmades, dos quais os reis apreciavam
a fora guerreira para assegurarem o seu poder.
    Mais a Leste, entre os zaghwa e os nba, al-Idrs situa os tdj cuja exis-
tncia, aparentemente muito remota, deve ter escapado aos anteriores autores18.


13   D. LANGE, 1980.
14   Al-Idrs, 1866, pp. 33-34; traduo, pp. 39-41.
15   Consultar, por exemplo, Y. URVOY, 1949, p. 16; A. SMITH, 1971, pp. 168-169.
16   M. J. TUBIANA, 1964, p. 18.
17   D. LANGE, 1977, pp. 27-32; traduo, pp. 67-69.
18   Al-Idrs, 1866, pp. 13, 40; traduo, pp. 15, 47.
514                                                                              frica do sculo VII ao XI



Segundo as tradies orais recolhidas pelo viajante alemo Gustav Nachtigal, os
ddjo  sem dvida idnticos aos tdj  estavam  origem da primeira formao
estatal do Drfr19. Nesta regio, a influncia nmade era menos perceptvel que
nos arredores do Lago Chade. A atual distribuio das pequenas comunidades
de indivduos ddjo, entre o planalto do Wada e os montes Nuba, assim como
as suas tradies de origem e o seu modo de vida sedentrio, indicam antes uma
origem niltica. Entretanto, no sculo VII/XIII, eles aparentam ter sofrido a
presso dos zaghwa, os quais, aps terem sido colocados  margem do poder no
Knem, aparentemente tentaram reconstituir um conjunto poltico no extremo
sul da grande via trans-saariana a interligar a regio de Drfr ao Egito20. Na
realidade, os ddjo no cederam o poder aos zaghwa mas aos tundjur, no
resistindo  assimilao seno recuando para zonas de refgio. Os zaghwa, em
contrapartida, puderam conservar a sua coeso tnica, embora a sua zona de
percursos tenha sido consideravelmente reduzida pela expanso dos teda-daza
(tubu). Ainda hoje, os rabes chado-sudaneses reconhecem a identidade dos
zaghwa (os quais, eles prprios, chamam-se beri) e dos gorhan (daza), embora
eles no subsistam seno na forma de pequenas comunidades residuais cuja
unidade no se identifica seno pelos olhos estrangeiros.
    Baseando-se em uma fonte da primeira metade do sculo VII/XIII, Ibn Sa'd
oferece indicaes muito preciosas sobre a regio do Lago Chade. Efetivamente,
sobrevm da sua Gographie que,  poca de Dnama Dbalmi (aproximada-
mente 607/1210-646/1248), os knembu todavia no haviam expulsado os
ancestrais dos buduma das ilhas do Lago Chade, alm de podermos supor que
o habitat dos kotoko estendia-se alm das terras argilosas (firki) da plancie
aluvial do Baixo Chari. Situando diversos grupos tnicos com grande preciso,
Ibn Sa'd permite supor que o vale do Komadugu Yobe ainda estaria ocupado
por comunidades bede (posteriormente assimiladas pelos kanuri ou expulsas
para os territrios dos ngizim) e que, do outro lago do Lago Chade, os kur (hoje
assimilados aos buduma) todavia habitavam em terra firme, ao Norte da entrada
do Bahr al-Ghazl. Ao Sul do lago surgem os kotoko, sob uma denominao que
aparenta pertencer  nomenclatura knembu21. Em todas estas regies, o peso
dos knembu era portanto j sensvel no sculo VII/XIII e podemos facilmente

19    G. NACHTIGAL, 1879-1881, vol. III, p. 358, traduo inglesa de A. G. B. e H. J. FISHER. Referir-se
      a G. NACHTIGAL, 1971-1980, vol. IV, pp. 273-274. Igualmente consultar UNESCO, Histria Geral
      da frica, vol. IV, captulo 16.
20 Esta via  conhecida pela expresso rabe darb al-arb'n "rota dos quarenta dias". Ela  descrita por R.
   S. O'FAHEY (1980, pp. 139-144) que assinala a sua importncia para os perodos mais recentes.
21    D. LANGE, 1980.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                   515



admitir que, em um perodo mais remoto, o territrio dos falantes das lnguas
da regio do Chade estendia-se sobre grande parte do Knem e do Bornu. Seria,
contudo, demasiado ousado considerar que todos os antigos cultivadores da
regio fossem unicamente locutores de lnguas chadianas, assim como consistiria
em erro fazer da criao de animais a exclusiva ocupao de todos os locutores
de lnguas saarianas, inclusive os proto-kanurfonos.
    Ao Sul do Lago Chade, na regio das plancies argilosas do Baixo Chari, os
kanuri entraram em contato com uma civilizao antiga, diferenciada por uma
notvel arte figurativa22. Sabemos, graas s escavaes arqueolgicas conduzidas
por G. Connah, no stio de Dama, que os habitantes das plancies firki prati-
cavam uma economia mista durante um primeiro perodo, situada antes da era
crist, associando a agricultura  criao e  pesca. Comeando no incio da era
crist, o segundo perodo estaria, segundo o autor, caracterizado pela introduo
das tcnicas do ferro. Esta importante inovao tinha uma incidncia direta
sobre a produtividade e no mbito dos processos de sedentarizao: a intensifi-
cao das atividades agrcolas e, notadamente, a prtica dos cultivos da poca da
estiagem, relegariam as outras atividades  a criao de grandes animais e a pesca
 ao segundo plano. O surgimento, durante o segundo perodo, de uma arquite-
tura em adobe mostra que os habitantes de Dama haviam adotado um modo de
vida sedentrio incompatvel com as necessidades da transumncia. Durante o
terceiro perodo, estendido de aproximadamente 700 a aproximadamente 1050,
os habitantes das plancies firki comearam a viver em meio a maior abun-
dncia: diferentes objetos do comrcio de longa distncia apresentam-se, pela
primeira vez, e encontra-se vestgios de um artesanato em tecido (muito tempo
antes do isl). A produo de objetos antropomorfos e zoomorfos aparenta,
durante este perodo, ter ganho novo impulso e, de modo indito, ceramistas de
Dama fabricaram jarros de muito grande dimenses, os quais atualmente so
considerados pelos habitantes da regio como signo distintivo dos "sao". Outra
grande inovao diz respeito s fortificaes. Em Dama, Connah pde tornar
pblico os restos de um fosso, em torno do outeiro de habitao e em outras
elevaes de habitaes, possivelmente, tenha havido procedimento de proteo,
atravs da edificao de um muro de defesa23. Indubitavelmente, no  ousado
em demasia entrever, com o surgimento de obras defensivas, indcios primeiros


22   J. P. LEBEUF e A. M. DETOURBET, 1950; J. P. LEBEUF e A. LEBEUF, 1977. Os trabalhos arque-
     olgicos de J. P. LEBEUF primam, infelizmente, pela ausncia de qualquer preocupao cronolgica.
23   O enunciado das sequncias cronolgicas da "cultura de Dama" segue de perto os raciocnios de G.
     CONNAH (1981, pp. 99-196).
516                                                                               frica do sculo VII ao XI



de uma ameaa externa que, posteriormente, pesaria fortemente sobre o destino
dos cultivadores da plancie do Chari. Esta ameaa pode, sem grande esforo,
ser identificada  expanso dos knembu.
    Aps ter sofrido durante longos sculos o impacto poltico e cultural do
Knem-Bornu, os atuais habitantes das plancies firki, os kotoko, utilizam o
termo sao ou soo para designarem os seus ancestrais. Haja vista que encontramos
o mesmo termo em todas as regies onde os povos do Knem ocuparam o posto
de populaes anteriores, pode-se estimar que este termo pertencesse primei-
ramente  nomenclatura knembu, designando invariavelmente as populaes
autctones incapazes de resistirem  assimilao24. No sentido preciso, a expres-
so "civilizao sao" deveria portanto aplicar-se tanto  cultura relativamente
bem conhecida dos kotoko  o que corresponde ao seu consagrado emprego
atual25  quanto s antigas culturas da Komadugu Yobe e da poro meridional
do Bahr al-Ghazl. Como nada aparenta aproximar estas trs entidades no plano
arquitetnico, somente o parentesco lingustico pode conferir um semblante de
unidade a estes conjuntos dspares.
    Todavia, para os perodos mais remotos, a lingustica comparada fornece
alguns ndices de interesse no negligencivel. Admite-se atualmente que as ln-
guas chadianas constituam um ramo da grande famlia afro-asitica (chamito-
-semtica). A coerncia do conjunto chadiano deve explicar-se, sem dvida,
por uma longa evoluo das protolnguas em um meio geogrfico favorvel aos
contatos lingusticos e intercmbios. Pode-se estimar que as condies eram
ptimas, em vrias regies meridionais do Saara Central, quando suficiente-
mente regadas durante os perodos midos. No incio do terceiro milnio antes
da era crist, as condies de vida comearam a rapidamente se deteriorar e,
possivelmente, os protochadfonos estiveram deste esta poca forados a recu-
arem para regies mais meridionais. Porm, tampouco est descartado que o
abandono do Tnr e das regies vizinhas por estas populaes date de um
perodo mais recente. Entrando em contato com grupos negro-africanos, elas
progressivamente perderiam as suas caractersticas sudano-mediterraneanas.
Hoje, encontramos os diferentes grupos falantes das lnguas chadianas implan-
tados em zonas de refgio entre o Nger e o planalto do Wada. Entre estes
grupos, somente os haussas desenvolveram um novo dinamismo conduzindo



24    Na regio de Dama, os kotoko adotaram o kanuri somente aps algumas geraes.
25    Notaremos que Connah, nitidamente distingue as culturas das plancies firki daquelas do vale do Koma-
      dugu Yobe, no mais empregando o termo "sao" para designar uma cultura arqueolgica precisa.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                  517




Figura 15.1   Objetos em bronze provenientes das escavaes de Houlouf (norte de Camares). [Fonte:
A. Holl.]
Figura 15.2   Jarro de pr-apresentao humana proveniente de Houlouf (norte de Camares). [Fonte: A.
Holl.]
518                                                                                       frica do sculo VII ao XI




Figura 15.3      O outeiro de Deguesse, no extremo norte de Camares. [Fonte: A. Holl.]




 re-expanso da sua lngua. Porm, a histria da "decolagem econmica" das
cidades-Estado haussa pertence a um perodo ulterior26.
    A segunda grande famlia lingustica da regio do Chade  o nilo-saariano.
Contrariamente ao afro-asitico, as lnguas desta famlia no ultrapassam o
domnio negro-africano. A lngua mais ocidental deste grupo  o songhai, falado
em toda a extenso ribeirinha do rio Nger, de Jenn a Gaya. Entretanto, existem
igualmente, mais ao Norte, pequenos grupos de cultivadores de osis (sudaneses)
e alguns nmades cameleiros (de origem berbere), as quais utilizam diferentes
formas dialetais do songhai27. O segundo subgrupo do Nilo-saariano  formado
pelo saariano (zghwa, teda-daza e knembu-kanuri)28. Atualmente, o songhai
no mais est em contato com lngua alguma saariana, porm as numerosas
formas lexicais comuns aos dois conjuntos lingusticos autorizam supor que
pastores sudaneses (e, possvel e igualmente agricultores), falantes das lnguas

26    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 11.
27    R. NICOLA, 1979.
28    A classificao lingustica aqui seguida  aquela de J. H. GREENBERG, 1963b. P. F. LACROIX (1969) con-
      testou a incluso do songhai  famlia nilo-saariana, porm, R. Nicola mostrou (obra no prelo) que o parentesco
      entre o songhai e o saariano  ainda mais estreita, comparativamente ao imaginado por J. GREENBERG.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                           519



nilo-saarianas, tenham ocupado grande parte da regio entre a curva do Nger
e as montanhas do Ennedi. A continuidade geogrfica deste povoamento deve
ter sido rompida pelo efeito conjunto da desertificao do Saara e do avano dos
lbio-berberes, nos ltimos sculos antes da era crist29. No Oeste, as populaes
falantes do proto-songhai estariam na origem da fundao de Kw-Kw (Gao),
ao passo que na regio do Lago Chade, os grupos falantes do proto-saariano
imporiam o seu domnio no Knem. A diferenciao lingustica, relativamente
fraca, no interior do grupo saariano, pode explicar-se, sem demasiada dificul-
dade, graas  posterior histria do Knem, assim como, especialmente, pela
evoluo das relaes entre o poder central e os diferentes grupos de "nmades
negros" do Saara30.


     O reino dos zaghwa
   A primeira meno ao nome Knem nas fontes escritas deve-se a al-Ya'kb,
que escreve em 258/872. Este autor ensina-nos que em sua poca o Knem
estava sob domnio de um povo de nome zaghwa31. O mesmo povo igualmente
 mencionado por Ibn Kutayba (morto em 276/889), que se funda com base em
uma informao do incio do sculo III/VIII32. Ao final do sculo IV/X, outro
autor rebe, al-Muhallab, fornece-nos numerosas informaes acerca do rei dos
zaghwa, das ele enfatiza, entre outras, que o seu reino correspondia quele do
Knem33. O domnio dos zaghwa no Knem no chegaria ao seu final seno
aproximadamente em 468/1075, quando uma nova dinastia, aquela dos sefwa,
toma o poder no quadro do mesmo Estado, expulsando os zaghwa para o Leste,
rumo a uma regio onde ns os encontramos ainda nos tempos atuais34.
   No entanto, qual era o papel exato dos zaghwa no tocante  fundao do
Knem? Al-Ya'kb pretende que os diferentes povos da frica do Oeste por


29   Segundo P. J. MUNSON (1980, p. 462), a regio do Dhr Tisht (Mauritnia) foi invadida por guerreiros
     lbio-berberes no sculo VII antes da era crist. A chegada dos lbio-berberes no Ar est atestada desde
     +730  40 (stio de Iwalen, ao Sul do monte Grebun) ( J. P. ROSET, comunicao pessoal).
30   A expresso  de J. CHAPELLE, 1957. No tocante  evoluo das relaes entre o Knem e os grupos
     nmades, encontrar-se- indicaes mais precisas em UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap-
     tulo 10. Em suplemento, poder-se-o consultar os artigos seguintes, contendo algumas interpretaes
     mais recentes: D. LANGE, 1978, 1982a.
31   Al-Ya'kb, 1883, vol. I, pp. 219-220; J. M. CUOQ, 1975, p. 52.
32   Ibn hutayba, 1850, p. 14; J. M. CUOQ, 1975, p. 41.
33 Al-Muhallab, em Ya'kb, 1866-1873, vol. 2, p. 932; J. M. CUOQ, 1975, p. 79.
34 D. LANGE, 1977, pp. 124-129. Acerca dos zaghwa atuais, conferir M. J. TUBIANA, 1964.
520                                                                              frica do sculo VII ao XI



ele conhecidos "tomaram posse dos seus reinos" aps uma longa imigrao do
Leste rumo ao Oeste: "O primeiro dentre os seus reinos  aquele dos zaghwa.
Eles estabeleceram-se em uma localidade chamada Knem. As suas habitaes
so cabanas de junco e no possuem cidades. O seu rei chama-se Krura. Entre
os zaghwa, h uma espcie de chamada hawdn. Eles tm um rei zaghwa35".
    Segundo o contedo explcito do texto, os zaghwa teriam portanto sido
os primeiros habitantes do Knem, o que, a priori, aparenta ser totalmente
inverossmil. A meno de uma espcie particular de zaghwa, os hawdn36,
aparentemente indicaria, ao contrrio, que os zaghwa absolutamente seriam
um povo homogneo.
    Em contrapartida e provavelmente, uma aristocracia dominante  da qual
haviam sado, a um s tempo, o rei do Knem e aquele dos hawdn  dera o seu
nome ao conjunto das populaes nos dois pases.
    Al-Muhallab, um sculo mais tarde, confere preciso importante, segundo
a qual os zaghwa (lato sensu) eram compostos por numerosos povos. Sem
falar da aristocracia dominante (os "verdadeiros" zaghwa), ele insiste muito na
potncia, inconteste, do seu rei: "[Os zaghwa] veneram o seu rei e adoram-no
em lugar de Deus o Todo-Poderoso. Eles imaginam que ele no se nutre. Os
seus servidores a ele trazem-na secretamente, a comida, s suas casas; no se
sabe donde ela provm. Quando acontece a um destes sujeitos de encontrar o
camelo que carrega as provises, matam-no no lugar [...]. Sendo absoluto o seu
domnio sobre estes sujeitos, ele reduz  escravatura quem deseje [...]. A religio
[dos zaghwa] consiste na adorao dos seus reis: eles acreditam deles provir o
nascer e o morrer, cabendo-lhes o domnio sobre a doena e a sade"37.
    O grande poderio do rei dos zaghwa, j perceptvel no trecho muito mais
sucinto de al-Ya'kb e no ritual muito elaborado descrito por al-Muhallab,
devem equivaler  resultante de considervel nmero de fatores, tal qual assinala-
mos acima. Por outra parte, tampouco  plausvel que a fundao do Knem seja
o resultado de uma massiva invaso de migraes diversas, como imaginaram
alguns autores. A mais verossmil hiptese consistiria em supor que um pequeno
grupo, em razo de um violento conflito, tenha desencadeado a edificao de um
Estado, em uma regio onde as tcnicas do ferro eram conhecidas desde o sculo
IV da era crist (cultura haddadiana) e onde a posse de cavalos no to somente


35    Al-Ya'kb, 1883, pp. 219-220: J. M. CUOQ, 1975, p. 52.
36    No est excluda a hiptese segundo a qual este nome designe o povo haussa,  imagem daquilo em que
      igualmente acreditam outros autores modernos.
37    Al-Muhallab, em Ya'kb, 1866-1873, vol. 2, p. 932; J. M. CUOQ, 1975, p. 79.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                  521



era sinal de elevadssimo prestgio, mas, igualmente, igualmente a garantia de
uma combatividade superior. Sem dvida dispondo de armas de ferro e tirando
proveito dos intercmbios, ainda rudimentares, com o mundo exterior, este
grupo  os zaghwa, indiscutivelmente  imps-se progressivamente perante as
populaes de pastores e agricultores, habitantes da regio situada a sudeste do
Kawr, entre o Lago Chade e o Bahr al-Ghazl38, regio posteriormente cha-
mada Knem. Provavelmente, a aristocracia dominante dos zaghwa, quanto a
ela, no se reconstituiria seno posteriormente, embora segundo esta hiptese,
os zaghwa possam no ter em seu conjunto tido uma identidade tnica distinta
dos principais grupos de agricultores e pastores, sobre os quais se estendia o seu
domnio inicial. Aparentemente, no seria seno em uma fase ulterior, muito
posterior,  poca de al-Muhallab, que diversos grupos tnicos teriam sido
integrados no quadro de uma mesma estrutura estatal.
    Al-Idrs, em meados do sculo VI/XII, distinguiria o reino dos zaghwa e
aquele do Knem; foi justamente o seu testemunho que induziu muitos histo-
riadores ao erro, no que tange ao papel dos zaghwa na regio do Lago Chade.
Na realidade, sobressai claramente, do conjunto de indicaes reportadas por
al-Idrs sobre o Sudo Central, que ele justape informaes referentes a dois
perodos distintos da histria do Knem: a poca da dominao dos zaghwa e
a poca dos sfuwa. Ao invs de colocar estas informaes em perspectiva his-
trica, o autor as projeta no plano geogrfico39. Ibn Sa'd, no sculo VII/XIII,
situa os zaghwa a Leste do Knem, nas circunvizinhanas dos ddjo  onde
eles vivem at os dias atuais , precisando que a maioria dos seus estava, nesta
poca, sob domnio do rei do Knem40. A partir do conjunto destes elementos,
evidencia-se definitivamente mais fcil explicar a origem dos zaghwa atravs do
nascimento e do crescimento do Estado do Knem, preferivelmente a postular a
anterioridade de um grupo tnico dos zaghwa, homogneo e distinto de todos
os outros grupos da regio, o qual, por uma conquista passiva das populaes
autctones, teria provocado a fundao do maior e mais antigo Estado edificado
entre o Nilo e o Nger.
    Podemos ainda dar um passo adiante: caso seja verdade que a histria do
Knem e aquela dos zaghwa componham, at o sculo V/XI, uma indissocivel
unidade, pode-se inferir que a primeira meno aos zaghwa, devida a Wahb b.


38   Trata-se aqui da vertente do Lago Chade, a no confundir com o afluente do Nilo Branco, de mesmo
     nome.
39   Al-Idrs, 1866, pp. 12-15 e 33-34; J. M. CUOQ, 1975, pp. 141-151.
40   Ibn Sa'd, 1970, p. 96; J. M. CUOQ, 1975, p. 211.
522                                                                      frica do sculo VII ao XI



Munabbih, j indique a existncia de um Estado do Knem. Wahb b. Munabbih
era um dos clebres tradicionalistas do Imen  poca umayyade (morto apro-
ximadamente em 112/730). O seu testemunho foi reportado por Ibn Kutayba
(213/828-276/889). Excetuando-se os zaghwa, o texto ainda faz meno aos
nba, aos zandj, fezzn , habash, coptas e berberes41. Notar-se- sobretudo que,
segundo este antigo testemunho, os zaghwa distinguem-se, a um s tempo, dos
fezzn (sucessores dos garamantes) e dos berberes. Os zaghwa so novamente
mencionados no incio do sculo III/IX, pelo grande gegrafo al-Khuwrizm
(morto aproximadamente em 231/846), que os localiza no mapa, simultanea-
mente, ao Sul do Fezzn e ao Sul do reino nbio de `Alwa42. Meio sculo mais
tarde, al-Ya'kb situa, como vimos, o reino dos zaghwa no Knem. Caso, aps
este ltimo, al-Muhallab no tivesse descrito o reino dos zaghwa com riqueza
de detalhes, sem falar do Knem, poder-se-ia estar tentado a entrever, a partir
da ocorrncia do nome Knem, sob a pluma de al-Ya'kb, o indcio da ultra-
passagem, pelos habitantes desta regio, de uma importante etapa no processo
geral de sedentariedade. Na realidade, tudo leva a crer que a noo referente
a zaghwa, tanto quanto aquela tocante a Knem, compreendem uma mesma
realidade: a primeira meno dos zaghwa, remontando ao incio do sculo II/
VIII, aparenta perfeitamente indicar que o grande Estado, na desembocadura
sul do eixo central saariano, j existia nesta poca. Caso seja verdade, por outro
lado, que no sculo VII/XIII os tradicionalistas autctones do Knem tivessem
conhecimentos muito extensos acerca das genealogias reais e encontrarmos
vestgios destes conhecimentos no Dwnn e nas indicaes transmitidas por
al-Makrz, no incio do sculo IX/XV, podemos inclusive situar o incio do
Estado do Knem em uma poca ligeiramente anterior  hgira43. A expedi-
o de `Ukba ibn Nfi', nos primrdios da conquista rabe, rumo ao Kawr, 
reveladora da importncia das trocas norte-sul nesta regio. O regulador destes
intercmbios era, sem dvida, um Estado sudans fora do alcance dos rabes.
    Fundamentados, essencialmente nas tradies orais, alguns autores rabes
consideraram os sao como os habitantes autctones do Knem, os quais teriam
desde muito sofrido as presses dos povos em estado nmade das zonas mais
setentrionais44. Sedentrios e vivendo em comunidades baseadas em vilarejos


41    Ibn Kutayba, 1850, pp. 12-13; J. M. CUOQ, 1975, p. 41.
42    Al-Khuwrizm, 1926, p. 6; J. M. CUOQ, 1975, p. 44.
43    D. LANGE, 1977, pp. 141-143.
44    Y. URVOY, 1949, pp. 17-30; J. S. TRIMINGHAM, 1962, pp. 105-106, 110-111; J. D. FAGE, 1969;
      R. COHEN, 1962.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                    523



 eventualmente em pequenas cidades fortificadas , eles teriam estado orga-
nizados, desde remotos tempos, em chefaturas. Aps serem conquistados pelos
nmades zaghwa, estes ltimos ter-lhes-iam tomado por emprstimo as formas
de organizao poltica capazes de permitir a constituio de um Estado em
larga escala.
    Com efeito, nenhum dos pressupostos desta histria da fundao do Knem
pode apoiar-se em bases slidas: nem a clivagem fundamental entre nmades
e sedentrios, tampouco a distino entre autctones e estrangeiros, e sequer
o postulado da remota existncia de uma populao (ou civilizao) sao so
admissveis. Nas fontes escritas, os sao surgem pela primeira vez em meados
do sculo VIII/XIV (dwn)45 e so mencionados por diferentes autores do
sculo X/XVI: nesta poca, o termo sao aplica-se a um conjunto de populaes
estabelecidas a Leste e sudeste do Lago Chade, falantes das lnguas chadianas.
No seria seno no decorrer da sua longa resistncia  expanso do Knem-
-Bornu que estas populaes desenvolveriam formas de organizao poltica e
social, as quais lhes confeririam o seu carter distintivo. Atribuir aos autctones
do antigo Knem as caractersticas desenvolvidas em uma poca relativamente
recente, por autctones do Bornu (situado a Oeste do Lago Chade), subjaz de
um grave anacronismo.
    Por outra parte, nada autoriza concluir em favor de uma clivagem fundamen-
tal, especialmente de ordem tnica, entre nmades e sedentrios ou autctones e
estrangeiros,  poca do antigo Knem. Por exemplo, seria totalmente arbitrrio
supor que os habitantes autctones do Knem falassem,  imagem dos sao,
uma lngua chadiana. Caso, em contrrio, admitssemos certa homogeneidade
cultural entre os grupos sedentrios e nmades  tal como ela existe, ainda
atualmente, entre os sedentrios knembu e os nmades tubu e daza (falantes
das lnguas saarianas, estreitamente aparentadas) , melhor compreenderamos
como uma aristocracia,  imagem daquela dos zaghwa (atual e igualmente,
povo falante de uma lngua saariana), tenha logrado impor-se sobre o restante
da populao sem contudo, por conseguinte, que a clivagem entre dois grupos
de populaes suscitasse, particularmente, a ateno dos estrangeiros. O teste-
munho de al-Muhallab  nico contendo informaes sobre a vida social  leva
a pensar em uma tranquila coabitao entre agricultores e pastores; o poder de
coao aparenta estar confinado ao rei: "[O reino dos zaghwa]  realado de


45   No tocante s alianas matrimoniais dos reis do Knem, o Dwn indica, para o sculo VI/XII, os nomes
     de algumas "tribos" sedentrias do Knem, estes nomes aparentemente so encontrados na populao do
     atual Knem (consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 10).
524                                                                               frica do sculo VII ao XI



ponta a ponta. As suas casas so todas cabanas de junco tanto quanto os palcios
do seu rei [...]. Haja vista o seu absoluto domnio sobre os seus sujeitos, este
ltimo reduz  escravatura quem desejar. A sua riqueza reside no plantel: ovinos,
bovinos, camelos e cavalos. As principais culturas do seu pas so o milheto,
o feijo e tambm o trigo. A maioria dos seus sujeitos circulam nus, somente
vestidos com tangas em couro. Eles vivem da agricultura e da criao46".
    O reino dos zaghwa, todavia, no  apresentado neste texto como um con-
junto totalmente homogneo. Ao contrrio, o autor imediatamente afirma ser
ele composto de "numerosas naes" (umam), o que claramente indica a coexis-
tncia de diferentes etnias, no quadro de uma mesma organizao estatal. Ao
final do sculo IV/X, o reino dos zaghwa, nitidamente, tomara considervel
extenso, no mais se limitando  regio habitada por grupos aparentados de
lngua saariana: o Knem, em sentido prprio, situado entre o Lago Chade e o
Bahr al-Ghazl, ainda constitua o centro do reino; entretanto, na sua periferia,
outros povos a eles foram submetidos. Segundo al-Muhallab, a sua extenso
equivalia a quinze dias de caminhada, tanto quanto a sua largura. A propsito
de Kw-Kw, o mesmo autor afirma que o reino dos zaghwa era mais extenso,
porm aquele de Kw-Kw era mais prspero47.  incontestvel que desde esta
poca, o maior Estado do Sudo Central muito contribuiu para a expanso das
lnguas saarianas e com a assimilao cultural dos povos limtrofes. No seria
seno mais tardiamente que as cidades-Estado dos huassa nasceriam em sua
fronteira ocidental e que o reino do Bagirmi consistir-se-ia no sudeste do Lago
Chade, no pas dos locutores do sara-bongo-bagirmianno, os quais por sua vez
contribuiriam para a expanso de outras culturas sudanesas48.
    No Knem, configurou-se nesta poca outra evoluo que tem a sua impor-
tncia: o progresso da sedentarizao e o nascimento de pequenas cidades.
Al-Ya'kb, ao final do sculo III/IX, escreve em todas as letras que os zaghwa
no tinham cidades49. Escrevendo mais de um sculo depois, al-Muhallab, em



46    Al-Muhallab, em Ykt, 1866-1873, vol. 2, p. 932; J. M. CUOQ, 1975, p. 79.
47    Ibid., vol. 4, p. 329; J. M. CUOQ, 1975, pp. 77-78.
48    No que tange  formao das cidades-Estado huassa, conferir A. Smith, 1970, e UNESCO, Histria
      Geral da frica, vol. IV, captulo 11. No tocante  origem do Bagirmi, faz-se aparentemente necessrio
      admitir uma data muito mais remota que aquela sugerida pelas tradies orais. O Dwn traz, efetiva-
      mente, a indicao segundo a qual `Abd Allh b. Kaday (aproximadamente 713/1313-737/1337) teria
      conduzido uma guerra contra o senhor do Bagirmi (para. 21). Por outro lado, h fortes indcios que o
      nome "Bakarmi", indicado por Ibn Sa'd (meados do sculo VII/XIII), igualmente designe o Bagirmi
      (Ibn Sa'd, 1958, p. 49); J. M. CUOQ, 1975, p. 217.
49    Al-Ya'kb, 1883, vol. 1, pp. 219-220; J. M. CUOQ, 1975, p. 52.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                          525



contrapartida, cita os nomes de duas cidades, Mnn e Tarzak50. A cidade de
Mnn -nos igualmente relatada pelo Dwn, e Ibn Sa'd, no sculo VII/XIII,
precisa que ela era a capital dos "ancestrais pagos" dos sfuwa51. Veremos, entre-
tanto, que os reis do Knem continuam, no sculo V/XI e na primeira metade do
sculo VI/XII, a buscar as suas principais mulheres junto a dois grupos nmades,
os tomaghra e os tubu. No seria seno na primeira metade do sculo VII/XIII
que, sob o reino de Dnama Dbalmi (aproximadamente 607/1210-646/1248),
os elementos sedentrios tomariam definitivamente a dianteira. Esta evoluo
progride em paralelo com o progresso da islamizao.


     Os progressos da islamizao
    As fontes escritas fornecem muito pouca informao diretamente ligada ao
crescimento do Isl no Knem ou nas regies vizinhas, restando-nos estarmos
reduzidos a empregar elementos informativos dspares para formular uma ideia
mnima acerca do processo que, primeiramente,  converso dos reis da antiga
dinastia, em seguida,  queda dos zaghwa e o advento dos sfuwa. No tocante
aos primrdios do Knem, muito bem estabelecido est que o Isl no desem-
penhou papel algum na fundao deste grande Estado sudans, e tampouco nas
primeiras fases do seu desenvolvimento. No Kawr, extremo norte da regio do
Sudo Central, o Isl fez uma breve apario com a expedio de `Ukba ibn
Nfi', pouco aps a metade do sculo I/VII, porm, sem aparentemente deixar
marcas profundas. Somente a partir do sculo II/VIII, quando os berberes do
Fezzn e aqueles do Kawr converteram-se massivamente, o Isl penetrou nas
regies mais meridionais.
     imagem de muitas cabilas berberes, os habitantes do Fezzn primeira-
mente adotaram uma forma heterodoxa do isl, o ibadismo, associando-se assim
 causa dos kharidjitas. Situado na desembocadura norte do eixo das caravanas
do Saara Central, o Fezzn controlava o essencial das trocas comerciais entre
a regio do Lago Chade  e a fortiori os osis do Kawr  e o mundo muul-
mano do Mediterrneo. Portanto, era assaz provvel que a primeira forma do
isl, difundida ao Sul do Saara por comerciantes berberes, fosse precisamente o


50   Al-Muhallab, em Ya'kb, 1866-1873, vol. 2, p. 932. No Kawr, al-Muhallab menciona as cidades de
     Bilma e al-Kasaba (ibid.). Djdo, situada mais a norte e afastada da grande via trans-saariana, talvez j
     fosse um lugar de parada na rota conduzindo a Wargla.
51   Ibn Sa'd, 1970, p. 95; J. M. CUOQ, 1975, p. 209.
526                                                                         frica do sculo VII ao XI



ibadismo. Encontramos um sinal que indiretamente testemunha da influncia
ibadita no Knem em uma informao bibliogrfica referente a Ab `Ubayda
`Abd al-Hamd al-Djinwun um governador do Djabal Nafsa  regio na qual
o ibadismo ainda est presente nos dias atuais. Com efeito, o governador em
questo, habitante desta regio na primeira metade do sculo III/IX, segundo
esta nota, conhecia a lngua do Knem, alm do berbere e do rabe52. Indubi-
tavelmente, teria ele aprendido esta lngua aquando de uma estada no Sudo
Central.
    No Fezzn, a situao muda no incio do sculo IV/X, quando a nova dinastia
dos Ban Khattb chega ao poder; a partir desta poca, os gegrafos rabes no
mais fazem meno das crenas heterodoxas dos berberes fezzaneses e, muito
provavelmente, a mudana poltica igualmente provocou uma reorientao reli-
giosa. Isso no implica forosamente que, mais ao Sul, a passagem do ibadismo
para o sunismo se tenha operado com a mesma rapidez, embora em prazos mais
longos, a resistncia kharidjita viesse a estender-se igualmente neste territrio.
Na realidade, nada de muito preciso pode ser dito sobre este tema e notaremos
que al-Ya'kb  que no entanto atesta a existncia do ibadismo em Zawla
(capital do Fezzn)53  contenta-se, em respeito aos habitantes do Kawr, em
observar que eram muulmanos: "Alm de Zawla, a quinze dias de caminhada,
encontramos a cidade (madna) chamada Kuwwr, a qual habita uma populao
muulmana composta de diferentes cabilas. Em sua maioria so berberes. Eles
traficam escravos [sdn]54".
    Deste texto, sobressai claramente que na segunda metade do sculo III/
IX, o Kawr era habitado por berberes; a sua atividade principal aparenta ter
sido o comrcio de escravos. As outras populaes mencionadas eram, ao que
tudo indica, sudanesas, talvez j indivduos tubu, os quais atualmente l vivem
juntamente com populaes kanuri. A maioria dos escravos, trazidos ao Fezzn
pelos comerciantes berberes do Kawr, sem dvida provinham do Knem, onde
o rei dos zaghwa "transformava em escravo quem ele quisesse, entre os seus
sujeitos"55. Al-Ya'kb, ele prprio, precisa que "os reis dos sdn vendem os
sdn (os seus sujeitos?) sem motivao e independentemente de qualquer



52    Al-Shammkh, Kitb al-siyar, citado segundo T. LEWICKI, 1964, pp. 309-310; igualmente consultar
      T. LEWICKI, 1969, p. 97; J. M. CUOQ, 1975, p. 167.
53    Al-Ya'kb, 1892, p. 345; J. M. CUOQ, 1975, p. 49.
54    J. M. CUOQ, 1975, p. 49.
55    Al-Muhallab, em Ya'kb, 1866-1873, vol. 2, p. 932
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                      527



guerra56". Isso no  plausvel caso aceitemos o fato, segundo o qual, para ali-
mentar as suas trocas com o mundo exterior, o rei do Knem tinha considervel
necessidade de escravos57. Ele provavelmente os capturava, em sua maioria, em
meio aos povos vizinhos. No havia da sua parte nenhum interesse na expanso
do isl nestas populaes, pois a jurisprudncia muulmana formalmente inter-
dita que um muulmano livre seja tornado escravo.
    Porm, desde esta poca, os reis do Knem aparentam ter mantido rela-
es diplomticas com os Estados muulmanos da frica do Norte. As fon-
tes disponveis contm as seguintes informaes: Ibn Khattb, governador de
Zawla, recebeu em 382/992 um presente de um dos pases do Bild alSdn
cujo nome no est especificado58, porm, em razo da posio geogrfica de
Zawla, podemos supor que se tratava de Knem; o sulto zrida da Ifrkiya,
al-Mansr (373/984-386/996) recebeu igualmente no mesmo ano um presente
expedido por um pas do Bild alSdn cujo nome no est indicado59. Um
dos seus sucessores, al-Mu'izz (406/1016-454/1062), recebeu em 422/1031
um presente em forma de escravos, enviados por um malik alsdn60. No se
pode ter certeza que era realmente o rei do Knem que estava  origem destas
misses diplomticas61; entretanto, sabemos que este ltimo ao menos estava
em contato com a Ifrkiya (Tunsia), pois, segundo al-Muhallab, ele portava
vestimentas em seda de Ss (Sousse)62. No tocante a um perodo ulterior, Ibn
Khaldn indica que os reis do Knem estavam em relao com a dinastia haf-
sida (625/1228-748/1347) desde a sua fundao e assinala, particularmente,
que "o rei do Knem e senhor do Bornu" enviou em 1257, ao sulto hafsida
al-Mustansir (647/1249-675/1277), uma girafa que causou grande emoo em
Tnis63. No causa espcie que o rei, um dos grandes fornecedores de escravos,
que em seu pas possua um tipo de monoplio no tangente  sua aquisio, se


56   Al-Ya'kb, 1892, p. 345.
57   O nmero de escravos exportados pelo Knem em direo ao Norte deve ter sido considervel. Zawla,
     situado na rota entre o Knem e Trpoli, era, segundo vrias fontes, o maior mercado de escravos do
     Saara (al-Ya'kb, 1892, p. 345; al-Istakhr, 1870, p. 40; al-Bakr, 1911, p. 11; J. M. CUOQ, 1975, pp.
     49, 65, 81).
58 Ibn `Idhr al-Marrkush,1948-1951, vol. 1, p. 247 ; J. M. CUOQ, 1975, pp. 219-220.
59   Ibn `Idhr al-Marrkush,1948-1951, vol. 1, p. 275.
60   Ibid.
61   Estamos informados com muito maior preciso acerca das relaes diplomticas entre o Bornu e Trpoli
     no sculo XI/XVII: os enviados do rei de Bornu remetiam aos governadores mensagens escritas e pre-
     sentes (referir-se a D. GIRARD, 1686).
62   Al-Muhallab, em Ykt, 1866-1873, vol. 2, p. 932.
63   Ibn Khaldn, 1852-1856, vol. 1, p. 262, 429; consultar J. M. CUOQ, 1975, p. 351.
528                                                                              frica do sculo VII ao XI



tenha assegurado da boa vontade dos seus principais clientes. Aos olhos dos reis
muulmanos, o seu estatuto religioso no tinha, indubitavelmente, seno pouca
importncia relativamente ao seu peso econmico.
    As relaes comerciais com os pases da frica do Norte e os frequentes
contatos com os comerciantes muulmanos no podiam perdurar por muito
tempo sem que o Isl fizesse progressos considerveis na circunvizinhana do
rei e em algumas camadas da sua populao. Sem dvida, no se deve criar uma
imagem da progressiva islamizao do Knem, como um processo contnuo de
crescimento: teria sido surpreendente caso o rei e a aristocracia zaghwa no
tivessem tentado frear um movimento passvel de abalar a ordem econmica
sobre a qual estava fundado, ao menos parcialmente, o seu poder. A este respeito,
notaremos com interesse que, segundo as informaes do Dwn, Ark b. Bl
(aproximadamente 414/1023-459/1067)  um dos ltimos reis zaghwa64  teria
instalado colnias de escravos em diferentes osis do Kawr e inclusive em
Zayl', no Sul do Fezzn  regio hoje pertencente  Lbia. Estas informaes
so, evidentemente, de difcil comprovao65, porm compreender-se-ia perfei-
tamente caso Ark b. Bl, levado por um reflexo de defesa, tivesse estendido
o seu domnio sobre as comunidades berberes do Kawr, para melhor controlar,
simultaneamente, as suas atividades comerciais e o seu proselitismo religioso.
Bem entendido, os autores do Dwn no indicam os mbeis que conduziram
 ocupao do Kawr pelo Knem, mas, de modo totalmente inopinado, eles
fazem meno  "mesquita" de Sakadam (Seggedine). Talvez seja possvel, ao
menos, aqui entrever um sinal a mostrar a importncia da "questo religiosa".
Sabemos, por outro lado, que na mesma poca, o rei de Gana estendia a sua
autoridade sobre a importante cidade comercial de Awdghust66. Esta coinci-
dncia talvez no se deva ao acaso.
    O sucessor de Ark era o primeiro muulmano do Knem. O seu nome
oferecido no Dwn com trs formas diferentes: Lads, S (ou Saw) e H
(ou Haww')  a forma correta, mascarada por uma recente interpolao, sendo
indubitavelmente H (ou Haww'). Os autores do Dwn contentam-se com
uma instruo extremamente breve para indicarem o advento, capital para a


64    Foi demonstrado que os ban dk do Dwn correspondem aos zaghwa das fontes externas (conferir
      D. LANGE, 1977, pp. 113-129).
65    Podem-se facilmente reconhecer os traos de uma remota presena sudanesa em alguns vestgios arque-
      olgicos do Fezzn: Ganderma, prxima de Traghen, e Mble, no Norte de Gatrn, so fortificaes que
      certamente foram edificadas mediante as ordens do rei do Knem (D. LANGE e S. BERTHOUD,
      1977, pp. 30-32, 37-38), porm as datas permanecem incertas.
66    Al-Bakr, 1911, p. 180; contudo, consultar J. DEVISSE, 1970, p. 152 e seguintes.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                    529



histria da regio do Chade, referente  ascenso ao poder no reino do Knem,
de um rei muulmano: "Ele foi investido pelo califa" (Dwn, pargrafo 10).
Nem esta forma de investidura, tampouco a forma pouco ortodoxa relativa ao
nome do primeiro rei muulmano, permitem a hiptese de uma converso. Aps
a morte de Ark (em Zayl'!), provvel e contrariamente, tratou-se do partido
muulmano que, no quadro da antiga dinastia, avanou o seu candidato melhor
posicionado do ponto de vista das regras sucessrias em vigor. Desde logo, no
se pode a priori excluir que H (ou Haww') fosse na realidade  como sugerem
alguns indcios  uma mulher, portadora do nome muulmano muito caracters-
tico Haww'67. Reinante apenas durante quatro anos, ele (ou ela) seria sucedido (a)
por `Abd al-Djall, cujo reinado igualmente duraria quatro anos. O rei seguinte,
Hummay, seria o primeiro rei de uma nova dinastia, os sfuwa68. Os brevssimos
reinados de H (Haww') (aproximadamente 459/1067-463/1071) e de `Abd
al-Djall (aproximadamente 463/1071-467/1075) contrastam com os longos
perodos dos reinos dos seus predecessores: Ayma reina, segundo as indicaes
do Dwn, durante vinte anos (aproximadamente 376/987-397/1007), Bulu por
dezesseis anos (aproximadamente397/1007-414/1023) e Ark ao longo de qua-
renta e quatro anos (aproximadamente414/1023-459/1067)69. Pode-se entrever
na brevidade dos ltimos reinos zaghwa o sinal de uma profunda crise: ao
termo de um longo perodo de incubao, as foras crescentes do Isl provoca-
vam, na fase decisiva, primeiramente a desestabilizao do antigo regime, antes
de conduzirem  uma mudana poltica extremamente radical70.


     O advento dos sfuwa
 Por uma extraordinria coincidncia, a mudana dinstica ocorrida no
Knem aproximadamente em 467/107571 no est claramente assinalada em


67   Caso, efetivamente, o primeiro rei muulmano do Knem tenha sido uma mulher, os esforos dos cro-
     nistas para mascararem o seu verdadeiro nome aparentam ser totalmente compreensveis (D. LANGE,
     1977, pp. 29-30, 67-68).
68   Influenciados por um trecho ambguo do Dwn (pargrafo 11), os autores anteriores confundiram a
     introduo do Isl com a mudana dinstica.
69   Convm dar maior peso aos dados cronolgicos do Dwn, comparativamente  instruo referente 
     ocupao do Kawr.
70   No se pode absolutamente excluir a eventualidade segundo a qual os dois primeiros reis muulmanos
     do Knem teriam sido ibaditas.
71   Chegamos a esta data pelo cmputo das duraes dos reinos indicados no Dwn (D. LANGE, 1977,
     pp. 83-94).
530                                                                            frica do sculo VII ao XI



nenhuma das fontes disponveis. Portanto, seria estritamente impossvel extrair
com nitidez a sucesso dos acontecimentos que se desdobraram na mudana
dinstica ou deduzir as consequncias econmicas e sociais de modo preciso.
Em razo da raridade das informaes concernentes a esta perodo, contudo
extremamente importante, seremos obrigados a nos contentarmos com pouca
coisa: desde logo, ser necessrio provar que efetivamente houve uma mudana
dinstica nesta poca, em seguida, deveremos responder  questo: "Quem eram
os sfuwa?", antes de finalmente podermos tentar indicar qual era o significado
global dos acontecimentos ocorridos.
    Ao final do pargrafo consagrado a `Abd al-Djall, o Dwn oferece uma
curiosa instruo cujo real significado escapa  maioria dos historiadores: "Eis
o que escrevemos no tocante  histria dos ban dk; aps este feito, passamos
 redao da histria dos ban hummay, os quais professam o isl72".
    Aps Heinrich Barth73, pensou-se que esta observao visava unicamente a
adoo do isl  no uma mudana dinstica  pois, mais adiante, os autores do
Dwn indicam que o rei seguinte, Hummay, era filho de `Abd al-Djall e isso
no poderia ter escapado aos cronistas. O trecho pr-citado marca, por conse-
guinte, outra coisa, distinta da introduo do Isl.
    Caberia a um autor do sculo VIII/XIV, Ibn Fadl Allh al-`Umar, restabe-
lecer claramente a sucesso dos acontecimentos. Baseando-se indiretamente no
testemunho do xeque `Uthmn al-Knem, "um dos prximos do seu rei", ele
nota efetivamente: "O primeiro que estabeleceu o isl [no Knem] foi al-Hd
al-`Uthmn, que pretendia fazer parte dos descendentes de `Uthmn b. `Affn.
Aps ele, [o Knem] deparou-se com os yazaniyyn dos ban dh yazan74".
    Os yazaniyyn mencionados por al-`Umar no so outros seno os sfuwa,
cujo nome deriva daquele de Sayf ben Dh Yazan. O autor diz em todas as letras
que a ascenso ao poder dos sfuwa fora precedida pela introduo do Isl.
    Muito mais tarde, no incio do sculo XIII/XIX, Muhammad Bello daria
maiores informaes sobre o advento da dinastia dos sfuwa, em dado momento
da histria do Knem. Ele indica a existncia de um grupo de berberes que,
tendo deixado o Imen, chega ao Knem: "Os berberes encontraram neste pas
gente diferente (`adjam), sob o domnio dos seus irmos tawrk [chamados]

72    DWN, pargrafo 11.
73    O viajante alemo Heinrich Barth visitou o Bornu  e uma parte do Knem  em meados do sculo
      XIX, levando consigo da sua viagem as duas nicas cpias existentes do Dwn. Alm disso, devemos a
      Barth o primeiro estudo crtico da histria do Knem-Bornu, a um s tempo baseado no conhecimento
      do terreno e naquele dos textos originais.
74    Al-`Umar, 1927, pp. 44-45; J. M. CUOQ, 1975, p.259.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                                     531



amakt. Eles lhes tomaram o seu pas. Durante a sua ocupao do pas, o seu
Estado prosperou a tal ponto que eles dominaram os mais distantes pases desta
regio75".
    Primeiramente, notaremos que o autor distingue dois grupos tnicos de
origem estrangeira, reinantes ambos e sucessivamente no Knem76. Em si, esta
observao conduz-nos, no imediato, a acreditarmos que o autor faz aluso
 mudana dinstica do sculo V/XI. A prova consiste em ter ele trazido o
segundo grupo  e no o primeiro  do Imen, a ptria de Sayf ben Dh Yazan,
ancestral epnimo dos sfuwa. Bello deveria saber que a dinastia ainda reinante
 sua poca no Bornu atribua-se uma origem iemenita e que no fora ela que
fundara o Estado do Knem, tal como sugeriam o Dwn e as tradies popula-
res, mas, diferentemente, um grupo mais antigo, o qual, segundo ele, igualmente
era originalmente estrangeiro.
    No que tange  pretensa origem berbere dos sucessivos dirigentes do Knem,
convm relembrar que a obra de Bello foi redigida oitocentos anos, aproxima-
damente, aps os acontecimentos descritos e que, entrementes, o papel dos
berberes fortalecera-se consideravelmente no Sudo Central, no plano poltico
tanto quanto no mbito religioso. A lenda sobre a origem sfuwa , ao que tudo
indica, obra dos letrados muulmanos, dentre os quais, daqueles que haviam
chegado ao Knem nos seus primrdios, muitos eram originrios de regies
onde as tradies himyaritas ainda vivamente persistiam. Elaborando esta lenda,
os letrados certamente estavam sob influncia das tradies e dos contos locais,
notadamente, aqueles que falavam de uma migrao norte-sul77.
    A antiguidade da tradio que tende a mascarar a mudana dinstica, enfati-
zando a adoo do Isl,  atestada por Ibn Sa'd no sculo VII/XIII. Baseando-se
em informaes que remontam ao reino de Dnama Dbalmi (aproximada-
mente 607/1210-646/1248), ele fornece o mais antigo testemunho da existncia,
no Knem, de uma dinastia que pretendia descender de Sayf ben Dh Yazan:
"O sulto do Knem [...]  Muhammad ben Djl, descendente de Sayf ben Dh
Yazan. A capital dos seus ancestrais infiis, antes da sua converso ao isl, era
Mnn; em seguida, entre eles, o seu quarto bisav tornou-se muulmano sob



75   Muhammad BELLO, 1951, p. 8.
76    poca de Muhammad Bello, os sfuwa haviam deixado o Knem h trs sculos e meio para
     estabelecerem-se definitivamente no Bornu, no Oeste do Lago Chade. O prprio Bello, reinante no
     "califado de Sokoto", no Oeste de Bornu, est informado, pois ele traz o grupo de berberes do Imen
     (os sfuwa) para o Knem e no para o Bornu.
77   B. BARKINDO, 1985.
532                                                                               frica do sculo VII ao XI



a influncia de um consultor jurdico, aps o que o isl expandiu-se invariavel-
mente em todo o pas do Knem78".
    O quarto bisav de Muhammad ben Djl (= Dnama/Ahmad b. Salmama/'Abd
al-Djall = Dnama Dbalmi) era precisamente Humay (aproximadamente
467/1075-478/1086) que, como mostramos, no era absolutamente o primeiro
rei muulmano do Knem, alm de, muito menos, um recm-convertido. No
seria seno a mudana de capital  primeiramente Mnn e aps Ndjm  que,
neste trecho, evocaria diretamente a mudana dinstica.
    Outro gegrafo rabe, al-Bakr (escrevendo em 460/1067-1068), forneceu
um terminus a quo, simultaneamente, em referncia  introduo do isl no
Knem e no tocante  mudana dinstica: "Alm do deserto de Zawla, a qua-
renta dias desta cidade, est situado o pas do Knem, de muito difcil acesso. [Os
habitantes do Knem] so sdn idlatras. Pretende-se existir nesta regio um
povoado descendente dos umayyades, os quais ali se teriam refugiado quando
foram perseguidos pelos absidas. Eles se vestem  moda dos rabes e possuem
os seus costumes79".
    No se sabe com exatido  qual poca referem-se estas informaes, porm
no podem elas ser mais recentes que 460/1067-106880. Precisamente neste
ano, segundo a cronologia deduzida das indicaes do Dwn, o primeiro rei
muulmano, ainda pertencente  antiga dinastia dos zaghwa, acedeu ao poder
no reino do Knem. Al-Bakr, vivendo na longnqua Andaluzia, no podia ainda
sab-lo, mesmo nas melhores condies81 e, a fortiori, ele no podia ter conheci-
mento da mudana dinstica, somente ocorrida aproximadamente em 468/1075.
A sua meno dos habitantes "idlatras" do Knem concorda perfeitamente com
os dados do Dwn. Quanto aos descendentes dos umayyades, os quais "se ves-
tiam  moda dos rabes"  no-rabes, por conseguinte , devemos consider-los
como um grupo de berberes que adotara certos costumes dos rabes (em todo

78    Ibn Sa'd, 1970, p. 95; J. M. CUOQ, 1975, p. 211.
79    Al-Bakr, 1911, p. 11. Eventualmente, poder-se-ia extrair argumento da no-meno do Kawr (situado
      ao Sul de Zawla) neste texto, para validar a informao do Dwn, segundo a qual Ark (aproximada-
      mente 1023-1067) teria incorporado o Kawr ao Knem (pargrafo 9). Entretanto,  necessrio notar
      que o nome zaghwa tampouco nele est mencionado. Nota do co-editor: N. LEVTZION e J. F. P.
      HOPKINS [(org.), 1981, p. 64] traduzem erroneamente o final do excerto relativo  descendncia dos
      umayyades, da seguinte forma: "eles continuam a conservar a vestimenta e os costumes dos rabes". A
      traduo do autor est mais prxima da verdade.
80    Al-Bakr baseia-se em informaes orais  dentre as quais, algumas referem-se a um perodo que precede,
      em muito pouco, a data da redao  e, igualmente, em fontes escritas, cuja principal, no tangente ao
      Bild al-Sdn,  uma obra de Ysuf al-Warrk (292/904-905363/973-974).
81    Al-Bakr escreve em 460/1067-1068. Segundo o cmputo das duraes dos reinos indicadas no Dwn,
      H(ou Haww) teria chegado ao poder no oitavo ms do ano 460 da hgira.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                               533



caso, eles no eram negro-africanos). Este grupo talvez se tenha feito assina-
lar em funo da sua insubmisso visvis do poder, no estando excluda a
hiptese de fazerem eles parte das foras que, posteriormente, primeiramente
contribuiriam para o sucesso do partido pr-muulmano, no quadro da antiga
dinastia, antes de provocar a queda da prpria dinastia.
    Dentre todos os autores rabes, al-Idrs (escrevendo em 549/1154) informar-
-nos-ia com a maior preciso acerca das mudanas ocorridas no Knem  assim
como nas regies vizinhas  no curso da segunda metade do sculo V/XI. Escre-
vendo apenas trs quartos de sculo aps a queda dos zaghwa, ele dispunha
de numerosas informaes, dentre as quais a maioria lhe fora transmitida oral-
mente, porm outras provinham de fontes escritas. Na realidade, al-Idrs tudo
mesclou, alm de ter includo dados totalmente forjados. No nos seria, por-
tanto, possvel empregar a sua descrio do Bild alSdn seno com a maior
prudncia.
    Contudo, sobressai da massa informativa oferecida por al-Idrs que,  sua
poca, o Knem e os zaghwa consistiam em duas unidades distintas. Muito
evidentemente, os zaghwa no mais dominam o Knem; tendo perdido os seus
antigos privilgios, eles aparentemente vivem em condies assaz miserveis. A
maioria dentre eles aparenta ter sido nmade. Nenhuma exatido  oferecida
sobre os novos senhores do Knem, no entanto, algumas observaes do autor
sugerem que os zaghwa viviam sob o seu domnio. Equivalente impreciso
no referente  capital: Mnn e Ndjm so mencionadas; a cidade de Mnn
aparenta ser mais importante; entretanto, no sobressai nitidamente do texto ser
a capital do Knem. Informao alguma  dada acerca da situao religiosa82.
    Deduzir-se-ia, a partir de desenvolvimentos precedentes, que a mudana
dinstica  qual alude Muhammad Bello e a chegada ao poder dos yazaniyyn,
indicada por al-`Umar, devem ter ocorrido entre a poca de al-Bakr (460/1067-
-1068) e aquela de al-Idrs (549/1154). Ela coincide com a expulso dos
zaghwa do Knem. As fontes externas no permitem ir mais alm; contudo,
 a partir da anlise do Dwn que se pode situar este acontecimento, capital
para a histria do Sudo Central, no incio do reino de Hummay (aproxima-
damente 467/1075-478/1086). O seu predecessor, `Abd al-Djall, efetivamente
era o ltimo rei da linhagem dos ban dk e Hummay seria o primeiro da
linhagem dos ban hummay. A distino entre estas duas categorias de reis



82   Al-Idrs, 1866, pp. 12-15, 33-35. Encontrar-se- uma anlise mais detalhada neste trecho de D.
     LANGE, 1977, pp. 124-129.
534                                                                               frica do sculo VII ao XI



equivale, na realidade, a uma profunda ruptura na continuidade dinstica; ela
no corresponde  introduo do Isl.
    Quem seriam estes novos senhores do Knem? O Dwn no permite res-
ponder a esta questo: associando Hummay genealogicamente ao seu predeces-
sor, os seus autores passam em silncio pela sua verdadeira ascendncia paterna83.
Porm, as tradies do Knem e do Bornu, recentemente transcritas, indicam de
modo geral que a nova dinastia descendia de Saif ben Dh Yazan84.
    Vrios autores analisaram a origem desta nova dinastia. Abdullahi Smith
acredita ter ela sido o produto de um mundo nmade ou seminmade, prova-
velmente tubu, aliado a outras cabilas por casamento, na inteno de tomar o
poder. Trata-se aqui que igualmente acredita John Lavers85. Nr Alkali, bem
como Bawuro Barkindo, estimam que ela era de origem local, mas que se atri-
bua origens estrangeiras para conferir prestgio a si mesma86.
    Sabemos ser sob o reinado de Hummay ou dos seus sucessores que a nisba
sayfida foi introduzida. Saif ben Dh Yazan efetivamente era um heri iemenita
que, segundo a lenda, contribura, na segunda metade do sculo VI da era crist,
para expulsar os etopes do Imen. Ora, sabe-se que os berberes da frica do
Norte atribuam-se voluntariamente ancestralidade iemenita, justamente para
distinguirem-se dos rabes adnanitas do Nadjd e do Hidjz. No plano gene-
algico, esta postura representou a mesma tendncia que a adoo, no plano
religioso, da doutrina heterodoxa dos kharidjitas.
    Por outra parte,  importante notar que Saif ben Dh Yazan se destacara no com-
bate contra um povo africano. O tema do combate dos rabes brancos e muulmanos
(antes do Profeta!) contra africanos negros adeptos da religio tradicional africana
(os etopes eram, todavia, cristos!), posteriormente, em muito excitou a imaginao
de algumas camadas do povo rabe. No Egito, este tema finalmente cedeu lugar a
um verdadeiro romance popular, no qual so exaltadas as virtudes de Saif ben Dh
Yazan, em seus inumerveis combates contra os "negros mpios"87.


83    Quanto  sua me, ela era uma Kay (Koyam)  povo de origem ignorada  com o nome Takrama, cujo
      prefixo ta talvez indique uma influncia berbere. A anlise do prprio nome ummay mostra que ele possa
      derivar de Muhammad  atravs da supresso do prefixo Mu e da desinncia -d, e pela adjuno de um
      novo sufixo  por formao hipocorstica, fato ainda hoje corriqueiro junto aos Tawrik e outros povos
      que foram islamizados sob influncia berbere.
84 Consultar A. SMITH, 1971, pp. 165-166.
85    Ibid., pp. 166-167; J. E. LAVERS, 1980, p. 190.
86    N. ALKALI, 1980, p. 2 e subsequentes; B. BARKINDO, 1985.
87    R. PARET (1924, p. 88) mostrou que a forma escrita deste romance data do incio do sculo IX/XV.
      Verses orais certamente existem desde uma poca, sem dvida, muito mais remota.
A regio do Chade na qualidade de entroncamento                                535



    No se sabe se aqueles, introdutores deste conceito genealgico estrangeiro
no meio negro-africano do Sudo, tinham conscincia da tendncia racista a
ele subjacente. Que tenham eles sido berberes, no resta dvida; na frica do
Norte, a lenda himyarita ainda vigorava. H. T. Norris constatou que ela estava
h muito difundida junto aos berberes da frica do Norte e do Saara88. Aqueles
que invocassem o nome de Saif ben Dh Yazan no podiam ser sudaneses e
tampouco rabes  ambos providos de genealogias muito respeitveis  ao passo
que, em contrapartida, os berberes eram orgulhosos da sua origem himyarita
iemenita. Os clrigos berberes muulmanos que elaboraram a nisba sayfida,
sem dvida, foram igualmente influenciados pela similaridade de sentido e de
emprego existente entre "Knem", a significar o Sul de Teda-Daza, e "Ymen",
muito amide empregado na lngua coloquial para designar o Sul89.
    Tudo o que podemos concluir sobre este ponto  que os sfuwa aparentam
ter uma ascendncia diferente dos seus predecessores zaghwa e que a sua che-
gada ao poder no esteve ligada ao surgimento do Isl, haja vista que Hummay
no foi o primeiro muulmano a reinar no Knem. Embora nada prove que os
sfuwa no fossem de origem local, nada tampouco permite concluir o contrrio.
    Foi demonstrado que o movimento de islamizao do Sudo Central come-
ou pela converso dos habitantes do Kawr, os quais em seguida seriam os prin-
cipais agentes da expanso do Isl no reino dos zaghwa.  poca de Hummay
(aproximadamente 467/1075-478/1086), o movimento de lenta penetrao do
Isl nas diferentes camadas da populao durara ao menos dois sculos. Com o
passar do tempo, as autoridades polticas no podiam permanecer indiferentes a
este processo, pois ele traria ameaas ao poder absoluto do rei sobre os seus sdi-
tos e contribuiria, simultaneamente, para enfraquecer a posio da aristocracia
zaghwa. Vimos que o rei se beneficiava, ao que tudo indica, do monoplio na
aquisio dos escravos. Os comerciantes berberes, quanto a eles, tinham indu-
bitvel interesse em quebrarem o monoplio real, para terem um acesso mais
direto s fontes de abastecimento. No tocante  aristocracia zaghwa, aparente-
mente, podemos consider-la na qualidade de intermediria do poder real junto
ao povo. Os diferentes povos integrados ao reino tinham, em contrrio, interesse
em adotar o isl com o objetivo de prevenirem-se contra o arbtrio do poder. Ao
final do sculo V/XI, o isl todavia permanece confinado aos crculos estreitos
da corte real e aos membros da aristocracia, no seria seno muito posterior-
mente,  poca de Dnama Dbalmi (aproximadamente 607/1210-646/1248),

88   H. T. NORRIS, 1972, p. 28.
89   Referir-se a J. E. LAVERS, 1980 e B. BARKINDO, 1985.
536                                                                             frica do sculo VII ao XI



que o Isl, transformado em instrumento de uma poltica expansionista, seria
capaz de ultrapassar o abismo que separava a aristocracia dominante dos povos
dominados, tornando-se deste modo uma religio popular90.
   Hummay toma o poder no Knem aproximadamente no ano 468/1075.
Na mesma poca, o movimento berbere dos almorvides, no Saara Ocidental,
ganha expanso rumo ao Sul, conquista o reino de Gana e nele implanta uma
dinastia muulmana91. Mais a leste, o movimento almorvida conduziria, um
pouco mais tarde, ao estabelecimento de uma nova dinastia muulmana no
reino de Kw-Kw (Gao), na margem oriental do Nger92. No  descabido
imaginar que o movimento dirigido por Hummay, no Sudo Central, tenha
sido uma das consequncias da efervescncia religiosa presente em um contexto
econmico diferente, em meio aos berberes ocidentais. Porm, contrariamente s
novas dinastias do Sudo Ocidental, os sfuwa do Knem foram integrados ao
contexto africano, assegurando a continuidade da tradio estatal da qual eram
os herdeiros; um sculo e meio aps a sua tomada do poder, os reis sfuwa tudo
realizam para provocar o esquecimento da sua verdadeira origem e associam-
-se diretamente aos seus predecessores zaghwa. O peso das estruturas estatais
finalmente impor-se-ia com maior fora, perante as tendncias particularistas.




90    A tese relativa a um suposto recuo do Isl nos primrdios do perodo sfuwa  mais amplamente desen-
      volvida em D. LANGE, 1978.
91    Segundo al-Zuhr, a conquista de Gana pelos almorvides teria ocorrido em 469/1076-1077 (consultar
      al-ZUHR, 1968, pp. 182-183). Igualmente referir-se, acima, ao captulo 13.
92    J. O. HUNWICK, 1980.
A zona guineana: situao geral                                             537



                                      CAPTULO 16


              A zona guineana: situao geral
                          (captulo redigido em 1977)
                                          Thurstan Shaw




    Recentemente qualifiquei o milhar de anos que precederam o ano +1000 na
frica Ocidental como o "milnio do silncio"1. Sublinhei o quo esse silncio 
grave para o nosso conhecimento da histria, em funo de abranger os perodos
de formao dos reinos e centros religiosos surgidos ulteriormente, dos quais
podemos notar a existncia ao final desse milnio ou no incio do seguinte.
Esse abismo de silncio diz respeito, em linhas gerais, a um perodo demasiado
longo para que as tradies orais permitam-nos explor-lo2; os dados arqueo-
lgicos informam-nos muito mais sobre os poucos milnios precedentes  Era
Crist, comparativamente quele que a inaugura. Esse fato deve-se parcialmente
ao acaso ou  natureza dos stios explorados pelos arquelogos, porm, talvez
igualmente explique-se por uma mudana ocorrida no tocante ao modo de vida
das populaes, transformao aps a qual os seus vestgios escaparam muito
mais  ateno dos arquelogos (ver mais adiante a pgina 543). No que tange aos
sculos seguintes, em contrapartida, no to somente ns comeamos a dispor
de dados histricos mas, igualmente, a correlao entre as obras de arte e a cen-
tralizao das instituies sociais e polticas suscitou o interesse dos arquelogos
e historiadores da arte. De todo modo, trata-se de tentar reunir o maior nmero


1    Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. I, captulo 24.
2    D. P. HENIGE, 1974.
538                                                           frica do sculo VII ao XI



possvel de elementos; isso pode, por vezes e simplesmente, consistir em registrar
os dados, sem poder interpret-los claramente nem os reagrupar a partir de uma
viso mais sinttica das coisas.


      A difuso da agricultura
      Os primrdios
    O perodo que nos ocupa est marcado por uma mudana fundamental:
a passagem de uma economia fundada na caa, na coleta e na pesca para um
modo de vida assentado na agricultura e na criao de animais  ou, ao menos,
dominado por eles, pois que mesmo nos sistemas agrrios plenamente desen-
volvidos, a caa, a coleta e a pesca continuaram a fornecer uma parte importante
da alimentao. Essa transformao que afetou a zona guineana no deve ser
imaginada como uma ruptura brutal com o passado, na qualidade de uma prtica
totalmente nova e subitamente introduzida nessa regio da frica,  imagem
do reproduzido em muitas outras regies no leste e ao sul do continente. A
agricultura e a produo de alimentos passaram, ao que tudo indica, por grande
nmero de "etapas"; inicialmente,  muito provvel que as primeiras semeaduras
voluntrias de cereais indgenas, ao sul do Saara ou na poro meridional do que
hoje  propriamente o deserto do Saara, tenham simplesmente sido uma ltima
tentativa desesperada de pescadores sedentrios ou seminmades, no curso de
um perodo de crescente aridez. Essas populaes teriam mantido o hbito de
extrair a sua subsistncia de um regime composto pelos recursos aquticos do
seu habitat e pelos gros colhidos das gramneas selvagens que cresciam nos
arredores.  provvel que, na justa medida do recuo das extenses de gua
propcias  pesca, a proporo das gramneas no total do regime alimentar
aumentasse. Com o ressecamento progressivo, as gramneas tornaram-se de
mais em mais raras, sendo necessrio ir mais longe para poder encontr-las. O
homem sempre tende a se agarrar ao modo de vida que ele conhece, para poder
faz-lo em tal situao,  lgico que ele se tenha adaptado, fazendo brotar as
gramneas selvagens em maior quantidade e mais proximamente ao seu lugar de
habitao, plantando gros nas cercanias dos lagos e dos cursos d'gua cujo nvel
baixava. O fato de capins e muitas outras plantas crescerem a partir de sementes,
produzidas no ano precedente e depositadas no solo, no era uma descoberta;
trata-se de um fenmeno ao qual a gente que sobrevive da coleta estava muito
familiarizada. Outrora, entretanto, no era necessrio provocar esse fenmeno,
                                                                                A zona guineana: situao geral
                                                                                539




Figura 16.1   A zona guineana: lugares mencionados no texto (Fonte: T. Shaw).
540                                                                      frica do sculo VII ao XI



haja vista que a natureza dele se ocupava em lugar do homem! Essas plantaes
artificiais foram inicialmente consideradas como um expediente temporrio,
porm, com o tempo, tornou-se progressivamente necessrio contar com elas.
Portanto, no houve uma passagem brusca da caa, da coleta e da pesca para a
agricultura, tratou-se de uma transformao progressiva e proporcional em rela-
o aos diferentes tipos de alimentos3. A partir do momento em que o homem
sistematicamente expandiu a cultura dos cereais, essas ltimas comearam a
sofrer modificaes genticas. Da derivou o processo de "domesticao" dos
cereais e o seu aprimoramento, destinados a satisfazer as necessidades do cultivo,
da colheita e do consumo humanos4.
    A explorao do dendezeiro  principal recurso arbreo da zona guineana
 oferece outro exemplo de evoluo a mostrar que no se deve representar a
passagem da coleta para a agricultura como um fenmeno sbito. Entre apanhar
nozes selvagens cadas de uma rvore, impedir os animais selvagens de consumir
todos os frutos, subir na rvore para colher o cacho inteiro, proteger os jovens
brotos naturais contra os animais selvagens, as queimadas e as ervas daninhas,
conferir direitos de propriedade individual ou familiar sobre algumas rvores
ou zonas arbreas e, finalmente, plantar dendezeiros h, em cada momento, um
pequeno passo a superar. Assim sendo, a mudana no precisa ser brusca. No
entanto, em um determinado momento, ocorreu uma mudana entre a coleta
dos frutos selvagens e o planejamento da produo de alimentos.

      Sobrevivncia dos caadores da Idade da Pedra
    No resta dvida que, aproximadamente no incio do sculo VII, em grande
parte da regio que nos ocupa, o homem extraa o essencial da sua subsistncia
dos alimentos que produzia e no mais da caa e da coleta; entretanto,  possvel
que tenha havido populaes espalhadas, tanto na savana quanto na floresta,
junto s quais esse ltimo modo de vida se perpetuava. Talvez a memria popu-
lar tenha conservado a lembrana desses grupos humanos das florestas achanti
do atual Gana, nas histrias consagradas aos mmoatia (pequenos homens)5.
Nos dados arqueolgicos, aos quais atualmente acessamos, encontra-se certo
nmero de exemplos de persistncia de um tipo de tecnologia da Idade da
Pedra Tardia, bem aps a adoo do metal para a fabricao de armas e ferra-


3     T. SHAW, 1974; J. D. CLARK, 1976, p. 92-93.
4     J. R. HARLAN, J. M. J. De WET e A. B. L. STEMLER, 1976b, p. 6-9.
5     R. S. RATTRAY, 1927, p. 25-27.
A zona guineana: situao geral                                                               541



mentas por outras populaes. Os homens dos primeiros milnios da Idade da
Pedra Tardia no possuam cermica e machados de pedra polida e, indubita-
velmente, eram caadores, coletores e pescadores; ao final da Idade da Pedra
Tardia (ou Neoltico), eles aparentemente produziam o seu alimento, sendo
todavia impossvel afirm-lo a partir do simples fato de que eles conheciam
a cermica e machados de pedra polida.  muito provvel, por exemplo, que
aqueles homens, os quais no sculo XI abandonaram as suas ferramentas de
pedra no abrigo sob rocha de Yagala, em Serra Leoa, tenham sobretudo sido
caadores e coletores6.
   , todavia, difcil obter testemunhos diretos sobre a prtica da agricul-
tura, tratando-se em larga medida de uma questo de sorte. Os testemunhos
indiretos podem ser interpretados de vrias formas: os polidores cavados em
superfcies rochosas so de datao quase impossvel, os amoladores mveis e
as ms podem servir a outras finalidades, distintas da preparao de alimento,
por outra parte, os objetos em madeira, a exemplo dos piles e almofarizes,
raramente alcanam os nossos dias. Contudo, retirou-se de depsitos aluviais,
explorados para a extrao do estanho na Nigria, um slido basto abundan-
temente talhado, medindo aproximadamente 1,25 m de comprimento e 7,5
cm de dimetro. Acredita-se tratar-se de um pilo ou basto para triturar e a
anlise com carbono 14 de uma amostra de madeira extrada dessa pea per-
mitiu dat-la do sculo IX7.

    Plantas cultivadas
    Os principais cereais da savana eram o milheto (Pennisetum americanum), o
sorgo comum (Sorghum bicolor) e duas variedades de "fonio" (Digitaria exilis e
D. iburua). No Fouta Djalon, uma gramnea selvagem (Brachiaria deflexa) fora
aclimatada e o arroz africano (Oryza glaberrima) predominava na parte ocidental
da zona guineana. Nas savanas do Sul e nas florestas do Leste, o inhame africano
aclimatado formava a base da alimentao (particularmente, Dioscorea cayanensis
e D. rotundata).  possvel que a combinao dos alimentos obtidos a partir de
inhames e dendezeiros com as protenas extradas dos peixes, das cabras, dos
rebanhos de pequenos animais e dos animais da mata (includos os moluscos)
expliquem em parte o povoamento do sul da Nigria8.


6    J. H. ATHERTON, 1972; consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. I, captulo 24.
7    B. E. B. FAGG, 1965.
8    T. SHAW, 1972, p. 159.
542                                                                                  frica do sculo VII ao XI



      As doenas
    Na mesma poca, por volta do sculo VII, a frequncia do gene porta-
dor das hemcias falciformes teria fornecido s populaes uma boa proteo
contra o paludismo (malria); deve-se dizer que, inicialmente, a introduo
dos mtodos e do modo de vida agrcolas teria aumentado a incidncia dessa
doena9. Grupos itinerantes de caadores englobando cerca de 25 indivduos
constituam um campo muito menos favorvel ao desenvolvimento de doenas
endmicas, se comparados aos conjuntos maiores de agricultores sedentrios.
Ademais, no caso do paludismo falciparum, o desmatamento e a plantao em
zonas florestais favoreciam a doena. Com efeito, o mosquito Anopheles gam
biae, principal vetor do paludismo falciparum, encontra poucos refgios naturais
para reproduo que lhe convenham na floresta virgem, pois que geralmente
no se formam poas sobre o hmus coberto de folhas ou, quando existentes,
a luz  demasiado insuficiente para o Anopheles gambiae, quem deposita os seus
ovos, preferencialmente, nas poas ensolaradas ou bem iluminadas. Em con-
trapartida, os buracos cheios d'gua e os dejetos domsticos (como as cabaas
abandonadas) de um vilarejo agrcola fornecem aos mosquitos um terreno ideal
para o seu desenvolvimento; quanto aos tetos e beirais das casas cobertas de
sap, eles servem como esconderijos escuros durante o dia. No se sabe nem
onde e tampouco quando a mutao do gene da hemcia falciforme ocorreu.
Caso uma criana o herde dos seus pais, ele morre de anemia por hemcias
falciformes antes de atingir a idade reprodutiva; quando ela no o recebe de
nenhuma das partes, corre grande risco de morrer de paludismo antes da idade
adulta; porm, caso somente um dos seus pais transmita-o, ela no morrer
por anemia de hemcias falciformes e estar amplamente protegida contra o
paludismo. Quando a frequncia da hemcia falciforme  recorrente em deter-
minada populao, encontramo-nos em uma zona de paludismo endmico;
essa frequncia elevada  alcanada a despeito do efeito letal que se produz
em caso de sua transmisso pelos dois pais, em razo da proteo que oferece
contra o paludismo. Calculou-se terem sido provavelmente necessrios, ao
menos, 1500 anos para que fossem atingidas as frequncias contabilizadas no
nordeste da Nigria; a evoluo  provavelmente mais lenta nas regies menos
midas. Constata-se uma gradual diminuio do sul rumo ao norte da frica



9     F. B. LIVINGSTONE, 1958; S. L. WIESENFELD, 1967; D. G. COURSEY e J. ALEXANDER, 1968.
      Acerca das indicaes oferecidas pelo estudo dos esqueletos concernentes s clulas falciformes, conferir
      S. P. BOHRER, 1975.
A zona guineana: situao geral                                               543



Ocidental, a incidncia mostra-se mais elevada nas regies costeiras e declina
na justa medida que se progride em direo ao norte.


     Os diferentes tipos de agricultura e povoamento
    Portanto, ns podemos imaginar, no incio do perodo que nos interessa, uma
populao muito disseminada de agricultores reunidos em vilarejos. Em alguns
casos (conferir mais adiante), a densidade populacional e a ecologia da regio
tornavam possveis assentamentos permanentes, perenes durante vrias geraes.
Em outras regies, as necessidades alimentares alcanavam tamanha proporo
que era menos custoso transferir o vilarejo para uma localidade virgem ou que
no fora cultivada h algum tempo, comparativamente a buscar terras suficiente-
mente frteis a distncia sempre maiores do vilarejo, desse modo, desenvolveu-se
o sistema de cultivo de longa rotao, atualmente encontrado por toda parte.
Onde os vilarejos mantiveram-se por geraes e onde as casas em adobe foram
reconstrudas em intervalos de dez ou vinte anos sobre os restos daquelas que
as precediam10, o nvel do vilarejo elevou-se sobre o nvel do solo e formou-se
um montculo. Os arquelogos comeam a saber identificar essas pequenas imi-
nncias, dentre as quais algumas foram escavadas, porm, ser necessrio nelas
trabalhar muito mais, comparativamente ao realizado at o momento, antes
que se possa dar uma imagem coerente dos camponeses que as construram, at
mesmo para um setor restrito. Pois que, a quantidade de informaes que se
pode obter ao escavar um nico stio  limitada.
    Outro tipo de vilarejo escapa muito mais facilmente  ateno; ele no 
identificvel seno graas a cacos espalhados na superfcie, l onde o solo foi
revirado por cultivos recentes.  impossvel detectar sob a vegetao, salvo em
alguns casos onde essa ltima apresenta particularidades significativas. Mesmo
onde as localizaes desses vilarejos foram reveladas,  provvel que as esca-
vaes sejam muito menos frutuosas, considerando a fraca profundidade da
estratigrafia. Eis a razo pela qual estamos menos informados sobre os pri-
meiros vilarejos de agricultores itinerantes que sobre os stios ocupados por
caadores-coletores da Idade da Pedra Tardia, os quais frequentemente retorna-
vam a abrigos rochosos e salincias rochosas de fcil identificao e propcias ao
estudo. Os agricultores dos tempos mais tardios, conhecedores do uso do ferro,
utilizaram temporariamente essas grutas e abrigos nas rochas com frequncia

10   R. J. MCINTOSH, 1974.
544                                                                     frica do sculo VII ao XI



como refgios ou habitaes durante o perodo dos trabalhos agrcolas, porm,
seno raramente, os transformaram em stios de ocupao permanente. H uma
exceo: as grutas Tellem na falsia de Bandiagara, no atual Mali. O material
arqueolgico e esqueletal l descobertos foram objeto de numerosos estudos11.
As populaes dogon, habitantes atuais da regio, atribuem os vestgios das
grutas aos tellem, dizendo, contudo, que esses lugares estavam desocupados
quando eles chegaram, vindos do oeste. As dataes com carbono 14 indicam
que a ocupao das grutas pelos tellem no remonta seno ao extremo final do
perodo que nos ocupa, prolongando-se durante dois ou trs sculos. Outrora,
supunha-se que os tellem haviam imigrado rumo ao leste, em direo  regio
onde se encontra o atual Burquina Fasso, e que seriam eles os ancestrais dos
kurumba do nosso tempo. Entretanto, o estudo antropolgico dos esqueletos
kurumba e tellem indica serem eles geneticamente diferentes.


      A difuso da metalurgia
      A fabricao do ferro
    Os agricultores utilizavam o ferro, fundido nessa poca no conjunto da zona
guineana. Em algumas partes dessa zona, a reduo do minrio de ferro era
praticada j h um milnio. As datas fornecidas pelo carbono 14 para o stio de
Taruga, ligado  "cultura de Nok", indicam que a reduo do ferro l era prati-
cada ao menos desde o sculo IV antes da Era Crist12. Um stio metalrgico
foi escavado na localidade de Hani, em Gana, e a datao, obtida pelo mesmo
mtodo, do carvo l encontrado em associao com escrias e fragmentos de
dutos e de fornos, situ-lo-ia no segundo sculo da Era Crist13. No tocante
aos fornos da Nigria, situados ao p da colina de Dala, em Kano14 e no vale
de Kubanni, proximamente a Zaria15, a datao com carbono 14 indica o sculo
VII; duas datas mais recentemente obtidas, durante as escavaes posteriores
nesse grupo de fornos, remetem-nos aos sculos VIII e X: essa regio, prxima
de uma jazida abundante do minrio latertico duro, teria portanto existido,
durante muitos sculos, como um tradicional centro de reduo do minrio

11    B. T. BAZUIN-SIRA, 1968; J. HUIZINGA, 1968; F. WILLETT, 1971, p. 369.
12    F. WILLETT, 1971, p. 369.
13    M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 165-166.
14    F. WILLETT, 1971, p. 368.
15    M. POSNANSKY e R. MCINTOSH, 1976, p. 171.
A zona guineana: situao geral                                                      545



de ferro16. Ao sul do rio Nger e no oeste da sua confluncia com o Benou,
a escavao de um grupo de fornos, em Ufe Ijumo, ofereceu datas remon-
tando aos sculos IX, XII e, finalmente, ao sculo XIV, poca do abandono
das instalaes17.

     Stios de ocupao
     parte os fornos, propriamente ditos, destinados  reduo do minrio
de ferro, atualmente se conhece certo nmero de stios que testemunham o
emprego do ferro a partir dos primrdios da Era Crist, multiplicados aproxi-
madamente na metade do Io milnio. Embora mais recentes que os fornos de
Taruga, os montculos de ocupao, na parte do vale do Nger inundada pelas
guas do lago de Kainji e no vale vizinho de Kaduna, deram em um caso, como
data do incio, -13018, em outros, +100 e +20019, e finalmente, em outro caso, a
data +20020. As primeiras datas de ocupao para a presumida capital do Mali,
em Niani21 e para Ife22, remontam ao sculo. Igualmente,  o caso da data mais
remota obtida at o presente para o emprego do ferro na regio da confluncia
Benou-Mayo-Kebbi, em Camares23; no stio de Daima, no nordeste da Nig-
ria, ao sul do lago Tchad, a data proposta somente em pouco a antecede24.  um
pouco mais difcil interpretar as dataes com carbono 14 publicadas para os
stios sao vizinhos, do norte de Camares e da Repblica do Tchad25. Alguns
dos montes de conchas do rio Casamance, no atual Senegal, acumularam-se
desde o incio do perodo que nos ocupa, em funo dos hbitos de estocagem
de alimento pelas populaes que utilizam o ferro; aparentemente, segundo
pesquisas realizadas, a regio era ocupada pelos ancestrais dos atuais habitan-
tes, os dioula26. Alm da coleta das conchas, eles praticavam a pesca martima,


16   J. E. G. SUTTON, 1976, 1977.
17   M. POSNANSKY e R. MCINTOSH, 1976, p. 172, 190.
18   C. FLIGHT, 1973, p. 548.
19   B. M. FAGAN, 1969b, p. 153.
20   Informao indita do autor.
21   W. FILIPOWIAK, S. JASNOSZ e R. WOLAGIEWICZ, 1970; D. T. NIANE, 1970; F. WILLETT,
     1971, p. 365; igualmente consultar G. LIESEGANG, 1975.
22   B. M. FAGAN, 1969b, p. 154.
23   C. FLIGHT, 1973, p. 550.
24   B. M. FAGAN, 1969b, p. 153; G. CONNAH, 1976.
25   A. LEBEUF e J. P. LEBEUF, 1970; C. FLIGHT, 1973, p. 552-553.
26   O. LINARES de Sapir, 1971; F. WILLETT, 1971, p. 361; C. FLIGHT, 1973, p. 545.
546                                                                       frica do sculo VII ao XI



criavam cabras e gado de grande porte, assim como,  provvel que o arroz se
tenha transformado em um alimento bsico e que o seu cultivo tenha possi-
bilitado a permanente ocupao dos stios habitados. Os montes de conchas
de Dioron Boumak, no delta do Saloum, no Senegal, aparentam remontar ao
final do sculo VIII, tendo sido intensificada a explorao das conchas a partir
do incio do sculo XI. Essa explorao chegou ao fim aps o perodo que nos
ocupa, provavelmente quando os serer niominka substituram os manden ao
longo do litoral, no sculo XV27.
    Assim como um modo de vida baseado na caa e na coleta pde perpetuar-
-se durante muito tempo, em muitos lugares, aps a introduo da agricultura, 
provvel que a tecnologia do ferro se tenha propagado de modo irregular. Aps o
seu advento, embora o saibamos em relao  Taruga muitos sculos antes da Era
Crist, identificamos outros pontos da zona guineana onde ela somente foi ado-
tada, ao menos, um milhar de anos mais tarde. Durante esse perodo, deveria ser
frequente que populaes praticantes de uma tecnologia da Idade da Pedra Tardia
vivessem no muito distantes de povos que empregavam o ferro. Sabemos ainda
muito pouco sobre as relaes entre grupos com diferentes nveis tecnolgicos: eles
mantinham relaes pacficas? Enfrentavam-se de um modo ou outro? Ocupavam
regies e nichos ecolgicos diferentes, em absoluto estabelecendo contatos entre
si? Ns conhecemos um exemplo desse tipo de situao no norte de Serra Leoa,
onde em Kamabai, o nvel superior incluindo ferramentas em ferro, escrias e arte-
fatos cermicos, est datado pelo carbono 14 entre os sculos VII e VIII, ao passo
que, em Yagala, uma tecnologia da Idade da Pedra tardia aparentemente subsiste
at o decorrer do sculo XI28. Segundo al-Zuhri, gegrafo do sculo XII, o povo do
antigo Gana organizava expedies contra populaes que no conheciam o ferro
e combatiam com bastes de bano, de eficcia medocre frente s espadas e lan-
as dos ganenses29. Ns no podemos formular uma ideia historicamente precisa
acerca da expanso da metalurgia do ferro na frica enquanto um nmero muito
maior de stios, significativamente distribudos, no tenha sido escavado e datado.
Antes da descoberta do stio metalrgico de Hani, datado do sculo II da Era
Crist (conferir acima pgina 544), os mais antigos metais conhecidos em Gana dos
nossos dias provinham do stio de New Buipe30, datado do final do sculo VIII.
Seno recentemente, as pesquisas arqueolgicas comearam no ambiente muito

27    C. DESCAMPS, G. THILMANS e Y. THOMMERET, 1974; C. A. DIOP, 1972; M. POSNANSKY
      e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 184, 193.
28    J. H. ATHERTON, 1972; F. Willett, 1971, p. 351.
29    N. LEVTZION, 1973, p. 14; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 98.
30    R. N. YORK, 1973.
A zona guineana: situao geral                                                             547



especfico do delta do Nger. At o momento, nenhum stio da idade da pedra
foi descoberto, e a data da ocupao mais remota equivale ao final do sculo IX31.
    A despeito dessa difuso desigual da metalurgia do ferro, podemos considerar
seguro que ela tenha estado muito difundida aproximadamente no incio do per-
odo que nos ocupa; ao final do mesmo perodo, deveriam subsistir raras ilhas tec-
nolgicas da Idade da Pedra, embora seja possvel que algumas ferramentas lticas
ainda tenham sido utilizadas32. De todo modo, em grande parte da regio, inclusive
a memria coletiva acerca do emprego de machados em pedra polida estava per-
dida. Quando eventualmente encontradas no solo, eram consideradas "pedras de
raios" (ou "ceraunitas") cadas do cu com o relmpago e responsveis pelos danos
causados s rvores e construes; chegou-se ao ponto de vener-las, como veculos
e smbolos do poder divino, cedendo-lhes espao nos altares de Nyame, Sango e
nas oba ancestrais do Benin. No sul da Costa do Marfim, so encontradas algumas
de forma especial, cujo significado  muito mais ritualstico que funcional33.

     O comrcio local
    Sem duvida, uma das mais importantes consequncias da difuso do ferro
foi aumentar o rendimento da produo agrcola. As enxadas de ferro e as
ferramentas de desmatamento teriam facilitado a constituio dos excedentes
agrcolas que autorizam uma maior diviso do trabalho, uma especializao
artesanal e, finalmente, o desenvolvimento das cidades e a manuteno de uma
corte real ou sacerdotal.  possvel que o processo tenha sido lento e no foi
necessariamente a "presso demogrfica", resultante do modo de vida agrcola,
a causa ou mesmo uma das causas, da evoluo rumo  formao dos Estados.
Estabeleceram-se, por outro lado, sistemas de trocas locais fundados nos exce-
dentes de certos produtos e  partir das especializaes artesanais. As diferenas
ambientais favoreciam o desenvolvimento desses sistemas de trocas, pois que era
possvel trocar os produtos de um lugar por aqueles de outro. Uma regio situada
nas proximidades de cursos d'gua podia trocar peixes secos por gros colhidos
em zonas mais distantes; podia-se cambiar animal de caa, capturado na savana,
por gneros somente encontrados na floresta. Uma regio onde se fundia o ferro,
explorando ricas jazidas de minrio, podia oferecer produtos metalrgicos em
troca de potes cermicos de um pas melhor provido de argila. Paulatinamente,


31   M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 170, 189-190.
32   R. S. RATTRAY, 1923, p. 323; M. D. W. JEFFREYS, 1951, p. 1208; D. WILLIAMS, 1974, p. 70.
33   B. HOLAS, 1951.
548                                                          frica do sculo VII ao XI



essas redes estenderam-se e os produtos de uma determinada regio viajavam,
talvez passando por vrios intermedirios, por distncias sempre maiores. Por
exemplo, a noz-de-cola, prpria das regies florestais ao sul, puderam ser troca-
das pela manteiga-de-carit, produzida no norte. Esses intercmbios ainda so
importantes nos tempos atuais, qui segundo antigas vias de mais de mil anos.
Essas redes de troca podem ter desempenhado um papel no desprezvel na
criao de um poder centralizado, haja vista que, caso acrescentarmos a riqueza
suplementar extrada do comrcio longnquo, o chefe, detentor do controle sobre
os recursos trocados, dele extraa uma potncia descomunal, se comparada com
aquela anterior34. Esse processo, sem dvida alguma, equivale a um dos mais
importantes acontecimentos produzidos na Guin durante o perodo que nos
interessa, enquanto os tentculos do comrcio transaariano, mais desenvolvido,
comearam a se articular com as redes de troca j existentes. Essa expanso da
rede comercial no provocaria o abandono dos sistemas locais de troca existen-
tes: tal como mostramos em relao a uma das regies, o desenvolvimento dos
mecanismos comerciais tende a ser aditivo, muito mais que sequencial35.
     imagem da agricultura e da fundio do ferro, as redes de troca seguiram,
indubitavelmente, um desenvolvimento desigual. Nas localidades em que as
trocas eram pouco desenvolvidas, faltava um dos motores da centralizao do
poder e da formao de um Estado, situao que preservou numerosas socie-
dades sem Estado, no Oeste africano. No caso da cultura da floresta tropical
da Amrica do Sul, estudou-se em detalhes os meios pelos quais a falta de
homogeneidade dessa floresta (contrariamente  imagem suscitada por impres-
ses superficiais) conduziram ao comrcio de longa distncia, assim como a
maneira pela qual as guerras entre comunidades no lograram desorganiz-lo36.
O estudo do comrcio no oeste da frica tende a concentra-se no comrcio
exterior37, no entanto, as trocas de produtos naturais entre as diferentes zonas
ecolgicas da frica do Oeste so provavelmente antigas.

      O comrcio exterior
   Um dos mais interessantes testemunhos acerca da concentrao de uma
determinada forma de riqueza e de certa centralizao da autoridade social e


34    R. HORTON, 1976, pp. 75, 110-112.
35    T. W. BEALE, 1973, p. 143.
36    D. W. LATHRAP, 1973.
37    L. SUNDSTROM, 1974; A. G. HOPKINS, 1973.
A zona guineana: situao geral                                                      549



poltica, provavelmente associadas, -nos oferecido pelos meglitos da Sene-
gmbia. Essa regio, de contorno mais ou menos oval, extensa em 350 km de
leste a oeste e com largura de 175 km de norte a sul (aproximadamente 13o-16o
O, 13o-14o 30' N),  notvel pelo nmero dos seus monumentos megalticos. A
sua distribuio segue bem de perto as bacias do mdio e alto rio Gmbia, do
Saloum e dos seus afluentes. Contou-se nessa regio mais de 28.000 grandes
pedras erguidas38. Em somente um stio (Sine-Saloum), encontramos cerca de
900 pedras, dispostas em 54 crculos. Os crculos compem-se de aproximada-
mente 10 a 24 pedras erguidas, a altura dessas ltimas acima do solo variando
de 50 cm a quase 3 m (conferir figura 16.2, 16.3 e 16.4). A maioria  cilndrica,
outras tm uma seco quadrada ou em forma de D, outras tantas afinam no
topo, porm, todas as pedras de um mesmo crculo so de tipo idntico. Esses
meglitos geralmente possuem uma face superior plana, entretanto, o topo de
alguns  oco ou forma uma protuberncia. O dimetro interno dos crculos varia
entre 4 e 7 m. A leste da maioria dos crculos h uma linha, de norte a sul, de
pedras similares. As mais notveis so as poucas "pedras em lira", assim chama-
das porque so talhadas em V, a partir de um nico bloco latertico.
    As escavaes realizadas no stio em alguns dos crculos, no curso dos ltimos
anos, permitem afirmar com certeza o seu carter funerrio; certo nmero de
inumaes, isoladas ou mltiplas, l efetivamente foi revelado. A datao com
carbono 14 indica trs datas, remontando aos sculos VII e VIII. Um minucioso
exame mostra que h quatro tipos de monumentos associados: os crculos mega-
lticos, os tmulos em pedra (geralmente flanqueados por uma linha frontal de
pedras a leste, como os crculos megalticos), os crculos em pedra (assinalados
no por meglitos erguidos mas por blocos laterticos, apenas ultrapassando o
nvel do solo) e os tmulos em terra39.
     interessante questionar acerca do que teria permitido mobilizar tal volume
de esforo humano para talhar, transportar e erigir esses milhares de pilares em
pedra. Como eles foram extrados de uma camada superficial de laterita rica em
ferro, foi sugerido que esses monumentos teriam sido criados por homens que
se enriqueciam fundindo ferro e fornecendo o metal aos seus vizinhos.  muito
provvel, no entanto, os fornos de fundio todavia no foram descobertos,
tampouco as habitaes megalticas. Com dados arqueolgicos to pouco diver-
sificados  difcil, no atual estdio dos conhecimentos, tentar proceder a recons-


38   V. MARTIN e C. BECKER, 1974a.
39   P. OZANNE, 1966; P. O. BEALE, 1966; D. EVANS, 1975; G. THILMANS e C. DESCAMPS, 1974,
     1975.
550                                                                               frica do sculo VII ao XI




figura 16.2   Representao grfica, vista superior, do stio de Wassu (Fonte: T. Shaw).
A zona guineana: situao geral                                                                         551




figura 16.3    Dois crculos de pedra de Wassu, com linhas frontais mais ou menos completas no leste (Fonte:
T. Shaw).
552                                                            frica do sculo VII ao XI




figura 16.4   A pedra em lira de Ker-Batch (Fonte: T. Shaw).
A zona guineana: situao geral                                                             553



tituies histricas. Segundo outra explicao, os meglitos da Senegmbia
estariam estrategicamente posicionados para permitir aos ocupantes da regio o
domnio sobre o comrcio do ouro proveniente das jazidas de Bure e Bambuk40.
Caso esteja correta a datao do sculo VIII, aparentemente seria um pouco
cedo para que o desenvolvimento do comrcio rabe rumo ao norte tivesse sido
capaz de exercer uma influncia to distante, rumo ao oeste. Certamente, os
rabes conquistaram o Magreb no incio do sculo VIII, porm, tratou-se para
eles, em seguida, de conquistar a Espanha visigtica, preferencialmente a fundar
no Marrocos estabelecimentos permanentes41. Caso os meglitos da Senegm-
bia sejam efetivamente anteriores ao comrcio rabe e, contudo, devam a sua
existncia a uma exportao e ouro rumo ao norte, talvez se devesse considerar
as populaes berberes do deserto como os intermedirios do comrcio com a
frica do Norte bizantina. A existncia de tal comrcio ajudaria a explicar a
relativa rapidez mediante a qual os rabes estabeleceram relaes comerciais com
o Sudo ocidental, aps terem-se instalado solidamente na frica do Norte.
    Ao norte da zona dos meglitos e no vale do Senegal existe uma zona de
grandes tmulos, dentre os quais alguns revelaram potes cermicos comparveis
queles dos meglitos. Computou-se mais de 4.000 e a sua escavao revelou,
como no tocante aos meglitos, mltiplas sepulturas. Essas ltimas continham
uma profuso de objetos funerrios, incluindo prolas de ouro e cornalina, orna-
mentos em ouro e cobre e armas de ferro, assim como recipientes de cobre, obra
de artesos, denotando relaes de troca com o norte. Conquanto tenhamos,
no presente, uma datao pelo carbono 14 correspondente ao sculo VIII para
um dos tmulos mais meridionais42, a maioria deles  considerada do sculo
X43. Igualmente, outros tmulos escavados no alto vale do Nger, rio-abaixo em
relao a Sgou, ofereceram interessantes descobertas; em Kgha, no comeo
da curva do Nger, datou-se um, associado a pedras erguidas, aproximadamente
originrios de 1000 da Era Crist44. Nessa mesma regio da curva do Nger,
os meglitos de Tondidarou, embora tenham sido pilhados e danificados por
modernos colecionadores de antiguidades e jamais cientificamente investigados,
provavelmente datam do mesmo perodo, atestando a existncia de uma rota



40   M. POSNANSKY, 1973, p. 151.
41   R. OLIVER e B. M. FAGAN (org.), 1975, p. 157; consultar, acima, os captulos 9 e 11.
42   M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, pp. 184-185.
43   P. POSNANSKY, 1973, p. 152.
44   R. MAUNY, 1961, pp. 109-110.
554                                                                       frica do sculo VII ao XI



comercial do ouro, seguindo o curso do Nger desde as jazidas de Bure45.  sig-
nificativo que a ascenso de Kumbi Saleh (antigo Gana), como ponto de arma-
zenagem do ouro, proveniente dessa fonte e destinado ao comrcio transaariano,
tenha comeado desde o sculo VIII. Ao final do sculo, a fama de Gana, "pas
do ouro", atingira Bagd, como comprova o famoso trecho de al-Fazr46. Kumbi
Saleh e Awdghust provavelmente representavam pontos de armazenamento do
ouro proveniente das jazidas de Bambuk e, talvez, justamente o aperfeioamento
da organizao das suas rotas comerciais tenha provocado o declnio social e
poltico de populaes que haviam, at ento, explorado as jazidas aurferas
situadas mais a oeste.
    H indcios que levam a crer que, antes das rotas de Taghz e Sidjilmsa, o
ouro da frica do Oeste, destinado ao mundo rabe, tenha sido encaminhado
mais diretamente rumo ao Egito, atravs dos osis de Dkhla e Khrja47.
    A existncia dessa antiga rota talvez esteja confirmada por trs dataes pelo
carbono 14, as quais fazem remontar aos sculos VI, VII e X, objetos encon-
trados no stio de Marandet, no Air, na rota interligando Gao ao Egito48. L se
descobriu, em meio a montes de detritos, cerca de 42.000 crisis, testemunhos da
atividade de um centro artesanal. Os especialistas no esto em acordo acerca do
metal ali trabalhado49, uns tendem para o ouro, outros para o cobre, entretanto,
o nico dado concreto do qual dispomos at agora -nos fornecido por meio da
anlise dos resduos de um dos crisis, mostrando tratar-se de cobre e no de
ouro50. Evidente e importante, saber mais sobre Marandet, confirmar e afinar
a datao e, sobretudo, ter uma ideia da origem das matrias-primas utilizadas,
acerca do destino dos produtos finais, sobre a identidade dos artesos e no que
tange  autoridade poltica e comercial exercida,  qual estava subordinada a
organizao desse comrcio. Caso o ouro tenha sido trabalhado por arteso em
Marandet, a matria-prima teria j percorrido uma longa rota desde Bambuk
e Bure (pois h dvidas sobre as jazidas de ouro axnti terem contribudo para
esse comrcio naquela poca), encontrando-se a meio percurso do Egito. Alm
disso, caso os crisis que no possuem vestgios de cobre tenham sido utiliza-


45    R. MAUNY, 1970, pp. 133-136.
46    N. LEVTZION, 1973, p. 3; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 32.
47    N. LEVTZION, 1968a, pp. 231-232.
48    H. LHOTE, 1972a, 1972b; G. DELIBRIAS, M. T. GUILLIER e J. LABEYRIE, 1974, p. 44-45. M.
      POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 183.
49    H. LHOTE, 1972a; R. MAUNY, 1973, p. 763-764.
50    R. CASTRO, 1974.
A zona guineana: situao geral                                              555



dos como ouro, quais seriam as razes para no encontr-los em quantidades
comparveis em Kumbi Saleh, Awdghust, Walta, Es-Sk e outros lugares que
sabemos terem sido pontos de armazenamento de ouro no contexto do comrcio
transaariano? Qual era a origem do cobre? Durante muito tempo, os pesquisa-
dores tentaram relacionar o "Takedda", descrito por Ibn Battta no sculo XIV,
a uma jazida de cobre do Saara meridional. Pensava-se poder identific-la de
modo satisfatrio com Azelik, 150 km a noroeste de Marandet51, onde runas
e uma abundante quantidade de escrias e moldes provam a antiga importn-
cia de Azelik, na qualidade de lugar de trabalho do cobre. Embora se tenha
afirmado a descoberta da jazida a 13 km a leste  nordeste de Azelik52  e que
trabalhos mais recentes tenham estabelecido a existncia de cobre na regio53,
alguns autores acreditam que o minrio no era assaz abundante a ponto de ser
explorado e que o cobre trabalhado em Azelik, para o qual o carbono 14 oferece
datas mais tardias (sculos XII e XVI) comparativamente a Marandet54, deveria
ter sido importado.
    As fontes rabes, a partir de al-Bakr, mostram de modo profuso que o cobre
representava um importante artigo de exportao em direo  zona guineana.
No sculo XIV, ele era utilizado como moeda em Takedda e no Knem55. Uma
caravana, com destino ao sul no incio do sculo XII e aparentemente confron-
tada com alguns problemas no Madjbat al-Kubr, na Mauritnia, transportava
2.000 barras de lato das quais se desfez56. O ouro era a principal mercadoria
transportada pelos mercadores transaarianos at a frica Ocidental, porm, eles
podiam comprar outros produtos dos quais extraam elevados lucros, particu-
larmente o marfim e os escravos, nas regies desprovidas de ouro, a exemplo da
poro oriental da zona guineana. O cotejamento desse fato com a antiguidade
do trabalho do cobre em Marandet e a existncia da antiga rota comercial direta
rumo ao Egito, ajudaria a explicar as datas mais remotas oferecidas pelo carbono
14, no tocante s descobertas de Igbo-Ukwu, distante rumo ao sul, na parte
oriental da zona guineana57?



51   R. MAUNY, 1961, pp. 140-141, 308-309.
52   J. LOMBARD e R. MAUNY, 1954.
53   S. BERNUS e P. GOULETQUER, 1976.
54   M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 183.
55   N. LEVTZION, 1973, p. 120.
56   T. MONOD, 1969; C. FLIGHT, 1973, p. 544.
57   T. SHAW, 1970, 1975a, 1977.
556                                                        frica do sculo VII ao XI



      Os primrdios da centralizao
      IgboUkwu
    Igbo-Ukwu encontra-se a cerca de 40 km a sudoeste de Onitsha, grande
cidade comercial, situada na margem oriental do Nger e cuja estrutura
poltica foi influenciada pelo Benin. Nesse lugar, pouco antes do desencade-
amento da Segunda Guerra Mundial, um homem que cavava uma cisterna
em sua propriedade teve a surpresa de descobrir, a pouca profundidade, certo
nmero de objetos em bronze. Esses ltimos foram transportados para o
Nigerian Museum de Lagos e o Departamento das Antiguidades registrou
o lugar com vistas a futuras escavaes, realizadas aps a guerra. Trs stios
contguos foram revelados. O primeiro era um depsito ou um santurio,
onde se havia conservado insgnias reais e objetos ritualsticos, abandonados
intactos por razo desconhecida. O segundo era a cmara morturia, toda
em madeira, de um personagem importante. O terceiro uma fossa de dejetos
na qual se havia jogado objetos cerimoniais. O entreposto revelou mais de
70 objetos grandes de cobre e bronze e cerca de 500 pequenos; a cmara
morturia, 19 objetos grandes, bem como 32 pequenos; e a fossa, 13 grandes
e 87 pequenos. O entreposto continha mais de 70 mil prolas e a cmara
morturia mais de 100 mil. Potes cermicos muito decorados, de estilo carac-
terstico, foram encontrados nos trs stios, aqueles associados  fossa sendo
particularmente abundantes. Esses objetos certamente no eram artigos de
uso corriqueiro ou acessveis  pessoa comum e o tratamento conferido ao
personagem da cmara morturia indica tratar-se de pessoa de alto-escalo.
Talvez se trate de um personagem bem posicionado (ozo) na hierarquia igbo,
qui o prprio eze nri, o "padre-rei" que, at os primeiros anos do sculo
passado, detinha grande poder ritualstico e religioso, porm no poltico,
sobre grande parte do pas igbo. O essencial da sua funo estava ligado ao
cultivo do inhame e  fertilidade da terra, alm de igualmente consistir em
afastar as poluio ritualstica aps a ruptura de uma interdio e em resol-
ver disputas. Em uma poca pr-cientfica, na qual os fenmenos tais como
a fertilidade e as condies climticas so mal explicados, deve-se esperar
que os homens tentem domin-los de maneira pr-cientfica e religiosa, pois
que eles tm consequncias vitais sobre os meios de sobrevivncia. Assim
se passava durante o estdio do caador-coletor, entretanto, a nfase era
ento colocada sobre a abundncia dos animais de caa e no sucesso dessa
ltima. Com o advento da agricultura, o interesse voltou-se, sobretudo, para
A zona guineana: situao geral                                              557



a produtividade da prpria terra e sobre os fatores dos quais ela dependia:
era portanto interessante, para as sociedades agrcolas, empregar recursos
especiais e frequentemente confiar a pessoas especiais a funo de assegurar
a fertilidade da terra. A centralizao da riqueza social e do poder poltico
est, por via de regra, estreitamente ligada a esse processo e, embora tenha
sido capaz de assumir formas diversas, ela provavelmente  parte integrante
da formao de outros reinos da zona guineana e de outras instituies
centralizadas.
   Em Igbo-Ukwu, no se identificou nenhum outro artigo importado seno
o metal utilizado para fazer os bronzes e as prolas de vidro. Sabe-se muito
pouco acerca dessas prolas a ponto de ser possvel uma datao suficien-
temente segura. Os bronzes so de estilo distinto daqueles do Benin e Ife,
consistindo em material isolado, de modo que  difcil basear-se em conside-
raes estilsticas para dat-los. Ficamos, portanto, restritos ao carbono 14: a
madeira proveniente de uma banqueta da cmara morturia, guarnecida de
pregos em cobre, foi datada do perodo que vai do sculo VIII ao incio do
sculo XI e trs anlises realizadas a partir do carvo de madeira da descarga
ofereciam o mesmo resultado; outra, executada com um material de idntica
provenincia revelou, contudo, uma data remontando ao final do sculo XIV e
incio do sculo XV; esse resultado  comparvel  data obtida para os nicos
outros bronzes encontrados, similares queles de Igbo -Ukwu58. A exatido
das datas mais remotas obtidas pelo carbono 14 associadas a Igbo-Ukwu foi
contestada59, porm, com bases errneas60.
   Considerando que h muito pouco cobre na Nigria61 e que no se conhe-
cem stios remotos de explorao desse minrio, uma data remontando ao
sculo XI, ou anterior, implica que o metal tenha sido importado do norte por
via terrestre e devem ter certamente ocorrido outras importaes, a exemplo
das prolas de vidro e gneros perecveis, como o sal, que no alcanaram os
nossos tempos. A Nigria oriental no tem ouro para exportar como contra-
partida, de tal modo que as suas mercadorias de luxo foram provavelmente
pagas com marfim e escravos. Certas pessoas questionaram dizendo que em
parte alguma da frica do Oeste encontra-se, to distante rumo ao sul, provas
de comrcio a longa distncia, durante o perodo indicado pelas dataes com

58   D. D. HARTLE, 1967, 1968
59   B. LAWAL, 1973; D. NORTHRUP, 1972.
60   T. SHAW, 1975a.
61   Segundo M. A. ONWUEJEOGWU, 1974; referir-se a T. SHAW, 1975a, p. 513.
558                                                  frica do sculo VII ao XI




(a)                                            (b)
Figura 16.5 A a H As escavaes
de Igbo-Ukwu (Fonte: National Com-
mission for Museums and Monuments,
Lagos).
Figura 16.5a Pingente miniatura em
bronze representando uma cabea, vista
de perfil (altura: 7,5 cm).
Figura 16.5b Pingente em bronze
representando uma cabea decorada de
carneiro (altura: 8,5 cm).
Figura 16.5c Crnio de leopardo em
bronze, montado sobre uma haste de
cobre (comprimento: 24 cm).
                                         (c)
Figura 16.5d Pingente em bronze,
representando um pssaro e dois ovos,
com crtalos e amarraes em peque-
nas correntes de fio de cobre (altura:
21,5 cm).




                                         (d)
A zona guineana: situao geral                                          559




(e)                               (f )
                                          Figura 16.5e Pedestal cilndrico em
                                          bronze (altura: 20 cm).
                                          Figura 16.5f Taa em bronze sobre
                                          pedestal (altura: 27,5 cm).
                                          Figura 16.5g Animal sobre uma con-
                                          cha em bronze (comprimento: 20 cm).
                                          Figura 16.5h Taa de bronze em
                                          forma de croissant (comprimento: 14
                                          cm).




                                    (g)




                                    (h)
560                                                                         frica do sculo VII ao XI



carbono 14. Esse argumento merece considerao, entretanto, deve-se lembrar
que a primeira rota, pela qual o mundo rabe teve acesso ao ouro do Sudo
ocidental, interligava a antiga Gana ao Egito, passando pelo al-Wht e pelos
osis de Khrja e Dkhla (conferir, acima, pgina 548). No foi seno depois dessa
rota tornar-se demasiado arriscada, em meados do sculo IX, que se utilizou
a rota ocidental, a partir do Magreb. Havia uma "rota do marfim", ao final da
poca romana e no perodo bizantino, que seguia de Trpoli at a regio do
lago Tchad, atravessando o Saara naqueles trechos em que ele  mais estreito,
sendo plausvel que os rabes a tenham igualmente empregado. No sculo XI,
al-Bakr registrou a exportao do cobre do Ss em direo ao sul, rumo ao
"pas dos negros"62. Os restos da caravana que transportava cerca de duas mil
barras de lato, submetida a um incidente no Madjbat al-Kubr (conferir,
acima, pgina 556), foram datados de aproximadamente +1100. Por conseguinte,
dispe-se de suficientes testemunhos no somente do comrcio transaariano
em geral, durante o perodo ao qual foram atribudas as descobertas de Igbo-
-Ukwu, por meio das dataes com carbono 14, mas, igualmente, da existncia
de um comrcio do cobre. A nica questo ainda pendente consiste em saber
se esse comrcio pde igualmente ampliar-se rumo ao sul, to distante, atin-
gindo Igbo-Ukwu. No se poder responder com certeza seno aps ter-se
escavado, na regio, outros stios da mesma poca. Outra eventualidade a ser
considerada, que merece investigao, consiste em saber se teria sido possvel
a vinda do cobre da regio metalfera do vale do Niari, situada ao norte da
poro inferior do rio Zaire63.
   A ideia segundo a qual o comrcio transaariano teria avanado em profun-
didade rumo ao sul, no sculo XI, talvez seja confirmada por duas dataes
com carbono 14, obtidas no bairro Nyarko, na localidade de Begho, na atual
Gana, lugar que se tornou o grande entreposto do ouro axnti destinado a ser
encaminhado em direo ao norte, rumo a Jenn64.




62    N. LEVTZION, 1968a, p. 231-232; R. C. C. LAW, 1967b; al-BAKRI, 1913, p. 306-307; N. LEVT-
      ZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 69.
63    P. MARTIN, 1970, p. 143; T. SHAW, 1975a, p. 513.
64 M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 166. As pesquisas realizadas desde a redao deste
   captulo mostram que a aldeia chamada Jenn-Jeno, situado a 3 km desta cidade de mesmo nome, foi
   ocupado entre -200 e +1400; as descobertas realizadas trazem considerveis esclarecimentos acerca
   da origem e sobre a evoluo de Jenn. Consultar R. J. MCINTOSH, 1979; R. J. MCINTOSH e S.
   K. MCINTOSH, 1981; S. K. MCINTOSH, 1979; S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980a,
   1980b.
A zona guineana: situao geral                                               561



     Ife
    O apogeu de Ife situa-se alm do perodo que nos ocupa, evidenciado graas
a 25 dataes com carbono 14, realizadas a partir de material proveniente de
7 stios arqueolgicos diferentes, a partir do que se pode considerar a poca,
compreendida entre o incio do sculo XII e a metade do sculo XV, como
sendo por excelncia aquela referente  construo de pavimentos de cacos,
muito bem dispostos horizontalmente, os quais podem, eles prprios, constituir
"indicadores" teis das condies sociais, polticas e econmicas que atriburam
a Ife a proeminncia em sua regio65. Caso possamos dar crdito  datao por
termoluminescncia, a produo das famosas cabeas de bronze e outras peas,
moldadas em liga de cobre, pertence aos 150 ltimos anos desses trs sculos66.
Entretanto, instituies polticas e religiosas centralizadas, munidas de uma
riqueza suficiente e capazes de favorecer uma produo artstica de elevads-
simo nvel, no so criadas em um dia. Por conseguinte,  importante levar em
considerao as circunstncias que esto nas origens dessas instituies e, haja
vista que a sua fase de maturao situa-se inclusa no perodo que nos ocupa,
convm conferir-lhe alguma ateno. A questo da "ascenso" de Ife deve ser
relacionada a uma questo mais ampla que intrigou bom nmero de escritores67,
a saber, aquela tocante s origens do urbanismo no pas ioruba.
    Pode-se considerar que, durante o primeiro milnio da Era Crist, as florestas
da Nigria tenham sido progressivamente ocupadas por populaes praticantes
de uma agricultura baseada no inhame e no dend; nas terras da savana situadas
imediatamente ao norte da floresta, os produtos cultivados eram provavelmente
o inhame, o sorgo comum e, em algumas regies, o arroz africano; nas savanas
setentrionais, o inhame teria sido substitudo pelo milheto. Ao longo de aproxi-
madamente 30 geraes, a supresso dos matagais e a produo agrcola teriam
ganho em eficcia, graas  utilizao de ferramentas em metal, fabricadas a par-
tir do ferro produzido in loco. Conquanto as pesquisas de campo e as escavaes
no estejam suficientemente expandidas no pas ioruba, a ponto de permitir uma
confirmao arqueolgica desses dados, 6 dataes com carbono 14 de objetos,
referentes a dois stios de Ife, atestam a presena de uma populao entre os
sculos VI e X da Era Crist68.


65   T. SHAW, 1978, p. 157-163.
66   F. WILLETT e S. J. FLEMING, 1976.
67   Notadamente W. R. BASCOM, 1955; E. KRAPF-ASKARI, 1969.
68   F. WILLETT, 1971, p. 366.
562                                                           frica do sculo VII ao XI



    A populao provavelmente possua trs caractersticas. Primeiramente, todas
as populaes agrcolas sedentarizadas na era pr-cientfica, demonstram o sen-
timento do dever fazer algo, para lutarem contra as variaes meteorolgicas e
aquelas tangentes s colheitas, relativamente s quais elas compreendem mal as
causas, do mesmo modo, para garantirem a fertilidade da terra e os rendimentos
dos cultivos. Elas acreditam que esses fenmenos dependem da boa vontade de
poderes sobrenaturais. A maioria do povo sente-se incapaz de lidar com essas
foras, as quais podem revelar-se perigosas, ou teme faz-lo; igualmente, est ela
feliz ao confiar essa tarefa a especialistas que no apresentam as mesmas reticn-
cias e pretendem possuir os conhecimentos necessrios. Eis a razo pela qual os
cultos e os sacerdotes revestem-se de grande importncia na vida comunitria.
    Em segundo lugar, um crescimento demogrfico geralmente  observado.
Esse fenmeno no automtico  geralmente lento, porm existe; recuos podem
acontecer aps penrias e doenas devidas  sedentarizao e s quais os caa-
dores e apanhadores esto menos expostos, entretanto, os nascimentos tendem a
se multiplicar e as mulheres do a luz e criam mais crianas que nas sociedades
baseadas, para a sua sobrevivncia, na caa e na coleta. Esse argumento demo-
grfico influencia as prticas agrcolas, fazendo-as evoluir no sentido de uma
explorao mais eficaz das diferentes zonas ecolgicas.
    Em terceiro lugar, essa explorao mais eficaz dos recursos, provavelmente,
desdobrou-se em certa especializao das diferentes zonas ecolgicas e, nota-
damente, em uma troca de produtos entre essas zonas (conferir, mais acima,
pgina 512); a implantao de um verdadeiro sistema de trocas internas sem dvida
favoreceu-se desse estado de coisas69. A complementaridade dos recursos explo-
rados nas diferentes zonas ecolgicas favorece a especializao profissional e a
interdependncia econmica; coletividades geograficamente vizinhas conhecem
rapidamente uma simbiose. Essa situao, por sua vez, corrobora a implantao
de sistemas de redistribuio. Veremos, mais adiante, que Ife ocupou uma posi-
o particular na rede de trocas assim constituda.
    Aparentemente, no oeste do Nger, a situao era diferente daquela reinante
no leste, onde os camponeses sentiam-se suficientemente seguros para viverem
das suas terras, em habitaes dispersas. Enquanto as fortificaes defensivas de
terra so muito raras junto aos igbo, nos pases edo e ioruba elas so frequentes,
situao a indicar que, por uma razo que no podemos no presente seno ima-
ginar, as necessidades defensivas no oeste do Nger obrigavam os camponeses a


69    R. McC. ADAMS, 1966, p. 52.
A zona guineana: situao geral                                                 563



viver reunidos em vilarejos a partir dos quais eles eram capazes de ir a p cultivar
suas terras. O sistema social das populaes de lngua ioruba e edo era, portanto,
muito diferente daquele dos igbo. Como pessoas de diferentes linhagens viviam
muito proximamente entre si, os direitos dos vizinhos comearam a se igualar
e, em seguida, a ultrapassar aqueles dos parentes. O peso do parentesco tendia a
ameaar a solidariedade do vilarejo em seus imperativos defensivos e os efeitos
dispersivos dessas obrigaes foram anulados por meio da atribuio de deter-
minadas funes a algumas famlias no mbito da vida comunitria, equivalen-
tes, por exemplo,  definio do chefe, do comandante militar, do historiador,
do porta-voz e do sacerdote. Desse modo, a autoridade tendeu a se tornar um
poder permanente. Esse mesmo poder permanente, quando exercido em escala
suficiente, requer auxiliares e uma categoria administrativa, com o objetivo de
contribuir na realizao das suas funes70. Ou, qui, as relaes de causa e
efeito talvez tenham funcionado em sentido inverso? Seria o fato dos iorubas
j terem implantado um sistema social hierarquizado (comparativamente ao
sistema segmentrio dos igbo)  com uma parte sempre crescente da produo
em proveito dos indivduos posicionados no topo e nos escales mais elevados da
pirmide social  a razo da exacerbao e do crescimento das rivalidades inter-
-comunitrias, cujo cerne era o domnio sobre a produo e, talvez, igualmente
sobre a terra, em outros termos, sobre os meios de produo?
    Efetivamente, caso fossem as necessidades defensivas que tivessem concen-
trado em vilarejos uma populao agrcola dispersa, qual seria a natureza da
ameaa? A densidade populacional teria atingido o ponto em que a competio
pelo acesso  terra cultivvel tornava-se real, com tamanha intensidade que cada
comunidade colocava em perigo a sua vizinha? Ou, talvez, a ameaa proviesse
do exterior e derivasse do domnio comercial e militar dos Estados mercadores
do Norte, o Mali e o Songhay? Uma dentre as dificuldades que encontramos
aqui diz respeito ao fato de faltar-nos informaes acerca das datas nas quais
essas diferentes fortificaes de terra foram construdas no pas ioruba. No
deveria ser difcil implantar um programa de pesquisa arqueolgica para tra-
zer esclarecimentos. Excetuando-se as muralhas internas construdas no Benin
nos sculos XIV e XV, a maior parte das fortificaes nas terras das regies
de lngua edo aparenta ter respondido a imperativos internos e assemelhar-se
sobretudo a fronteiras71. De fato,  possvel que a construo de fortificaes
defensivas nas terras no tenha comeado em territrio ioruba seno quando

70   R. HORTON, 1976.
71   G. CONNAH, 1975, p. 98-106; P. J. DARLING, 1974, 1976.
564                                                           frica do sculo VII ao XI



as presses externas fizeram-se sentir, como certamente foi o caso a partir de
1100; em seu apogeu, o domnio do Mali estendia-se ao longo do Nger at
cerca de 100 km das comunidades iorubas mais setentrionais. Somos conduzidos
a imaginar por quais meios essas presses foram possveis e comearam a se
exercer pela primeira vez. O mais provvel motivo seria tratar-se da busca por
escravos. Certamente houve expedies escravagistas em direo ao sul, a partir
do reino do Mali, porm, no  possvel afirmar com certeza, a partir de quando
elas teriam atingido, rumo ao leste, o limite setentrional do pas ioruba. Essas
expedies eram mais importantes no Sudo central que no Sudo ocidental,
porque essa ltima regio no produzia ouro72. Como j observamos,  possvel
que o sistema, que consistia em enviar produtos vindos das savanas do Norte,
como a manteiga-de-carit, em direo s regies florestais, trocando-os nessas
regies por noz-de-cola, por exemplo, seja mais antigo que qualquer comrcio
a longa distncia. Quando esse sistema foi estabelecido, assim como em razo
dos contatos que se haviam desenvolvido, os pases do Norte encontraram-se
em condies de oferecer outras mercadorias, provenientes de regies mais
longnquas; esses produtos foram acrescidos aos gneros j fornecidos, notada-
mente  manteiga-de-carit, estimulando, em contrapartida, a oferta de outros
produtos do Sul.
    Mediante a necessidade dos cultos para garantir a fertilidade da terra e o
sucesso das colheitas, assim como dos sacerdotes para os celebrarem, na quali-
dade de "especialistas na gesto sobrenatural das exploraes", alm de, por outra
parte, tornar-se imperativo institucionalizar medidas distributivas, esto, desde
logo, dadas as condies para o prximo nascimento de um centro religioso73.
Seguramente, a funo sacerdotal poderia ser garantida ao nvel dos vilarejos
(ela ainda continua a s-lo), entretanto, na justa medida que sistemas de troca se
desenvolvem, ela tende a ser levada a cabo nos centros. Igualmente, a necessria
redistribuio poderia ser assegurada unicamente pelos intercmbios comerciais,
porm, quando um sacerdote intermedeia os favores das potncias divinas para
garantir a fertilidade da terra e o bem-estar do povo,  pertinente esperar que
os seus servios sejam remunerados, diretamente, ou na forma de oferendas as
essas potncias e, muito amide, simultaneamente sob essas duas formas. Desse
modo, desenvolveu-se o centro religioso, no centro do qual o templo e o palcio,
os santurios e o alafin ou a oba, comearam a desempenhar uma funo de
redistribuio. Sabe-se menos acerca das atividades comerciais do oni de Ife,

72    N. LEVTZION, 1973, p. 174-178.
73    P. WHEATLEY, 1970, 1971.
A zona guineana: situao geral                                                                        565



comparativamente ao conhecido no tocante  oba do Benin, situao passvel
de explicao pelo fim da hegemonia comercial de Ife, nos sculos XV e XVI,
pelos danos devidos s guerras iorubas do sculo XIX, bem como pela ausncia
de continuidade das tradies. O poder das oba do Benin exercia-se sobre a tota-
lidade do comrcio praticado pelos autnomos alm dos limites da cidade: eles
eram os nicos a possuir os mais preciosos artigos, escravos, peles de leopardo,
pimenta, palmito, corais e a maior parte do marfim. Todavia, um dos ifa oriki, ou
cantos divinatrios iorubas, oferece-nos uma indicao: trata-se de Oduduwa,
heri fundador e primeiro oni de Ife, mercador enriquecido pela exportao da
noz-de-cola produzida in loco e importador dos cavalos provenientes do Norte74.
    Ife estava situada na salincia setentrional da floresta75 e encontrava-se no
corao de uma regio ecologicamente muito variada. Estabelecida em terras
frteis da floresta, Ife estava nas proximidades das savanas, em direo ao Norte,
do litoral, ao sul, assim como do vale do grande rio (o Nger) e de vrios cursos
d'gua de menor importncia que corriam rumo ao sul, para o Atlntico.
    Podemos portanto notar como Ife pde transformar-se em centro religioso,
sendo o oni considerado um personagem sagrado, recebendo tributos e direitos
de pedgio sobre o comrcio local e investido de um poder de comando, em
virtude da sua proeminncia no sistema religioso. Tamanha centralizao da
autoridade ritualstica e sobrenatural abria caminho para o exerccio de uma
supremacia econmica e de um verdadeiro poder poltico. Igualmente Ife estava
em boa posio para tirar partido das presses comerciais do Norte, quando
essas ltimas comearam a se manifestar.  verossmil que os escravagistas
do Norte tenham sido confrontados com a tarefa menos fcil na floresta; as
emboscadas eram mais praticveis e os vilarejos estavam em melhor condio
de se proteger. Os "buscadores" de escravos acharam, portanto, mais prudente
compr-los das autoridades locais que captur-los. Posteriormente, os escra-
vagistas do Atlntico agiram da mesma forma nos limites litorneos da flo-
resta. A escravatura comercial acrescentou-se  servido domstica e o comrcio
multiplicou a riqueza e o poder do oni e do seu entourage, consequentemente
crescente e em desenvolvimento. Para as sociedades africanas, desprovidas de
produtos naturais exportveis e atraentes como o ouro, porm, nas quais um pro-
cesso de centralizao estava em curso, os escravos constituam o melhor artigo



74   R. HORTON, 1979, p. 101, citando W. ABIMBOLA, 1975.
75   A provvel importncia desta situao foi sublinhada pela primeira vez por T. SHAW (1973), em seguida,
     analisada de modo mais aprofundado por R. HORTON (1979).
566                                                                             frica do sculo VII ao XI



de exportao76. Segundo a estimativa mais moderada, o nmero de escravos
exportados, pelo Saara, em direo  frica do Norte na primeira metade do
sculo XIX, alcanava 10.000 por ano77 e tudo leva a crer que esse comrcio
acontecia h muitos sculos; embora esse volume tenha sido inferior no tempo
da hegemonia de Ife, esse comrcio pode perfeitamente ter sido a principal fonte
de riquezas da cidade. No se pode garantir que os numerosos exemplos, nos
bronzes e terracotas de Ife, de indivduos amarrados e amordaados, de cadveres
decapitados, assim como de cabeas e membros separados do corpo, represen-
tassem, todos, escravos, entretanto,  plausvel tratar-se frequentemente disso.
Conquanto a escravatura fosse parte integrante dos sistemas social e comercial,
ela se prestava no to somente a fornecer a mo de obra destinada ao servio
da corte e dos mercadores e funcionrios abastados mas, igualmente, a alimentar
os sacrifcios ritualsticos necessrios  salvaguarda da sade e da prosperidade
do rei e dos seus sditos nascidos livres. Os escravos vendidos aos mercadores
do Norte eram provavelmente trocados por sal, porm, na justa medida que as
relaes comerciais consolidaram-se e contriburam para aumentar a riqueza
e a potncia do oni, mercadorias de luxo acrescentaram-se s importaes do
Norte e outros produtos indgenas foram oferecidos em troca. Cobre e lato, tx-
teis, prolas, braceletes, espadas e cavalos somaram-se s custosas importaes.
Aproximadamente em meados do sculo XII, Al-Idrs menciona igualmente
a exportao de especiarias, perfumes e ferramentas em ferro do Marrocos
meridional, rumo ao "pas dos negros"78. No se sabe como foram introduzidos
a moldagem do lato e a fabricao das prolas de vidro;  possvel que um oni
tenha exigido de um mercador do Norte residente em Ife que esse ltimo lhe
encontrasse um mestre capaz de ensinar a sua arte aos seus prprios escravos;
talvez, outro comerciante tenha decidido que seria mais lucrativo montar uma
indstria local de prolas de vidro, preferencialmente a importar vidrarias j
prontas. No  porque vemos a escravatura79, qual seja a sua definio, como a
base essencial do sistema econmico e social de Ife que devemos adulter-la. A
instituio da escravatura fornecia as bases materiais para as produes artsticas
da Grcia antiga e no menos as admiramos. Era necessrio de algum modo
pagar o cobre e o lato, pois que praticamente no havia cobre na Nigria, a


76    J. D. FAGE, 1974.
77    A. G. B. FISCHER e H. J. FISCHER, 1970, p. 60; UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulos
      6 a 10. Igualmente conferir R. A. AUSTEN, 1979.
78    N. LEVTZION, 1973, p. 141.
79    M. MASON, 1973, p. 453.
A zona guineana: situao geral                                                                      567



esse respeito, numerosos documentos rabes mencionam a sua exportao em
direo  frica Ocidental, mediante um custoso transporte por meio das rotas
das caravanas vindas do Norte, como observamos a propsito de Igbo-Ukwu80.
Os outros produtos exticos de luxo custavam igualmente caro, porm, dado
o seu carter perecvel, as maneiras pelas quais eram pagos demanda menos
explicaes. Talvez, o comrcio da noz-de-cola fosse mais antigo81 e a cola
juntamente com o marfim ajudassem a pagar a fatura82. No entanto,  difcil
imaginar qual mercadoria diferente dos escravos pudesse constituir o principal
artigo de exportao83. Embora o comrcio tenha desempenhado um importante
papel na formao do Estado Ife, isso no significa que a realeza dependesse dos
indivduos a ele dedicados84. Contudo, quando o comrcio exterior injeta uma
riqueza suplementar no sistema de trocas local, ele amplia consideravelmente o
poder dos chefes que controlam a sua distribuio.
    Certo nmero de indcios sugerem uma influncia vinda do Norte; a tradio
oral segundo a qual Obatala, criador da humanidade, era "branco"85, a tcnica de
moldagem do lato utilizado86 e a localizao ao longo do Nger do grupo de
bronzes "tsoede". Esses ltimos provm talvez em sua maioria de Owo87 e ao
menos um de Ife, porm, pode-se interpretar a sua situao ao longo da fronteira
setentrional do pas ioruba como um indcio da importncia dos movimentos
provenientes dessa direo88.
    Pretendeu-se atribuir outros indcios de relaes com o Norte em alguns
aspectos da arte e da arquitetura da antiga Ife, remontando em ltima anlise
ao mundo norte-africano do final da poca romano-bizantina e do incio da
era rabe. Vimos essa "influncia" no emprego da ornamentao em guilhochs
e da roscea89 na casa com implvio90 que segue o plano da casa romana com


80   T. SHAW, 1970, p. 278-279.
81   N. LEVTZION, 1973, p. 181.
82   A. OBAYEMI, 1976, p. 258.
83   A. G. B. FISHER e H. J. FISHER, 1970; T. LEWICKI, 1967b, 1971b, p. 657; R. MAUNY, 1961,
     p. 379; A. G. HOPKINS, 1973, p. 78-83.
84   A. OBAYEMI, 1976, p. 258-259.
85   F. WILLETT, 1970, p. 304.
86   D. WILLIAMS, 1974, p. 179-203.
87   D. FRASER, 1975.
88   T. SHAW, 1973.
89   E. EYO, 1974, p. 379-390. Ela surge, igual e provavelmente, na figura do peixe com patas, encontrada
     na arte ioruba e na arte do Benin; D. Fraser, 1972.
90   F. WILLETT, 1967, p. 126; G. CONNAH, 1969, p. 51.
568                                                                              frica do sculo VII ao XI



trio, assim como nos pavimentos de pedras e cacos que se assemelham aos
pavimentos em mosaicos ou na forma de tabuleiros91.
    Essa semelhanas talvez sejam fortuitas e elementos tais como as decoraes
em guilhochs e rosceas podem facilmente ter surgido de modo indenpendente;
igualmente, a casa com implvio e o pavimento de cacos poderiam ser solues
locais para os problemas arquitetnicos prprios a um clima muito quente, com
forte luminosidade e chuvas sazonais muito abundantes. A combinao desses
diversos indcios sugere uma provvel influncia vinda do Norte, sem que seja
contudo necessrio invocar uma sucesso de grandes ondas de invaso92. Talvez,
esses dados possam ser considerados,  imagem dos mitos fundadores, como
provas da instaurao do poder poltico de uma dinastia estrangeira. Todavia,
essa hiptese tampouco  imperiosa93 e esses sinais de relaes com um universo
muito longnquo do pas ioruba no provam que as artes de Ife no eram ver-
dadeiramente indgenas. A moldagem do lato e a fabricao de prolas perma-
neceram, provavelmente, como uma prerrogativa real, essa ltima estando talvez
ligada ao fornecimento de coroas ornadas de prolas aos dezesseis soberanos
iorubas autorizados a us-las em virtude da autoridade de Ife94.
    Caso localizemos no sculo XII o incio do apogeu da antiga Ife, h coin-
cidncia com a data provvel da penetrao em pas ioruba dessas demandas
comerciais dos pases do Norte, das quais ela soube tirar proveito. Talvez o
imprio do Mali estivesse demasiado distante para fornecer esse estmulo e seria
ento necessrio voltar-se para os primeiros Estados haus, cuja ascenso , em
grande parte, devida a fatores econmicos95. Sabemos que em uma data ulterior,
Zazzau especializou-se em expedies escravagistas em direo ao Sul e talvez o
stio urbano abandonado de Turunku tenha desempenhado esse papel em uma
poca mais remota; ele encontra-se apenas a 300 km de Tada, s margens do
Nger. Infelizmente, ainda sabe-se pouco, do ponto de vista arqueolgico, acerca
dos primeiros Estados haus e o stio de Turunku todavia no foi escavado.




91    G. CONNAH, 1969, p. 50.
92    S. O. BIOBAKU, 1955, pp. 21-23.
93    F. WILLETT, 1960, p. 232; W. Fagg, 1963, p. 25; D. Fraser, 1972, p. 290.
94    A. OBAYEMI, 1976, p. 215.
95    R. S. SMITH, 1969, pp. 187-188.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim      569



                                     CAPTULO 17


 A zona guineana: os povos entre o Monte
     Camares e a Costa do Marfim
                                 Bassey W. Andah
                     com a colaborao de James R. Anquandah




   Do estreito ponto de vista da historiografia, o perodo que vai do sculo
VII ao sculo XI da Era Crist constitui uma pgina em branco nos anais das
regies litorneas e interiores da baixa Guin. Por outra parte, as fontes docu-
mentais, europeias e rabes, so demasiado pobres; no seria respectivamente
seno a partir do sculo XII ou XIV e do sculo XVI que elas nos informariam
sobre essa regio. Por outro lado, a tradio oral,  qual no podemos dar cr-
dito no tocante a pocas relativamente recentes, torna-se sujeita a precaues
na justa medida que recuemos no tempo. Entretanto, podemos convoc-la
em complemento s informaes fornecidas pela arte, pela arqueologia, pela
antropologia e sobretudo pela lingustica, lanando desse modo uma nova luz
sobre esses primeiros anos da histria da baixa Guin. A arte de alguns povos
da baixa Guin oferece-nos preciosas informaes sobre a aparncia e as ves-
timentas dos indgenas, acerca das suas armas e relativas ao seu habitat, em
diferentes pocas, constituindo assim um quadro cronolgico independente
para o estudo da sua histria.
   No estudo a seguir, ns examinaremos minuciosamente as fontes acima com
o objetivo de extrair informaes acerca dos tipos de habitat que existiam na
regio da baixa Guin entre os sculos VII e XI, as caractersticas lingusticas e
sociais dos grupos que a povoavam na poca e o seu modo de vida. Igualmente
estudaremos os tipos de relaes que eles mantinham com grupos exteriores.
                                                                            570
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figura 17.1   Cidades e stios mencionados no texto (Fonte: B. W. Andah).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim           571



    O ambiente natural
    A costa da baixa Guin designa, em princpio, a regio que se estende do
Cabo das Palmas at Camares (figura 17.1). Ela est dividida em duas zonas
naturais: no oeste, do Cabo das Palmas ao rio Benin, um litoral com margens
regulares e relevo pouco mutvel e, a leste, uma zona de submerso que se
estende do rio Benin ao Monte Camares, ao longo de 640 km.
    De um lado, vastas plancies litorneas quase inteiramente planas e esturios
frequentemente dirigidos a uma margem costeira orientada do sudeste para o
nordeste; entre o Cabo das Trs Pontas e a Volta, planaltos de baixa altitude
avanam em direo  costa, ao passo que dunas obstruem os esturios e a
entrada dos vales. De outro lado, o delta do Nger, contendo diversas entradas
para o mar; largas barras de areia, pouco profundas e instveis, formadas por
uma derivao litornea direcionada para o leste; finalmente, esturios como
aqueles do rio Cross e do Rio del Rey, constantemente recobertos por mangues.
    A oeste do delta do Nger, esporadicamente, encontramos falsias e lagunas
separadas do oceano por faixas de areia. Em Gana e na Nigria, faixas litorneas
de largura varivel oferecem uma eficaz proteo para a navegao nas lagunas.
    Ao norte das lagunas, a costa inteira  rochosa e composta de falsias em
numerosas localizaes; enquanto as modernas habitaes tendem a localizar-se
nas alturas, os antigos vilarejos esto frequentemente situados ao nvel da laguna.
    Atrs da faixa costeira, encontra-se as altas terras do planalto axnti, em
Gana, e planaltos de baixa altitude, no Togo e no Benin. O planalto axnti , h
muito tempo, uma das regies mais povoadas da frica Ocidental, principal-
mente porque  bem servida pelas chuvas, em virtude de possuir solos frteis,
alm de ocupar uma posio marginal relativamente  floresta e a savana ao
norte, sendo limitada pelo flanco ocidental do escarpamento arentico da bacia
do rio Volta e pela parte meridional dos montes Togo. A savana arbustiva rea-
parece ao longo da costa, a leste de Takoradi, tornando-se savana virgem nas
plancies de Accra e estendendo-se em direo ao nordeste ao longo do corredor
seco das montanhas. O mangue e uma vegetao alagada recobrem as margens
do delta, relativamente pouco extenso, do Volta. A vegetao aberta das plancies
explica-se, essencialmente, pela insuficincia de precipitaes. Do ponto de vista
da pedognese, diferenas notrias existem entre as plancies de Accra e o delta,
assim como no prprio interior das plancies.
    Em seu conjunto, o delta do Nger, imenso aglomerado de sedimentos,
impe-se sob todos os aspectos, contrariamente quele do Volta, restrito rela-
                                                                                               572
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figura 17.2   Grupos lingusticos, povos e reinos mencionados no texto (Fonte: B. W. Andah).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim           573



tivamente  extenso do rio. No leste do Nger, estende-se uma vasta zona de
rochas sedimentares que abriga a bacia do Anambra, ao norte, e a bacia do rio
Cross, ao sul.
    Nas plancies da baixa Guin, o clima e a vegetao variam muito mais que
o relevo. O "corredor seco" oriental atravessa as plancies seguindo um eixo nor-
deste/sudoeste, com uma mdia de precipitaes anuais inferior a 1.140 mm;
ele se estende do norte em direo ao mar, igualmente passando pelo vale do
Nger. Imediatamente a leste da cadeia do Atakora, no Togo, as precipitaes
atingem uma mdia superior a 1.270 mm por ano, ao longo da linha divisria das
guas at Nikki, diminuindo, todavia, rapidamente na justa medida do avano
em direo ao norte. A sudeste do corredor, o volume de precipitaes aumenta
at ultrapassar 1.525 mm/ano. O regime das chuvas reflete-se na vegetao.
Enquanto a alta floresta est presente nos distritos situados a leste de Ibadan e
ao sul da linha divisria das guas, a maior poro das plancies est coberta pela
savana arborizada aberta. Essa vegetao aberta provavelmente contribuiu para
o desenvolvimento de Estados relativamente grandes nessa regio (por exemplo,
em terras iorubas e na atual Repblica Popular do Benin).


    Estruturas lingusticas e histria antiga
    As descobertas arqueolgicas realizadas nos stios de superfcie e tmulos
(Ife, Benin, na Nigria), tanto quanto naqueles profundos (Asokrochona, Kin-
tampo, Ntereso, em Gana; grutas de Ugwuelle-Uturu, Iwo Eleru e d'Afikpo, na
Nigria) indicam que o litoral e a floresta da baixa Guin, atualmente ocupadas
por povos falantes das lnguas kwa e benou-kongo, foram por muito tempo
ocupadas por camponeses e, antes desses ltimos, h vrios milhares de anos,
por caadores. Conquanto os dados arqueolgicos e lingusticos (glotocronol-
gicos) permitam supor a existncia de um lao fsico e, de certo modo, cultural
entre os primeiros habitantes da regio e os atuais ocupantes, falta precisar-lhes
a natureza. Com ainda maior nfase, pois que certos mitos de origem tendem
a mostrar que os atuais habitantes ter-se-iam instalado na regio em data rela-
tivamente recente.
    Os estudos lingusticos levam a supor que a maior parte da zona florestal
da frica do Oeste, estendida ao longo de 1.600 km desde o centro da Libria
at o leste do baixo Nger, na Nigria, esteja ocupada por povos falantes de uma
srie de lnguas aparentadas, com afinidades terminolgicas e estruturais. Trata-
-se das subfamlias kwa e benou-kongo, da famlia lingustica Nger-Congo.
574                                                             frica do sculo VII ao XI



    Na regio central, os mais importantes grupos lingusticos (no plano num-
rico) so o akan (twi, fanti, etc.) e o guang, predominante em Gana e na Costa
do Marfim; o g e o adangme (dangme), no sul de Gana; o ewe, predominante
no Togo e na Repblica Popular do Benin e igualmente falado no sudeste de
Gana. Segundo Greenberg1, os membros da subfamlia kwa oriental, na baixa
Guin, so os iorubas-igala, o grupo nupe (Nupe, Gbari, Igbira e Gade), os edo,
o grupo idoma (notadamente Idoma, Agatu e Iyala), os igbo e os ijo. O benou-
-kongo  falado imediatamente ao norte do rio Kongo e em algumas partes da
regio do rio, especialmente pelos ibibio, efik, ekoi e tiv.
    Caso fosse necessrio entrever, nas afinidades lexicais e estruturais que carac-
terizam cada um desses grupos, o sinal de uma proto-lngua comum para cada
um deles, isso equivaleria a dizer que, outrora, havia existido uma continuidade
cultural nos territrios onde essas lnguas so faladas (boa poro da floresta
guineana, no tangente aos kwa, e as regies orientais dessa floresta, bem como
a savana circunvizinha, no tocante ao benou-kongo, do subgrupo do Cross
River), assim como que uma diferenciao ulteriormente se tenha produzido,
em tempos remotos e todavia no-identificados.
    Os estudos de lingustica comparada suscitam conceber que o akan pertena,
juntamente com o anyi, o baul, o chakosi, o nzema e o ahanta, a um subgrupo
tano, do qual no fazem parte as lnguas guang, abure e belibe. Esses estudos
igualmente indicam que as lnguas volta-comoe (grupo akan) constituem um
verdadeiro grupo ancestral para numerosos outros subgrupos kwa; que as lnguas
residuais do Togo so distintas dos grupos ewe e g-adangme; bem como, que
os grupos akan, ewe, guang e g-adangme formam um conjunto menos estrei-
tamente ligado aos grupos lingusticos kwa do sul da Nigria.
    Geralmente estima-se que a confluncia Nger-Benou seja o centro de
origem ou de disperso dos povos da subfamlia kwa oriental, ao passo que os
membros da sub-famlia benou-kongo seriam originrios do leste e ter-se-iam
instalado na regio em data mais recente. Os estudos exploratrios de glotocro-
nologia permitem supor que as clivagens geradoras dos principais grupos kwa
remontem a tempos muito remotos2. Embora possamos acreditar que as estima-
tivas cronolgicas no possuam seno valor especulativo, a presena de relevantes
semelhanas culturais entre os povos atualmente falantes dessas lnguas, assim
como os sinais de influncias comuns, autorizam supor que os grupos da regio


1     J. H. GREENBERG, 1955, 1963a.
2     Referir-se a R. G. ARMSTRONG, 1962, 1964b.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim         575



tenham vivido um longo perodo de divergncia estvel3. Ademais, as lnguas
kwa so muito caractersticas e diferenciam-se dos grupos lingusticos mais
disseminados que as circundam. Elas poderiam perfeitamente ser o vestgio de
um tronco lingustico remotamente mais amplo.
    Por outra parte, aparentemente no existe fronteira muito ntida entre algu-
mas lnguas kwa (igbo, por exemplo) e lnguas benou-kongo do Cross River,
como o ibibio, o efik ou o kele, em que pese a distino estabelecida por Gre-
enberg. Williamson observou que certas lnguas benou-kongo (jukun, por
exemplo) no possuem sistema de classes nominais, contrariamente a algumas
lnguas kwa (como o dogama e o edo)4.
    Plausvel e aparentemente, considerando em contrapartida o contato dura-
douro mantido entre si, as lnguas igbo e efik parecem ter naturalmente admitido
certo nmero de emprstimos comuns, inclusive no que tange ao vocabulrio
de base.
    Os dados histrico-geogrficos, alm disso, tendem a mostrar que a floresta
j povoada constituiu um obstculo  penetrao de povos vindos ulteriormente.
Assim sendo, no houve migraes em massa mas, antes, incurses limitadas
a pequenos grupos que, inclusive quando exerceram grande influncia cultural,
provavelmente foram absorvidos linguisticamente e, por vezes, fisicamente pelas
populaes locais.
    Excetuando-se os principais grupos tnicos, a exemplo dos akan-baul, de
Gana e da Costa do Marfim, dos bini, iorubas, igbo e ijo, da Nigria, a regio
da baixa Guin foi, portanto, habitada por outros grupos frequentemente vizi-
nhos. A histria dessas etnias, mais ou menos importantes, esteve muito amide
e inextricavelmente ligada. Alguns grupos realmente inseriram-se em meio a
outros e, por conseguinte, houve numerosas interinfluncias culturais.


    A Gold Coast entre 600 e 1100
   O perodo compreendido entre os sculos VII e XI na Gold Coast (sul e
centro de Gana atual) foi, notoriamente, um perodo de formao e transio
entre os conjuntos de vilarejos pr-histricos, anteriores ao sculo VII, por um
lado, e os conjuntos urbanos, comerciais e tecnologicamente muito avanados,
surgidos em 1200 e depois. O aparente obscurantismo do perodo que vai de


3   R. G. ARMSTRONG, 1964b, p. 136.
4    K. L. A. WILLIAMSON, 1971, p. 252.
576                                                          frica do sculo VII ao XI



600 a 1100 no se deve  ausncia de acontecimentos do perodo em si (haja
vista que se recolheu, em vrias partes do pas, muitos elementos referentes ao
perodo pr-histrico anterior, compreendido entre o ano -1500 e o ano +500),
mas, antes, ao fato dos eruditos terem voltado relativamente menos as suas
atenes a esse perodo e s pesquisas concernentes.

      As origens prhistricas
    Durante os primeiro e segundo milnios antes da Era Crist, diversas por-
es da floresta e da savana da Gold Coast foram colonizados por indivduos
habitantes de vilarejos, os quais construram as suas habitaes em terra batida,
madeira, pedra e blocos de laterita e praticaram uma economia de subsistncia,
combinando a pesca, a caa, a coleta ou o "cultivo" do inhame, do dendezeiro,
de frutas, do dlico, da ervilha, do canarium e a criao de pequenos animais de
chifres curtos e cabras5.
    Conquanto tenhamos provas convincentes e evidentes da prtica do pas-
toreio, aquelas referentes sobretudo  agricultura so escassas, especialmente
por ser difcil efetuar pesquisas arqueobotnicas em solos tropicais. Entretanto,
existem tantos testemunhos tcnicos dessa atividade, na forma de machados de
pedra polida e enxadas de pedra, utilizados na derrubada de rvores, no des-
matamento e na preparao dos solos, a ponto de sermos obrigados a supor a
antiguidade do cultivo de alguns tubrculos, como o inhame de origem autc-
tone, assim como de alguns cereais, a exemplo do sorgo branco ou do milheto.
    Aproximadamente 80% dos stios conhecidos nos vilarejos pertencentes ao
conjunto Kintampo, assim chamado aps a descoberta do stio tpico na regio
dos brong, foram escavados. A superfcie dos vilarejos assim explorados, at o
momento, varia entre 2.000 m2 (Mumute-Brong) e 115.300 m2 (Boyase, pro-
ximamente a Kumasi), passando por 21.000 m2 (stio de Kintampo KI). De
fato, pode-se comparar alguns desses stios com vilarejos modernos de Gana,
no tocante  superfcie e  populao. As tcnicas e a economia de subsistncia
praticadas nesses vilarejos pr-histricos revelam uma adaptao muito evoluda
ao ambiente, bem como a especializao dos seus habitantes. Alguns elementos
aparentam indicar que reas especiais eram reservadas s oficinas dos ceramistas,
queles dos fabricantes de ferramentas em pedra ou s operaes de moagem,
etc. O conjunto de Kintampo igualmente  aquele onde se encontrou as mais
antigas esculturas cermicas da Gold Coast. No h razo alguma para acreditar


5     C. FLIGHT, 1967, 1976.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim           577



que as populaes, cujos restos foram descobertos no complexo de Kintampo,
falassem uma nica lngua em todas as regies, como afirma Colin Painter,
associando o guan ao complexo de Kintampo6.
    Na realidade,  possvel que uma (seno todas) das formas do proto-akan,
do proto-guan e do proto-g/dangme, tenha sido utilizada durante o primeiro
milnio antes da Era Crist. Graas s correspondncias entre os estudos
lingusticos e arqueolgicos sobre o baul, o anyi, o bia e o akan, parece ser
possvel (ainda cabe verificao) que a civilizao proto-akan se tenha desen-
volvido nas zonas de floresta e de savana, englobando as regies centrais
e o sul da Costa do Marfim e da Gold Coast, assim como que o conjunto
Kintampo, cujos stios j foram identificados nesses dois pases, constitua os
vestgios arqueolgicos de uma populao de lngua proto-akan, adaptada ao
ambiente e ignorando as fronteiras atualmente existentes entre a Costa do
Marfim e Gana7.
    As escavaes arqueolgicas, efetuadas nas plancies de Accra, indicam que
os caadores-coletores e os pescadores do final da Idade da Pedra, praticantes de
uma economia baseada nas conchas e na produo cermica, estavam j ativos
na zona da laguna de Gao (Tema), entre o quarto e o segundo milnios antes da
Era Crist8, e que eles posteriormente se dedicaram a fundar vilarejos agrcolas,
tais como encontram-se exemplos no conjunto do Kintampo, dentre os quais, o
vilarejo de Christian, situado nas cercanias da Universidade de Gana, em Legon.
No stio de Ladoku, um estrato do final da Idade da Pedra, contendo sinais de
fabricao de seixos de slex e de potes cermicos decorados, foi descoberto
imediatamente abaixo de um estrato da Idade do Ferro, comportando restos
cermicos cherekecherete do tipo dangme e prolas de bauxita cuja datao com
carbono 14 permite situar entre 1325 e 14759.
    Se, por um lado, as incurses limitadas a pequenos grupos populacionais e os
contatos comerciais e culturais so caractersticas corriqueiras, prprias  evolu-
o da maioria das sociedades e s quais impera atribuir a devida considerao,
em contrapartida, a antiga tese dos xodos populacionais massivos, de um lugar a
outro, a seu turno (salvo raras excees) equivale a um modo pouco convincente
para explicar as origens tnicas e culturais. A esse respeito, as antigas teorias
referentes s supostas migraes dos akan do Egito e de Gana antiga, assim


6    C. PAINTER, 1966.
7    F. DOLPHYNE, 1974.
8    J. C. DOMBROWSKI, 1980.
9    J. ANQUANDAH, 1982.
578                                                             frica do sculo VII ao XI



como s migraes da atual Repblica Popular do Benin e da Nigria, dos g/
dangme, devem ser consideradas, por razes arqueolgicas e lingusticas, como
muito pouco fundamentadas10.
    Um dos marcos principais na evoluo cultural das populaes da Gold
Coast  o incio e o desenvolvimento da metalurgia do ferro. A sua adoo foi
crucial para a passagem da economia camponesa e isolacionista para uma eco-
nomia caracterizada por um nvel tecnolgico muito elevado, uma agricultura
extensiva, indstrias e artesanatos diversificados e sistemas comerciais e socio-
polticos complexos. Os mais remotos sinais da tecnologia do ferro provm de
Begho (+105 255) e de Abam, Bono Manso (+290 350). As escavaes rea-
lizadas permitiram encontrar vestgios de fornos, escrias e artefatos cermicos,
assim como o carvo de madeira posteriormente datado.

      Vestgios concernentes ao perodo entre 600 e 1300
   O perodo compreendido entre 600 e 1300 foi qualificado como "Idade das
Trevas" no tocante  histria da Gold Coast, no sentido de sabermos menos
sobre esse perodo, comparativamente aos outros perodos dos quatro ltimos
milnios. Porm, os vestgios recolhidos incitam a formular a hiptese de ter sido
essa poca, sobretudo, um perodo de formao no curso do qual se consolidou
a edificao das infraestruturas da sociedade. Em razo da relativa raridade
dos vestgios dos quais dispomos para reconstituirmos a histria desse perodo,
podemos nos permitir extrapolar um pouco aqueles referentes s fases anteriores
ou posteriores e recorrer, em suplemento, a provas indiretas.

      O Estado Akan
   O stio troglodita de Amuowi, prximo a Bono Manso, remonta a um per-
odo (+370 510) que precede ligeiramente aquele aqui estudado. Entretanto,
esse ltimo coincide com aquele da fundio do ferro em Abam (Bono Manso).
Os brong de Bono Manso e de Takyiman preservam tradies etno-histricas
que autorizam supor serem eles originrios do "buraco sagrado" ou stio tro-
glodita de Amuowi. Anualmente, aquando do seu festival Apoo, os brong de
Takyiman relembram as suas origens tradicionais em um canto:




10    Consultar M. E. Kropp-Dakubu, 1976; A. A. Boahen, 1977.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim           579



        Ns viemos de Amuowi,
        Criador de antan;
        Ns somos os filhos da Terra me vermelha
        Ns viemos de Amuowi.
    As peas cermicas recolhidas em Amuowi e a datao das escavaes per-
mitem supor que, por volta do sculo VI, os brong da regio de Bono Manso
j haviam comeado a criar zonas de povoamento permanente, representando o
preldio do nascimento da zona protourbana e urbana de Bono Manso11.
    Atribuiu-se ao stio de Bonoso uma data remota que corresponde exata-
mente ao perodo considerado. As escavaes l efetuadas12 permitiram revelar
os vestgios de uma indstria de fundio do ferro, escrias, ferramentas para
o trabalho do ferro e da cermica ornamentadas com impresses por dentes de
pente. Segundo a datao com carbono 14, esse stio teria sido habitado entre
600 e 1085.
    As tradies orais dos brong wenchi afirmam que os seus cls ancestrais
saram de um buraco no cho, situado em Bonoso, perto de Wenchi, aps terem
sido desenterrados por um quadrpede um pouco semelhante a um porco, cha-
mado wankyie. As tradies designam Bonoso como o lugar onde os ancestrais
teriam fundado os seus principais assentamentos, antes de instalarem-se em sua
primeira capital, em Ahwene Koko (Old Wenchi).
    Um terceiro stio brong, pertencente a esse perodo,  a zona de povoamento
protourbano de Begho,  qual as tradies orais atribuem o nome do lendrio
fundador Efua Nyarko. A periferia correspondente a Nyarko, cuja datao pelo
carbono 14 situa a existncia entre 965 e 112513, estende-se em uma zona de
aproximadamente 1 km2. As escavaes ali efetuadas permitiram a descoberta
de ferramentas em ferro, objetos em cobre, marfim e cermica recoberta por
engobo, bem como decoraes pintadas do mesmo tipo que a cermica de New
Buipe, do sculo IX (figuras 17.3 a 17.5). Os vestgios recolhidos em Nyarko
traduzem as tendncias gerais do perodo compreendido entre 600 e 1100, a
saber, a especializao artesanal e tcnica, os primrdios da civilizao urbana e,
provavelmente, da indstria do marfim, assim como de um comrcio de expor-
tao que se tornaria importante nos sculos seguintes. De fato, os dados etno-
arqueolgicos indicam que a regio dos brong foi, certamente, uma zona akan


11   K. EFFAH-GYAMFI, 1978.
12   J. BOACHIE-ANSAH, 1978.
13   L. B. CROSSLAND, 1976.
                                                                                                                                                           580
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figura 17.3 Cermica decorada com pintura, proveniente das escavaes realizadas em Nyarko, nos arrabaldes da metrpole comercial de Begho, Repblica de
Gana (Fonte: J. Anquandah).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim         581



de ponta, no que tange  evoluo da agricultura,  metalurgia,  urbanizao, 
formao dos Estados e do comrcio exterior da Idade do Ferro14, e, embora no
tenhamos seno uma vaga ideia, em razo da raridade dos vestgios, o perodo
entre 600 e 1100 foi, certamente, para os brong, um perodo de ativa preparao
para o que viria a ser o apogeu da civilizao brong.
    As regies dos achanti e dos wassa so bem conhecidas graas aos seus stios
"pendurados" no alto das colinas, localizaes prediletas para os assentamentos
humanos da Idade do Ferro, no perodo compreendido entre o incio da Era
Crist e 1500. Os mais clebres dentre esses stios so Nkukoa Buoho (ao lado
de Kumashi), Bekwai, Kwapong, Obuasi Monkey Hill, Nsuta, Tarkwa, Ntiri-
kurom e Odumparara Bepo. Esses stios aparentam ter sido vilarejos rodeados
de paliadas. Neles descobriram-se importantes vestgios cermicos com bicos
salientes, corpo e bordas amplamente decorados. Essas peas cermicas so
encontradas, por vezes, juntamente com escrias de ferro, fragmentos de fornos
e vestgios anacrnicos da Idade da Pedra, tais como machados de pedra polida,
prolas de quartzo, micrlitos, moldes e, eventualmente, como em Odumparara,
prolas de bauxita. Embora nenhum desses lugares tenha sido realmente inves-
tigado e datado com carbono 14, a caracterstica cermica arcaica l descoberta
basta para situ-los bem anteriormente ao perodo 1600-1900, quando o perfil
mais popular entre os ceramistas da regio dos akan era o pote de forma arqui-
tetnica complexa, recoberto de um espelhado "fum", em absoluto as pitores-
cas decoraes do perodo anterior. Oliver Davies15 qualificou os altos stios
"pendurados" dos achanti e dos wassa como "medievais", termo notoriamente
insatisfatrio no contexto cultural tradicional africano. Em Nkukoa Buoho, ao
lado de Kumashi, o estilo dos potes cermicos encontrados no topo da colina
aparenta suceder cronologicamente a cultura Kintampo, o que indicaria que
peas abundantemente decoradas dos stios dessa zona, situados no alto de
colinas, pertenceriam aproximadamente ao perodo 600-1100. Na ausncia de
outra coisa, os vestgios da metalurgia do ferro, encontrados nesse conjunto,
demonstram o carter fundador desse perodo, que inaugurou a grande poca
da civilizao urbana, da formao dos Estados e dos intercmbios comerciais
de longa distncia, dos quais temos a prova em Adanse, Denkyira e Asante
(figuras. 17.6 e 17.7).
    A zona de Akyem Manso e de Akwatia  clebre pela sua produo de mine-
rais preciosos para exportao. Entretanto, para a arqueologia, a sua importncia

14   J. ANQUANDAH, 1982.
15   O. DAVIES, 1967.
582                                                                         frica do sculo VII ao XI




figura 17.4 Cermica com engobo e gravura feita com rolete, proveniente das escavaes realizadas em
New Buipe, Repblica de Gana, sculos VII-IX (Fonte: J. Anquandah).




figura 17.5 Cermica decorada por estampagem, proveniente das escavaes realizadas em New Buipe,
Repblica de Gana, sculos VII-IX (Fonte: segundo R. N. York, 1973).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim         583



reside em suas fortificaes de terra16. Essas ltimas consistem em aterramen-
tos erguidos com lama seca, cercando cada vilarejo e compondo uma estrutura
de defesa. Cada aterramento margeava uma trincheira ou um fosso profundo.
Essas fortificaes so encontradas em Akwatia, Manso, Oda, Abodum, Koko-
bin, Domiabra, etc. Dentre esses stios fortificados, alguns j foram escavados
com o objetivo de tentar verificar as duas hipteses formuladas para explicar
as suas funes. A primeira hiptese supe que eles tenham sido construdos
com objetivo defensivo. De acordo com a segunda, eles estavam destinados a
cercar os campos de trabalho construdos para a explorao da zona aluvial do
vale do Birim17.
    Aparentemente, a hiptese do "objetivo defensivo" venceu a teoria do "campo
de trabalho". As mais recentes escavaes etnoarqueolgicas, realizadas no stio
das fortificaes de Akyem Manso, permitiram revelar potes cermicos farta-
mente ornamentados, com bordas salientes (similares quelas do conjunto de
stios "pendurados" dos axntis e dos wassa), assim como sinais de fundio do
ferro, machados em pedra polida, prolas e moldes18.

     Os guan
    As tradies orais indicam que o pas dos kwahu figurava entre as zonas ocu-
padas pelos povos de lngua guan antes da chegada dos adanse a esse territrio,
assim como que os guan pr-akan levavam o nome de kodiabe, em razo da
sua predileo por uma economia de subsistncia fundada na produo do leo
de palma. As tradies indicam a existncia de certo nmero de hbeis chefes,
os quais teriam levado os guan a criarem colnias de povoamento na regio, a
saber, Adamu Yanko, Bransem Diawuo, Odiaboa, Kosa Brempong e Yaw Awere.
Relata-se que, aproximadamente em 1200, os guan, ocupantes das plancies de
Afram, teriam estabelecido a sua capital em Ganeboafo, de onde a dinastia dos
atara teria governado os guan das plancies de Afram. Ter-se-ia criado em Juafo
Abotan, um centro praticante ativo do comrcio de marfim, de noz-de-cola, de
gado, de sal e de escravos, dirigido  savana sudanesa19.
    A arqueologia todavia no demonstrou o fundamento dessas tradies. Porm,
certo nmero de escavaes foi realizado na gruta de Bosumpra (acredita-se que


16   O. DAVIES, 1967.
17   P. OZANNE, 1971.
18   D. KIYAGA-MULINDWA, 1976.
19   J. R. WALLIS, 1955.
                                                                                                                                                                584
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figura 17.6 (7 e 8) Cermicas com bordas salientes, ricamente decorada, do perodo II, proveniente de Nkukoa Buoho, proximamente a Kumasi, c. 500-1200
(Fonte: J. Anquandah).
Figura 17.7 (9, 10 e 11) Materiais da cultura "neoltica" de Kintampo, do perodo I, proveniente de Nkukoa Buoho, prxima a Kumasi, c. -1500/-500. Ferramenta
de ceramista (Fonte: J. Anquandah).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                               585



esse nome tenha relao com a divindade guan Bosumpra) e nas habitaes tro-
gloditas de Apreku, Tetewabuo et Akyekyemabuo20. A datao com carbono 14
indica que, aproximadamente entre 1000-1300, o planalto dos kwahu era ocu-
pado por caadores, pescadores e pastores nmades, assim como por cultivadores
da palmeira-do-azeite, os quais fabricavam cermica com espelhado "fum"21.
    Outra regio para a qual a arqueologia chamou a ateno sobre os guan 
Kyerepong Dawu. A populao autctone de Dawu Akuapem  falante do guan,
embora a sua lngua e a sua cultura tenham sido consideravelmente eclipsadas
ao longo dos tempos modernos, pelos povos akwamu e akuapem akan. A zona
de Dawu e de Awukugua est constelada de grandes outeiros constitudos de
rejeitos acumulados pela populao local durante um longo lapso de tempo que
a datao pelo carbono 14 situa entre 1400 e 1600. As escavaes realizadas nes-
ses montculos revelaram destroos, notadamente cermica importada de Shai,
ornamentos em marfim, pentes de ossos, objetos em cobre e ferro e esculturas
em argila com cabea chata ao estilo akuaba22. Embora esses numerosssimos
outeiros datem de um perodo ligeiramente posterior quele que nos interessa
aqui, o contexto cultural no qual esto inseridos no deixa de evocar os processos
formadores que presidiram o nascimento dos Estados modernos dos guan das
colinas de Akuapem.

     Os g e os dangme
    Caso os examinemos objetivamente, sem sucumbir aos preconceitos transmi-
tidos pelas tradies orais deformadas, os dados arqueolgicos e etnolingusticos
relativos s plancies de Accra indicam que os g e os dangme provavelmente
habitaram as plancies de Accra entre um e dois milnios23. De fato, poder-se-
-ia inclusive chegar a supor uma evoluo g-adangme autctone nas plancies
de Accra. Certo nmero de stios, a exemplo de Gbegbe, Little Accra, Pram-
pram e Llv (apesar de ainda no-datados), guardam as runas de zonas de
povoamento comportando grande nmero de peas cermicas no-importadas


20   F. B. MUSONDA, 1976.
21   A. B. SMITH, 1975; C. T. SHAW, 1944.
22   T. SHAW, 1961.
23   A questo relativa  origem dos g e dos dangme  controversa. A teoria segundo a qual eles teriam
     imigrado da regio de Daom e da Nigria foi propagada por ancios do pas dangme, notadamente
     por Carl Reindorf, Noa Akunor Aguae Azu, D. A. Puplampu, Nene Lomo II de Ada, S. S. Odonkor
     de Krobo e La Nimo Opta III de Doryumu, Shai. Esta opinio  compartilhada por eruditos, tais como
     Kropp-Dakubu, E. O. Apronti, Irene Odotei e Louis Wilson.
586                                                         frica do sculo VII ao XI



da Europa e, por conseguinte, datadas de um perodo anterior a 1400.  bem
verdade que os stios de Ayawaso, de Great Accra, de Ladoku e de Shai datam
do perodo 1550-1900, ou seja, aquele equivalente ao grande perodo de urba-
nizao, da formao dos Estados e dos complexos sistemas comerciais (figura
17.8). Por outra parte, Ladoku e Shai eram o ponto de convergncia de grande
nmero de vilarejos, remontando ao perodo 600-1400, dentre os quais Che-
rekecherete, Adwuku, Tetedwa, Pianoyo e Hioweyo. As ltimas pesquisas rea-
lizadas na regio adangme das plancies de Accra indicam que entre o ano
1000 e o ano 1300, os habitantes adangme da regio de Prampram, Dawhenya
e Shai praticavam uma economia de subsistncia (pastoreio, pesca, extrao
de sal, cultivo do sorgo branco em terraos) e um sistema socioteocrtico que
provocaria uma conurbao, a saber, a geminao de Shai e Ladoku, em 1300-
-1900, criando uma civilizao caracterizada pelo desenvolvimento da cincia
herborista, das tradies musicais proverbiais e filosficas do tipo klama e um
sistema monrquico e teocrtico24.

      O pas dos ewe
   As pesquisas nessa regio encontram-se at o momento restritas a traba-
lhos de reconhecimento de superfcie, em lugares como Vume Dugame, Bator,
Amedzofe-Avatime, Wusuta e Akpafu. Alguns dentre esses stios testemunham
de modo muito evidente a existncia de colnias de povoamento praticantes da
metalurgia. As tradies associadas aos stios de Akpafu, Wusuta e Kanieme
indicam a prtica da metalurgia durante sculos e os vestgios arqueolgicos,
embora no-datados, aparentam confirmar essas tradies. Entretanto, existem
numerosos stios da regio do Volta que, como observado anteriormente, con-
tm micrlitos, machados em pedra polida e enxadas de pedra, o que aparenta
indicar que a sua ocupao prosseguiu de modo contnuo at a poca moderna.
No h razo alguma para no estabelecermos relao entre os ewe atuais e os
vestgios culturais da Idade do Ferro e do final da Idade da Pedra, encontrados
no conjunto do pas ewe.

      Antigos assentamentos urbanos
   Os dados dos quais dispomos mostram que existiam ao menos dois grandes
tipos de assentamentos urbanos em Gana atual, antes da chegada dos europeus:


24    J. ANQUANDAH, 1982.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                  587




figura 17.8 Os ceramistas dangme do stio da Idade do Ferro de Cherekecherete, nas plancies de Accra
(Gold Coast), sucessores dos povos da Idade do Ferro do sculo VII ao sculo XI, fabricavam cermica deco-
rada, representando cabeas de animais domsticos e de seres humanos, modeladas e estilizadas (Fonte:  J.
Anquandah).



os centros comerciais, a exemplo de Begho, e as capitais polticas tais como Bono
Manso. Assentamentos essencialmente constitudos como centros de inter-
cmbio desenvolveram-se na confluncia Tain-Volta, em larga medida graas
s migraes e ao comrcio com regies longnquas. Pesquisas arqueolgicas
pontuais revelaram vestgios de assentamentos desse tipo, particularmente em
Kitare, Begho, Bicu, Old Bima e Buipe.
    Resta estudar detalhadamente a evoluo dos grupos autctones e de
imigrantes que povoavam esses stios, procedendo a escavaes sistemticas.
Todavia, as descobertas j feitas em Jakpawuase, por exemplo, aparentam
indicar que, antes da apario dos mandem, essa regio era relativamente
povoada e l se encontravam vastas aglomeraes, assim como grupos de
comunidades aparentadas, os quais haviam constitudo uma rede de trocas
comerciais locais, sem dvida baseadas no escambo de gneros alimentcios
e produtos agrcolas.
588                                                          frica do sculo VII ao XI



    As pesquisas efetuadas em Begho revelaram que a localidade era essencial-
mente de cultura brong, com sinais notveis de influncias externas. Segundo
Posnansky, sries de outeiros, frequentemente formando um L ou quadrados
sem elevao em seu meio, de 1 a 4 m de altura por 20 m de comprimento, dese-
nham bairros. O maior bairro, dos brong, consiste em vrias centenas de outeiros,
dispostos ao longo de mais de 1 km. Os bairros so separados, a cada 1 ou 2
km, por um espao onde aflora laterita, provavelmente reservado ao mercado25.
    Bima e Bofe eram outros dois grandes centros comerciais da mesma regio,
sem dvida contemporneos de Begho, devedores da sua prosperidade, em larga
medida, ao comrcio do mdio Nger. Antes de tornar-se uma cidade, Begho
(Bew) conhecera uma fase agro-pastoral cujo incio remonta a 3500 anos, reu-
nira sociedades numericamente importantes que utilizavam ferramentas do tipo
neoltico kintampo. Vestgios de potes cermicos levam a pensar que antes da
metade do segundo milnio da Era Crist (sobretudo nos sculos XI e XII),
as populaes estabelecidas proximamente a Begho (na poca pr-urbana de
Begho), pertencessem essencialmente ao grupo indgena dos bono.
    Segundo Posnansky, Begho j era um grande centro antes de comerciar com
as regies longnquas. Os seus habitantes exploravam as terras frteis desde o
sculo II da Era Crist e cultivavam o inhame e o dend, aos quais viriam em
seguida a acrescentar o sorgo e o milheto. Aos brong (akan) dos primrdios,
paulatinamente integraram-se povos de lngua voltaica e de lngua mandem,
praticantes de atividades diferentes26.
    Begho realmente comeou a existir como centro comercial no sculo XI,
no entanto, no atingiu o seu apogeu seno no sculo XIV. Aparentemente, ela
teria ento compreendido at 500 grupos de habitaes e 5 mil habitantes. Ela
era constituda de 500 bairros distintos, dentre os quais o maior, bairro brong,
estendia-se nitidamente por mais de 500 m. As terras cultivadas eram bem mais
extensas.
    Embora muito heterognea, a populao de Begho era provavelmente em
sua maioria autctone (brong e pantera). Acerca da natureza dessa sociedade,
possumos no mais que as informaes que pode fornecer o estudo da vida
tradicional dos akan dos tempos atuais. A tradio pretende que tenham existido
escravos domsticos e um dinmico sistema de cls. Os objetos encontrados nas
tumbas e as variadas formas de inumao atestam a diversidade de comporta-
mentos religiosos.

25    M. POSNANSKY, 1973, pp. 156-162.
26    M. POSNANSKY, 1980.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          589



    Assim como, no tocante a outros assentamentos antigos, no se sabe como
Bono Manso (16 km a norte de Takyiman) foi criada. Segundo a tradio oral,
ela teria sido fundada aproximadamente no sculo V da Era Crist, por um
grupo outrora habitante do stio troglodita de Amuowi. Para Effah-Gyamfi, a
expanso de Bono deve-se, sobretudo,  integrao no seio de um Estado nico
de diversas chefaturas, j existentes por volta do final do I milnio27. Bono
Manso no era a primeira localidade importante da regio, porm, ela foi a pri-
meira a conquistar a supremacia sobre todas as outras, na qualidade de capital
do reino bono. Bono possui ricas jazidas de atwet weboo (ndulos de laterita do
qual se extrai o ferro). As pesquisas arqueolgicas de fato permitiram descobrir
ao menos 500 centros metalrgicos aproximadamente equidistantes dos cursos
d'gua e dos riachos. Esses stios datam, um do sculo IV da Era Crist e os
demais, provavelmente da poca urbana. Todavia, como aquelas de Amuowi, as
poucas peas cermicas encontradas no stio julgado mais antigo so idnticas
quelas reveladas em Bono Manso nos primeiros depsitos, o que leva a crer
que a rea de Bono Manso j estivesse ocupada antes da fundao da capital.
    Bono Manso igualmente encontrava-se na extremidade da savana e da flo-
resta, situao que permitia intercambiar, no plano regional, os produtos de
ambos os ambientes. No que tange ao comrcio internacional, essa localidade
era o limite extremo, ao sul, que os burros de carga podiam atingir sem prejuzos:
tratava-se, por conseguinte, da zona de troca dos produtos estrangeiros com
aqueles das regies ao sul de Gana. A regio de Bono Manso produzia, alm
do ouro aluvial, muito procurado pelos comerciantes mande, noz-de-cola. No
se encontrou, como em Begho, sinais de um bairro estrangeiro, o que significa
que a populao de Bono era mais etnicamente homognea. Em Bono, o poder
central igualmente regia as atividades comerciais, ao passo que em Begho, o
comrcio aparenta ter escapado  esfera poltica.
    Effah-Gyamfi deduz, por meio do exame dos potes cermicos, que Bono
Manso talvez tenha sido um dos primeiros assentamentos akan. Segundo ele,
a regio de Bono Manso encontrava-se possivelmente na fronteira entre o pri-
meiro grupo de cultura akan pura, do Sul, os primeiros no-akan e os akan
mestios do Norte e do Noroeste, respectivamente28. Isso, juntamente com os
dados lingusticos, revelaria a continuidade de um grande nmero de grupos
etnoculturais, no transcorrer dos ltimos 500 anos.


27   K. EFFAH-GYAMFI, 1975.
28   K. EFFAH-GYAMFI, 1975.
590                                                            frica do sculo VII ao XI



      O pas ioruba entre 600 e 1100
    No pas ioruba, as escavaes arqueolgicas limitaram-se at o momento a
Ife e a Oyo, e somente a Ife urbana remonta ao perodo que nos interessa. As
descobertas arqueolgicas confirmadas pela tradio oral indicam que houve
trs grandes fases na vida de Ife; elas so evocadas assaz precisamente por
Ozanne29.
    Baseando-se nos resultados das escavaes e nos estudos etnogrficos rea-
lizados em Ife e Oyo, a cidade ioruba tradicional aparentemente compreen-
dia vrios grupos habitacionais construdos em torno de ptios de diferentes
dimenses, onde se encontravam habitualmente vasos destinados a armazenar
a gua escorrida pelos tetos. Todavia, entre as diversas cidades havia sensveis
diferenas de carter (fundamentalmente histrico e ecolgico), as quais, caso
esteja certa a hiptese de Johnson, poderiam em alguns casos explicar-se pelo
tipo de crescimento. Segundo ele, Ife identifica-se com as cidades de modelo
de crescimento progressivo. Ela comeou cercada por uma muralha nica, alm
da qual se estendiam as terras agrcolas, apenas protegidas por uma igboile,
cinturo verde de densa floresta, virgem de qualquer construo, excetuando-se
algumas sepulturas; em seguida, quando ela tornou-se suficientemente impor-
tante, a ponto de correr o risco de sofrer um cerco prolongado, foi dotada de
uma muralha defensiva externa, igualmente envolvendo as terras agrcolas30.
    Muitos historiadores estimam que um dos principais fatores da expanso das
sociedades urbanas e polticas, sem dvida, tenha sido a instituio de realezas
divinas. Wheatley afirma que a instaurao dessas realezas se tenha devido
a influncias externas e no a uma transferncia de poder no seio da socie-
dade ioruba31. Embora no saibamos com exatido como elas se proliferaram,
considera-se a sua indubitvel e forte contribuio em prol do processo de urba-
nizao. O mesmo especialista, contudo, admite que as cidades iorubas seriam
uma criao espontnea e no autoritria, resultantes de um processo orgnico
de estratificao social interna e no de adoo de estruturas simblicas e pol-
ticas tomadas por emprstimo do exterior. Somente um estudo arqueolgico sis-
temtico dos stios apropriados da regio permitiria verificar essa teoria. De todo
modo, os regimes polticos no tocante ao desenvolvimento dos quais a noo de
realeza divina desempenhou um importante papel so aqueles de Benin e Nri.

29    P. OZANNE, 1969.
30    S. JOHNSON, 1921.
31    P. WHEATLEY, 1970.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          591



    Aos olhos de Allison, h uma relao entre as esculturas de pedra do pas
ioruba e a arte clssica de Ife, em que pese o estilo dessas esculturas diferir
daquele prprio aos objetos em lato e terracota de Ife. Eles so encontrados
at a 100 km de Ife, na floresta ioruba central, e em Esie, a aproximadamente
90 km, ao norte de Ife, nas margens da floresta, notadamente em dois vilarejos
atualmente situados na savana, onde se computa, ao menos, nove stios32.
    Nos bosques sagrados de Ife, entre o cinturo externo e a muralha interna,
encontram-se esttuas de granito ou de rochas gneas locais de estilo natura-
lista, representando personagens de tipo negroide. As mais interessantes so
duas esttuas conhecidas pelos nomes Idena e Ore. Uma terceira esttua em
pedra-sabo representa uma mulher ajoelhada, situada afastada em um bosque
vizinho. Elas tm um estilo geralmente comparvel quele de certas esculturas
modernas ioruba em madeira. Diversos outros objetos em pedra esto reunidos
em torno de duas figuras em granito e em outras clareiras do bosque de Ore.
    Em outros lugares de Ife, existe certo nmero de pedras erguidas trabalha-
das, dentre as quais a mais impactante  uma fina coluna de granito esculpida,
chamada opa oranmiyan (basto de Oranmiyan), um dos filhos de Oduduwa e
fundador de Oyo. Essa coluna foi restaurada (a sua altura  de 54 m) e decorada
com pontas de ferro alinhadas, formando um tridente alongado. Na grande praa
do mercado, eleva-se o opa ogun (basto de Ogun, deus da guerra e do ferro),
com 15 m de altura e a forma de um bordo cilndrico.
    As esttuas de Idena e Ore so as nicas feitas em pedra dura em Ife, entre-
tanto, Eshure, no pas ekiti  80 km a noroeste  possui um grupo de esculturas
que apresenta, relativamente quelas, evidentes afinidades: como os personagens
em pedra de Aba Ipetu (oito no total), apresentando altura, o colar, os braceletes
e o manto idnticos, embora mais estilizados. H outras esttuas de inspirao
ifeana em stios situados em um raio de cerca de 50 km, em torno de Ife: por
exemplo, Kuta a oeste, Ikirum ao norte e Effon a noroeste.
    Muitas cabeas em terracota de forma cnica foram descobertas em Ife.
Todas apresentam afinidades com a estaturia em pedra dessa cidade, cuja zona
de influncia reconhecida amplia-se paulatinamente. Assim sendo, fragmentos
de pavimento formado por cacos de cermicas caractersticas de Ife foram reve-
lados em Benin, a leste, e at na Repblica Popular do Benin e no Togo, a oeste.
Allison acredita, todavia, que as esculturas em pedra no podem ser originrias
seno da prpria Ife.


32   P. ALLISON, 1968, p. 13 e seguintes.
592                                                            frica do sculo VII ao XI



    O principal grupo de esculturas em pedra do pas ioruba  aquele da cidade
ibomina de Esie, ainda s margens da floresta, embora e geralmente, a savana
no esteja distante seno alguns quilmetros ao norte e, em numerosos pontos,
j tenha invadido a floresta. A histria recente de Esie est ligada quela de Oyo,
muito mais que  consorte de Ife.
    As esttuas em pedra so, quase certamente, vestgios de uma implantao
anterior. Computa-se mais de 800 ere, como as nomeia o povo esie, embora o
seu nmero seja de difcil avaliao, haja vista que muitas, dentre elas, no mais
possuam cabea e tampouco membros. Elas todas aparentam ser de pedra-sabo,
extrada proximamente  cidade, e medem, geralmente e quando ntegras, cerca
de 60cm, o seu tamanho, no entanto, oscila entre 20 cm e quase 1,30 m.
    Conquanto atualmente os ibomina da savana pretendam possuir um passado
comum com os oyo, o primeiro orangun (chefe supremo) de Ila, grande cidade
ibomina da floresta, era, segundo a tradio, um dos sete netos de Oduduwa,
mencionado nos relatos sobre a disperso ocorrida a partir de Ife. No enfrenta-
mento final com os oyo de Ibadan, Ila estava ao lado dos ekiti, dos ilesha e de
outros iorubas da floresta.
    A tradio atribui os objetos aos primeiros ocupantes da regio, os quais
foram submetidos ou colonizados pelos oyo. Tratava-se de habitantes da floresta,
de cultura ifeana, como mostram vrias caractersticas frequentemente notveis
em suas esculturas.
    As esculturas naturalistas em terracota e lato de Ife, s quais se confere
origem, com relativa certeza, nos sculos XI-XII, estavam notoriamente asso-
ciadas ao culto dos ancestrais do oni (rei) de Ife, assim como os impactantes
assentos de quartzo e monlitos de granito. A esttua naturalista de granito
ou de composio gnea aparenta pertencer ao mesmo perodo e derivar de
uma inspirao similar. As 800 esttuas de Esie que, com os seus elaborados
penteados e outros adornos, esto em sua maioria sentadas, sem dvida repre-
sentando personagens reais. Elas so menos realistas que as esculturas de Ife
e poderiam ser posteriores.
     especialmente importante descobrir os laos, cronolgicos e outros, que
poderiam existir entre as esttuas de pedra e as produes em terracota e bronze,
assim como entre a estaturia em pedra e aquela de outras regies da frica do
Oeste. Isso exige particularmente a revelao de vestgios de assentamentos pr-
-oyo, nas regies de Esie e Ijara, alm de um estudo geoarqueolgico das fontes
de matrias-primas. Finalmente, o exame etnogrfico das obras em madeira
e terracota, sobretudo, deveria ajudar a estabelecer os eventuais parentescos
tcnicos.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                    593



    Em suas publicaes sobre a arte de Ife, Willet nota as numerosas caracte-
rsticas gerais que as esculturas de Ife, embora mais naturalistas, tm em comum
com aquelas de Nok33. Ele igualmente apresenta a hiptese de que a represen-
tao das orelhas de Ife tenha estado na base das interpretaes estilizadas de
Benin. Ele estima que esses elementos, entre outros, indiquem a presena de
relaes atravs do tempo e do espao, assim como uma continuidade da tradio
artstica na frica do Oeste, durante mais de dois mil anos34. Exatas ou no, as
hipteses de Willet, os iorubas aparentam constituir o ponto de partida lgico
para o estudo dos povos litorneos e do interior da baixa Guin. A sua cultura
caracterizava-se, notadamente, por uma estrutura urbana muito elaborada, uma
lngua comum com variantes dialetais, uma tradio detonando uma origem
comum, a adorao de um panteo de deuses com, uma vez mais, variantes locais
e, finalmente, uma tradio artstica muito refinada. Ademais, os iorubas apa-
rentam ter desempenhado um importante papel na fundao de alguns reinos
vizinhos como aqueles do Benin ou de Nupe.
    O papel chave desempenhado pelos iorubas torna-se ainda mais claro caso
examinemos os movimentos populacionais mais antigos no sul da Nigria. Pri-
meiramente, o grupo ioruba-iagala paulatinamente estendeu-se rumo ao oeste
e ao sul, a partir de um ponto situado no nordeste do seu lugar de implantao.
Em segundo lugar, a tradio dos iagala pretende que esse povo se tenha pri-
mitivamente instalado na margem oriental do Nger, expulsando os idoma para
o leste e os igbo para o sul. Em terceiro lugar, a situao dos itsekiri, na parte
sudoeste do delta do Nger, indica que esse movimento do grupo ioruba poderia
ser anterior  extenso dos povos edo em direo  costa.
    Supe-se igualmente que os ijo tenham descido muito cedo pelo delta do
Nger35. Esse movimento aparenta ter sido sucedido, antes, por um movimento dos
edo rumo ao sul, em seguida voltando-se a leste e, posteriormente, por uma exten-
so geral dos igbo em direo ao sul, at as altas terras a oeste do Nger; finalmente,
por outro avano igbo em direo  margem oriental do delta, ainda em curso no
momento do trfico de escravos. A expanso dos igbo para o leste, expulsando os
povos da famlia benou-kongo para o norte do rio Cross, sem dvida posterior



33   Algumas caractersticas de Nok aparentam pr-figurar o "complexo de Ife", ao menos no que concerne a
     cermica e as estatuetas.  inclusive possvel que ferramentas em ferro e/ou o trabalho do ferro tenham
     sido importados de Nok;  igualmente plausvel que essas tecnologias provenham ou de Mero, ou do
     noroeste da frica, embora os dados atualmente disponveis no confirmem essa hiptese.
34   F. WILLETT, 1967.
35   R. N. HENDERSON, 1972.
594                                                            frica do sculo VII ao XI



ao trfico de escravos, no seria provada seno recentemente36. Esse expansionismo
tardio dos igbo est parcialmente associado s crescentes presses demogrficas
exercidas nas altas terras do leste. Esses movimentos talvez tenham sido concomi-
tantes a outros deslocamentos suscitados pela tradio oral, levantando a suposio
do imbrglio entre os grupos lingusticos no delta. Segundo a tradio oral, pode-
-se igualmente retraar a expanso tardia dos povos edo rumo ao centro do delta
e a disperso dos povos ijo, a partir de um centro primitivo do oeste do delta, em
direo ao leste, onde se chocaram com os ibibio do grupo benou-kongo.
    As lendas de origem e os resultados das escavaes arqueolgicas convergem
e levam a acreditar que teria sido na regio de Ife que os povos iorubas comea-
ram a se manifestar, sem dvida possvel, como etnia distinta. Outras fontes his-
tricas confirmam que Ife ainda constitui o mais antigo centro ioruba conhecido,
dirigido pelos oni que por muito tempo exerceram um poder espiritual sobre um
vasto territrio. Finalmente, foi a partir de Ife que se disseminaram os funda-
dores de Oyo e cinco outras grandes cidades iorubas, assim como os sucessores
da dinastia reinante no Benin, por volta dos sculos XIV/XIV-XV. A tradio
oral registra que a fundao de Ife resulta da vitria sobre um grupo autctone
de invasores denominado "igbo", possuidor da vantagem de ter armas de ferro.
    Independentemente da explicao sobre as origens de Ife,  indubitvel que,
entre os sculos VII e XI, Ife dominava cultural e politicamente os iorubas e
os vizinhos bini. Foi possvel datar com exatido alguns bronzes de meados do
sculo XI e, possivelmente, embora no esteja provado, que alguns dentre esses
objetos de terracota sejam-lhes em muito anteriores. Recentemente, as desco-
bertas arqueolgicas ofereceram alguns dos elos faltantes para o conhecimento
da histria dos iorubas durante esse perodo crucial.
    Leo Frobenius foi o primeiro a sublinhar a importncia histrica e arqueol-
gica de Ife e das esculturas naturalistas nela encontradas, embora a sequncia dos
seus trabalhos arqueolgicos no corresponda aos nossos critrios modernos e a
sua interpretao sobre a origem de Ife no seja aceitvel37. Frobenius trabalhou
sobretudo em Olokun Crove, stio caracterizado pela fabricao de prolas em
vidro azul (segi beads). Amostras dessas prolas, encontradas em Kumbi Saleh,
Tegdaoust e Gao, revelaram-se, por meio de raios ultravioletas, idnticas que-
las de Ife38; isso permite ao menos supor que exista certa relao entre Ife e as
cidades sudanesas.

36    G. I. JONES, 1961.
37    F. WILLETT, 1973, p. 117.
38    C. C. DAVISON, R. D. GIAQUE e J. D. CLARK, 1971.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                 595




figura 17.9 Cabea de terracota proveniente de uma figura oni (rei), exumada em Ita Yemoo, regio de Ife,
26,3 cm de altura (Fonte:  Frank Villett).
596                                                                           frica do sculo VII ao XI




figura 17.10 Cabea de terracota proveniente de estatueta representando talvez uma rainha, revelada em
Ita Yemoo, regio de Ife, 23,1 cm de altura (Fonte:  Frank Villett).
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                597




figura 17.11 Cabea de terracota encontrada prxima da rota de Ifewara, regio de Ife, 22,5 cm de altura
(Fonte:  Frank Villett).
598                                                          frica do sculo VII ao XI



    As descobertas arqueolgicas, em larga medida confirmadas pela tradio
oral, indicam igualmente a existncia de trs perodos na histria de Ife. No
curso do primeiro perodo que remonta a -350, Ife no passava de um punhado
de aldeias, treze segundo a tradio39, situadas em uma regio muito bem dre-
nada do vale de Ife e habitadas por camponeses. Durante o segundo perodo,
correspondente  emergncia da Ife medieval, as coletividades reunidas na regio
provavelmente possuram uma estrutura social mais forte que aquela das aldeias
autctones dos primrdios.
    No sabemos se essa urbanizao e as mudanas sociais, por ela autorizada
a supormos, foram fruto de um livre acordo entre as coletividades ou se foram
impostas do exterior; tampouco sabemos em qual data essas transformaes
ocorreram. Porm, foi possvel datar o carvo de madeira das camadas medievais
de Ife Yemoo, obtendo-se os anos 960, 1060 e 1160. Tratando-se, talvez, de
vestgios dos primrdios de Ife,  muito provvel que essas primeiras e cruciais
peripcias da histria da cidade e dos seus habitantes tenham ocorrido entre
os sculos VII e XI. Ao que tudo indica, foi igualmente nesse perodo que foi
criada a rede de rotas existente at os nossos dias, interligando a regio a Ede,
Old Oyo e Benin, passando por Ilesha.
    A tradio escultural naturalista de Ife igualmente data, ao menos, de 969
130. Outrossim, encontram-se prola de vidro refinadas em Ife e Benin. Em
Ife, a cermica de uso domstico aparenta maior elaborao, comparativamente
a Nok: a decorao, especialmente, mais variada, compreende incises (linhas
retas, zigue-zagues, pontos, desenhos curvos), polimento, pintura e gravura com
roletes (com madeira esculpida e fios tranados). Igualmente utilizava-se, para
a decorao, espigas de milho e rolos de argila.


      Benin
    As escavaes realizadas por Connah mostraram que os muros de Benin
so um entrelaamento de aterramentos lineares, destinados a delimitar e no
a fortificar40. Elas igualmente autorizam crer que,  imagem de Ife, a cidade de
Benin teria, possvel e originalmente, sido um agregado de pequenos grupos de
habitantes prximos entre si, nas clareiras das florestas. Cada um desses grupos
jurava fidelidade ao oba; conservando todavia as suas prprias terras, cercadas


39    P. OZANNE, 1969, p. 32.
40    G. CONNAH, 1975, p. 243.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                       599



por um barranco e por um fosso. Benin era cercada por uma muralha interna
e outra, mais antiga, externa. As escavaes indicam que a muralha interna foi
construda somente no sculo XIV e, mais provavelmente em meados do sculo
XV. Os recortes revelam que ela substitua outras estruturas e atravessava outros
aterramentos anteriores41.
    A construo do cinturo externo  atribuda pela tradio ao oba Oguola,
no final do sculo XIII, e os dado arqueolgicos confirmam a sua anterioridade.
Segundo estudos das runas de superfcie, ela poderia inclusive remontar ao
sculo XI. A envergadura dessas obras defensivas, especialmente do cinturo
interno, implica a existncia de um poderoso poder central.
    O que resta da criao artstica acrescenta-se  tradio oral para esclarecer
esse perodo da histria de Benin; justamente isso sobressai, por exemplo, do til
resumo de Dark acerca da historiografia da arte e da tcnica de Benin42. Caso
rumemos do conhecido ao desconhecido (com as cabeas em bronze, muito
estilizadas, ainda esculpidas aps 1897, consideradas como as mais recentes) ou
partamos da hiptese segundo a qual as mais antigas cabeas de bronze do Benin
so aquelas que mais se aproximam daquelas de Ife, a cronologia que estabele-
cemos  geralmente a mesma, conquanto aceitemos dar crdito aos pontos de
referncia que nos fornecem algumas tradies orais.
    Segundo Dark, as artes domsticas que compreendem a escultura em madeira
nasceram  poca de Ere, o segundo dos ogiso, dinastia precedente da dinastia
atual. Caso, como acredita a maioria dos especialistas em histria do Benin, a
dinastia atual, fundada por Oranmiyan  prncipe de Ife e personagem sem
dvida mtico , remonte a +130043 ou a uma data um pouco anterior e caso
aceitemos a tradio que reporta a existncia de dezessete Ogiso antes dessa
poca44, Ere teria comeado a reinar entre 900 e 980 (segundo a hiptese que
cada rei tenha reinado por 20 ou 25 anos)45.


41   Ibidem, p. 244.
42   P. J. C. DARK, 1973.
43   R. E. BRADBURY, 1959.
44   J. EGBAREVBA, 1960, p. 75.
45   EGHAREVBA, o historiador da corte de Benin, retm a primeira data para o incio do perodo ogiso,
     entretanto, acredita que a dinastia atual teria comeado a reinar 130 anos antes de 1300. Neste caso e
     sempre segundo a hiptese de um reino com durao de 20 a 25 anos, Ere teria comeado a reinar entre
     850 e 720. Caso as datas que Egharevba considerou para os sucessivos reinados de Ozolua, no poder a
     quando da chegada dos portugueses a Ovonramwen, estejam exatas  e h concordncia no sentido da sua
     provvel exatido  21 reis teriam reinado em 433 anos; cada qual teria portanto reinado durante, em mdia,
     pouco mais de 20 anos. Obtm-se a mesma mdia caso supormos que os 36 primeiros reis da dinastia atual
     tenham reinado de 1179 a 1913  como indicado por Egharevba. Conferir J. Egharevba, 1960.
600                                                          frica do sculo VII ao XI



    Dark nota que sob Ere surgiram as cabeas em madeira, dispostas no
altar dos ancestrais, o trono real (ekete), o assento retangular do chefe (agba),
o leque arredondado de plumas (ezuzu), a caixa redonda (ekpokin) feita com
cascas e couro, as espadas emblemas do poder (Ada e eben), assim como, uma
espcie de coroa muito simples. A fundao das corporaes de escultores
(igbesanmwan) e carpinteiros (onwina) igualmente dataria do reino de Ere46.
Os primeiros eram considerados artistas dedicados ao trabalho da madeira e
do marfim e, os segundos, artesos produtores de utenslios no decorados,
destinados ao uso quotidiano  pratos, gamelas, morteiros, piles de madeira,
etc47.
    Segundo essa hiptese, a sociedade de Benin teria atingido, na poca de
Ere, o estdio em que a organizao dos artistas e dos artesos se teria imposto.
Por outra parte, o papel dos ancestrais nos assuntos dos vivos aparenta ter feito
parte das crenas de Benin. Assim sendo, as cabeas de madeira teriam uma
funo comemorativa. A sua fabricao, portanto, precedera em 350 ou 450 anos
os trabalhos em lato (iniciado, provavelmente durante o reinado de Oguola)
e, dessarte, aquele das cabeas em bronze, as quais alcanaram os nossos dias.
No se conhece com exatido a data em que a arte dos bronzes de Benin teria
comeado, porm, Dark acredita que ela remonte ao primeiro quarto do sculo
XIV, caso aceitemos tomar 950 como o ano inicial do perodo ogiso. Na hiptese
dela ser anterior a essa poca, as cabeas de bronze poderiam igualmente s-lo
(sculo XIII).
    De todo modo, mesmo que a cronologia dos ogiso, tal como estabele-
cida, no esteja exata, parece ser razovel supor que a escultura existisse bem
antes da dinastia atual, assim como crer que os escultores tivessem o hbito
de fabricar cabeas em madeira para o culto aos ancestrais. Estava portanto
traado o caminho para a fabricao das cabeas em bronze, em memria
dos reis falecidos. Alm disso, embora a tcnica do trabalho em bronze tenha
sido introduzida em Benin na poca de Oguola, a tradio pretende que os
bronzes de Ife fossem desde antes conhecidos l. Desde quando? Mistrio.
Conquanto nenhuma cabea em bronze tenha a marca das esculturas de Ife,
algumas outras formas apresentam um carter fortemente "ifeano"; tratar -se-ia
de vestgios de objetos importados de Ife48? Dark enfatiza que nenhuma pea



46    P. J. C. DARK, 1973, p. 8.
47    J. EGHAREVBA, 1960.
48    F. WILLETT, 1967, pranchas 89, 97 a 99.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                                       601



comparvel existe em Ife, porm, essa ausncia no permite afirmar que essas
peas no foram fabricadas l49.
    Desse modo, a ascenso da cidade de Benin aparenta se ter devido, essen-
cialmente, ao fato de um povo dominante da tcnica do ferro ter sido capaz de
explorar com sucesso os recursos do seu entorno ambiental. Conquanto essas
origens sejam de difcil definio, Benin poderia datar do incio do milnio
passado. A complexa rede de aterramentos e muros lineares, atualmente conhe-
cidos, leva igualmente a pensar que,  imagem de Ife, ela teria nascido mediante
a progressiva fuso de vrios vilarejos, ligados a um poder central, que foram
definitivamente reunidos no seio de uma aglomerado urbano fortificado pelo
oba Ewuare, no sculo XV.
    Embora algumas tradies pretendam que o povo edo tenha chegado
a seu atual territrio h no muito tempo, proveniente do Egito e que ele
tenha coabitado com populaes sudanesas, os dados lingusticos indicam
que os edo esto, na realidade, ali implantados h cerca de 4 mil anos. Ao
longo da maior parte desse perodo, a unidade poltica foi a cidade onde a
autoridade era exercida por homens segundo uma hierarquia baseada na
ancianidade, unidade que tambm seria autnoma nos planos poltico, cul-
tural e econmico.
    Esse modo simples de organizao social aparenta, em seguida, ter sido
suplantado pela realeza e por unidades polticas mais complexas. Ignora-se o
que teria provocado essa modificao das antigas estruturas. Alguns especialis-
tas explicam-na pela influncia dos povos iorubas vizinhos da civilizao mais
antiga, os quais h muitos anos formariam um reino de poder centralizado.
Outros estimam que unidades polticas relativamente importantes teriam-se
desenvolvido na regio de modo independente.
    Manifestadamente, no pas edo o crescimento urbano caminhou em para-
lelo com a evoluo poltica. Sabe-se que, aproximadamente entre os sculos
X e XII, aglomeraes como Udo, Uromi e Benin se teriam urbanizado.
    A fase inicial sucedeu um perodo de "seleo", marcado por fortes rivalidades
polticas entre as primeiras cidades e as chefias (aproximadamente 1170), as
quais teriam derivado na implantao, em Benin, de uma dinastia estrangeira




49   P. J. C. DAK, 1973, p. 8 e 9. At o momento em que os portugueses atingiram a costa guineana, o lato
     l devia ser muito raro e, talvez, tenham sido fundidos objetos antigos com o objetivo de obter a matria-
     prima necessria para novas esculturas. Embora seja possvel que as primeiras cabeas de bronze sejam
     posteriores ao reinado de Oguola, certamente, elas no foram anteriores.
602                                                          frica do sculo VII ao XI



ioruba. A nova dinastia aparenta ter conferido  cidade o impulso que lhe per-
mitiria tornar-se a principal aglomerao dessa regio50.
    Pode-se dizer que a ascenso de Benin e o seu desenvolvimento sociocultural
foram o ponto de partida da civilizao bini, caracterizada por uma estrutura
poltica centralizada, um sistema de defesa organizado, um comrcio exterior, uma
religio, assim como uma arte e um artesanato refinados, absolutamente notveis.


      IgboUkwu e o "reino" nri
    Os primeiros bronzes nigerianos foram descobertos no pas igo, a leste do
Nger. No curso de escavaes sistemticas, cerca de 100 bronzes de aspectos
diferentes foram revelados em Igo Ukwu, pequena cidade do norte do pas, no
sudeste da Nigria e em Ezira, 24 km a leste de Igbo-Ukwu51.
    Encontrou-se, especialmente em Igbo-Ukwu e Ezira, bronzes sulcados,
diversos objetos como bengalas com maaneta esculpida em forma de cabea,
figurinos humanos sulcados e adornados com caneleiras, presas de elefante e
estatuetas em bronze representando mosquitos, escaravelhos, ovos de gafanho-
tos, cabeas de animais (leopardos, elefantes, carneiros e macacos), moluscos
e ptons. Havia milhares de fragmentos de cermica, algumas peas inteiras e
uma cmara morturia cujo ocupante estava enterrado sentado, em meio a ricas
oferendas, especialmente prolas.
    A maioria dos bronzes de Igbo-Ukwu so de tamanho pequeno, excetuando-
-se certos recipientes de aproximadamente 40 cm de dimetro; apenas alguns
representam seres humanos: uma cabea de dupla face, um pingente em forma
de rosto, uma estatueta equestre e as figuras decorativas diante de dois altares.
A especificidade de Igbo-Ukwu no se deve exclusivamente  decorao; mui-
tos tipos de objetos aparentam testemunhar uma cultura material prpria, no
sudeste da Nigria.
    Numerosos elementos iconogrficos  temas florais circulares, crescentes e
espirais duplas, guias com asas abertas  so encontrados na arte do Sudoeste.
A sua presena em Igbo-Ukwu poderia prefigurar a tradio dessa regio, haja
vista que se avaliou o stio do sculo IX da Era Crist, ou seja, uma data ante-
rior quela de Ife, geralmente considerada como o bero da grande metalurgia
nigeriana.


50    A. F. C. RYDER, 1969, p. 7-9.
51    T. SHAW, 1970.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim           603



    Alm disso, os bronzes igbo tm especial teor metlico: eles possuem altas
concentraes de chumbo, contrariamente queles do Sudoeste. A totalidade
dos objetos encontrados em Igbo-Ukwu  includos os objetos em argila, vidro,
ferro e cobre  poderiam provir da tumba de um ancio dirigente igbo, reinante
no norte do pas igbo e mais alm.
    Onwuejeogwu, minucioso pesquisador das descobertas arqueolgicas,  luz
das culturas existentes, pde estabelecer paralelos muito estreitos entre a vida
pr-histrica e a vida atual52. Com efeito, partindo de duas categorias de dados,
assim como de dados fragmentrios fornecidos pela tradio oral nri e do fato
notrio de algumas linhagens nri se terem disseminado em pas igbo, Onwueje-
ogwu esforou-se para reconstituir a organizao sociopoltica do povo nri desde
os tempos mais remotos, at o sculo XVIII. A sua principal concluso foi que
os nri da regio de Igbo-Ukwu e das regies circunvizinhas teriam instaurado
um sistema baseado na explorao ritualstica dos smbolos53.
    Todos os dados, arqueolgicos e outros, mostram que a hegemonia nri no
pas igo data do sculo IX da Era Crist e que ela estava fundada na explorao
das ideologias, doutrinas e smbolos religiosos. As lanas, os bordes, os arcos e
flechas, os cutelos e as enxadas eram transformados em objetos ritualsticos e a
efuso de sangue era tabu e sacrilgio, estado de coisas que exclua o militarismo.
Justamente enviando colonos para as outras cidades, as quais juravam fidelidade
ao eze nri, por meio de um sermo ritual, que o reino nri estendia-se. O poder
do eze nri no era militar mas ritual e mstico.
    A tradio oral atribui ao reino nri a paternidade das instituies polticas
locais, particularmente da sociedade ozo, associao hierrquica de homens, e
sempre lhe fazem homenagem nas cerimnias ritualsticas e de entronizao.
O poder era mantido pelo eze nri e a relao com as regies sobre as quais ele
reinava era assegurada por sacerdotes itinerantes que procediam a purifica-
es ritualsticas e conferiam a autoridade. A centralidade poltica nri  nica
junto aos igbo e no se conhece bem os seus laos com mecanismos tais como
as oficinas ozo. Embora nada subsista da autoridade do eze nri, esse tipo de
sociedade continuou a desempenhar um papel na tomada de decises locais,
malgrado o estabelecimento das articulaes governamentais coloniais e, em
seguida, nacionais.
    O povo nri estendeu a sua influncia alm do norte do pas igbo, at os
assentamentos igbo da margem ocidental do Nger e as comunidades ribeirinhas

52   T. SHAW, 1970.
53   Ibidem.
604                                                                               frica do sculo VII ao XI



anteriormente submetidas ao domnio de Benin, no baixo Nger. Onitsha  um
compromisso caracterstico resultante da conjuno dos sistemas polticos nri
e bini54.
    Encontra-se nas tumbas das personalidades importantes um smbolo essen-
cial de autoridade e poder: o sino. As descobertas realizadas em Igbo-Ukwu e
Ezira so o testemunho exemplar de uma prtica que manifestadamente persis-
tiu at o incio desse sculo. O fato de Ezira ter sido um grande centro de or-
culos, considerada como o lugar de repouso dos espritos dos mortos, confirma
o carter de atributo de poder desse objeto em bronze.
    Uma infinidade de comparaes pode ser estabelecida com as regies vizi-
nhas do sudeste da Nigria. Ao norte, sinos reais figuravam entre os objetos
colocados nas tumbas dos reis igala. Nas regies igbo do leste submetidas 
hegemonia aro, mensageiros assinalavam, com a ajuda da percusso de uma
bateria de sinos, a chegada das personalidades importantes; os chefes que viviam
na fronteira do pas igbo e igala empregavam sinos especiais e nessas regies
igualmente encontra-se sinos em outras sepulturas.
    Os resultados de outras pesquisas recentes, inspiradas pelas descobertas de
Igbo-Ukwu e fundadas em um estudo acerca dos estilos e em uma anlise etno-
histrica mostram que poderia existir no sudeste uma tradio do trabalho do
bronze distinta daquela do sudoeste. Alguns dos objetos em bronze do sudeste
expostos em museus da Nigria, dos Estados Unidos da Amrica do Norte, da
Gr-Bretanha e na Europa continental lembram aqueles de Igbo-Ukwu, alm
de corresponderem aos valores culturais materiais das instituies tradicionais
poltico-religiosas ibo. O sino  um tema dominante no mbito desses bronzes
de origem desconhecida, encontrados na Nigria55.
    Conquanto existam analogias entre os bronzes de Igbo-Ukwu, Ife e Benin,
tais como o emprego de temas representativos de cabeas de carneiro e elefante,
elas sem dvida no tm grande importncia do ponto de vista da histria
da arte. Os detalhes da decorao e da construo so mais reveladores. Por
exemplo, encontram-se as sries de pontos alongados entre linhas contnuas


54    R. N. HENDERSON, 1972, p. 297.
55    N. C. NEAHER, 1979. A hiptese segundo a qual os artistas do Sudeste puderam utilizar o ltex, para
      a confeco dos modelos, merece ser examinada detalhadamente, pois que foi possvel provar que muitos
      grupos serviam-se da goma. Os igbira, os tiv e os igala empregavam borracha proveniente de variedades
      locais de fcus. Os bronzes atribudos aos dois primeiros grupos trazem nitidamente a marca de uma
      excelente matria e  interessante notar que o primeiro estudo publicado sobre os bronzes igbo fazia
      meno a modelos de ltex. Essa tcnica do ltex  recorrente nas regies onde se encontram plantas e
      rvores para extrao da borracha em abundncia, ou seja, na savana. Repertoriou-se mais de 20 tipos
      de fcus dessa espcie unicamente na savana nigeriana.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim         605



em Igbo-Ukwu e igualmente no estilo "caadores" dos bronzes do baixo Nger.
Por outro lado, a anlise de Werner mostrou que a maioria das estatuetas do
baixo Nger, guardados no Museu de Berlim,  de bronze legtimo56,  imagem
daqueles de Igbo-Ukwu, ao passo que as peas de Benin so, quase que exclusi-
vamente, feitas de um lato no qual a adio do zinco aumenta na justa medida
do avano cronolgico.
    Todos esses elementos aparentam confirmar a tese de William Fagg, segundo
a qual teriam existido dois estilos principais na metalurgia da frica do Oeste:
aquele de Ife/Benin e o ioruba moderno, no centro da Nigria, e tradies perpe-
tuando o emprego de finas faixas de cera ou de ltex para os modelos. Enquanto
no se conheciam as datas de Igbo-Ukwu, no era possvel determinar qual estilo
precedeu o outro. Atualmente, sugere-se que a tradio de Ife e de Benin foi
enxertada em um modelo distinto e mais antigo. Como mostramos no tocante
ao trabalho do cobre,  igualmente muito possvel que a tradio da metalurgia
do ferro em Igbo-Ukwu tenha sido distinta daquela de Ife/Benin e Nok.
    As escavaes de Igbo-Ukwu no deixam dvida alguma: a metalurgia do
ferro no sudeste nigeriano remonta, ao menos, ao sculo IX e tudo leva a crer
que ela seja ainda mais antiga. Como ela exigia  e ainda exige  uma tcnica
muito avanada, ela no  encontrada por toda parte. Os ferreiros igbo mais
conhecidos so aqueles de Akwa (a leste de Onitsha); eles teriam obtido o ferro
(em minrio) dos fundidores igbo de Udi  a leste de Akwa  e somente muito
mais tarde o receberiam da Europa. Entre os fundidores igbo das terras altas
da metalurgia, deve-se mencionar os abiriba (fundio do ferro e forja do ferro
e do lato) do Cross, os quais se encontravam prximos do pico de Okigwe-
-Arochuku, e os forjadores nkwerre, do sul dessa regio57.
    As escavaes da regio de Akwa permitiram descobrir 15 gongos e uma
espada de ferro, semelhantes queles ainda fabricados pelos forjadores de Akwa,
assim como um grande nmero de sinos de bronze e outros objetos que podem
ser atribudos com muita certeza aos forjadores de Akwa, datados de +1495
9558.
    No se sabe qual a relao cronolgica e cultural entre Ife e Igbo-Ukwu,
embora Willet acredite que Ife seja muito mais antiga que o geralmente esta-
belecido, inclusive e at mais prxima de Nok comparativamente ao que levam



56   O. WERNER, 1970.
57   D. NORTHRUP, 1972.
58   D. D. HARTLE, 1966, p. 26; 1968.
606                         frica do sculo VII ao XI




(a)                                               (b)




      Figura 17.12 a a f Objetos encontrados
      durante as escavaes de Igbo-Ukwu.
      Figura 17.12a Pingentes de bronze, com
      forma de cabeas de elefantes, provenientes do
      depsito de objetos reais, altura: 7,4 cm (Fonte:
       Thurstan Shaw).
      Figura 17.12b Tema ornando um basto de
      comando, proveniente do depsito de objetos
      reais, altura: 14,5 cm (Fonte:  Thurstan Shaw).
      Figura 17.12c Pingente de bronze, com
      forma de cabea de carneiro, proveniente do
      depsito de objetos reais, altura: 8,9 cm (Fonte:
       Thurstan Shaw).
(c)
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim                              607




(d)




(e)                                                                                               (f)

Figura 17.12d Pote em bronze envolvido por cordas, com base de bronze servindo como altar. Depsito
de objetos reais, 30,48 cm de comprimento (Fonte:  Thurstan Shaw).
Figura 17.12e Pote de forma redonda, proveniente do depsito de objetos reais, altura: 29 cm (Fonte: 
Thurstan Shaw).
Figura 17.12f Pote de terracota, muito decorado, proveniente da descarga de Igbo-Ukwu, altura: 40,6 cm
(Fonte:  Thurstan Shaw).
608                                                                                  frica do sculo VII ao XI



a supor os dados dos quais dispomos atualmente (sculos X-XII)59. Caso as
prolas de Ife sejam as mesmas que as prolas "akori" do litoral guineano, como
indicam os elementos etnogrficos do sul da Nigria e como acredita Frobe-
nius60, pode-se conceber que as prolas em vidro de Igbo-Ukwu fossem fabri-
cadas em Ife. Neste caso, a cultura de Ife remontaria, ao menos,  mesma poca
que os objetos de Igbo-Ukwu (sculo IX). Caso certos objetos encontrados em
numerosas tumbas em Daima, na bacia do Tchad, indiquem contatos comerciais
entre Ife e Daima,  muito provvel que o paralelo cultural possa ser transposto
ao plano cronolgico. Portanto,  possvel que Ife remonte, no mnimo, ao sculo
VI da Era Crist61.
    Os bronzes e as prolas descobertos traduzem o vigor da economia e o dom-
nio artstico dos escultores, alm de mostrarem em qual medida a regio fazia
parte da rede de trocas internacionais. Shaw formulou a hiptese segundo a qual
algumas prolas teriam sido importadas de Veneza e sobretudo da ndia, pela
frica do Norte, assim como a ideia dessas importaes fazerem parte de um
conjunto de intercmbios internacionais igualmente ligados ao cobre. Segundo
o mesmo autor, a matria-prima dos bronzes  a saber, o cobre e o bronze asso-
ciado ao chumbo  provinha das minas de cobre de Takedda e, mais alm, do
Saara62. Embora essa teoria possa revelar-se correta,  interessante constatar que,
segundo Onwuejeogwu, esse material estava disponvel em Abakaliki e Calabar
e teria, portanto, podido provir de l63. Nesse caso, tratar-se-ia de saber qual
dessas fontes fora explorada em primeiro lugar pelos artesos de Igbo-Ukwu  a
fonte local ou a fonte estrangeira  e em qual momento.
    Na ausncia de provas em contrrio, Shaw julga razovel supor que os
bronzes de Igbo-Ukwu tenham sido fabricados pelos igbo, ou em Igbo-Ukwu
mesmo, ou alhures, em pas igbo. Porm, ele acredita que a matria-prima e
as tcnicas utilizadas eram importadas. Na opinio de Shaw, a tcnica da cera
perdida  um procedimento complexo que, sem dvida, se teria expandido na
frica do Oeste a partir do antigo Egito e da Mesopotmia64. Os partidrios


59    F. WILLETT, 1967.
60    L. FROBENIUS, 1912, vol. II, p. 318-319.
61    G. CONNAH, 1981, p. 173 e subsequentes. A este respeito,  interessante notar a existncia na tradio
      ifeana da escultura em pedra, na indstria do ferro e em certas caractersticas arquitetnicas (pavimentos
      compostos de cacos), de uma soluo de continuidade anloga ao hiato cultural de Daima (figurinos em
      argila e pavimentos com cacos), situada entre os sculos VI e IX.
62    T. SHAW, 1975a, p. 513.
63    M. ONWUEJEOGWU, 1974.
64    T. SHAW, 1975a.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim         609



dessa tese ainda devem demonstrar a sua validez, cabendo-lhes faz-lo. O argu-
mento segundo o qual o procedimento, muito complexo, no poderia ter sido
descoberto pelos habitantes de Igbo-Ukwu e tampouco pelos seus vizinhos no
consiste em uma prova.
    A cultura material de Igo-Ukwu, de Ife e de Benin  muito amide conside-
rada como o apogeu da Idade do Ferro na regio. Os resultados das escavaes
apresentam-nos povos possuidores de ferramentas e armas em ferro que lhes
permitiam extrair da floresta grandes riquezas e aplicarem com discernimento
as suas concepes em matria de urbanismo e de organizao social e religiosa.
Alm disso, esses povos mantinham contatos comerciais com o mundo rabe e,
por essa via, teriam sido capazes de aprender a tcnica da cera perdida, entre-
tanto, no possumos nenhuma certeza. Aquilo que chamamos apogeu pode
refletir tanto a nossa ignorncia quanto uma realidade histrica, pois que foi
de certo modo por fora do acaso que dele tivemos conhecimento. Em outros
termos, ns no podemos ainda situ-lo no quadro geral do desenvolvimento
da cultura material da Idade do Ferro no sul da Nigria. Tal como justamente
enfatizou Connah, ns devemos nos lembrar que esse apogeu pode ser relativo
e, sem dvida, no nico65.
    Outro complexo de trabalho do bronze a ser explorado  aquele das pas-
tagens de Camares, a leste da Nigria. Os sinos so, tradicionalmente, um
emblema do chefe em toda a regio, talvez relacionados a um sistema de trocas
de presentes entre chefes locais. Certo nmero de peas assemelha-se s peas
que encontramos na Nigria, notadamente aquelas ornadas com as mesmas
faixas segmentadas que os sinos em forma de tulipa descobertos no corredor
do rio Cross. Os sinos de Camares geralmente so maiores e mais espessos,
com temas decorativos caractersticos. Caso um paralelo qualquer possa ser
estabelecido com os estilos nigerianos, ele se traduz, com maior probabilidade,
nas semelhanas impactantes existentes com bronzes da regio de Adamawa,
no nordeste da Nigria, ao longo da fronteira com Camares. Em definitivo,
curiosas correspondncias visuais e temticas existem perfeitamente entre alguns
bronzes de Camares, peas sao e o conjunto de objetos encontrados em Igbo-
-Ukwu. Essas correspondncias merecem um exame mais profundo para que
possamos determinar a contribuio do sudeste da Nigria66.




65   G. CONNAH, 1975, p. 248.
66   N. C. NEAHER, 1979.
610                                                           frica do sculo VII ao XI



      Os akwanshi
    Na poro setentrional do vale do rio Cross, cerca de 500 km a leste de Ife,
encontra-se sinais de um patrimnio artstico nico em seu gnero, esculturas
em pedra dura. Essas esculturas conhecidas pelo nome akwanshi aparentam ter
sido obra de ancestrais de um grupo restrito de bantu ekoi, habitante do Norte,
a saber, os nta, nselle, nnam, abanyon e akagu.
    Embora seja verdade que nos lugares da frica do Oeste nos quais existem
rochas apropriadas, blocos e pores de rocha naturais foram frequentemente
considerados como objetos de culto, no  menos verdade que, excetuando-se
uma meia-dzia de casos em pas ioruba, a escultura antropomorfa de pedras
duras est limitada a uma pequena regio de menos de 1.000 km quadrados
na margem direita do mdio curso do rio Cross e a um dos seus afluentes, o
Ewayon. Foi l que, em 1961 e 1962, Alisson repertoriou 295 pedras mode-
ladas de modo relativamente elaborado com motivos antropomorfos. Montes
de pequenas pedras esculpidas, geralmente em forma cilndrica ou elptica,
igualmente foram descobertos em alguns lugares de implantao presentes e
passadas na regio67.
    Allison descobriu as pedras esculpidas em 36 stios principais nas terras ocu-
padas por 6 subgrupos tnicos ekoi, outrora autnomos, assim como em 9 outros
stios onde 16 pedras foram descobertas, separadamente ou em grupos de duas.
    Os mais numerosos grupos e igualmente os mais refinados e originais foram
recolhidos em terras dos nta (50 pedras), dos nselle (90) e dos nnam (94). Igual-
mente encontraram-se 22 pedras nos trs stios do pas abanyom e 19 pedras
nos trs stios do pas akagu, entretanto, o trabalho  de qualidade inferior e o
estilo sem originalidade. As pedras nta, nnam e as mais belas pedras nselle foram
esculpidas no basalto. As pedras abanyom e akagu foram esculpidas em calcrio
concheado; algumas esculturas de calcrio foram igualmente descobertas em
vilarejos outrora ocupados por nselle. O calcrio  provavelmente mais fcil de
ser trabalhado, porm, ele apresenta um aspecto exterior rugoso e resiste mal
s intempries.
    Os nta e os nselle designam as suas peas pelo nome akwanshi, significando
"o morto enterrado", ao passo que os nnam e os outros povos designam-nas com
o nome atar, "pedras", ou ataptal, "longas pedras". Atualmente, distinguem-se
trs estilos principais: o estilo nta  caracterizado por uma figura cilndrica e


67    Consultar P. ALLISON, 1968, 1976.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          611



pela existncia de uma ranhura bem demarcada entre a cabea e o corpo; os
nnam escolhiam blocos de grandes propores e cobriam a sua superfcie com
abundantes e bem executadas decoraes; os nselle tm um estilo que se asse-
melha quele dos nta, porm, eles eventualmente produzem esculturas de grande
originalidade.  igualmente possvel que esses estilos tenham um significado
no plano cronolgico.
    Os povos de cultura akwanshi (incluindo os nde) empregam formas distin-
tas, porm aparentadas, de uma lngua ekoi-bantu68. Na poca imediatamente
precedente  colonizao, eles estavam divididos em duas faces antagnicas, as
quais ainda demonstram hostilidades entre si. Em tempos etnogrficos recentes,
os assuntos de cada comunidade eram dirigidos pelos ancios, sob as ordens dos
quais os jovens homens eram organizados em companhias, em classes etrias.
Havia, outrossim, ntoon ou chefes sacerdotes, cujas funes em poca recente
eram, sobretudo, religiosas e cerimoniais. Os poderes do ntoon estendiam-se de
um nico vilarejo ao conjunto do subgrupo.
    Allison esforou-se para reconstituir a genealogia dos ntoon no tocante aos
povos nta. Persuadido que a idade constitua um elemento a entrar tradicional-
mente em considerao na escolha do ntoon, Allison afirma que cada ntoon, sem
dvida, no ocupou esse posto por mais que uma dezena de anos, em mdia. Ele
estima, por razes aparentemente justificveis, que os akwanshi foram pedras
comemorativas dos fundadores da dinastia. Todavia, a sua teoria, segundo a qual
a dinastia durou de 4 a 5 sculos, repousa em uma perspectiva funcional assaz
esttica do sistema social dos ekoi, a saber, que eles sempre estiveram organiza-
dos em pequenos grupos, de perfil antes igualitrio. H outra interpretao dos
dados histricos atualmente disponveis que parece mais fundamentada, a saber,
indicando que esse povo estava organizado em um grande reino, relativamente
pouco diferenciado daqueles existentes em pas bini e ioruba. De fato, a constru-
o dos grandes monumentos funerrios akwanshi da primeira poca supe tais
organizaes sociopolticas como slidas, centralizadas e de grande envergadura,
dispondo de suficiente mo de obra. Caso tenha sido dessarte, a durao mdia
do reino dos reis estabelecer-se-ia em 20 a 30 anos, a significar que as origens
dos akwanshi remontariam a um perodo compreendido entre os 2 ou 3 ltimos
sculos do primeiro milnio da Era Crist e os primeiros sculos do segundo
milnio, ou seja, aproximadamente a mesma datao de Igbo-Ukwu. Tudo leva
a crer que o surgimento do comrcio transatlntico de escravos tenha afetado


68   D. CRABB, 1965.
612                                                          frica do sculo VII ao XI



esse Estado e provocado a fragmentao da sociedade e a degenerao da arte.
A escultura da pedra prosseguiu sob uma forma alterada at a poca atual, sendo
hoje praticada, sobretudo, em troncos cilndricos de madeira.
     provvel que a escrita nsibidi, empregada pelos ekoi, tenha representado
uma das realizaes marcantes dessa antiga civilizao da regio. Encontra-
-se em algumas pedras um smbolo nsibidi em forma de crculo, represen-
tando a antiga moeda de manilha, denotando a riqueza. Tal Estado deveria
possuir uma slida base agrcola e tcnica, bem como conhecer o uso do
ferro. Aparente e igualmente razovel seria supor que o comrcio de longa
distncia fosse um elemento importante da vida, permitindo a esse Estado
manter relaes com os povos do norte (tiv, jukun, etc.), do oeste (Igbo-Ukwu,
povos do delta do Nger, Bini e Ife) e com os povos de lngua banto, a leste.
No seriam essas seno hipteses razoveis. Com toda certeza,  urgente
empreender-se trabalhos arqueolgicos nessa zona, caso pretendamos cobrir
as importantes lacunas do nosso conhecimento sobre a histria do Estado e
da sociedade akwanshi.


      Comrcio Primitivo
    Essa seo examina o grau de desenvolvimento atingido pelas populaes
dessa regio, notadamente no tocante s clebres esculturas de terracota e ligas
de cobre  geralmente atribudas  Idade Mdia , no que tange s cidades e
campos, assim como em respeito aos sistemas sociopolticos nos quais essa arte
desenvolveu-se. Conquanto as questes sejam assaz precisas, infelizmente, no
acontece dessarte relativamente s respostas que nos oferecem as diferentes
fontes.
    Como observamos mais acima, a maioria dos akan, ewe e g-adangme, os
iorubas, os edo, os igbo e outros povos aparentados, tais como os conhecemos
nos nossos dias, ocupavam, j nos sculos XI-XII, por pouco que no as mesmas
regies da baixa Guin que aquelas dos dias atuais, sem dvida h muito tempo.
Os iorubas, especialmente, j eram citadinos, como testemunham os resultados
das escavaes realizadas em cidades como Ife, Old Oyo e Ilesha69. Os edo
eram-no igualmente, como mostram as escavaes de Benin. Outros, como os
igbo-ukwu, na Nigria, e os Bono manso, em Gana, instauraram complexos
sistemas polticos.

69    P. OZANNE, 1969.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          613



    Essas cidades distinguiam-se das outras aglomeraes pelo seu relativo
tamanho, pela sua composio social, pela estruturao e por suas funes.
Elas estavam muito mais estruturadas em torno de um ncleo central e eram
mais povoadas. Paulatinamente, elas passaram a possuir diversos artesos espe-
cializados, ocupados, em tempo integral ou quase, na produo de bens no
exclusivamente destinados ao consumo local. A prtica de diversas indstrias,
tais como o trabalho em metal, a fabricao de prolas e a tinturaria, tornar-
-se-ia rapidamente uma caracterstica de vrias cidades da frica Ocidental.
Numerosas dentre elas tinham grandes mercados, de posio estratgica e
dispostos em intervalos prximos, em funo dos recursos que faziam a sua
prosperidade.
    Numerosas cidades da frica do Oeste, situadas na zona florestal, na savana
sudanesa ou na estepe saheliana ( imagem de Ife, Benin, Ushongo, Idah, Ugu-
rugu, na Nigria; Notse, no Togo) possuam muros ou fossos defensivos, os quais
estabeleciam uma fronteira material entre a cidade e o campo. O tamanho e a
complexidade do sistema social, econmico e poltico de algumas cidades rapi-
damente provocaram diversas clivagens em sua populao. O perfil prprio aos
vilarejos era mais homogneo, formando uma comunidade agrria em torno de
um chefe nico, assistido por um conselho.
    O fato desses povos terem alcanado um limiar crtico de conhecimentos
tcnicos, capaz de permitir a subsistncia de uma densa populao, e de terem
atingido, em matria de organizao econmica, os nveis de especializao fun-
cional acima descritos, muito provavelmente favoreceu a instaurao de diversos
fluxos de trocas comerciais de longa distncia. Sob o prisma arqueolgico, talvez
aquilo que seja importante estabelecer no se refira sobremaneira ao valor de
troca de tal ou qual mercadoria, tampouco  existncia de contatos comerciais
diretos ou intercmbios pouco estruturados mas, sobretudo, ao que diga respeito
 localizao da produo e ao carter dos lugares onde ela est confirmada (em
outros termos, a anlise dos lugares).
    Em muitas comunidades agrrias primitivas da frica do Oeste, macha-
dos de pedra polida (em Gana chamado nyame akume) eram comercializados
em um raio de centenas de quilmetros. Machados em pedra verde da srie
Bibidani foram encontrados em uma grande extenso do sul de Gana. Os
raladores em pedra da cultura kintampo, provedora dos mais antigos sinais
de prticas agrcolas em Gana, aproximadamente em -1500, eram feitos de
mrmore dolomtico, manifestadamente transportado por longas distncias,
haja vista a sua incidncia tanto nas plancies de Accra quanto no norte de
614                                                                              frica do sculo VII ao XI



Gana70. Em Kumasi, Nunoo descobriu uma "fbrica" de machados em pedra
nas margens do Burubobo e do Wiwi71. Como principais testemunhos dessa
atividade, encontramos esboos de machado de pedra e as estrias deixadas na
rocha de afloramento, em razo das operaes de moldagem e polimento. O
raio de distribuio desses machados todavia no foi determinado.
    Em Rim, prxima de Ouahigouya, no Burquina Fasso, encontram-se ter-
renos de "fbricas" de machados remontando ao ltimo perodo do Neoltico/
Idade do Ferro; o stio aparenta ter sido um importante centro, fornecedor para
regies nas quais faltava a matria-prima72.
    De todo modo, a descoberta de raladores ou de machados de rocha verde, em
lugares extremamente distanciados, milita muito mais em favor de um comrcio
de longa distncia que em prol de uma rede de trocas local.
    Existem em Gana, igualmente datando da Idade do Ferro, sinais de um
comrcio local de cermica, evidenciado pela presena de potes em argila
estrangeiros  regio onde os objetos foram encontrados. York indicou que
vrios dos notveis potes cermicos encontrados em New Buipe eram fei-
tos de argila proveniente de um raio de cerca de 100 km em torno do stio.
Trata-se do caso de uma pea contendo uma massa miccea, encontrada em
Begho73. Priddy inclusive indica distncias maiores, citando o exemplo de
objetos originrios das terras altas de Gana, importados pela regio seten-
trional onde pouca cermica era localmente fabricada74. A importncia desse
comrcio no reside to somente em constituir um testemunho de contatos
entre culturas em nvel regional; ele, igualmente, demonstra que pouqussimas
sociedades agrcolas viviam em completa autarquia. Segundo esse autor, o in-
cio do comrcio de longa distncia na frica do Oeste est inextricavelmente
ligado  explorao dos metais e das jazidas de argila e pedras supracitadas.
Com efeito, parece ser razovel supor a existncia, desde os primrdios da
Idade do Ferro, de uma rede de trocas comerciais de longa distncia, vasta e
complexa, expandida a partir de alguns pontos centrais situados nas diversas
zonas ecolgicas e interligando, por um lado, as populaes litorneas e as


70    C. FLIGHT, 1967.
71    C. FLIGHT, 1967.
72    R. B. NUNOO, 1969.
73    B. W. ANDAH, 1973.
74    R. N. YORK, 1973, p. 92, 150 e 151. MATHEWSON e FLIGHT demonstraram a presena da tigela
      kisoto (uma pequena tigela globular, com bordas levemente guarnecidas com prolas, de uma textura
      cinza caracterstica) em um raio de 90 km em torno da confluncia do Volta Negro com o Volta Branco.
      Eles atribuem essa cermica aos sculos XV-XVI.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          615



comunidades agrcolas do interior e, por outra parte, as populaes do Sul e
as comunidades pastoris do Norte.


     Concluso
    A presena de grande variedade de ofcios, atestada em stios como Igbo-
-Ukwu, parece testemunhar um importante consumo de capital coletivo. Ela
igualmente denota a existncia de tcnicas evoludas, um acmulo de riquezas,
a instituio (provvel) de uma autoridade ritualstica e a participao em deter-
minados intercmbios. Segundo Shaw, os numerosssimos objetos em cobre,
descobertos durante as escavaes, teriam servido como moeda e o cobre empre-
gado na fabricao dos bronzes seria necessariamente de origem transaariana, ao
passo que uma quantidade considervel das 165.000 prolas encontradas poderia
ter sido fabricadas na ndia, algumas qui viriam de Veneza, embora +900 apa-
rente ser uma data demasiado precoce para presumidos contatos com Veneza75.
As jazidas de cobre mais prximas nas quais se pode pensar encontram-se na
regio de Azelik (Takedda), proximamente ao Air (no Nger) e a Nioro, no Mali.
 impossvel determinar a origem exata do cobre utilizado na fabricao dos
bronzes de Igbo-Ukwu e saber se esse cobre era importado da frica do Norte
ou teria sido proveniente de uma das fontes sudanesas. De fato, encontra-se
cobre e chumbo em Abakaliki e estanho em Afikpo e Calabar76. Alm disso,
Onwuejeogwu afirma ter descoberto sinais de antigas exploraes minerais
nessas regies77. Caso ele esteja certo, essas regies nitidamente mais prxi-
mas constituiriam fontes de abastecimento em cobre muito mais verossmeis.
De todo modo, a quantidade de objetos em cobre datados de antes de +1300,
encontrados no sul da Nigria, indica que o comrcio era muito importante
 poca, provavelmente existindo h 500 anos. A excelncia da tcnica e o
comrcio de longa distncia, aparentemente indicados por essas peas, permitem
supor a existncia de uma economia agrcola desenvolvida, ao que tudo indica
complementada pela caa e pela pesca, propiciando um considervel excedente
de produo coletivo. As descobertas de Igbo-Ukwu e o estudo aprofundado
da sociedade nri, realizado por Onwuejeogwu, fornecem muitos elementos em
prol dessa hiptese.


75   B. PRIDDY, 1973, p. 3.
76   T. SHAW, 1970, vol. I, p. 225-267.
77   M. ONWUEJEOGWU, 1974.
616                                                          frica do sculo VII ao XI



    Alm disso, um comrcio de longa distncia de produtos de luxo, tributrio
das distines sociais, poderia ter existido at independentemente dos mercados
locais. Por exemplo, pode-se imaginar que mercadores itinerantes se apresen-
tassem junto s cortes reais e s casas de notveis, alm de eventualmente fre-
quentarem os mercados. Em alguns lugares, como observamos, trocas regionais
regulares baseadas em artigos especficos, como o sal, os tecidos, os metais, as
prolas, a cermica e as ferramentas de pedra, desenvolveram-se a partir da poca
neoltica superior ou do incio da Idade do Ferro.  inclusive possvel que essas
trocas regionais no tenham invariavelmente gerado a criao de mercados intei-
ramente novos mas, antes, tenham eventualmente permitido estabelecer relaes
mais regulares entre mercados locais j existentes, embora de carter peridico.
Por exemplo, o comrcio regional do sal remonta, pelo menos, ao final da Idade
do Ferro (1300-1600), realizando-se do Saara em direo ao Sudo e da costa
rumo  floresta. Vrios historiadores enfatizaram, a justo ttulo, que a natureza
dessas trocas deveria corresponder a uma necessidade geogrfica no sudeste da
Nigria78. Grandes extenses do delta do Nger so demasiado pantanosas e
apresentam uma salinidade por demais elevada para que se possa desenvolver
a agricultura e a criao de animais; em contrapartida, o interior do pas est
desprovido de jazidas de sal e dos peixes secos, em contraste com a superprodu-
o vegetal e animal. Segundo Jones, as lendas de Andoni e Bonny sugerem a
existncia de uma indstria de extrao do sal por ebulio, na regio de Bonny,
antes da chegada dos negociantes europeus79.  perfeitamente plausvel que essas
trocas, entre o litoral e o interior, sejam to antigas quanto o povoamento das
regies costeiras, sobretudo porque esses povos vieram do interior.
    Ao menos uma das redes regionais, constitudas para permitir o intercmbio
de produtos entre o delta e o interior do pas, desdobrou-se na criao de redes
de comercializao lineares, as quais se desenvolviam ao longo dos cursos d'gua
e dos rios, a partir do delta80.
    O comrcio regional das prolas era praticado com maior nfase no sentido
leste-oeste que no sentido norte-sul. Um tipo de prola chamada "akori", cujo
comrcio era praticado em longas distncias, em torno do Golfo da Guin,
jamais foi identificado de modo satisfatrio.
    Redes de trocas regionais igualmente estenderam-se em torno de grandes
centros da indstria txtil. Esses centros haviam atingido alto grau de aperfei-

78    Ibidem.
79    E. J. ALAGOA, 1970, pp. 325-330; D. NORTHRUP, 1972.
80    Ibidem, p. 13; U. UKWU, 1967, p. 650.
A zona guineana: os povos entre o Monte Camares e a Costa do Marfim          617



oamento no transcorrer da "era cultural" de Igbo-Ukwu e subsistiram at poca
recente. Por exemplo, no sculo XVI, o povo de Benin utilizava tecidos anlogos
queles descobertos em Igbo-Ukwu e, no sculo seguinte, ele tecia, importava
e exportava importantes quantidades de tecido, dentre os quais, alguns talvez
tivessem sido fabricados por igbo (por exemplo, os akwete do sul do pas igbo,
reputados de longa data pelos seus tecidos em algodo de grande originalidade)81.
Porm, as mais importantes redes de troca regionais no interior do pas igbo, a
partir da poca de Igbo-Ukwu, eram aparentemente aquelas referentes ao ferro
e outros metais e podem ter envolvido ferreiros itinerantes.




81   D. FORDE e G. I. JONES, 1950, p. 43.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)       619



                                      CAPTULO 18


       Os povos da Guin superior (entre a
        Costa do Marfim e a Casamncia)
                                         Bassey W. Andah




    Embora numerosos autores acreditem ter havido uma relao ntima e fun-
damental entre a alta Guin e o Sudo ocidental, em diversos momentos no
passado histrico e pr-histrico, nenhum estabeleceu a natureza dessa relao e
a sua evoluo atravs dos tempos e nas diferentes partes do litoral guineano. Por
conseguinte, assim como para outros fenmenos anlogos estudados na histria
da frica, a questo relativa a essa relao suscitou hipteses frequentemente
divergentes segundo os tipos de dados utilizados ou a perspectiva segundo a
qual o autor os interpreta.
    Assim sendo, alguns defendem que o povoamento desse litoral da alta Guin
seria a consequncia de um deslocamento contnuo de populaes do interior
rumo  costa. Porm, no prprio seio dessa escola, h divergncias de opinies
quanto  data em que essa migrao teria comeado. Desse modo, McCall
remonta a -5000, ao indicar o momento em que, segundo ele, enquanto o res-
secamento do Saara comeava a acentuar-se, os ancestrais dos mande (manden)
teriam descido rumo ao Sahel, l introduzindo o conhecimento da agricultura1.
A. A. M. Corra v na presso exercida pelos Estados do Sudo ocidental um
fator determinante e situa o incio da migrao rumo ao litoral no sculo III



1    D. F. MCCALL, 1971.
620                                                          frica do sculo VII ao XI



da Era Crist2. Opostamente, W. Rodney estima que o movimento tenha, em
larga escala, sido precipitado por acontecimentos polticos ocorridos nos Estados
sudaneses3 em poca relativamente recente, em funo deles no remontarem
sequer ao sculo X.
    Essas teorias, ao apresentarem a esmagadora maioria dos povos costeiros
da alta Guin como povos "expulsos" do seu habitat natural, nas regies inte-
rioranas, certamente possuem grande aceitao. Entretanto, resta demonstrar
claramente como laos fsicos, lingusticos e culturais existiram entre os povos
habitantes dessas vastas regies, em diversos momentos importantes da histria.
Qual dentre eles teria exercido uma influncia decisiva sobre outro, em qual
poca e por quais razes?
    No presente estudo da histria da costa da alta Guin, durante o perodo
situado aproximadamente entre os sculos VII e XI, examinaremos minucio-
samente as informaes pertinentes oferecidas pela arqueologia, as fontes orais
e escritas, assim como os dados lingusticos e antropolgicos em geral, com o
objetivo de responder s seguintes questes: qual seria a natureza do meio natu-
ral, particularmente, o seu potencial de recursos? Quais seriam os assentamentos
humanos implantados na regio? Quais lnguas essas populaes falavam e
como estariam elas organizadas do ponto de vista econmico, social e poltico?
Com essa base, esforamo-nos para determinar os laos existentes  poca entre
os povos da costa da alta Guin e aqueles habitantes ao norte dessa regio.
Com este fim, submeteremos a um exame crtico as diversas hipteses, visando
explicar especialmente a introduo do trabalho do ferro e o estabelecimento
de sociedades com organizao estatal, dotadas de sistemas socioeconmicos
avanados e complexos, capazes de edificar monumentos megalticos.


      O quadro ecolgico
    A alta Guin, aqui,  compreendida como a metade ocidental das terras
litorneas da frica do Oeste, entre o rio Senegal e o Cabo das Palmas. A
poro compreendida entre o Cabo das Palmas e Camares  conhecida pelo
nome de baixa Guin. A costa da alta Guin , portanto, a parte meridional da
regio costeira do noroeste da frica, que se estende do estreito de Gibraltar
at a Libria. Enquanto a poro norte dessa regio costeira caracteriza-se por


2     A. A. M. CORREA, 1943.
3     W. RODNEY, 1967.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)          621



montanhas e planaltos sujeitos a estiagens, na parte que constitui a alta Guin
encontramos bacias sedimentares e plancies costeiras. Na regio do Senegal e
da Gmbia, as precipitaes so moderadas, porm, na justa medida que desce-
mos rumo a Serra Leoa e Libria, elas aumentam at ultrapassarem o volume
de 200 cm por ano. O regime pluvial reflete-se no sistema de drenagem. Na
zona meridional do Senegal, os cursos d'gua so permanentes e o seu nmero
aumenta quando dirigimo-nos rumo ao sul. A maioria desses rios so curtos
mas bem alimentados.
    As correntes litorneas de superfcie (principalmente aquela de Camares)
rumam para o sul, ao longo da costa noroeste da frica, dirigindo-se para Cabo
Verde e vo ao encontro da corrente norte-equatorial, dirigida para o oeste. Mais
ao norte, a corrente quente da Guin, corre de leste a oeste, ao longo da costa
da Libria.
    As unidades geogrficas reconhecveis na regio so a Senegmbia, a regio
de Serra Leoa-Guin, entre a Casamncia e o Cape Mount (a alta Guin de
Rodney), e a regio da Libria, entre o Cape Mount e o Cabo das Palmas.
    No interior, uma grande particularidade fsica da regio da Senegmbia
 o vale do Senegal. Ela est margeada ao norte e no sul por baixas plancies
costeiras e, no noroeste, no oeste e no sudoeste, por planaltos arenosos, dentre
os quais o Hdh (Hawd). Nas regies da Serra Leoa e da Libria, a principal
referncia geogrfica  constituda pelas montanhas da Guin. Ao sul dessas
altitudes, baixas plancies costeiras estendem-se sem interrupo at Gana, ao
passo que existem altas plancies ao norte e a oeste. Na extremidade oriental
das altas plancies que margeiam a regio da alta Guin encontra-se a bacia
do mdio Volta e as terras altas achanti, ao passo que o norte da zona central
 margeado pelo planalto arenoso situado imediatamente ao sul das bacias de
Sgou e Tombouct.
    A Senegmbia est quase inteiramente compreendida na zona de savana,
com um clima e uma vegetao de tipo sudans. Essa zona estende-se sobre
grande parte dos vales do mdio rio Gmbia e do mdio Casamncia, providos
de solos extremamente frteis. As bordas meridionais so muito densamente
povoadas. A regio do baixo Casamncia  a mais mida da Senegmbia e, por
conseguinte, aquela onde a floresta  mais densa. Embora geralmente menos
quente, se comparada ao interior das terras, ela  muito mida. No entanto,
oferece s suas populaes heterogneas  em sua maioria mande (ou mandinka,
manden, mandinque), dioula, flup, bainuk e balante  as mais frteis terras e as
mais espetaculares paisagens de toda a Senegmbia.
                                                                             622
                                                                             frica do sculo VII ao XI
figura 18.1 frica do Oeste: grandes regies fsicas (Fonte: B. W. Andah).
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)           623



    Uma linha irregular de escarpamentos marca as bordas dos planaltos areno-
sos na parte ocidental da alta Guin. O norte da Mauritnia  um verdadeiro
deserto, ao passo que o vale do Senegal, com os seus depsitos de aluvio,  a
nica grande formao geogrfica que era propcia ao estabelecimento humano.
Os outros centros e povoamento so encontrados na linha das fontes, na base da
escarpa e nos seus vales profundos. Os rios Senegal e Gmbia so alimentados
por wd (riachos) que descem das escarpas arenosas.
    O Sudo ocidental forma o territrio do interior da regio de Serra Leoa-
-Guin, na costa da alta Guin. A vegetao vai da savana arbrea e da savana
arborizada, das terras do interior, at a floresta tropical do sul, passando pelos
mangues em certas partes das extremidades litorneas.
    Essa zona pode, ela prpria, ser dividida em quatro regies naturais. Trata-se
da plancie da Guin (ou plancie costeira, caracterizada por uma regio de mon-
tanhas), as altas terras e as colinas que margeiam a plancie, o Fouta Djalon e a
bacia do alto Nger. Os traos distintivos da plancie costeira so, notadamente,
os seguintes: uma altitude inferior a 150 m, um volume anual de precipitaes
superior a 250 cm, uma vegetao de florestas ou de savana arborizada, associada
a uma zona cultivada. Os seus principais cultivos  a palmeira, o amendoim, o
arroz, a coleira, etc.  so diferentes das produes circunvizinhas, dotadas de
caractersticas geogrficas opostas.
    O Fouta Djalon, cuja altitude  superior a 1.250 m,  o prolongamento para
o sudoeste do planalto arenoso mande (mandingue), situado entre o Hdh, ao
norte, e a bacia do alto Nger, ao sul, quase integralmente no interior da zona
de captao das guas.
    Os vales de captao desse planalto muito escarpado foram originalmente
utilizados pelo homem em estabelecimentos agrcolas, em seguida, como vias
de passagem pelos criadores de animais peul e pelos fundadores de imprios.
    Ao norte das altas terras, a bacia do alto Nger  drenada, a um s tempo,
pelo Nger e pelo Senegal. No interior da bacia, os depsitos de ouro so abun-
dantes nas camadas baixas de rochas pr-cambrianas. Eles so explorados h
muito tempo pela populao local. Rumo ao sul, a partir da ilha de Sherbro,
a costa  formada por praias baixas de areia, onde as desembocaduras dos rios
so frequentemente desviadas em uma direo sudeste/noroeste por bancos de
areia paralelos  margem.
    Na parte liberiana, a costa estende-se por 560 km, ao longo do Oceano Atln-
tico, entre os rios Mano e Cavalla. A Libria possui um clima tropical mido; as
chuvas mais abundantes ocorrem na costa, onde atingem 500 cm por ano. No plano
topogrfico, distingue-se trs zonas principais que se estendem de leste a oeste,
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Figura 18.2   Famlias lingusticas da frica do Oeste  mapa simplificado indicando algumas das principais lnguas (Fonte: B. W. Andah).
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)                625



paralelamente ao litoral: por um lado, o litoral, ou a faixa costeira, de 64 a 80 km de
largura, geralmente baixo e composto de lagunas pouco profundas, praias de areia
branca e mangues; em seguida, uma faixa de floresta tropical muito densa, elevada
paulatinamente at 330 m acima do nvel do mar; e, finalmente, um vasto planalto
ondulado, de altitude aproximada de 600 m. Os pontos culminantes do pas, os
montes Nimba e Walo, esto situados ao norte, prximos da fronteira guineana.
    O solo  geralmente muito frtil, porm, com tendncia  lixiviao. A flora 
aquela da frica Tropical: floresta com folhas persistentes, dentre as mais vastas
do continente e abrigando aproximadamente 235 diferentes espcies, dentre
as quais uma extensa gama de plantas comestveis em seu estado natural ou
selvagem, como o cafeeiro, o limoeiro, o cacaueiro, o abacaxizeiro, o abacateiro,
a mandioca e o arroz.
    A regio costeira ao sul de Dakar, englobando o Senegal meridional, a Guin,
a Guin Bissau e a maior parte de Serra Leoa, distingue-se principalmente
pelos esturios regados pelos rios que correm rumo ao oeste (como o Saloum,
o Gmbia e o Casamncia). Os principais vales so razoavelmente povoados,
graas aos seus vastos depsitos de aluvio e  sua irrigao suficiente para os
cultivos de amendoim e de dend. Entretanto, a regio intefluvial sofre com o
crescente aumento da crosta latertica em direo ao interior.
    Entre as altas terras altas da Guin e os distritos costeiros, a paisagem equivale
a uma plancie recortada  com superfcie inclinada em declive na direo norte/
nordeste-sul/sudoeste do divisor de guas. Freetown est situada em uma penn-
sula (com alturas atingindo 600 m) que protege o porto dos ventos de sudoeste.
Historicamente, os traos geogrficos que podem ter exercido grande influncia na
evoluo da Guin, de Serra Leoa e da Libria so a densidade e a sobreposio da
rede fluvial, as baixas plancies, os mangues, a fora das mars e a extenso do pla-
nalto continental. Existem mais de duas dzias de rios principais na faixa litornea
situada entre a Gmbia e o Cabo Mount. Esses rios, geralmente orientados em
direo ao oeste ou ao sudoeste, assim como os seus afluentes, foram importantes
vias de comunicao para os habitantes da regio. Nenhum dos rios da Libria
(grandes ou pequenos)  navegvel, ao longo de muitos quilmetros; alm de
serem inacessveis pelo mar, devido  existncia de barreiras e recifes perigosos.


    A configurao lingustica e tnica
    Os habitantes da regio da alta Guin pertencem a trs grandes subgrupos
lingusticos da famlia Nger-Congo: manden, oeste-atlntica e kwa (figura 18.2).
626                                                                    frica do sculo VII ao XI



      Os manden
    O subgrupo mais e melhor conhecido e melhor delimitado  aquele dos
manden  um conjunto de aproximadamente 25 lnguas cuja influncia estende-
-se desde Busa, na Nigria, at a Gmbia, no oeste, e desde Soninqu, no norte,
at Vai-Kono, no sul. No seio do prprio grupo mandem, o bobo-fing (sya),
em Alto-Volta (atual Burquina Fasso), ocupa um posto relativamente ambguo,
ao passo que todas as outras lnguas formam dois grupos  aquele do norte ou
noroeste e o referente ao sul ou ao sudeste4. Os graus de relativo parentesco
esto claramente estabelecidos para grande nmero de lnguas. O subgrupo do
grupo noroeste compreende lnguas como o manden, o kpelle e o loma, falados
em Serra Leoa, na Libria e na Guin, ao passo que o subgrupo do norte do
mesmo grupo engloba o soninqu, o mandenka (bambara, malinke, dioula, etc.),
o soso-yalunke, o vai-kono e outras mais. O grupo meridional supostamente
compreendia, at ainda recentemente, dois subgrupos distintos  aquele do sul,
comportando o mano e muitas outras lnguas menores na Libria e na Costa do
Marfim, bem como aquele do leste, englobando muitas lnguas menores isoladas
(busa, bisa, samo), espalhadas no Burquina Fasso, no Benin setentrional e na
Nigria Ocidental , entretanto, est agora estabelecido que os dois subgrupos
estejam estreitamente ligados e no formem seno um nico grupo5.
    O mandenka, subgrupo de um subgrupo manden, distingue-se por trs
excepcionais caractersticas, a saber, o grande nmero de falantes, a sua ampla
distribuio geogrfica e a sua relativa coeso. A regio de lngua manden estava
no corao dos primeiros Estados do Sudo ocidental, dentre os quais o mais
ancio, o imprio de Gana, remonta a mais de um milhar de anos. Segundo
a tradio oral, a expanso manden rumo  atual Gmbia ocorreu durante o
reinado de Sunjata, no sculo XIII, e os balces comerciais do Sul datariam do
sculo XIV, seno do sculo anterior.
    A diviso geogrfica dos falantes do manden presta-se a diversas explicaes
histricas. Em funo do essencial do manden no ser representado seno pelo
mandenka, durante muito tempo afirmou-se que o lugar de origem de todos os
manden encontrar-se-ia nas terras altas do Senegal e do Nger, no atual Mali.
Estimou-se, por outro lado, que todos os outros falantes do manden representa-




4     C. S. BIRD, 1970; W. E. WELMERS, 1973; R. LONG, 1971; M. L. MORSE, 1967; A. PROST, 1953
      e 1981.
5     A. PROST, 1981, p. 354-355.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)   627
                                                                       Os manden e as suas lnguas (Fonte: B. W. Andah).
                                                                       figura 18.3
628                                                                               frica do sculo VII ao XI



riam ramificaes de sucessivas ondas migratrias, a partir desse lugar original6.
Isso aparenta perfeitamente corresponder aos movimentos demogrficos ulte-
riores (muito amide chamados de segunda disperso manden), principalmente
dirigidos rumo ao sul e ao oeste.
    Em contrapartida, pode-se partir da hiptese segundo a qual os manden (ou
proto-manden) teriam iniciado os seus movimentos a partir de um foco pr-
-histrico em algum lugar na regio do Lago Tchad e teriam continuado, aps
atravessar o rio Nger, em direo ao oeste e ao sudoeste. Essas migraes se
teriam produzido antes daquelas dos povos falantes do gur (voltaico) e do kwa.
As tradies orais dos bisa (busance) e dos mosi-dagomba permitem pensar
que os primeiros ocupavam os seus territrios atuais bem antes da fundao
dos outros Estados7. As tradies dos busa (na Nigria) evocam a sua chegada
provinda do leste8.
    Tudo leva a crer que os falantes do manden, atualmente habitantes dispersos
no Burquina Fasso, no Benin e na Nigria, no constituam as ramificaes mais
orientais de uma expanso manden proveniente do oeste mas, antes, eles seriam
os remanescentes das migraes manden meridionais, as quais se dirigiram a
partir do leste rumo ao sudoeste, como demonstra o seu estreito parentesco
lingustico9.
    No tocante ao quadro cronolgico, Welmers sugeriu que os manden repre-
sentam um ramo muito antigo da famlia Nger-Congo, situando essa separao
aproximadamente em -3300. A ruptura entre o manden do Sul e aquele do
Noroeste teria ento ocorrido aproximadamente em -160010. Contudo, essas
datas devem ser objeto da maior prudncia, haja vista estarem elas baseadas na
glotocronologia, cujos mtodos so de mais em mais criticados por numerosos
linguistas.
    Indubitavelmente, porm, algumas partes da Libria e da Costa do Mar-
fim encontravam-se, durante o perodo abordado por esse volume, j povoadas
por falantes de lngua manden, pertencentes ao grupo do sul. Outros povos
manden  os vai, konoo, mande, oso, kpelle/guerze, loma/toma, etc.  somente


6     Conferir J. VANSINA, R. MAUNY e L. V. THOMAS, 1964b, p. 91.
7     Segundo a tradio, os Estados dagomba e mosi teriam sido fundados pelo filho de um caador manden
      e de uma jovem voltaica, a indicar que os manden l se encontravam desde uma data anterior. Consultar
      A. PROST, 1945, p. 50-51; 1981, p. 357; J. GOODY, 1964, p. 211 212.
8     Esta tradio est ligada  lenda de Kisra; referir-se a P. MERCIER, 1970, p. 317.
9     A. PROST, 1981, p. 357-358.
10    W. E. WELMERS, 1958.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)            629



deslocaram-se em vrias ondas, rumo ao litoral, no curso dos ltimos cinco ou
seis sculos e as suas migraes sero objeto de um estudo no volume seguinte11.

     O grupo oesteatlntico
    Contrastando com a relativa homogeneidade do subgrupo manden, o grupo
oeste-atlntico, definido por Greenberg (igualmente existente na zona de
savana),  considerado por outros autores como relativamente mais dspar12, o
que impede a distino de subgrupos e das etapas importantes no plano his-
trico,  imagem das lnguas mel. Por outra parte, o corte entre esses grupos e
as lnguas kwa aparenta ser arbitrrio, ao menos na medida em que ele tende a
mascarar as semelhanas marcantes entre lnguas faladas em zonas geogrficas
diferentes, a exemplo dos estreitos parentescos lexicais existentes entre as ln-
guas mel e akan. Entretanto, a afirmao de Dalby, segundo a qual os grupos
lingusticos oeste-atlnticos no teriam nenhum parentesco entre si, permanece
discutvel.
    Como Welmers justamente observa, caso as lnguas oeste-atlnticas repre-
sentem um ramo muito antigo da famlia Nger-Congo, dever-se-ia esperar
que alguns parentescos no interior do grupo fossem difceis de discernir e, por
conseguinte, que a incluso de certas lnguas nesse mesmo grupo possa parecer
injustificada13.
    Para Sapir, o grupo lingustico oeste-atlntico compreende diversas lnguas
faladas na zona litornea que se estende da fronteira entre o Senegal e a Mau-
ritnia, no noroeste, at a fronteira entre Serra Leoa e a Libria, no sudeste14. A
nica exceo seria o pular (ou fulfulde [peul]), lngua falada por um povo na
savana, disperso do norte do Senegal at o norte de Camares, assim como na
regio do Tchad. Alm disso, Sapir observou que, opostamente ao pular (e, em
menor escala, ao wolof no Senegal e ao temme em Serra Leoa), a maior parte
das lnguas do grupo oeste-atlntico so faladas por populaes relativamente
restritas e frequentemente isoladas, cujo nmero varia entre um mximo de 200
mil (como os dioula e os kisi) e apenas algumas centenas (como os kobiana)15.
Excetuando-se algumas caractersticas tipolgicas, tais como os sistemas e


11   Consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 12.
12   Por exemplo, D. DALBY, 1965.
13   W. E. WELMERS, 1973, p. 17.
14   J. D. SAPIR, 1971, p. 46.
15   Ibidem.
630                                                          frica do sculo VII ao XI



classes nominais e os sufixos verbais, Sapir identifica poucos traos distintivos
evidentes comuns ao grupo, em seu conjunto. A diversidade do grupo explica,
sem dvida, as razes pelas quais alguns autores (como Dalby) recolocam em
questo o parentesco entre as lnguas das quais ele se compe. Todavia, Wester-
mann aparentemente logrou estabelecer correspondncias entre as lnguas mel
e as outras lnguas oeste-atlnticas16. Embora pouco numerosas, essas corres-
pondncias so assaz claras para propor a hiptese de um grupo gentico cujos
contornos permanecem vagos, comportando porm certa unidade. Sapir indica
que uma lista de palavras semelhantes (expresso pejorativa para designar os
supostos parentescos) demonstrou, de modo claro e preciso, a unidade das ln-
guas mel, ainda que permitindo distinguir os principais subgrupos e certo grau
de parentesco entre si.17

      O grupo kwa
    Segundo Greenberg, as lnguas kwa ocupam uma faixa de 320 km de largura,
em mdia, estendendo-se ao longo de aproximadamente 2.240 km do litoral
da frica Ocidental, de Monrvia  Libria, no oeste, passando pela Costa
do Marfim, por Gana e pelo Togo, assim como por uma zona situada entre
o Benin e o delta oriental do rio Nger18. Conquanto esse conjunto englobe
grupos independentes, como as lnguas nupe e mascare, os estreitos parentescos
lexicais entre grupos geograficamente distantes, como as lnguas mel e akan, a
classificao de Greenberg permanece fundamentalmente vlida para os grupos
intermedirios. Desse modo, em relao aos quatro grupos kwa, atualmente os
mais importantes no tocante ao nmero de falantes  a saber: as lnguas akan
(twi, fanti), predominantes em Gana; as lnguas ewe, predominantes no Togo e
na Repblica Popular do Benin, igualmente faladas no sudeste de Gana; as ln-
guas ioruba, predominantes no oeste da Nigria; as lnguas igbo, predominantes
no leste nigeriano  so todas lnguas silbicas tonais19.  bem verdade que a
incluso, por Greenberg, de lnguas como o kru e o ijo no grupo kwa permanece
hipottica. Entretanto, para tomar um exemplo, a lngua ijo aparenta ser to
estreitamente aparentada com lnguas ioruba e akan, quanto esses dois grupos o
so entre si. Com efeito, pesquisas aprofundadas que, ns admitimos, ainda esto


16    D. WESTERMANN, 1928.
17    J. D. SAPIR, 1971, p. 49.
18    J. H. GREENBERG, 1963a.
19    M. H. STEWART, 1979.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)            631



em seus primrdios, aparentam mostrar que a maior parte do cinturo florestal
da frica do Oeste, que se estende por mais de 1.600 km, do centro da Libria,
alm do Nger inferior, at a Nigria, est ocupado por povos falantes de uma
srie de lnguas aparentadas, apresentando semelhanas subjacentes, do ponto de
vista da estrutura e do vocabulrio. Caso essa situao esteja ligada  existncia
de uma proto-linguagem comum, esse dado lingustico indicaria, por conse-
guinte, a presena de um continuum cultural muito antigo, ao longo da maior
parte dessa faixa florestal, continuum esse que se teria diversificado, em seguida,
em data remota, porm, desconhecida. Os parentescos recm-mencionados,
assim como muitos outros existentes no interior do grupo kwa, aparentam ser
ao menos to remotos quanto as semelhanas entre certas lnguas mais orientais,
atribudas a esse grupo, e outras lnguas visivelmente pertencentes ao grupo
Benou-Congo.
    Os dados histricos e geogrficos permitem, por outro lado, pensar que a
floresta foi um obstculo  penetrao dos povos ulteriores, do mesmo modo
que essa penetrao, quando ocorrida, no tomou a forma de uma migrao
em massa. Ela estaria, ao contrrio, limitada a pequenos grupos que, conquanto
tenham exercido uma considervel influncia cultural, teriam sido absorvidos no
plano lingustico pelas populaes locais. Aparentemente, os homens do Norte
no penetraram em grande nmero seno no extremo Oeste, estabelecendo
chefias,  imagem daquelas dos manden de Serra Leoa, as quais teriam gerado
a famlia das lnguas manden at o litoral.

     Hipteses
    Para muitos, o grande tema referente ao estudo histrico da regio seria o
dramtico enfrentamento entre duas grandes tradies culturais, aquela dos pre-
cursores dos povos de lngua mel, do litoral, e a sua consorte prpria aos povos
de lngua manden, provenientes, em sua expanso, das altas terras do interior20.
     bem verdade que na poca dos primeiros contatos com a Europa e durante
os sculos posteriores, esse perodo era um foco ativo de imigrao, de expanso
demogrfica e de competio entre os grupos, os povos do interior descendo
rumo s baixas zonas florestais do litoral, em busca de terras e de escoadouros
comerciais. Resta igualmente pouca dvida de que a infiltrao dos grupos de
lngua manden, vindos do leste, tenha contribudo muito para tal.


20   H. BAUMANN e D. WESTERMANN, 1948; G. P. MURDOCK, 1959; M. DELAFOSSE, 1931; P.
     E. H. HAIR, 1968a; W. RODNEY, 1967.
632                                                                   frica do sculo VII ao XI



    Entretanto, problemas fundamentais restam a ser resolvidos quando nos
esforamos para integrar esse processo ao contexto mais amplo da histria
sociocultural da regio antes do sculo XV, particularmente no final do pri-
meiro e incio do segundo milnios. A data da invaso manden, por exemplo,
ainda no foi estabelecida. Livingstone fixa-a no sculo XIV, Lamp, no sculo
XV e Hair, no sculo XVI21. Alm disso, tampouco chegou-se a um acordo no
que tange  forma tomada por essa invaso e acerca do seu impacto sobre a
populao local. Hair descreve-a como uma guerra de curta durao, seguida
da assimilao dos invasores pela populao local, outros como uma migrao
de grande envergadura com consequncias decisivas e, por vezes, catastrficas
para os povos indgenas.
    Desse modo, Rodney e Lamp atribuem a essa invaso a destruio da civi-
lizao dos sapes (compreendendo os bulom, os temne, os limba, os baga e
os nalu, atualmente conhecidos como povos de lngua mel) que compreendia
artistas e artesos de grande reputao22. No entanto, por outra parte, estima-se
que os manden tenham introduzido um grande nmero de novas tcnicas, como
a metalurgia do ferro, a tecelagem do algodo e a arte da guerra, alm de terem
conferido grande impulso s instituies j estabelecidas, tais como as sociedades
secretas poro, ragbenle e simo.
    Livingstone, baseado em anlises sanguneas, notadamente em uma mesma
repartio do gene HbS (gene da hemcia falciforme) junto a alguns grupos
tnicos da frica do Oeste praticantes de uma agricultura intensiva, acreditava
que os primeiros povos de lngua manden, que imigraram rumo ao oeste (em
data por ele fixada no sculo XIV), tenham sobretudo sido caadores e guer-
reiros, assim como, que as ondas migratrias posteriores introduziram o cultivo
do arroz, alm das ferramentas em ferro, destinadas  explorao intensiva das
zonas florestais, por meio das queimadas, aps desmatamento. Segundo ele, esse
processo provavelmente teria comeado na borda arborizada das terras altas da
Guin, antes de lentamente estender-se em meio aos povos das florestas da
plancie23.
    Livingstone estabelecia uma relao entre a difuso desse trao e as ulterio-
res migraes de povos de lngua manden vindos do Sudo ocidental. Segundo
essa tese, a introduo dessa nova forma de agricultura nas zonas florestais



21    F. B. LIVINGSTONE, 1958; F. LAMP, 1979; P. E. H. HAIR, 1968a.
22    W. RODNEY, 1967; F. LAMP, 1979.
23    F. B. LIVINGSTONE, 1958, p. 553.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)          633



teria criado as condies favorveis ao anfele, fortalecendo assim a vantagem
seletiva do gene.
    A opinio ainda prevalecente equivale a supor que os povos da costa conhe-
ciam superficialmente a agricultura e o trabalho do ferro antes da chegada dos
grupos de lngua manden, movimento que no remonta alm do sculo XVI e
que foi seguido de um importante aumento populacional.
    Uma variante dessa tese faz recuar a chegada dos manden a uma data muito
mais remota, atribuindo-lhes uma influncia civilizatria bem maior. Eles teriam
introduzido a agricultura, a metalurgia do ferro, formas de sistema sociopoltico
aperfeioadas, o comrcio de longa distncia, assim como sistemas econmicos
e organizaes do artesanato mais complexos.
    Seguindo a mesma ordem de ideias, diversos autores afirmam que os Esta-
dos do Sudo ocidental, ameaados pelos berberes nmades, teriam comeado
desde o sculo III da Era Crist a exercer uma presso, que conduziu a um
deslocamento populacional em direo ao litoral. Esses autores sustentam que
essa tendncia ainda existe nos tempos atuais e que existe uma espcie de srie
de camadas de povoamento24. Dispostos em leque a partir da costa, encontram-
-se primeiramente os restos dos povos indgenas. Em Serra Leoa, trata-se dos
bollom, estreitamente associados aos kisi e aos krim, em virtude do parentesco
lingustico desses trs povos. Os nomes das localidades aparentam indicar que
grande nmero de regies, atualmente ocupadas pelos manden, kono e vai,
tenham at pouco tempo pertencido aos kisi. Ao longo da fronteira da atual
Libria, vivem os gola,  imagem dos outros povos, falantes de uma das lnguas
mel do Sul, providas de um sistema de classes nominais similar quele do banto.
    Os limba, igualmente, possuem um sistema de classes nominais e esto
muito amide classificados junto aos outros povos de lngua mel, na famlia
oeste-atlntica.
    Algum tempo mais tarde, vieram os grupos estreitamente aparentados dos
baga e dos temne, implantados um pouco mais no interior das terras e falantes
de uma lngua mel do Norte. Esses temne, assim como os nalu, os landuma e os
kokoli mais ao norte, aparentam representar uma segunda camada, mais tardia,
cabendo-lhes a denominao "pr-mandingues". Os temne, kisi, limba, baga e
os landuma foram todos, portanto, os primeiros habitantes do Fouta Djalon.
Finalmente deslocados, por volta do sculo XIII, pelos soso de lngua manden,
eles se dirigiram progressivamente para o oeste e rumo ao sul para ocupar as


24   A. L. MABOGUNJE, 1971, p. 7-9.
                                                                             634
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figura 18.4   Movimentos populacionais na alta Guin (Fonte: B. W. Andah).
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)           635



terras mais frteis nas proximidades da costa. Os soso, que os haviam substitudo,
disseminaram-se por sua vez pelo litoral,  medida que o seu nmero aumentava.
    Os sapes e os landuma permaneceram no interior do pas,  sua frente, os
nalu e os baga; porm, os temne prosseguiram o seu avano rumo  foz do rio
Serra Leoa, dividindo em dois os boulom, no sculo XVI, e tornando-se um
dos grupos mais poderosos da costa de Serra Leoa.  possvel que os baga, os
landuma e um certo nmero de temne no tenham formado seno um povo,
antes de serem separados pelos soso  os primeiros, atualmente, habitam a Guin
e esto em vias de absoro progressiva pelos soso. Os seus homlogos de Serra
Leoa, os temne, conservaram a sua identidade e, eles prprios, absorveram gru-
pos de boulom na costa, assim como os loko, os koranko, os fulbes (peul), alm
e inclusive, dos prprios soso, no interior das terras.
    Ao centrar a sua anlise nos aspectos econmicos e ecolgicos, assim como na
estrutura social, Murdock dividiu a regio em dois setores, por um lado a Sene-
gmbia, constituindo um bloco homogneo de povos de lngua oeste-atlntica
caracterizados por uma filiao matrilinear, pela cultura extensiva de plantas
sudanesas e por um habitat de vegetao de savana; por outra parte, a zona que
se estende entre a costa da Guin e a rea do rio Sassandra, habitada por grupos
de povos conhecidos pelo nome "kru ou manden da periferia", histrica, social
e estreitamente aparentados, embora falantes de um grande nmero de dialetos
diferentes das lnguas manden, kwa (kru) e oeste-atlntica (mel)25.
    D'Azevedo, por sua vez, defende que um pequeno setor dessa ltima zona
(situado ao sul de Serra Leoa e no noroeste da Libria) distingue-se em certa
medida dos outros pelo seu multilinguismo generalizado, pela sua histria feita
de afluxos de populaes heterogneas e pela existncia de confederaes "inter-
tribais", sobrepondo-se a fronteiras lingusticas mal-definidas. Ele chama essa
subzona "regio oeste-atlntica central", com o objetivo de enfatizar as caracte-
rsticas histricas e etnogrficas que aparentam colocar esse grupo litorneo um
pouco  margem, em relao s zonas de povoamento circunvizinhas26.
    Segundo outro ponto de vista, aparentemente mais razovel, a agricultura
e o trabalho do ferro estavam solidamente implantados em algumas partes da
alta Guin antes da chegada dos manden; cabendo a essa ltima, unicamente,
traduzir-se pela adjuno de elementos sudaneses aos sistemas agrcola e socio-
poltico das populaes indgenas.


25   G. P. MURDOCK, 1959.
26   W. L. D'AZEVEDO, 1962.
636                                                                      frica do sculo VII ao XI



    Est claro a partir do precedente que respostas definitivas ainda no foram
encontradas para algumas das questes fundamentais concernentes  histria
cultural da regio, especialmente as seguintes: Quando os povos do Sudo oci-
dental teriam partido rumo ao sul? Quem eram esses povos? De quais regies
teriam eles partido e rumo a quais teriam se dirigido? Qual seria a natureza des-
sas migraes e quais as transformaes e modificaes delas resultantes? Mais
especificamente, gostaramos de saber quais foram as plantas autctones da alta
Guin primeiramente cultivadas, quando os elementos sudaneses teriam sido
introduzidos e qual foi a sua importncia relativa, como a metalurgia do ferro e
o comrcio de longa distncia teriam entrado em cena e quais os seus resultados?
    O contato cultural prosseguia na regio h sculos, muito anteriormente 
famosa invaso mana, provocando o movimento de povos, de lnguas e cultu-
ras diversas em direo a uma zona florestal litornea com populao exgua e
hbrida. Os defensores dessa tese apresentam como argumento em seu favor
o fato desses indcios mostrarem que a maioria das unidades etnolingusticas,
cuja presena no litoral foi registrada pelos europeus entre 1440 e 1700, ainda
existam atualmente em disposio quase similar, embora a sua localizao e a
sua importncia territorial tenha se modificado um pouco. Da mesma maneira,
eles sublinham, a justo ttulo, que isso no significa que os grupos modernos, em
razo da semelhana dos nomes, das lnguas e da localizao, sejam descendentes
diretos, no plano gentico ou cultural, das etnias do passado, pois que essa regio
conheceu durante sculos transformaes considerveis.


      A Senegmbia
   Na regio da Senegmbia, as pesquisas arqueolgicas mostraram que a zona
dioula-wolof da baixa Casamncia estava povoada desde o primeiro milnio da
Era Crist. At +200, o povoamento era exguo e composto de pequenos grupos
acampados em dunas de areia baixas.
   Linares de Sapir acredita que esses povos tenham vindo do leste, haja vista
que as suas cermicas possuem as mesmas tcnicas decorativas, tais como as
linhas sinuosas gravadas com ferramenta oca, "que a cermica neoltica ampla-
mente difundida do Cabo Verde ao sul da Arglia e, inclusive mais alm, na
frica Central"27.


27    O. LINARES DE SAPIR, 1971; igualmente consultar UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II,
      captulo 24.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)                         637



    Esses habitantes da costa adaptaram-se, em seguida,  vida litornea, tal
como testemunha a presena de conchas de moluscos. De Sapir prope a hip-
tese da prtica, por esses indivduos e j nessa poca, da rizicultura inundada
(entre -200 e +200)28.
    Essa adaptao, indita e radical, foi obra de recm-chegados, talvez os
ancestrais dos dioula, provenientes do Sul, que teriam desalojado os antigos
ocupantes cujo nmero seria relativamente baixo.
    Quando da terceira grande fase de ocupao, o carneiro e a cabra estavam
domesticados; a presena do rebanho foi mantida, enquanto o peixe tornou-se
uma das bases da alimentao.
    Durante a quarta e ltima fase identificada, duas novas espcies domsticas, o
porco e o co, entravam em cena. A cermica era, em geral, a mesma que aquela
do perodo precedente; entretanto, os habitantes no fabricavam mais pequenas
tigelas com tampa, como  o caso ainda atualmente junto aos dioula. De Sapir
acredita encontrar no material arqueolgico, especialmente na cermica, o ind-
cio da ocupao final dos dioula, durante as trs ltimas fases, de todos os vales
aluviais entre a Casamncia e o rio Sondrougou.
    Alm da Casamncia, a foz do rio Senegal, prxima a Saint-Louis, e o delta
do Sine-Saloum ( Joal, Gandoul e Bandial) tambm eram habitados em data
igualmente remota, qui mais remota. Sapir observa que, embora alguns dep-
sitos de lixo descobertos nesses esturios pertenam talvez ao final do Neoltico,
a maioria remonta ao incio da Idade do Ferro e alguns desses esturios estavam
ocupados na chegada dos europeus. Um complexo desse tipo, um assentamento
conchfero, em Dionevar contem bem mais de 40 enterramentos. Escavaes
recentes revelaram materiais da Idade do Ferro (ferros de enxada, gros de colar,
braceletes e cermicas)29. Em geral, existe um paralelismo entre a cermica da
Casamncia e aquela da regio de Saint-Louis.
    Na Casamncia tanto quanto em Cabo Verde, as tcnicas decorativas atri-
budas ao Neoltico persistem no incio da Idade do Ferro. As duas regies
igualmente apresentam vagas semelhanas formais no tocante aos potes cer-
micos (esfricos ou ovais, de tamanho varivel e jarras de tamanho mdio com
gargalo largo).



28   Segundo A. PORTERES (1950), a Senegmbia teria sido o segundo centro de propagao do Oryza
     glaberrima (o arroz oeste-africano).
29   C. DESCAMPS, G. THILMANS e Y. THOMMERET, 1974; G. THILMANS e C. DESCAMPS
     (no prelo).
638                                                          frica do sculo VII ao XI



    As provas lingusticas no aparentam confirmar a tese segundo a qual o
grupo dioula teria vindo do leste. Eles situariam preferencialmente o centro
original da disperso dos dioula em direo ao sul, na regio costeira da Guin
Bissau, onde encontramos os mandyak e os balante, dois grupos linguistica-
mente aparentados com os doula.  imagem dos dioula, esses povos praticam
a rizicultura inundada e utilizam a carroa, o kayando. De um ponto de vista
arqueolgico, essa tese  igualmente duvidosa, haja vista que a prtica da coleta
de conchas, a cermica decorada com conchas e a presena de resduos de peixe,
no momento da segunda fase de ocupao, indicam que esses povos vieram da
costa e no do interior das terras do leste.
    Aproximadamente em +300, os dioula exploravam a abundante fauna dos
canais e dos mangues, alm de provavelmente praticarem a agricultura  talvez
um estdio avanado do cultivo do arroz. Muitos traos distintivos da cultura
dioula j estavam presentes a partir do segundo perodo de ocupao identifi-
cvel. Os grupos viviam em dunas de areia nos vales aluviais ou proximamente;
como o fazem atualmente, eles colocavam os seus dejetos em lugares determi-
nados. Os montes contm fragmentos de cermica e outros refugos comparveis
queles da cultura material dos atuais dioula. Ignora-se se os dioula enterravam
potes cermicos com os seus mortos, pois que nenhuma sepultura foi encontrada
nesses stios ou nas proximidades.
    H aproximadamente oitenta anos, descobriu-se na regio da Senegm-
bia vrios grandes conjuntos de crculos de pedras (meglitos) ao norte do rio
Gmbia, em uma zona estendida em mais de 30.000 km2, a partir e Fara-fenni,
a cerca de 360 km da foz do rio, at um ponto to distante, a leste, quanto Tam-
bacounda, no Senegal (figuras 18.2 e 18.4). As pedras eram geralmente extradas
das baixas colinas laterticas que salpicam essa regio de savana. Os mais anti-
gos crculos descobertos compem-se de pedras levantadas e de alinhamentos
de blocos laterticos cujo nmero varia entre 8 e 24 e a altura atinge 4 m. Em
Dialloumbr, um grupo, talvez o mais vasto at o momento conhecido, com-
preende mais de 54 crculos, o dimetro de cada crculo atingindo 8 m. Porm,
o dimetro interno dos crculos varia em funo do tamanho e do nmero de
pedras; e, geralmente, os crculos esto reunidos em grupos de 2 ou 3. O interior
de alguns desses crculos  plano; em outros casos, ele  concavo, entretanto,
mais frequentemente ele est levemente sobrelevado. As pedras compondo um
crculo so todas do mesmo tamanho  geralmente compreendido entre 1 e 2
m de altura. As pedras habitualmente tm a forma de pilares arredondados. Na
maioria dos casos, duas pedras orientadas exatamente para leste acompanham
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)           639



o crculo e encontramos, por vezes, grandes pedras talhadas em forma de Y30.
Os trabalhos arqueolgicos mostraram que esses monumentos so cemitrios.
Aparentemente, esses crculos de pedras eram originalmente muito mais ele-
vados e recobertos de areia e laterita, alm das fileiras de crculos justapostos
representarem necrpoles de dinastias de reis ou sacerdotes, ao passo que os
crculos mais modestos eram aqueles de chefes ou sacerdotes locais. Poder-se-ia
igualmente supor que a orientao para o leste das pedras em forma de Y e dos
pares de pilares isolados fosse o indcio de um culto ao sol.
    Os potes cermicos extrados desses meglitos aparentam ser do mesmo
tipo que os materiais descobertos nos tmulos dos rao, dos sine e das regies
sahelianas do Senegal31. Embora os crculos tenham anteriormente sido datados
do sculo XIV32, as novas escavaes realizadas pela Universidade de Dakar na
regio do Sine-Saloum fazem-nos remontar a aproximadamente +100033.
    At o momento, mais de 4 mil outeiros foram descobertos, alguns atingindo
5 m de altura e 40 m de dimetro. Aqueles que foram objeto de escavaes
revelaram numerosas sepulturas; em Diorn Boumak, contavam-se 4134. Entre o
mobilirio funerrio profuso, encontraram-se gros de colares em ouro e de cor-
nalina, armas de ferro, ornamentos de ouro e cobre e, em uma tumba, um peitoral
de ouro. Pode-se fazer remontar o surgimento de objetos de metal (ornamentos
e outros objetos funerrios) nessa regio a um perodo que vai do sculo IV ao
sculo VI da Era Crist. Os gros de colar de cornalina, entretanto, provm de
stios datados de antes do sculo XI e constituem uma prova da difuso desse
material, provavelmente originrio do vale do Nilo.
    Outros outeiros, contendo outras tantas riquezas, foram objeto de escava-
es no alto vale do rio Nger, principalmente abaixo de Sgou. Em Kgha,
um outeiro acompanhado de pedras elevadas foi datado de aproximadamente
+100035. Essa riqueza explica-se quase certamente pelo controle dos recursos
minerais e pelas possibilidades agrcolas do delta do alto Nger.
    Deriva claramente do que precede que havia contatos e importantes relaes
entre o Sudo ocidental e a Senegmbia, durante essa era dos construtores de



30   G. THILMANS, C. DESCAMPS e B. KHAYAT, 1980.
31   M. POSNANSKY, 1973.
32   J. JOIRE, 1955.
33   G. THILMANS e C. DESCAMPS, 1974, 1975.
34   G. THILMANS e C. DESCAMPS, 1974, 1975.
35   R. MAUNY, 1961, p. 109-110.
640                                                          frica do sculo VII ao XI



meglitos. O gegrafo rabe al-Bakr36 descreve o funeral de um rei de Gana no
sculo XI que, em certos aspectos, assemelha-se aos sepultamentos da Senegm-
bia. Para alguns historiadores modernos, esses dados, assim como as dataes
aproximadas das sepulturas feitas anteriormente, indicam uma migrao (um
movimento dos soninqus no-excludos), da sede do Estado de Gana para o
Sudo ocidental. Dando crdito aos dados disponveis, estamos inclinados a
pensar que os meglitos e as realizaes socioculturais correlatas eram obra dos
ancestrais dos povos que nos dias atuais vivem na regio  principalmente os
manden, os wolof e fulbes. No atual estdio de conhecimento, os dioula so o
nico povo que sabemos ter vivido na regio  poca da edificao dos crculos.
Contudo, o fato da cermica encontrada em alguns conjuntos (Wassu, por exem-
plo) diferir consideravelmente daquela descoberta em outros (como Fara-fenni)
poderia indicar que essas sepulturas foram edificadas por um grande nmero de
grupos tnicos, possuidores de uma mesma cultura. Alm disso, a diversidade de
estilos de talha na pedra leva a pensar que houve uma evoluo a longo prazo.


      Guin, Serra Leoa, Libria
   Em Serra Leoa, o homem aparenta ter encontrado, sem dificuldade, um
acesso s grutas e cavernas situadas nas regies de savana arbrea, particular-
mente as altas terras do Nordeste. Ele ocupa desde tempos remotos, por vezes
bem anteriores ao final da Idade da Pedra, grutas e cavernas como aquelas de
Kamabai, Yagala, Kabala, Kakoya, Yengema e Bunumbu. As escavaes con-
duzidas em Kamabai e Yagala (abrigos rochosos situados a menos de 320 km
ao norte do Cabo Mount) por Atherton, bem como em Yengema, por Coon,
revelaram em suas camadas superiores o uso do ferro, remontando ao sculo VII
ou do sculo VIII, embora as ferramentas em pedra continuassem a ser utiliza-
das at o sculo XIV e mesmo alm dele37. A partir do Neoltico, a alimentao
dos povos dessa regio dever ter se baseado no azeite de dend, na alfarroba,
no inhame, na caa, no peixe, no mel e nas bagas. Encontram-se vastos stios
de fundio no nordeste de Serra Leoa, no pas koranko; infelizmente, eles no
esto datados.
   Os dois nveis mais recentes (3 e 4) de Kamabai foram datados dos sculos
VI-IX e dos sculos VI-X. Os potes cermicos desses nveis, particularmente


36    Al-BAKR, 1913, p. 176.
37    J. H. ATHERTON, 1972; C. COON, 1968.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)           641



aqueles ornamentados com temas triangulares em tiras, diferiam daqueles des-
cobertos nos stios menos importantes, nas circunvizinhanas de Koidu38 e no
nordeste do pas bo39.  Idade do Ferro sucedeu, ao menos no nordeste do pas
bo, uma tradio batizada por Hill "Sefadu-Tankoro", caracterizada pelo traba-
lho do ferro (fragmentos de escria e tubos). Em um stio, descobriu-se um crisol
parcialmente fundido e um molde que aparentemente serviu  moldagem do
cobre com cera perdida. Objetos de ferro associados ao refugo de ferramentas de
pedra foram encontrados em um desses stios, o qual poderia ser, segundo Hill,
um depsito ritualstico acumulado durante um perodo muito curto. Alguns
stios desprovidos de cermica e depsitos dispersos de ferramentas em pedra
igualmente levaram a supor que indstrias de um tipo vizinho ou mesmo similar
quele das camadas mdias e inferiores da gruta de Yengema estivessem em toda
a provncia do Leste e do Sul40.
     inegvel que contatos existiram entre os povos da floresta e da savana nesse
setor da alta Guin, desde uma data muito remota. O comrcio desempenhava
um papel particularmente importante, como meio de contato e de influncia
recproca. Na zona dos riachos do Norte, trocava-se seda, algodo e um pouco
de ouro por ostras (por exemplo, nas cercanias da Scarcies, da Mellacourie, etc.).
Entretanto, contrariamente  opinio de certos autores, existem indcios de
civilizaes florescentes desde uma data muito remota nas zonas florestais, entre
outros, as imagens de ancestrais em pedra-sabo de Serra Leoa e da Libria,
conhecidas pelo nome nomoli ou pomdo41, alm dos meglitos j mencionados
acima, porm, igualmente existentes da Guin at Serra Leoa e na Libria.
Segundo alguns historiadores, essas duas tradies seriam aproximadamente
contemporneas  introduo do ferro, permitindo entender que essas tradies
e o ferro teriam sido trazidos a essas zonas fronteirias do exterior42.
    Certas tradies atuais em cermica (os vasos esfricos de garganta estreita
e com o gargalo aberto fabricados atualmente no norte de Serra Leoa, por
exemplo) aparentam estar associadas quelas que remontam ao Neoltico e esto
prximas daquelas do Fouta Djalon.
    Que os potes cermicos e a metalurgia do ferro tenham ou no sido trazidos
do exterior para a zona florestal, a regio situada entre o Senegal e a Costa do


38   P. OZANNE, 1966, p. 15.
39   M. H. HILL, 1970.
40   Ibidem.
41   J. H. ATHERTON e M. KALOUS, 1970.
42   A. P. KUP, 1975.
642                                                           frica do sculo VII ao XI



Marfim apresentava os sinais de uma organizao estatal complexa, bem antes
do surgimento das fontes escritas. E essas formas de organizao possuam
caractersticas originais, comparativamente  civilizao do mdio Nger.
    Na floresta tropical da Libria, os potes cermicos da primeira Idade do Ferro
apresentam traos semelhantes com a Idade do Ferro do Zimbbue, no incio do
primeiro milnio da Era Crist43. Os vestgios compreendem potes com nibio,
jarras com cordas e impressas com ferramentas ocas, recipientes em forma de
quilha, cabanas de varas e argila e plataformas levemente sobrelevadas, escrias
deixadas pela fundio do ferro, smbolos do culto  fertilidade  figurinos de
argila representando mulheres e animais de criao , contas de casca de ovo de
avestruz e objetos em bronze e cobre. Os trs ltimos grupos de objetos ainda
no foram encontrados nos stios da Libria.
    Os potes cermicos encontrados na Libria pertencem a grupos distintos
que parecem derivar da histria cultural. Do ponto de vista etnogrfico, os potes
cermicos manden-lomo-kpelle-mano so suficientemente similares a ponto
de constiturem uma sub-tradio de famlias aparentadas. Eles formam, com
efeito, um continuum de caracteres que vo dos mais variados e complexos nos
produtos manden, ao mais simples, naqueles dos mano. A forma e a decorao
dos vasos atingem a maior variedade e complexidade junto aos manden; pos-
suindo a menor variedade e complexidade junto aos mano. De fato, os potes
cermicos lomo-kpelle-mano so muito menos complexos. Segundo Orr, esse
fenmeno explica-se pela cultura mais refinada dos manden do ndulo mande,
comparativamente aos outros, ditos manden da periferia44.
    As cermicas bofota, samquelle I e gbanshay aparentam ser mais prximas
dos potes dos prprios aos manden da periferia e, segundo Orr, elas so indu-
bitavelmente mais antigas, embora ele tenha estabelecido uma classificao dos
estilos para determinar a sua data exata.
    Os exemplos conhecidos de pomtan e de nomoli, nomes geralmente dados a
pedras esculpidas de uma grande variedade, so contados aos milhares e foram
descobertos em uma zona estendida da Ilha Sherbo at o pas kisi na Guin, a
cerca de 350 km mais ao norte, e do oeste da Libria at o pas temne, a apro-
ximadamente 220 km em direo ao oeste. As esculturas surgem mais ou menos
regularmente espalhadas em toda essa zona, embora existam grandes diferenas
de estilo entre os pomtan (no singular: pomda) dos kisi e os nomoli descobertos
em Serra Leoa. O terreno est coberto por uma floresta muito densa e povoada

43    K. G. ORR, 1971-1972, p. 77.
44    K. G. ORR, 1971-1972, p. 77.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)          643



por agricultores que cultivam principalmente arroz, pertencentes a dois grupos
lingusticos. Os kisi, ao norte, e os boulom-sherbro, na costa, falam lnguas do
mesmo grupo, porm, radicalmente diferentes dos manden e dos kono, ocupan-
tes do territrio que os separa.
    Alm do seu nmero e da sua ampla distribuio, os nomoli e os pomtan apre-
sentam a vantagem de ser relativamente pequenos e fceis de transportar; eles
puderam, portanto, ser estudados desde h muito tempo, nas colees europeias.
    Conquanto a opinio geral recuse aos manden o privilgio de terem execu-
tado essas figuras de pedra, em razo da sua chegada julgada tardia, Atherton e
Kalous sustentam a tese contrria. Eles esto convencidos que os manden so
oriundos do cruzamento de uma populao aborgene, mais antiga, com um
elemento mandingue mais recente. Segundo eles, os nomoli seriam obra de um
grupo aborgene conhecido dos primeiros visitantes pelo nome sapes (incluindo
povos da costa aparentados entre si, como os sherbro). Entre outras provas em
favor da suas tese, eles mencionam os nomoli representando as grandes cabeas
com longos bigodes cados, caractersticas dos manden do Norte45.
    Em contrapartida, Person deduz do estudo das tradies locais, dos nomes
de lugares e das mais antigas crnicas europeias que a zona onde se encontra os
nomoli estivera, outrora, inteiramente ocupada por povos do grupo lingustico
oeste-atlntico46. Entretanto, todos os indcios dos quais dispomos mostram que
a data na qual ele situa o deslocamento dos manden rumo  sua localizao atual,
mais ao sul, ou seja, h quatro sculos,  demasiado recente. Aparentemente,
por exemplo sobre as mais recuadas escarpas arborizadas da bacia de alimen-
tao do Nger, os kisi, malgrado a sua origem tnica muito mestiada, teriam
preservado no to somente a sua lngua mas, inclusive, grande parte das suas
tradies culturais, incluindo aquela da escultura em pedra, mantida at os nos-
sos dias em uma forma menos refinada. As descobertas arqueolgicas recentes
de Serra Leoa, as quais mostram uma cultura que utiliza o metal e possuidoras
de uma cermica original e difundida em toda a regio entre os sculos VI e
VII, permitem igualmente supor certos parentescos entre essa cultura do ferro
e a tradio nomoli.
    Baseando-se nessas semelhanas estilsticas, Atherton e Kalous afirmam que
os primeiros nomoli devem ter sido imitaes de estatuetas em argila do Sudo
ocidental. Segundo eles, a tradio dos nomoli teria vindo do Sudo ocidental na
mesma data que a primeira ocorrncia de alguns potes cermicos caractersticos,

45   J. H. ATHERTON e M. KALOUS, 1970, p. 307.
46   Y. PERSON, 1972.
644                                                            frica do sculo VII ao XI



assim como do ferro em Kamabai  ou seja, entre os sculos VI e VII47. Embora
seja perfeitamente possvel que as pedras esculpidas tenham sido executadas
no incio da Idade do Ferro, esses autores no trazem nenhuma prova que o
conhecimento dessa tcnica foi uma contribuio do Sudo ocidental para o
norte. Na realidade, eles aparentam no levar absolutamente em conta o fato de
madeiras esculpidas muito semelhantes aos objetos em pedra (e no estatuetas
em argila) terem sido encontradas na regio, assim como a possibilidade de se
ter adquirido o domnio da escultura sobre pedra, justamente trabalhando com a
madeira. A ideia de um aporte externo igualmente aparenta ser muito duvidosa
pelo fato, entre outros, dessa tradio referir-se unicamente ao trabalho da pedra
e no da argila, bem como, das esculturas apresentarem uma grande variedade
estilstica. De todo modo, caso essa tradio for originria do trabalho em argila,
aparenta ser, ao menos, curioso que nenhum figurino de argila (terracota) tenha
sido descoberto nos mesmos stios, quando sabemos da utilizao da argila em
cermicas pelas populaes locais.
    Allison observa que a maioria das esculturas  talhada em mica ou pedra-
-sabo, um menor nmero em xisto e em anfibolito, e algumas outras poucas
em rochas como o granito, o dolerito e o arenito48. Considerando a quantidade
dessas esculturas, parece ser razovel supor que elas tenham sido habitualmente
executadas in loco ou o mais proximamente possvel das fontes de matria-
-prima. A abundncia de vestgios, a sua distribuio muito ampla, a utilizao
da pedra e da madeira, e no da argila, e a grande diversidade de estilos, tudo
indica tratar-se de uma tradio endgena que, em detrimento de uma tradio
importada do estrangeiro, prosperou em suas diversas formas, essencialmente em
funo das presses e das diferenas culturais e ecolgicas locais. Caso os pri-
meiros nomoli tivessem sido feitos em imitao s estatuetas de argila do Sudo
ocidental, como defendem Atherson e Kalous, seria muito surpreendente que os
habitantes da floresta no tivessem jamais tentado fabricar, eles prprios, esses
objetos de argila, o que teria sido, em todos os aspectos, mais fcil e ao menos
possvel, haja vista que eles dispunham de argila para fazer potes.  igualmente
surpreendente que esses povos, to hbeis ao imitarem outrem, os quais no
to somente aprenderam muito rpido mas, prontamente, traduziram a lio
recm-aprendida em vrios idiomas e materiais locais, tenham entretanto sido
incapazes de descobrir, por si mesmos, as possibilidades oferecidas por essas
matrias-primas existentes em abundncia, sendo eles obrigados a esperar a

47    J. H. ATHERTON e M. KALOUS, 1970, p. 312.
48    P. ALLISON, 1968, p. 37.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)             645



chegada de uma ou duas estatuetas de argila para ver abrir-se a caixa de Pandora.
No estdio atual dos conhecimentos, no somente  mais lgico admitir que os
nomoli tenham sido, em larga escala, uma criao independente de um povo que
vivia na regio h muito tempo mas, seriamente, deve-se encarar a possibilidade
dessa arte ou tradio tcnica ter sido exportada para o norte, a partir do sul.
Na realidade, talvez no se deva ao acaso que a tradio da escultura em pedra
seja encontrada em diversas outras partes da regio guineana, a exemplo dos
Esie, em pas ioruba, e dos Akwanshi, junto aos ekoi da regio do Cross River.
    Igualmente, a datao contradiz a ideia segundo a qual a tcnica dos nomoli
veio da zona sudanesa por intermdio, indireto, da terracota. Durante as escava-
es arqueolgicas de Jenn-Jeno, no delta interior do Nger, uma estatueta de
terracota foi descoberta em um stio arqueolgico bem conhecido, sendo datada
do perodo entre 1000 e 130049. Caso essa data marque o incio dessa tradio
artstica na regio, ela  muito mais tardia que aquela do incio da tradio nomoli
em Serra Leoa, situada por verificao e controle entre os sculos VI e VII.
    A grande maioria das esculturas de todos os tipos representa formas humanas
masculinas, em que pese a rara representao das partes genitais. Um nomoli
tpico geralmente mede de 6 a 8 polegadas de altura e um pomda de 3 a 6
polegadas, embora alguns espcimes de mais de 12 polegadas tenham sido
encontrados em todos os setores da regio. Os pomtan so habitualmente de
forma cilndrica e compem-se, essencialmente, de um cilindro sobreposto por
uma cabea esfrica sem traos marcados, perfil que, inevitavelmente, conduziu
 sua descrio como objetos flicos.
    A partir dessa forma estilizada e simplificada, os escultores evoluram para
uma representao completa do corpo humano.  moda dos Akwanshi, muito
maiores, do Cross River, os traos faciais so gravados na cabea e braos em
baixo relevo so acrescentados ao corpo50. Algumas estilizaes de corpos femi-
ninos com formas protuberantes igualmente aparecem. Enfim, encontramos
formas humanas de ambos os gneros, bem esculpidas, porm, as masculinas
so as mais numerosas. Elas constituem a prova de um extremo refinamento,
no detalhamento dos penteados, na elaborao cuidadosa dos cabelos, na dis-
posio de prolas e das cicatrizes ornamentais. As estatuetas masculinas so
frequentemente barbadas e algumas tm narizes curvos, dentes expostos e um
basto ou uma arma nas mos. Preservando a forma cilndrica caracterstica dos
pomtan, encontramos alguns grupos nos quais um grande personagem central

49   R. J. MCINTOSH e S. K. MCINTOSH, 1979, p. 51-53.
50   Consultar, acima, o captulo 17.
646                                                           frica do sculo VII ao XI



est cercado de uma srie de silhuetas menores. Essas esttuas e esses grupos
elaborados raramente aparecem nas colees reunidas pelos kisi do Sul, em
Serra Leoa e do pas kono que tem fronteiras comuns com os kisi e os manden.
    A crena popular na regio indica que essas esculturas so de origem divina,
embora os ancios kisi admitam que elas fossem executadas pelos seus ancestrais,
em uma poca muito remota, cabendo-lhes ainda representar algum ancestral.
Em contrapartida,  caracterstico que junto aos manden os nomoli sejam asso-
ciados aos antigos proprietrios da terra, e no aos seus prprios ancestrais.
Aqueles que so descobertos so colocados em um altar, no meio dos campos,
onde a sua presena assegura uma boa colheita de arroz, como pretende a crena.
    Com efeito, os dados lingusticos aparentam sugerir que, aproximadamente
h 2500 anos, o sul de Serra Leoa, o norte da Libria e uma parte da vizinha
Guin foram ocupados por povos de lngua mel, cuja expanso provavelmente
ocorreu em detrimento de povos de lngua kwa. Aproximadamente na mesma
poca, as lnguas manden estendiam-se e se diferenciavam a partir de um foco
situado na regio fronteiria entre a Libria e a Guin. Um dos ramos ances-
trais dos manden, de onde so originrios os kono-vai, os malinkes e outros,
disseminou-se rumo ao norte e finalmente expandiu-se amplamente no Sudo.
Ao final, o ramo kono-vai desceu em direo ao sudoeste, separando os kisi e
os gola dos outros povos de lngua mel. Posteriormente, em data muito recente,
outro grupo manden, j internamente dividido, dirigiu-se para o noroeste, sepa-
rando os kisi dos gola, qui j divididos, e atravessando a barreira estabelecida
pelos kono-vai. Esse avano para o noroeste dos manden (conhecidos pelo
nome manden-loko) seria posteriormente obstrudo pela expanso, rumo ao
leste, dos povos de lngua temne, no norte da regio51. Hill emitiu a hiptese do
surgimento da tradio arqueolgica sefadu-tankoro estar associada  expanso
em direo ao sudoeste dos kono-vai52. Porm, essa hiptese desconsidera uma
importante questo: por qu uma expanso lingustica, aquela dos kono-vai,
seria visvel, ao passo que outra, perfeitamente similar, aquela dos manden-loka,
no o seria?
    Existem poucos dados permitindo estabelecer uma ligao direta entre o
movimento em direo ao litoral dos vai (do noroeste da Libria, falantes de
uma lngua manden do norte) e aquele dos ligbi rumo ao leste, malgrado as
semelhanas lingusticas.  mais provvel que os vai tenham penetrado na atual
Serra Leoa em companhia dos kono. As tradies segundo as quais os kono

51    P. E. H. HAIR, 1968a, 1968b, 1974.
52    M. H. HILL, 1972, p. 1-2.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)            647



teriam sido deixados para trs aparentam conduzir  confuso:  mais plausvel
que os kono, os vai e os grupos falantes da lngua dama, atualmente desaparecida,
tenham formado uma faixa contnua do leste de Serra Leoa at o mar, separando
os gola e os kisi dos outros povos de lngua mel. Mais tarde (talvez antes da
metade do sculo XVII), essa faixa pode ter sido cortada pelo movimento em
direo ao oeste dos povos manden do Sudoeste.
    A "migrao" dos vai no tomou, necessariamente, a forma de um xodo
massivo ou de uma conquista. Tratava-se, mais provavelmente, da progressiva
abertura de vias comerciais, com a instalao de alguns mercadores de lngua
manden do Norte no litoral e um maior nmero transportando sal, peixe seco
e outros gneros da costa para a curva do Nger. Embora essas vias comerciais
tenham finalmente sido mais ou menos interrompidas, a lngua vai manteve-se
prxima  costa, em virtude da sua importncia para o comrcio e dos laos com
os manden, os quais jamais haviam sido totalmente rompidos.
    Igualmente convencido que o sal e o peixe desempenhavam um papel predo-
minante no comrcio de grande distncia, bem antes da chegada dos europeus,
Hill deduz que: a expanso dos manden na zona florestal, em seguida at o
litoral, estava ligada  abertura de rotas comerciais; essas rotas comerciais, elas
prprias, estavam ligadas ao crescimento populacional na zona concernente
(e reciprocamente?); o crescimento populacional oferecia a base necessria ao
estabelecimento de sistemas polticos mais complexos, adaptados a uma popu-
lao fundamentalmente dependente do comrcio exterior e, provavelmente,
concebidos segundo o modelo daqueles do Sudo ocidental; o prestgio da
lngua manden, lngua dos mercadores ou dos soberanos  ou dos dois simulta-
neamente  contribuiu para a extino de uma ou vrias lnguas mel, ao que tudo
indica preexistentes, na forma de uma forma antiga da lngua kono-dama-vai53.
    Segundo recentes trabalhos de pesquisa, os manden do Norte no teriam
chegado subitamente s regies florestais mas, progressivamente e em peque-
nos grupos, tampouco o teriam feito recentemente, tal qual se acreditava ante-
riormente. Reconhece-se, igualmente, o papel do comrcio de longa distncia,
estimulador das grandes transformaes sociopolticas, tanto quanto a influncia
provavelmente exercida pelos agentes desse comrcio  em outros termos, pelos
vai. Admite-se, desde logo, a possibilidade de uma chegada dos vai em Serra
Leoa, muitos sculos antes da data de 1455, indicada por Y. Person54. Os dados
lingusticos propem, a esse respeito, algumas indicaes interessantes.

53   M. H. HILL, 1972, p. 1-2.
54   Y. PERSON, 1971.
648                                                                                    frica do sculo VII ao XI



    Jones indica que os kono e os vai aparentam ter tomado por emprstimo
algumas palavras das lnguas manden do sudoeste (por exemplo, os termos
designando o peixe, as aves, a canoa, o pau-campeche, o algodo e o ferro), den-
tre as quais algumas so reencontradas nas lnguas mel e manden do sudoeste,
porm, no no manden (como corte, varola) e, ao menos uma, existe somente
em kisi (elefante). Esses emprstimos poderiam ter um significado cultural  eles
implicariam, por conseguinte, que o desenvolvimento da civilizao kono-vai foi
um processo muito lento, beneficiando-se de aportes provenientes de diversas
direes, em diferentes pocas55.
    Nessa perspectiva, a imagem oferecida por Person acerca do movimento
que conduziu os vai e os kono ao seu atual pas, aquela correspondente a uma
simples incurso rpida, remontando ao sculo XV ou ao sculo XVI, em nada 
convincente, pois que processos histricos que duraram sculos ou dcadas no
so passveis de reduo a uma nica batalha ou  ao de um nico chefe; do
mesmo modo, a abertura de novas vias comerciais acontece de modo progressivo
e no por meio de uma sbita conquista militar.
    Aquilo que nos interessa, sobretudo, so as causas polticas e econmicas que
provocaram movimentos prolongados, durante sculos. Resultaria uma modi-
ficao na fisionomia das populaes, pelos inter-casamentos, a transformao
das estruturas sociais e a extenso ou a regresso das lnguas. Muitos dos eventos
descritos por Person, incluindo a chegada dos vai, provavelmente aconteceram
sculos antes, em ritmo muito mais lento.
    Segundo Jones, o nmero de falantes da lngua vai teria sido acrescido pelos
inter-casamentos com a populao autctone, no somente nos grupos de lngua
mel mas, igualmente, naqueles de lngua Dio, os quais, segundo as fontes do
sculo XIX, outrora ocupavam uma rea muito mais extensa na costa. Os vai
deixariam assim de ser considerados como perfeitos estrangeiros56.



55    A. JONES, 1981.
56    A. JONES, 1981, p. 162. Jones observa igualmente que jamais se explicou de modo satisfatrio as razes
      pelas quais as lnguas manden do Norte so to frequentemente usadas pelo comrcio, embora isso
      possa estar ligado  sua simplicidade gramatical. Porm, o que convm enfatizar  que o vai foi adotado
      como lngua do comrcio e que isso tem importantes repercusses no plano histrico. Jones observa
      que a adoo do vai como lngua comercial aparenta implicar a existncia de um mercado para os bens
      propostos pelos grupos falantes desta lngua.  possvel que os no-vai tenham estado dispostos a aceitar
      o vai como lngua franca, porque ele representava para eles uma civilizao "superior". Talvez o vai no
      sugerisse to fortes conotaes tnicas quanto as outras lnguas.  inclusive plausvel que a difuso do vai
      tenha sido favorecida pela difuso das doenas trazidas pelos grupos falantes desta lngua, hiptese que
      seria proposta no caso da expanso banto. Entretanto, at o momento, no h dado algum que permita
      verificar essa hiptese.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)            649



    As tradies que falam de migraes, de conquista e expanso territorial
se esclarecem caso ns as traduzamos em termos de vias comerciais (talvez
eventualmente abertas e defendidas por aes militares). Alm de uma pequena
concentrao de vai no litoral, provavelmente encontrava-se um grande nmero
de falantes de vai, ou de uma lngua aparentada, que percorriam os corredores
interligando o pas manden  costa. Talvez existissem alguns assentamentos
formando "ndulos" ao longo desses corredores; mas,  pouco provvel que eles
se tenham estabelecido em amplos territrios.
    No tocante aos campos de pesquisa a fornecer novos indcios sobre as origens
dos vai, Jones observa, a justo ttulo, que caso novas fontes escritas dos sculos
XVI e XVII forem descobertas,  pouco provvel que elas nos tragam muitos
elementos novos sobre o tema. Ele acredita que as tradies orais poderiam ser
teis, por exemplo, aquelas do leste de Serra Leoa e do nordeste da Libria. Ele
coloca  parte o fator kamara, como merecedor de pesquisas mais aprofunda-
das; e, no mbito mais geral, ele salienta, a justo ttulo, que seria til saber em
quais medidas a utilizao de nomes manden por grupos no-manden ter-se-ia
difundido em algumas zonas. A isso est associada a necessidade de trabalhos
socioantropolgicos que poderiam indicar em quais medidas os vai conservaram
as caractersticas do manden nas esferas social e cultural.
    At o presente, no houve nenhuma pesquisa arqueolgica na zona vai. Caso
os dados fornecidos por Hill, acerca da contribuio de uma cermica original
e de um novo modo de implantao dos vilarejos, ao norte da zona vai, forem
confirmados57, essa descoberta pode ter repercusses nas teorias referentes 
origem dos vai, embora seja arriscado traar fronteiras baseando-se em um sim-
ples estilo de potes cermicos. Os stios de alguns assentamentos costeiros esto
indicados nos mapas do incio do sculo XVII e uma investigao mereceria ser
efetuada, ao menos para determinar aproximadamente a sua extenso. Muito
mais trabalho deve ser realizado no que tange aos nomoli, alm de ser essencial
recolher dados acerca das primeiras utilizaes do ferro na regio.
    Entretanto, uma das principais contribuies deveria proceder dos linguistas.
No curso dos ltimos 15 anos, numerosos progressos foram feitos na classificao
das lnguas dessa regio, em "grupos" ou "ramos". Deve-se esperar que os pesqui-
sadores agora se dediquem a cobrir as lacunas entre esses grupos e a descobrir os
pontos comuns entre certas lnguas pertencentes a diferentes grupos. Enquanto
esse trabalho no estiver terminado, seria impossvel definir exatamente a "dife-


57   M. H. HILL, 1972, p. 1-2.
650                                                          frica do sculo VII ao XI



rena" entre o manden, por exemplo, e o vai ou o krim. As palavras empresta-
das apresentam um campo particularmente promissor para futuras pesquisas. A
comparao dos dialetos que compem o manden, o vai, o krim e o gola seria
igualmente reveladora. Finalmente, seria talvez igualmente possvel propor uma
explicao lingustica para a aparente discordncia entre a atual repartio dos
grupos de lngua mel e nomes de cursos d'gua comeados por Ma.
    Aparentemente, portanto, houve contatos muito antigos entre os povos da
floresta do Sudo e da Guin, o que provocou uma migrao de povos sudane-
ses, tais como os soninqus e os manden, rumo ao Seul e ao leste, alm da sua
penetrao em algumas partes das baixas plancies florestais. Entretanto, no 
certo que eles se tenham deslocado em nmero suficiente a ponto de suplantar as
populaes indgenas. Na realidade, muito amide, os indgenas no eram sim-
ples pescadores ou caadores-coletores kwa, como frequentemente se imaginou.
Tampouco  verdade que os indgenas e os imigrantes tenham habitualmente
permanecido em estado de estagnao cultural ou mesmo de decadncia, em
razo do isolamento e das condies ecolgicas desfavorveis, como autoriza
supor Murdock58. A anlise histrica revela, preferencialmente, uma interao
dinmica permanente entre os grupos habitantes da regio, desdobrada em uma
evoluo regional original.
    Existia uma certa relao entre a linhagem tnica, a filiao lingustica e o
tipo cultural, porm, ela no era necessariamente to estreita e tampouco to
regular quanto defendem certos autores. Povos litorneos divididos em uma
rea geogrfica muito extensa, tais como os wolof, os serer, os dioula, os nalu,
os tmne, os kisi e os gola, falantes de lngua pertencentes ao subgrupo oeste-
-atlntico, poderiam ser os ltimos representantes dos antigos habitantes da
regio, porm, eles no constituem uma cultura florestal "antiga e primitiva" de
uma linha linhagem negra original, a qual teria ocupado toda a frica Ociden-
tal nos tempos pr-histricos. Os povos de lngua kwa, do leste da Libria e
do oeste da Costa do Marfim, tampouco eram os mais primitivos dentre esses
grupos. Com efeito, o conjunto de dados arqueolgicos e outros dos quais dis-
pomos atualmente mostra, de modo conclusivo, que esses povos conheciam uma
agricultura intensiva, grandes monarquias centralizadas, corporaes de artesos
e das classes hereditrias, organizaes militares, redes comerciais e mercados,
muito antes das primeiras intruses e influncias sudanesas e, certamente, entre
o sculo VII e o sculo XI.


58    G. P. MURDOCK, 1959, p. 70-71; p. 259-260.
Os povos da Guin superior (entre a Costa do Marfim e a Casamncia)             651



    Os dados arqueolgicos e etnolgicos aparentam igualmente confirmar a
hiptese de uma interao dinmica entre diversos grupos que entraram em
contato em diversos momentos, em absoluto aquela outra que transforma o
surgimento de caractersticas importantes, como o trabalho do ferro e a organi-
zao estatal, em resultado do domnio cultural do Sudo. Esses dados indicam
que, na costa do Atlntico oeste, o arroz era uma planta muito mais importante
e intensamente cultivada que o algodo, o milheto ou o sorgo, aos quais os
partidrios da preponderncia do Sudo aparentam atribuir uma injustificada
importncia, alm de ser possvel que esses cultivos tenham provindo do Norte
ou sido assimilados durante os contatos com o Norte.
    O sul da Libria e o oeste da Costa do Marfim aparentam estar marcados
por uma ntida diviso entre essas tradies agrcolas. O rio Bandama, separando
os povos baule e kru, igualmente equivale ao limite mais setentrional da cultura
intensiva do inhame. Quando o inhame aparece entre as plantas cultivadas ao
norte dessa fronteira, assinala-se que a sua colheita  feita sem o ritual elaborado
que a acompanha junto aos agni e aos outros povos de lngua kwa implantados
mais ao sul.
    Se ao norte do rio Saint-Paul e a leste, ao longo das extremidades da zona
florestal, o arroz permanece um cultivo de base, se lhe atribuindo um cultivo
intensivo por todos os povos da regio oeste-atlntica central, importantes plan-
tas autoctones do Sudo, tais como o milheto, o algodo e o sorgo, por sua vez,
somente ultrapassaram a fronteira entre a Guin e a Libria, no oeste, ou o
pas temne, manden, koranko e kono, em Serra Leoa. Na provncia noroeste
da Libria, esses cultivos no so praticados pelos de, pelos gola e tampouco
pelos kpelle do oeste, salvo onde grupos manden estabeleceram-se em data
relativamente recente, ou onde se sabe que a sua influncia foi exercida durante
longos perodos. Essas condies existem em um estreito corredor ao longo do
rio Saint-Paul, at a atual cidade de Boporo, no oeste, assim como junto aos
grupos de kisi, loma e gio, cujos territrios estendem-se ao longe, no interior
das altas plancies da Guin.


    Concluso
   O atual estdio de conhecimentos acerca da histria da regio da Guin
superior, no decorrer do perodo do qual trata o presente volume, pode ser
considerado insuficiente. O que acabamos de apresentar acima no equivale
seno a uma tentativa provisria de reunir e analisar os dados oferecidos pelos
652                                                          frica do sculo VII ao XI



trabalhos de pesquisa arqueolgica e lingustica, realizados at o presente nessa
regio. Contudo, os nossos conhecimentos ainda comportam mais lacunas que
elementos incontestveis e encontramo-nos, sobretudo, em presena de hipte-
ses merecedoras de uma investigao mais avanada. Essa situao requer uma
estratgia mais sistemtica em termos de pesquisa, fundada na colaborao de
especialistas de diversas reas. Convm igualmente adotar uma nova abordagem,
livre de preconceitos, permitindo-nos estudar a histria dos povos da Guin
superior sob uma perspectiva que no somente os apresente como objetos de
uma influncia externa, fosse ela do norte ou, posteriormente, do sul, mas igual-
mente como participantes ativos de um processo histrico.
O chifre da frica                                                   653



                                CAPTULO 19


                         O chifre da frica
                              TekleTsadik Mekouria




    Se quisermos desenhar um mapa da Etipia no sculo VII, seus contornos
no seriam definidos. Colocaramos os nomes das cidades e das regies, pouco
numerosas, mencionadas por Cosmas Indicopleustes em sua Topografia Crist,
composta aproximadamente na metade do sculo VI. Essa obra fornece infor-
maes de primeira mo sobre regies vizinhas do Nilo, do Mar Vermelho e
do Oceano ndico. Nela, encontra-se indicado, por exemplo, que "de Axum (...)
at o pas dos incensos, denominado Berbria e que, ao longo do oceano, no
se encontra prximo, mas longe de Sasu, ltima regio dos etopes, h mais ou
menos quarenta dias"1.
    Cosmas fala tambm de mercadores, centenas deles, que sulcavam esse pas,
negociando o gado, o sal e o ferro, sem dvida tambm, produtos do artesanato
bizantino por "pepitas de ouro". Tambm havia comrcio de especiarias, de
incenso e de canela. O rei dos axumitas exerceu seu controle sobre uma grande
parte desse comrcio "por intermdio do governador de Agaw", precisa o autor
alexandrino, ele mesmo, mercador de profisso. As duas grandes cidades eram,
ento, Axum e o seu porto Adulis. No h porque considerar que a situao
geral fosse fundamentalmente diferente no sculo VII. Tendo atingido o seu
apogeu no sculo precedente, o reino de Axum, sem dvida, nada perdeu de sua


1    Cosmas INDICOPLEUSTES, 1968, p. 361-362.
654                                                                          frica do sculo VII ao XI



potncia, mesmo que faltem informaes diretas sobre essa poca. Certamente,
as ameaas se acumulariam e, rapidamente, o declnio seria encetado. Entretanto,
no princpio do sculo VIII, um califa da dinastia Umayyade representou os
quatro reis do mundo nos muros de seu palcio, em Kusayr `Amra, na Jordnia.
Foram os soberanos da Espanha visigtica, de Bizncio, da Prsia e de Axum,
tal como o destaca esse testemunho.  verdade que ele pretendia t-los vencido2.


      O declnio do reino de Axum
    Surgido na luz da histria desde o incio do sculo II da Era Crist, seno no
final do sculo I, segundo uma indicao do Priplo do Mar Eritreu, o reino de
Axum conheceu um perodo particularmente prestigioso sob o reinado de Ezana
no sculo IV. Sua fortuna devia-se  criao de animais domsticos e  agricul-
tura, mas o comrcio, do qual o marfim era um artigo em destaque, ocupava o
primeiro plano. Por seu porto de Adulis e pelo Mar Vermelho, o reino mantinha
trocas comerciais com o mundo mediterrneo e com vrias regies do Oceano
ndico. Tais trocas contriburam fortemente para o desenvolvimento econ-
mico do pas e provocaram, pelas atividades diversas desenvolvidas, a criao de
cidades. Tal como observa F. Anfray, elas eram basicamente cidades-mercados3.
Segundo ele,  assim que devemos considerar vrios stios antigos, cujos vest-
gios, enterrados no solo, semeiam o alto planalto do Tigre e da Eritreia: Axum,
Henzat, Haghero-Deragoueh, Degoum, Etch-Mare, Tokonda, Aratou e outros
ainda. Essas cidades, pouco a pouco descobertas pela arqueologia, eram aglo-
meraes extensas e densas de habitaes justapostas.
    Desde o sculo III, as necessidades do comrcio favoreceram a criao de uma
cunhagem que revelou os nomes de aproximadamente 20 reis de todo o perodo
axumita, de Endybis a Hataza, cuja maioria, do contrrio, seria desconhecida.
    As inscries do a conhecer eventos de consequncia histrica, como a des-
truio de Mero, e intervenes guerreiras na Arbia do Sul, no tempo do rei
Ezana (chamado no texto tradicional Abraha, que significa "iluminado"), cuja
titulao gravada nos monumentos indica que ele  o "rei de Axum, de Himyar,
de Kasou, de Saba, de Habasha, de Raydan e Salhin, dos tsiamo e dos bdja" 4.



2     U. MONNERET DE VILLARD, 1948, p. 175-180; P. K. HITTI, 1956, p. 272.
3     Ver UNESCO, Histoire gnral de l'Afrique, vol. II, cap. 14, p. 394.
4     E. LITTMAN, 1913, p. 4-35.
O chifre da frica                                                        655




figura 19.1    O chifre da frica (Fonte: I. Hrbek).



   Desde essa poca o cristianismo tornou-se a religio preponderante. O tra-
balho de evangelizao, empreendido pelo bispo Frumentius  Abba Salama,
Kessate Berhan da tradio etope , teve continuidade no sculo V com os
monges vindos do Imprio Bizantino.
   No sculo VI, as trocas comerciais no sofreram uma queda, pelo contrrio.
Os stios dessa poca so numerosos, notadamente nas bordas do planalto eri-
656                                                                       frica do sculo VII ao XI




figura 19.2 Interior da igreja de Tcherqos (Saint Cyriacus), em Agowo, sculos IX-X da Era Crist
(Fonte: Ministrio da Cultura da Etipia).



treu. A cermica, descoberta em Matara,  abundante, contando amplamente
com as nforas de importao mediterrnea. Alis, o fato  atestado por Cos-
mas Indicopleustes que descreveu as atividades do porto de Adulis, "a cidade
dos etopes (...) onde fazemos comrcio, ns outros, mercadores de Alexandria
e Ela". Ele assinala a presena de inmeros elefantes na Etipia: "Trata-se de
elefantes com grandes presas; da Etipia expedimos essas presas por barcos
O chifre da frica                                                          657



a ndia,  Prsia, ao pas dos himyaritas e  Romnia", que significa Imprio
Romano (Bizncio).
     Durante sua estadia em Adulis, Cosmas constatou os preparativos da expe-
dio que Kaleb empreendeu na Arbia do Sul, que continuaria sob domnio
etope por inmeros anos5. O fim do sculo assistiu  derrocada da cultura
himiarita. Os sassnidas da Prsia tomaram o controle da Pennsula Arbica
e se lanaram na luta contra os bizantinos pelo domnio do comrcio no Mar
Vermelho6. Esse acontecimento privou Axum de alguns de seus escoadouros de
mercadoria.
     A situao tambm se modificou no noroeste do reino chamado pelo texto
local de "Soba-Noba". Os alodia, os makuria e os nobadia formaram Estados
cristianizados, com os quais, entretanto, pode-se pensar que Axum mantinha
relaes.
     Pode-se considerar que com o incio do sculo VII houve uma reviravolta no
reino de Axum. Uma pgina da histria da potncia axumita foi virada. Outra
era seria inaugurada, qual seja, a da decadncia. Sobre essa, a documentao se
torna rarefeita, para no dizer totalmente escassa. As cidades axumitas ainda
continuaram a existir por um perodo indeterminado. A arqueologia permite
essa considerao. As moedas encontradas nos stios, em Axum, Matara e Adu-
lis, revelaram os nomes dos reis que vo exercer o poder durante o sculo VII
e, sem dvida, uma parte do VIII; Ella-Gabaz, Anaeb, Armah, Yathlia, Za
Ya-Abiyo, La Madhen, Wazena, Ghersem e Hataza. Em suas moedas, seus
bustos so cercados de legendas em gueze (lngua litrgica at hoje). A cruz
crist cunhava o reverso das moedas (ver figura 19.4).
     Ella-Gabaz e Armah so mencionados nas crnicas bizantinas e rabes.
Segundo Al-Tabar, Ella-Gabaz  o av de Armah. As moedas desse ltimo
so numerosas nos stios arqueolgicos. Nelas, ele est representado sentado
em um trono7.
     Sob o reinado do rei Armah (ou mais provavelmente, sob aquele de seu pai,
Ella-Tsaham), em torno de 615, produziu-se um fato significativo: tendo suas
vidas ameaadas, companheiros de Maom buscaram refgio na corte de Axum,
onde receberam uma acolhida favorvel. "Se fordes  Abissnia, encontrareis um
rei sob o qual ningum  perseguido.  um pas de justia onde Deus vos dar
o alvio de vossas misrias", dissera-lhes o Profeta. Quando os chefes de Meca,

5    Cosmas INDICOPLEUSTES, 1968, p. 368-370.
6    Ver N. V. PIGULEVSKAYA, 1969.
7    C. CONTI ROSSINI, 1928, vol. I, p. 205-210.
658                                                                            frica do sculo VII ao XI



inimigos do Profeta, solicitaram que os fugitivos lhes fossem entregues, o rei
recuso-se a satisfazer tal exigncia, considerando que a religio de seus hspe-
des possua algumas semelhanas com a f crist por ele observada. Por isso se
impunha a lei da hospitalidade8.
    O sculo VII marcou o nascimento e o desenvolvimento do Isl. A unidade
rabe seria forjada em torno de Maom. Progressivamente, o Isl desenvolveu
suas conquistas nas bordas do Mar Vermelho. As boas disposies dos primei-
ros muulmanos com respeito ao reino axumita mantiveram-se apenas por um
tempo bastante curto. Os incidentes se multiplicaram no mar. A costa rabe foi
alvo de incurses axumitas que provocaram a rplica dos muulmanos. No sculo
VIII, eles ocuparam as ilhas Dahlak, que faziam parte do imprio de Axum. Ali
foram descobertos tmulos com inscries de epitfios gravadas na escrita kufic.
Uma dessas inscries  a de Mubrak, o fundador da dinastia, que estabeleceu
seu domnio sobre o arquiplago no sculo XI9.
    De acordo com as evidncias arqueolgicas, pode-se pensar que Adulis, o
porto axumita, foi destrudo por volta do sculo VIII, e que as atividades comer-
ciais controladas at ento pelo rei de Axum, foram aniquiladas. Porm, sobre
os fatos que se desenrolaram no interior do pas, a histria  muda, ou quase.
Ela apenas registra um enfraquecimento do poder real que, estranhamente,
reencontrou por algum tempo um reavivamento de sua fora, se considerarmos
as narrativas de dois historiadores rabes.
    Al-Ya`kb, no sculo III/IX, fala de um soberano cristo que governa um
vasto pas cuja capital  Ka`bar (ou Ku`bar)10. No sculo IV/X, al-Mas`d vai
alm da descrio de seu predecessor: "A capital da Abissnia  nomeada Ku`bar.
 uma cidade considervel e a sede do reino do Nadjsh. O pas possui muitas
cidades e territrios extensos indo at o mar da Abissnia. Pertence-lhe a plancie
costeira, diante do Imem, onde se encontram muitas cidades tais como Zayl,
Dahlak e Nsi`, nas quais vivem muulmanos submissos dos abissnios"11. A
localizao de Ku`bar, a capital real, permanece enigmtica12.




8     Ibidem, p. 262; ver tambm o captulo 26 abaixo.
9     A inscrio indica que ele morreu aos II Dhu l-hidjdja 486/3 de dezembro de 1.093. Ver B. MALMUSI,
      1985; G. OMAN, 1974a e b; S. TEDESCHI, 1969.
10    AL-YA`KB, 1883, p. 219.
11    AL-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 34.
12    C. CONTI ROSSINI (1928, vol. I, p. 51) identificou Ku`bar com Axum, vendo uma corrupo no nome
      rabe. Mas,  provvel que, naquele tempo, Axum no mais existisse como capital.
O chifre da frica                                                            659



     Os bdja
    Um dos fatores que contriburam com a queda do reino de Axum a partir do
sculo VII e com o seu desaparecimento ao longo do sculo VIII foi certamente
a invaso das regies setentrionais da Etipia pelos bdja, cuja "fora de expan-
so", segundo a expresso do historiador Conti Rossini, foi considervel, nessa
poca. Um dos mais potentes dos grupos bdja, os zanfidj, invadiu o planalto
eritreu pelo vale do Barka.
    Ao longo dos perodos precedentes, o povo dos bdja encontrava-se organi-
zado em vrios "reinos", ocupando ento uma vasta regio de Axum, at o alto
Egito. Com os blemmyes dos autores latinos, esses bdja formavam um mesmo
conjunto tnico. Se os blemmyes foram bem conhecidos a partir do sculo III, a
primeira meno dos bdja (ou Bega) aparece tambm em uma inscrio desse
mesmo sculo realizada por um rei de Axum, copiada por Cosmas no sculo VI.
A combatividade deles se manifestou particularmente sob o reinado de Ezana,
no sculo IV, em que vrias inscries em gueze, sudarbica factcia e grego,
constituram boletins de campanha contra essas populaes turbulentas. Alis,
em sua titulao, o soberano axumita no se afirmou, entre outros, rei dos bdja?
    Essa ocupao do norte da Etipia pelos bdja (da o atual nome de Begue-
mder, terra de bdja)  certamente o reflexo de um certo enfraquecimento do
poder de Axum, mas a presso que os bdja exerceram desde ento acentuaria
o declnio da potncia axumita.
    Sobre o perodo do sculo III/IX ao V/XI, as nicas fontes concernentes
aos bdja so os autores rabes, em primeiro lugar, al-Ya`kb (falecido em
284/897), em segundo, Ibn Hawkal e al-Uswn. Tais autores trouxeram mui-
tas informaes sobre a situao tnica no norte da Etipia e entre o Nilo e o
Mar Vermelho. Em razo da dificuldade da grafia rabe que permite leituras
variadas, a maior parte dos etnnimos e topnimos permanecem enigmticos,
no obstante os esforos de vrios doutos que apenas puderam identificar um
nmero restrito desses nomes13.
    A partir da regio prxima ao Nilo, al-Ya`kb enumerou e indicou a localiza-
o de cinco "reinos" bdja, indo do Nilo ao mar e, em seguida, ao sul. O primeiro
reino mais prximo do pas muulmano de Assu era Naks, que foi habitado
por vrios povos, cujos nomes citados no foram ainda decifrados. Tais povos
eram vizinhos do segundo reino, Bakln (ou Tafln), no Sahel eritreu, no pla-


13   Ver J. H. KRAMERS, 1954; A. ZABORSKI, 1965, 1970, 1971.
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nalto de Rora e no mdio vale do rio Barakat. A leste dos bakln encontravam-
-se os bzn, cujos descendentes, nota-se, so hoje provavelmente os kunama,
chamados bazen por seus vizinhos. O reino dos djrn ia de Bd (Massawa)
at o territrio dos Baklin rumo ao Barakat. Um ltimo grupo era constitudo
pelos kata`a, indo de Bd a Faykn (ou Fankn). Esses kata`a eram cristos e se
encontravam sob o domnio do Nadjsh. Os mercadores rabes praticavam seu
negcio entre essas gentes e gradualmente favoreciam a converso deles ao Isl14.
     surpreendente no se encontrar nas narraes rabes nenhuma meno
aos tigrai, que tm habitado, nesse momento, a regio da Eritreia. Mas  bem
possvel que o povo nomeado al-Zanfidj, mencionado por al-Ya`kb e Ibn
Sulaym Al-Uswn entre os grupos bdja, seja na realidade os tigrai, como o foi
demonstrado por A. Zaborski15.
    Na Eritreia e no Tigre do Norte, tradies guardam ainda a lembrana des-
ses povos antigos sob a lendria denominao Rom e Balaw (por vezes, Belew
Kelew, principalmente no Chimezana). Nomes de lugares tambm lembram
a passagem deles. Notadamente a passagem dos belew que, h cinco ou seis
sculos, estendiam sua supremacia at a regio do litoral. Hoje, os beni`amer,
nmades que se deslocavam pelas regies do norte eritreu e do Sudo, so os
descendentes dos antigos bdja16.
    Pressionados por tais grupos bdja belicosos, os reis e os notveis axumitas
desertaram de Axum para regies meridionais, ao abrigo dos perigos causados
pelos invasores. Alm do mais, na antiga zona da potncia axumita, a vida se
tornava incerta.
    Como dissemos, no incio do sculo VII, a situao poltica na borda do Mar
Vermelho foi quase totalmente transformada. O prprio Imprio Bizantino,
ameaado pelas conquistas persas, registra uma retirada. Os persas se faziam
cada vez mais presentes e estabeleceram pontos de apoio na costa africana.
Ainda hoje, pouco estudados arqueologicamente, h stios que ocupam diversos
locais, nos quais est conservada a lembrana dos fur. A Etipia era a aliada de
Bizncio cuja potncia era atacada violenta e sistematicamente. Aos poucos, os
rabes iriam rechaar os bizantinos. No Egito, eles alcanam um total sucesso.
Na Etipia, os sucessores de Armah so relegados ao isolamento. Uma espcie
de obscuridade recobriu o pas, onde apenas penetraram fracas luzes histricas.


14    AL-YA`KB, 1883, p. 217-219.
15    A. ZABORSKI, 1971, p. 118 e seg. Os al-Zanfidj chamavam seu deus de Akzabhr, uma palavra
      semtica, ao passo que os bdja falavam uma lngua kushitica.
16    C. CONTI ROSSINI, 1928, cap. 12; E. CERULLI, 1971, p. 42-53.
O chifre da frica                                                                   661



No se conhece nenhuma inscrio referente a tal poca, dos sculos VII e VIII.
Apenas podemos mencionar uma nica inscrio gravada na base de um trono
em Axum, escrita em gueze e que parece tardia. Ela se refere a um certo Hadn
Dan'el (pretendente ao trono?) que se rebela contra seu o soberano; ele interdita
o acesso de sua cidade ao rei. Esse texto fornece poucas informaes sobre os
acontecimentos da poca, salvo a do notvel que se revolta, o que marca, talvez,
certo afrouxamento do poder tradicional17.


     No limiar do II milnio
    Na segunda metade do sculo X, um grave acontecimento afetou a vida
do pas. Ele  lembrado, simultaneamente, por duas fontes rabes, Histria dos
patriarcas de Alexandria, e a narrativa do conhecido gegrafo Ibn Hawkal.
    Na Histria dos patriarcas, fala-se de uma rainha dos ban al-Hamwiya, ori-
ginria do sul, que saqueou a regio axumita e destruiu as igrejas. Ela acossou
o rei que fez apelo ao patriarca copta, Cosmas, por intermdio do rei nbio,
Djirdjs ( Jorge), pedindo-lhe o envio de um metropolita18. Como se sabe, a sede
episcopal de Axum era ocupada desde o sculo IV por um dignitrio eclesis-
tico copta de Alexandria; no sculo V, a Etipia adotou a doutrina monofisita,
unindo-se  liturgia egpcia19.
    Na mesma poca, Ibn Hawkal escreveu sobre os acontecimentos na Etipia:
     "No que concerne ao pas dos abissnios, h inmeros anos ele  governado por uma
     mulher; ela matou o rei dos abissnios que era conhecido sob o ttulo de Hadn. At
     hoje ela domina com toda independncia seu prprio pas e os arredores do territrio
     do Hadn, no sul da Abissnia.  um vasto territrio, sem limites determinados,
     cujo acesso  difcil em razo dos desertos e isolamentos"20.
   Alhures, Ibn Hawkal, que escreveu sua obra por volta de 367/977, precisa
que essa rainha havia tomado o poder trinta anos antes.
   O rei desafortunado, expulso do poder e refugiado no Shoa, regio de difcil
acesso, atribuiu seu fracasso  clera divina provocada pelo desterro de um bispo,
como o mostra uma passagem da carta que ele endereou ao rei nbio Djirdjs


17   Ver Y. M. KOBISHCHANOV, 1962.
18   J. PERRUCHON, 1894, p. 78-93.
19   Ver UNESCO, Histria geral da frica vol. II, cap. 16.
20   IBN HAWKAL, 1964, vol. I, p. 56 e 16.
662                                                                             frica do sculo VII ao XI



II, no momento em que Abba Philotheos (Filatewos, 979-1003) era patriarca
de Alexandria. O rei escreveu entre outras coisas:
      "Ao despejar Abba Petros (Pedro) devidamente eleito, ao aceitar Minas, o usurpador,
      os reis que nos precederam violaram a lei (...). Por causa disso, Deus se enfureceu
      contra ns (...). Nossos inimigos se levantaram e levaram muitos de ns como cati-
      vos. Eles queimaram o pas e destruram nossas igrejas (...) nos tornamos errantes
      (...). O cu cessou as chuvas e a terra no mais nos d os seus frutos (...). Atualmente,
      somos como ovelhas abandonadas e sem um guardio" 21.
   Logo aps a provvel interveno do rei Djirdjs da Nbia, o patriarca
nomeou um certo Abba Daniel bispo de Axum. Mas, antes que esse ltimo
assumisse o seu posto, o rei que, por volta de 970-980, ainda lutava contra a
rainha implacvel, morreu22.
   A respeito dessa rainha, os textos so contraditrios: uns a reconhecem
como rainha dos falasha (judeus etopes), filha do chefe Gdon; outros afir-
mam que ela  uma neta do rei Wodem-Asfere, outros, por fim, sugerem
que ela seja a filha do ltimo rei axumita, Delnaad, conhecida pelo nome de
Mesobe-Work23.
   A igreja etope conserva a memria dessa rainha, por ela chamada Goudite
(a monstruosa) ou ainda Esato (a ardente), sem nos indicar, entretanto, o seu
prprio nome. Da mesma maneira, o nome do autor real da carta infelizmente
no  mencionado. Porm, poderia bem se tratar de Delnaad, o ltimo rei
axumita.
   Conti Rossini props a leitura da palavra alHamwiya, no ttulo da rainha,
como alDamta, o que poderia indicar a regio de Damot  a sul e a sudeste
do Nilo Azul  como o pas de sua origem24. Podemos interpretar esses aconte-
cimentos como uma reao dos povos do interior da Etipia contra a expanso
dos reis axumitas cristos no sul do pas.
   As tradies etopes concernentes a esse perodo obscuro possuem listas reais.
A Crnica do reinado do imperador Menelik, redigida no incio do sculo XX por
um dignitrio da Igreja, Neboure-Id Gubr Sellasi, resume o essencial:



21    Ver T. T. MEKOURIA, 1959, p. 334-336. Compndio para o festival do 12 hadar/20 de novembro.
22    Segundo o estudo de E. CERULLI (1971, p. 258-269), o envio da carta do rei etope ao rei Djirdjs da
      Nbia parece anterior a 978.
23    Mesobe-Work significa "cesto dourado", um cesto ricamente trabalhado e redondo com ps, feito em
      palha tranada, sobre o qual se deposita uma espcie de biscoito de po (ingera), prato nacional.
24    C. CONTI ROSSINI, 1928, vol. I, p. 286.
O chifre da frica                                                                       663



     "(...) Kaleb (...) foi um bom rei. Ele deu origem a Gabra Meskal, sob o reinado do
     qual Yared comps o Degoua25. Foi ele que fundou Debre-Damo, domnio de nosso
     pai Abuna Aregwai. Gabra Meskal deu origem a Kostentinos, que deu origem
     a Wesen-Segued, que deu origem a Fere-Senay, que deu origem a Aderaz, que
     deu origem a Akale-Wedem, que deu origem a Guerma-Asfere, que deu origem a
     Zergaz, que deu origem a Degna Mikael (...) que deu origem a Bahr-Ikla, que deu
     origem a Gum, que deu origem a Asguamgum, que deu origem a Letem, que deu
     origem a Telatem, que deu origem a Ode-Gosh, que deu origem a Aizour. Esse
     ltimo reinou apenas por meio dia e morreu. E se perguntarmos as circunstncias
     de sua morte, ei-las aqui. No dia em que comeou a reinar, ele disse: `No impeam
     a aproximao de minha gente. Que eles venham, que eles olhem minha face, que
     eles me sadem!'. Desse modo, ele foi assediado por tantas pessoas que, pisoteado,
     morreu (...). Aizour deu origem a Dedem, que deu origem a Wedem-Asfere, que
     reinou at a idade de 150 anos e deu origem a Armah, que deu origem a Denaguej,
     que deu origem a Delnaad"26.
    Tal quadro das sucesses reais a partir do sculo VI  evidentemente apcrifo.
Ele foi composto em uma data tardia. Entretanto, alguma realidade pode estar
escondida nele27.
    Outras tradies relatam que o ltimo rei, Delnaad, teria se refugiado em
um pas do sul. Por volta do sculo IX, ele teria estado na origem da fundao
do monastrio de Santo Estavo (Stifanos), no lago Hayq, alis, perto do qual
ele teria construdo sua residncia. Uma narrativa, sem dvida lendria, mas que
pode ser o reflexo de importantes acontecimentos, diz que a filha dele esposara
um prncipe de Bugena, regio prxima de Lasta, onde se formara, no sculo
XII, uma nova dinastia28.
    Esse povo de Lasta, que desempenharia um papel na histria da Etipia, per-
tencia  antiga populao dos agaw, que ocupava o sudoeste do pas h sculos.
Cosmas Indicopleustes, no seu Topografia Crist, menciona um governador dos
agaw no sculo VI29.
     possvel que a fuga do ltimo rei de Axum e a lenda de sua filha, Mesobe-
-Work, que esposou Mera Tekle Haymanot, primeiro rei da nova dinastia zague,
segundo as listas tradicionais, sejam a traduo metafrica de um episdio a

25   Antifonrio para todos os festivais do ano.
26   GUBR SELLASI, 1930, p. 16-20.
27   C. CONTI ROSSINI, 1909.
28   Segundo uma tradio, a instalao desta nova dinastia dataria do sculo X ou XI.
29   Cosmas INDICOPLEUSTES, 1968, p. 360-361.
664                                                          frica do sculo VII ao XI



emergir. Em todo caso, aps o glorioso tempo da poca axumita, essa nova
dinastia suplantou a antiga e legtima dinastia da famlia ezaniana e se estabe-
leceu no centro da Etipia.
    Aps tantas devastaes, a nova dinastia, instalando-se nas provncias
centrais, conservando inmeras tradies e culturas axumitas, forjaria um
quadro poltico prprio. O apogeu desse novo reinado se situou nos sculos
XII e XIII, ilustrado pelos grandes reis da dinastia zague, cujo mais clebre
foi Lalibela.


      Literatura
    A origem da literatura etope  bblica e crist. Desde o incio, os meios
eclesisticos lhe forneceram suas caractersticas bsicas. Aps o sculo IV, a
lngua gueze dominou tanto na corte, quanto na Igreja. Com ela, as tradues
ocuparam um grande lugar nessa literatura.
    As primeiras obras foram tradues da Bblia executadas nos monastrios
que foram criados a partir do final do sculo V da Era Crist. Elas foram exe-
cutadas ao longo dos sculos seguintes. Tais obras foram traduzidas principal-
mente do grego. O Novo Testamento foi traduzido, segundo o texto aprovado
pelo patriarca da Antioquia, por eclesisticos srios monofisitas, refugiados nos
sculos V e VI na Etipia, onde muito contriburam com a difuso do cristia-
nismo (figura 19.3).
    No que concerne ao Antigo Testamento, salvo os livros cannicos defini-
tivamente reconhecidos pelo Conclio de Trento, os etopes traduziram vrios
textos bblicos considerados apcrifos por outras Igrejas. Dentre eles,  preciso
mencionar o Livro de Henoc, o Livro dos Jubileus, a Ascenso de Isaas, o Pastor
Hermes e o Apocalipse de Esdras. Importa notar que foi somente na lngua gueze
que tais livros apcrifos foram conservados integralmente: em outras lnguas,
s possumos fragmentos. Foi, pois, no curso desses sculos obscuros que surgiu
uma das contribuies mais importantes da Etipia para a literatura crist.
    Da mesma forma, na lista das tradues encontram-se tratados teolgicos,
dentre os quais, Querillos, segundo uma compilao de So Cirilo de Alexan-
dria. Outra obra que muito contribuiu para a formao do esprito religioso do
clero etope foi a traduo das Regras de So Pacmio, fundador do cenobismo
oriental. Ao mesmo perodo pertence tambm a traduo, a partir do grego, do
Physiologos, uma coleo de notcias semilendrias sobre os animais, plantas e
minerais, acompanhadas de concluses morais.
O chifre da frica                                                                            665




figura 19.3 Evangelho de Abba Guerima, com a figura de So Marcos, sculo XI (Fonte: Ministrio da
Cultura da Etipia).



    O conjunto desses textos foi, ao que parece, traduzido antes do sculo VII,
mas permite-se pensar que suas verses foram copiadas durante o perodo que
nos ocupa, pois, durante esse tempo, do sculo VII ao XI, o cristianismo no
cessou de estender seu domnio, principalmente, seno exclusivamente, pelo vis
da vida monrquica, sendo esse, talvez, o mais importante fenmeno da histria
desses tempos obscuros30.
    O fato de obras originais desse perodo no terem chegado at ns no
significa que esses sculos foram totalmente desprovidos de atividade intelectual
original. Pelo contrrio, foi nesse perodo que os fundamentos do florescimento
literrio do sculo XIV teriam sido assentados. Ao falar desse florescimento,
E. Cerulli justamente destacou que: "A maturidade artstica desses escritos de
forma alguma representa uma literatura em seus primrdios; e a medida das
expresses pressupe uma disciplina que no se pode adquirir rapidamente sem
uma longa tradio"31.


30   I. GUIDI, 1932, p. 11-21.
31   E. CERULLI, 1956, p. 35.
666                                                           frica do sculo VII ao XI



      Arquitetura
    Vrias tradies datam o estabelecimento dos primeiros monastrios no
norte do pas dos sculos V e VI. Os violentos saques ocorridos nessa regio ao
longo dos sculos fizeram desaparecer a maioria dessas construes, entretanto,
restaram vestgios importantes em alguns lugares32.
    Nas origens da vida monstica propriamente dita esto os "nove santos"
(Teseatu Kidusan), cuja tradio indica que eles vieram do mundo bizantino.
Eles se estabeleceram em lugares pouco acessveis da regio de Axum. Uma de
suas mais antigas fundaes se situa a leste de Adowa, em uma alta plataforma
rochosa das montanhas do Tigre. Ela  chamada de Debre-Damo.
    L, uma igreja, recentemente restaurada, foi estabelecida em tempos lon-
gnquos. Ela pertencia ao grupo muito pouco numeroso daquelas que foram
preservadas das destruies. Os especialistas datam-na do sculo X, aproxima-
damente, mas, segundo a tradio, a primeira igreja teria sido construda em
Debre-Damo, por iniciativa do rei Gebra-Masqal, filho de Kaleb, no sculo VI,
no lugar escolhido por Abba Za-Mikael Aragawi, um dos nove santos.
    A igreja que vemos hoje  um monumento retangular de 20 m de compri-
mento e de 9,70 m de largura. A tcnica de construo permanece fiel  tradio
axumita da arquitetura  qual a pedra e a madeira esto associadas. As portas e as
janelas mostram os enquadramentos que vemos, por exemplo, nas estelas gigan-
tes de Axum com pontas de vigas aparentes, bem como essas alternncias de
partes salientes e cncavas, que constituem uma das caractersticas da arquitetura
axumita. Ela possui um pavimento e galerias em cima das naves laterais, bem
como essa particularidade decorativa de primeiro plano: um teto de madeira com
caixes ornados de motivos variados, representando animais e desenhos geo-
mtricos de inspirao oriental, datando do fim do I milnio. Diversos objetos
foram descobertos em Debre-Damo. Eles atestam a antiguidade desse edifcio33.
    Se essa igreja foi o primeiro monumento a revelar um aspecto dos edifcios
construdos por volta do sculo X, no presente, ela no  a nica que testemunha
a arte arquitetnica dessa poca. Pesquisas empreendidas ao longo dos anos 70
deram a conhecer outras igrejas no norte da Etipia. Assim, indicaes variadas
de ordem arqueolgica permitem ligar  idade antiga o desenvolvimento da
vida monstica e a formao de uma nova cultura, relacionado com o declnio
axumita e  apario concomitante de um novo perodo que viu o deslocamento

32    C. CONTI ROSSINI, 1928, p. 219-225.
33    D. MATTHEWS e A. MORDINI, 1959.
O chifre da frica                                                                                         667



para o sul do centro poltico. Essas igrejas, s quais aqui nos referimos como
testemunhas desse aspecto particular das coisas, so as de Zarema, de Agowo
e de Berakit34.
    A igreja de Zarema  uma igreja de plano cruciforme, que se encontra na
aldeia de Zarema, a leste de Atsbi, no planalto oriental do Tigre.
    Essa igreja, dedicada a So Jorge (Kedus Ghiorgis), representa provavelmente
a sobrevivncia dos edifcios de plano quadrado e de colunatas da poca axumita.
A decorao esculpida nos tetos de madeira, em cima das naves laterais,  excep-
cionalmente interessante, tanto pela composio quanto pela tcnica. Convm
destacar tambm, pois o fato  raro, a preservao nessa igreja de belos capitis
de madeira, delicadamente esculpidos, ornamentados de cruzes e adornos em
forma de palma. Segundo C. Lepage, "essa ornamentao esculpida deriva dire-
tamente da arte decorativa mediterrnea dos sculos VII e VIII, notadamente
a do Egito copta. Nela, nenhum trao da arte decorativa islmica  detectado".
Embora problemtica, a data da igreja de Zarema-Ghiorghis parece "muito alta"
para o autor do estudo ao qual nos referimos aqui, "os sculos IX ou X seriam,
de toda forma, possveis"35.
    A igreja de Agowo  uma pequena baslica de pedra e de madeira construda
contra uma falsia, sob um anteparo de rocha, na regio de Atsbi, como aquela
de Zarema. Os muros, segundo o modelo da alvenaria axumita, comportam
extremidades de toras, e o teto da nave central, caixes de madeira que, todavia,
no eram ornamentados como em Debre-Damo. As salas do lado oriental tam-
bm so cobertas de tetos com vigas oblquas e com pequenos caixes, de uma
marcenaria original. As aberturas nas paredes apresentam os enquadramentos
tpicos da arquitetura axumita. Essa igreja leva o nome de Tcherqos (Cyriaque).
A data provvel de suas partes mais antigas  o sculo XI, pois ela foi restaurada
posteriormente.

     Igrejas rupestres
   As igrejas de Debre-Damo, de Zarema-Ghiorghis e de Agowo-Tcherqos, aqui
em questo, so monumentos construdos. O norte da Etipia, onde o cristia-
nismo encontra-se enraizado profundamente, possui um grande nmero de igrejas
rupestres. Elas despertam um considervel interesse por mais de uma razo: sua


34   Para a redao destes pargrafos consagrados s antiguidades arquiteturais, utilizei largamente os estudos
     de C. LEPAGE.
35   C. LEPAGE, 1973.
668                                                                            frica do sculo VII ao XI




figura 19.4   Moeda do rei Armah, sculo VII da Era Crist (Fonte: Ministrio da Cultura da Etipia).



origem se situa no perodo aqui considerado; elas possuem estreitas ligaes com
a arquitetura axumita, e algumas delas mostram uma notvel elaborao36.
    Um importante grupo de monumentos encontra-se na regio de Guerealta, no
norte de Makale. Outras igrejas esto disseminadas nos distritos vizinhos de Tem-
bien, Amba Senayt e Atsbi. Tais igrejas reproduzem na rocha a parte interior das


36    Ver G. GERSTER, 1968, 1970, 1974.
O chifre da frica                                                               669



igrejas construdas: pilares, capitis, bem como os elementos do madeiramento. O
nmero das igrejas rupestres repertoriadas nessas regies se situa em torno de 120.
Dentre os mais antigos desses monumentos rupestres encontram-se os hipogeus
dos Degum-Sellassi, em Guerealta. O sculo X  a data mais antiga que lhes tem
sido atribuda, porm, certas consideraes de ordem arqueolgica poderiam lhes
atribuir uma data ainda mais antiga  em torno de dois sculos. Esses trs hipogeus
so talhados com grande cuidado na rocha. Eles so paralelos. Uma cripta, cavada
profundamente,  acessada por uma escada, como nas grandes tumbas axumitas,
observadas em Axum e em Matara notadamente. Nas proximidades, cavada igual-
mente na rocha, encontra-se uma pia batismal de uma analogia flagrante com aquela
que foi descoberta por F. Anfray, no stio de Matara, e datada do sculo VI ou VII37.
Uma funo funerria foi reconhecida nesses hipogeus rupestres. Importa destacar
que as runas de um assentamento de poca axumita jazem nas proximidades.
    A uma vintena de quilmetros do stio do Degum-Sellasi, encontra-se a igreja
Maruam de Berakit, que est situada a cerca de 100 km a sudeste de Axum e a
noroeste de Guerealta. Trata-se aqui de um exemplo notvel da arte rupestre etope.
Ela  cavada em uma salincia rochosa, no meio de um vale. Segundo C. Lepage,
que lhe consagrou um estudo muito detalhado, ela  a "verso rupestre de um tipo
de pequena baslica de carter axumita muito marcado", que nota tambm a possi-
bilidade de compar-la, em sua forma, com a igreja construda de Debre-Damo38.
     certo que o parentesco axumita  o que,  primeira vista, chama a aten-
o na presena de um monumento desse tipo. Em primeiro, h a vizinhana
geogrfica e at mesmo a existncia de vestgios axumitas, depois, na ordem
arquitetural, vrios traos incitam a reconhecer pontos comuns com a tradio
axumita: a exiguidade das propores, o plano basilical caracterstico das peque-
nas igrejas dos sculos VI e VII, observadas em Enda-Tcherqos perto de Axum,
em Matara, Tokonda e em Kohayto, bem como os tetos horizontais, os pilares e
os capitis. Essas particularidades levam a atribuir uma data prxima do perodo
axumita a um monumento, tal como aquele de Berakit.

     A arte ornamental
   Em vrios edifcios antigos e, notadamente, naqueles tratados neste captulo,
uma ornamentao esculpida foi aplicada principalmente no teto, nos capitis
e nos arcos.


37   F. ANFRAY, 1974.
38   C. LEPAGE, 1972.
670                                                               frica do sculo VII ao XI



    Na igreja de Debre-Damo, painis esculpidos ornam ainda hoje os caixes
de madeira, no teto do vestbulo. Eles representam, sobretudo, animais: lees,
antlopes, zebus, serpentes, camelos, elefantes, bfalos, cabras, asnos, girafas e
leopardos, bem como animais fantsticos, motivos vegetais e geomtricos. O
gosto decorativo se manifesta tambm nos capitis. A cruz  frequentemente o
motivo central, cercada de volutas e de adornos em forma de palma. Os artis-
tas da alta poca conheciam o repertrio da ornamentao em uso nos pases
mediterrneos, notadamente no Egito copta. Nas igrejas de Zarema, de Debre-
-Damo e de Agowo, frisos de enquadramento quadrado, idnticos queles das
janelas, constituem uma decorao arquitetnica, esculpida na pedra. A igreja
de Zarema-Ghiorghis encontra-se entre as mais ornamentadas dos antigos
monumentos do norte da Etipia.
    Essas igrejas, em seu estado atual, no conservam pinturas murais. A questo
que se coloca  saber se, na Antiguidade, pinturas ornavam as paredes, como
seria o caso dos monumentos da poca posterior  Beta-Maryam em Lalibela,
por exemplo. No se v traos de pintura nas paredes das igrejas mais antigas
que hoje so conhecidas. Parece que a exiguidade das paredes deixa pouco espao
para uma decorao pintada. Entretanto, no  impossvel que ela tenha exis-
tido. Possumos o testemunho, narrado por al-Tabar, de uma mulher prxima
de Maom, em Axum, no sculo VII, que, de volta a Medina, lembrava com
admirao das "maravilhas pintadas nas paredes", da catedral. Mas nenhum
documento, nem mesmo nenhum vestgio subsiste da alta poca.
    No que concerne aos manuscritos, sabe-se que vrios livros antigos foram
traduzidos do grego e do siraco a partir do sculo V ou VI. Estariam tais manus-
critos ornados de pinturas?  difcil responder a essa questo, pois nenhuma
obra, provavelmente, resistiu  ao destrutiva do tempo e, naquela ocasio, dos
homens; entretanto, exceto dois belos evangelhos conservados no velho monas-
trio de Abba-Garima, perto de Adowa, no Tigre. As pinturas que ornam algu-
mas pginas dessas obras mostram um certo parentesco com a arte bizantina da
Sria. Um estudo lhes foi consagrado por J. Leroy, que lhes atribuiu ao sculo XI.
    Sem dvida, esses antigos manuscritos continuavam uma tradio, da qual
talvez um dia, encontraremos o testemunho concreto em uma igreja perdida das
montanhas do norte da Etipia39.




39    J. LEROY, 1968; D. MATTHEWS e A. MORDINI, 1959; D. R. BUXTON, 1971.
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                              671



                                    CAPTULO 20


        As relaes da Etipia com o mundo
                     muulmano
                                         Enrico Cerulli




    As relaes que sempre existiram entre os povos das duas margens do Mar
Vermelho, isto , os rabes e os etopes, modificaram-se com o avano do Isl,
j que, desde ento, tratar-se-ia de relaes entre cristos e muulmanos.
    As tradies resgatadas nas biografias do profeta Maom mencionam diver-
sos episdios relativos a esses primeiros contatos entre o Isl recm surgido e
a Etipia:
        A carta enviada por Maom ao negus (em rabe nadjsh) para exort-
         -lo a se converter  nova religio, baseando-se no trecho do Alcoro (IV,
         169) que convida "o povo do livro" (ahl alKitb) a reconsiderar a figura
         do Cristo  luz dos ensinamentos do Isl1.
        A misso na Etipia de `Amr ibn al-`As, que logo se tornaria muulmano
         e conquistaria o Egito. Enquanto ainda era "pago", ele foi enviado pela
         oligarquia de Meca ao lado do negus para se opor  progresso do Isl,
         porm, ele mesmo acabou se convertendo a religio muulmana.
        A emigrao na Etipia de Dja`far ibn Ab Tlib, primo de Maom e
         irmo do futuro califa `Al ibn Tlib, que se deslocou para a corte do
         negus com outros muulmanos para escapar da hostilidade dos curaishi-
         tas. De acordo com algumas tradies, ele teria conseguido converter o


1   V. VACCA, 1923-1925
672                                                            frica do sculo VII ao XI



          negus. Esse ltimo, para evitar malquistar-se com seus sditos cristos,
          recorreu a um estratagema: ele escondeu em seu peito o trecho do alcoro
          citado acima e fingiu assim prestar juramento segundo a f crist.
         Esse ato de Dja`far talvez tenha inspirado diversos prncipes e chefes da
          Etipia e da Somlia, quando alegaram ser os descendentes de membros
          da famlia de Ab Tlib, como veremos mais adiante.
         Outro conjunto de tradies dos princpios do Isl remete a Bill, o
          escravo crente de origem etope. Bill foi alforriado por Ab Bakr (futuro
          primeiro califa) e, de acordo com a tradio, foi o segundo indivduo de
          sexo masculino convertido ao Isl. Com efeito, a primeira pessoa con-
          vertida ao Isl foi uma mulher, Khaddja, esposa do profeta Maom, o
          primeiro homem sendo justamente Ab Bakr. Fiel discpulo do Profeta,
          Bill foi por ele nomeado mu`adhdhin e encarregado do chamado dos fiis
           mesquita para as preces. Ele conservou essas funes at o califado de
          `Umar, poca em que ele se dirigiu, com as tropas muulmanas,  Sria,
          onde morreu e foi enterrado.
    Numerosas outras tradies mencionam geralmente Bill o etope e a prefe-
rncia que lhe demonstrava o Profeta, assim como a todos aqueles de sua raa.
Assim podemos ler: "Aquele que introduz em sua casa um homem ou uma
mulher da Etipia, introduz tambm a beno de Deus".
    Essa afeio aos etopes inspirou igualmente vrias pequenas obras da lite-
ratura rabe2. Houve a princpio a de Ibn al-Djawz (falecido em 596/1200),
pomposamente intitulado Iluminao das trevas sobre as virtudes dos negros e dos
etopes (Tanwr al-ghabash f fadl al-Sdn wa l-Habash). O erudito egpcio
al-Suyt (falecido em 911/1505) escreveu sua obra Ascenso dos etopes (Raf` sha
`n alHubshn), tratado que ele resumiria posteriormente sob o ttulo Flores dos
tronos sobre a histria dos etopes (Azhr al-`ursh f akhbr al-Hubsh). Outra
obra do mesmo tipo, O bordado colorido sobre as qualidades dos etopes (Al-Tirz
al-manksh fi mahsin al-Hubsh)3, foi escrita em 991/1583 por Muhammad
ibn `Abd al-Bk al Bukhri al-Makk.
    Instaurou-se a tradio de inserir nessas obras um ou vrios captulos sobre
as palavras etopes que constariam da revelao, isto , do Alcoro bem como
dos hadth (coletneas tradicionais dos atos e palavras do Profeta). Algumas das
palavras citadas no so etopes, mas de uma origem que permaneceu desconhe-


2     B. LEWIS,1971, p.37.
3     Traduzido para o alemo por M. WEISWEILER, 1924.
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                                              673



cida pelos autores rabes. Por outro lado, outras, frequentemente empregadas na
Arbia, no incio do sculo VII da Era Crist, so claramente de origem etope
(gueze)4.
    Em alguns casos, uma palavra autenticamente rabe assumia um sentido
religioso particular sob a influncia do termo etope correlato. As observaes
lingusticas dos autores rabes so interessantes para a histria das lnguas et-
opes; assim, o ditado "O sn de Bill  um shn com Deus" fixa o limite antes
do qual se produziu a passagem do ch ao s na pronncia do etope, pois j havia
sido citado por Ibn Sa`d, que escreveu no ano 230/844-8455.


    O estabelecimento dos muulmanos nas ilhas Dahlak
    As relaes entre o jovem Estado muulmano e a Etipia nem sempre foram
amigveis. J, quando Maom ainda estava vivo, uma frota etope atacara o porto
rabe de Shu`ayba e, alguns anos mais tarde, o califa `Umar foi forado a enviar
quatro navios e duzentos homens para combater "os etopes que cometeram
inmeros crimes contra os muulmanos da Arbia"6, mas essa expedio contra
os axumitas no parece ter dado grandes resultados.
    No decorrer do sculo VII, os etopes permaneceram os senhores incontest-
veis do Mar Vermelho, e os muulmanos apenas conseguiram inverter progressi-
vamente essa relao de fora. Em 702, os etopes atacaram Hidjz pela ltima
vez, ao passo que sua frota ocupou Djidda por certo tempo, provocando pnico
em Meca. No sabemos ao certo se esses ataques foram perpetrados por foras
regulares axumitas ou por piratas etopes. De qualquer forma, esse ltimo ataque
provocou represlias por parte dos rabes que ocuparam e destruram Adulis7 e
se estabeleceram nas ilhas Dahlak, frente a Adulis, no Golfo de Maswa. Essas
ilhas comandavam o comrcio martimo da Etipia: com efeito, Adulis repre-
sentava para a navegao da poca uma escala na rota das ndias, e esse comrcio
constitua um dos principais recursos do Estado de Axum, da mesma forma que

4    Ver A. JEFFERY, 1938. Encontramos no Alcoro as seguintes palavras: mishkat, do etope maskot
     (janela); kiflan, declinao da palavra etope kefl (poro, parte); burhn (prova incontestvel), em et-
     ope, luz, iluminao; tbt, palavra etope que designa a arca da aliana, cofre; kawriyyn, em etope,
     discpulo, apstolos; mashaf, em etope, cpia, livro; m`ida (mesa, mesa do Senhor); malak (anjo),etc. A
     palavra sana atribuda a Bill  tambm etope (sannay, belo), assim como a palavra minbar, que significa
     cadeira (manbar em etope).
5    IBN SA`D, 1905-1928, vol.3, p. 165-170.
6    Al-TABAR, 1879-1901, vol. I, p. 1889.
7    R. PARIBENI, 1908.
674                                                                          frica do sculo VII ao XI



a rota das caravanas do Vale do Nilo que tambm faziam transitar em Adulis as
mercadorias provenientes da Nbia. A partir da segunda metade do sculo VIII,
nunca mais se mencionou outras expedies navais etopes, tampouco qualquer
atividade martima em geral. Tudo indica que os rabes tenham aniquilado a
frota etope, que no mais se manifestaria antes do sculo XIV.
    Durante todos esses sculos, os muulmanos exerceram um controle absoluto
sobre o comrcio do Mar Vermelho, contribuindo assim para isolar ainda mais
a Etipia.
    A ocupao das ilhas Dahlak ocorreu no incio da era umayyad, e essas ilhas
foram igualmente utilizadas como destino de exlio poltico. Encontramos pro-
vas disso a partir do reinado do califa Sulaymn (96/715-99/717), sob o qual o
poeta rabe al-Ahwas foi deportado para as ilhas Dahlak por ter escrito alguns
versos satricos8.
    Em seguida, sob os reinados abssidas, as ilhas Dahlak ofereceriam um porto
seguro aos peregrinos a caminho dos locais sagrados, em uma poca em que o
Mar Vermelho estava infestado de piratas.
    Um principado muulmano independente foi instalado nas ilhas Dahlak no
comeo do sculo IV/X. Esse Estado desempenharia um papel de prima impor-
tncia na histria econmica da Etipia, assim como na propagao do Isl na
regio9. Assumiu o controle das atividades comerciais tradicionais de Adulis e
manteve relaes florescentes com a Etipia crist10.
    Um dos documentos judeu-rabes da poca fatmida, encontrados na Geniz
do Cairo, atesta a atividade comercial do sultanato de Dahlak. Esse documento
indica que um negociante oriundo da Tripolitnia (e chamado al-Lebd, isto ,
nativo de Leptis Magna) passou por Dahlak a negcios enquanto viajava do
Egito  ndia, em uma data anterior ao ano de 490/1097.
    A respeito da durao do sultanato das ilhas Dahlak, e do nvel da cultura
islmica de seus habitantes, dispomos de uma rica documentao, consistindo em
mais de 200 inscries rabes descobertas na ilha principal, Dahlak Kabr, hoje
dispersas em diferentes museus (Mdena, Treviso, Bar-le Duc, Cairo e Asmara).
    A mais antiga dessas inscries remonta ao ano 299/911, e na mais recente
consta a data de 946/1539. Foram redigidas em um rabe gramaticalmente
correto e contm numerosas citaes do Alcoro, usando as frmulas em vigor


8     Ver K. PETRACEK, 1960.  interessante notar que, mais recentemente, o governo fascista italiano
      utilizou a ilha Nokra para exilar prisioneiros polticos.
9     Ver o captulo 3 acima.
10    Al-YA`KB, 1883, p. 219.
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                                     675



na poca nos pases muulmanos vizinhos11. Essas inscries permitem-nos
igualmente reconstituir em parte a genealogia e a lista dos sultes de Dahlak,
principalmente a partir do sculo V/XI12.
    Alm desses documentos que testemunham a presena permanente dos ra-
bes, no se pode negligenciar a tradio amplamente difundida ao longo da costa
africana, do Golfo de Maswa at o Golfo de Djibouti. Essa tradio atribui aos
fur (persas) a construo de obras, em geral vastas cisternas destinadas a recolher
a gua, das quais ainda se pode encontrar vestgios em Dahlak Kabr e Adal. Tal-
vez prove a presena de comerciantes ou de feitorias comerciais persas na costa
africana, como tambm pode atestar o fato de os soberanos das duas margens
do Mar Vermelho terem empregado engenheiros persas nessas construes. De
fato, os persas gozavam de uma excelente reputao no mundo muulmano em
razo de suas instalaes de estocagem e distribuio das guas. Trs inscries
de Dahlak mencionam indivduos, falecidos nessas ilhas, cuja nisba (designao
indicando a origem)  al-Kays, de acordo com o nome da kabla rabe de Kays,
que, depois de Srf, o famoso centro de comrcio, exerceu sua hegemonia sobre
a navegao do Golfo Prsico no sculo IV/X13.


     Os Estados Muulmanos da Etipia Meridional
   No quadro do novo sistema econmico islmico, a costa africana do Mar
Vermelho conservou o papel que tradicionalmente desempenhava no comrcio
martimo das ndias. Porm, os mercadores muulmanos no tardaram a deixar
a costa para penetrar nas regies vizinhas da Etipia em busca de mercadorias
para seu negcio. Temos provas que, no Norte, existia um centro de comrcio
muulmano situado no prprio territrio do reino de Axum, em Endert, no
limiar da regio do Tigre, perto do rio Mareb. A presena de muulmanos 
confirmada por um conjunto de inscries rabes datando do ano 391/1001
ao ano 549/1154, datas estas que correspondem, como podemos constatar, ao
perodo do apogeu do sultanato das ilhas Dahlak, com o qual esse centro de
comrcio certamente mantinha relaes14.


11   No que diz respeito a essas inscries, ver B. MALMUSI, 1895; G. OMAN, 1974b (onde encontraremos
     uma bibliografia completa e atualizada).
12   Ver R. BASSET, 1893; G. WIET, 1953; S. TEDESCHI, 1969.
13   G. PUGLISI, 1969; 1953.
14   C. PANSERA, 1945; M. SCHNEIDER, 1967, 1969.
676                                                         frica do sculo VII ao XI



   Embora no norte o Estado cristo de Axum impedisse uma maior propaga-
o do Isl, a situao era bem diferente no sul da Etipia. Ali tambm, vindo
do mar, o Isl seguia a rota natural que vai do Golfo de Djibouti s mais ricas
regies do sul e do oeste do planalto etope, passando pela depresso do vale
do Hawsh. A progresso do Isl ocorreu mais uma vez pelas rotas comerciais;
de fato, naggadie ("mercador" em amrico) ainda hoje significa "muulmano" na
lngua dos galla da Etipia Meridional15.
   Assim foram convertidos ao Isl diversos povos da Etipia Meridional,
remontando da costa do Mar Vermelho e do Golfo de Aden at o Nilo Azul. Foi
dessa maneira que se constituram diversos sultanatos muulmanos, governos
locais transformando-se provavelmente em Estados islmicos. Nesses sultanatos
dominava uma aristocracia hereditria que era, ou alegava ser, de origem rabe,
ao passo que a populao era etope e pertencia certamente  famlia cuchita
dos Sidama. No decorrer do perodo de sua histria atestado por documentos,
esses sultanatos, ainda que frequentemente em guerra entre si, eram dominados
por aquele dentre eles que conseguisse impor sua autoridade sobre os outros.
Por outro lado, eles mantinham relaes, geralmente pouco amigveis, com o
estado etope cristo que, como veremos, ainda se aproximaria deles no curso
de seu movimento de expanso.
   O primeiro desses sultanatos foi aquele de Dmt. Esse, assim como relata o
grande historiador rabe Ibn Khaldn, submeteu a seu domnio todo o territrio
que se estendia at Ift (isto , a regio compreendida entre o atual Shoa e a
plancie costeira de Dancalia). Permanece difcil localizar esse sultanato com
preciso, j que "Dmt" hoje  o nome de uma regio que se estende a norte
do Nilo Azul e a sul do Godjam. Conhecemos, contudo, na frica Oriental,
outros casos em que populaes obrigadas a se deslocar levaram consigo o nome
de seu antigo pas em seu novo territrio e assim batizaram seu novo asilo. De
qualquer maneira, o Dmt certamente constituiu um territrio do sudoeste da
Etipia na parte mais prxima ao Nilo Azul.
   Ibn Khaldn narra como o Dmt foi atacado e conquistado pelo negus da
Etipia crist e como uma raa chamada Walasma` ali vivia e, depois, emigrou
rumo ao leste para instalar-se em Ift, onde criou outro sultanato16.
   Dispomos de um maior nmero de documentos a respeito do sultanato
de Shoa, que, por sua vez, imporia seu domnio sobre a Etipia Meridional
muulmana. O sultanato englobava, no mnimo, a zona oriental do atual Shoa.

15    Ver captulo 3 acima.
16    Ibn KHALDUN, 1925-1926, vol. 2, p. 108.
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                 677



Era governado por uma dinastia de sultes que se declaravam Makhzm, pois
alegavam descender da famosa kabla dos Ban Makhzm de Meca,  qual
pertencia Khlid ibn Wald, o primeiro conquistador muulmano da Sria. Os
nomes dos sultes, tais como constam nos documentos acima citados, atestam
ou usam uma lngua etope do grupo semtico, embora difira daquelas que che-
garam at ns. Porm, deve-se levar em conta tambm a hiptese segundo a qual
o Repertrio Cronolgico apenas teria conservado os "nomes de reinado" oficiais,
ao passo que os sultes poderiam ter tido um nome pessoal muulmano, como
recentemente era o caso junto s populaes muulmanas da Etipia Ocidental
(o sulto de Genina, conhecido em 1928 sob o nome oromo (galla) de Abba
Djifar, significando "senhor do corcel tordilho", portava o nome muulmano
Muhammad ibn D`d).
    Segundo o documento mencionado acima, a dinastia dos Makhzm reinou
sobre Shoa no mnimo a partir do ano 283/896-897; seus soberanos sucederam-
-se durante quatro sculos at 684/1285, data em que o ltimo sulto e sua
famlia foram depostos e mortos pelo sulto de Ift17.
    Entre os nomes de sultes makhzm,  preciso destacar alguns que nos
parecem caractersticos: Girmgz`i ("senhores aterrorizantes"), que reinou de
660/1262 a 662/1263 data em que abdicou em favor de seu irmo Dil-gmis.
Esse nome de Dil-gmis, aquele de seu sucessor, pode ser interpretado como
"bfalo vitorioso" ou "bfalo da vitria", de acordo com um tipo de nome real
igualmente atestado na Etipia crist18. O nome do sulto Harb-ar`ad significa
"terror das lanas", o que tambm constitui um tipo de nome real corriqueiro
na Etipia crist: basta mencionar o negus Sayfa Ar`ad, cujo nome significa
"terror das espadas". Harb-ar`ad reinou sobre o Shoa muulmano em 502/1108.
     preciso destacar tambm o fato de, segundo o documento j citado, as
mulheres provavelmente terem desempenhado, no sultanato de Shoa, um papel
de certa importncia no exerccio do poder poltico, o que se encontra mais
adequado  tradio etope que  situao oficialmente em vigor nos outros
pases muulmanos. Desse modo, o Repertrio Cronolgico de Shoa comea por
indicar as datas de uma rainha, depois aquela do casamento de dois sultes. O
segundo desses casamentos, o do sulto Dil-mrrah com a filha do sulto de Ift,
em 669/1271, representa uma tentativa de aliana por meio do casamento, em
uma poca em que o Ift demonstrava uma atitude cada vez mais ameaadora
perante Shoa.

17   Ver E. CERULLI, 1941.
18   Dil-gmis reinou de 662/1263 a 668/1269.
678                                                         frica do sculo VII ao XI



    A histria de Shoa, tal como aparece no Repertrio Cronolgico, foi uma
sucesso de lutas internas entre os diversos chefes e, no plano externo, uma
srie de incurses e guerras dirigidas contra os Estados muulmanos vizinhos,
principalmente contra Ift. Todavia, esse documento indica tambm que, em
677/1278, o sulto Dil-mrrah, derrotado e deposto por seus inimigos inter-
nos, refugiou-se junto ao negus da Etipia crist. Eis um testemunho histrico
importante, que comprova o fato de a consolidao da Etipia crist sob o
domnio dos primeiros salomnicos ter comeado a exercer uma influncia sobre
o sultanato de Shoa enfraquecido por lutas fratricidas. Ainda a esse respeito 
preciso sublinhar que o Repertrio Cronolgico cita tambm, entre as datas dos
sultes de Shoa, a data da morte do negus Yekuno Amlk, o primeiro soberano
salomnico da Etipia crist. Outrossim, mas por motivos opostos, esse docu-
mento assinala que o califado abssida caiu nas mos dos mongis em 656/1258.
    Finalmente o sultanato de Shoa perdeu sua independncia em razo da ao
do sultanato vizinho de Ift. No fim da luta civil que agitou o Shoa muulmano
de 675/1276 a 678/1280, o sultanato de Ift interveio diretamente no Estado
enfraquecido de Shoa e, aos 26 de abril de 1280 (19 Dh l-hidjdjah 678 da
hgira), ocupou o centro de Shoa e ps um fim a esse sultanato.
    A rota comercial que atravessava o Vale do Nilo, sendo definitivamente
fechada para a Etipia crist, e a rota martima das ndias, encontrando-se
reduzida ao mnimo pela progresso e consolidao do Isl, o que constitura o
reino cristo de Axum foi forado a tentar se estender rumo ao sul, isto , em
direo ao centro do planalto etope. Por conseguinte, de incio, a capital foi
deslocada de Axum para a regio central de Lasta e, em seguida, aps a dinastia
salomnica ter se estabelecido no trono, a capital foi novamente deslocada em
direo  fronteira do Shoa, ento muulmano; e o mosteiro de Santo Este-
vo nas margens do lago Hayq, foi reconhecido como centro religioso cristo,
antes de ser transferido, por sua vez, para Absbo (Babra Barkn), em pleno
territrio conquistado de Shoa. Tais acontecimentos acarretaram naturalmente
uma forte presso da Etipia crist sobre os Estados muulmanos da Etipia
Meridional, assim diretamente ameaados; e, como veremos, ao passo que os
diferentes sultes preparavam sua defesa, surgiram tambm movimentos de
reaes independentes, dirigidos por chefes religiosos muulmanos. O primeiro
desses movimentos, do qual temos conhecimento, foi aquele dirigido pelo xeique
Muhammad Ab Abdallh no ano 698/1298-1299, durante o reinado do negus
Wedem Ra`ad na Etipia crist. Assim o relatou o cronista egpcio al-Mufaddal,
com acrscimo de detalhes vindos da lenda popular. Graas a uma manobra
poltica hbil, o negus conseguiu afastar do xeique Muhammad alguns de seus
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                                             679



partidrios, e finalmente, props ao agitador muulmano e queles que lhe
permaneceram fiis instalarem-se no territrio controlado pela Etipia crist:
assim fracassou o movimento de Muhammad Ab `Abdallh19. Enquanto isso,
na Etipia Meridional islmica, a hegemonia passava do Shoa muulmano para
Ift, como j vimos.


     O sultanato de Ift
   O sultanato de Ift, sucessor daquele de Shoa no exerccio da hegemonia
sobre a Etipia Meridional islmica era governado por uma dinastia, cujo nome,
de origem local, era Walasma`. Assim como atesta Ibn Khaldn, a princpio,
os walasma` chegaram a Ift como refugiados do antigo Estado muulmano
de Dmt. Contudo, a dinastia Walasma` reivindicava tambm uma longn-
qua descendncia rabe e, de acordo com a tradio oral conservada at hoje,
considerava-se como oriunda de `Akl ibn Ab Tlib, irmo do califa `Ali, e de
Dja`far ibn Ab Talib que, como vimos, foi um dos primeiros muulmanos
refugiados na Etipia. Do contrrio, segundo a Histria dos walasma`, obra de
carter apolgico, o fundador da dinastia, `Umar ibn Duny-hawz20, descendia
de al-Hasan, um dos dois filhos do califa `Al.
   A primeira parte da Histria dos walasma` parece, todavia, ter um carter
lendrio. Podemos citar o fato de `Umar Walasma` ter reinado 80 anos e vivido
at a idade de 120 anos; por sua vez, a tradio relativa ao santo sulto Djaml
al-dn ibn Baziy diz que ele comandava os gnios: um deles ter-lhe-ia trazido
uma carta do Nilo em uma hora, e outro, gua do rio Hawsh (tais lendas pro-
cederiam da assimilao das ideias do "paganismo" etope sobre as divindades
inferiores que viviam nas guas correntes).
   A data de 778/1376-1377  a primeira mencionada na Histria dos walasma`,
mas os cotejos com as crnicas etopes e os historiadores rabes, permitiram
remontar a pocas mais longnquas. Por exemplo, o sulto Sabr al-dn travou
uma longa guerra contra o negus `Amda Seyon, (que reinou de 1314 a 1344).


19   Ver al-MUFADDAL, 1919-1920.
20   Poderamos conceber que esse nome tenha como origem uma palavra semita-etope que corresponderia
     ao etope (gueze hawz), e interpretar o nome Duny-hawz como "doura do mundo" (quase "delcias
     do gnero humano"!); encontraramos ento nos nomes dos prncipes walasma a sobrevivncia de uma
     velha tradio etope. No me foi possvel at ento reconstituir a palavra Walasma a partir de palavras
     etopes. Compor-se-ia talvez do semita antigo Wa que significa "de", "diz respeito a" e de alAsm, que
     significa "as guelras".
680                                                           frica do sculo VII ao XI



Por conseguinte, j que segundo a tradio popular, 96 anos no total se passaram
entre o reinado do sulto Sabr al-dn e aquele de `Umar Walasma`, se aceitamos
essa data como hiptese aproximativa, podemos fixar a data da fundao da
dinastia Walasma` de Ift no fim do sculo XII, com todas as reservas impostas
pela imperfeio dos documentos citados.
    Sabr al-dn combateu depois a Etipia crist. Ainda nas crnicas etopes, ele
 representado como o mais importante soberano muulmano do Sul, e desig-
nado pelo nome "rei dos infiis" (negusa `elwan), o que confirma a hegemonia
de Ift na primeira metade do sculo XIV, aps a queda do sultanato de Shoa21.
Ademais, a crnica etope sobre a guerra do sulto Sabr al-dn d duas outras
indicaes histricas de grande utilidade. Ali, o uso do kt pelos muulmanos
da Etipia  mencionado pela primeira vez. O kt (trata-se da palavra rabe,
em amrico,  cht)  um arbusto (Catha edulis) cujas folhas tm propriedades
levemente estimulantes. O uso do kt ("que mantm a famlia acordada a noite",
diz uma cano popular da Etipia)  caracterstico dos muulmanos. J era to
difundido na poca, que Sabr al-dn, ao se vangloriar de seus sucessos guerreiros,
declarou que se apoderaria da capital da Etipia crist para "ali plantar o kt to
apreciado pelos muulmanos".
    O segundo trecho da crnica representando alguma importncia para a his-
tria da Etipia  aquele em que o cronista relata como, aps a vitria do negus
sobre os muulmanos, quando o soberano cristo quis aproveitar-se de seus
sucessos para avanar em pas muulmano e ali estabelecer suas foras armadas,
ele se chocou com a oposio de seus soldados. J que haviam obtido vitria
e ganhado seu butim, esses ltimos queriam voltar pra casa e gozar dos frutos
de sua vitria; eles no entendiam porque era preciso ocupar de forma perma-
nente o territrio inimigo. Esse trao psicolgico  interessante, pois podemos
encontr-lo de novo dois sculos mais tarde (no sculo XVI), dessa vez junto
aos soldados muulmanos do imame Ahmed ibn Ibrhm, que manifestaram
a mesma repugnncia em ocupar de forma permanente o territrio dos povos
por eles derrotados. Assim, de acordo com o cronista etope, os soldados teriam
dito ao soberano cristo: "Oh Negus, vossa senhoria combateu e salvou-nos dos
infiis; agora nos deixe retornar  nossas aldeias". E o negus teria respondido:
"Quem volta a seus pastos so os animais". Da mesma maneira, dois sculos mais
tarde, o cronista rabe evocaria os soldados muulmanos que depois da vitria
disseram a seu chefe Ahmed ibn Ibrhm: "Oh imame dos muulmanos, veja


21    Ver J. PERRUCHON, 1889.
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                  681



o que aconteceu. Muitos dentre ns foram mortos, muitos cobertos de feridas.
Quase no nos sobram vveres. Conduza nosso exrcito de volta ao pas. Ali
seremos reorganizados e reorganizaremos nossas fileiras". Porm, em ambos os
casos, os soldados acabaram por aceitar as ordens de seu chefe, embora tenham
antes manifestado seu descontentamento22.
    O avano rumo ao sul da nova dinastia salomnica da Etipia crist e a
expanso do Ift muulmano em Shoa levariam a um conflito entre os dois
Estados. O primeiro incidente relatado consta da crnica do negus `Amda Seyon
I, na qual o soberano etope23 declara ter, no incio de seu reinado, derrotado o
sulto de Ift, Hakk al-dn, e executado o prncipe muulmano Darder, irmo
de Hakk al-dn. Convm sublinhar aqui que a Histria dos walasma`, de origem
rabe, no faz nenhuma meno a Hakk al-dn, nem a essa guerra. Porm, uma
vez que o cronista muulmano atribui o incio dos conflitos com os cristos ao
sulto Hakk al-dn II, que reinou de 1376 a 1386 (isto , algumas dcadas aps
Hakk al-dn I), poderia se tratar de um erro por parte do cronista ou de suas
fontes.
    A primeira guerra entre a Etipia e o Ift, da qual temos vrios testemunhos,
ocorreu em 1332, durante o reinado do negus `Amda Seyon I (1314-1344) e do
sulto Sabr al-dn I.24 Sabr al-dn atacou as tropas do negus presentes no terri-
trio de Shoa, mas foi vencido aps uma luta acirrada e forado a se submeter.
O prncipe Djaml al-dn, irmo de Sabr al-dn, foi nomeado sulto de Ift
pelo negus, mas, em funo da origem ilegtima de seu poder, no conseguiu
afirmar sua autoridade e logo foi deposto por um vasto movimento muulmano
de reao, fomentado por um agitador religioso, o kd Sleh. Esse ltimo con-
seguiu organizar uma liga de prncipes muulmanos, entre os quais se destacou
principalmente o sulto de Adal (a leste de Ift). Contudo, o negus conseguiu
vencer novamente e, dessa vez, sua vitria marcaria o incio de uma nova era
para os pequenos Estados muulmanos do Sul. Com efeito, a hegemonia passou
de Ift para o sulto de Adal, embora o poder tivesse permanecido nas mos do
prncipe da dinastia Walasma`. Portanto, podemos dizer que, no decorrer desses
dois sculos (sculos XIII e XIV), o centro poltico do Isl etope se deslocou
em trs ocasies, sempre no sentido oeste-leste, rumo  beira do planalto: de
Dmt Shoa, de Shoa a Ift, e de Ift a Adal.



22   W. E. CONZELMAN, 1895.
23   G. W. B. HUNTINGFORD, 1965.
24   Ver J. PERRUCHON, 1889.
682                                                           frica do sculo VII ao XI



    A vitria do negus `Amda Seyon sobre os muulmanos incitou seus suces-
sores a empreender uma srie de operaes militares no Sul. Foi Assim que o
negus Dwit I (1382-1411) derrotou e matou em combate o sulto Hakk al-dn
II em 778/1376-1377. Seu sucessor, o negus Yeshaq, derrotou o sulto Sa`ad
al-dn, sucessor de Hakk al-dn II, e continuou rumo ao mar at Zyla`. Das
vitrias do negus Yeshaq subsisti o texto de um longo canto de vitria de seus
soldados, texto esse muito precioso, j que conserva os nomes de diversos pases
muulmanos conquistados e devastados por esse negus durante a guerra travada
contra Sa`ad al-dn. Esse documento potico completa e precisa a lista dos pa-
ses muulmanos que, aproximadamente um sculo antes, haviam aderido  liga
islmica constituda sob a influncia das exortaes do kd Sleh contra o negus
`Amda Seyon, como j vimos. Do lado muulmano o sulto Sa`ad al-dn, morto
em combate contra os cristos em 817-1415, tornou-se o heri da resistncia
muulmana contra as invases dos negus e, desde ento, a parte do sul muul-
mano que permaneceu independente tomou o nome de "terra de Sa`ad al-dn"
(barr Sa`ad aldn). Porm, aps algumas dcadas, o sultanato de Adal, doravante
 frente do Isl etope, reergueu-se e travou uma vigorosa e complexa tentativa
de invaso do Shoa, que no somente era um territrio cristo, como tambm
a sede dos negus. O exrcito muulmano era liderado pelo sulto Shihb al-dn
Ahmed Badly (chamado de Arw Badly nas Crnicas etopes, o que significa
"a fera Badly"). Aps ter obtido algumas vitrias no incio, Badly foi derro-
tado pelo negus Zare`a Yqob no decorrer de uma grande batalha em Egubb,
aos 29 dias de dezembro de 1445, e o sulto morreu durante os combates. O
negus perseguiu o exrcito muulmano at o rio Hawsh e apoderou-se de um
butim absolutamente maravilhoso aos olhos dos etopes cristos. Com efeito,
as relaes comerciais existentes entre o sultanato de Adal e os soberanos da
pennsula rabe permitiam aos muulmanos conseguir artigos de luxo fora do
alcance dos etopes cristos, cujas relaes com o mundo exterior ainda estavam
bloqueadas. A esse respeito, um documento cristo relata:
      "E as tnicas (do sulto) e aquelas de seus chefes eram adornadas com prata
      e brilhavam por todas as partes. E a adaga que ele (o sulto) portava na
      cintura era ricamente adornada com ouro e pedras preciosas; e seu amuleto
      era decorado com gotas de ouro; e as inscries do amuleto eram feitas com
      pintura de ouro. E sua sombrinha vinha do pas de Sria e constitua um
      trabalho to belo que aqueles que a olhavam maravilhavam-se, e serpentes
      aladas nela estavam pintadas."
As relaes da Etipia com o mundo muulmano                                  683



    Aps a batalha de Egubb, os sultes de Adal, onde se mantivera a dinastia
Walasma` dos antigos sultes de Ift, estabeleceram sua capital em Dakar, nos
confins da plancie oriental. Todavia, alguns anos mais tarde, o negus Eskender
tomou a ofensiva, entrou em Adal, conquistou e destruiu a capital Dakar. Em
1475, contudo, no caminho do retorno a seu territrio de Shoa, o exrcito cristo
foi surpreendido por aquele do sulto de Adal, Shams al-dn ibn Muhammad, e
o negus Eskender foi derrotado e morreu em combate. Contudo, os muulmanos
no deram prosseguimento a essa vitria porque Adal estava paralisado e empo-
brecido pelas lutas travadas pelos diversos emires no intuito de dominar o pas.
    Em seguida, a capital foi de novo deslocada rumo ao leste, e transferida em
Aussa na plancie, at o sulto Ab Bakr ibn Muhammad ibn Azhar al-dn,
finalmente transferir a capital de Adal para Harar em 926/1520. Ele fundou
assim a dinastia dos emires de Harar que, durante trs sculos, ocupou o poder
no Estado muulmano, desde ento chamado de emirado de Harar. De fato,
Muhammad ibn Ab Bakr Azhar al-dn, que havia deslocado a capital para o
sul por motivos de segurana, no detinha oficialmente o poder supremo, j
que mantinha no trono os prncipes da dinastia Walasma`, aos quais reservava
o ttulo de sulto. Desta maneira ele evitava ser acusado de ilegitimidade e
assegurava para si o exerccio efetivo do poder terico da antiga dinastia. Seus
sucessores agiram da mesma forma at a extino, em circunstncias obscuras,
da dinastia Walasma`.
    O novo sultanato de Harar no tardaria a ser igualmente dilacerado pela
guerra civil, que durou at o surgimento de uma forte personalidade, a saber,
o futuro imame Ahmed ibn Ibrhm, que conseguiu impor sua autoridade e
concentrou todos os poderes entre suas mos.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                   685



                                        CAPTULO 21


        A costa da frica Oriental e as ilhas
                     Comores
                             Fidel T. Masao e Henry W. Mutoro




    O objeto do presente captulo consiste em tentar reconsiderar a histria da
costa oriental da frica e das ilhas Comores, chamadas abaixo, para simplificar
as coisas, costa oriental da frica e seus arredores, entre os sculos VII e XI da
Era Crist.
    Tal empreendimento visa corrigir o quadro errneo proposto pelos historia-
dores e/ou arquelogos da escola de pensamento colonial que, ao basearem-se
em fontes externas e ao apoiarem-se em dados incompletos ou simples rumores,
apresentaram uma sntese correspondendo, na maioria dos casos,  histria dos
comerciantes e colonizadores estrangeiros, considerados a origem da civilizao
da costa. Obviamente, eles desempenharam um papel nos primeiros tempos
da histria da costa oriental da frica, mas o fato de terem contribudo para a
evoluo ocorrida naquela poca no significa que eles tenham impulsionado
a sua evoluo. Alm de enriquecer a base de dados de que dispomos, as des-
cobertas recentes atualizadas incessantemente graas a pesquisas sistemticas
baseadas em mtodos cientficos e novas tcnicas nos domnios da arqueologia,
da histria, da etnografia, etc1, estabelecem pouco a pouco que a histria da costa
oriental da frica e de seus arredores  a histria das populaes autctones da
frica e de sua interao com o meio ambiente.

1    Os autores do presente captulo referem-se notadamente aos seguintes trabalhos: J. de V. ALLEN, 1982;
     M. HORTON, 1981, H. W. MUTORO, 1979, 1982b.
686                                                           frica do sculo VII ao XI



      Dados geogrficos
    No presente contexto, a costa oriental da frica e seus arredores designam a
faixa de terra que se estende entre aproximadamente o 38 e 50 de longitude
leste e entre o 11 de latitude norte e o 25 de latitude sul, delimitada ao norte
pelas costas e a Somlia e ao sul por Moambique. O conjunto da regio  afe-
tado por um clima de mono que, de uma maneira ou outra, influiu no desen-
volvimento histrico das comunidades costeiras. A maior parte dessa zona, com
exceo do norte do Qunia e da Somlia, goza de um bom regime de chuva e de
solos frteis favorveis s atividades agrcolas. Simplificando, convm distinguir
trs grandes zonas ecolgicas e geogrficas: as ilhas (Lamu, Pate, Manda, Alda-
bra, Comores, etc.), a pennsula e a hinterlndia. Essas zonas caracterizam-se por
vestgios de assentamentos humanos, cuja originalidade cultural comprovaria
o fato de esse povoamento ser oriundo de uma populao africana autctone.
O rastro material desses vestgios, hoje abandonados, possui ainda um aspecto
geral ruiniforme na superfcie do solo, observvel em fotografias areas e mapas
topogrficos. No que tange aos assentamentos impermanentes, sua existncia foi
revelada pela presena de cavidades detectveis a partir dos registros arqueol-
gicos, ou ainda por altos montculos cercados por uma cobertura vegetal, quer
alto e denso, quer baixo e rarefeito.
    Ainda que as zonas ecolgicas desses povoamentos se distingam hoje pela
escassez de sua cobertura vegetal e a fraca densidade de sua fauna, os restos de
plen fossilizado e de vestgios esqueletais ali encontrados bastam para compro-
var que a situao foi bem diferente durante esse perodo de formao, no decor-
rer do qual essas zonas foram povoadas. Os sistemas estuarinos nos quais foram
implantados assentamentos insulares tais como Lamu, Manda, Pate, Shanga,
etc., outrora cercados por densas florestas de mangue provendo aos autctones
segurana, abrigo e tambm uma fonte de sustento (venda de paus de mangue),
encontram-se hoje em um estado de degradao quase completo. Da mesma
forma, o que hoje permanece da pennsula ao longo da zona costeira, na qual
estavam situados assentamentos tais como Gedi, Mwana, Ntwapa, etc.,  uma
estreita formao de arbustos espinhosos, transformando-se, em alguns lugares,
em uma pradaria arborizada mida, sem dvida resqucios de antigas florestas
ou matas densas, comparveis s atuais florestas kaya do interior. O ecossistema
da hinterlndia, caracterizado pelos povoamentos kaya, representa certamente
o nico exemplo atual do que foi no decorrer do perodo em que a regio em
foco comeou a ser povoada.  beira da floresta kaya estende-se uma savana
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                   687



magra degenerando, no Tary, em uma vegetao desrtica, a qual permite hoje
a subsistncia dos waata que vivem da colheita e da caa, e dos pastores kwavi.
    Foi nessas zonas ecolgicas que apareceram os povoamentos da zona costeira
oriental e a civilizao correspondente, a partir da, teceram laos estreitos entre
toda essa regio e os vastos territrios situados alm. Tais assentamentos  Midzi
ou Miji (cidades)  cobriam at 50 hectares no apogeu de sua potncia e gl-
ria2. Contudo, ao longo do tempo, conheceram um lento declnio para serem
finalmente abandonados  natureza por seus ocupantes. Runas e monumentos
pertencentes a esses povoamentos ainda so visveis em vrios lugares da regio
pesquisada. Um exame atento de sua diviso e localizao geogrfica, juntamente
com o estudo das descobertas arqueolgicas recentes, mostram inegavelmente
que uma interao social constante estabelecera-se entre essas populaes e os
povos vizinhos. No intuito de reconstituir a histria dessa sociedade, faz-se,
portanto, necessrio colocar-se em uma perspectiva regional, multidisciplinar
e sinttica.


    Os problemas
    A maioria das obras versando sobre a histria pr-colonial da costa leste
da frica no nos parece satisfatria. Existem duas principais razes para esse
fracasso: a metodologia tradicional na qual se baseou a pesquisa e a abordagem
colonialista daqueles que empreenderam essa pesquisa.
    Tal metodologia  tradicional no sentido de que no especifica expressa-
mente nem os problemas a serem solucionados pelo arquelogo, nem como
ele pretende resolv-los. Parece-nos que as pesquisas deviam ter como foco
o mximo possvel de regies, pela nica razo de que as regies em questo
ainda no terem sido estudadas. No , portanto, de se surpreender que, nessa
pressa, as pesquisas relativas a alguns povoamentos tenham sido superficiais,
seno inexistentes.
    Em inmeros casos, contentou-se em fazer uma ou duas escavaes em uma
zona de povoamento muito extensa, como testemunham os relatos e trabalhos
relativos a esses stios. Os dados assim recolhidos foram depois usados para
descrever os tipos de comportamento do assentamento inteiro. Tal abordagem 
incorreta pelo fato de sistematizar o comportamento humano e porque os dados
obtidos quando de escavaes limitadas no podem ser considerados representa-

2    Kaya Mudzi Mwiru tinha 32 hectares, Kaya Singwaya 20 e Kaya Bomu 24.
688                                                            frica do sculo VII ao XI



tivos de todos os tipos de comportamento observveis em um assentamento. No
que diz respeito  historiografia, a atitude colonialista surge tanto na percepo,
quanto na interpretao dos dados trazidos  luz. Em primeiro lugar, a cultura
costeira foi percebida como um conjunto de traos distintivos nos domnios das
ideias, crenas, estruturas mentais e valores dos povos, dos quais seria a ema-
nao. Notadamente no que concerne ao carter instvel e evolutivo da cultura,
essa concepo deu lugar a uma interpretao segundo a qual a difuso da cul-
tura teria ocorrido a partir de centros culturais superiores situados no Oriente
Mdio e alm, sem que houvesse o surgimento de uma cultura resultante da
adaptao de um povo a um meio em mutao. Essa concepo tradicional da
histria dos povoamentos da costa oriental da frica e seus arredores  ilustrada
por inmeros autores, como veremos a seguir.
    Segundo F. B. Pearce, os assentamentos foram fundadas nessa regio por
persas e rabes, fato esse ilustrado por aquilo que ele chama de estilo arquite-
tnico shrz e rabe3.
    W. H. Ingrams foi mais longe ao sugerir que os criadores persas desses
assentamentos pertenceriam ao ramo xiita da f islmica4. Ainda mais ousado,
L. W. Hollingsworth alega que esses imigrantes de Shrz, portanto da Prsia,
estiveram na origem da construo de edifcios de pedra, como tambm do uso
da cal e do cimento, das artes da escultura da madeira e da tecelagem do algo-
do5. Aps ter visitado alguns desses stios, James Kirkman tambm corroborou
essas alegaes ao declarar: "Os monumentos histricos da frica Oriental no
pertencem aos africanos, mas antes a povos oriundos de uma mestiagem de
rabes e de persas arabizados com africanos, cuja cultura permaneceu, contudo,
totalmente distinta daquela dos africanos que os circundavam6". Porm, h um
ponto em que as concepes de Pearce e Kirkman diferem: o primeiro estima,
contrariamente ao segundo, que a arquitetura shrz ou persa teria precedido a
arquitetura rabe. Neville Chittick no  nenhuma exceo7: segundo ele, no
somente a maioria desses imigrantes teria vindo de Shrz (Srf ) para fundar
assentamentos na regio considerada e seria do sexo masculino, mas ele alega
tambm que o sistema econmico sobre o qual repousavam esses povoamentos
teria sido importado do estrangeiro: "as origens dessas civilizaes encontravam-


3     F. B. PEARCE, 1920, p. 399.
4     W. H. INGRAMS, 1931, p. 133, 153.
5     L. W. HOLLINGSWORTH, 1974, p. 39-40.
6     J. S. KIRKMAN, 1954, p. 22.
7     H. N. CHITTICK, em todas suas publicaes.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                        689



-se certamente nas terras das quais dependiam economicamente, mas essas
cidades costeiras eram sempre voltadas para o alto-mar, para essa imensa zona
martima constituda pelo Oceano ndico e suas margens"8.
    Para sustentar sua tese a respeito da origem estrangeira dos assentamentos
da regio, esses autores basearam-se na epigrafia, em certos documentos e top-
nimos, mas sua argumentao no se tornou por isso mais slida e convincente.
Por exemplo, se  verdade que dois vestgios epigrficos do sculo VII/XIII,
portando inscries em persa, foram descobertos em Mogadscio, eles no bas-
tam como elementos verdadeiramente pertinentes. Alis, os povoamentos ento
estabelecidos nessa regio j tinham florescido nessa poca.
    Alguns tambm citaram nomes parecidos com nomes rabes ou persas (por
exemplo, al-Kahtn, al-Hadram, etc.) e disso deduziram que os povoamentos
costeiros da frica Oriental eram de origem rabo-persa. A presena de tais
nomes foi assinalada por alguns em Mogadscio e Tongoni, no norte da Tan-
znia9.  preciso destacar aqui que os treze nomes ou inscries provenientes
de Mogadscio foram submetidos a um exame minucioso, que mostrou que
apenas dois dentre eles mencionam uma populao de origem incontestavel-
mente persa10. Mesmo que se possa examinar a cermica de Tongoni da qual
fala Burton,  pouco provvel que ela seja de origem persa. E mesmo que o
fosse, isso no bastaria para provar que Tongoni era um povoamento persa. Por
fim, tambm foram invocados documentos para sustentar a teoria que atribui
uma origem persa s assentamentos da costa oriental e de seus arredores. Na
longa lista compilada por B. G. Martin, por exemplo, nenhum elemento parece
convincente ou comprova a existncia dessas assentamentos antes de +175011.
    No intuito de determinar em que poca tais estrangeiros fundaram essas
cidades costeiras, alguns autores dedicaram-se ao estudo das peas cermicas
importadas, estimando que esse fosse o melhor sistema de datao. Afirmaram
assim que Manda foi criada no sculo III/IX, Takwa nos sculos X-XI/XVI-
-XVII e Kilwa nos sculos IV-V/X-XI12. No levaram em conta as datas cien-
tificamente obtidas a partir do carbono 14, embora sejam muito mais objetivas,
j que remontam a uma poca muito mais antiga. Ademais, deixaram de lado
as cermicas locais passveis de datao se compardas s cermicas conhecidas


8    H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 245.
9    Ver E. CERULLI, 1957-1964, vol. I, p. 2-10; B. G. MARTIN, 1974, p. 368.
10   J. de V. ALLEN, 1982, p. 10. Inscries posteriores indicam uma origem rabe.
11   B. G. MARTIN, 1974, p. 368 e seguintes.
12   J. S. KIRKMAN, 1954, p. 174-182; H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 235-237.
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das regies vizinhas, ou com a ajuda do procedimento que utiliza a termolu-
minescncia. O pretexto era que essas peas locais no eram oriundas desses
povoamentos e, mesmo que o fossem, as datas contradiriam suas concluses
preestabelecidas, notadamente no que diz respeito  pretensa inexistncia de
qualquer assentamento na regio antes da chegada dos estrangeiros do Shrz,
etc. De acordo com essa ltima hiptese, deveramos ter descoberto, em vrios
stios, conjuntos de objetos estrangeiros e, de forma geral, diferentes daqueles
que, segundo os dados estratigrficos, so caractersticos do lugar. Ainda no foi
fornecida nenhuma confirmao desse tipo. Assim, as escavaes de Takwa per-
mitiram exumar mais de cinco milhes de fragmentos cermicos de fabricao
local, mas apenas quinhentos de cermica importada13. As escavaes de Manda,
Kaya, Singwaya, Kaya Mudzi Mwiru, Gedi, Kilwa, e aquelas de Shanga, Mudzi
Mwiru e Fungo, entre outras, revelaram tambm uma quantidade de materiais
cermicos de origem local muito superior queles dos materiais importados14.
Nessas condies, parece-nos difcil sustentar que um assentamento pertena
a estrangeiros, j que, de um lado, no existe nenhuma prova e que, do outro, a
maior parte dos vestgios materiais dessa cultura so aqueles de uma populao
autctone.
    O segundo obstculo metodolgico a ser levado em conta diz respeito 
maneira pela qual esses stios foram datados para coincidir com a chegada
dos rabes e dos persas. Com esse objetivo, todas as cidades costeiras foram
datadas em referncia s cermicas importadas, muitas vezes a partir de um
nico fragmento descoberto em uma escavao isolada. O prosseguimento das
escavaes arqueolgicas nesses lugares permitiu desenterrar outros fragmentos
pertencentes a perodos ainda mais remotos.
     Desse modo, referindo-se s cermicas importadas, o stio de Takwa dataria
dos sculos X/XVI ou XI/XVII. Ora, nesses stios foram tambm descobertos
celadon chins e monocromos islmicos do sculo V/XI ao VII/XIII15. Surge
ento um certo nmero de questes. Segundo qual critrio foi determinada a
datao? Por que os fragmentos remontando aos sculos V/XI-VII/XIII no
foram levados em considerao? Seria realmente necessrio negligenciar as datas
obtidas com a tcnica do carbono 14 pela nica razo de elas no corresponde-
rem ao esquema de difuso proposto?


13    H. W. MUTORO, 1979, p. 68-110.
14    J. S. KIRKMAN, 1954; H. N. CHITTICK, 1967; M. HORTON, 1981; H. W. MUTORO, 1982a,
      1982b.
15    H. W. MUTORO, 1979, p. 111-121.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                  691



    A esse respeito,  imprescindvel sublinhar que as datas das cermicas impor-
tadas usadas anteriormente por outros pesquisadores no estudo dos assentamen-
tos da costa oriental da frica foram calculadas a partir de dados incompletos.
Ns comparamos todas as datas estabelecidas a partir das cermicas importadas
com aquelas obtidas pela anlise com o carbono 14 (por exemplo, para os dados
da camada 3: +1195 +135 em Takwa), chegamos a concluso que era preciso ser
ainda mais prudente do que no passado a respeito de todas as datas de cermicas
importadas. Da mesma forma que todos os outros artigos importados do comr-
cio de luxo, tais como vidros, prolas, taas de vinho, estofos, etc., as cermicas
importadas podem trazer  tona informaes importantes sobre o modo de vida
e a economia da sociedade estudada e sobre suas relaes com as populaes
vizinhas. Portanto,  preciso lev-las em conta para reconstituir a cronologia de
um stio, porm sem negligenciar outros mtodos de datao mais objetivos e
mais cientficos, tais como o carbono 14. Mesmo que sua data estivesse bem
estabelecida, as cermicas importadas no poderiam ser consideradas o marco
da poca da criao desses assentamentos, como fomos levados a acreditar.
    Por outro lado, em qualquer pesquisa de campo,  importante precisar o
procedimento utilizado na seleo dos elementos a serem analisados ou datados.
Um nico vestgio, proveniente de uma ou duas escavaes, no pode ser consi-
derado representativo de todos os fragmentos descobertos em um stio.  preciso
lembrar tambm que esses assentamentos humanos, muito modestos na origem,
podem ter se desenvolvido e se tornado mais e mais complexos,  medida que se
ampliou o seu domnio ecolgico. Para entender bem a evoluo e as mudanas
culturais ocorridas nesses assentamentos, devemos, antes de tudo, destacar que
os tipos de comportamento das sociedades desaparecidas se inscrevem em um
conjunto complexo e que  preciso realizar certo nmero de escavaes em uma
vasta extenso da zona estudada, no intuito de recolher dados suficientemente
representativos para sustentar nosso esforo de anlise e explicao. Embora seja
verdade que as escavaes no podem abranger a integralidade de um assen-
tamento, convm explicitar como determinamos as zonas a serem exploradas,
cada uma delas devendo gozar das mesmas chances de serem escolhidas. O
tipo de aglomerao escolhido para as pesquisas tambm revela os preconceitos
colonialistas de seus autores. No  de se espantar que eles tenham concen-
trado praticamente todos seus esforos nas cidades construdas em pedra, tais
como Manda, Kilwa, Takwa, Mwana, Gedi, etc., que, como j indicamos, eram
consideradas fundadas por estrangeiros. Ignoravam as cidades cujo material de
construo no era a pedra, no somente por parecerem-lhes sem interesse, mas
tambm por no possurem arquiteturas verdadeiras, na plena acepo do termo.
692                                                             frica do sculo VII ao XI



Convm sublinhar que assentamentos so sistemas culturais e, portanto, no
representam fenmenos uniformes: seu funcionamento no pode ser explicado
em funo de uma varivel nica, a saber, a circulao, no tempo e no espao, de
ideias transmitidas por altos centros de cultura a outros de menor importncia.
Ao contrrio, esses sistemas devem ser estudados  luz de um amplo leque de
acontecimentos, adquirindo todo o seu significado apenas em relao a uma
infinidade de variveis causais, cuja influncia  interdependente ou se conjuga
ao revestir formas diversificadas. Portanto, se quisermos descobrir quais eram
suas relaes recprocas, cabe a ns, pesquisadores, isolar essas variveis causais.
Com esse objetivo, devemos absolutamente afastar-nos do modelo tradicional,
que glorifica a superioridade racial dos povos colonizadores, e recorrer a um
novo modelo capaz de solucionar os problemas em um quadro de referncia
concebido de maneira objetiva.
    Os dados propostos para estabelecer o fato de os assentamentos da costa
oriental da frica terem sido precedidas por estrangeiros no so satisfatrios,
tanto quantitativamente quanto qualitativamente. Seria mais verossmil que os
fundadores da cultura costeira fossem povos africanos autctones. A presena
dessas populaes e sua participao na fundao desses assentamentos so
atestadas pelas evidncias arqueolgicas, bem como pelas fontes documentais
estudadas abaixo.


      As fontes
      A arqueologia
   Ainda que, nessa regio, as pesquisas arqueolgicas no estejam ainda muito
avanadas, j permitiram trazer  luz inmeros elementos que provariam o
fato de a regio ter sido povoada, em diferentes perodos histricos, pelo que
chamaremos de sociedades das pocas inicial, mdia e tardia da Idade da Pedra.
Em seguida, chegaram as populaes das pocas inicial e tardia da Idade do
Ferro. As escavaes empreendidas em vrios stios permitiram encontrar na
regio vestgios de povoamentos remontando aos diferentes perodos da Idade
da Pedra16. Um desses stios, Mtongwe, no sul do Qunia,  atualmente explo-
rado por uma equipe de pesquisadores japoneses da Universidade de Nagoya.
Situado nas proximidades da estrada de Kwale, na plataforma de Changawe, o


16    G. OMI, 1982; H. N. CHITTICK, 1963.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                 693




figura 21.1    Escavaes no stio de Manda.



stio abrange uma zona de 800 m de comprimento por 300 m de largura, e com-
porta 30 localidades17. A anlise detalhada dos vestgios de objetos artesanais
e dos tipos de comportamento das populaes que os fabricaram j foi feita e
ultrapassaria o mbito do presente captulo. Basta lembrar que foi possvel juntar
uma importante coleo de vestgios culturais, atestando a presena, na regio,
no somente de atividades humanas, como tambm de assentamentos humanos
remontando at o sculo IX da era crist, poca esta frequentemente evocada.
    Existem tambm amplas provas da presena de povoamentos na regio nos
estgios iniciais e tardios da Idade do Ferro. A mais evidente  o stio de Kwale,
na estrada de Ninango, a aproximadamente 6 km da atual cidade de Kwale. As
escavaes realizadas neste stio por Robert Soper, em meados da dcada de 60,
permitiram trazer  luz todo tipo de cermicas e fragmentos de ferro, de ferra-
mentas, etc., testemunhando a presena, nesse exato lugar, de uma populao na
Idade do Ferro, aproximadamente no primeiro quarto do primeiro milnio da
Era Crist18. A existncia de vestgios materiais de cultura da mesma poca foi

17   G. OMI, 1982.
18   R. C. SOPER, 1967, p. 1.
694                                                           frica do sculo VII ao XI



tambm assinalada, depois de escavaes ou da explorao de stios de superfcie,
em algumas regies interioranas e costeiras da Repblica-Unida de Tanznia e
do Qunia. Trata-se, entre outros, das montanhas de Usambara, das colinas de
South Pare e dos assentamentos kaya de Mijikenda (por exemplo, Kaya Mudzi
Mwiru, Kaya Fungo, Kaya Singwaya, etc.).
    Em Gedi foi exumada, de uma camada subjacente s fundaes da cidade,
uma cermica decorada de um tipo especfico do sculo VI/XII. Foi batizada
cermica estriada em razo de sua semelhana com fragmentos de vaso preto
estriado, descobertos nas camadas superiores do Grande Zimbbue. A decorao
e o estilo desses vestgios so incontestavelmente africanos, mas foram atribudos
aos oromos (galla), e no aos bantos ou aos sualis, procedendo por eliminao,
sem basear-se em provas tangveis19. Tanto em Unguja Ukuu quanto em Manda
foram descobertos stios datando do sculo III/IX. Todavia, segundo Chittick,
a cermica islmica esmaltada de cor azul foi, de longe, a mais frequentemente
importada, mas, infelizmente, nenhuma estatstica permite estabelecer uma
comparao com a cermica local20.
    A descoberta em Nzwani, nas ilhas Comores, de uma srie de fragmentos
datando provavelmente de +430 +70 mostra que, antes da chegada dos ra-
bes, afro-indonsios certamente teriam se estabelecido nas ilhas, embora no
pudssemos determinar se vinham de Madagascar ou de um assentamento do
sul da costa oriental. Contudo, como Schepherd sublinhou com razo, a ltima
hiptese seria a mais verossmil, j que os comorenses falam uma lngua banta21.
Ademais, a tradio wa-ngazija (os insulares) diz que tal populao veio do
continente.
    Em Kilwa, os dois perodos 1a e 1b (do sculo IX ao XII), que precederam
a dinastia shirz, caracterizam-se por um material cultural homogneo, inclu-
sive escrias comprovando que a populao sabia trabalhar o ferro, elementos
atestando a fabricao de prolas, estilhas de cermica e restos fossilizados de
peixe22. Chittick pensa, contudo, que a cermica  testemunha "de um alto nvel
de habilidade tcnica", e conclui que Kilwa no era um povoamento autctone.
No  possvel sustentar seriamente tal tese, pois, no somente as crnicas no
deixam dvida nenhuma sobre o carter local da populao de Kilwa  poca,
como tambm foram encontrados em outros lugares da costa, em Ungaya Ukuu


19    J. S. KIRKMAN, 1954, p. 73.
20    H. N. CHITTICK, 1975, p. 37.
21    G. SHEPHERD, 1982, p. 7.
22    H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 235.
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e Manda por exemplo, restos de cermica vermelha brunida23. O fato de no ter
encontrado vestgios desse tipo de cermica no interior no significa que essa
inovao tcnica no poderia ter surgido de forma isolada nas cidades costeiras.
Alis, a hinterlndia ainda no foi totalmente explorada e seria prematuro falar
em ausncia de cermica sem conhecer o resultado das futuras pesquisas.
   Marmitas em forma de saco cuja borda ou parte arredondada  adornada
com entalhos, assim como vasos vermelhos brunidos, constituem os dois tipos
de cermica caractersticos do perodo. Encontram-se tambm tigelas pouco
profundas com as bordas voltadas para o interior. Foi tambm assinalada a
presena de cermicas importadas, sob a forma de fragmentos de peas persas
decoradas de estanho esmaltado24.  interessante notar uma certa semelhana
entre os ornamentos entalhados das bordas dos potes tipo I e as cermicas das
montanhas de Usambara do grupo C que, apesar de no terem sido datadas, so
obviamente posteriores aquelas da poca antiga da Idade do Ferro25. As pesqui-
sas arqueolgicas tambm permitiram encontrar outros objetos pertencentes a
esse perodo: facas, pontas de flechas, anzis, tubos ocos, tachas e pregos de ferro
e prolas de cornalina. Como em Manda, as prolas de vidro no apareceram
antes do sculo IV/X26.
   Em Unguja Ukuu, na ilha de Zanzibar, a cermica local mais antiga dataria
aproximadamente do sculo IV/X ou corresponderia ao primeiro perodo de
Manda27. Embora Gedi parecesse ter sido fundada no sculo VI/XII, isto ,
fora dos limites cronolgicos do presente captulo,  interessante destacar que
a quantidade de peas locais de terracota ultrapassa sensivelmente aquela de
cermica importada, ainda que fosse constituda por muitos fragmentos no
caractersticos, portanto pouco reveladores. Em outras palavras, os potes locais
no eram esmaltados, apresentavam poucos ornamentos entalhados, denteados
ou trabalhados e raramente eram coloridos. Os ornamentos lineares entalhados
so considerados prprios dos sualis, dos wasanya e dos oromos; os ornamentos
cavados em forma de unhas so considerados de origem wanyika e os ornamen-
tos trabalhados caractersticos dos povos oromos (galla)28.



23   Ibidem, p. 237.
24   Ibidem, vol. II, p. 319.
25   Ibidem, vol. I, p. 237.
26   Ibidem, vol. II, p. 482-483.
27   H. N. CHITTICK, 1975, p. 37.
28   J. S. KIRKMAN, 1954, p. 71.
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figura 21.2 Cermica descoberta em Mro Deoua, em Comores. Parte superior: cermica do Oriente Mdio
e de Ych. Parte inferior: cermica vermelha de Dembeni (Fonte: P. Vrin).
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figura 21.3 Velha mesquita shrz de Domoni Anjouan, nas ilhas Comores, sculo XI (Fonte: levanta-
mento de H. T. Wright, P. Vrin).




Nota relativa s ilustraes 21.2 e 21.3.
    Depois desse estudo de F. T. Masao e H. W. Mutoro, importantes trabalhos arqueolgicos foram efetuados
no arquiplago de Comores, notadamente por H. T. Wright (1984), C. Allibert, A. Argan e J. Argan (1983),
C. Chanudet e P. Vrin (1983).
    Hoje, temos certeza que o arquiplago j era ocupado no sculo IX. As populaes das quatro ilhas fabri-
cavam uma cermica vermelha e preta, dita "Dembeni", parecida com o que foi encontrado por N. Chittick
nos nveis profundos da mesma poca, em Kilwa e Manda. Outra tradio de cermica local, dita "Majikavo"
usa ornamentos com motivos de concha Arca e apresenta algumas semelhanas com descobertas dos stios
do norte de Madagascar.
    Esses primeiros habitantes de Comores comerciavam com o exterior, em particular com as cidades de
Srf e Sohar, por onde vieram as cermicas orientais yuh e mdio-orientais, (opaco, tinglazed), bem como
vidro e outros objetos de luxo.
    Os comorenses da cultura de Dembeni conheciam a metalurgia e praticavam a pesca e a cultura do arroz.
    No sculo XI ocorreram mudanas culturais significativas. As construes de pedra surgiram e uma das
mais antigas mesquitas foi certamente a de Domoni, em seguida reconstruda vrias vezes.
    Surgiu ento uma nova cermica mdio-oriental, o sgrafiatto; os ornamentos da olaria majikavo, chamada
"Hanyundro", foram simplificados. As marmitas de esteatita importadas de Madagascar parecem ter sido
frequentes na poca. Instrumentos de fiao comprovam uma atividade de preparao de vestimentas.
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    A presena de elementos tipicamente africanos, a saber, potes com orna-
mentos nervurados e cortes hemisfricos nos nveis mais antigos,  incontes-
tvel. Como j vimos, esse tipo de cermica data, no mnimo, do sculo X, e
assemelha-se s cermicas dos stios de Zimbbue e de Mapungubue, no interior.
    A raridade das cermicas estriadas nas pocas posteriores a fundao da
cidade sugere que uma populao indgena vivia no local antes da chegada dos
rabes e que as tcnicas cermicas locais foram abandonadas e suplantadas por
tcnicas estrangeiras. Por conseguinte, as peas importadas, inclusive as cermi-
cas esmaltadas (islmicas) de cor azul ou verde, assim como as cermicas esmal-
tadas "amarelo e preto" e o celadon verde ou azul e branco (de origem chinesa),
tornaram-se, depois da fundao da cidade, mais abundantes que as cermicas
locais29. Na medida em que testemunham migraes e populaes, as marmitas
com ornamento cavado em forma de unha certamente tm um valor histrico.
Essas marmitas, at hoje fabricadas pelos giriama, foram descobertas em Gedi.
Seu tipo de ornamento  hoje considerado prprio dos wanyika30, em oposio
aos ornamentos entalhados caractersticos dos sualis31.
    As descobertas arqueolgicas feitas ao longo da costa oriental provam incon-
testavelmente que, em todos os casos, populaes autctones ocupavam as zonas
de povoamento e ali haviam desenvolvido sua prpria civilizao antes da che-
gada dos rabes. Os dados atuais sustentam a tese segundo a qual, no que diz
respeito  parte central e sul da costa, essas populaes pertenceriam ao grupo
banto.

      As fontes escritas
   Tais dados arqueolgicos mostrando as origens autctones dos assentamen-
tos existentes nessa regio durante o perodo considerado foram ainda confir-
mados por fontes escritas. A maioria desses documentos foi escrita por autores
rabes, aos quais se acrescentam algumas narrativas fragmentrias em chins.
Todavia,  difcil identificar com certeza os raros nomes de lugares menciona-
dos e, portanto, de localiz-los. Essa preponderncia das fontes escritas rabes
constitui precisamente uma das razes essenciais pelo fato de a costa oriental da
frica ter sido, por tanto tempo, considerada um assentamento rabo-persa, ou
um tipo de apndice cultural do vasto mundo islmico, no qual as populaes


29    J. S. KIRKMAN, 1954, p. 94.
30    Wanyika  um termo geral que designa o grupo tnico dos mijikenda.
31    J. S. KIRKMAN, 1954, p. 75.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                 699



locais apenas teriam desenvolvido um papel insignificante. Entretanto, o quadro
esboado por uma leitura atenta e uma interpretao imparcial dos principais
documentos de lngua rabe difere sensivelmente daquele proposto pelos his-
torigrafos da antiga escola.
    Para designar os povos da frica Oriental vivendo ao sul do rio Juba, os
rabes empregaram o termo al-Zandj (ou al- Zindj), cuja etimologia permanece
obscura32. No h dvida nenhuma que os rabes e outros povos muulmanos
sempre designaram assim os povos negroides e de expresso banta vivendo
na costa e no interior da frica Oriental. Algumas palavras zandj citadas por
autores rabes so indiscutivelmente de origem banta: o gegrafo Ibn al-Fakh
(aprox. 280/902-903) foi o primeiro a mencionar que a palavra designando Deus
em lngua zandj era lmakludjulu33; al-Mas`d (falecido em 345/956) props
a variante malkandjulu, ao passo que Mutahhar al-Makds (aprox. 355/966)
transcreveu malakui e djalui.34 Todas essas formas derivam da palavra banta
mkulu (grande homem) cujo o dobramento  mkulunkulu  designa algum
particularmente eminente. O termo que mais se aproxima desse arcasmo 
a palavra zulu unkulunkulu. A origem banta da lngua zandj aparece tambm
muito claramente em palavras como waflm, que significa "reis" ou "chefes" e
correspondem exatamente ao banto/kiswahili mfalme (no plural, wafalme)35 ou
ainda inbla (rinoceronte) derivada do banto mpela (pera ou pea em kiswahili) e
makwandju (tamarindus indica), do kiswahili mkuanju. Esses dois ltimos termos
foram citados pelo ilustre sbio al-Brn (falecido em 442/1050-1051).36
    Os documentos rabes dessa poca  entre os quais as abundantes narrativas
de Ibn al-Fakh, Buzurg ibn Shahriyr, al-Mas`d, al-Brn e, um pouco mais
tarde, al-Idrs  nunca mencionaram assentamentos ou colnias, de qualquer
importncia, povoados por imigrantes vindos de pases muulmanos. Essas
obras descrevem uma costa habitada e, mais importante ainda, controlada pela
populao autctone zandj. Desta forma, al-Mas`d, que visitou a costa pela
ltima vez em 304/916-917, insistiu sobre o carter no muulmano do Estado
zandj, ao passo que a famosa narrativa de Buzurg ibn Shahriyr, relatando o
sequestro de um rei dos zandj por mercadores de escravos rabes, testemunha


32   A respeito das primeiras origens conhecidas desse termo, ver L. M. DEVIC, 1883, p. 15 -35; E.
     CERULLI, 1957-1964, vol. I, p. 233-237.
33   Ibn al-FAKH, 1885, p.78.
34   Al-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 30; Mutahhar al-MAKDS, 1890-1919, vol. I, p. 63.
35   Al-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 6 e 29.
36   Al-BRN, 1887, p. 100; Al-BRN, 1941, p. 126.
700                                                                  frica do sculo VII ao XI



tambm a evoluo autnoma dos povos banto da costa37. Outrossim, a leitura
de um autor relativamente tardio como al-Idrs (falecido em 560/1165), que
incorporou em seus trabalhos informaes provenientes de fontes anteriores, nos
faz pensar que, em todos os assentamentos costeiros, o poder poltico estava nas
mos de africanos autctones.
    Por outro lado, todos os documentos rabes mencionam um comrcio em
perptua expanso entre a costa oriental da frica e os pases situados s margens
do Oceano ndico, bem como frequentes visitas de mercadores rabes, persas e
indianos no litoral africano. Essas trocas no representavam nenhuma novidade,
pois aos autores gregos e romanos do perodo precedente j haviam descrito os
laos comerciais existentes entre os habitantes dessa regio e outros povos do
Oceano ndico38. Voltaremos, um pouco mais adiante, a abordar a importncia
do comrcio internacional para a histria da costa oriental da frica, bem como
o impacto desse comrcio sobre o desenvolvimento econmico e cultural dos
povos africanos da regio.
    O erro dos historiadores da antiga escola foi de confundir a existncia de
relaes comerciais com um assentamento permanente e/ou uma supremacia
poltica dos estrangeiros. Pelo fato de a colonizao da poca moderna ter se
desenvolvido segundo o esquema "estabelecimento de laos comerciais/domnio
poltico/trocas culturais" concluiu-se erroneamente que tambm foi assim, em
pocas longnquas, ao longo da costa oriental da frica, sem que o menor indcio
pudesse sustentar tal tese.
    No que concerne  presena permanente de importantes elementos rabes e
persas nos assentamentos costeiros e ao papel fundador a eles atribudo, apenas
encontra-se, em todos os documentos relativos a essa poca, uma nica indica-
o, alis, muito ambgua. Al-Mas`d afirma que a ilha de Kanbal (Pemba) era
habitada por um povo muulmano, todavia falante da lngua zandj, e acrescenta
que os muulmanos conquistaram a ilha aps terem capturado as populaes
autctones. Esse mesmo autor indica tambm que a populao de Kanbal era
composta por muulmanos e por zandj praticantes da religio tradicional, e que
o rei era oriundo do primeiro grupo39. Ele nunca afirmou que esses muulmanos
eram rabes ou persas. O fato de eles falarem a lngua zandj sugere antes que



37    Buzurg ibn SHAHRIYR, 1883-1886, p. 50-60; G. S. P. FREEMAN-GRENVILLE, 1962b, p. 9-13;
      ver tambm P. QUENNELL, 1928, p. 44-52.
38    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 22.
39    Al-MAS`D, 1861-1877, vol. 1, p. 205; vol. 3, p. 31.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                 701



se tratava de africanos islamizados de expresso banta. De toda maneira, a ilha
era habitada pelos zandj antes da conquista muulmana.

     As tradies orais
    A terceira grande fonte para a histria da costa oriental da frica  consti-
tuda pelas tradies orais relatadas nas crnicas locais de Pate, Lamu, Kilwa e
algumas outras cidades. A maioria dessas crnicas, redigidas em kiswahili ou em
rabe, data do sculo XIX. Uma verso anterior da Crnica de Kilwa encontra-se
includa nas Dcadas da sia de Joo de Barros, que datam do sculo XVI e so,
portanto, mais prximas das pocas antigas. Muitas dessas tradies revelam um
esforo visando tecer relaes entre a dinastia ou a classe reinante e algumas
das figuras ou cidades ilustres da histria do Oriente Mdio. Eis uma tendncia
caracterstica das tradies orais de quase todas as sociedades africanas islami-
zadas, que enfeitam inutilmente as tradies autnticas ao lig-las aos sculos
passados e ao enriquec-las com os grandes nomes da histria dos primeiros
tempos do Isl.
    A tradio oral pode esclarecer de forma til queles que estudam a histria
de um povo ainda no alfabetizado, mas os historiadores no a exploraram ple-
namente, preferindo basear-se nos documentos escritos. Mesmo que a maioria
dessas tradies orais fosse pouco confivel, em razo da poca muito antiga por
elas relatada, elas oferecem, contudo, uma indicao interessante sobre a origem
dos trs grupos de Mombaa (ou Taifa tatu: Wa-Changamwe, Wa-Kilindini
e Wa-Tangana), ao afirmar que os membros desses grupos eram os primeiros
habitantes da regio, at o momento em que sua soberania foi-lhes confiscada
pelos soberanos shrz, no decorrer da segunda metade do sculo XIII40.
    At ento, a maioria dos historiadores serviu-se dessas fontes para mostrar
que houve difuso da cultura e imigrao de povos para a costa oriental da
frica, e que a histria e a civilizao da costa tm uma origem estrangeira.
 portanto necessrio reconsiderar a histria dessa regio, segundo uma nova
perspectiva, no intuito de identificar os elementos que, na gnese dessas civi-
lizaes costeiras, so fundamentalmente autctones e ligados ao pas. No se
trata aqui de negar os aportes estrangeiros, j que no estamos diante de uma
cultura fechada.




40   J. S. TRIMINGHAM, 1964, p.14.
702                                                             frica do sculo VII ao XI



      Os povos costeiros
    Os gegrafos rabes dividiam a costa oriental da frica em trs partes: o pas
dos brbaros (ou berberes) (Bild alBarbar) no norte, o pas dos zandj (Bild
alZandj) entre o rio Webi Shebele e um ponto da costa situado em algum lugar
na altura de Zanzibar, e o pas de Sofala (Ard ou Bild alSufla) no sul. Quanto
ao misterioso pas de WkWk, o carter confuso dos textos que o mencionam
no permite decidir se devemos situ-lo ainda mais a sul no continente africano,
ou se corresponde a Madagascar.
    O pas dos brbaros abrangia mais ou menos o territrio da atual Somlia,
isto , toda a parte norte em frente ao Golfo de Aden, onde se encontra ainda
hoje a cidade de Berber e as regies ao sul do cabo Guardafui. Quase no h
dvidas que os rabes deram esse nome de "brbaros" ao conjunto dos somalis
e dos outros povos do Chifre da frica falantes de lnguas cuchticas. Esses
povos eram por vezes chamados "berberes negros", em oposio aos berberes
da frica do Norte. Esse termo j havia sido utilizado com a mesma acepo
no Priplo do Mar Eritreu e por Ptolomeu e Cosmas Indicopleustes41. Embora
alguns historiadores situassem a fronteira entre o pas dos brbaros e aquele dos
zandj na altura do rio Juba42, inmeras indicaes mostram que os territrios dos
bantos se estendiam ao norte at o Webi Shebele. At hoje encontramos grupos
de lngua banta no vale interior do Webi Shebele, tais como os shidla, shabeli,
dube e elay, e aqueles chamados gosha vivem no norte do Juba. Os habitantes de
Brava ainda falam o chimbalazi, um dialeto kiswahili do Norte. Entretanto, tudo
indica que, a partir do sculo IV/X ou do sculo V/XI, alguns grupos somalis
penetraram na parte da costa entre Mogadscio e Brava; em meados do sculo
VI/XII, al-Idrs j assinalava a existncia de cinquenta aldeias de um grupo
somali, os hawiya, na margem de um rio que no foi nomeado, provavelmente
o Webi Shebele43. O mesmo autor cita tambm Merka como uma das ltimas
cidades situadas no territrio dos brbaros.
    O pas do zandj parece ter suscitado mais interesse que todas as outras regi-
es da costa, certamente por causa do comrcio florescente que os zandj manti-
nham com os pases das margens do Oceano ndico. As descries dos autores
rabes no deixam dvida alguma quanto  origem negra dos povos costeiros,
embora al-Istakhr (aprox. 340/951) tivesse mencionado "zandj brancos" vivendo

41    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 22.
42    V. V. MATVEYEV, 1960.
43    E. CERULLI, 1957-1964, vol. I, p. 41-45.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                       703



nas regies mais temperadas da frica Oriental44. Talvez seus informantes (ele
nunca visitara a frica) tenham feito aluso a alguns povos de lngua cuchtica
das regies montanhosas do interior e cuja pele era mais clara que aquela de
seus vizinhos de raa negra.
    Os autores anteriores ao sculo VI/XII no conheciam os nomes das loca-
lidades costeiras, diferentemente dos assentamentos situados nas ilhas vizi-
nhas. Alm de Kanbal (muito provavelmente a ilha de Pemba), visitada por
Al-Mas`d, apenas um outro topnimo foi mencionado por um autor antigo,
al-Djhiz (falecido em 255/869), que dividiu os zandj em dois ramos, os kanbal
e os lundjya. Tudo indica que esse ltimo termo seja uma alterao da palavra
banta Ungudja, que designa Zanzibar45. O mesmo autor relata tambm uma
narrativa extremamente interessante, da qual no se conhece outra verso, a
respeito de uma expedio martima liderada por um prncipe de Om. Tal
expedio atingiu, certamente no fim do sculo VII, o pas dos zandj e seus
membros foram massacrados pelos autctones.
    Entre todos os autores rabes, al-Idrs foi o primeiro a dar nome a alguns
assentamentos costeiros do pas dos zandj e de Sofala. Depois de al-Nadj,
ltima cidade do pas dos brbaros, ele descreve dois assentamentos situados na
fronteira do territrio zandj: Badhna e Karkna. O texto no permite deter-
minar com certeza se essas duas localidades eram habitadas por zandj ou por
brbaros, mas indica que a populao de Badhna estava governada pelo rei
dos zandj. Em seguida so tambm enumeradas  de norte a sul  Malindi,
Manbasa (Mombaa), a residncia do rei dos zandj, e al-Bans (ou al-Bays),
a ltima localidade zandj, muito prxima ao pas de Sofala. No foi possvel
localizar al-Bans de forma definitiva, mas tudo indica que ela se situaria em
algum lugar entre Tanga e Sadani46.
    Ao sul do territrio zandj se estendia o pas de Sofala, chamado Sufla
alZandj (Sufala dos zandj) pelos rabes para distingui-lo da cidade indiana
de Sofala, prximo a Bombaim47. O pas de Sofala, reputado por seu ouro, era
tambm chamado Sufla aldhahab (Sofala de ouro) ou Sufla altibr (Sofala


44   Al-ISTAKHR, 1870, p. 36.
45   Ver al-DJHIZ, 1903, p. 36; tambm se pode grafar Landjya, o prefixo la constituindo a forma arcaica
     de um prefixo banto.
46   Segundo al-IDRS (1970, p. 59), Mombaa encontrava-se a um dia e meio de viagem martima de
     al-Bans. Se considerarmos que a velocidade mdia dos veleiros rabes da poca era de 3 ns (ver G.
     F. HOURANI, 1951, p. 110-111), as duas cidades eram distantes em aproximadamente 108 milhas
     nuticas (220 km).
47   A cidade indiana de Sofala encontrava-se no local do antigo porto de Surparaka.
704                                                          frica do sculo VII ao XI



das areias aurferas). Embora certos autores tardios mencionassem a cidade
de Sofala, os gegrafos das pocas mais longnquas costumavam usar esse
topnimo (que significa "terra baixa" ou "depresso") para designar a totali-
dade da faixa do litoral que se estende de Pangani at o sul de Moambique.
De acordo com suas descries, as populaes de Sofala eram aparentadas
aos zandj e mantinham relaes comerciais com mercadores oriundos de
pases rabes e da ndia. A impresso geral que sobressai da narrativa de
al-Brn representa Sofala como um pas familiar frequentemente visitado,
e no como uma regio extica e longnqua. Era o ponto de chegada de todas
as travessias e nenhum navio aventurava-se nas guas perigosas encontradas
alm. Convm destacar essa interessante colocao de al-Brn, segundo a
qual, depois de Sofala, o Oceano ndico juntar-se-ia ao oceano ocidental (o
atlntico)48.
    Os assentamentos eram certamente dispersos ao longo da costa e, embora o
Priplo apenas mencionasse Rhapta e Menouthias,  razovel pensar que houve,
na origem, vrias pequenas aldeias de barro e argila, mais tarde tornadas impor-
tantes metrpoles como Mogadscio, Gedi, Manda, Kanbal e Kilwa.
    A partir do sculo III/IX, a maioria das aglomeraes da costa oriental
era povoada por sualis. O nmero de habitantes variava de uma cidade 
outra, em funo de sua organizao social e atividades econmicas. Nos
primeiros tempos poucas cidades foram construdas em pedra, mas, quando
os povoamentos se tornaram prsperos, os edifcios de pedra multiplicaram-
-se. As escavaes arqueolgicas mostraram que Kilwa e Mfia eram carac-
terizadas por suas habitaes de barro e argila, uma economia fundada na
pesca, uma cermica local, produtos derivados do ferro e um comrcio local
limitado49.

      A organizao social
   O Priplo faz aluso a povos selvagens, distinguidos por sua estatura, e
organizados de tal maneira que cada localidade estivesse sob a autoridade
de um chefe distinto50. O texto no menciona nenhuma lngua, e os povos
em questo poderiam ter falado tanto uma lngua banta, como qualquer
outra lngua.


48    Al-BRN, 1934, p. 122; Al-BRN, 1933, p.711.
49    H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 36.
50    J. W. T. ALLEN, 1949, p. 53.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                  705



    Os assentamentos estabelecidos na costa eram autnomos e, em geral, inde-
pendentes, seus laos mtuos oscilavam entre a aliana e a hostilidade. Quando
foram suficientemente poderosos para exigir um tributo, Kilwa, Pate e Mombaa
conheceram uma certa hegemonia, contudo instvel51.
    Em nenhum lugar a influncia muulmana foi a origem do surgimento da
cidade-estado. A emergncia da cidade inscreve-se naturalmente no contexto
da poca. Havia tempo que esse tipo de cidade-estado martima existia na costa
etope e os assentamentos que se estabeleceram na costa oriental da frica tive-
ram que se basear em uma economia martima muito ativa e capaz de arrecadar
taxas e tributos.
    Nos Estados de Benadir, o poder parece ter sido detido, a princpio, por um
conselho de chefes de uma linhagem. Em Mogadscio, Brava e Siyu, por exem-
plo, ao longo de suas respectivas histrias, um desses chefes podia chegar a ser
considerado o primus inter pares, mas a maioria das cidades costeiras tinha um
chefe, muitas vezes um imigrante rabe ou persa, deliberadamente aceito como
empate, certamente por no ser implicado nas rivalidades de cls52.
    A miscigenao das populaes indgenas e imigrantes deu a luz a uma
sociedade caracterizada pela mistura das raas e uma economia especfica. Esse
tipo de comunidade distinguiu-se em seguida por uma diferenciao socioe-
conmica e uma estratificao em grupos distintos, vivendo cada um em um
determinado bairro da cidade (mtaa). Outros grupos eram organizados entre si
segundo certa hierarquia53.
    Os autores rabes antigos al-Djhiz e al-Mas`d assinalam que esses assen-
tamentos eram governados por reis locais aparentemente eleitos e dispondo de
seu prprio exrcito.
    Spear sublinha, a justo ttulo, que uma histria da civilizao suali na qual
se coloca a tnica sobre as razes e cultura rabes funda-se unicamente em ele-
mentos surgidos no sculo XIX.  preciso aprofundar as pesquisas no intuito
de revelar fases da histria, tais como aquelas que dizem respeito aos sanye e
batawi de Pate, que foram quase totalmente ocultados pela evoluo posterior
das sociedades das tradies. Devemos esforar-nos para descobrir o significado
revestido por elas para especialistas da histria suali, de forma a poder us-las
para reconstituir nossa histria54.

51   J. S. TRIMINGHAM, 1964, p.11.
52   Ibidem, p. 14.
53   T. SPEAR, 1982, p. 6.
54   Ibidem, p. 19.
706                                                                       frica do sculo VII ao XI



      A lngua kiswahili
    Ao que parece, nesses assentamentos ou pequenas cidades costeiras
misturaram-se diferentes povos, a maioria de origem banta, o que deve ter
favorecido o desenvolvimento do kiswahili. O termo "swahili" vem do rabe shil
(no plural, sawhil), significando "costa". Em primeiro lugar, foi empregado para
designar a regio que se estendia de Mogadscio a Lamu. O kiswahili (literal-
mente "a lngua da costa") apenas desenvolver-se-ia mais tarde graas  intro-
duo de alguns emprstimos rabes e persas que acompanhou a islamizao
progressiva dos povos costeiros. Portanto, seria mais correto falar  pelo menos
antes do sculo VI/XII  do protokiswahili como a lngua banta que serviu de
base ao desenvolvimento posterior do kiswahili. Vrios autores eminentes ale-
gam que, de incio, a zona do kiswahili era situada a norte do delta do Tana e
ao longo da costa da Somlia, de onde teria se propagado para o sul55.
    As poucas palavras zandj citadas por al-Mas`d56 no deixam dvida alguma
quanto a origem banta dessa lngua. Portanto,  provvel que uma forma de
protokiswahili tenha sido falada na costa e no se tratava, de maneira alguma,
de qualquer jargo. Com efeito, al-Mas`d menciona a eloquncia desse povo
junto ao qual se encontravam oradores realizados.
    Alguns autores fizeram referncia  existncia, entre 800 e 1300, de aproxima-
damente dezenove povoamentos estabelecidos no norte de Tana, o que no exclui
a presena, no sul, de outras cidades, como Mombaa, Malindi, Zanzibar, Pemba,
Kilwa e Kanbal57. Essas cidades favoreceram o desenvolvimento do kiswahili,
cujo uso se propagou quando das migraes posteriores a partir da zona central.
    Os dados lingusticos recolhidos por Derek Nurse fizeram surgir, mais niti-
damente ainda, a ideia de uma sntese do kiswahili ao longo da costa norte.
Outros estudos estabeleceram de forma incontestvel que o kiswahili  uma
lngua banta estritamente aparentada ao pokomo e ao mijikenda, anteriormente
em uso na costa somali e na costa setentrional do Qunia. O kiswahili parece
ter se desenvolvido nesta regio em funo das cises que progressivamente
separaram os povos falantes da antiga lngua, da qual so oriundos o mijikenda,
o pokomo, e o kiswahili. Essa lngua-me assim deu a luz a dialetos distintos e,
depois, a lnguas diferentes58.


55    J. de V. ALLEN, 1981, p. 323; T. SPEAR, 1982, p. 16; 1978, p. 25.
56    Ver acima p. 637.
57    J. de V. ALLEN, 1981, p. 323.
58    T. SPEAR, 1982, p.16.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                  707



     medida que a sociedade das cidades costeiras, de lngua kiswahili, se
tornava mais complexa e que o comrcio se desenvolvia, a interao com os
negociantes rabes intensificava-se. Desta forma o kiswahili enriqueceu-se com
palavras e caracteres rabes. No sculo IX, o uso dessa lngua espalhou-se rumo
ao sul de acordo com os deslocamentos dos comerciantes vindos da Somlia e do
norte do Qunia. O exerccio de suas atividades na costa oriental conduziu esses
comerciantes a criarem ali novas cidades e a manterem relaes com a sociedade
no meio das quais eram instalados. Paulatinamente, tal situao favoreceu a
adeso ao Isl, a religio dos soberanos59.
    Essa concepo ope-se  tese sustentada por alguns outros historiadores,
segundo os quais os povos da costa oriental, falantes do kiswahili, faziam parte
de uma dispora rabe e teriam se dispersado ao longo da costa no decorrer dos
dois ltimos milnios. Esses autores sustentam que a cultura suali  fortemente
impregnada de cultura rabe, que a lngua usa caracteres rabes, que os edifcios
de pedra e as mesquitas so construdos ao estilo rabe, que a religio islmica
predomina na costa e que as maneiras corteses dos sualis so inteiramente ra-
bes, ainda mais quando comparados s culturas africanas do continente.
    O raciocnio segundo o qual a frica Oriental no poderia ter possudo uma
cultura inovadora, nem conhecido um desenvolvimento histrico sem inter-
veno externa,  basicamente propagandista. Da mesma forma,  dar prova
de racismo alegar que a raa e a cultura estariam to estreitamente ligadas que
apenas uma "raa" distinta de imigrantes poderia ter propagado essas ideias
novas. Esses historiadores no souberam sondar as lnguas bantas, as crenas
religiosas e os valores da cultura suali, e tampouco as estruturas socioeconmicas
da sociedade suali, para determinar se ela tinha razes africanas60.
    De acordo com recentes estudos consagrados  cultura e  sociedade suali, o
rastro das culturas africanas  muito mais forte do que deixaram pensar as teses
tendenciosas acima evocadas.
    A estrutura gramatical kiswahili e, em grande parte, o componente lexical da
lngua so estreitamente aparentados ao mijikenda e ao pokomo, e a literatura
 impregnada pela tradio oral africana.
    As formas materiais revestidas pela cultura suali no apresentam nenhuma
analogia com aquelas das civilizaes da Arbia ou da Prsia. No existem
concordncias precisas entre os edifcios de pedra dos sualis e a arquitetura do
Oriente Prximo, rabe ou persa, e nada permite dizer que esta ltima seria a

59   Ibidem, p. 17-18; T. SPEAR, 1978, p. 25.
60   T. SPEAR, 1982, p. 2.
708                                                           frica do sculo VII ao XI



inspiradora dos primeiros. Ao contrrio, a construo de habitaes em pedra
apareceu depois do avano econmico e do processo de diferenciao socio-
econmica ocorridos na costa, onde ela se substituiu  arquitetura de barro e
argila, antes predominante61. A arquitetura costeira to frequentemente usada
como prova da criao dos centros urbanos da costa pelos rabes, no emprega
nenhum material que no possa ser encontrado localmente. O coral e a pedra
calcria coralnea que dominam nas construes eram extrados no local. A
argamassa e o gesso eram igualmente fabricados a partir de coral e gipsita locais.
    A prpria cultura islmica da costa conserva um profundo rastro da religio
tradicional africana, com suas crenas nos espritos e na possesso dos espritos,
o culto dos ancestrais, a bruxaria e a adivinhao que se encontram nas tradies
islmicas locais, as quais coexistem ento com a tradio mais ortodoxa62.


      O Isl
    Parece-nos que a amplitude e o alcance do aporte muulmano tenham sido
exagerados por muitos historiadores. Essa tendncia se deve certamente ao fato
de a maioria dos documentos escritos anteriores ao sculo X/XVI ser redigida
em rabe. De fato, imigrantes do Isl chegaram ao norte da costa oriental da
frica a partir do sculo II/VIII e, ao sul, bem antes do sculo V/XI. Porm, 
preciso esperar o sculo VIII/XIV para que uma civilizao costeira propria-
mente islmica, a dos shrz, se diferenciasse das outras sociedades da costa63.
    Durante muito tempo, o Isl foi a religio somente dos imigrantes da Arbia
ou da Prsia estabelecidos nas cidades costeiras. Tudo indica que esses mercado-
res estrangeiros no tenham demonstrado um proselitismo muito ativo, j que
o nmero de autctones muulmanos permaneceu bastante limitado. Todavia,
alguns elementos da populao presente no entorno imediato dos imigrantes,
assim como certos africanos engajados em relaes comerciais com os estran-
geiros, abraaram progressivamente a religio islmica. Algumas colocaes de
al-Ma`sd, s quais j aludimos64, sugerem que a ilha de Kanbal era habitada
por muulmanos falantes da lngua dos zandj, e  geralmente admitido que o
Isl se implantou nas ilhas da costa oriental antes de propagar-se no continente.


61    Ibidem; P. S. GARLAKE, 1966, p. 113.
62    T. SPEAR, 1982, p. 2.
63    J. S. TRIMINGHAM, 1964, p. 11.
64    Ver acima.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                       709



    A partir do quadro pouco preciso da expanso do Isl fornecido pelos docu-
mentos, podemos inferir que, at o sculo VI-XII, e qui mais tarde, o Isl ainda
no possua o potencial suficiente para exercer uma influncia substancial sobre
a formao e a evoluo das sociedades da costa. De forma geral, as populaes
locais permaneciam fiis a seus cultos tradicionais, como testemunham nume-
rosos autores rabes.
    A expanso do Isl  estreitamente ligada ao problema dos shrz. A tradi-
o oral e, mais tarde, as crnicas escritas dos sualis afirmam que mercadores
originrios do Golfo Prsico, e notadamente de Srf, o porto da famosa cidade
de Shrz (na provncia de Frs, na Prsia, foram  frica Oriental durante os
sculos IX e X, o que parecem confirmar as cermicas de Manda e de Unguja
Ukuu65. Algumas das cermicas importadas foram incontestavelmente fabri-
cadas no Iraque, que, em 290/902-903, havia sido parcialmente conquistado
por uma seita de extremistas xiitas, os carmatas, estabelecidos principalmente
na regio de al-Ahs na Arbia, nas margens do Golfo Prsico. Embora no
existisse prova direta, parece que os carmatas tenham tambm comerciado com
a frica Oriental. Diversos escritos oriundos de Kilwa sugerem que a parte
norte do litoral "a costa de Benadir" teria provavelmente sido colonizada pelos
carmatas no sculo X. Algumas descobertas arqueolgicas parecem corroborar
a datao tradicional ligada a histria dos Sete Irmos, a qual faz parte da lenda
do nmero 7, certamente ligada aos carmatas. Tais descobertas permitem situar
a colonizao da costa entre 174/887 e 312/92466. Segundo a tradio, existiria
uma relao entre o Estado carmata de al-Ahs e a fundao das cidades-estados
de Mogadscio, Brava, Marka e, eventualmente do arquiplago de Lamu e Zan-
zibar. Da mesma forma, Kilwa teria sido criada na mesma poca (sculo X) que
as cidades do Benadir. Todavia, essa hiptese no pode ser levada a srio, j que
Kilwa s adquiriu um lugar de primeiro plano quando do advento, no fim do
sculo XIII, do que Chittick67considera como uma dinastia originria do sul da
Arbia. Passaram-se, no mnimo, duzentos anos entre a criao das cidades da
costa de Benadir e aquela De Kilwa, de Sofala e dos assentamentos das ilhas
Comores68.


65   Contudo, essas cermicas poderiam ter chegado  costa oriental da frica no somente por intermdio
     dos mercadores de Srf, como tambm graas aos navegadores vindos de outros grandes centros de
     comrcio. Ver R. C. POUWELS, 1974, p. 67.
66   Ibidem, p. 68-69.
67   H. N. CHITTICK, 1968b.
68   R. C. POUWELS, 1974, p. 70-71; J. S. TRIMINGHAM, 1964, p. 3-4.
710                                                                            frica do sculo VII ao XI



    Considerar os shirz como uma fora sociopoltica  contestvel, pois os
comerciantes imigrantes shrz estabelecidos na costa eram indivduos inde-
pendentes um dos outros, e no grupos aparentados. Eles foram naturalmente
influenciados pela lngua banta, mas conservaram ao mesmo tempo sua origi-
nalidade em relao aos africanos. A lngua (o kiswahili), como j sublinhamos,
desenvolveu-se na costa de Benadir e a comunicao que se estabeleceu entre os
assentamentos garantiu sua uniformizao em todos os grupos humanos. Cada
um tendo, contudo, seu prprio falar. Dessa interao nasceu uma civilizao
banto-islmica modelada por elementos rabes e persas, mas distinguindo-se
sempre por suas caractersticas bantas.
    A introduo de uma arquitetura em pedra muito avanada, o uso da cal,
do cimento e do madeiramento, a tecelagem do algodo, conhecimentos cien-
tficos, notadamente o calendrio solar persa, e o aporte de numerosos frutos
foram atribudos aos shirz. Entretanto, alguns alegam hoje que os shirz no
estariam na origem dessas inovaes, mas que seu desenvolvimento se acelerou
em funo da prosperidade gerada pelo comrcio. Algumas rvores frutferas
foram incontestavelmente trazidas pelos rabes e pelos persas, mas a alvenaria
e a carpintaria eram conhecidas na costa antes da chegada dos shirz.
    As tradies orais relativas  influncia persa sobre a costa de Benadir so
confirmadas pelo fato de a mesquita Arba` Rukum de Mogadscio portar uma
inscrio datada de 667/1268-1269, dedicada a Khusraw ibn Muhammad al-
Shrz69. Uma inscrio tumular mais antiga, datando de 614/1217, porta um
nome, al-Nsbr al-Khurasn, que tambm sugere uma origem persa70. Porm,
no h srios indcios de importantes atividades que teriam sido levadas a cabo
por iniciativa dos persas no sul da costa da Somlia. Contudo, indcios mostram
que, a partir do ano 1100 da era crist, grupos de negociante, em grande parte
oriundos de casamentos mistos entre rabo-persas e autctones da costa de
Benadir, comearam a descer rumo ao sul e introduziram a cultura rabe isl-
mica nas ilhas de Kilwa, Zanzibar, Pemba e Mafia. Estas ltimas, assim como
as cidades-estados de Ozi, Mombaa e Malindi, permaneceram shrz, mas
conservaram caractersticas banta muito pronunciadas at o perodo posterior
 conquista portuguesa71




69    E. CERULLI, 1957-1964, vol. I, p. 9; a pronncia local do nome  Khisarwa.
70    Ibidem, p. 2-3.
71    Ver J. S. TRIMINGHAM, 1964, p. 10-11.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                711



     A arquitetura
    Os edifcios de pedra dos assentamentos costeiros parecem ter sido, no in-
cio, concentrados no norte do delta de Tana, uma regio designada pelo termo
Swahilini. Todavia, antes do sculo III/IX, em vrios lugares, a maioria das
construes era apenas constituda, como j indicamos, por habitaes de barro e
argila. Os telhados eram similares queles que ainda se encontram hoje, cobertos
por um tipo de sap feito com folhas de palmeira mwaa ou de makuti (palmas
de coqueiro). Mesmo nos perodos mais recentes, esse tipo de casa persistiu, e
ainda  encontrado nas cidades costeiras. Existe certo nmero de construes
em pedra e de muros baixos, mas  difcil determinar se faziam ou no parte de
estruturas mais amplas72.
    Vrios historiadores atriburam uma origem persa e rabe  arquitetura de
pedra da costa. Essa concepo tendenciosa foi descartada em proveito de uma
explicao mais aceitvel. J sublinhamos que nenhuma regio do Oriente Pr-
ximo apresenta um nmero suficiente de pontos precisos de concordncia para
permitir estabelecer nitidamente uma origem persa ou rabe. Todas as mat-
rias primas (calcrio, calcrio coralneo, coral, argamassa, gesso) sempre foram
encontradas em abundncia no local e nada impedia que um estilo arquitetnico
inovador aparecesse no pas. Certa influncia dos negociantes estrangeiros e
outros imigrantes no pode, contudo, ser rejeitada73.


     As atividades econmicas
     A agricultura
   No plano econmico, a sociedade costeira constitua um conjunto homog-
neo de comunidades urbanas e rurais, cuja populao era composta, em grande
parte, por agricultores74. Existiam tambm povos pastores, sobretudo no norte,
na costa de Benadir. Escritos chineses remontando ao sculo IX ensinam-nos
que os habitantes da costa de Barbara viviam da carne, do leite e do sangue
extrados do rebanho. A prtica consistindo em beber sangue fresco retirado do
rebanho ainda est em uso junto aos massais.


72   H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 235.
73   J. M. GRAY, 1951, p. 5; P. S. GARLAKE, 1966, p.113.
74   J. de V. ALLEN, 1981, p. 330.
712                                                            frica do sculo VII ao XI



   A maioria dos sualis, sobretudo nas comunidades relativamente pequenas
ou mdias, mas, por vezes tambm nas grandes, dedicavam-se  agricultura.
Ylvisaker relata a existncia de um costume segundo o qual, cada ano, citadinos
migravam para o interior do pas, durante trs a quatros meses, para ali praticar
alguns plantios. Tal costume era provavelmente mais difundido em todo pas
suali em uma poca mais antiga75. De fato, os documentos rabes contm algu-
mas indicaes fragmentrias relativas aos cereais e outros plantios da poca.
Os principais plantios parecem ter sido o sorgo (dhurra), e o inhame, cujo
nome local, alkilr, foi mencionado por al-Mas`d. Outra planta comestvel
cultivada pelos zandj e chamada alrsan foi identificada como sendo o coleus76.
A base da alimentao dos povos costeiros era completada pela banana, o cco,
o arroz, o tamarindo e mesmo, em alguns lugares, a uva; a cana-de-acar foi
tambm mencionada. Ignoramos se o mel consumido era o produto de ativida-
des apcolas ou se ele era extrado da natureza.
   O escritor e viajante chins Tuan Ch`eng Shin (falecido em 863) constatou
que nenhum dos cincos cereais era utilizado em Barbara, ao passo que Wang
Ta-yan registrou que, em Zanzibar, os inhames substituam os cereais. Por sua
vez, Fei Hsim achou estranho que os habitantes de Brava cultivassem cebola e
alho invs de abboras77.
   As pesquisas arqueolgicas realizadas em Kilwa revelam que o nico cereal
do qual se possa afirmar que era cultivado  o sorgo, como testemunha a pre-
sena no local de gros carbonizados. No que tange s pocas antigas, nenhum
instrumento para moer o gro foi encontrado, enquanto, no decorrer de pocas
mais recentes, ms giratrias foram usadas da mesma forma que as so hoje, mas
no permanece nenhum rastro desses instrumentos nos arquivos arqueolgicos78.

      A pesca e as atividades martimas
     evidente que as comunidades costeiras estavam engajadas em numerosas
atividades martimas: pesca, construo de canoas, navegao a vela. Vrios autores
rabes sublinham que os zandj se alimentavam, sobretudo, de peixe e acrescentam
que, para tanto, eles amolavam seus dentes. A pesca era praticada ao longo da
costa, mas segundo os documentos, ela constitua, em alguns lugares, a principal


75    Ibidem, p. 329.
76    Al-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 30.
77    P. WHEATLEY, 1975, p. 93.
78    H. N. CHITTICK, 1974, vol.I, p. 236.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                        713



atividade, como em Malindi, cujos habitantes exportavam o produto de sua pesca.
Parece que as populaes vivendo ao extremo sul do litoral eram fortemente
dependentes dos produtos do mar para sua alimentao: peixes, mas tambm
tartarugas e moluscos. Em algumas ilhas, os zandj apanhavam conchas para fazer
adornos, e no para se alimentar. Havia pescadores de prolas no pas de Sofala.
    Embora a prtica da pesca suponha a capacidade de construir navios e o
conhecimento da navegao, os autores rabes silenciam esse aspecto da vida
cotidiana dos Zandj. Buzurg ibn Shahriyr foi o nico a evocar as inmeras
embarcaes (zawrk) que cercavam os navios rabes nas proximidades da
costa de Sofala. O mesmo autor nota que alguns dos capites do navio percor-
rendo o Oceano ndico eram os zandj, o que tende a provar que os bantos da
frica Oriental praticavam no somente a cabotagem, mas tambm a navega-
o em alto mar79. O Priplo faz claramente aluso ao uso do navio chamado
dau la mtepe,80no primeiro sculo da era crist, na costa de Benadir e da atual
Tanznia81. Alm do mtepe, existia outro tipo de navio chamado ngalawa. Este
ltimo  uma canoa bastante estreita que seria muito instvel e perigosa em
alto mar se no fosse equipada de uma ama (viga de estabilizao)82. Fora da
frica Oriental, encontramos esse tipo de embarcao na Indonsia, na Nova
Guin ocidental e em Madagascar. A canoa de tipo "outrigger", de ama simples
ou dupla,  corrente nas ilhas Comores, ao passo que somente a de ama dupla 
usada na frica Oriental, no em toda parte, mas principalmente em Zanzibar
e na parte central da costa da Tanznia.
    H controvrsia quanto  origem do ngalawa. Todavia, de acordo com alguns
traos de ordem lingustica e estrutural, esse navio teria aparecido na costa
oriental da frica, provavelmente nas ilhas Comores, aps o domnio portugus.
Em seguida, o uso dessa embarcao teria se difundido em outras regies da
frica do Leste83.
    Entretanto, o navio costurado mtepe e sua variante menor dau la mtepe so muito
mais antigos. Por muito tempo percorreram a costa, mas todos hoje desapareceram,
com exceo de alguns espcimes conservados nos museus. Tambm h contro-
vrsia quanto  sua origem. No plano lingustico, tudo indica que o mtepe seja

79   Buzurg ibn SHAHRIYR, 1883-1886, p. 54; por outro lado, Al-IDRS (1970, p. 60-61) nega catego-
     ricamente a existncia de navios zandj capazes de realizar longas travessias.
80   Mtepe: canoa de pele costurada difundida em toda a costa, mais especificamente no centro e no sul da
     costa oriental.
81   J. I. MILLER, 1969, p. 168.
82   A. H. J. PRINS, 1959, p. 205.
83   Ibidem, p. 205-210.
714                                                                              frica do sculo VII ao XI



caracterstico da frica Oriental, porm, elementos de ordem estrutural levam a
pensar que se trataria de um prottipo indiano adaptado pelos persas e os rabes84.
   As paredes de uma habitao fazendo parte das runas de Gedi portam uma
inscrio que indiscutivelmente, representa um mtepe, provisoriamente datado
dos sculos XV ou XVI. Outras inscries murais descobertas em Kilwa, Songo
Mnara e Ungwana datam de perodos situados entre os sculos XIII e XVIII85.
Essas decoraes visavam talvez sublinhar o papel preponderante, para a pros-
peridade dos assentamentos, dos transportes martimos e, por conseguinte, do
comrcio. O mtepe e o dau la mtepe so ambos representados nessas inscries.
Encontramo-nas igualmente em Farkwa e em Forte Jesus86.

      A pecuria
    Embora a prtica da pecuria fosse atestada desde tempos muito antigos no
norte do rio Juba, no sul, a situao permanece pouco conhecida. Al-Mas`d
relata que os zandj criavam bois que eles montavam (com a ajuda de uma sela e
de um cabresto) quando dos combates  o mfalm dispunha de uma "cavalaria"
de 300.000 guerreiros  ao passo que Buzurg menciona a criao de ovinos e
outros animais domsticos87. Por outro lado, al-Idrs sublinha expressamente a
ausncia de animais de carga ou de rebanho junto aos povos da costa oriental,
e a pecuria no  mencionada pelos outros autores rabes88. Sabemos que as
regies costeiras da frica Oriental so atualmente infestadas de moscas ts-ts
o que as tornam imprprias para a criao de rebanho. Porm, no  impossvel
que, em pocas mais remotas, algumas zonas tenham escapado desse flagelo e
que a pecuria ali pudesse ter sido praticada89.

      A caa
   Ainda que a caa tenha certamente constitudo uma atividade econmica de
base, sua prtica apenas foi atestada por alguns raros testemunhos diretos. Os


84    Ibidem, p. 210-213.
85    Ibidem, p. 211; P. S. GARLAKE, 1966, p. 197.
86    P. S. GARLAKE, 1966, p. 197, 206.
87    Al-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 6-7; Buzurg ibn SHAHRIYR, 1883-1886, p. 151.
88    Al-IDRS, 1970, p. 60.
89    H. N. CHITTICK (1977, p. 188) sustenta erroneamente que os povos praticando a criao de rebanho
      (e utilizando-o para montaria) mencionados por Al-Mas`d eram de origem etope (cuchtica). Todavia,
      o conjunto do contexto dos diferentes trechos onde o rebanho  mencionado remete, sem dvida alguma,
      aos zandj negros que viviam na parte sul do litoral.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                                       715



autores rabes interessaram-se sobre tudo pela caa ao elefante e forneceram
alguns detalhes sobre as tcnicas empregadas, notadamente o uso de substn-
cias txicas para envenenar os pontos de guas frequentados pelos elefantes
(al- Mas`d) ou a ponta das armas de caa (al-Brn). Caava-se tambm o
leopardo (al-numr), o leo, o lobo (provavelmente o chacal) e o macaco. O
principal objetivo da caa consistia em fornecer produtos de exportao (mar-
fim, peles). Porm, embora no sejam mencionadas atividades de caa para fins
alimentcios, pode-se pensar que a carne das presas, (notadamente os elefantes)
devia ser consumida.

     A explorao dos minerais
    De todos os minerais, foi principalmente o ouro que chamou a ateno dos auto-
res rabes. Para eles, Sofala fazia parte das mais famosas regies aurferas do mundo
conhecido. Ainda que, segundo al-Idrs, o ouro proviesse das cidades costeiras de
Djsta e Daghta (cujas localizaes ainda no foram identificadas, mas provavel-
mente se situavam na costa de Moambique), todas as outras fontes escritas indicam
que as principais minas de ouro de Sofala se encontravam no interior das terras, os
assentamentos costeiros sendo simples portos de exportao. Al- Brn assinala que
o ouro explorado em Sofala se apresentava sob a forma de gros; o mesmo tipo de
mineral foi descoberto no complexo arqueolgico do Grande Zimbbue.
    Os habitantes da costa oriental no usavam o ouro como meio de troca
universal, mas eram plenamente conscientes de seu valor como moeda e bem
exportvel. Entretanto, as populaes locais davam mais valor ao ferro e ao cobre:
al-Mas`d relata que o ferro servia para a confeco de adornos, preferencial-
mente ao ouro ou  prata.
    O principal testemunho referente  explorao do ferro  fornecido por
al-Idrs. De acordo com ele, Malindi e Mombaa, no norte, bem como Djantma
e Dandma, no sul, constituam os grandes centros de produo90. Para essas
cidades, o ferro teria se tornado um dos principais produtos de exportao e
sua primeira fonte de renda. Nada nos permite colocar em dvida a narra-
tiva de al-Idrs, porm suas afirmaes levantam algumas questes. At hoje,
nenhum forno destinado  fundio do ferro foi descoberto nos arredores de
Mombaa ou Malindi91. Ademais, os outros autores rabes nunca menciona-


90   Al-IDRS, 1970, p. 59-60, 68-69.
91    possvel que Al-Idrs tenha se referido a Malindi para designar a regio de Manda, onde os arque-
     logos encontraram escrias provenientes da fundio do ferro.
716                                                             frica do sculo VII ao XI



ram o trabalho do ferro ou a produo de ferramentas e armas com esse metal,
atividades consideradas normais em uma regio rica em ferro. Obviamente, isso
no significa que essas atividades eram desconhecidas na costa, mas tudo indica
que elas tenham conservado um carter local em propores modestas. Al-Idrs
confirma tal situao ao sublinhar que, apesar de numerosos, os habitantes do
pas dos zandj possuam poucas armas92. Apenas novas pesquisas arqueolgicas
permitiriam resolver esse importante problema.

      As atividades comerciais
    A costa oriental da frica  uma das raras regies da frica subsaariana a
ter mantido muito cedo relaes comerciais regulares com o mundo exterior93.
O surgimento, a partir do sculo VII, de um poderoso imprio islmico no
Oriente Mdio estimulou consideravelmente o desenvolvimento das atividades
comerciais no Oceano ndico, inclusive na costa oriental da frica. Durante
o perodo considerado, a existncia, nos pases islmicos, de um mercado em
perptua expanso ofereceu novas possibilidades comerciais s exportaes dos
assentamentos costeiros. Paralelamente ao crescimento do volume das trocas,
novos produtos juntaram-se s exportaes tradicionais, contribuindo assim 
diversificao do comrcio e  especializao das diferentes cidades da costa. O
comrcio tambm favoreceu o desenvolvimento de uma cidade em detrimento
de outra em funo de ela ser, ou no, um centro de comrcio florescente. O
ritmo das migraes e das trocas parecem ter se intensificado nos sculos IX e
X. Foi nesta poca que cidades costeiras comerciantes tais como Mogadscio,
Marka, Brava, Mombasa, Manda e Unguja Ukuu foram fundadas e se desenvol-
veram. Essa ou aquela cidade conhecia alternadamente a grandeza e a decadn-
cia, de acordo com os caprichos do comrcio; uma gerao construa elegantes
edifcios de pedras, a seguinte voltava s habitaes de argila ou de barro. Porm,
no decorrer do perodo estudo (sculo VII a XI), as nicas cidades importantes
talvez tenham sido Manda, no arquiplago de Lamu, e Kambal. As outras
parecem ter atingindo seu apogeu apenas depois do sculo XI94.
    O comrcio e as trocas que se desenvolveram em torno das cidades costei-
ras podem ser divididos em trs categorias: o comrcio com os estrangeiros, o
comrcio entre os assentamentos costeiros e o comrcio com o interior.


92    Al-IDRS, 1970, p. 61.
93    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 22.
94    T. SPEAR, 1982, p. 5; G. SHEPHERD, 1982, p. 7-10.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                 717



     O comrcio com os estrangeiros
    rabes, persas, indianos e indonsios foram atrados para as cidades costeiras
pelo comrcio de artigos numerosos e variados, cujos mais importantes eram
o marfim, as escamas de tartaruga, o mbar-gris, o incenso, as especiarias, os
escravos, o ouro e o ferro. Embora no tenhamos provas da existncia de trocas
diretas, sabemos que alguns produtos africanos eram conhecidos e procurados
na China da poca Tang (618-906). A costa oriental da frica tinha a repu-
tao de possuir abundantes reservas de mbar-gris, o qual foi introduzido na
China aproximadamente no fim do reinado da dinastia Tang95. No sculo VII, a
essncia de estoraque, as escamas de tartaruga proveniente de Barbara, o sangue-
-de-drago (resinas de dracaena schizantha e de d. cinnabari) e o aloe (suco da
planta) faziam parte dos produtos exportados para a China96. Os autores chi-
neses do sculo IX mencionam tambm que os habitantes de Brbara tinham
o costume de vender sua populao feminina a negociantes estrangeiros. Mais
tarde, Chai Tu-kua contaria como selvagens de corpo de laca preta de Kumr
Zangi (Zanzibar) eram capturados aps terem sido atrados com comida97.
Segundo al-Idrs, os rabes de Om atraiam igualmente crianas oferecendo-
-lhes tmaras e sequestravam-nos para escraviz-los98. A famosa narrativa de
Buzurg ibn Shahriyr relatando o sequestro do rei dos zandj mostra-nos outro
estratagema usado para capturar escravos99.
    Surge um problema de interpretao no que diz respeito ao trfico de escra-
vos. Para o perodo compreendido entre os sculos VII e XII, quase no existem
testemunhos escritos diretos atestando a existncia deste trfico ao longo da
costa oriental da frica. As narrativas s quais aludimos mostram que mais se
conseguia escravos ao capturar ou sequestrar autctones do que ao compr-los.
Ora, tal mtodo, pouco eficiente a longo prazo e apenas empregado de forma
ocasional, s podia fornecer um nmero limitado de escravos: era impossvel agir
assim, de forma regular ou prolongada, sem provocar a hostilidade das popula-
es costeiras e comprometer o desenvolvimento de relaes comerciais normais.
    Todavia, "escravos zandj" eram empregados em massa para trabalhos de irri-
gao no sul do Iraque e lideraram a famosa revolta de escravos do sculo IX.


95   P. WHEATLEY, 1975, p.105; J. KIRKMAN, 1954, p. 95.
96   P. WHEATLEY, 1975, p.105.
97   Ibidem.
98   Al-IDRS, 1970, p.61.
99   Buzurg ibn SHAHRIYR, 1883-1886, p. 51-60.
718                                                            frica do sculo VII ao XI



Isso nos leva a pensar que os pases islmicos eram regularmente abastecidos
em escravos provenientes da frica Oriental100.
    Existe uma possvel resposta a essa aparente contradio: por razes des-
conhecidas, o termo "zandj" teria sido aplicado sem discriminao a todos os
escravos negros empregados no sul do Iraque, mesmo que estes fossem oriun-
dos de diversas regies (Etipia, Chifre ou outras regies da frica, inclusive
da frica Oriental). Isso no significa que o trfico de escravos era totalmente
inexistente na costa oriental da frica. Ele era certamente praticado, mas em
propores assaz modestas, j que escapou da ateno dos autores rabes, que
enumeram de forma muito detalhada as diferentes mercadorias importadas e
exportadas, sem, contudo, mencionar o trfico de escravos.
    Desde tempos remotos, os portos da frica Oriental eram conhecidos por
suas exportaes, cuja maior parte era constituda por produtos naturais tradicio-
nais: marfim, encaminhado at a China, mbar-gris, peles de leopardo e escamas
de tartaruga. O ouro comeou a ser exportado das regies do sul a partir do
sculo IV/X. Dois sculos mais tarde, al-Idrs mencionaria o ferro como sendo
a principal exportao de inmeras cidades costeiras. A costa de Benadir era
reputada por suas exportaes de incensos, perfumes e leos aromticos, tais
como o blsamo e a mirra.
    No que tange s importaes, os principais artigos citados pelos documentos
rabes e chineses so as cermicas (islmicas e chinesas), os estofos, as prolas e
o vidro. No incio do sculo XII, imigrantes do sul da sia que, alguns sculos
antes, haviam se instalado no norte de Madagascar e nas ilhas Comores expor-
tavam recipientes de esteatito para Kilwa, Manda e regies mais longnquas101.
    Em Kilwa, escavaes do perodo pr-dinstico (provavelmente do fim do
sculo VI/XII) revelam que, entre os objetos importados (cermica islmica,
prolas de vidro), a proporo de vidro em relao  cermica estrangeira era
superior quela dos perodos posteriores. No somente foram encontradas pro-
las de vidro, como tambm prolas de cornalina provenientes de Cambay, nas
ndias. Quanto  cermica importada, a mais antiga  a cermica islmica, que
consiste em um fino engobo coberto por uma camada de esmalte marmorizado
(sgraffito). Esse tipo de cermica  caracterstico do Isl e encontramo-na entre
o sculo IX, em Samarra (no Iraque), e o incio do sculo X. Na frica Oriental,
o sgraffito foi certamente mais caracterstico do sculo VII/XIII102. Essa cate-

100 Ver o captulo 26 abaixo.
101 G. SHEPHERD, 1982, p. 15.
102 P. S. GARLAKE, 1966, p. 53.
A costa da frica Oriental e as ilhas Comores                                 719



goria de cermica  tambm a menos comum a ter sido descoberta. Aquelas
que representavam a maior parte das importaes, sobretudo em Gedi, eram a
faiana azul e verde, assim como a porcelana da China amarela e preta, verde
cladon, azul e branca103. No sculo V/XI, Duyvendak relatou que os chineses
exportavam principalmente ouro, prata, cobre, moedas, seda e porcelana. Moedas
chinesas foram encontradas ao longo da costa. Continuaram a chegar na frica
Oriental at o sculo VII/XIII104.

    O comrcio entre os assentamentos costeiros
    Em geral, as grandes cidades eram mais voltadas para o comrcio martimo
estrangeiro que as pequenas, que viviam sobretudo da agricultura e da pesca.
Contudo, podemos supor que as interaes entre assentamentos eram frequen-
tes. No dispomos de muitos elementos que confirmariam a existncia de trocas
entre assentamentos costeiros durante o perodo estudado, mas alguns textos
mencionam um fluxo de trocas entre Kilwa e outras cidades importantes como
Manda105.
    Escavaes realizadas recentemente em Manda permitiram chegar  conclu-
so que, no decorrer dos sculos IX e X, no havia prolas de vidro nessa cidade,
tampouco em Kilwa. Nem Manda nem Kilwa parecem ter tido importantes
trocas com o interior. As prolas de vidro datando de um perodo antigo so,
portanto, extremamente raras nas regies interioranas106.

    O comrcio com o interior
   Ainda no se sabe se contatos foram estabelecidos, em pocas remotas,
entre os assentamentos costeiros e o interior. Uma ausncia total de trocas 
inconcebvel, porm, nenhum indcio srio  nesse caso, apenas a arqueologia
pode fornec-los  foi descoberto at hoje. Apenas a costa de Sofala parece ter
mantido relaes comerciais de certa importncia com o interior: a maior parte
do ouro exportado por esse pas provinha da regio correspondente ao atual
Zimbbue. Entretanto seria prematuro concluir que, nessas pocas longnquas,
os povos costeiros tenham se aventurado muito longe no interior.



103 J. S. KIRKMAN, 1954, p. 94; 1966, p. 18-19.
104 G. S. P. FREEMAN-GRENVILLE, 1959, p. 253.
105 H. N. CHITTICK, 1974, vol. I, p. 236.
106 Ibidem, p. 483.
720                                                           frica do sculo VII ao XI



    Certamente no havia ligaes comerciais propriamente ditas com regies
longnquas; no mximo podemos imaginar que bens provenientes de regies
longnquas eram transmitidos de um povo para outro graas a trocas sucessivas,
sem nunca ser encaminhados por caravanas, como foi o caso no sculo XIX. 
provvel que as cidades costeiras tenham se abastecido em produtos agrcolas
junto s populaes vizinhas do imediato interior. Em troca desses produtos,
assim como do marfim e das peles, os camponeses recebiam peixe desidratado
ou prolas. Tambm  provvel que os habitantes do interior tenham levado seus
produtos em cidades ou mercados situados perto da costa. Esses contatos no
deixaram rastros durveis. As cermicas encontradas no litoral no apresentam
nenhuma semelhana com aquelas do interior.


      Concluso
    No decorrer do perodo estudado, a costa oriental da frica assistiu ao incio
de alguns processos histricos que s atingiriam seu pleno desenvolvimento
depois do sculo XII. Porm, foi provavelmente nessa poca que foram lanadas
as bases de uma cultura africana a partir da qual desabrocharia posteriormente
a rica civilizao suali. O avano do comrcio entre pases do Oceano ndico
comeou a influir sobre o desenvolvimento poltico e social dos povos costeiros
de lngua banta. Em um primeiro tempo o impacto foi principalmente percep-
tvel no domnio econmico, com a maior abertura de alguns assentamentos
costeiros ao comrcio com o estrangeiro. Paulatinamente, a poltica, a cultura
e a religio impregnaram-se dos valores trazidos pelos imigrantes dos pases
islmicos. A primeira regio exposta a essas influncias externas foi a parte da
costa que se estende ao norte do rio Juba. No decorrer dos seguintes sculos,
novas ondas de migrantes, originrias desse foco inicial, propagariam, no Sul, a
nova cultura oriunda dessa mistura. Ao mesmo tempo, o conjunto dos imigran-
tes  que nunca foi muito numeroso  estava submisso  influncia da civilizao
banta. O mais marcante resultado desse processo de trocas e de assimilao
recprocas foi a emergncia da lngua e da cultura suali, sntese dos saberes
africanos e dos aportes orientais.
O interior da frica Oriental                                            721



                                CAPTULO 22


                 O interior da frica Oriental
                                Christopher Ehret




   Nas regies do interior da frica Oriental, o perodo que se estende do sculo
VII ao XI da Era Crist aparece, no conjunto, como uma fase de consolidao
das tendncias anteriores. As grandes transformaes tnicas e econmicas da
primeira Idade do Ferro j remontam a vrios sculos,  poca da mudana de
era e aos dois ou trs sculos posteriores que assistiram  expanso das comu-
nidades bantas em regies muito dispersadas e  difuso da tecnologia do ferro.
Ser preciso esperar sculos antes de assistir a transformaes equivalentes,
mas isso no significa que esse perodo esteja desprovido de interesse. Novas
expanses tnicas ocorreram, modificando assim o mapa lingustico e impondo
novos desafios s comunidades j estabelecidas. Por vezes tambm, sries de
mudanas menores desencadeariam algo novo, sensivelmente diferente da mera
soma dessas transformaes.


    Os movimentos populacionais
    No incio do sculo VII, os dois grupos mais importantes eram os cuchi-
tas meridionais e os bantos. As lnguas nilticas e khoisan eram amplamente
difundidas, mas os povos que as falavam no foram os mais ativos em meio aos
acontecimentos dos meados do primeiro milnio.
722                                                                           frica do sculo VII ao XI



      Os cuchitas
   Os primeiros cuchitas meridionais implantaram-se no norte do Qunia
durante o terceiro milnio antes da Era Crist, e alguns de seus descendentes
lingusticos, que progrediram mais adiante rumo ao sul, chegaram, no fim do
segundo milnio, ao centro da Tanznia Setentrional. Os povos falantes das pri-
meiras lnguas cuchticas do Sul teriam dado origem aos vestgios arqueolgicos
das diversas culturas pertencentes  tradio neoltica pastoril das savanas da
frica Oriental1. Como indicam os dados arqueolgicos, os cuchitas meridio-
nais criaram, desde o incio de sua implantao, bovinos, pequeno rebanho e,
aparentemente, burros. Segundo dados lingusticos claros ainda no totalmente
confirmados pela arqueologia, muitos dentre eles cultivavam cereais2, alguns
desde tempos muito longnquos, usando tanto a irrigao quanto os adubos
orgnicos para melhorar o rendimento.
   Os cuchitas meridionais do incio do primeiro milnio da Era Crist forma-
vam um grupo muito heterogneo. Os Dahalo eram estabelecidos ao longo do
Tana e em parte da regio prxima  costa do Qunia. Os grupos implantados
ao longo do Tana eram aparentemente de cultivadores, assim como os pokomo
e os elwana de lngua banta, que, em seguida, os absorveriam e substituiriam
no decorrer do segundo milnio da Era Crist3. Pelos menos uma comunidade
de caadores-coletores, estabelecida na atual regio de Witu, adotara a lngua
dahalo, abandonando sua antiga lngua khoisan, da qual conservou, contudo,
certo nmero de palavras com consoantes estalantes4.
   Mais no interior, os cuchitas meridionais do Rift dominavam. Uma de
suas sociedades, cuja lembrana foi conservada na tradio oral sob o nome de
Mbisha, vivia nos montes Taita5. A implantao das velhas comunidades falantes
do dialeto "asa antigo" pode ser situada em torno do Kilimanjaro e, rumo ao sul,
at a estepe massai; os dois grupos cuchitas meridionais, estreitamente aparen-
tados, dos antigos kw`adza e dos iringa ocupavam algumas partes do centro da
atual Repblica Unida da Tanznia (ver figura 22.1). Essas trs ltimas socie-
dades falavam o que podemos considerar dialetos de uma nica lngua variada.
As sociedades asa e kwa`dza antigas parecem ter coexistido, como mais tarde


1     S. H. AMBROSE, 1982.
2     C. EHRET, 1980a.
3      o que indicam os termos de cultivo aparentemente emprestados ao pokomo pela lngua dahalo.
4     C. EHRET, 1974a, p. 10-11, 67.
5     C. EHRET e D. NURSE, 1981a e 1981b.
O interior da frica Oriental                                                                       723




figura 22.1    As principais sociedades da frica Oriental do sculo VII ao IX (Fonte: C. Ehret).
724                                                                             frica do sculo VII ao XI



as sociedades agrcolas da regio com bandos de caadores-coletores, dos quais
alguns haviam adotado as lnguas dos grupos dominantes de cultivadores e pas-
tores6. A oeste do Vale do Rift, na Repblica Unida da Tanznia, estendiam-se
os territrios das comunidades conhecidas, com razo, sob o nome de povos do
Rift Ocidental. Estes provavelmente teriam ocupado, em certa poca, todas as
regies ao sul da floresta de Mau no Qunia. Tambm teriam prosseguido rumo
a oeste at a margem sudoeste do Lago Vitria. Porm, aproximadamente em
600 d.c, eles parecem ter se concentrado nas regies de Serengeti e Ngorongoro.
No sculo VII, muitos cuchitas meridionais do Rift viviam certamente em uma
economia essencialmente pastoril. Parece, contudo, provvel que outros, princi-
palmente em torno do Kilimanjaro, nos montes Taita e nas margens do Vale do
Rift, tenham se consagrado sobretudo ao cultivo.
    As outras comunidades cuchitas meridionais importantes nessa poca fala-
vam lngua mbuguan. Os dados lingusticos permitem distinguir dois grupos. O
primeiro, o dos cuchitas kirinyaga, parecem ter precedido os bantos no Monte
Qunia. Trata-se provavelmente do povo conhecido sob o nome de Gumba
nas tradies modernas da regio; tal povo era certamente constitudo tanto
por caadores-coletores quanto por cultivadores7. O segundo, constitudo pelos
antigos ma`a, aparentemente se concentrou, nessa poca, no nordeste da Tanz-
nia, provavelmente a leste dos antigos asa e a sul do Pangani, em certas partes
da bacia superior do Wami, onde as condies naturais permitiam a pecuria
extensiva. As tradies orais dos atuais ma`a conservam a lembrana de sua che-
gada  regio, a partir do Qunia, antes do sculo VII8. Aparentemente, os ma`a
ligaram sua histria recente a uma tradio autntica, porm muito antiga, com
a qual concordam os dados lingusticos. Estes fazem remontar sua emigrao a
partir do norte a uma data muito anterior ao sculo VII9.

      Os khoisan
    medida de sua expanso no decorrer dos trs ltimos milnios antes da Era
Crist, os cuchitas meridionais haviam assimilado totalmente grande nmero
de comunidades khoisan. Outras sobreviveram, sustentando-se da caa e da


6     C. EHRET, 1974a, p. 15.
7     Ibidem, p. 27-28; novos dados permitem hoje identificar sua lngua como pertencente ao ramo mbuguan
      do chuchita meridional.
8     S. FEIERMAN, 1974, p. 74-75.
9     C. EHRET, 1974a, p. 13.
O interior da frica Oriental                                                                     725



colheita, ao lado dos cultivadores cuchitas, mas adotaram a lngua desses vizi-
nhos mais poderosos. Aproximadamente no fim do primeiro milnio, como
vimos, a maioria das comunidades lingusticas cuchitas parece ter mantido esse
tipo de relao com povos muito diferentes do ponto de vista do regime eco-
nmico. Entretanto, nos arredores das zonas cuchitas meridionais da Tanznia
Central, pelo menos dois grupos khoisan conseguiram conservar sua lngua at
a poca atual. Os hadza sobreviveram prximo ao Lago Eyasi, em terras pouco
propcias ao cultivo e onde a mosca ts-ts impedia a pecuria. Todavia, eles
tambm teriam sofrido, j antes do sculo VII, a influncia de seus vizinhos do
Rift Ocidental, j que se encontraram, junto a eles, exemplos de cermicas do
estilo neoltico pastoril, emprestado aos cuchitas meridionais10. O outro grupo
 aquele das comunidades sandawe, que sobreviveram adotando a agricultura e
dotando-se assim das bases econmicas necessrias para resistir  concorrncia
dos outros cultivadores. Para tanto, eles teriam adquirido seus conhecimentos
junto aos antigos kw`adza estabelecidos em Kondoa ou em sua circunvizinhana
ou, talvez nas regies ocupadas por seus descendentes atuais 11. Infelizmente
ainda no temos capacidade para datar essa passagem para a agricultura. Alguns
observadores12 dataram-na do sculo XVIII, mas  pouco provvel que tenha
sido to tardia. Tudo indica que os sandawe comearam a se voltar para a agri-
cultura entre os sculos VII e XI, j que os antigos kw`adza provavelmente j
estavam instalados na regio nessa poca, mas essa mudana poderia tambm
ter ocorrido entre 1100 e 1700.

     As populaes de lngua centrosudanesa
    Muito longe a oeste, na regio dos Grandes Lagos, comunidades de lngua
centro sudanesa parecem ter desempenhado na histria o mesmo papel que os
cuchitas meridionais nas regies central e oriental da frica do Leste. Criadores
de bovinos e de pequeno rebanho, cultivadores de sorgo e milhete, pescadores
ativos, os centro-sudaneses ganharam importncia nas zonas prximas ao Nilo,
ao extremo sul do Sudo e ao extremo norte de Uganda, provavelmente no
terceiro milnio antes da Era Crist. Em seguida, uma nova frente de colo-
nizao centro-sudanesa abriu-se rumo ao sul, na bacia do Lago Vitria. Tal

10   S. H. AMBROSE, 1982.
11    Tal parentesco  abundantemente atestado no vocabulrio da produo alimentcia dos sandawe, que
     tomou emprestado muitas palavras do antigo kw`adza; todavia, ainda no houve publicaes a esse
     respeito. Ver tambm UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV cap. 19.
12   Por exemplo, J. L. NEWMAN, 1970.
726                                                                     frica do sculo VII ao XI



expanso, at hoje pouco estudada,  atestada por dois tipos de dados. A anlise
dos polens permite constatar na vegetao mudanas atribuveis a atividades
agrcolas realizadas na bacia. Isso permite datar o incio da era agrcola em apro-
ximadamente trs mil anos, o mais tardar, nos setores situados a oeste e logo a
norte do Lago Vitria13. Do ponto de vista arqueolgico, a cermica de Kansyore
constitui uma provvel manifestao dessa expanso cultural e econmica dos
centro-sudaneses.
    A exemplo de seus contemporneos, os cuchitas meridionais do leste da
regio dos Grandes Lagos, os agricultores e criadores centro-sudaneses dos
trs ltimos milnios anteriores  Era Crist mantiveram relaes estreitas com
comunidades vizinhas de coletores. Isso se traduziu notadamente pela genera-
lizao da cermica de Kansyore junto aos caadores-coletores, por exemplo, a
oeste e a sul do Lago Vitria14. Como eram parcialmente pescadores, os centro-
-sudaneses poderiam ter disputado, diretamente com aqueles que os precederam
na bacia, um de seus principais recursos alimentcios. Por conseguinte, eles
teriam convertido os caadores-coletores ao seu modo de vida, absorvendo-os
em suas sociedades mais rpida e completamente que os cuchitas meridionais.

      Os nilotas
    A leste do Lago Vitria, a predominncia dos primeiros agricultores foi, em
primeiro lugar, abalada pelos nilotas meridionais que comearam a se deslocar
para o sul, a partir das regies da fronteira entre o Uganda e o Sudo, por volta
da metade do primeiro milnio antes da Era Crist. Esses nilotas meridionais
devem ser considerados os criadores da tradio arqueolgica de Elmenteita15.
Os nilotas meridionais implantaram-se nas zonas mais elevadas situadas na
borda oeste do centro do Vale do Rift, no Qunia, integrando em sua socie-
dade uma populao considervel de cuchitas meridionais. Aparentemente, eles
teriam estabelecido laos econmicos estreitos com comunidades de caadores-
-coletores das margens florestais do Vale do Rift e com as comunidades pura-
mente pastoris de cuchitas meridionais que continuavam a ocupar o fundo do
Vale16. Os caadores deviam lhes fornecer produtos como mel, cera de abelha e


13    Ver por exemplo R. L. KENDALL, 1969; M. E. S. MORRISON, 1968; M. E. S. MORRISON e A.
      C. HAMILTON, 1974. Para a interpretao histrica desses dados, ver D. SCHOENBRUN, 1984,
      nota 47.
14    S. H. AMBROSE, 1982, p. 133.
15    Ibidem, p. 139-144.
16    C. EHRET, 1971, p. 39, 114.
O interior da frica Oriental                                                                    727



peles, ao passo que os criadores do Vale do Rift deviam fornecer-lhes rebanho
em troca de cereais. No sculo VII da Era Crist, os nilotas meridionais haviam
engendrado duas sociedades distintas, os pr-kalenjin, ao norte dos montes de
Mau, e os tato  dos quais so oriundos os atuais Dadoga  ao sul dessa cadeia.
No incio, os tato parecem ter se concentrado nas altas terras de Loita antes de
se expandirem, em uma poca mais tardia, mas anterior a 1100, rumo ao sudeste,
no antigo pas asa da estepe massai17.

     A expanso banta
    De toda forma, os que mais ameaaram o modo de vida dos primeiros agri-
cultores foram os bantos chegados  frica Oriental no incio da Idade do Ferro.
A concorrncia no se manifestou imediatamente, pois, inicialmente, os bantos
apenas se instalaram em setores bastante circunscritos.
    De incio, foi no extremo oeste da regio dos Grandes Lagos que essas novas
comunidades agrcolas apareceram. Falantes de diferentes dialetos da lngua que
os especialistas modernos designam pela expresso proto-banto oriental, tais
comunidades parecem ter se encantado em alguns setores do oeste, do centro
e do sul da regio dos lagos, antes da metade do ltimo milnio anterior a Era
Crist18. Duas grandes transformaes econmicas estavam ento em curso na
parte norte-ocidental da frica do Leste. A primeira era a generalizao do
trabalho do ferro e suas incidncias sobre a tcnica de fabricao de ferramentas
j que, nesta regio, a idade das ferramentas de pedra estava quase chegando
ao fim, de acordo com uma evoluo mais rpida do que no resto da frica
Oriental. A segunda transformao, provavelmente mais importante a longo
prazo, foi o surgimento de uma agricultura mais complexa, principalmente
nas comunidades falantes do proto-banto oriental. Na origem, essas comuni-
dades viviam sobretudo do cultivo do inhame. Em seguida adotaram tambm
os plantios das sociedades agrcolas que os haviam precedido na parte orien-
tal do continente, melhorando assim sua capacidade de adaptao  extrema
diversidade dos ambientes leste-africanos19. Por volta do fim da era pr-crist,
algumas comunidades bantas orientais, sob a influncia de seus vizinhos centro-
-sudaneses e dos cuchitas meridionais do sul do Lago Vitria, praticavam cada
vez mais a criao de rebanho. Ademais, entre as populaes falantes dos dialetos


17   Ibidem, p. 55-57; C. Ehret, 1980b.
18   C. EHRET, 1973. Ver tambm J. VANSINA (1984) para uma bibliografia e uma interpretao recentes.
19   C. EHRET, 1974b.
728                                                          frica do sculo VII ao XI



do banto oriental, teria havido, no decorrer dos ltimos sculos precedendo a
Era Crist, um crescimento demogrfico considervel, em razo da absoro
de grande nmero dos primeiros ocupantes sudaneses20, e provavelmente tam-
bm, em funo da progresso natural. No desfecho da era pr-crist os bantos
orientais da regio dos lagos e das zonas adjacentes ao Zaire Oriental haviam
se multiplicado o suficiente para alimentar uma nova emigrao em direo a
outras regies longnquas da frica do Leste e do Sudeste.
   Na frica Oriental, parte dos novos imigrantes instalou-se longe ao leste,
at as zonas costeiras do sul do Qunia e em algumas regies montanhosas
do nordeste da Tanznia, especialmente os monte Pare e Ngulu. Eles deram
origem s cermicas kwale. Outros, oriundos da mesma estirpe, mas emigrados
um pouco mais tarde chegaram ao Monte Qunia por volta do quinto sculo
da Era Crist. Foi provavelmente esse ltimo grupo que introduziu na regio
o banto oriental, ancestral das lnguas thagicu atualmente faladas em todas as
zonas montanhosas do Qunia Oriental. A continuidade arqueolgica entre
o artesanato kwale, a cermica gatung' ang'a do Monte Qunia do sculo XII
e produes mais recentes ainda no foi completamente demonstrada, mas a
hiptese parece plausvel21 e concorda com os indcios lingusticos. Podemos
supor que as populaes implantadas nos montes Pare falavam um dialeto muito
prximo, do qual so oriundas as lnguas chaga, dawida e sagara22. Embora os
produtos do artesanato kwale fossem conhecidos nos stios do Kilimanjaro,
pouco afastado,  mais provvel que eles tenham sido fabricados pelos primeiros
habitantes bantos dos montes Pare que, h muito tempo, forneciam a regio, j
que as encostas do Kilimanjaro eram pouco ricas em argila de boa qualidade.
   Entre as primeiras migraes de bantos orientais em direo ao litoral da
frica Oriental,  preciso destacar a de populaes da costa nordstea, que
remonta provavelmente a meados do primeiro milnio da Era Crist. Ainda
no dispomos de dados arqueolgicos capazes de datar exatamente o incio
de tal povoamento. No sculo VII, comunidades oriundas da costa nordstea
certamente ocupavam um territrio estendendo-se do norte da embocadura do
Tana at o interior da cidade moderna de Dar es-Salaam, na Tanznia, antes de
fusionar para formar quatro sociedades distintas: os sabaki, no Qunia, os seuta,
mais ao sul, os ruvu, no interior da costa da Tanznia Central, e, provavelmente,



20    C. EHRET, 1973.
21    R. C. SOPER, 1982, p. 236-237.
22    C. EHRET e D. NURSE, 1981b.
O interior da frica Oriental                                                                          729



os pr-asu, na parte sul dos montes Pare23. Pode-se pensar que em vrios setores,
e especialmente no norte do Pangani, tal expanso tenha implicado a integrao
das populaes kwale precedentemente estabelecidas no interior24.
    Algumas migraes bantas dos princpios da Idade do Ferro penetrariam
muito ao sul da frica Oriental. Na mesma regio, os kilombero haviam se
instalado no vale homnimo. Por outro lado, "ancestrais lingusticos" de outras
populaes modernas do sul da Tanznia implantaram-se ainda mais ao sul,
nas altas terras songea e a sul do Ruvuma. Outras colnias estabeleceram-se
na extremidade norte do Lago Nyasa. Entre elas encontravam-se os grupos
cujos falares foram, por diversas vias,  origem da lngua nyakyusa, daquelas
do "corredor" (fipa, nyamwanga, nyiha, mambwe) e das lnguas njombe (hehe,
bena, kinga). Esses trs ltimos assentamentos ainda so conhecidos apenas em
funo dos dados lingusticos25.
    As ltimas implantaes bantas antigas suficientemente importantes para
serem mencionadas so aquelas da margem ocidental do Lago Vitria  e,
mais particularmente, do norte do Golfo de Wami  assim como aquelas que
dizem respeito a algumas pores ocidentais do centro-norte da Tanznia. O
grupo do Golfo de Wami, criador de uma variedade de cermica de Urewe, 
provavelmente o ancestral das sociedades luyia-gisu posteriores. O segundo dos
assentamentos acima mencionados  aquele dos fabricantes da cermica lelesu,
que talvez s tivesse uma existncia efmera. Outra possibilidade  que tal cer-
mica tenha sido fabricada pela comunidade da qual so oriundos os irangi, que
atualmente vivem na regio de Kondoa, no centro da Tanznia.
    Outras sociedades bantas orientais foram evidentemente constitudas nas
comunidades que continuaram a habitar na regio dos Grandes Lagos. Segundo
a melhor hiptese, baseada tanto nos dados lingusticos quanto em indicaes
combinadas fornecidas pela tradio oral e, no que diz respeito  continuidade
do povoamento, pela arqueologia, as populaes proto-lacustres teriam habitado
a regio de Bukoba aproximadamente no fim da era pr-crist26.  possvel que

23   Ver os argumentos invocados a esse respeito em UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap-
     tulo 19. "Sabaki e Ruvu so nomes geogrficos dados por especialistas a populaes cujos verdadeiros
     nomes nunca chegaram at ns; neste captulo, empregaram-se tambm as apelaes Takama, Njombe,
     Kirinyaga, Iringa, etc.".
24   As indicaes que levam a essa concluso so emprstimos antigos de uma lngua aparentada ao thagicu
     ou ao taita-chaga, encontrados nas lnguas sabaki e no diretamente atribuveis aos contatos que pode-
     riam ter ocorrido durante os ltimos sculos. Emprstimos anlogos encontram-se tambm, embora
     raramente, em algumas lnguas do sul da Somlia.
25   D. NURSE, 1982. Ver tambm UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
26   P. SCHMIDT, 1978.
730                                                          frica do sculo VII ao XI



as populaes proto-takama tenham vivido ao sul dos assentamentos proto-
-lacustres, ao passo que outras comunidades, integradas a sociedades lacus-
tres em expanso em diferentes pocas anteriores, se instalaram em Ruanda e
Burundi, assim como em outros pontos da borda ocidental da regio.
    Portanto, no sculo VII, encontravam-se muitas comunidades agrcolas ban-
tas orientais dispersadas e muito desigualmente repartidas: muito dissemina-
das no centro e no sul da regio dos Grandes Lagos, implantadas de forma
provavelmente contnua em todo o imediato interior da Tanznia Central e
Setentrional e da costa do Qunia, nos montes Pare, em uma parte isolada das
encostas do Monte Qunia, ao longo da margem ocidental do Lago Vitria,
em alguns grupos prximos uns aos outros no centro da Tanznia Meridional, e
talvez em uma zona do centro-norte desse pas. O fator comum desta repartio
 que os bantos se estabeleceram habitualmente em zonas cujo regime de chuva
ultrapassava 900 a 1000 milmetros por ano, ou em zonas situadas em um nvel
sensivelmente inferior nas regies mais montanhosas, a diferena sendo ento
compensada por uma evaporao menor. Em outros termos, os migrantes bantos
orientais do incio da Idade do Ferro parecem ter se orientado preferencialmente
rumo s regies que mais se assemelhavam quelas de onde vinham: zonas de
mata ou floresta recebendo uma quantidade suficiente de chuva para permitir
a agricultura baseada no inhame, motor das primeiras migraes bantas fora da
frica Ocidental27.  certo que nesta poca todos os bantos da frica Oriental
conheciam o cultivo dos cereais africanos, mas seu habitat leva a pensar que o
inhame permanecia muito importante.
    O que tornava as regies midas ainda mais atraentes era o abandono
total, ou quase, em que as deixavam, na maioria das vezes, os cultivadores nilo-
-cuchitas meridionais j estabelecidos, o que suprimia o risco de confronto
direto para a posse das terras. Ao longo da costa da frica Oriental, inmeras
zonas deviam ser infestadas por moscas ts-ts e, portanto, inspitas aos pas-
tores cuchitas e nilotas. Da mesma forma, na Tanznia Meridional, as colnias
bantas implantavam-se muitas vezes em zonas pouco adaptadas  criao de
animais e onde, de toda maneira, os cuchitas meridionais ainda no haviam
chegado28, enquanto nos montes Pare e no Monte Qunia, podemos imaginar
que os imigrantes bantos se dirigiram para as zonas arborizadas situadas acima
das plancies e das margens florestais j exploradas por seus vizinhos cuchitas.
Muitos desses setores deviam abrigar bandos vivendo da caa e da colheita;

27    C. EHRET, 1982a.
28    G. WAITE e C. EHRET, no prelo.
O interior da frica Oriental                                                                           731



porm, no mbito da concorrncia por seu sustento, encontravam-se muito
desfavorecidos em relao aos recm-chegados. Exceto nas zonas de florestas
mais frias dos altos planaltos, esses bandos foram provavelmente assimilados
pelas comunidades bantas em apenas alguns sculos.
   A nica exceo notvel a esse modelo de povoamento banto  a migrao
dos artesos de Lelesu para as zonas muito secas do centro da Tanznia. Essa
comunidade apenas pde sobreviver como sociedade independente nos pero-
dos seguintes  custa de uma adaptao rpida e fundamental de seu modo de
subsistncia  que no foi necessria s outras colnias bantas , dedicando-se
exclusivamente ao cultivo de cereais e aumentando tambm a parte da caa em
sua alimentao. Por falta de dados permitindo estabelecer uma ligao entre os
artesos de Lelesu e uma sociedade de lngua banta mais tardia, no podemos
acompanhar essa evoluo fascinante, embora hipottica no estado atual de
nossos conhecimentos.
   No sculo VII, algumas zonas do interior da frica Oriental permaneceram
desprovidas de comunidades de agricultores. A mais importante cobre grande
parte da Tanznia Ocidental. A segunda situa-se no cerne da Tanznia do Sudo-
este. Podemos supor que os bandos de khoisan vivendo da caa e da colheita
continuaram a desfrutar de uma existncia independente, assim como muitas
vezes ocorreria at uma poca mais tardia. Porm, as pesquisas arqueolgicas
necessrias  verificao desta hiptese ainda ho de ser realizadas.
   Algumas sociedades cuchitas orientais desempenharam tambm um papel de
primeiro plano, principalmente no norte do atual Qunia. Na vertente norte do
Monte Qunia vivem povos falantes de uma forma arcaica do yaaku. Os cuchitas
orientais de lngua yaaku talvez tenham se alastrado na regio a partir do primeiro
ou segundo milnio antes da Era Crist. Essencialmente pastores, ao que parece,
mas pouco voltados para o cultivo de cereais, eles teriam integrado os cuchitas
meridionais de lngua mbuguan, que os haviam precedido no centro-norte do
Qunia29, e sua lngua tambm foi adotada por ao menos uma das comunidades
de caadores-coletores khoisan da vertente norte do Monte Qunia30.
   Na bacia do Lago Turkana encontravam-se outros cuchitas orientais, des-
cendentes de grupos aparentados aos dasenech e aos arbore que hoje ocupam
a extremidade norte do lago. Espalharam-se amplamente em toda a bacia no
decorrer do primeiro milnio antes da Era Crist. Os pesquisadores modernos


29   C. EHRET, 1974a, p. 33; porm, essa obra no indica as filiaes lingusticas para esses cuchitas meri-
     dionais.
30   Ibidem, p. 33 e 88.
732                                                                          frica do sculo VII ao XI



deram o nome de baz a esses grupos esquecidos31, que provavelmente deram
origem aos monumentos arqueoastronmicos da regio do Lago Turkana32.

      Os ancestrais dos somalis e dos rendille
    Mais a leste, as vastas zonas de terras baixas estendendo-se entre o Tana e a
bacia do Shebelle, na Somlia, j eram ocupadas h vrios sculos pelos ances-
trais dos somalis e dos rendille33. Alguns sinais indicam que sua expanso na
regio, que provavelmente encetou no incio da Era Crist, deu-se ao detrimento
no somente de caadores-coletores relativamente numerosos cujo pertenci-
mento lingustico  pouco conhecido, mas tambm de comunidades de pastores
de lngua dahalo34. Porm, no sculo VII da Era Crist, as regies dos rios Juba
e Shebelle j haviam adotado amplamente, qui totalmente, o somali35.
    As regies do nordeste do interior da frica Oriental distinguiram-se das
outras no plano econmico. Abrangindo as zonas mais secas da frica Oriental,
elas se tornaram, no sculo VII, o foco de uma nova forma de pastoreio em que
o camelo, melhor adaptado a esse tipo de clima, muitas vezes substituiu o gado
como animal de base. Paralelamente s formas mais especializadas de criao de
camelo surgiu um novo tipo de sociedade, caracterizado por um modo de vida
nmade, desconhecido na poca e que o permaneceria em toda parte meridional
da frica Oriental. No se sabe exatamente at que ponto esses novos modos de
vida e tipos de habitat j haviam se alastrado no sculo VII. Os dados lingus-
ticos parecem indicar que eram muito bem implantados juntos aos pr-rendille
que viviam nas zonas mais ridas e a certos grupos de lngua somali36. Por outro
lado, muitas comunidades somalis viviam em regies um pouco mais chuvosas,
onde o gado ainda podia concorrer com o camelo, e a rea lingustica somali
englobava as sociedades agrcolas sedentrias instaladas ao longo dos rios Juba e
Shebelle, para as quais os bovinos teriam sido muito mais teis37. Pode-se pensar
que os povos baz da bacia do Lago Turkana tambm criavam camelos, talvez
menos sistematicamente que os povos instalados mais longe do lago, a leste.


31    B. HEINE, F. ROTTLAND e R. VOSSEN, 1979.
32    S. H. AMBROSE, 1982. Esses grupos foram talvez formados pelos primeiros nilotas.
33    B. HEINE, 1978.
34    Primeiros resultados do projeto de pesquisa atualmente levado a cabo por M. N. CALI e C. EHRET
      sobre a histria somali.
35    M. N. CALI, 1980.
36    B. HEINE, 1981.
37    M. N. CALI, 1980.
O interior da frica Oriental                                                   733



     Probabilidade do elemento indonsio
    O ltimo componente tnico, no diretamente presente no interior, mas que
exerceria uma influncia econmica fundamental a longo prazo,  o elemento
indonsio. Desembarcados no litoral conforme as rotas martimas do Oceano
ndico entre os sculos III e VI da Era Crist, os pr-malgaxes encontrariam
em Madagascar um assentamento mais durvel. Porm, talvez tenham levado
consigo parte das culturas caractersticas da sia do Sudeste, especialmente
bem adaptadas a vrios climas locais da frica Oriental. O mais importante dos
novos cultivos foi a banana, que se revelaria de fcil aclimao nas zonas quentes
das terras altas. Tambm foram introduzidos o inhame da sia, o taro e a cana
de acar que, como a banana, exigem chuvas importantes (ou um sistema de
irrigao).  provvel que os pr-malgaxes tenham tambm introduzido o arroz
que, diferentemente de outros cultivos, no se difundiria muito alm da faixa
costeira antes do sculo XIX38.


     Os processos tnicos
    Dos sculos VII ao XI, a persistncia de tendncias j afirmadas durantes os
seis primeiros sculos da Era Crist pode ser descrita sob diversos pontos de vista.
    Do ponto de vista geogrfico, as diferentes comunidades de lngua banta
permaneceram em grande parte confinadas nos limites do meio natural bastante
restrito de seus assentamentos dos princpios da Idade do Ferro. Todavia, elas se
multiplicaram no interior dessas zonas e exploraram cada vez mais as possibili-
dades oferecidas por esse meio. Nas terras altas, por exemplo, foram desmatadas
vastas superfcies de florestas e, nas outras zonas, as comunidades se alastraram
at o limite dos meios favorveis. Em algumas regies, os dados lingusticos
indicam tambm um avano configurado por uma assimilao contnua de gru-
pos de lnguas no-bantas. Por exemplo, no nordeste da Tanznia, uma frao
muito importante das populaes falantes da antiga lngua ma`a parece ter sido
integrada  sociedade proto-seuta, no quadro da expanso territorial seuta rumo
aos montes Ngulu e Uzigala39.
    Outrossim, a diferenciao das sociedades bantas continuou a se acentuar.
No incio da Era Crist, todos os bantos da frica Oriental falavam dialetos da


38   C. EHRET, no prelo.
39   C. EHRET, 1974a, p. 13.
734                                                                    frica do sculo VII ao XI



mesma lngua banta oriental. De forma geral, no sculo VII, a inteligibilidade
mtua desses dialetos certamente chegava ao fim e, a partir do sculo IX o
processo de diferenciao teria sido suficientemente desenvolvido para permitir
distinguir uma srie de lnguas distintas: a da costa nordeste, composta por sua
vez de trs dialetos ou grupos de dialetos diferentes (seuta, sabaki, ruvu e asu); a
lngua das populaes lacustres do centro da regio dos Grandes Lagos, divisvel
em pelo menos trs dialetos j suficientemente diferentes para constiturem
lnguas quase separadas; a lngua takama, ela tambm compreendendo vrios
dialetos falados por comunidades do sul do Lago Vitria; o proto-gussi-kuria,
falado ao longo da margem sudeste do lago; o proto-luyia-gisu das margens do
lago; o thagicu, provavelmente falado pelos criadores da cermica gatung' ang'a,
no Monte Qunia; o proto-taita-chaga, lngua dos artesos maore do norte dos
montes Pare, do Kilimanjaro e dos montes Taita, composta de trs dialetos, dos
quais dois so falados nas regies dos montes Taita; e as diversas lnguas do
extremo sul da Tanznia40. Antes mesmo do sculo XI, os ramos sabaki e ruvu
do banto falado na costa nordeste j estavam se subdividindo em vrios grupos
de falares divergentes. A sociedade sabaki original dividira-se em sociedades
proto-sualis, proto-pokomo, proto-mijikenda e elwana, e o alastramento para o
interior das terras, at o atual Ukagulu, de alguns grupos de lnguas ruvu, levara
 constituio de duas populaes ruvu distintas, a oriental e a ocidental.
    A diviso dos taita-chaga em trs sociedades pode tambm ser atribuda s
migraes ocorridas no decorrer desse perodo. Os proto-taita-chaga estariam
entre os primeiros fabricantes da cermica maore, cuja apario no norte dos
montes Pare remonta ao fim do primeiro milnio41. A primeira ciso do grupo
taita-chaga traduziu-se pela instalao nos Montes Taita, aproximadamente na
mesma poca, de um pequeno grupo cujo falar taita-chaga daria origem  lngua
sagara moderna. Uma segunda fase de migrao do norte dos montes Pare para
os montes Taita introduziu na regio um segundo falar taita-chaga, do qual 
oriundo o dawida moderno. Um longo perodo de trocas culturais instaurou-se
entre os dois grupos de imigrantes bantos e os mbisha, cuchitas do Vale do Rift
j estabelecidos nas montanhas e seus arredores42. Os taita-chaga permanecidos
no norte dos montes Pare so os ancestrais diretos dos proto-chaga do incio
do segundo milnio da Era Crist, cujos descendentes ocupariam, no decorrer



40    Ver tambm UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
41    C. EHRET e D. NURSE, 1981b.
42    Ibidem.
O interior da frica Oriental                                                 735



dos sculos seguintes, o cerne da reorganizao social e econmica da regio do
Kilimanjaro43.
    Tudo indica que importantes migraes bantas tenham tambm ocorrido na
regio dos Grandes Lagos durante a segunda metade do primeiro milnio da
Era Crist, acarretando uma forte expanso territorial das sociedades lacustres.
A sociedade lacustre original foi provavelmente formada por colonos bantos
estabelecidos no incio da Idade do Ferro nas regies muito arborizadas na
poca, bordejando o Lago Vitria a oeste e a sudoeste. Eles fabricavam pro-
vavelmente o tipo de cermica urewe encontrado em Bukoba, a maioria das
vezes em imponentes stios do incio da Idade do Ferro. Ao fim dessa poca
eles tinham como vizinhos cuchitas meridionais, descendendo provavelmente
das populaes do Vale do Rift que haviam alcanado a margem meridional do
Lago Vitria, assim como centro-sudaneses, da lngua dos quais a sociedade
lacustre tomou emprestado palavras como, por exemplo, a que designa a vaca.
Um primeiro movimento de disperso das populaes lacustres ocorreu durante
os primeiros sculos da Era Crist; foi nesta poca que foram introduzidos no
oeste, prximo ao grande Vale do Rift ocidental que separa a bacia do Congo
daquela do Lago Vitria, os dialetos que, em seguida, dariam origem s lnguas
rwanda-ha e konjo. No decorrer de um segundo perodo de expanso ocorrido,
segundo os dados lingusticos, pouco antes da metade do primeiro milnio,
populaes de origem lacustre instalaram-se ao norte do Lago Vitria. Tais
movimentos migratrios explicam-se provavelmente por uma superexplorao
do meio, sob o efeito de um crescimento demogrfico que tornou insuficientes
as terras arveis, e, sobretudo, de um desmatamento excessivo associado  pro-
duo do carvo vegetal necessrio para fundir o ferro  antiga especialidade da
regio abundantemente atestada pelos vestgios arqueolgicos44. Foi no decorrer
desse segundo perodo de expanso que o que sobrava da sociedade estabelecida
na regio dos Grandes Lagos comeou a se dividir em dois grupos distintos,
os rutara e os ganda-soga. Um importante grupo de emigrantes, longnquos
ancestrais dos ganda e soga atuais, foi se instalar ao longo das margens noroeste
e norte do lago, integrando as comunidades centro-sudanesas preexistentes. A
sociedade rutara  oriunda das comunidades provavelmente pouco numerosas
que permaneceram na regio de Bukoba e seus arredores45.



43   Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
44   D. SCHOENBRUN, 1984; M. C. van GRUNDERBECK e al., 1983a, 1983b.
45   Ibidem.
736                                                                            frica do sculo VII ao XI



    Um ltimo movimento de emigrao das populaes estabelecidas na mar-
gem ocidental do Lago Vitria teria iniciado no fim do perodo estudado neste
volume. Dirigindo-se ao noroeste ele levou a lngua e a cultura rutara at as
regies que logo se tornariam os reinos de Nkore, Mpororo e Bunyoro. Tal
difuso das ideias e prticas sem dvida inaugurou a era dos bachwezi, da qual
a tradio oral apenas conserva uma vaga lembrana e que ela descreve sob
uma aura fabulosa, ela teria tambm acarretado a aplicao das principais ideias
polticas e estruturas econmicas dos reinos posteriores.
    No decorrer do perodo considerado, as pradarias e altas plancies do cen-
tro da frica do Leste permaneceriam ocupadas principalmente por povos de
lnguas nilticas e cuchticas. Porm, tudo indica que os nilotas meridionais
tenham estendido seus territrios, ao passo que os cuchitas meridionais sofriam
um inegvel declnio. Foi provavelmente no decorrer desses sculos que foi
constituda a sociedade essencial, mas no exclusivamente, pastoril dos Dadoga,
nas zonas que se estendem desde a borda ocidental do Vale do Rift, no extremo
sul do Qunia, at as plancies massai do norte e do centro da Tanznia46. Tal
expanso parece ter se realizado em detrimento de povos estreitamente aparen-
tados, no plano lingustico, aos antigos asa e kw'adza47. Ao centro do territrio
massai, os dadoga coexistiam com comunidades de caadores-coletores especia-
lizados que conservariam a lngua do Rift Oriental, o asa (no confundir com a
lngua banta asu), at uma data recente48. Outros nilotas meridionais de lngua
tato ocupavam as ricas pastagens situadas imediatamente ao sul da floresta do
escarpamento de Mau. Um grupo de bantos, ancestrais dos sonjo, parece ter
permanecido em meio  zona de lngua tato, j que o sonjo moderno contm
emprstimos podendo ser atribudos a contatos muito antigos com os dadoga.
Segundo o que tudo indica, esse grupo teria conservado sua independncia ao
longo de toda a histria da regio ao praticar, como seus descendentes da poca
moderna, o cultivo irrigado ao longo do escarpamento do Rift49.
    A sociedade proto-kalenjin foi constituda de incio por nilotas meridio-
nais estabelecidos ao norte do escarpamento de Mau. Durante os sculos que
precederam o ano 1000, essa sociedade assimilou cuchitas meridionais50, bem


46    C. EHRET, 1971, p. 55-57.
47    O dadoga contm inmeras palavras emprestadas da lngua do Rift Oriental, que constitui o subgrupo
      cuchtico meridional ao qual pertencem as lnguas asa e kw'adza.
48    C. EHRET, 1974a, p. 14-15.
49    C. EHRET, 1971, p. 55.
50    Ibidem, p. 48.
O interior da frica Oriental                                                                         737



como um importante elemento banto, principalmente pelo fato de os homens
kalenjin terem provavelmente esposado mulheres de uma comunidade falante
de uma forma primitiva do luyia-gisu51. A partir do fim do primeiro milnio,
os kalenjin comearam a se espalhar por vastos territrios, do Monte Elgon, ao
noroeste, at o sul da serra dos Nyandarua e a parte do Vale do Rift do centro
e do sul do Qunia. Esse perodo de expanso levaria principalmente  adoo
da lngua kalenjin pelos bandos de caadores-coletores que subsistiam nas zonas
florestais prximas ao Rift, bem como na floresta do escarpamento de Mau. Os
kalejin foram tambm rumo ao oeste, at os territrios atualmente ocupados
por povos de lngua luyia, ao sul do Monte Elgon, onde comunidades bantas e
cuchitas meridionais haviam aparentemente se instalado antes52.
    Antes do ano 1100, importantes mudanas tnicas ocorreram tambm ao
norte da Uganda. Ao oeste dessa regio, os madi, originrios do Sudo Central,
disseminaram-se a leste e nordeste do Lago Eduardo, formando uma frao
substancial das populaes da Uganda Ocidental que seriam absorvidas pelos
rutara do Norte no decorrer da primeira metade do segundo milnio53. Outros
grupos madi constituiriam o essencial da populao do centro da Uganda Seten-
trional at a poca da expanso luo na metade do milnio passado54.
    No sculo VII, na parte oriental da Uganda Setentrional, os kuliak ociden-
tais, ocupantes de um territrio estendendo-se dos montes Moroto e Napak, ao
sul, at a fronteira do atual Sudo, ao norte, constituam a principal sociedade.
Por volta do ano 1000, a intruso, no cerne da regio, dos ateker, povo de ln-
gua sudanesa vindo do leste, abalou a unidade dessa sociedade. A frequncia
das palavras que, no vocabulrio ateker, foram tomadas emprestadas do kuliak
ocidental mostra que a expanso das primeiras sociedades ateker se deu por
uma intensa integrao das populaes kuliak55. Ainda no se sabe muito bem
a que ponto havia chegado esse processo nos sculos XI e XII.  provvel que
nesta poca os kuliak tenham formado uma parte importante da populao e
que ainda no houvessem sido rechaados para as zonas montanhosas por eles
ocupadas atualmente.
    Os ateker, cuja chegada a leste da Uganda desencadeou o processo de trans-
formao tnica da regio, eram, ao que parece, oriundos do grupo dos nilotas


51   C. EHRET, em B. A. OGOT (org.), 1976, p. 13.
52   C. EHRET, 1971, p. 50-51.
53   A presena de emprstimos madi nos falares rutara do Norte autoriza-nos a emitir tal hiptese.
54   Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 20.
55   C. EHRET, em J. MACK e P. ROBERTSHAW (org.), 1982, p. 25.
738                                                                                frica do sculo VII ao XI



orientais que viviam ento ao extremo sul do Sudo, logo a norte da atual fron-
teira da Uganda. No incio do primeiro milnio da Era Crist, essa populao era
composta pelos ancestrais, cultura e linguisticamente falando, dos grupos bari e
lotuko que ainda hoje ocupam algumas destas zonas, dos proto-maa-ongamo e
dos ateker. Tudo indica que, na mesma poca, os ancestrais dos didinga-murle,
eles tambm instalados nas plancies do extremo sul do Sudo, tenham sido os
vizinhos imediatos dos nilotas orientais no nordeste. Eles exerceram uma not-
vel influncia sobre os ateker antes destes ltimos se estenderem rumo ao sul
at a Uganda Oriental56. Porm eles apenas interviriam diretamente na Uganda
Setentrional em uma poca mais tardia, posterior a 1100. Outro grupo que mais
tarde muito contribuiu para a histria da frica do Leste foi aquele dos luo.
Entre os sculos VII e XI, estes eram estabelecidos logo ao norte dos nilotas
orientais e, ao que parece, a oeste dos pr-didinga-murle em algumas partes sudd
situadas nas proximidades e a leste do Nilo, no sul do Sudo.
    A mais notvel exceo a essa evoluo tnica progressiva e a essa expanso
gradual das comunidades residiu no surgimento de uma populao inteiramente
nova no centro da frica Oriental, os maa-ongamo (no se deve confundir os
maa, dos quais fazem parte os atuais massais, com os ma`a, populao cuchita
meridional da qual tratamos acima). A partir de um lugar prximo  zona ocu-
pada pelos lotuko no extremo sul do Sudo, a comunidade proto-maa-ongamo
progrediu rumo ao sul em direo s regies de Baringo e Laikipia, a norte e
noroeste do Monte Qunia, que ela atingiu por volta do sculo VIII da Era
Crist. No decorrer dessa expanso inicial para o sul, essa comunidade parece
ter assimilado uma grande parte dos baz, cuchitas orientais das terras baixas
que ocupavam anteriormente a bacia do Lago Turkana57. Ao sul de Baringo e
na regio de Laikipia, as comunidades dominantes antes de sua chegada eram
provavelmente falantes de lnguas nilticas e cuchticas meridionais58. A cultura
proto-maa-ongamo carrega a marca de uma influncia niltica meridional sens-
vel, notadamente no que diz respeito  adoo da circunciso e do longo escudo
oval59. Uma vez estabelecidos na regio do Monte Qunia, os maa-ongamo
dividiram-se logo em duas sociedades. Os maa propriamente ditos tornaram-se

56    G. J. DIMMENDAAL, 1982.
57    C. EHRET, 1974a, p. 40-41; B. HEINE, F. ROTTLAND e R. VOSSEN, 1979.
58    C. EHRET (1971, p. 52-54) situa essa implantao mais a sul do que o indicam os conhecimentos atuais.
      Os emprstimos cuchticos meridionais da lngua maa ainda no foram estudados como merecem, razo
      pela qual  difcil determinar, no seio do grupo das lnguas cuchticas, a lngua hoje desaparecida que
      deles foi a fonte.
59    C. EHRET, 1971, p.53.
O interior da frica Oriental                                                                           739



os senhores da regio da bacia de Baringo e de Laikipia e continuaram sofrendo
fortemente a influncia de seus vizinhos kalenjin do sul e do oeste60. Os antigos
ongamo alastraram-se rumo ao sul atravs do Rift e talvez da vala que separa o
Monte Qunia e a serra dos Nyandarua, antes de se concentrarem nas plancies
do Kilimanjaro e nas regies dos montes Pare61, onde influenciariam as tcnicas
de pecuria dos povos taita-chaga que ali viviam no fim do primeiro milnio.
No incio do milnio passado, inmeros ongamo comearam a se integrar 
sociedade proto-chaga.


     As atividades econmicas
    Tambm no plano econmico, os modelos de atividades instaurados durante
os primeiros sculos do primeiro milnio da Era Crist ainda pesaram muito
sobre as orientaes da mudana do sculo VII ao XI.
    Importante consequncia dessa situao, a correlao entre o pertencimento
tnico e o tipo de produo alimentcia permaneceu muito forte. Os nilotas
meridionais chegados ao Qunia Ocidental um milnio antes constituam, nessa
poca, um povo de pastores praticando um pouco o cultivo de cereais. De acordo
com os lugares de implantao favoritos dos povos tato e kalenjin e com suas
trocas lingusticas com seus vizinhos62, sua estratgia de subsistncia ainda no
tinha sofrido muitas alteraes at o ano 1000. A expanso dos nilotas orientais
maa-ongamo para as regies centrais da frica Oriental reforou a associao
geral das lnguas nilticas com a pecuria e o cultivo de cereais como gneros de
base. Nesse tipo de economia no se podia evitar que os nilotas entrassem em
conflito com os cuchitas meridionais, mais exclusivamente pastores, pela posse
das terras, e que sua expanso levasse muitas vezes  integrao de comunida-
des cuchitas antes dominantes. Pela mesma razo, os maa-ongamo por sua vez
integrariam os nilotas meridionais.
    As sociedades de lngua banta permaneceram, em ampla medida, as especia-
listas de um sistema de cultivo diferente, o sistema de repicagem, assim batizado
porque as principais plantas cultivadas no se reproduzem a partir da semeadura
direta, mas de uma parte da safra que  plantada de novo. As sociedades bantas


60   C. EHRET, (1971, p. 74-75, 166-171) liga as provas desses contatos com aquelas de contatos posteriores;
     a esse respeito, ver UNESCO Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
61   C. EHRET, 1974a, p. 40-41; R. VOSSEN, 1978.
62   C. EHRET, 1971, p. 144-162.
740                                                          frica do sculo VII ao XI



conheciam e cultivavam tambm diversas plantas de semeadura direta como o
sorgo e, nas terras altas, o milhete; muitas vezes criavam tambm gado63. Porm,
praticamente at o fim do primeiro milnio, as variedades africanas de inhame,
o antigo alimento de base dos cultivadores da frica Ocidental, permaneceriam,
sem dvida, uma das principais fontes de alimentao de quase todos os povos
bantos do interior da frica Oriental. Os primeiros cultivos da sia do Sudeste
tambm foram cultivados por repicagem e exigiam chuvas abundantes. A adoo
desses cultivos  principalmente inhame da sia, taro e banana  deve ter sido
particularmente fcil para as sociedades bantas, em razo tanto das condies
climticas quanto de seu conhecimento anterior do sistema de repicagem. A
introduo desses cultivos apenas podia confirmar o xito das economias bantas
e contribuir a atrasar qualquer mudana significativa da estratgia agrcola.
    Essas grandes tendncias sofreram algumas excees. A comunidade banta
dos sonjo, j mencionada, usou amplamente a irrigao e os adubos animais para
toda uma srie de cultivos em terras que, de outro modo, teriam permanecido
improdutivas. Tal modelo provavelmente se inspirou nos cuchitas meridionais
e sua adoo certamente remonta a uma data anterior a 1100. Nas vertentes
escarpadas do vale do Kerio, no centro do Qunia, algumas pequenas comu-
nidades, falantes, por volta de 1100, das variedades da lngua kalenjin antiga,
cuja evoluo posterior daria origem aos falares marakwet atuais, talvez prati-
cassem tambm a irrigao e o adubo animal e assegurassem o essencial de sua
subsistncia graas ao cultivo intensivo, e no  pecuria. Da mesma forma, em
algumas partes da Tanznia, no decorrer do perodo 600-1100, encontravam-se
sociedades bantas que, proporcionalmente atribuam muito mais importncia
aos cereais e outras plantas de semeadura direta do que ao inhame. Era o caso
da comunidade dos ruvu ocidentais: aps terem migrado em direo ao oeste
no fim desse perodo, instalar-se-iam em terras mais altas e mais secas, prova-
velmente na regio de kagulu no centro-leste da Tanznia, mais adequadas 
pecuria e ao cultivo de cereais. Os bantos proto-takama talvez tenham se adap-
tado mais cedo a um clima mais rido.  de sua lngua que derivam o kimbu, o
nyamwezi-sukuma, o rimi (nyaturu) e o iramba. Seus primeiros assentamentos
situavam-se talvez muito prximos  quer ao oeste, quer ao noroeste  ao rio
Wembere, no centro-oeste da Tanznia. Nesse caso o cultivo do inhame apenas
poderia ter sido rentvel em solos midos, na prpria margem do Wembere,
por exemplo. As primeiras ondas de expanso takama s se tornariam possveis


63    C. EHRET, 1974b.
O interior da frica Oriental                                                            741



graas ao avano do cultivo de cereais, evoluo esta que j teria encetado no
incio do sculo XI64.
    Em certo caso, a confirmao das tendncias anteriores de evoluo dos
modos de subsistncia levou ao surgimento de um sistema verdadeiramente
novo, o sistema de repicagem das terras altas, ou seja, a combinao de plantas e
tcnicas existentes constituindo o mais produtivo sistema j praticado na poca
na frica Oriental. O novo cultivo de base era a banana. Tudo indica que o
conhecimento dessa planta tenha penetrado bastante longe no interior das terras
a partir do fim da segunda metade do primeiro milnio da Era Crist, aparen-
temente atravs da regio dos montes Pare at o monte Qunia. Com efeito,
a palavra banana tem a mesma raiz em taita-chaga e em thagicu, e foi tomada
emprestada do proto-thagicu pelos proto-maa-ongamo do monte Qunia por
volta do sculo X, ou mesmo antes65. Porm, foi aparentemente nos montes Pare
que ocorreu, na chegada do fim do milnio, a passagem para a mais completa
forma de sistema de repicagem nas terras altas. Os dawida, que se separaram dos
proto-chaga e deixaram o norte dos montes Pare para instalarem-se nos montes
Taita por volta do sculo X ou XI, continuariam priorizando o inhame at uma
data recente. Ao contrrio, os proto-chaga da poca criaram uma terminologia
complexa para designar a banana e o cultivo da banana, o que comprova que
ela suplantou ento o inhame como alimento de base. A alta produtividade do
sistema de repicagem das terras altas do nordeste da Tanznia se deve ao fato
de ele ter feito um uso sistemtico da irrigao e do adubo animal. Tcnicas de
cultivo de origem cuchita meridional foram aplicadas a uma planta oriunda da
sia do sudeste por povos que j possuam uma tradio agrcola de repicagem.
Certamente no  por acaso que a difuso da comunidade de lngua chaga em
torno das vertentes lestes e sul do kilimanjaro pode ser datada dos sculos ime-
diatamente posteriores a esse perodo.
    Todavia, o cultivo da banana no apenas penetrou no interior da frica
Oriental a partir da costa do Qunia ou do norte da Tanznia. Na realidade, essa
via foi relativamente secundria. Os dados lingusticos mostram que a banana
tambm chegou diretamente  regio dos Grandes Lagos a partir do Sul, mais
precisamente a partir do Malaui e da bacia do Zambeze, no mbito de uma
progresso muito mais vasta pela qual o cultivo dessa planta se estendeu da
regio do baixo Zambeze ao conjunto da frica Ocidental passando pela bacia


64   Ver tambm UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
65   Em proto-chaga-dawida: maruu, em proto-thagicu: marigo e em proto-ongamo: mariko.
742                                                                              frica do sculo VII ao XI



do Congo. Esse movimento geral de propagao constitui at ento a evoluo
admitida pelos botnicos66.
    A penetrao da planta no Sul, por intermdio das partes mais midas do
extremo oeste da frica Oriental, levou provavelmente os bantos da regio dos
Grandes Lagos e as populaes do Monte Elgon a descobri-la bem antes do ano
1000. Uma forma de cultivo assaz semelhante ao sistema de repicagem praticado
nas terras altas da Tanznia do Nordeste acabou surgindo em vrias regies
cujas condies eram favorveis, notadamente na regio do Monte Elgon, zona
a partir da qual, em seguida, a planta provavelmente teria atingido o Busoga e
o Buganda,67 a regio de Bukoba e a zona do extremo sul, na ponta setentrional
do Lago Malaui. Todavia, os mtodos de cultivo intensivo parecem ter sido
reinventados por cada sociedade, sob o efeito da mesma necessidade de inten-
sificao da capacidade de produo alimentcia em meios semelhantes. Com
exceo, talvez, do Monte Elgon, essa evoluo ocorreu mais tarde do que entre
os chaga, isto , de forma geral, aps 1100.
    A tendncia de substituio da tcnica das ferramentas de pedra pelo tra-
balho do ferro prosseguiu do sculo VII ao XI. Os metais teriam penetrado na
frica Oriental no incio da Era Crist por duas vias, pelo oeste e noroeste, e
pela costa leste. Ao que tudo indica, as colnias de povoamento banto do incio
do primeiro milnio da Era Crist muitas vezes compreendiam forjadores, e o
conhecimento do trabalho do ferro parece ter se difundido, aproximadamente
a partir desta poca, em torno da vertente norte do Monte Elgon e at os nilo-
tas meridionais do oeste do Vale do Rift68. Ao norte da Tanznia, alguns dos
cuchitas meridionais teriam conhecido o ferro desde a colonizao banta69. Seu
conhecimento dos metais certamente provinha das zonas costeiras do Oceano
ndico, onde os comerciantes do Oriente Prximo j trocavam objetos de ferro
desde o sculo I ou II70. Entretanto, o trabalho do ferro demorou a se implantar
no interior. Em vrias regies, o ferro permaneceu por muito tempo um metal
raro, usado para o adorno, mas precioso demais para ser desperdiado na fabri-
cao de ferramentas. Foi somente entre os sculos VIII e X que se findou defi-
nitivamente a tradio de fabricao das ferramentas do Elmenteitien, atribuda

66    Ver principalmente N. W. SIMMONDS, 1962, bem como J. BARRAU, 1962 (nota do co-organizador
      da publicao: J. Barrau tem hoje uma opinio um pouco diferente).
67    Ver tambm UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 19.
68    C. EHRET (1971, p. 44)  quem sugere tal datao.
69    Como indica o fato de alguns termos importantes referentes ao ferro e ao trabalho do ferro em taita-
      -chaga, sonjo e thagicu serem emprstimos do meridional; ver C. Ehret, indito (b).
70    Encontra-se uma descrio desse comrcio no Priplo do Mar Eritreu.
O interior da frica Oriental                                                 743



a habitantes do centro do Qunia falantes de uma lngua niltica meridional,
em uma poca em que se imps a presena de novos imigrantes usando o ferro,
os maa-ongamo. Junto aos povos do Rift Ocidental, na Tanznia do Norte, 
tambm provvel que a metalurgia do ferro tenha tardado a suplantar totalmente
as ferramentas de pedra. Porm, em 1100, tais ferramentas j haviam se tornado
muito raras em quase todo o interior da frica Oriental, talvez com exceo
das zonas mais secas da bacia do Ruaha, ao sudeste da Tanznia, e em algumas
partes da Tanznia Ocidental, onde os caadores-coletores conservaram-nas
talvez por alguns sculos a mais.
    Durante quase todo o perodo se estendendo de 600 a 1100, na maioria das
regies, o comrcio representava uma atividade espordica destinada a atender
necessidades precisas e limitadas: alimentar a populao nos anos de carestia ou
liquidar excedentes ocasionais, por exemplo, cascas de ovos de avestruz coletadas
pelos caadores-coletores e usadas por vrios povos para a confeco de adornos.
Existiam algumas correntes de trocas mais ou menos regulares: foram, por exem-
plo, as exportaes das zonas produtoras de obsidiana para o centro do Qunia,
onde essa pedra continuou servindo para talhar as lminas do Elmenteitien at o
sculo VIII ou IX, e o comrcio das conchas de cauri na costa leste71. Mas essas
trocas se faziam de uma comunidade para outra, sem necessitar de transporte
em longas distncias e sem precisar de feiras e mercadores regulares.
    A nica especializao profissional existente no sculo VII era o forjamento.
Certamente no foi uma atividade difundida em todas as sociedades do interior
da frica Oriental; inmeras comunidades precisavam conseguir o ferro graas
ao escambo e, portanto, apenas conheceriam de longe as tcnicas de fundio,
qui do forjamento, durante alguns sculos ainda.
    Outra especializao profissional teria surgido por volta dos sculos VIII-
-IX, na poca em que as diferenas tnicas associadas aos tipos de cermica se
apagavam parcialmente nas regies centrais do Qunia ocupadas pelos nilotas
meridionais e os recm-chegados maa-ongamo. A partir desta poca, alguns
grupos de lngua niltica comearam a utilizar um nico tipo de cermica, a
cermica lanet72. Doravante, a cermica tornar-se-ia uma atividade especializada
exercida essencialmente pelos caadores-coletores do Rift e da floresta de Mau.
Estes eram cada vez mais dependentes de suas trocas com os nilotas. Isso certa-
mente pode explicar em parte o fato de a expanso dos proto-kalejinm, a partir


71   S. H. AMBROSE, 1982; C. EHRET, 1971, p. 98.
72   S. H. AMBROSE, 1982.
744                                                          frica do sculo VII ao XI



do sculo XI, ter sido acompanhada por uma generalizao da lngua kalejin
junto aos coletores de todas as zonas circundando o Rift.
   Como assinalamos, nesta poca j teria existido um comrcio de cermicas
entre o norte dos montes Pare e o Kilimanjaro, os vendedores sendo as comu-
nidades bantas e os compradores, ao que tudo indica, os antigos asa que viviam
nos arredores do Kilimanjaro. Contudo, entre as populaes dos montes Pare e
os caadores do Vale do Rift, a cermica s deve ter constitudo uma atividade
secundria para pessoas que se ocupavam basicamente em prover as necessidades
do lar. Portanto, a especializao no levou imediatamente ao surgimento de
mercados regulares e institucionalizados, mas contribuiu talvez ao aparecimento,
em algumas regies do centro da frica Oriental, de lugares especficos onde
as pessoas costumavam ir para conseguir os produtos de que necessitavam. Na
zona situada entre o Kilimanjaro e a regio do norte dos montes Pare, que era
um grande centro de fabricao tanto de objetos de ferro quanto de cermicas73,
o processo teria chegado a um estgio mais avanado, isto ,  criao de verda-
deiros mercados regulares a partir do incio do segundo milnio74.


      A organizao social
    Uma caracterstica encontrada em absolutamente todas as sociedades do
interior da frica Oriental do sculo VII ao XI  a escala reduzida das clu-
las populacionais e polticas, apesar da grande diversidade dos princpios de
organizao social dos diferentes povos. As condies comerciais que levariam
ao advento das cidades costeiras no existiam no interior. Tambm teria sido
inexistente a base econmica necessria ao sustento de vastos agrupamentos
organizados em cidades.
    No Norte, o habitat mais comum era constitudo por um conjunto de mora-
dias dispersas. Tal habitat, muito antigo, remonta aos primeiros assentamentos
dos cuchitas meridionais e foi tambm adotado pelas colnias de nilotas meri-
dionais do ltimo milnio antes da Era Crist. Os imigrantes bantos do incio da
Era Crist vinham de um meio em que a vida em aldeias constitua a regra, mas
a difuso da lngua banta no necessariamente acarretava a criao de povoados.
Nos lugares em que as colnias bantas haviam encontrado e assimilado impor-
tantes comunidades cuchitas ou nilotas, o antigo habitat dispersado tendeu a se


73    Ver I. N. KIMAMBO, 1969, cap. 4, entre outros.
74    L. J. WOOD e C. EHRET, 1978.
O interior da frica Oriental                                                                  745



manter, como nas terras altas do Qunia e em certas partes do norte da Tanznia.
Mais ao sul, contudo, os grupos de lngua banta viviam geralmente em aldeias.
    As sociedades cuchitas meridionais teriam sido habitualmente compostas
por cls autnomos, cada um deles possuindo um chefe reconhecido. Junto aos
primeiros colonos bantos, podemos encontrar a mesma estrutura caracterstica
do cl dirigido por um chefe hereditrio75. Parece contudo provvel que os chefes
de cl bantos tenham desempenhado um papel poltico ativo e intervindo na
maioria dos aspectos da vida da comunidade, enquanto os chefes de cl cuchitas
teriam tido como funo principal a atribuio das terras, muito fceis de con-
seguir em uma poca de densidade populacional muito mais fraca. O frequente
desaparecimento da antiga raiz designando o chefe (kumu)76 nas lnguas bantas
do interior da frica Oriental sugere que o papel do chefe tenha sido conside-
ravelmente alterado quando da adoo como lngua, pela nova comunidade, de
um dialeto banto oriental. Fica geralmente difcil datar esse tipo de evoluo,
mas conhecemos alguns exemplos correspondendo provavelmente ao perodo
que se estende de 600 a 1100. Assim, a chefia de cl thagicu (muramati em
gikuyu) assemelhava-se mais a uma variante da forma cuchita meridional do
que a um derivado do prottipo banto77. Uma vez que essa instituio remonta,
entre os thagicu, a uma data anterior a 1100,  muito provvel que se tratasse
de um elemento de continuidade herdado de seu componente gumba e refle-
tindo as interaes sociais dos cuchitas meridionais e dos povos de lngua banta
habitantes do Monte Qunia nesta poca.
    Nas comunidades bantas orientais, houve dois casos em que surgiu um novo
tipo de chefe, j que, em vez de ser ligado a um s cl, ele exercia seu poder
em um territrio cujos habitantes pertenciam a diferentes cls. A primeira
evoluo desse tipo, ocorrida na regio dos Grandes Lagos, certamente data de
uma poca anterior quela tratada nesse captulo. J na lngua das populaes
proto-lacustres que deixou de ser falada logo no incio da Era Crist, a raz
banta, significando na origem "chefe", servia para designar o doutor-adivinho
(o feiticeiro-curandeiro) e um termo diferente era usado para nomear o chefe
poltico da sociedade. Isso provavelmente teve sua origem no surgimento, na
sociedade proto-lacustre, de uma nova categoria de chefes que haviam relegado
os antigos responsveis a funes essencialmente religiosas e medicinais; uma


75   J. VANSINA (1971, p. 262) pensa que o parentesco desempenhava um papel menos importante do que
     o supomos aqui.
76   Tornou-se fumu e designa mais os adivinhos do que os chefes; ver abaixo.
77   G. MURIUKI, 1974, p. 75.
746                                                                         frica do sculo VII ao XI



evoluo poltica anloga ocorreu mais recentemente na histria da regio dos
Grandes Lagos78. No fim da poca considerada, e mesmo antes, o domnio do
acesso ao material de nova importncia, o ferro, constitua a base econmica
requerida para a instaurao de uma chefia de maior envergadura. Foi preci-
samente ao longo da margem ocidental do Lago Vitria, isto , no local em
que teriam vivido comunidades proto-lacustres, que uma indstria do ferro,
particularmente avanada, havia se desenvolvido durante a segunda metade do
ltimo milnio antes da Era Crist79. Nessas comunidades caracterizadas pelos
contatos multitnicos, os novos chefes poderiam ter ainda reforado sua posi-
o ao desempenhar um papel de rbitro entre grupos aparentados de origens
tnicas diferentes, tornando-se assim as peas centrais da integrao dos centro-
-sudaneses, dos cuchitas meridionais e das populaes das regies dos Grandes
Lagos em uma nica e mesma sociedade80. Talvez a existncia dessa instituio
nova explicasse em ampla medida a expanso persistente das populaes dos
Grandes Lagos em diversos perodos do primeiro milnio.
    Entretanto, desde a poca da expanso rutara no incio do segundo milnio, 
possvel que a autoridade dos chefes (qui dos reis) da parte ocidental da regio
dos Grandes Lagos tenha comeado a se fundar em uma nova base, suscetvel de
servir como ponto de apoio a uma unidade poltica muito mais ampla: o poder
de dispor do excedente de gado e de redistribu-lo81. A primeira apario de
entidades polticas realmente estendidas e baseadas em uma economia poltica
desse tipo foi aparentemente posterior a 110082.
    O segundo caso de transformao da chefia territorial antes do sculo XII
observou-se em escala muito pequena, junto aos proto-chaga do incio do segundo
milnio e parece ter coincidido com a fase de maturidade do sistema de repica-
gem praticado nas terras altas. No norte dos montes Pare e em algumas partes da
regio do Kilimanjaro, a mudana social caracterstica deste perodo, claramente
atestado por dados lingusticos, consistiu na integrao de grupos importantes de
antigos asa e de antigos ongamo  sociedade proto-chaga. Podemos pensar que o
sistema de repicagem deu aos primeiros chaga uma vantagem decisiva no plano


78    I. BERGER (1981) pensa que um fenmeno dessa natureza ocorreu quando da ascenso dos Estados
      da regio dos Grandes Lagos no decorrer dos ltimos sculos.
79    P. SCHMIDT, 1978, p. 278 em particular.
80    A. SOUTHALL (1954) mostrou que um fenmeno semelhante ocorreu mais recentemente entre os
      alur da regio noroeste dos Grandes Lagos.
81    Essa hiptese j foi defendida por C. EHRET e al. em um documento no publicado de 1972 e foi
      tambm levantada, a partir de dados diferentes, por I. BERGER (1981).
82    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 20.
O interior da frica Oriental                                                                            747



da produo e, portanto, serviu como alavanca para a expanso chaga. A chefia
teria ento tomado uma nova forma, pois o papel do chefe comportava a funo
de integrao requerida para a assimilao de povos de origens tnicas e, portanto,
de linhagens diferentes. O novo tipo de chefia assim criado teria agrupado uma
populao muito mais numerosa que o cl tpico dos perodos anteriores, embora
ainda muito reduzida em relao quela dos reinos posteriores da frica Oriental,
e certamente inferior quela das chefias lacustres tpicas da mesma poca.
    Todavia, no decorrer dos sculos que nos interessam, certamente no foram
as sociedades do interior da frica Oriental dotadas de dirigentes hereditrios
que chegaram  mais estendida cooperao social e poltica potencial, mas antes
os nilotas meridionais e os maa-ongamo. Desde sculos, as instituies dessas
comunidades, diferentes em suas estruturas particulares, mas que produziam os
mesmos efeitos do ponto de vista social, agrupavam todos os rapazes cujos lares
encontravam-se dispersados em um vasto territrio. Os limites do recrutamento
para tal faixa etria designada tendiam a se confundir com os limites da sociedade.
Em funo de seu pertencimento a uma mesma faixa etria, homens vindos de
regies longnquas, quando jovens, podiam cooperar para expedies contra outros
povos e, na idade madura, para fazer reinar a concrdia no seio da comunidade. A
existncia dessas instituies explica provavelmente em parte que a lngua niltica
e a identidade tnica nilota tenham suplantado, a longo prazo, o cuchtico meri-
dional. Em caso de conflito ou outro flagelo como a fome, os nilotas podiam, ao
menos na teoria, apoiar-se em um grupo muito mais amplo.
    Nessa perspectiva, o desaparecimento da organizao social segundo a idade
entre muitos bantos da frica Oriental, assim como a circunciso, tornou-se
um fenmeno interessante. Como a reconstituio lingustica claramente o
indica, os colonos instalados nas regies do interior no incio da Idade do Ferro
praticavam a circunciso dos meninos e agrupavam-nos em faixas etrias83, mas
seu recrutamento era provavelmente local, e elas no possuam nem a estrutura
rgida nem os papis sociais variados atribudos s instituies similares dos
povos de lnguas nilticas. Contudo, as diferentes sociedades bantas instaladas
no primeiro milnio ao sul da Tanznia, conservando em muitos casos caracte-
rsticas culturais muito arcaicas que, mais a norte, haviam desaparecido, como
a filiao matrilinear e a chefia de cl, haviam abandonado a circunciso e as

83    O proto-banto oriental possui as razes al (aluk, alik, alam) e tiin (conservadas em chaga e seuta, e
     igualmente conhecidas no mongo do Zaire) que significam "circuncidar"; na frica Oriental, a antiga
     raiz banta kula, que significa "faixa etria", apenas foi conservada at hoje nas lnguas guisii-kuria e
     luyia-gisu, mas existe tambm em certas lnguas bantas do Noroeste (C. EHRET [1976, p. 19, nota 33]
     forneceu a esse respeito uma explicao errnea).
748                                                                                frica do sculo VII ao XI



faixas etrias em uma data incerta, mas provavelmente muito antiga, de sua
histria. Em geral, a circunciso apenas se manteve na vizinhana das sociedades
cuchitas ou nilotas meridionais que tambm a praticavam; o agrupamento por
idade conservou-se junto aos bantos das regies setentrionais do interior, onde
podemos identificar a influncia do exemplo nilota.
    Em alguns casos, essa influncia pode ter sido muito forte, e foi justamente
durante o perodo do sculo VII ao XI que mais se fez sentir. Houve uma primeira
srie de exemplos com os sistemas de classificao por gerao dos povos thagicu
do Monte Qunia, para os quais  preciso admitir a hiptese de uma inspirao
em parte niltica meridional, remontando ao menos ao perodo proto-thagicu84.
Outro notvel exemplo  aquele do chaga, cujas concepes em matria de faixas
etrias denotam um aporte capital dos maa-ongamo, ou talvez, mais precisamente
dos antigos ongamo durante o perodo proto-chaga da passagem do primeiro para
o segundo milnio85. Na sociedade chaga, o controle das instituies baseado na
idade passou para as mos do novo tipo de chefe local, no clnico, que os usava
para as necessidades de defesa e como reserva de mo de obra, enquanto no Monte
Qunia, as faixas etrias se tornaram o foco da atividade poltica e a base de uma
cooperao mais extensa no plano territorial em um grupo de sociedades que
ignoravam os papis polticos hereditrios. Podemos dizer que as faixas etrias
no respondiam a nenhuma necessidade imperativa nas regies mais meridio-
nais, onde os colonos bantos apenas encontraram em sua chegada populaes
dispersas vivendo da caa e da colheita. Ao contrrio, mais a norte, as prticas de
agrupamento por idade dos "produtores de alimentos" vizinhos reforariam ou
modificariam as concepes dos bantofones; em particular a adoo dos modelos
nilticos forneceu as vezes um novo meio eficaz de integrao das comunidades
estrangeiras s sociedades bantas e de resistncia s presses exercidas pelas novas
expanses nilticas do fim do primeiro milnio e do incio do segundo.


      Os sistemas religiosos
   A maioria dos povos desse perodo do sculo VII ao XI pertencia a um ou
outro dos dois grandes sistemas religiosos existentes.


84    C. EHRET, 1971, p.43.
85    O sistema de faixas etrias assemelha-se muito quele dos ma`a, mas no pode ser diretamente ligado a
      uma influncia massai; portanto, apenas sobram os contatos anteriores com os maa-ongamo, isto , os
      contatos entre os antigos ongamo e os primeiros chaga, como fonte de influncia possvel, a no ser que
      se considere o sistema chaga como o sistema banto antigo modificado ao contato do sistema ongamo.
O interior da frica Oriental                                                                           749



    Em grande parte do interior do Qunia e rumo ao sul, bem como em toda
Tanznia Central, domina a crena em uma divindade nica, habitualmente
identificada metaforicamente com o cu. Essa religio considerava a existncia
do mal como consequncia de uma punio ou de um julgamento divino86 e no
demonstrava nenhum interesse particular nos espritos dos antepassados. Nas
verses difundidas junto aos povos de lngua cuchtica, s vezes compreendia
tambm a crena em espritos inferiores, capazes de prejudicar, e junto a alguns
cuchitas meridionais do Rift encontramos uma metfora celestial diferente,
ligando a divindade ao sol, e no ao cu em geral, variante esta adotada alguns
sculos antes do incio do perodo considerado aqui pelos ancestrais nilticos
meridionais dos tato e dos kalenjin.
    Em grande parte da metade meridional do interior da frica Oriental e da
regio dos Grandes Lagos dominou uma religio diferente. Esse conjunto de
crenas trazidas pelos colonos bantos no incio da Idade do Ferro, reconhecia
a existncia de um deus criador, mas o essencial de seus ritos concernia aos
antepassados. O mal era mais frequentemente atribudo  inveja ou a maldade
humana, a ao de pessoas chamadas, para empregar aqui os equivalentes euro-
peus de seus nomes, de "feiticeiras" ou "feiticeiros". Na regio dos Lagos surgiu
uma nova forma de crena em espritos: os crentes comearam muitas vezes a
invocar espritos mais prestigiosos e influentes que aqueles de seus antepassados.
Podemos fazer remontar essa prtica religiosa  poca proto-lacustre, no incio
do perodo considerado neste volume87, mas  provvel que ela apenas tenha
adquirido uma importncia de primeiro plano durante o segundo milnio, para-
lelamente  e muitas vezes em reao  ao desenvolvimento do sistema poltico.
    No interior da parte central da frica Oriental, onde coexistiam ambas as
religies, os dois ltimos milnios foram marcados por uma tendncia  fuso
dos componentes dessas duas filosofias. Algumas de suas mais importantes
manifestaes pertencem ao perodo que se estende do sculo VII ao XI. No
oeste do Qunia, foi nesta poca que se difundiu a ideia da importncia do culto
aos antepassados, provavelmente a partir dos pr-luyia-gisu em direo ao leste,
at os pr-kalenjin. Da mesma forma, a noo de feitiaria como explicao do
mal parece j ter sido assimilada pelos kalenjin no fim do primeiro milnio88.


86   Para uma descrio detalhada de uma variante dessa religio, ver E. E. EVANS-PRITCHARD, 1956.
87   I. BERGER, 1981; P. R. SCHMIDT, 1978.
88   Ver C. EHRET, 1971, p. 157. No vocabulrio proto-kalenjin, havia uma distino sistemtica entre a
     "feitiaria" e outras formas mais benignas de medicina, distino esta no encontrada no proto-niltico
     meridional.
750                                                                                 frica do sculo VII ao XI



Ao norte dos montes Pare e em regies vizinhas ao Kilimanjaro, a metfora
do deus-sol implantou-se no pensamento religioso dos proto-chaga aproxi-
madamente no incio do segundo milnio89. A integrao de grupos falantes
do antigo asa pelos proto-chaga acarretou aparentemente a adjuno das con-
cepes cuchitas meridionais da divindade a um culto aos antepassados ainda
muito ativo, oriundo do componente banto da herana chaga, da mesma forma
que, na mesma poca, a assimilao dos antigos ongamo trouxe uma importante
modificao da organizao das faixas etrias na sociedade. Alhures, este perodo
no parece ter sofrido grandes mudanas nos valores e nas crenas.


      Concluso
    De forma geral, no que diz respeito ao interior da frica Oriental, o meio mile-
nio que se estende de 600 a 1100, no constituiu uma era de grandes reviravoltas,
mas foi marcado por diversas mudanas de menor importncia em diferentes
partes da regio. A economia permaneceu geralmente alinhada com as divises
geogrficas e tnicas instauradas no decorrer dos primeiros sculos da Era Crist:
os bantos continuaram a praticar o sistema de repicagem, e um pouco o cultivo
de cereais, em terras mais regadas e bem arborizadas, ao passo que os nilotas e os
cuchitas experimentavam diversas combinaes de pecuria e de cultivos de cere-
ais nas zonas mais secas do Norte e do Centro. Os caadores-coletores de lngua
khoisan talvez fossem ainda quase os nicos ocupantes de algumas partes do oeste
e do sudeste da Tanznia. Porm, ao mesmo tempo, houve manifestadamente
trocas culturais, e mesmo materiais, muito importantes entre as sociedades, um
incio de especializao econmica instaurou-se em algumas regies e, em alguns
casos, ocorreram novas almgamas notveis de povos. O exemplo mais marcante
foi a fuso dos nilotas, dos cuchitas meridionais e dos bantos que levou  formao
dos proto-chaga, sociedade verdadeiramente nova integrando as ideias e prticas
fundamentais de cada um de seus trs componentes culturais. O chaga tornou-se
a lngua da nova sociedade, certamente pelo fato de as populaes falantes do
pr-chaga terem sido as primeiras a adotarem o sistema de repicagem das terras
altas, em que se baseava a economia desse povo.



89    O emprego da antiga palavra banta significando "sol" para designar Deus  uma constante do chaga,
      enquanto o dawida e o sagara conservaram a raiz banta oriental mais antiga que significa Deus (Mulungu).
      Portanto, a mudana de metfora apenas ocorreu no proto-chaga aps a ltima ciso, aquela que levou 
      formao do dawida.
O interior da frica Oriental                                                 751



    Uma das caractersticas deste perodo  o isolamento muito ntido do interior
da frica Oriental em relao s correntes de mudana to fortemente predo-
minantes no Oceano ndico. Alguns cultivos de origem indonsia, a exemplo
da banana, comearam a se difundir no interior j antes do sculo VII, mas no
houve, ao que parece, nenhum outro aporte cultural ou material importante
proveniente da mesma fonte entre os sculos VII e XI. O sistema de repicagem,
surgido por volta do sculo X ou XI certamente em funo das condies locais,
era sim baseado na banana como cultivo essencial, mas os princpios e prticas
constituintes dessa agricultura provinham de um fundo africano muito mais
antigo e nada deviam s influncias contemporneas vindas do Oceano ndico.
    Na costa, as atividades comerciais apresentaram um grande avano por volta
dos sculos IX e X. Tudo leva a pensar que os povos da frica Oriental que parti-
ciparam diretamente desse desenvolvimento comercial foram os proto-sualis, que
muito provavelmente ocupavam assentamentos martimos situados ao longo do
litoral do norte do Qunia e do extremo sul da Somlia. Os mercadores da poca
estendiam suas atividades na costa at muito longe rumo ao sul, aparentemente at
a regio do Limpopo, onde a partir dos sculos XI e XII, um reino cujo centro se
situa no stio de Mapungubwe comeou a prosperar graas ao comrcio do ouro
do Zimbbue90. Mas as atividades comerciais no penetraram no interior da frica
Oriental. Ora, algumas conchas foram encontradas muito longe no interior, aps
terem passado de uma comunidade a outra em funo de trocas locais em pequena
escala, mas, ao que tudo indica, as regies do interior no ofereceram aos merca-
dores do Oceano ndico nenhum produto que no estivesse j disponvel a alguns
quilmetros da costa. No conjunto, no decorrer de todo esse perodo, os povos do
interior foram capazes  e ainda o permaneceriam durante os sculos seguintes 
de sustentar suas prprias necessidades materiais, segundo sua percepo.
    Outra mudana capital, de uma importncia considervel a longo prazo,
mas menos manifestada no interior talvez j estivessem em preparao durante
a segunda metade do primeiro milnio. A explorao mais intensiva das terras
implicada pelas prticas agrcolas da maioria dos bantos da poca parece indicar
que as reas de lngua banta j haviam comeado a se tornar zonas de concen-
trao populacional. Ao longo do segundo milnio, essas regies transformar-
-se-iam cada vez mais em reservatrios de populaes e dariam origem a muitos
dos mais importantes movimentos migratrios e  maioria das grandes correntes
de evoluo.


90   T. N. HUFFMAN, 1981.
A frica Central ao norte do Zambeze                                                    753



                                       CAPTULO 23


    A frica Central ao norte do Zambeze
                                       David W. Phillipson




    A primeira Idade do Ferro
    Desde o incio do perodo que nos interessa neste captulo, a regio consi-
derada encontrava-se quase inteiramente ocupada por populaes da primeira
Idade do Ferro, das quais, sem dvida, muitas falavam lnguas bantas. Em muitos
setores, tais povos coexistiam com descendentes de populaes mais antigas, que
se distinguiam deles no plano tecnolgico, e, talvez, tambm lingustico1.
    As primeiras fases do advento da Idade do Ferro nesta regio foram descri-
tas em um volume precedente2. Nesse sentido, lembramos que os arquelogos
no mais hesitam em reagrupar as indstrias da primeira Idade do Ferro, no
sul da floresta equatorial, em um mesmo "complexo industrial". Eles no esto
de comum acordo sobre a classificao das atividades da primeira Idade do
Ferro: para ser mais cmodo, o autor manter aqui a ordem e os termos que lhe
parecem ser mais confiveis. Considerada em seu conjunto, a entidade cultural
da qual se trata ser designada pela expresso "complexo industrial da primeira
Idade do Ferro"; ela se subdivide em uma corrente oriental e uma ocidental.
Segundo a tipologia das diferentes cermicas, distinguimos, no interior de cada

1    Sobre o estudo dos processos de interao entre os dois grupos, ver S. F. MILLER, 1969, D. W.
     PHILLIPSON, 1977a, cap. 10.
2    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 21, 23, 25, 27 e 29.
754                                                          frica do sculo VII ao XI



corrente, vrios grupos, cada um ocupando uma rea geogrfica limitada (ver fig.
23.1). Seguindo a prtica comum admitida pelos arquelogos africanistas, cada
grupo porta o nome do stio onde a cermica, que lhe foi associada pela primeira
vez, foi descoberta e descrita. No territrio deste ou daquele grupo, a primeira
Idade do Ferro poder ser subdividida  desta vez, cronologicamente  em fases
sequenciais.  preciso reafirmar que podemos, provisoriamente, distinguir duas
correntes nos vestgios arqueolgicos deste complexo e que observamos certas
correspondncias entre os signos, de um lado, da progresso destas correntes e
sua cronologia relativa e, do outro, da propagao das lnguas bantas, tal como
a lingustica pde reconstitu-la3. Ambas as correntes parece ser oriundas, pelo
menos em parte, dos povoamentos urewe que estavam estabelecidos na regio
interlacustre, ao longo dos ltimos sculos do primeiro milnio antes da Era
Crist. A expanso da corrente oriental teria comeado por volta do sculo II
da Era Crist, com o surgimento da tradio da cermica kwale nas regies
costeiras do Qunia e da Repblica Unida da Tanznia. Todavia, foi somente
no sculo IV que ela progrediria, sobretudo, para o sul, poca em que a civili-
zao da primeira Idade do Ferro se estendeu para a maior parte das regies
subequatoriais do Leste africano, at o Transvaal e o Moambique Meridional.
Foi ento que a corrente oriental da primeira Idade do Ferro se estabeleceu nas
partes mais orientais da regio  qual concerne este captulo, ou seja, no Malaui
e nas regies da Zmbia, a leste do Luangua. A corrente oriental, a partir de
um centro localizado no sul do Zambeze, na regio que corresponde ao atual
Zimbbue, tambm conheceu uma fase de expanso mais tardia por volta do
sculo VI, mas ela apenas tocou uma zona muito reduzida da regio que nos
interessa, aquela das Cataratas Vitria, no extremo sul da Zmbia.
    O advento da primeira Idade do Ferro, em Natal e em grande parte do sul
do Transvaal, a nosso ver, dever-se-ia mais  expanso da corrente ocidental.
Alis,  a tal corrente que se liga a primeira Idade do Ferro da maior parte da
regio aqui tratada. A arqueologia da corrente ocidental , em seu conjunto,
muito menos conhecida que aquela corresponde ao leste. Alguns autores pensam
que a corrente ocidental nasceu aproximadamente no incio da Era Crist, nas
regies situadas no sul do baixo Congo, da fuso ou da interao de dois grupos
distintos de populaes de lngua banta. O primeiro, atravessando as florestas
equatoriais, em linha reta para o sul do bero da lngua banta, teria chegado ao
atual Camares. Verdadeiramente, ele corresponde, na arqueologia, ao que se


3     D. W. PHILLIPSON, 1976b; 1977a, cap. 8.
A frica Central ao norte do Zambeze                                                     755




figura 23.1   Culturas arcaicas da frica Oriental e Austral (Fonte: D. W. Philipson).



chama de "Neoltico leopoldino" do baixo Zaire, onde Pierre de Maret acaba
de efetuar novas pesquisas4. O segundo, tal como a corrente oriental de nasci-
mento mais tardio, parece ter sido um prolongamento das populaes urewe,
que se instalaram na regio dos Grandes Lagos. Tal fato  arqueologicamente

4    P. de MARET, 1975.
756                                                                            frica do sculo VII ao XI



atestado pela cermica de tipo urewe, cuja descoberta, perto de Tshikapa, na
parte do Kasai sul, foi assinada por um autor, (infelizmente, em um contexto
assaz mal documentado e sem datao5), bem como pelas afinidades que a
tradio da cermica da corrente ocidental, em seu conjunto, apresenta com a
tradio urewe.  muito provvel que esta progresso para o sul e para o oeste,
nos limites da floresta, tenha trazido  savana do sudoeste a criao dos bovinos
e dos ovinos, a cultura dos cereais e, talvez, tambm as tcnicas da metalurgia.
    Esses diversos elementos puderam ocasionar uma expanso para o sul da
civilizao da Idade do Ferro, do pas kongo at o norte da Nambia, passando
por Angola, e com ela, a penetrao das lnguas bantas, das quais se originaram
lnguas modernas, como o mundu e o herero, que Bernd Heine6 classificou na
categoria do grupo das terras altas do Oeste. O nico stio arqueolgico datado
que podemos ligar a uma fase mais antiga desta expanso se encontra em Ben-
fica, na costa atlntica, perto de Luanda, onde uma cermica muito prxima
quela da primeira Idade do Ferro, das outras regies tocadas pela corrente
ocidental, se situa em um contexto remontando ao sculo II da Era Crist7. Ade-
mais, certos elementos da civilizao da primeira Idade do Ferro, como a arte
da cermica e a criao dos bovinos e dos ovinos, parecem ter sido transmitidos,
no sculo II ou III da Era Crist, s populaes de lngua khoisan do sul da
Nambia e da parte ocidental do Cabo, muito alm do limite mais meridional da
penetrao banta. Como no percebemos a qu atribuir estes novos elementos
se no  corrente ocidental da primeira Idade do Ferro, podemos considerar
que sua data determina o ponto limite da progresso desta corrente at o sul de
Angola8. Ainda no dispomos de outras informaes sobre as fases iniciais da
expanso da corrente ocidental: os nicos dados arqueolgicos em nossa posse
so atribudos  segunda metade do primeiro milnio da Era Crist, e provm,
em sua maioria, da parte oriental da zona tocada pela corrente ocidental  o
Shaba e o oeste da Zmbia , onde seu surgimento parece ter sido retardado
at o sculo V ou VI.
    Estas poucas indicaes vo ao encontro das concluses tiradas pelos linguis-
tas da comparao das lnguas bantas, que podem servir de base  reconstituio
histrica da evoluo dessas lnguas. De fato, o autor destas linhas defendeu a


5     J. NENQUIN, 1959. Todavia, segundo indicaes recentes, a maior incerteza subsiste quanto ao lugar
      onde tais vestgios foram, efetivamente, descobertos.
6     B. HEINE, 1973; B. HEINE, H. HOFF e R. VOSSEN, 1977.
7     J. R. dos SANTOS e C. M. N. EVERDOSA, 1970.
8     Tal argumento encontra-se desenvolvido no livro de D. W. PHILLIPSON, 1977a, cap. 6 e 10.
A frica Central ao norte do Zambeze                                                        757



ideia de que, no princpio, a disperso da corrente ocidental, a partir do pas
congo at o sul do curso inferior do rio Congo, pudesse estar ligada a um centro
secundrio de propagao do banto, que se encontra precisamente nesta regio,
como confirmaram os recentes estudos lingusticos de Bernd Heine e de David
Dalby9. Tais autores estimam que o banto propagou-se para o sul a partir de seu
bero camarons, seja pela costa, seja costeando o rio para alcanar a regio que
forma atualmente o baixo Zaire. Ter-se-ia tratado de um movimento comple-
tamente independente daquele que, costeando os limites do norte da floresta,
introduziu uma outra lngua banta na regio dos Grandes Lagos. Tais lnguas
bantas, ainda faladas em uma poca recente at no sul da floresta equatorial,
parecem todas derivadas, direta ou indiretamente, de um centro de disperso
prximo ao baixo Zaire. A primeira fase desta disperso parece ter gerado ln-
guas que estiveram na origem das que Heine classificou no grupo das terras altas
do Oeste e que so faladas hoje em todo o territrio montanhoso de Angola e
no sul, at a Nambia Setentrional. No decorrer das fases posteriores, a disperso
ocorreu principalmente rumo ao leste, como veremos adiante.
    Para desenvolver tais indicaes de carter geral,  til resumir os testemu-
nhos arqueolgicos recolhidos nessas regies, os quais mais parecem pertencer a
este perodo de expanso das populaes de lngua banta. Por ser mais cmodo,
comearemos pelo baixo Zaire e por Angola e, em seguida, subiremos para o
leste.

     A corrente ocidental da primeira Idade do Ferro
    Na ordem cronolgica, a indstria mais antiga do perodo aqui estudado 
aquela do baixo Zaire, que chamamos comumente de "Neoltico leopoldino".
Ela se caracteriza por recipientes de cermica de gola, portando uma decorao
estriada, muito trabalhada, lembrando a de certas cermicas da primeira Idade
do Ferro, que encontramos em outras regies. No possumos objetos em metal
associados a esta forma de cermica, mas, por outro lado, encontramos numero-
sos machados de pedra amolada. Pierre de Maret acaba de estudar vrios destes
stios de fabricao e deles pde, graas ao carbono 14, situar a data nos quatros
ltimos sculos antes da Era Crist10. Encontramos objetos atribudos a esta
indstria na regio de Kinshasa, na margem sul do lago Malebo (Stanley), e mais

9    B. HEINE, 1973; B. HEINE, H. HOFF e R. VOSSEN, 1977: encontrar-se- vises diferentes, bem
     como uma anlise mais detalhada daquelas do autor destas linhas, em L. BOUQUIAUX e L. HYMAN
     (org.), 1980.
10   P. de Maret, 1975.
                                                                                  758
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figura 23.2   Stios arqueolgicos da frica Central (Fonte: D. W. Phillipson).
A frica Central ao norte do Zambeze                                                            759



a oeste, at mesmo na proximidade da costa atlntica; eles foram descobertos,
principalmente, nas grutas e nos abrigos rochosos da provncia do baixo Zaire,
mas tambm, algumas vezes, a cu aberto. Entretanto, fato assaz significativo,
no encontramos trao desta indstria nas savanas mais descobertas do norte
de Angola. Esta observao, atrelada, de um lado, ao que parece ser o brusco
surgimento de pedras amoladas neste nico setor de uma zona onde tais pedras
so extremamente raras, e, do outro, ao surgimento de indstrias anlogas, no
norte da floresta, na frica Ocidental e na ilha de Fernando Poo11, parece dar
razo queles que consideram que o "Neoltico leopoldino" ter-se-ia propagado
at a regio do baixo Zaire, basicamente segundo um eixo norte-sul.
    Outras descobertas feitas no baixo Zaire  cujas datas ainda no pudemos
determinar com certeza, mas a partir das quais podemos supor que teriam como
efeito situar os elementos "neolticos", citados mais acima, em uma poca mais
tardia  compreendem fragmentos de cermicas, mais variados, que apresentam
analogias relativamente mais marcadas, com aquelas que sabemos pertencer
a contextos mais orientais da primeira Idade do Ferro. Em particular, estas
peas parecem ter afinidades muito mais evidentes com as cermicas urewe da
regio interlacustre  notadamente quando provm das grutas Dimba, perto de
Mbanza Ngugu , que as do "Neoltico leopoldino"12. Mais a sul, como j indica-
mos, as cermicas de Benfica apresentam afinidades muito claras com a primeira
Idade do Ferro; elas datariam aproximadamente do sculo II da Era Crist, data
que parece tambm plausvel para as peas provenientes do baixo Zaire.
    No estamos ainda muito bem informados sobre a primeira Idade do Ferro
nas regies do interior de Angola e na provncia vizinha do Kasai, na Repblica
Democrtica do Congo. Um autor sugere que nas cercanias de Tshikapa, nas
proximidades da fronteira meridional do Kasai, operaes de explorao mineira
no vale do Lupembe teriam permitido a descoberta de quatro recipientes de
cermica, quase intactos, que, no plano tipolgico, se encaixariam em uma cole-
o de cermicas urewe, proveniente da regio interlacustre13.  lamentvel que
as condies desta descoberta no sejam to bem conhecidas, e que no dispo-
nhamos de nenhum elemento que permita datar, de forma absoluta, o contexto
em que tais peas foram conservadas. No longe dali, rumo ao sul, do outro
lado da fronteira angolana, duas pequenas colees de cermica provenientes



11   A. L. Martin Del Molino, 1965.
12   G. Mortelmans, 1962.
13   J. NENQUIN, 1959.  duvidoso que estes vestgios realmente tenham sido encontrados em Tshikapa.
760                                                                      frica do sculo VII ao XI




figura 23.3 Tumba do Kisaliano antigo (sculo VIII-X). Stio de Kamilamba. Reparar no machado de
parada e a bigorna contra o crnio (Fonte: P. de Maret, Museu Real da frica Central).
A frica Central ao norte do Zambeze                                                              761




figura 23.4 Tumba do Kisaliano clssico (sculo X-XVI). Stio de Sanga (Fonte: P. de Maret, Museu Real
da frica Central).



da regio de Dundo so datadas do ltimo quarto do I milnio da Era Crist14.
Aqui, os fragmentos diferem muito claramente dos espcimes recolhidos em
Tshikapa (presumidos mais antigos), mas apresentam, todavia, vrios traos
tipolgicos, bem como caractersticas encontradas hoje nas cermicas modernas
da Angola do Norte. Conhecemos, embora muito mal, stios que lhes so quase
contemporneos, no sul de Angola e no norte da Nambia. No sculo VII ou
VIII, populaes assaz numerosas da Idade do Ferro encontravam-se j estabe-
lecidas em Feti la Choya, perto da confluncia do Kunene e do Kunyongauna,
mas o que tem sido publicado at agora sobre os objetos a elas associados no
nos permite determinar as suas afinidades. Em Kapako, no extremo norte da
Nambia, prximo da extremidade ocidental da ponta de Caprivi,15 um stio
onde encontramos traos do trabalho do ferro forneceu cermicas que, segundo
o diretor das escavaes, seriam aparentadas a outras cermicas da corrente oci-
dental da primeira Idade do Ferro, sobretudo as que provieram de Kapwirimbwe,
das quais trataremos mais adiante. Ainda no foi revelado nenhum trao de
povoamento, datando da primeira Idade do Ferro, proveniente de regies mais
meridionais da Nambia, mas  preciso sublinhar que, de forma geral, nenhum
real trabalho de pesquisa foi empreendido at agora.


14   J. D. CLARK, 1968, p. 189-205.
15   B. SANDELOWSKY, 1973.
762                                                               frica do sculo VII ao XI



    A depresso de Upemba, no vale do alto Lualalaba, no Shaba nos tem fornecido
mais informaes sobre a arqueologia da corrente ocidental da primeira Idade do
Ferro16. O mais antigo povoamento da Idade do Ferro descoberto at o momento
nesta regio  o de Lamilamba, que data do sculo VI ou VII da Era Crist. A
cermica apresenta estreitssimas afinidades com os objetos da mesma poca que
vieram do oeste da Zmbia. Por volta do sculo X, ou um pouco antes, se expandiu
o hbito de enterrar os defuntos em cemitrios que, alis, foram escavados vrias
vezes no curso dos vintes ltimos anos; o mais conhecido, o de Sanga, s margens do
Lago Kisale, parece ter sido usado, aproximadamente, at o sculo XVII ou XVIII,
mas, a nosso ver, a tipologia da cermica associada a ele, durante todo este perodo,
parece profundamente enraizada na tradio da primeira Idade do Ferro.
    Os mortos eram enterrados estendidos ou em posio ligeiramente curvada,
acompanhados de numerosos objetos funerrios, mais frequentemente, dos vasos
de terracota. Aqueles que datam de aproximadamente 1300 (da Era Crist) so
do estilo dito "kisaliano" e so seguidos por aqueles atribudos  tradio kabam-
biana. Os objetos de metal, igualmente abundantes, compreendem ornamentos
de cobre bastante trabalhados, bem como correntes, pulseiras, cintos tranados
e colares. O ferro est presente antes sob a forma de enxadas e machados que de
armas; encontramos tambm um certo nmero de sinetas soldadas lado a lado.
Peas de cobre cruciformes, de diferentes dimenses, so encontradas corrente-
mente nas tumbas kabambianas, mas raramente nas kisalianas: tudo leva a crer
que elas serviam de moeda.
    A aproximadamente 140 km dali, subindo o Lualaba, encontramos o stio de
Katoto, onde descobrimos um outro cemitrio em muitos pontos comparvel
aos da depresso de Upemba. A cermica, embora tipologicamente diferente,
tambm est ligada  tradio da primeira Idade do Ferro, aproximando-se mais
das cermicas urewe e das do oeste da Zmbia que daquelas de Kisale. Prova-
velmente constatar-se- que Katoto pertence a uma poca mais longnqua que
o cemitrio de Sanga.
     lamentvel que ainda no tenhamos descoberto nenhum stio de habitao
que pudessemos atrelar ao grupo populacional que se encontra na origem dos
cemitrios do alto Lualaba. No obstante, esses ltimos testemunham o alto grau
de riqueza material e desenvolvimento tcnico de tal regio no comeo deste mil-
nio. A, a populao tinha visivelmente alcanado uma densidade relativamente
elevada, muito provavelmente, em razo da presena, no longe do sul, das ricas

16    J. NENQUIM, 1963; J. HIERNAUX, E. de LONGRE e J. de BUYST, 1971; J. HIERNAUX, E.
      MAQUET e J. de BUYST, 1973; P. de MARET, 1977.
A frica Central ao norte do Zambeze                                           763



jazidas de minerais da zona do cobre (Copperbelt). Como veremos mais adiante,
tal regio mineira favoreceu a instaurao de numerosos contatos comerciais, em
uma zona muito extensa, entre as populaes da primeira Idade do Ferro, mesmo
que e a extrao do mineral sempre tenha sido feita em uma escala bastante
reduzida. Esta sequncia  to importante e interessante que, como sublinha P. de
Maret, intervm em um setor no qual as tradies orais situam o bero da dinastia
luba  muitos reinos da savana central ligam suas origens a tal dinastia.
    No que concerne  zona do cobre propriamente dita, as pesquisas arqueol-
gicas nos concentraram-se apenas ao territrio da Zmbia. Elas tm permitido
reencontrar numerosos assentamentos da primeira Idade do Ferro, atribudos
ao grupo chodwe, segundo o nome de um local situado a cerca de 45 km ao sul
de Ndola17. As aldeias do grupo chodwe encontram-se geralmente na orla dos
rios: uma delas, encontrada em Roan Antelope, perto de Luanshya, tambm se
situava ao lado a um centro pr-histrico de trabalho do cobre. Encontramos
em Chodwe pulseiras de cobre pertencentes a uma poca situada entre o sculo
VI e VIII da Era Crist; motivos semelhantes  decorao das cermicas nos
fazem pensar que o emprego do cobre remonta muito provavelmente ao pri-
meiro assentamento da primeira Idade do Ferro na regio, aproximadamente,
no comeo do sculo VI.
     particularmente interessante a presena, em vrios stios, e notadamente
em Roan Antelope, de fragmentos esparsos da primeira Idade do Ferro, carac-
tersticos das regies mais distanciadas, como o vale do mdio Zambeze e o
sudoeste do Malaui, mais do que da cermica tradicional do grupo local cho-
dwe.  necessrio ver a a marca dos contatos que foram estabelecidos entre
os diversos grupos e que, muito provavelmente, eram feitos por homens (ver
adiante) que vinham de muito longe se abastecer de cobre, no prprio local da
produo. Como h boas razes para acreditarmos que ao longo da primeira
Idade do Ferro, a cermica, nesta parte da frica, era um trabalho de homens, 
provvel que as cermicas "estrangeiras", das quais falamos mais acima, tenham
sido fabricadas por estes visitantes: portanto, no  necessrio supor que famlias
inteiras tenham vindo at as minas em busca de metal, ou que objetos to fr-
geis quanto cermicas tenham dado lugar a transaes comerciais em distncias
muito longas.
    A oeste da regio mais importante da zona do cobre, na linha divisora das
guas do Zambeze e do Congo, perto de Solwezi, a regio mineira pr-histrica


17   E. A. C. MILLS e N. T. FILMER, 1972; D. W. PHILLIPSON, 1972.
                                                                                                                                   764
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figura 23.5   Cermica e pulseira em marfim, de Sanga (Fonte: J. Nenquin, 1963; J. Hiernaux, E. de Longre e J. de Buyst, 1971).
A frica Central ao norte do Zambeze                                          765



de Kansanshi foi recentemente escavada por Michael Bisson18. Aqui, o assenta-
mento mais antigo da Idade do Ferro, datando do sculo V, aproximadamente,
est associado aos testemunhos do trabalho do cobre. Neste caso, a cermica 
diferente daquela do grupo chondwe (embora ambas estejam ligadas  corrente
ocidental da primeira Idade do Ferro) e apresenta traos comuns com aquelas
que foram encontradas em stios muito distanciados uns dos outros, na parte do
deserto do Kalahari, situada na Zmbia Ocidental. Deste ponto de vista, os stios
mais ricos so os de Sioma, no alto Zambeze, no distante das regies inundveis
de Barotse, rumo ao sul, e de Lubrusi, no distrito de Kaoma19. Indcios incon-
testveis mostram que o assentamento da primeira Idade do Ferro, associado ao
trabalho do ferro e (a julgar pela presena, na cermica, de motivos semelhantes
queles das pulseiras) ao trabalho do cobre, remonta claramente ao sculo VI
e at mesmo, talvez, ao fim do V. Somente na extenso do vale do Zambeze as
pesquisas tm permitido forjar uma imagem bastante completa da forma com
que tais stios estavam divididos. Trabalhos recentes de N. Katanekwe levam a
pensar que os assentamentos criados pela corrente ocidental da primeira Idade
do Ferro no penetraram muito longe a jusante do Sioma.
    As nicas outras regies da Zmbia que teriam conhecido a implantao da
corrente ocidental seriam os planaltos de Lusaka e da provncia do sul, onde
atribumos os stios da primeira Idade do Ferro, respectivamente, aos grupos
kapwirimbwe e kalundu20. A cermica do primeiro desses dois grupos, como
aquela encontrada na aldeia epnima prxima de Lusaka, onde o breve perodo
de ocupao do stio remonta, aproximadamente, ao sculo V, apresenta nume-
rosas analogias com aquela do grupo chondwe, na zona do cobre. Em Kapwi-
rimbwe, a presena de estruturas semi-permanentes  revelada por buracos de
postes, mas no pudemos encontrar trao de planos de habitaes individuais.
Grandes quantidades de restos de estruturas de daga (lama triturada) desmo-
ronadas parecem ser os vestgios de fornos utilizados para a fuso do ferro: o
trabalho deste metal parece ter sido importantssimo, no interior da aldeia ou
nos seus acessos imediatos, porm, a, o cobre era desconhecido. Os habitantes de
Kapwirimbwe praticavam a criao de animais, e ossadas de animais domsticos
foram encontradas durante as escavaes.
    Foram os vestgios do stio de Twickenham Road, na periferia de Lusaka,
que mais permitiram a reconstituio das fases ulteriores do desenvolvimento

18   M. S. BISSON, 1975, e relatrios futuros.
19   J. O. VOGEL, 1973a; D. W. PHILLIPSON, 1971.
20   D. W. PHILLIPSON, 1968, 1970b; B. M. FAGAN, 1967.
766                                                          frica do sculo VII ao XI



do grupo kapwirimbwe. Em uma poca situada entre o sculo IX e o XII, os
habitantes utilizavam cermicas finas de decorao muito trabalhada, as quais
se aparentavam, claramente,  tradio representada em Kapwirimbwe. Eles
criavam cabras e caavam. Como em Kapwirimbwe, o trabalho do ferro era feito
em uma escala bastante importante, mas foi apenas durante a ltima fase da
primeira Idade do Ferro que o cobre fez sua apario em Twickenham Road. 
interessante notar que a cermica que mais se aparenta quela do grupo chon-
dwe surgiu na mesma poca, na sequncia de Lusaka. Tanto em Kapwirimbwe
quanto em Twickenham Road, encontramos passadores de cermica perfurados
que, talvez, tenham servido para a preparao do sal.
     difcil dizer qual era, exatamente, a importncia do grupo Kapwirimbwe,
mas destacamos a existncia de cermicas de tipo muito prximo, a oeste, at na
gruta de Mumbwa e no interior da regio de Chirundu, no vale do Zambeze.
A cermica de "tradio sinoia" da primeira Idade do Ferro dos distritos de
Lomagundi e Urungwe, no Zimbbue  to prxima daquela de Kapwirimbwe
e de Twickenham Road, que  preciso muito certamente classific-la na mesma
categoria21. Tais stios se distinguem, de forma clara, dos locais da mesma poca
situados em outras regies do Zimbbue, e despertam o interesse apenas pelo
fato de serem os nicos testemunhos da corrente ocidental da primeira Idade
do Ferro a terem sido identificados no sul do Zambeze.
    No planalto da provncia do sul ou do Batoka, no sul de Kafue, os primei-
ros assentamentos do grupo kalundu, implantaram-se, talvez, antes do fim do
sculo IV. Alguns desses stios foram ocupados durante perodos repetidos ou
prolongados, da a estratificao, em uma grande profundidade, de depsitos
arqueolgicos. A cermica e outros objetos, testemunhos da civilizao material,
apresentam numerosos traos comuns com aqueles do grupo Kapwirimbwe. Em
Kalundu Mound, perto de Kalomo, menos de dois quintos das ossadas de ani-
mais descobertas provinham de animais domsticos (bovinos, carneiros, cabras),
o que indica que a caa desempenhava ainda um papel importante na economia.
Com o grupo kalundu terminamos aqui esta anlise das manifestaes, na frica
Central, da corrente ocidental da primeira Idade do Ferro.

      A corrente oriental da primeira Idade do Ferro
  No Malaui e na Zmbia Oriental, as indstrias da primeira Idade do Ferro,
embora manifestadamente pertencente mesmo complexo industrial que aquelas


21    P. S. GARLAKE, 1970; T. N. HUFFMAN, 1971.
A frica Central ao norte do Zambeze                                        767



das regies mais ocidentais, das quais acabamos de falar, delas diferem muito
nitidamente. Ligamo-nas a uma corrente oriental e, ao que tudo indica, elas
descenderiam diretamente dos assentamentos do grupo urewe da regio dos
Grandes Lagos.
    O estudo estilstico das cermicas do Malui permite distinguir a presena
de dois grupos na primeira Idade do Ferro: no norte, o grupo mwabulambo,
do nome de um stio estabelecido no rio Lufilya, e, no sul, o grupo nkope, do
nome de uma localidade situada na margem oeste do Lago Malaui, no norte de
Mangochi22. Embora tenhamos descoberto numerosos stios da primeira Idade
do Ferro no Malaui, conhecemos muito mal a natureza e o local da linha que
separa esses dois grupos. Rumo ao oeste, encontramos cermicas nkope do outro
lado da bacia, ocupando a maior parte do sudeste da Zmbia, a leste do Luangua,
ao passo que sua presena at nas regies vizinhas de Moambique  atestada
por objetos recolhidos por Carl Wiese, em 1907 e que se encontram agora no
Museum fr Vlkerkunde, de Berlim23. A datao com o carbono 14 indica que
no Malaui os stios da primeira Idade do Ferro comearam a se desenvolver,
por volta do comeo do sculo IV da Era Crist; ademais, foi estatisticamente
demonstrado que o grupo mwabulambo talvez tenha se estabelecido um pouco
antes daquele que lhe corresponde mais ao sul24.
    As escavaes feitas nos stios da primeira Idade do Ferro estudados at o
presente no Malaui foram pouco importantes, e, portanto, as informaes que
elas nos forneceram tambm so muito limitadas. Encontramos em Phopo Hill,
perto do Lago Kazumi, vestgios de habitaes de uma certa importncia, feitas
de barro aplicado em estruturas de madeira (postes e daga). Ferro, sob forma de
escumalha e de objetos talhados, foi descoberto em vrios stios, notadamente
em Nanyangu, no distrito de Ncheu e no Zomba Range. Por outro lado, no
encontramos nenhum trao de cobre. Prolas de conchas, do sculo V ou VI da
Era Crist, associadas s cermicas nkope foram descobertas no depsito sub-
terrneo em Phwadze Stream, no distrito chikwawa. O nico objeto de origem
costeira encontrado em um depsito da primeira Idade do Ferro, no Malaui,
 um cauri quebrado, proveniente de um stio estabelecido nas margens do
Namichimba, no Mwanya. Todas as ossadas de animais que pudemos identificar
nestes stios pertenciam a espcies selvagens25.

22   P. A. COLE-KING, 1973.
23   D. W. PHILLIPSON, 1976a, p. 17.
24   D. W. PHILLIPSON, 1975.
25   K. R. ROBINSON, 1970, 1973, 1976.
768                                                                   frica do sculo VII ao XI



    No distrito de Chipata, no sudeste da Zmbia, povoamentos bastante disper-
sos da primeira Idade do Ferro parecem datar do comeo do sculo IV, embora
uma populao autctone, que utilizava ferramentas de pedra, parece tambm
ter sobrevivido at uma poca muito avanada do ltimo milnio. A nica aldeia,
estudada at ento, da primeira Idade do Ferro dessa regio encontra-se em
Kammama, na fronteira malauiense, no norte de Chipata. O assentamento se
estendia por cerca de 5 hectares, mas sua ocupao foi provavelmente de curta
durao e ter-se-ia situado entre o sculo III e o V26.
    Os assentamentos da corrente oriental no sul do Zambeze no entram no
quadro geogrfico deste captulo, assim,  pela regio das cataratas Vitria, na
parte sul da Zmbia, que continuaremos agora nosso estudo da primeira Idade
do Ferro. Atribumo-lhe o nome de grupo dambwa, do nome de um stio pr-
ximo de Livingstone27. Este grupo se estendeu ao longo do vale do Zambeze,
subindo o Chirundu at os arredores de Sioma, e tambm, para o sul, ao menos
at a regio de Wankie, no Zimbbue. Ele era bordejado ao norte pelas regi-
es onde as indstrias da primeira Idade do Ferro foram atribudas  corrente
ocidental, como vimos mais acima.  quase certo que o grupo dambwa teve
sua origem na progresso para o noroeste da corrente oriental das populaes
da primeira Idade do Ferro, vindas do planalto zimbabuano. A datao com
carbono 14 indica que seu avano na regio das cataratas Vitria no comeou
antes do sculo VI da Era Crist, ou seja, em uma poca claramente mais tardia
que aquela que marcou o comeo do estabelecimento da corrente ocidental em
regies muito prximas, no norte.
    Os stios mais conhecidos do grupo dambwa so Kumadzulo, ocupado entre
os sculos V e VII, e o assentamento fundado um pouco mais tarde em Dambwa.
Identificamos quatro fases sucessivas de acordo com a tipologia das cermi-
cas, mas todas se ligam a uma mesma tradio da cermica chamada tradio
shongwe28.
    Nos stios dos grupos dambwa, encontramos ossadas de grandes e pequenos
animais de criao, alm daquelas de animais selvagens. Os vestgios de constru-
es descobertos em Kumadzulo provm, provavelmente, de casas retangulares
notveis pelas pequenas dimenses, feitas de postes e de daga. O contato com
o comrcio da costa leste tinha comeado desde o sculo VII, como indicam
um fragmento de vidro importado, encontrado nas runas de uma das casas de

26    D. W. PHILLIPSON, 1976a, p. 38-45.
27    S. G. H. DANIELS e D. W. PHILLIPSON, 1969; J. O. VOGEL, 1971.
28    J. O. VOGEL, 1972a.
A frica Central ao norte do Zambeze                                        769



Kumadzulo, e cauris provenientes do stio vizinho de Chundu Farm. Entretanto,
no encontramos nesta zona prolas de vidro nos nveis da primeira Idade
do Ferro. Os objetos de ferro fabricados localmente compreendem enxadas,
machados, facas, pontas de lanas e flechas. Tambm descobrimos uma barra e
pulseiras de cobre, o que indica relaes comerciais com as regies produtoras
de cobre, tais como o Arco do Kafue ou a regio de Wankie, no Zimbbue.
    As escavaes de Chundu Farm permitiram conhecer muito melhor os ritos
funerrios locais da primeira Idade do Ferro, ritos que podem ser comparados
queles que sobreviveram at um perodo ligeiramente mais recente, nos cemi-
trios do alto Lualaba, descritos acima. Os mortos eram enterrados em posio
muito contrada, em covas individuais, ao passo que covas anlogas eram cavadas
bem ao lado para recolher os objetos funerrios que eram fechados, geralmente,
em dois recipientes de cermica, sendo um deles a tampa; colocavam-se a obje-
tos como enxadas, machados ou pulseiras de ferro ou de cobre, cauris ou prolas
de conchas. Um desses esconderijos funerrios continha tambm dois gros, e
neles acreditamos reconhecer um gro de abbora e um de feijo. O stio de
Chundu Farm remontaria, aproximadamente, ao sculo VIII da Era Crist29.


     O perodo de transio entre a primeira
     e a segunda Idade do Ferro
    Em muitas regies de lngua banta, as sociedades da segunda Idade do Ferro
no foram objeto de estudos to completos por parte dos arquelogos quanto as
sociedades que as precederam. Por isso, ao menos no que concerne ao perodo
que aqui nos interessa e precedeu aquele para o qual a tradio oral constitui
uma fonte histrica vlida; os sculos que se seguiram ao sculo XI da Era
Crist representam, na verdade, uma lacuna em nosso conhecimento da hist-
ria da frica Central. No obstante, comeamos, apesar dos poucos dados em
nossa posse, a descortinar, na maior parte das regies, por volta do comeo do
sculo XI da Era Crist, uma ruptura muito marcada nas tradies da cermica
local30. O sul da Zmbia  uma das raras regies em que pudemos notar uma
certa continuidade estilstica ao longo deste perodo: parece-nos mais indicado
comear a anlise que se segue por essa regio.



29   J. O. VOGEL, 1972b, 1973b.
30   J. E. G. SUTTON, 1972; D. W. PHILLIPSON, 1975.
770                                                                      frica do sculo VII ao XI



    O material arqueolgico que nos interessa aqui  aquele atribudo  inds-
tria de Kalomo; temos todas as razes para pensar que a tradio da cermica
de kalomo se desenvolveu a partir de uma fase tardia da sequncia do grupo
dambwa, na regio das cataratas Vitria31. Dali, por volta do fim do sculo IX
da Era Crist, seus oleiros parecem ter comeado a se deslocar para o norte e
noroeste, at o planalto de Batoka, onde sua cermica caracterstica no tardou
a suplantar a do grupo kalundu da primeira Idade do Ferro. Esta transio foi
observada pela primeira vez no stio kalundu, prximo de Kalombo, onde a dis-
tinguimos muito mal em razo das perturbaes estratigrficas; tambm encon-
tramos indcios mais a norte, em Gundu e Ndonde, no distrito de Choma32.
Entretanto, a melhor representao do conjunto que podemos ter da indstria
kalomo encontra-se em Isamu Pati, a oeste de Kalomo, stio que no foi ocupado
precedentemente ao longo da primeira Idade do Ferro33.
    Certas aldeias ligadas  indstria de Kalomo parecem ter praticado o trabalho
do ferro em uma escala mais reduzida que seus predecessores. Encontramos
machados e enxadas, mas em nmero muito reduzido, ao passo que os objetos
descobertos com maior frequncia foram facas, navalhas, e pontas de flechas e
lanas. O cobre servia, sobretudo,  confeco de pulseiras. O fato de termos
descoberto menos ossadas de animais selvagens que ossadas de espcies doms-
ticas mostra que a caa no mais ocupava um lugar em destaque. Encontramos
traos da cultura do sorgo, mas parece que, nesta regio como em outras do
leste e do sul da frica, a economia ao longo dos primeiros sculos da segunda
Idade do Ferro tenha se baseado basicamente na criao de animais domsticos,
principalmente dos bovinos. A presena de prolas de vidro e de conchas (cauris
e cones) mostra bem que as relaes comerciais com a costa oriental eram muito
mais intensas que ao longo dos perodos anteriores.
    Aproximadamente, na segunda metade do sculo XI da Era Crist, a inds-
tria de Kalomo, no planalto de Batoka se encontrou subitamente substituda
por uma indstria conhecida sob o nome de Kangila, que progredia para o sul
e parece ter nascido no vale do baixo Kafue ou em suas cercanias. Esta nova
indstria se expandiu at as cataratas Vitria, onde seu encontro com a indstria
de Kalomo, em Sinde, deu-se uma centena de anos aps sua confrontao no




31    J. O. VOGEL, 1975.
32    Escavaes no publicadas, B. M. FAGAN; D. W. PHILLIPSON, 1970a.
33    B. M. FAGAN, 1967.
A frica Central ao norte do Zambeze                                                                 771



planalto; esta discrepncia pode ser interpretada como uma consequncia da
lenta disperso da indstria de Kangila para o sul34.
    Os testemunhos que a arqueologia nos traz a respeito do princpio da inds-
tria de Kangila so difceis de interpretar, pois somente podem se apoiar nas
escavaes efetuadas em dois stios de Sabanzi, perto de Monze, e de Ingombo
Ilede, no longe da confluncia do Zambeze e do Kafue. Este segundo stio teria
sido ocupado a partir do sculo VII ou VIII, e o de Sebanzi, um pouco mais
tarde. Em ambos os casos, falta claridade na estratigrafia e na cronologia, porm
 quase certo que a cermica  mais antiga do que aquela descoberta em Kangila,
no planalto perto de Mazabuka. At mesmo a aldeia de Kangila foi ocupada
durante um breve perodo por volta do sculo XV da Era Crist e representa,
portanto, uma fase tardia da indstria  qual ela deu nome. Salvo a cermica,
a civilizao material e a economia parecem ter sido muito semelhantes s da
indstria de Kalomo35.
    Fora da provncia do sul, o tipo mais expandido da cermica da segunda
Idade do Ferro identificado na Zmbia  aquele que atribumos  tradio
luangua. Ns o encontramos em toda a Zmbia, a norte e a leste de uma linha
indo do baixo Kafue a Lubumbashi, e at as regies limtrofes da Repblica
Democrtica do Congo, do Malaui, de Moambique e do Zimbbue. A tradio
luangua  encontrada tambm nas regies onde a primeira Idade do Ferro esteve
ligada aos grupos kalambo, nkope, chondwe e kapwirimbwe, representando,
simultaneamente, as correntes oriental e ocidental. Primeiramente, ela aparece
nos testemunhos arqueolgicos do sculo XI da primeira Era Crist, depois,
rompe brutal e completamente com as tradies que a precederam na primeira
Idade do Ferro. Talvez sejam os stios de Twickenham Road e de Chondwe
que fornecem a melhor ilustrao da natureza e da data deste fenmeno, o qual
tambm encontra sua confirmao nos stios descobertos nos abrigos rochosos
do norte e do leste, como em Nakapapula e Thandwe. Em todas as regies em
que ela se expandiu, a tradio da cermica luangua se manteve at pocas muito
recentes nas populaes, tais como os bemba, os chewa, os nsenga e naquelas
do norte da Lunda36.



34   J. O. VOGEL, 1973c. VOGEL fala dos "primeiros Tonga", a respeito da tradio kangila, mas preferimos
     evitar dar nomes de etnias a elementos pr-histricos.
35   B. M. FAGAN e D. W. PHILLIPSON, 1965; B. M. FAGAN, 1969b; D. W. PHILLIPSON e B. M.
     FAGAN, 1969.
36   D. W. PHILLIPSON, 1974.
772                                                         frica do sculo VII ao XI



    A cermica da tradio luangua oferece um contraste muito marcado com
a dos grupos que a precederam na primeira Idade do Ferro, e nada indica que
tivesse existido uma aproximao progressiva de uma com a outra. Contudo, a
cermica da primeira Idade do Ferro, tipologicamente mais prxima da tradio
luangua,  aquela do grupo chondwe. Acredita-se que o ancestral da tradio
luangua poderia finalmente estar mais estreitamente ligado  cermica do grupo
chondwe que a dos grupos da primeira Idade do Ferro, conhecidos atualmente37.
A explicao mais plausvel destas observaes arqueolgicas  que o nascimento
da tradio luangua foi provocado por um movimento bastante amplo de popu-
lao, do qual famlias inteiras participaram a partir de uma regio situada a
norte ou a noroeste da regio Zmbia/cinturo do cobre do Shaba. Se a execuo
da cermica de tradio luangua, nessa poca, era trabalho de mulheres (como,
invariavelmente, ela o  nos nossos dias), podemos explicar a repentinidade de
seu surgimento supondo que o trabalho cermico da primeira Idade do Ferro
era executado por homens38.
    Uma questo anloga se coloca atualmente sobre o Malaui, pois que a cer-
mica nkope fora substituda, por volta do sculo XI da Era Crist, por aquela
que foi chamada de Kapeni Hill, segundo um lugar situado no distrito de Ncheu.
Aproximadamente na mesma poca, a cermica mwamasapa (que leva o nome
de um stio prximo de Karonga) suplantou a cermica mwabulambo, como
cermica caracterstica da parte norte do pas. Estes dois tipos de cermica
malauiense da ltima Idade do Ferro parece apresentar um certo parentesco com
aquelas da tradio luangua. Como na Zmbia, a arqueologia destas primeiras
comunidades da ltima Idade do Ferro  muito mal conhecida. Destacamos
a existncia, em certos stios de habitaes, de postes e daga, bem como de
construes em forma de colmeias, de carter menos permanente. Os obje-
tos de ferro e, por vezes, de cobre foram usados durante todo este perodo. As
prolas de vidro importadas, raras no comeo, em seguida, multiplicaram-se.
Encontramos gros de sorgo associados a cermicas mwamasapa, e descobrimos,
em toda extenso do Malaui, ossadas de bovinos esparsas em vrios stios da
segunda Idade do Ferro39. No volume IV da presente obra, voltaremos a estas
comunidades da segunda Idade do Ferro no Malaui, cuja metade  da Zmbia;
entrementes, faremos uma breve exposio da situao, completamente dife-
rente, que existia nesta poca nas regies mais a oeste.

37    D. W. PHILLIPSON, 1972.
38    D. W. PHILLIPSON, 1974.
39    P. A. COLE-KING, 1973; K. R. ROBINSON, 1966c, 1970.
                                                                                                                                      A frica Central ao norte do Zambeze
                                                                                                                                      773
figura 23.6   Cermica do estilo luangua, proveniente do abrigo rupestre de Makwe, leste da Zmbia (Fonte: D. W. Phillipson, 1976).
774                                                          frica do sculo VII ao XI



    A oeste da regio ocupada pelas indstrias de tradio luangwa, parece ter
existido uma continuidade bem maior, das indstrias de cermica da primeira
Idade do Ferro at aquelas do ltimo milnio. Foi assim que nos distritos de
Mongu, de Kabompo, de Zambezi, de Mwnilunga e de Koma, na Zmbia
Ocidental, a tradio da cermica moderna, chamada tradio Lungwebungu,
apresenta numerosos traos comuns com a tradio da primeira Idade do Ferro
da regio, como demonstra o stio de Lubusi mencionado acima40. Pesquisas
recentes parecem indicar que esta continuidade poderia no ter sido to clara
quanto havamos acreditado no princpio41: todavia, no encontramos nenhum
indcio nas escavaes arqueolgicas, no comeo do ltimo milnio, desta fratura
que tinha anunciado a chegada da segunda Idade do Ferro, mais a leste. Entre
as regies de tradies de cermicas lungwebungu e luangua, no pas ocupado
atualmente pelos kaonde, descobrimos ainda um outro estilo de cermica em
stios como Kamysongolwa e Kansanshi, os quais datariam de um perodo
situado entre os sculos XI e XIII42.
    O quadro que nos  oferecido pela frica Central do sculo XI da Era Crist
, pois, de uma dicotomia pronunciada entre o leste e o oeste. A leste, so as
indstrias da primeira Idade do Ferro que, brutalmente, levaram um fim, suplan-
tadas por outras; a oeste, aquelas que lhes correspondem mantiveram-se quase
intactas. Os cemitrios de Sanga e de Katoto, no alto Lualaba, mencionados
mais acima, so uma prova suplementar desta continuidade na metade oeste de
nossa regio; tipologicamente, eles pertencem ao complexo industrial da pri-
meira Idade do Ferro, quando, cronologicamente, eles preenchem uma lacuna e
se ligam ao perodo alhures ocupado pelas indstrias da segunda Idade do Ferro,
e a qual, alis, pertence o perodo em que tais cemitrios foram mais usados.
Faz-se necessrio, agora, abandonar os argumentos puramente arqueolgicos
para considerar a significao e o impacto destas observaes no plano histrico.
    O primeiro ponto a ser sublinhado,  que houve na metade ocidental da
frica Central muito mais continuidade entre a primeira e a segunda Idade
do Ferro que na metade oriental. Fato interessante, esta diviso leste/oeste no
coincide com as subdivises tnicas da regio, como testemunha a tradio
oral. Por exemplo, encontramos tanto a leste quanto a oeste populaes que,
tradicionalmente ligam suas origens aos imprios luanda e luba. Ademais, hoje
existem etnias portando o nome Lunda que fazem, no primeiro caso, cermica

40    D. W. PHILLIPSON, 1974.
41    R. M. DERRICOURT e R. J. PAPSTEIN, 1976.
42    M. S. BISSON, 1975.
                                                                                        A frica Central ao norte do Zambeze
                                                                                        775
figura 23.7   Cermica moderna de estilo lungwebungu (Fonte: D. W. Phillipson, 1974).
776                                                                frica do sculo VII ao XI



de tradio luangwa (os lunda de Kazembe, no vale do Luapala) e, no segundo,
cermica de tradio lungwebungu, derivada da primeira Idade do Ferro (os
lunda do oeste, a noroeste da Zmbia)43. Portanto,  claro que foram fenmenos
fundamentalmente distintos o incio da segunda Idade do Ferro e o surgimento,
inscrito na tradio, de sociedades que o constituram. Alis, isso se confirma
pelas implicaes cronolgicas da mais recente interpretao das tradies orais,
que atribui o nascimento do Imprio Luba a acontecimentos sobrevindos no
sculo XIV ou at mesmo no sculo XIII, data claramente mais recente que
aquela sugerida pelos arquelogos para o incio a segunda Idade do Ferro44.
    Comparando os dados arqueolgicos e lingusticos podemos tentar resgatar
uma correlao vlida: mais acima, chamamos ateno para o grupo das lnguas
bantas das altas terras do oeste, cuja origem  situada por Heine e Dalby em
um centro de disperso prximo do baixo Congo. Aps terem se estabelecido
nas altas terras do oeste, essas lnguas deram origem a um terceiro centro de
disperso na regio do Shaba.  a esse centro que a maioria dos linguistas, hoje,
queria ligar a ltima grande dispora das lnguas bantas, aquela que conduziu,
em toda metade leste da frica banta,  introduo de lnguas estreitamente
aparentadas, chamadas por Heine de grupo das altas terras do Leste45. J mos-
tramos que existem razes para ligar o incio da segunda metade do ferro das
regies orientais  expanso das populaes falantes dessas lnguas das altas
terras do Leste46. A manuteno das lnguas ocidentais mais antigas e mais
diversificadas deve ser ligada  continuidade mais marcada entre a primeira e
a segunda Idade do Ferro no oeste. A diviso geogrfica das lnguas das altas
terras do leste coincide com a regio onde uma interrupo da continuidade
arqueolgica muito acentuada tornou-se mais precisa no comeo da segunda
Idade do Ferro. Deste modo, a origem ocidental das lnguas das altas terras do
leste coincide com aquela de diversas indstrias da segunda metade da Idade
do Ferro, notadamente, a tradio luangwa.
    Tal  o quadro da frica Central, do sculo VII ao XI da Era Crist, extrado
das pesquisas arqueolgicas e lingusticas. Desde o incio deste perodo, popu-
laes da primeira Idade do Ferro, sem dvida, falantes das lnguas bantas, j
ocupavam toda a superfcie desse territrio, embora populaes de caadores-
-coletores, servindo-se de ferramentas de pedra, tenham se mantido em muitas

43    D. W. PHILLIPSON, 1974; 1977b.
44    J. C. MILLER, 1976; D. BIRMINGHAM, 1977.
45    B. HEINE, H. HOFF e R. VOSSEN, 1977; D. DALBY, 1975, 1976.
46    D. W. PHILLIPSON, 1976c; 1977a, cap. 8.
A frica Central ao norte do Zambeze                                         777



regies, frequentemente como clientes de seus vizinhos agricultores. Foi quase
unicamente graas  arqueologia que conhecemos tais comunidades da pri-
meira Idade do Ferro: elas podem ser classificadas em duas correntes  oriental
e ocidental  de origem distinta, mas aparentadas. Tratava-se, evidentemente,
de sociedades camponesas agrcolas, provavelmente, no tendo nenhum sis-
tema notvel de centralizao do poder poltico. Aproximadamente no fim
do primeiro milnio, podemos, todavia, detectar, na regio do alto Lualaba,
um aumento sensvel da riqueza, da atividade comercial e da densidade de
populao47. Por volta do sculo XI, desta grande regio partiria o processo de
expanso demogrfica que faria com que uma grandessssima poro da frica
Central do leste alcanasse  civilizao da segunda Idade do Ferro. Deste modo,
estabeleceram-se as populaes que dariam origem s sociedades mais evoludas
da segunda Idade do Ferro.




47   Ver M. S. BISSON, 1975.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                    779



                                        CAPTULO 24


   A frica Meridional ao sul do Zambeze
                                        Thomas N. Huffman




   A mais importante evoluo cultural que a frica Austral conheceu na Idade
do Ferro ocorreu h um milnio, na bacia do Shase e do Limpopo, quando povos
de lngua banta criaram a cultura zimbabuense. Para descrever esta evoluo e
para mostrar a sua importncia, estudarei os movimentos populacionais indica-
dos pelo estilo das cermicas, os sistemas culturais refletidos pela organizao
das aldeias e as consequncias que o comrcio exterior teve no sistema poltico
e na evoluo da cultura zimbabuense em Mapungubwe.


    Os movimentos populacionais e os sistemas
    culturais de 700 ao ano 1000
    Na frica Austral, o estilo das cermicas permite aos arquelogos retraar os
movimentos populacionais da Idade do Ferro e as unidades estilsticas marcando
a localizao dos grupos tnicos no espao e no tempo. Isto porque a feitura das
cermicas, parte integrante de um modo de vida, foi criada e transmitida pela
sociedade; a transmisso deste estilo deu-se, em parte, por meio da comunica-
o verbal; e, sendo que os fabricantes e usurios das cermicas pertenceram 
mesma sociedade, a rea de extenso da cermica deve corresponder tambm
quela de um grupo de populao falante da mesma lngua. Entretanto, esta
780                                                                              frica do sculo VII ao XI




figura 24.1 Alguns dos grupos tnicos definidos pelo estilo de cermica na frica Austral, entre 700 e
900 (os nomes em caixa alta so mencionados no texto; a estrela indica o stio zhizo de Schroda; Fonte: T.
N. Huffman).
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                781



srie de hipteses no exclui que um grupo praticante de um outro estilo fosse
falante de uma mesma lngua.
    Considerando essas proposies, o estudo do estilo da cermica, natural-
mente, nos leva a concluir que as lnguas faladas pelas populaes da Idade do
Ferro, na frica Central e Austral, pertenciam  famlia banta. Dado que as
cermicas fabricadas na regio durante a primeira Idade do Ferro fazem parte de
um conjunto estilstico nico1e que uma destas feituras pode estar diretamente
ligada  cermica executada pelos grupos de lngua shona2 da poca contem-
pornea, a lngua principal do conjunto dos grupos da primeira Idade do Ferro
devia ser uma lngua banta. Pelas razes indicadas acima, esta filiao contnua
dos estilos da cermica permite-nos estabelecer a ligao entre os grupos da
Idade do Ferro e as lnguas bantas.
    No comeo do sculo VIII da Era Crist, vrios povos bantfonos viviam na
frica Austral (figura 24.1). Aquele ao qual se atribuiu o nome da atual cidade
de Sinoia havia transposto o Zambeze pouco tempo antes3, mas os outros ocu-
pavam esta parte da frica desde o incio da Idade do Ferro4. A regio que nos
interessa mais particularmente (isto , hoje, o sudoeste do Matabelelndia, o
centro-leste de Botsuana e a extremidade setentrional do Transvaal) era povo-
ada, em grande parte, pelos zhizo. O estudo da cermica mostra que eles ainda
permaneceram a por dois sculos e meio antes da chegada, no sudoeste do
Zimbbue, de um novo grupo chamado Leopard's Kopje. Isso nos  mostrado
pela clara disparidade que distingue a cermica zhizo da cermica leopard's
kopje5. Na cermica zhizo, os jarros portam motivos estampados e gravados
na borda inferior e uma linha trabalhada no ombro da pea, ao passo que os
jarros leopard's kopje so ornados de tringulos, de anis e meandros gravados
em torno do colo. Na mesma poca, triplicou o nmero de aldeias toutswe,
correspondentes ao fim do perodo6.  certo que um grande nmero de zhizo
preferiu abandonar seu territrio antes de ser assimilado pelos leopard's kopje.
    Certos arquelogos relacionam a expanso dos leopard's kopje, por volta do
ano 1000 da Era Crist, ao movimento geral das populaes de lngua banta

1    T. N. HUFFMAN, 1982; T. M. MAGGS, 1980a, 1980b; D. W. PHILLIPSON, 1977a.
2    T. N. HUFFMAN, 1978.
3    P. S. GARLAKE, 1970; T. N. HUFFMAN, 1979; D. W. PHILLIPSON, 1977a; K. R. ROBINSON,
     1966b.
4    T. M. EVERS, 1980; E. O. M. HANISCH, 1980, 1981; T. N. HUFFMAN, 1974b; T. M. MAGGS e
     M. A. MICHAEL, 1976; D. W. PHILLIPSON, 1977a; K. R. ROBINSON, 1966a.
5    T. N. HUFFMAN, 1974b.
6    J. R. DENBOW, 1982 e 1983.
782                                                                         frica do sculo VII ao XI




figura 24.2 Grupos tnicos e movimentos populacionais na frica Austral, entre 950 e 1000 (Fonte: T.
N. Huffman).
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                          783



que partiu da frica Central em direo ao sul7. Mas a cermica dos leopard's
kopje  assaz diferente daquela que encontramos na mesma poca na Zmbia e
no Malui, e daquela, de um novo estilo, surgida no sculo X na costa de Natal,
perto de Blackburn8. Ela constitui a terceira fase de uma sequncia estilstica
que engloba a cermica klingbeil (sculos VIII-IX)9 e a cermica do centro do
Transvaal (sculos V-VII)10. Por outro lado, dado que, no sculo X, os leopard's
kopje tomaram o lugar dos zhizo no sudoeste do Zimbbue, e que, no sculo XI,
os maxton foram substitudos, no norte do Zimbbue, por um grupo aparentado
aos leopard's kopje, os gumanye (antigamente do Perodo II do Zimbbue e do
baixo Zimbbue), parece, pois, que os leopard's kopje atravessaram o Limpopo,
em direo ao norte, e no o Zambeze, em direo ao sul11. Ademais, grupos
que eram aparentados aos leopard's kopje e que no se dirigiram para o norte,
como os eiland, permaneceram em certas regies at o sculo XIV12. Conse-
quentemente, em diferentes pocas, produziram-se na frica Austral movi-
mentos populacionais originados em outros lugares que no na frica Central
(ver figura 24.2).
    Os leopard's kopje e os gumanye ligam-se a esta tradio estilstica, evocada
precedentemente, que une as lnguas bantas e os povos da Idade do Ferro. Por
conseguinte, os leopard's kopje e os gumanye so os ancestrais de um bom
nmero daqueles que, hoje, so falantes da lngua shona.
    Entretanto, a cermica do tipo da que era fabricada pelos leopard's kopje
permite-nos somente identificar grupos de populao. Para compreender como
viviam estes povos, devemos examinar outros dados, notadamente de ordem
econmica. A localizao e a natureza dos povoamentos da Idade do Ferro, bem
como os objetos talhados por eles, mostram que tais povos praticavam uma agri-
cultura diversificada. Assim, a maioria dos assentamentos da primeira Idade do
Ferro era situada em regies acidentadas, onde estes agricultores podiam encon-
trar, nas proximidades, os recursos que lhes eram necessrios  gua, madeira,
solos cultivveis e pastos. Por outro lado, os pastores preferiam os vastos prados,
como o Kalahari, enquanto, outrora, os grupos que praticavam a caa e a coleta
encontravam-se instalados em quase todos os tipos de meio. Ademais, os assen-


7    D. W. PHILLIPSON, 1977a.
8    O. DAVIES, 1971; T. M. MAGGS, 1980a; T. ROBEY, 1980.
9    T. M. EVERS, 1980.
10   T. M. EVERS, 1982; R. R. INSKEEP e T. M. MAGGS, 1975.
11   T. N. HUFFMAN, 1978.
12   J. R. DENBOW, 1981.
784                                                                      frica do sculo VII ao XI



tamentos da Idade do Ferro eram relativamente permanentes, comparados aos
acampamentos nmades dos pastores e dos caadores-coletores. Os vestgios de
construes formadas de estacas e daga (mistura de barro e esterco) so numero-
sos, e o volume dos detritos mostra que, geralmente, mesmo as menores explo-
raes eram ocupadas por vrios anos. Esses assentamentos semi-permanentes
eram, notadamente, dotados de silos, de cofres soerguidos, de pedras de moer e
de enxadas de ferro, alm de elementos pertencentes a uma tecnologia adaptada
 cultura dos cereais. Geralmente, nesses assentamentos, as cermicas apre-
sentam formas e dimenses muito diversas e esta prpria diversidade tambm
confirma a prtica das culturas, pois a grande maioria dos caadores-coletores
no utilizava a cermica e, em geral, entre os criadores de gado existia apenas um
nmero restrito de modelos de cermicas, portteis e de pequena dimenso. Ao
contrrio, os cultivadores tinham necessidade de cermicas de formas e dimen-
ses diversas para preparar e servir os alimentos  base de cereais, tais como o
porridge e a cerveja. Tambm encontramos traos de certos plantios, nos stios
da regio, que remontam  Idade do Ferro, notadamente sorgo carbonizado
nos stios zhizo13, toutswe14 e leopard's kopje15; eleusine cultivada (Eleusine)
e milhete (Pennisetum) em certos assentamentos leopard's kopje16, bem como
diversos leguminosos em Sinoia17 e nos stios leopard's kopje18. Tais elementos,
juntando-se aos outros dados, testemunham o cultivo de certas variedades na
Idade do Ferro.
    A prtica da criao de rebanho encontra-se igualmente atestada nos mate-
riais arqueolgicos relativos ao perodo que vai do sculo VII ao XI: ossos
pertencentes a certos animais domsticos (carneiros e cabras) e ao gado foram
encontrados em quase todos os povoamentos da Idade do Ferro conhecidos at
hoje19. Todavia, at recentemente era comum admitir que os leopard's kopje
tivessem sido o primeiro povo da frica Austral a ter criado gado em grande
escala. Acreditava-se, mais geralmente, que dois tipos de economia distintos
tinham prevalecido durante a Idade do Ferro: no incio, uma economia orientada


13    E. O. M. HANISCH, 1980, 1981.
14    J. R. DENBOW, 1983.
15    T. N. HUFFMAN, 1974b; A. MEYER, 1980.
16    E. O. M. HANISCH, 1980; T. N. HUFFMAN, 1974b.
17    T. N. HUFFMAN, 1979.
18    T. N. HUFFMAN, 1974b.
19    Ver os trabalhos dos seguintes autores: J. R. DENBOW, T. M. EVERS, E. O. M. HANISCH, T. N.
      HUFFMAN, J. H. N. LOUBSER, T. M. MAGGS, M. P. J. MOORE, T. ROBEY, K. R. ROBINSON,
      E. A. VOIGT e R. WELBOURNE, mencionados na bibliografia.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                  785



para o cultivo e, no fim desse perodo, uma economia fundada na criao de
rebanho20. Contudo, as pesquisas mais recentes colocam em causa esta distino
econmica.
    Pesquisas intensivas empreendidas ao longo da borda oriental do Kalahari,
no Botsuana21, permitiram a descoberta, nos assentamentos zhizo dos sculos
VIII e IX, e toutswe dos sculos X e XI, de espessos depsitos de esterco, to
espessos que, s vezes, eles estavam vitrificados por combusto interna22. Desde
ento, descobrimos que os rebanhos zhizo eram to importantes quanto queles,
ulteriores, dos leopard's kopje. Embora no disponhamos de dados comparveis
em relao ao Zimbbue, parece que os grupos zhizo estabelecidos ao longo do
Kalahari tinham um gado mais abundante que os outros zhizo estabelecidos a
leste. Seja o que for, tais pesquisas mostram que as diferenas de comportamento
econmico existentes entre os diversos grupos da Idade do Ferro provinham,
muito provavelmente, mais de decises deliberadas, ligadas ao meio e ao con-
texto poltico, que de determinadas tradies histricas ou culturais.
    Na verdade, outras pesquisas conduzidas recentemente tambm colocam
em evidncia caractersticas culturais comuns  maior parte das sociedades do
incio e do fim da Idade do Ferro na frica Austral, e mostram que a quase
totalidade desses povos tinha comportamentos idnticos em matria de criao
de rebanho, independentemente do tamanho. A fim de avaliar a importncia
do gado entre os povos da Idade do Ferro, vamos agora analisar a organizao
de seus assentamentos.
    A organizao do espao ensina-nos sobre os sistemas culturais dos grupos
pr-histricos porque ela varia segundo as culturas. Todas as sociedades divi-
dem os espaos ocupados por elas em zonas distintas, sendo que cada uma 
reservada a um nmero limitado de atividades que tm o mesmo gnero de
significaes culturais. Recentemente, antroplogos fizeram uma descoberta
de grande auxlio para o estudo da Idade do Ferro: eles descobriram o sistema
subjacente  cultura dos bantos meridionais e, notadamente, o cdigo que regeu
sua organizao espacial23.
    A cultura pastoril dos bantos se caracteriza por um sistema de valores rela-
tivos ao papel poltico dos homens,  benevolncia dos espritos dos ancestrais
e  funo mediadora do gado. O gado pertence ao domnio dos homens:  a


20   R. OLIVER, 1982; R. OLIVER e B. M. FAGAN (org.), 1975; D. W. PHILLIPSON, 1977a.
21   J. R. DENBOW, 1982, 1983.
22   J. S. BUTTERWORTH, 1979; J. R. DENBOW, 1979b.
23   A. KUPER, 1982a.
786                                                          frica do sculo VII ao XI



primeira forma de riqueza, o principal meio de obter mulheres e crianas, o
principal meio de sucesso, prestgio e poder. Este sistema de valores determina
uma organizao particular do espao: o ptio dos homens encontra-se situada
no centro da aldeia, no interior ou nas proximidades do curral pertencente ao
chefe. O chefe e outras personagens importantes so enterrados a; neste per-
metro, tambm so cavados silos comunais (ou cofres especiais para os gros),
para se prevenir contra a fome. As cabanas das esposas encontram-se situadas
em torno desta zona central segundo um sistema hierrquico materializado
pelo uso alternativo da esquerda e da direita. Nas aldeias onde as famlias
vivem de forma independente, tal sistema hierrquico determina o lugar das
famlias em torno do chefe; nas casas individuais, um lado  reservado aos
homens e o outro s mulheres, conforme o mesmo princpio. Por outro lado,
a diviso do espao dianteiro-traseiro  feita de acordo com o carter profano
ou sagrado das atividades. A dianteira de uma casa e de uma aldeia  consa-
grada s atividades pblicas e profanas, ao passo que a traseira  reservada s
atividades privadas e sagradas: assim, os objetos ancestrais so conservados nas
traseiras da cabana, os cofres de gros privados (ou seja, no comunais) so
colocados atrs das cabanas de seus proprietrios e uma zona sagrada dedicada
 chuva  instalada nas traseiras da aldeia, atrs da residncia do chefe. Dado
que esta demarcao sagrado-profano  situada mais ou menos no ngulo
direito daquela que determina a hierarquia, a pessoa mais importante vive
na parte de trs da aldeia, na parte mais protegida. Se a dianteira da aldeia
encontra-se diante de um declive descendente, a importncia hierrquica e
ritual  ento exprimida pela altura (ver figura 24.3).
    Tal esquema geral, obviamente acompanhado por importantes variantes,
se aplica a um grande nmero de grupos tnicos da frica Austral, mas no
o encontramos nas sociedades bantas matrilineares da frica Central, que
possuem pouco ou nenhum gado, nem entre os criadores no bantfonos
da frica do Leste. Antes, este modelo parece limitado s sociedades bantas
patrilineares que trocam gado por mulheres24. Se esta correlao for exata, a
presena deste esquema nos dados arqueolgicos prova a existncia de um
sistema de valores especificamente banto em matria de poltica e de criao
de rebanho.
    Na falta de encontrar integralmente esta organizao do espao na poca
pr-histrica, , contudo, possvel avanar configuraes especficas exclusiva-


24    Ibidem.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                                   787




figura 24.3 Organizao espacial dos pastores bantos. A casa do chefe encontra-se geralmente no alto de
um declive, atrs do ptio dos homens e do estbulo. Este ltimo contm silos de gros (F) e tmulos (T). Os
pequenos crculos representam celeiros soerguidos, situados atrs das casas (Fonte: T. N. Huffman).



mente pertencentes  cultura pastoril banta. Em particular, os currais de gado
onde se encontram tambm covas e sepulturas humanas bastam para provar a
presena de tal cultura. Com a ajuda desses elementos, podemos traar a evo-
luo da cultura pastoril banta na frica Austral, remontando at o sculo VII
antes da Era Crist. Assim, podemos discernir este modo de organizao espa-
cial em aldeias do sculo XVIII (delimitadas pelos muros de pedra), associadas
aos ndebele do norte do Transvaal25; em aldeias do sculo XVIII ao XVI (cir-
cunscritas por cercos de pedra), habitadas por grupos de lngua sotho-tswana26;
em aldeias moloko (nome arqueolgico da cermica sotho-tswana) do sculo


25   J. H. LOUBSER, 1981.
26   D. P. COLLETT, 1979 e 1982; T. M. EVERS, 1981 e 1984; S. L. HALL, 1981; T. M. MAGGS, 1976;
     R. J. MASON, 1968, 1969 e 1974; M. O. V. TAYLOR, 1979 e 1984.
788                                                                       frica do sculo VII ao XI



XVI ao XIV (mas que no comportam muros de pedra) 27; em stios woolandale
do sculo XIV ao XII28; em stios leopard's kopje29, eiland30 e toutswe31 do sculo
XII ao X, bem como em aldeias zhizo do sculo X ao VII, compreendendo a
aquelas que, aparentemente, possuam apenas pequenos rebanhos32. Na verdade,
estas particularidades mostram que os povos zhizo da primeira Idade do Ferro
tinham as mesmas atitudes fundamentais em termos de criao de rebanho que
os povos nguni do perodo histrico.
    Se, primeiramente, os arquelogos subestimaram a importncia do gado entre
os zhizo, foi porque suas escavaes tinham mais frequentemente por finalidade
a recolha de espcimes de cermicas e no de informaes sobre a economia. Por
conseguinte, eles raramente notaram os depsitos de esterco ou entenderam a
importncia da organizao espacial para a interpretao dos dados econmicos.
Pesquisas feitas especialmente sobre os modos de vida mostraram que a criao
de rebanho e os cultivos constituam elementos complementares de um mesmo
sistema: no havia dois tipos distintos de economia no primeiro e no segundo
perodo da Idade do Ferro.
    Aps ter determinado as particularidades culturais das sociedades zhizo e
leopard's kopje, podemos aproveitar de nossos conhecimentos sobre a cultura
pastoril banta para interpretar os acontecimentos e mudanas importantes ocor-
ridos na regio do Shase e do Limpopo. Em primeiro, nos interessaremos pelos
assentamentos mais importantes.
    Nesta cultura, a dimenso de uma aldeia depende diretamente da potncia
poltica de seu chefe: quanto maior for a potncia do chefe, maior  a aldeia.
A maior aglomerao zhizo descoberta, e a mais importante do ponto de vista
poltico,  Schroda, no sudeste, situada bem perto da fronteira atual entre o
Zimbbue, Botsuana e a frica do Sul33. A maior aglomerao leopard's kopje
 K234, a aproximadamente seis quilmetros no sudoeste da capital, mais antiga,
dos zhizo.



27    B. N. S. FORDYCE, 1984; E. O. M. HANISCH, 1979; R. J. MASON, 1974.
28    T. N. HUFFMAN, 1984; K. R. ROBINSON, 1966a.
29    G. A. GARDNER, 1963; E. O. M. HANISCH, 1980; T. N. HUFFMAN, 1974b.
30    J. R. DENBOW, 1981; J. H. N. LOUBSER, 1981; M. P. J. MOORE, 1981.
31    J. R. DeNbow, 1982 e 1983.
32    Ibidem; E. O. M. HANISCH, 1980 e 1981; T. N. HUFFMAN, 1974b E 1984.
33    E. O. M. HANISCH, 1980 e 1981.
34    J. F. ELOFF E A. MEYER, 1981; G. A. GARDNER, 1963; A. MEYER, 1980.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                  789



    Em certa poca, pensou-se que K2 fosse um assentamento khoi-khoi e no
banto35. Esta interpretao resultava em grande parte da anlise dos esqueletos
encontrados em sepulturas humanas de K2, a partir dos quais se acreditou poder
identificar populaes do tipo boskop-bush sem traos negroides36. Entretanto,
anlises mais recentes mostraram que os habitantes de K2 eram basicamente
uma populao de origem negra37, tal como a sociedades leopard's kopje, eiland
e zhizo, inclusive em Schroda38. Esta interpretao radicalmente diferente no
que tange s sociedades da Idade do Ferro tornou-se possvel graas a um alar-
gamento das colees usadas como pontos de comparao, e a uma melhora dos
mtodos de anlise. As primeiras anlises consistiam em estudar, com uma nica
varivel, certo nmero de traos considerados significativos, ao passo que as
anlises recentes se esforam em caracterizar as estrutura morfolgica global de
um indivduo utilizando vrias variveis. Os elementos fornecidos pelos esque-
letos vieram completar as informaes da cermica e da organizao espacial, e
mostram que as populaes de K2 e de Schroda eram negras, como a maioria
dos outros bantos do sul da poca pr-histrica.
    Provavelmente, foram os recursos naturais da bacia do Shase e do Lim-
popo que atraram os habitantes de K2 e de Shroda. Quando as precipitaes
eram suficientes, esta regio se prestava  policultura: escarpamentos de arenito
eram cobertos por um solo cultivvel e por florestas mistas; um clima quente
e precipitaes moderadas fizeram crescer ricas savanas; o Shase e o Limpopo
forneceram reservas de gua quase permanentes. Ademais, a floresta de Mopani,
entre os dois rios, abrigava muitos elefantes e devia ser fcil adquirir marfim (os
elefantes abundam nesta regio at hoje). Por fim, os rios que atravessam os ter-
renos aurferos do oeste do Zimbbue desguam no Shase e no Limpopo, perto
de sua confluncia; portanto, podia-se recolher o ouro peneirando as aluvies
prximas de Schroda e de K239.
    Gostaramos, agora, de mostrar como as trocas exteriores fizeram evoluir a
cultura zimbabuense, desempenhando um maior papel que a religio e a criao
de rebanho, consideradas por outras teorias como preponderantes.



35   G. A. GARDNER, 1963.
36   A. GALLOWAY, 1937, 1959.
37   G. P. RIGHTMIRE, 1970.
38   E. O. M. HANISCH, 1980; T. N. HUFFMAN, 1974b; J. H. N. LOUBSER, 1981.
39   T. G. TREVOR E E. T. MELLOR, 1908; e informaes comunicadas por M. WATKEYS, do Depar-
     tamento de Geologia da Universidade de Witwatersrand.
790                                                                   frica do sculo VII ao XI



      Comrcio e poltica do ano 1000 ao ano 1075
   A arqueologia mostra claramente que, na Idade do Ferro, as populaes desta
regio mantiveram relaes com mercadores da costa. Alis, Schroda (sculo IX)
 o stio mais antigo da frica Austral onde foram encontrados grande nmero
de prolas de vidro e objetos de marfim, e em K2 foram descobertos mais destes
produtos do que em todos os outros stios da mesma poca40. Recentemente, em
Moambique, arquelogos descobriram as feitorias costeiras que, provavelmente,
forneceram estas prolas de vidro a Schroda e, depois, a K2, do sculo IX ao XII.
   Pesquisas efetuadas na plancie costeira que cerca a baa de Vilanculos e o
arquiplago de Bazaruto (a baa e a pennsula so vizinhas da zona de Hola
Hola, na figura 24.1) permitiram a descoberta, em certos stios, de cermicas
persas e de artigos de vidro islmicos41. As primeiras escavaes efetuadas em um
destes stios, Chibuene42, revelaram uma jazida datando do sculo VIII ao IX, na
qual se encontravam cermicas, algumas esmaltadas e outras no, comparveis
quelas que remontam aos perodos anteriores de Kilwa e de Manda, mais acima
na costa leste. Esta jazida da primeira Idade do Ferro continha tambm vrias
centenas de prolas de vidro enroladas, amarelas, verdes e azuis, anlogas quelas
de Schroda e de K2. Na verdade, algumas prolas azuis e tubulares desta srie
so do mesmo tipo que as prolas de vidro mais antigas encontradas alhures no
Zimbbue. Portanto, parece que na zona de Vilanculos se encontram os mais
antigos centros de trocas costeiras no sudeste da frica, e que a bacia do Shase
e do Limpopo fora uma das primeiras regies da frica Austral a entrar na rede
comercial do Oceano ndico.
   As feitorias descobertas na costa, tais como Schroda e K2, fizeram parte da
rede descrita por al-Mas`d no sculo X:
      "Os marinheiros de Om (...) navegam no mar dos zandj at a ilha de Kanbal e at
      Sofala, pas dos demdemah, nos confins do pas dos zandj e das plancies vizinhas. Os
      mercadores de Srf tambm possuem o hbito de navegar neste mar (...). O mar dos
      zandj conduz ao pas de Sofla e dos wk-wk, que, em abundncia, produzia o ouro
      e outras maravilhas. Embora eles passassem o tempo caando elefantes para adquirir
      o marfim, os zandj no fazem uso algum desta matria. Eles portam ornamentos




40    E. A. VOIGT, 1983.
41    P. J. J. SINCLAIR, 1981.
42    P. J. J. SINCLAIR, 1982.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                791



     de ferro e no de ouro ou de prata (...). As defesas de elefante so exportadas mais
     frequentemente para Om, e da para a ndia e para a China"43.
    Sabemos por outras fontes que em troca do ouro e do marfim, a frica
Austral importava prolas de vidro, tecidos e, s vezes, cermicas envernizadas.
Porm, estes produtos, de origem indiana ou chinesa, ao menos em um ponto,
diferiam do gado, forma tradicional de riqueza.
    Uma constante circulao do gado era necessria para a manuteno do
sistema econmico tradicional dos zhizo e dos leopard's kopje. Os ricos empres-
tavam seu gado aos pobres e todos trocavam gado por mulheres. No se podia,
pois, acumular riquezas sob a forma tradicional sem destruir o sistema econ-
mico. Por outro lado, podia-se, sem prejudicar a economia, interromper,  von-
tade, a circulao do ouro, do marfim, das prolas de vidro e dos tecidos, porque
era possvel armazenar estes produtos. Os produtos de fora eram importados em
enormes quantidades. No sistema tradicional, a potncia poltica era ligada 
riqueza, pois que, dentre outras razes, era comprando mulheres e emprestando
gado que um chefe podia concluir alianas e garantir fidelidades. Segundo docu-
mentos portugueses mais recentes, certos produtos importados faziam parte do
dote da noiva e eram, assim, integrados no sistema econmico tradicional, de
forma que a riqueza adquirida pelo comrcio aumentava ainda mais a potncia
poltica dos chefes.
    Quando os leopard's kopje chegaram  regio do Shase e do Limpopo, pro-
vavelmente eles tiraram de Schroda o comrcio do marfim, antes que a riqueza
trazida por este comrcio pudesse mudar muito a sociedade zhizo. Por outro
lado, a potncia poltica dos dirigentes aumentara consideravelmente em K2,
como testemunha a grande quantidade de detritos descoberta perto do ptio do
chefe. Estes detritos, caractersticos da cultura pastoril dos bantos, so pedaos
de potes de cerveja, de cinzas deixadas pelo fogo do conselho, os restos do gado
que o chefe recebia em tributo ou aps certas condenaes, e as ossadas dos
animais selvagens que o chefe recebia tambm em tributo ou que os homens
partilhavam entre si. Os detritos deste gnero, entre os criadores bantos, eram
separados dos outros lixos da aldeia. Eram jogados perto do ptio ou no estbulo
central onde, quanto mais frequentemente os homens se reunissem no ptio,
formava-se um monte de lixo mais volumoso. No incio, a organizao de K2 era
a mesma que em Schroda: o ptio do chefe era cercado por pequenas habitaes
e estbulos. Mas, os detritos se acumularam no ptio a ponto de invadir um dos


43   Citado em B. DAVIDSON, 1964, p. 115-116.
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estbulos por volta de 1020; talvez, na mesma poca, deixou-se de alojar o gado
no centro da cidade (figura 24.2). A organizao do espao prprio  cultura
pastoril dos bantos sofreu, assim, uma primeira modificao, e isso por causa
de uma atividade poltica mais intensa e, em decorrncia, da mudana do valor
econmico relativo do gado.
    Por volta de 1075, os detritos elevaram-se quase a 6 metros acima do antigo
estbulo, e a cidade ocupava inteiramente o alto vale, onde se situava. Escavaes
recentes e a datao com carbono 1444 mostram que, nesta poca, os habitantes
abandonaram subitamente a cidade para se estabelecerem em torno da colina
de Mupungubwe, a menos de 1 quilmetro de K2. Como o espao habitvel
era duas ou trs vezes mais estendido em Mapungubwe, podemos pensar que,
levando em conta o crescimento demogrfico, eles fizeram desta cidade sua nova
capital. O novo ptio foi provavelmente instalado aos ps da colina, em um lugar
onde se formava um anfiteatro natural. Com efeito, no centro da cidade,  o
nico lugar bastante vasto em que no foram encontrados vestgios de habitao
(figura 24.5). A ausncia de esterco indica que no foram construdos estbulos
perto do ptio: o plano de Mapungubwe respeitava, pois, a mudana que sofrera
a organizao do espao prpria aos criadores bantos. Outras modificaes,
mais tarde sobrevindas, mostram que  preciso situar a origem da cultura zim-
babuense aqui, e no no Grande Zimbbue.


      Mapungubwe, primeira capital do Zimbbue (10751220)
   A cultura zimbabuense e a cultura pastoril dos bantos apresentam algumas
diferenas no que concerne  organizao espacial. No Zimbbue, a residncia
do rei era rodeada por uma cerca de pedra e se erguia no nos ps, mas sim no
cume de uma colina, acima do ptio; os membros da elite eram inumados nas
colinas e no nos estbulos; as mulheres do rei tinham uma residncia separada
daquela de seu prprio esposo; as personagens importantes possuam suntuosas
habitaes nos arredores das capitais45. Estas caractersticas e outras surgiram
pela primeira vez em Mapungubwe.
   Quando Mapungubwe se tornou a nova capital, parte de seus habitantes
instalou-se no cume da colina, acima do ptio (figura 24.5). Razoavelmente,
podemos supor que, entre eles, havia o chefe e o seu crculo, j que, em K2,


44    J. F. ELOFF e A. MEYER, 1981; M. HALL e J. C. VOGEL, 1980; A. MEYER, 1980.
45    T. N. HUFFMAN, 1981 e 1982.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                                    793




figura 24.4 Planta de K2, por volta de 1050. A estrela designa o ptio dos homens. Diante do ptio, um
monte de detritos (mancha cinza) recobre um antigo estbulo (crculo pontilhado). Escala: por volta de 1/5000
(Fonte: T. N. Huffman).
794                                                           frica do sculo VII ao XI



o chefe tinha sua residncia no alto, atrs do ptio. Porm, na pr-histria da
frica Austral, jamais um chefe colocara entre ele e seu povo uma distncia
material to grande quanto em Mapungubwe. Tal separao marca, pela pri-
meira vez, a institucionalizao de uma estrutura de classe.
    Pouco aps a instalao em Mapungubwe, o estilo das cermicas comeou a
mudar. Estas mudanas poderiam ser atribudas  chegada de uma nova popu-
lao: entretanto, elas no foram muito importantes (superfcies mais polidas,
maior complexidade dos motivos) e s se impuseram progressivamente. Assim,
devido ao crescimento demogrfico e  diferenciao da estrutura social, sem
dvida,  preciso antes explic-las pelo surgimento de artesos especializados.
Pesquisas mais aprofundadas seriam necessrias para precisar como as mudanas
sociais influenciaram o estilo da cermica.
    Outros objetos encontrados em Mapungubwe mostram que esta cidade
estabeleceu relaes duradouras com os mercadores da costa. No comeo do
sculo XII46 surgiram discos perfurados que serviam de pesos para a fiao do
algodo47. H muito tempo, tecia-se o algodo nas cidades sualis. Tais discos
perfurados, os mais antigos encontrados no interior das terras, indicam, portanto,
que os mercadores da costa introduziram a tecelagem em Mapungubwe e talvez,
deste modo, dado nascimento a uma nova tcnica especializada.
    Provavelmente, no incio das relaes comerciais, o ouro era mais uma moeda
de troca que uma forma de riqueza; mas, por volta de 1150, tinha-se comeado
a fabricar objetos de ouro no local. Objetos de um interesse excepcional, como
um rinoceronte e uma espcie de cetro, feitos de madeira e recobertos de finas
folhas de ouro, foram encontrados em tmulos da colina real48. Pela primeira vez
na Idade do Ferro, o ouro surgiu na frica Austral como um sinal de prestgio.
Parece que foi neste momento que ele adquiriu um valor intrnseco.
    Na mesma poca, a organizao espacial de Mapungubwe foi mudada. Foram
construdos muros de pedra para delimitar certos setores da cidade (figura 24.5).
Uma casa de pedra erguia-se perto do ptio, aos ps da colina; provavelmente,
tratava-se da residncia do conselheiro principal que, na cultura zimbabuense,
ocupava-se dos processos e das audincias. Uma escada conduzia do ptio ao
cume da colina, por uma estreita passagem; pequenas cavidades, cavadas nos
arenitos e dispostas duas a duas marcam, provavelmente, o lugar de fixao
dos degraus de madeira; o alto da escada era cercado, em uma curta distncia,

46    A. MEYER, 1980.
47    P. DAVISON E P. HARRIES, 1980.
48    L. FOUCH (org.), 1937.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                                               795




figura 24.5 Esquema de Mapungubwe em 1075 e 1150. A estrela indica a corte dos homens. E: casas das
esposas reais; C: cemitrio; P: espao sagrado contendo as urnas pluviais. Escala: aproximadamente 1/500
(Fonte: T. N. Huffman).
796                                                            frica do sculo VII ao XI



por muros de pedra. No cume, outras cavidades levam a supor que a colina era
cercada por uma paliada. Aps subir a escada, passava-se  direita do cemi-
trio. Desse lado, vrias cabanas encontravam-se diante de um muro de pedra,
descrevendo um grande arco de crculo, em torno de uma construo de carter
particular. O muro de pedra e os preciosos cladons chineses encontrados no
interior mostram que se tratava da residncia do rei. Nestas cabanas situadas 
frente, foram descobertas tbuas de pedra que serviam a um jogo reservado aos
homens; portanto, podemos supor (se nos basearmos nas descries de docu-
mentos portugueses relativos a reis do Zimbbue de uma poca ulterior) que a
viviam soldados, cortesos, msicos e outros servos do rei. No noroeste da colina,
um caminho afastado conduzia ao outro lado do cemitrio. As cabanas situadas
desse lado so as nicas, no cume da colina, a conter ms; provavelmente, eram
reservadas s esposas reais. Na nova organizao do espao, a residncia delas
era, pois, separada daquela do rei e do seu squito.
    Em outros pontos, a nova organizao seguia a mais antiga. Assim, as urnas
rituais destinadas a receber a gua da chuva, que, na cultura pastoril banta, eram
indissoluvelmente atreladas  casa do chefe, provavelmente foram transferidas
para a colina de Mapungubwe, quando a famlia real veio de K2. No encon-
tramos vestgios de habitaes atrs da residncia do rei. Entretanto, podia-se
chegar do leste a esta parte da colina por um caminho bordejado por muros de
pedra.  provvel que tenha sido neste lugar, correspondendo  parte oriental do
Grande Zimbbue, que eram praticados os ritos relativos  chuva. Neste caso,
o caminho, do qual acabamos de falar, marcava as traseiras da cidade e o longo
muro, situado a oeste, indicava a entrada como no Grande Zimbbue.
    A diviso dos vestgios indica que a maior parte dos habitantes vivia perto do
muro ocidental (figura 24.5). Entre os criadores bantos, os homens que concor-
riam  sucesso do chefe, tais como seus irmos, tios e os seus principais parentes
por aliana, viviam em geral fora do crculo protetor formado pelas pessoas que
lhe eram mais prximas49. Como rivalidades deste gnero certamente existiam
em Mapungubwe,  provvel que as ricas casas que se erguiam nos acessos da
cidade pertencessem a importantes personagens, parentes do rei.
    Elas se assemelham a outras casas da elite construdas em colinas, a uma dis-
tncia varivel da capital, como, por exemplo, em Little Muck, a 13 quilmetros,
em Mmangwa, a 40 quilmetros a oeste50, em Mapela Hill, a 85 quilmetros a


49    I. SCHAPERA, 1970.
50    M. J. TAMPLIN, 1977, p. 38.
A frica Meridional ao sul do Zambeze                                         797



noroeste 51e em Macena Hill, a 96 quilmetros a nordeste. Aos ps de cada uma
dessas colinas estendia-se uma aldeia do perodo de Mapungubwe, cujo centro
era ainda ocupado por estbulos, como Mtetengwe52. O conjunto desses stios
indica, muito claramente, a existncia de uma hierarquia poltica em trs graus:
as aldeias eram, provavelmente, habitadas pelos membros da classe inferior;
as casas construdas nas colinas pertenciam, sem dvida, a chefes regionais, e
Mapungubwe era, provavelmente, a sede da autoridade suprema. Neste caso, as
ricas casas que cercavam a capital tambm deviam pertencer aos chefes regionais.
Por conseguinte, a diversidade dos stios mostra, tal como a organizao espacial
da capital, que a sociedade encontrava-se dividida em classes.
    A evoluo de K2 em Mapungubwe e as analogias entre Mapungubwe e o
Grande Zimbbue provam que a cultura Zimbabuense originou-se daquela dos
criadores bantos da regio do Shase e do Limpopo. Portanto, podemos consi-
derar Mapungubwe como a primeira capital do Zimbbue.
    Esta evoluo esclarece tambm o papel que a religio e a economia pas-
toril desempenharam na histria cultural do Zimbbue. Certos historiadores
acreditam que a religio dos mbire, vindos do norte atravessando o Zambeze,
favoreceu o desenvolvimento cultural do Zimbbue, antes do assentamento do
comrcio de ouro com a costa53. Entretanto, a arqueologia mostra claramente
que os principais movimentos populacionais vieram do sul, e que os ritos com-
plexos que cercavam os reis do Zimbbue apenas surgiram com as trocas exte-
riores e com o crescimento de sua potncia poltica. No se pode, pois, atribuir
o desenvolvimento cultural do Zimbbue  influncia de novas religies.
    Outros africanistas tentam explicar tal desenvolvimento pelo surgimento dos
rebanhos e pela adoo correlata de prticas de pastagem nestas vastas extenses.
Sustentam que uma concepo da propriedade privada foi elaborada  medida
que o gado se multiplicava. Como a melhor forma de fazer pastar os rebanhos
era a prtica da transumncia, tornou-se extremamente importante assegurar aos
criadores a posse de pastagens longnquas, o que, segundo eles, gerou o reforo
do poder central54. A primeira objeo que podemos fazer a esta hiptese  que
o gado no tinha aumentado repentinamente logo antes do avano cultural do
Zimbbue: os abundantes depsitos de esterco e a organizao espacial dos
assentamentos zhizo do sculo VII mostram que existiam sociedades fundadas


51   P. S. GARLAKE, 1968.
52   K. R. ROBINSON, 1968.
53   D. P. ABRAHAM, 1962 e 1966; P. S. GARLAKE, 1973.
54   P. S. GARLAKE, 1978.
798                                                          frica do sculo VII ao XI



na criao de rebanho, ao menos quatro sculos antes da fundao de Mapun-
gubwe. Nossa segunda objeo concerne  hiptese de um ciclo de transumncia.
J que encontramos na regio de Mapungubwe numerosos stios de pastagem,
com importantes depsitos de esterco, exclui-se a ideia de que pudesse ter
havido importantes e regulares deslocamentos de gado e de pessoas para pastos
distantes, pois os vestgios materiais mostram que tais assentamentos eram to
permanentes quanto aqueles da primeira Idade do Ferro.
    Porm, ainda mais importante que tais erros de fundo me parece ser a con-
fuso entre a centralizao poltica e as mudanas culturais. Diversas sociedades
pastoris da frica Austral foram fortemente centralizadas  os bamangwato, os
matabele, os zulus e os swazi, por exemplo , o que no os impedia de partilhar
os mesmos valores culturais que os bantos da frica Austral, de tal forma que
suas aldeias encontravam-se organizadas segundo os mesmos princpios que
em K2 e Schroda. Em consequncia, a abundncia do gado pode ter sido uma
condio necessria, mas no suficiente,  evoluo do Zimbbue.
    Assim, tal abundncia de gado, bem como a introduo de uma nova religio,
no esclarecem os dados de que dispomos. Por outro lado, a hiptese que temos
avanado explica os porqus da criao ter sido praticada bem antes do perodo
de Mapungubwe, dos detritos terem se acumulado na corte de K2, dessa cidade
ter sido abandonada por Mapungubwe, da nova capital ter apresentado uma
organizao do espao diferente e, por fim, da cultura pastoril dos bantos ter
sido mantida em outras regies da frica Austral. Neste captulo, mostramos
que a evoluo sobrevinda em K2 e em Mapungubwe, permitindo a emergncia
da cultura Zimbabuense, resultou do desenvolvimento do poder poltico, desen-
volvimento este baseado no comrcio de marfim e do ouro.
Madagascar                                                                                799



                                   CAPTULO 25


                                   Madagascar
                 Bakoly DomenichiniRamiaramanana
      (com trechos revisados pelo Comit Cientfico Internacional)




    A histria de Madagascar antes de 1000, por vezes tambm antes de 1500,
frequentemente  considerada um domnio de incerteza em que as hipteses se
cruzam e se contradizem, h dcadas, sem nunca conseguir convencer de forma
decisiva1. De fato, as fontes escritas descobertas na ilha remontariam no mximo
ao sculo XII. O desenvolvimento da arqueologia  recente demais2 e seus
recursos insuficientes para alcanar resultados estatstica e cronologicamente
confiveis3, e alicerar as reconstrues histricas em bases incontestveis. Desde
os antigos trabalhos de G. Ferrand, as fontes no malgaxes levadas em conta
limitaram-se, de alguma maneira, aos textos de lngua rabe. De toda forma, o
uso dessas fontes obriga a recorrer a inmeras lnguas ignoradas pelo currculo
clssico dos estudos malgaxes e a dominar um saber que, na maioria das vezes,
ultrapassa a capacidade das pequenas equipes existentes. Sem dvida seja assaz
temerrio escrever uma histria auto-centrada de Madagascar do sculo VII
ao XI.
    Era tentador comear a empregar as fontes orais sob todas as formas em
que se encontram hoje Madagascar, eis o que faremos nesse texto. Essas fontes


1   Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 28, e bibliografia. Ver tambm E. RALAIMIHO-
    ATRA, 1971b e 1974.
2   J. P. DOMENICHINI, 1981b.
3   Para um interessante balano da questo, ver D. RASAMUEL, 1985 e 1986.
800                                                                                 frica do sculo VII ao XI



sobreviveram em condies muito diversas. s vezes foram anexadas, prin-
cipalmente no Sudeste, aos textos redigidos em caracteres arbico-malgaxes
(volan'Onjatsy ou sorabe)4; s vezes foram integradas, sob a forma de vestgios
dificilmente interpretveis, a fontes muito remanejadas5; s vezes so textos
altamente formalizados que servem em rituais at hoje praticados6; s vezes
so fontes dispersas e pouco textualizadas cada vez mais recolhidas atravs do
pas. Todavia, parece-nos interessante mostrar como as pesquisas em curso
na ilha, isentas da problemtica colonial e de qualquer busca de legitimidade
baseada no racismo ou, pior ainda, no evolucionismo, abriram espao tanto
s fontes orais quanto aos ricos aportes da pluridisciplinaridade, permitindo
assim vislumbrar novas perspectivas7. No nos intrometeremos aqui na dis-
cusso, ainda viva, entre partidrios  cada vez mais raros  de uma cronologia
curta8 e partidrios de uma cronologia longa9, tampouco nos debates muito
ideolgicos quanto s formas e etapas do povoamento da ilha; no procurare-
mos dizer quem eram os vazimba, sobre os quais ainda temos tanto a descobrir,
nem levar em contas as narrativas de instalao dos "rabes", durante muito
tempo consideradas, por alguns grupos malgaxes, representativas de suas ori-
gens. Todas essas questes devem ser retomadas e seriamente estudadas antes
que se reabram os debates a seu respeito.
    Desejamos levantar aqui outras discusses a partir de outros elementos de
formao10.




4     A respeito dos quais numerosos e importantes trabalhos so hoje empreendidos sob o estmulo do
      professor Ludwig Munthe, na prpria Madagascar.
5     Por exemplo,  o caso de uma fonte fixada no baixo Mananjara por B. Domenichini-Ramiaramanana,
      junto aos ravoaimena andriamanavanana, grupo muito minoritrio que alega ser herdeiro da dinastia
      que localmente precedera os zafi(n-d) raminia, cuja chegada no nordeste da ilha foi situada por volta do
      sculo XI. As tradies desses ltimos, apoiando-se em quase um milnio de domnio quase ininterrupto,
      amplamente obliteraram aquelas dos grupos anteriores.
6     Veremos exemplos mais adiante.
7     B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA e J. P. DOMENICHINI, 1979 e 1983.
8     Ver J. POIRIER, 1965; P. OTTINO, 1974a e P. VRIN, 1974.
9     Perrier de la BATHIE (citado por H. DESCHAMPS, 1972, p.35) prope uma estimativa entre cinco
      sculos e quatro milnios no que tange a destruio da floresta das altas terras centrais, provavelmente
      a ltima regio da ilha a ter sido povoada.
10    B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA e J. P. DOMENICHINI 1984. A primeira verso
      desse texto (1983), que desenvolve diferentes pontos do artigo citado na nota 7, foi o objeto de um
      srie de discusses no somente com especialistas de Madagascar, mas tambm com especialistas
      da frica do Leste e do Oceano ndico Ocidental e especialistas da sia do Sudeste e do mundo
      austronesiano.
Madagascar                                                                           801




figura 25.1   Madagascar e as ilhas Comores (Fonte: B. Domenichini-Ramiaramanana).
802                                                                               frica do sculo VII ao XI



      A difcil leitura das fontes orais
   Em Madagascar est em curso um grande trabalho para recolher e estudar
todas as possveis fontes deste domnio e, como em qualquer outro lugar, elas
exigem uma metodologia aguda. No caso de Madagascar, a contribuio da
lingustica j  extremamente importante para facilitar o acesso  informao
histrica sempre contida nessas fontes.
   Um manuscrito recentemente editado e transliterado por Ludwig Munthe11
chamou principalmente a ateno sobre um verdadeiro corpus de informaes,
muito dispersas, relativas a um "gigante" chamado Darafify12 e exigindo uma
ateno crtica particular13. Tratava-se, em primeiro lugar, de saber se os nomes
fornecidos por esse ciclo para o "gigante" em questo possuam ou no uma vali-
dade histrica. A profunda homogeneidade da lngua malgaxe, devida  unidade
de seu fundo austronesiano de origem14, que no data, como j se escreveu, da
expanso merina dos sculos VXII e XIX, permite no somente discernir facil-
mente os emprstimos tomados de outras lnguas e situ-los cronologicamente
na histria cultural do pas, mas tambm trabalhar, ao menos momentanea-
mente, da mesma maneira sobre qualquer tradio transmitida em malgaxe.
   Graas ao manuscrito A6 de Oslo, disponhamos de um texto em malgaxe
aparecendo como a mais completa e coerente verso da histria de Darafify e
de sua interveno em uma determinada regio. O exame do texto permitiu no
somente descobrir algumas das condies polticas e sociais de sua transmisso,
como tambm concluir que os katibo do Sudeste tomaram o cuidado de respeitar
seu carter formalizado, embora no tenham hesitado em amput-lo do que
podia prejudicar a reputao, correntemente atribuda a seus ancestrais "vindos
da Arbia", de primeiros "civilizadores" da regio. Assim foi possvel, em um
primeiro tempo, realizar o estudo dos nomes prprios, cada um destes sendo,
conforme o uso malgaxe, formado de acordo com regras precisas, perfeitamente
"decifrveis".


11    L. MUNTHE, 1982. O manuscrito publicado  aquele de um sorabe. Sua referncia cientfica  A6 e
      ele est em Oslo.
12    A coleta sistemtica das fontes relativas a Darafify e a outros "gigantes" est apenas comeando. Ela
      mostra a riqueza da lembrana, oralmente transmitida, em todo o Leste e o Sul.
13    No que tange ao corpus constitudo, encontrvamo-nos diante de textos no somente desligados de
      seus contextos, como tambm muitas vezes transformados  deformados  por transcries e tradues
      realizadas por homens cuja familiaridade com as culturas orais em geral e/ou as culturas malgaxes em
      particular era evidentemente insuficiente, qui inexistente.
14    B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA, 1976.
Madagascar                                                                                           803



    A primeira informao clara trazida pelos nomes dos "gigantes" em questo
foi a de esses nomes constiturem uma sbia dosagem de palavras de origens aus-
tronesiana, snscrita ou persa, mas remetendo todas ao vocabulrio do comrcio
dos armatas, especiarias, perfumes e plantas medicinais15. A forma assumida
por esses diferentes componentes permitiu considerar o conjunto desses nomes
como neologismos surgidos na ilha no decorrer de um perodo (anterior ao
Isl) de contatos entre Madagascar e as regies mencionadas. Permitiu tambm
levantar a hiptese de uma participao das regies concernidas de Madagascar
a trocas anteriores ao sculo VII no Oceano ndico.
    Darafify, Darofipy, Darafely e Fatrapaitan(ana) so formados a partir de
palavras simples que, com exceo de dara, ainda so usadas em malgaxe e das
quais convm estudar os empregos. Fi(m)py e fify dizem respeito a produtos
alimentcios, cosmticos e farmacuticos; provavelmente deveramos encontrar
entre eles o que tienne de Flacourt identificou no sculo XVII como sendo o
costo de Madagascar16. De acordo com a etnocincia, essa primeira categoria de
gneros comportava, de um lado, produtos de origem animal provenientes prin-
cipalmente do oprculo dos mrex (tipo de concha), especialmente do Murex
trunculus, ainda usados hoje sob a forma de p no Sudoeste, e, por outro lado,
produtos de origem vegetal provenientes essencialmente de algumas miristic-
ceas (casca e goma de Haematodendron ou de Mauloutchia sp.)17, mas provavel-
mente tambm da raiz de uma planta herbcea18. Do lado dessa categoria dos
fi(m)pyfify figuravam as diferentes variedades de pimentas selvagens (Piper
borbonense) D.C, atualmente conhecida sob o nome de "pimenta rosa"; (Piper
pachyphyllun Baker e Piper pyrifolium Vahl) usadas no nome de darafely19. No
incio do sculo XIX, Barthlmy Hugon20 identificou-as como sendo "a ver-
dadeira cubeba dos rabes", da qual eles foram grandes consumidores, antes de
reexport-la.
    Em ltimo vinha o benjoim (fatra ou Styrax benzoin Dryander), memorizado
pelo nome do gigante Fatrapaitan(ana), mas que no parece ter sido o principal
produto de exportao da Matatana(na), j que esse nome sugere que a medida

15   Ibidem.
16   . de FLACOURT, 1661, p. 13l.
17   P. BOITEAU, 1976, p. 71.
18   Ibidem, p. 69. Ver nome do fifinatsy ou Bulbostylis firingalavensis Cherm.
19   Em malgaxe, as pimentas so designadas pelos antigos nomes de voamperifery e tsimperifery, remetendo
     aos emprstimos tomados do snscrito desde o perodo asitico da histria da lngua. So tambm
     designadas pelo nome mais recente de darafilofilo, cujo emprego se limita ao Norte.
20   E. HECKEL, 1903, p. 120.
804                                                                                frica do sculo VII ao XI



(fatra) de benjoim (igualmente fatra) era uma ddiva oferecida ao comprador na
ocasio da concluso de uma venda (paitanana). No domnio que aqui nos inte-
ressa, esse produto principal deve ter sido o fimpy, cuja abundncia no Sudeste
foi confirmada pelos botnicos. Quanto ao prprio benjoim que, como fixador
das essncias mais volteis, serve principalmente para valorizar estas ltimas 
da sem dvida seu estatuto no comrcio da Matatana(na) , Miller21 props
identific-lo ao cancanum dos autores clssicos, que o Priplo do Mar Eritreu
inclua nas importaes da Arbia proveniente de Malao (na atual Somlia).
De acordo com Miller, o cancanum teria chegado a esse porto pela "rota do
cinamomo", que "na poca do Imprio Romano (-29/+641)", teria passado por
Madagascar e frica do Leste.
    Ainda aparecem outros produtos nas fontes do "ciclo de Darafify", mas seus
nomes no serviram para criar nomes de gigantes, como nos casos precedentes.
Entre os produtos citados, os (ha)ramy Canarium madagascariense, C. boivini e
C. multiflorum Engler so conhecidos hoje sob as denominaes de "incenso
de Madagascar"ou "incenso branco da frica". Quanto aos cinamomos evo-
cados pelo topnimo Ambodisiny, provvel decalque de um antigo Andarasiny,
eles conservam de sua antiga importncia uma marca atual: em alguns grupos,
planta-se solenemente um p de cinamomo quando do nascimento do primeiro
filho do lar22.
    Portanto, a lingustica demonstra a existncia de uma ligao concreta entre
os nomes de personagens "lendrios", carregados de uma histria antiga muito
abstrata, e as plantas e produtos preciosos de Madagascar, principalmente na
parte oriental da ilha.
    Para o historiador, a etapa seguinte  muito mais difcil ainda. Por um lado,
trata-se de saber se as aluses muito diretas por ele recolhidas possuem uma
real historicidade e se elas so susceptveis de serem situadas em uma cronolo-


21    J. I. MILLER, 1969, p. 39.
22    Hoje, na ilha, os cinamomos incluem tanto os cinnamomum introduzidos quanto os cinnamosma, dentre os
      quais consta um dos famosos "vencedores de qualquer dificuldade" (mandravasarotra, Cinnamosma fra
      grans Baillon) que os empricos e adivinhos tanto prescrevem. Quando no chamados de kanely/kanelina
      (em francs, "canelle") ou por nomes difundidos sob a colonizao com o desenvolvimento da explorao
      do Cinnanomum zeylanicum Breyn, os cinamomos, no falar quotidiano, so geralmente designados com
      os nomes de origem austronesiana hazomanitra ("madeira perfumada") e hazomamy ("madeira suave"),
      salvo no Norte. Ali, apesar da extrema permeabilidade do falar aos emprstimos tomados do francs,
      ainda so chamados nostalgicamente de darasiny (em persa dr Cn: "canela", literalmente "rvore/
      madeira da China" ou "porta da China"), como em persa e nas lnguas que lhe tomaram emprestado
      essa palavra, quer diretamente, quer por intermdio do rabe. E  sob esse ltimo nome, por assim dizer
      obliquamente, que eles so evocados no ciclo de Darafify, atravs do topnimo de Ambodisiny, "ao(s)-
      -p(s)-de-cinamomo(s)/nos-arredores-dos-cinamomos".
Madagascar                                                                      805



gia, ainda que relativa; e se, por sua vez, esta ltima pose ser inserida em uma
cronologia segura das trocas no Oceano ndico. Examinaremos adiante esses
diversos pontos. Por outro lado, ainda mais no que diz respeito  histria interna
da ilha, convm trazer  tona, sempre de acordo com uma cronologia verossmil,
a histria das relaes de fora entre grupos para os perodos antigos da vida dos
povos da ilha: isso constitui certamente a mais temvel das pesquisas e a menos
espetacular a relatar em um livro como este; por isso no a desenvolveremos
nessa Histria Geral da frica, j que os resultados fornecidos e em curso de
publicao dessa parte da pesquisa so acessveis em outras fontes. Todavia, 
preciso destacar alguns traos gerais teis ao historiador.
    Em primeiro lugar, os nomes que acabamos de mencionar so, historica-
mente, de difcil uso. Cada um deles constitui um smbolo coletivo e no a
denominao individual de um "heri histrico". Falar de Darafify, Darofipy e
alguns outros,  simplesmente evocar alguns episdios da histria da ilha, pro-
vavelmente anteriores ao sculo XI. Mas  tambm designar um determinado
grupo em um determinado momento de sua histria, por exemplo, aquele em
que tenta acaparar a produo e exportao de alguns produtos. Em outros
momentos, em outras ocasies, o mesmo grupo  tambm conhecido por outros
nomes.
    A "gigantificao" bem como a "nanificao" constituem tambm cdigos dos
quais  preciso descobrir a chave, sem pensar em usar tais fatos como realidades
histricas diretas. Da mesma forma que a nanificao foi empregada pela tradi-
o malgaxe, no caso dos vazimba, para marcar, em diversas regies da ilha, sua
condenao poltica ao esquecimento, a gigantificao foi certamente empregada
no caso dos Darafify  e tambm de seus adversrios  para imortalizar grupos
to prestigiosos que inmeras tradies locais se esforaram para conservar sua
memria.
    A re-escritura das tradies, suas contradies e as legitimidades contr-
rias que elas tentam conciliar so inexplicavelmente entrelaadas. Sem longas
pesquisas em que a antropologia e a lingustica tm um papel dominante a
desempenhar, seria apressado demais concluir, desde ento, a partir de alguns
elementos incontestavelmente histricos discernidos no "ciclo de Darafify" e
relativos  vida interna de Madagascar, que uma fase da histria da ilha possa
ser escrita a partir deles. Eles constituem insubstituveis elementos de espera.
Mas quem eram esses Darafify vindos do Nordeste que teriam, em um momento
difcil de precisar, buscado sair de sua condio inicial de criadores (sobre a qual
insistem as fontes orais)? Teriam ento se associado, usando de diplomacia ou
de fora, segundo os lugares e os casos, a um comrcio  de que regularidade
806                                                                        frica do sculo VII ao XI




figura 25.2   Caneleira: Cinnamomum Zeylanicum (Fonte:  Biblioteca do Musum d'histoire naturelle,
Paris).
Madagascar                                                                                             807



e amplitude?  que teria levado de Madagascar  por intermdio de austro-
nesianos? de persas?  produtos demandados pelo mundo do Norte. Convm
ainda notar que as regies da ilha concernidas por esses acontecimentos mal
conhecidos so situadas na parte oriental costeira e no sul.
    J delimitada de forma geral pelos locais de coleta das tradies formando
o ciclo, a rea geogrfica em que interveio o poderoso grupo dos Darafify, que
tentou conseguir o monoplio deste comrcio,  mais precisamente desenhada
no somente pelos locais onde so situados os fatos e acontecimentos relatados,
mas tambm por aqueles onde ainda se encontram obras humanas a eles atribu-
das, a maior parte destes locais tendo em comum a ligao com o trabalho do
cloritoxisto (minas e produtos manufaturados). Ainda que tivesse um prolon-
gamento no Sudoeste mahafale, considerado a ltima regio atingida por uma
migrao que escolheu a via terrestre a partir da costa leste, em algum lugar ao
sul do Manampatrana23,  claro que esse territrio se estendeu essencialmente
do extremo norte da ilha at a bacia do Matatana(na). Trata-se, em suma, com
exceo do extremo sul, de toda a fachada oriental da ilha, especialmente rica em
armatas, especiarias, perfumes e plantas medicinais, cujas condies de explo-
rao (produo e comercializao) transparecem tambm amplamente graas
 decifrao dos nomes prprios, e notadamente de todos aqueles constantes do
texto do manuscrito A6 de Oslo.
    As pesquisas j realizadas a respeito do baixo Mananjara mostraram a ampli-
tude dos remanejamentos ideolgicos sofridos pela tradio dos ravoaimena
andriamanavanana, quando da chegada dos zadi(n-d) raminia. A parte da hist-
ria do baixo Mananjara posterior  chegada dos zafi(n-d) raminia situa-se pro-
vavelmente alm do fim do sculo XI. Contudo, o conhecimento deste perodo
parece primordial para quem quer compreender a evoluo posterior da orga-
nizao poltica e social em diversas regies da ilha e, tambm, para quem quer
conhecer melhor o contexto em que se desenvolveu o comrcio de exportao,
cujos acontecimentos marcaram, sem dvida profundamente, o perodo anterior.
    Essa histria, ao revelar simultaneamente a origem comum dos antigos prn-
cipes dos Darafify e dos zafi(n-d) raminia, bem como o peso de sua solidariedade
sobre a histria de Madagascar, obriga-nos fazer apelo  histria pr-malgaxe
dos zafi(n-d) raminia. Tal histria, apesar de j ter dado muito pano para manga,
 at hoje mal conhecida. Todavia, a partir dos dados j confirmados, podemos
afirmar que, ao mesmo tempo em que delimitam o quadro das atividades desses

23   Sobre a importncia do limiar de Maropaika para a passagem do leste para o oeste, e vice-versa, ver E.
     RALAIMIHOATRA, 1966, p. 54.
808                                                          frica do sculo VII ao XI



grandes comerciantes austronesianos, o qual teria compreendido o essencial
do Oceano ndico sulcado por rotas martimas, as migraes sucessivas dos
zafi(n-d) raminia, de Sumatra at as margens do Mar Vermelho e, da at a ndia
(Mangalore), depois at Madagascar, poderiam tambm refletir o movimento
geral do comrcio martimo dos austronesianos, no qual se inscreve, ao menos
parcialmente, o comrcio externo malgaxe do sculo VII ao XI. Mas antes de
tentar buscar to longe, talvez conviesse completar nosso esboo da vida em
Madagascar, graas aos aportes de disciplinas cujas principais fontes pouco
devem s cincias da linguagem.


      Etnobotnica e arqueologia: ser verossmil
      a exportao dos produtos evocados?
    A vegetao atual apresenta um aspecto geralmente considerado o resultado
da ao direta ou indireta do homem. O desaparecimento, por volta do incio
do milnio passado, de alguns animais (grandes lmures, grandes "avestruzes" ou
aepyornis, grandes tartarugas terrestres, crocodilos gigantes, hipoptamos nani-
cos, etc.) que viviam no meio original e cujos cemitrios se encontram muitas
vezes nos arredores de antigos pontos de gua parece indicar ao menos uma
modificao j muito sensvel da cobertura florestal, embora se possa tambm
supor um perodo de relativa diminuio das chuvas para explicar a aridificao
de algumas regies. Alis, podemos notar que, em alguns stios datados de nosso
perodo (Lamboharana, +730 +80; Taolambiby, +900 +150 e Ampasambazimba,
+915 +50), rastros de indstrias humanas (dentes furados para adornos, cer-
mica, etc.) se encontram associados aos vestgios desses animais subfsseis, a
dvida quanto a sua exata contemporaneidade tendo origem na ignorncia em
que nos encontramos a respeito de suas respectivas situaes na estratigrafia24.
    Que se trate de flora ou de fauna, a ao dos homens no foi apenas negativa,
como muitas vezes se pretende. No domnio da flora, a riqueza em espcies
endmicas (86%) e a escassez de tipos particulares (menos de 8%), caracte-
rsticas da flora malgaxe, confirmam tanto o comprimento de seu perodo de
isolamento quanto o antigo pertencimento da ilha a um grande continente, cujos
atuais fragmentos so cobertos por uma flora primitiva similar. Isso nos permite
supor que os imigrantes em Madagascar, de onde quer que fossem, acharam


24    J. P. DOMENICHINI, 1981a, p. 70.
Madagascar                                                                                     809



no local plantas semelhantes ou muito prximas quelas de seus pases, dentre
as quais inmeras plantas comercializadas ou comercializveis na poca. Para
se convencer, basta examinar, por exemplo, a lista das plantas repertoriadas por
Flacourt25, que prestou obviamente uma ateno particular s plantas comer-
ciais, e compar-la s listas estabelecidas a respeito das importaes do Egito,
do Imprio Romano e da Prsia.
    A questo colocada  dupla: essas plantas e esses produtos de origem animal
dos quais as fontes orais conservaram o rastro, especialmente no leste da ilha,
teriam sido eles colhidos e vendidos em pocas antigas? Eis o que analisaremos
agora. Teriam eles integrado uma zona de trocas compreendendo, antes do Isl
e aps seu incio, todo ou parte do Oceano ndico? Eis o que veremos mais
adiante.
    De acordo com o levantamento de Perrier de la Bathie26, 48% das plantas
malgaxes no endmicas foram importadas pelo homem. Fato mais notvel
ainda, que o biogegrafo no conseguiu explicar  ele esperava encontrar muito
mais plantas no endmicas no oeste, apenas separado da frica Oriental pelo
canal de Moambique, do que no leste, separado de qualquer outro continente
pela imensido do Oceano ndico , 57,14% dessas plantas encontravam-se na
regio "a barlavento" e, excepcionalmente, no Sambirano (Noroeste), ao passo
que apenas 14,28% eram caractersticas da regio "a sotavento", e que os demais
28,57% eram comuns s duas regies. Perrier de la Bathie estima que a introdu-
o dessas plantas ocorreu indiretamente pela ao do homem, aps a ruptura
do continente ao qual inicialmente pertencia Madagascar. Disso ele deduziu,
de passagem, a antiguidade da presena humana na ilha27. Tal atividade de
plantio de espcies preciosas e de aclimatao de novas plantas foi certamente
empreendida, antes da destruio da floresta, por silvicultores ou, ao menos, por
verdadeiros arroteadores itinerantes, geralmente preocupados com a reconstitui-
o do solo e das formaes vegetais.
    Embora menos desenvolvidas que as pesquisas em biogeografia, as pesqui-
sas arqueolgicas apenas descobriram um nico stio anterior a nosso perodo
(Sarodrano, stio de pescadores do Sudoeste, +490 +90)28. Porm, elas trouxeram
a luz alguns outros que se inscrevem em nosso perodo. Da mesma forma que as
formaes vegetais, esses stios confirmaram antecipadamente, por assim dizer,


25   . de FLACOURT, 1661, p. 111-146.
26   H. P. de la BATHIE, 1926.
27   Ibidem, p. 143-144. Recente retificao por C. CHANUDET, 1979.
28   R. BATTISTINI e P. VRIN, 1971, e no que tange especificamente  datao, R. BATTISTINI, 1976.
810                                                                                 frica do sculo VII ao XI



fatos recentemente estabelecidos pela decifrao da tradio oral. Por sua vez,
esses fatos permitiriam esboar uma situao mais segura dos resultados das
pesquisas e escavaes.
    Na regio do Norte, dada pela tradio como o local de origem dos Darafify,
entre Bobaomby e Daraina, no fundo de uma baa protegida do alto mar por
Nosy Valasolo ("a ilha-residncia-do-enviado" ou " a ilha-relicrio")29, Nosy
Fiherenana ("a ilha-do-retorno"), Nosy Komankory ("a ilha-do-porcos"), e Nosy
Ankomba ("a ilha-dos-lmures"), encontra-se o conjunto de Irodo, de acordo
com o nome de um atual povoado e do rio que desemboca nesta baa. Como
no foi feita nenhuma anlise de polens, nada pode ainda confirmar a explorao
de plantas comerciais sugerida aqui pelo nome de Daraina, "da-qual-se-faziam-
-dara"/"onde-os-dara-so-abundantes". Contudo, Battistini notou que a plancie
costeira, onde foram encontradas cascas de ovos de aepyornis (vorompatra: "ave-
-das-zonas-desmatadas"), " uniformemente coberta por uma savana  satrana,
que  certamente uma formao de degradao"30, e que a regio situada ao sul
de Ampasimena porta o nome de Ankaibe, designando uma zona submetida ao
fogo dos arroteadores e dos criadores.
    Os trs stios costeiros pesquisados revelaram uma populao de mesma
cultura caracterizada, segundo Vrin, pelos "estilos de sua cermica (marmitas,
jarras, tigelas com base), o uso do cloritoxisto (marmitas, tigelas) e o consumo
de Pyrazus palustris". Os arquelogos estimam que esse stio, frequentado ao
menos at o sculo XV, j o era no sculo IX, e talvez mesmo desde o sculo
VII31. Desde esses tempos longnquos, os pescadores conheciam o ferro e o
vidro, e mantinham relao com uma zona de comrcio rabo-persa32. Entre
as conchas (Pyrazus palustris, Ostrea mytiloides, Turbo, etc.), sem dvida princi-
palmente destinadas ao consumo e ao artesanato (colheres talhadas no turbo),
encontram-se, embora em pequena quantidade, mrices que poderiam ter sido 
origem do fimpy, esse perfume at hoje procurado pelos "indianos" muulmanos
de Madagascar e cujo nome se encontra, como vimos, naquele de Darafify.



29    Se pensarmos na frequuente utilizao das ilhas como currais no Norte, poderamos traduzir Nosy Valasolo
      como "ilha-substituta-de-recinto", mas isso normalmente dir-se-ia Nosy Solovala, j que solo somente 
      atestado como substantivo.
30    R. BATTISTINI e P. Vrin, 1967, p. xixa.
31    Dataes com carbono 14: Kigoshi: GAK 380: 1200 +140 B.P.; GAK 692: 1090 +90 B.P.; GAK 350b:
      980 +100 B.P.; isto , um perodo se estendendo no mximo de +610 a +1070.
32    R. BATTISTINI e P. VRIN, 1967, p. xix a. Em 1975, P. VRIN retomou o texto de 1967 substituindo
      "sculo VIII ao IX" por "sculo IX ao XI", sem dar mais explicaes.
Madagascar                                                                       811



    Outros stios, datando ao menos parcialmente de nosso perodo, encontram-
-se no extremo sul da ilha, no atual pas antandroy, do qual se pensava outrora
que apenas tivesse sido povoado nos sculos XVIII e XIX, j que nenhuma fonte
europeia nunca mencionou as evidentes marcas desta antiga ocupao, relativa-
mente densa e que teria prosseguido at o sculo XVI. Trata-se essencialmente
de dois conjuntos, ambos situados s margens do Manambovo, "o rio-das-
-nassas/dos-buracos-d'gua": o do stio de Talaky33, "a-bem-a-vista", dos dois
lados da embocadura, e o do stio de Andranosoa34, "-boa-gua", parcialmente
ocupado pelo imponente Manda (n-d)Refilahatra ou "cidadela-do-Grande-que-
-coloca-em-fileira/ordem" (46 hectares), no confluente do Manombovo com o
rio Andranosoa. A esses dois conjuntos podemos acrescentar, rio acima, o do
stio de Andaro35, "s-cascas/peles/aos-couros" ou "aos-ps-de-daro", composto
de Mahirane ("os-clarividentes/inteligentes/hbeis", 25 hectares) e Ambo-
nifanane ("acima-da-hidra/da-serpente/do-tmulo", "-hidra/ao-serpente/
ao-tmulo-dominante", 6 hectares). Esse conjunto no foi objeto de uma data-
o absoluta, mas pertence manifestadamente  mesma cultura de stios (inter)
fluviais e cercas de pedras que Manda (n-d)Refilahatra-Andranosoa, e remonta
a um perodo em que se encontravam ainda, nos lugares habitados, as diversas
espcies da fauna subfssil.
    Da mesma forma que as fontes escritas, as fontes orais, inclusive o ciclo de
Darafify, permaneceram mudas sobre esses stios cujas populaes, como os ocu-
pantes de Andranosoa, pertenciam a uma organizao territorial de cerimnias
rituais, s quais participavam diferentes aglomeraes (ver a natureza dos restos
de zebu encontrados na cova de lixo de Andranosoa)36, mas desapareceram
sem deixar outros rastros na regio. Os atuais habitantes ignoram tudo de seus
longnquos predecessores. As dataes com o carbono 14 so interessantes37:
elas indicam um perodo que vai de +940 a +1310 como limites extremos, com
uma grande verossimilhana para o sculo XI. Resta explicar quais as riquezas,
eventualmente exportveis por Talaky, exploradas pelas populaes instaladas
no interior. Nada nas observaes atuais permite ter uma ideia clara sobre isso.
    Embora talvez j fosse atingido por um incio de seca, o Sul dos sculos X/XI
conhecia outras condies climticas, fazendo provavelmente do Manambovo


33   R. BATTISTINI, P. VRIN e R. RASON, 1963.
34   C. RADIMILAHY, 1980 e 1981.
35   C. RADIMILAHY, 1980.
36   D. RASAMUEL, 1983.
37   GIF 4571: 920 +90 B.P.; GIF 4570: 730 +90 B.P.; para Talaky: 840 +80 B.P.
812                                                                            frica do sculo VII ao XI



um rio cujo fluxo, mais importante, ainda no apresentava as grandes variaes
sazonais atuais. Seu curso superior atravessava ento uma regio arborizada que
permitiu uma vida econmica baseada em parte na metalurgia, grande consu-
midora de combustvel. Essa metalurgia concernia ento ao cobre e ao ferro,
dos quais encontramos no somente minrios, mas tambm, diferentemente
do minrio de cobre dos arredores de Bemarivo no Norte, indcios de uma
explorao antiga. Contudo, o cobre, que nos perodos posteriores conheceria
uma grande fortuna, apenas teria favorecido, de incio, uma joalheria artesanal
produzindo notadamente os braceletes vangovango de anel quebrado, encon-
trados at em Irodo e ainda chamados, mesmo quando de prata, de haba. Mais
uma vez, os cotejos lingusticos so interessantes. O cham haban e o curu saban
designam o cobre na zona austronesiana continental38; tanto em malgaxe quanto
em comoriano, saba ainda hoje designa correntemente o cobre39.
    O ferro foi explorado em quantidade substanciais. Aqui, o metal no parece
ter sido trabalhado in loco, pois a prtica corriqueira do reemprego, atestada
pela etnografia, no basta para explicar o forte contraste entre a abundncia dos
indcios de explorao do minrio (cinza, carvo, escrias) e a quase ausncia de
objetos de ferro, os stios do perodo tendo apenas permitido a descoberta de um
bracelete (Andranosoa), um arpo e alguns anzis (Talaky), aos quais podemos
talvez acrescentar, em um pas onde ainda no foi estabelecida a existncia de
ferramentas lticas, marcas de machados e facas encontradas em ossos (Andaro,
Andranosoa). Os produtos da fundio eram em grande parte exportados por
Talaky, cujo desenvolvimento, qui a fundao, aparece assim ligado a seu papel
de acesso ao mar para os produtos de exportao do interior que, alis, aparen-
temente no se limitavam  fundio.
    O topnimo de Andaro40 e a descoberta ali feita de inmeros vestgios sseos
de animais jovens sugerem um importante consumo destes. Tratava-se certa-
mente menos de atender as preferncias gastronmicas dos habitantes que de
abater os animais antes que sua pele (daro) estivesse por demais deteriorada pelas
silvas e espinhos. As peles de carneiro podiam constituir um segundo produto
de exportao. Podemos supor tambm que o importante excedente de carne
assim obtido era salgado e defumado segundo tcnicas ento em vigor para a
conservao. Tal carne conservada pde naturalmente constituir um terceiro


38    G. FERRAND, 1909.
39    M. Ahmed CHAMANGA e N. J. GUEUNIER, 1979; vale destacar que saba, em malgaxe, pode s
      vezes designar a prata. Em kiswahili, diz-se shaba (cobre).
40    O topnimo pode remeter s plantas exportveis mencionadas acima, no exame das fontes orais.
Madagascar                                                                      813



produto de exportao. Porm, caso o trfego martimo tivesse sido intenso,
essa carne certamente teria servido mais especificamente para o abastecimento
dos navios. Tambm no  impossvel que uma parte tenha sido destinada ao
consumo local. J temos certeza que esses habitantes do interior do Sul, de
acordo com a concepo tradicional malgaxe41, cozinhavam de forma refinada,
utilizando o cozimento a base de gua e mtodos muito elaborados no que tange
ao preparo da carne (arte do corte, etc.)42. De toda maneira, no lhes faltavam
protenas animais.
    Alm do carneiro, eles criavam tambm, embora em menor quantidade, o
boi e a cabra, cujo consumo  atestado pelos restos das refeies, que indicam
tambm o consumo de produtos da caa (ossadas de aves, ourios e outros
pequenos roedores) e da pesca (espinhas de peixe, quelas de caranguejos, cascas
de ourios-do-mar, conchas de gua doce e marinhas). Quanto a suas plantas
alimentcias, das quais ainda no temos nem evocao pela tradio histrica
nem confirmao arqueolgica, certamente foram compostas, ao menos, pelas
plantas antigamente domesticadas na ilha e ainda presentes na regio: os inha-
mes e os tars, ou assimilados que, como hoje, podiam tambm ser colhidos na
floresta. Podemos tambm acrescentar, alm da abbora-cabaa de mltiplos
usos e muito difundida, a providencial pervinca de Madagascar (Catharanthus
roseus Lin.), tradicionalmente conhecida pelos navegantes malgaxes, que a teriam
difundido de longa data entre os outros marinheiros43. Esta no  uma planta
alimentcia propriamente dita, mas as propriedades anorexgenas de suas folhas
dissipam os afs da fome, razo pela qual foi batizada no Sul com o nome sig-
nificativo de tonga (literalmente: "que permite chegar"). Alis, no  necessrio
penetrar no interior para consegui-la, j que se trata de uma espcie litornea
capaz de resistir aos terrenos salgados. Assim podemos supor que os navios dos
frequentadores de Talaky podiam adquiri-la como as canoas de hoje.
    A pequenssima parte explorada de Takaly, na margem leste, apenas trouxe
 luz um habitat de pescadores (alm do arpo e dos anzis, foram encontrados
pesos de linhas ou de redes), cujos objetos da vida cotidiana, peas bastante
simples e utilitrias, no podem ser comparados queles dos stios do interior
(cermicas variadas e ricamente decoradas, joias diversas, etc.). Todavia, ali foram
encontradas, como no stio de Irodo, colheres talhadas no turbo e, como stios
de Andaro e Andranosoa, na cermica local se encontram marcas de grafitao

41   B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA, 1977 e 1981.
42   D. RASAMUEL, 1983.
43   P. BOITEAU, 1977.
814                                                                                frica do sculo VII ao XI



sem funes utilitrias aparentes que, ao que parece, apenas foram descober-
tas, fora de Madagascar (cermica tanto antiga quanto contempornea), em
algumas cermicas da frica Oriental (tradio lelesu) e Meridional (tradio
gokomere-ziwa-zhizo), bem como nas peas da tradio sa-huynh-kalanay (par-
ticularmente no antigo Champa), na zona austronesiana44. A presena, nos stios
do curso superior do Manambovo, de estilhas de cloritoxistos e de cermicas
imitando os modelos de pedra, bem como a de produtos do mar e de alm-mar
(sgraffiato da Arbia e outras cermicas importadas ainda no datadas com
preciso, pingentes de marfim da frica ou da sia), acaba de confirmar que
Talaky, por onde tudo isso deve ter transitado, no foi um stio de pescadores do
mesmo tipo que Sarodrano. Alis, ainda sem falar dos stios da margem oeste, o
conjunto dos stios do planalto sobrepujando os stios de duna, onde foi efetuada
a escavao, encontra-se por demais longe do mar para homens praticantes de
uma mera pesca de auto-subsistncia. Ademais, sua grande extenso bastaria
para sugerir outros tipos de atividade, como, por exemplo, uma pesca de grande
escala cujos produtos teriam sido em parte conservados e vendidos da mesma
forma que a carne de carneiro. Evidentemente, todas essas sugestes carecem
de confirmao.
    Tal insuficincia de dados, j sensvel no nvel de um nico stio,  ainda
mais marcante se pensarmos  extenso do pas. Porm, novas pesquisas, sis-
tematicamente voltadas para o estudo dos stios de embocadura e, rio acima,
das zonas economicamente estratgicas das bacias vertentes, permitiriam sem
dvida realizar logo uma reconstruo da vida econmica e social do conjunto a
ilha de Madagascar nesta poca chave de sua histria ecolgica e poltica. Pois,
cotejados com aqueles da etnografia e da tradio, os dados da arqueologia,
em seu estado atual, j deixam vislumbrar a existncia de uma notvel unidade
cultural e material, transparecendo tanto nas concepes ainda vivenciadas na
civilizao malgaxe atual quanto nos elementos da cultura material datados desta
poca. Alguns desses elementos, especialmente as cermicas importadas, provam
claramente a insero de alguns grupos malgaxe em uma rede de relaes esten-
dendo suas ramificaes at zonas que o estudo das tradies ainda no havia
trazido  luz: a dos pases continentais costeiros do mar da China Meridional
de um lado, e a dos pases costeiros do Canal de Moambique, de outro lado.

44    No que diz respeito  frica Oriental, R. C. SOPER, 1971; para a frica Meridional, consultar UNESCO,
      Histria Geral da frica, vol. II, cap. 27; para a sia do Sudeste continental, W. G. SOLHEIM II, 1965,
      e para uma contextualizao dos dados, B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA e J. P. DOME-
      NICHINI, 1983, p. 12-15. Tambm se encontra a grafitao em produtos de luxo da regio dos Grandes
      Lagos, mas depois de 1450.
Madagascar                                                                     815



Isso deve naturalmente levar a estender a essas "novas" zonas a busca por dados
suscetveis de esclarecer a histria de Madagascar.


     Madagascar no contexto internacional
    Dos dados elaborados a partir da tradio aos dados mais diretos da arqueo-
logia, o terreno malgaxe j forneceu, no que diz respeito a nosso perodo, diversos
indcios de relaes com regies ultramarinas de amplos horizontes, regies das
quais alguns pontos so apenas evocados, enquanto outros so mencionados com
insistncia. Porm, dadas as lacunas atuais desta documentao, nada podemos
deduzir de imediato quanto s verdadeiras caractersticas das relaes da ilha
com cada um desses pontos, to pouco quanto a sua intensidade. Os indcios for-
necidos pelo estudo das fontes orais e pela arqueologia permitem acabar, espe-
ramos definitivamente, com a hiptese da cronologia curta que tendia a situar o
povoamento45 de Madagascar no fim do primeiro milnio, deturpando assim as
pesquisas nela baseadas46. No h mais dvida que o homem esteve presente em
Madagascar, ao menos nas regies sobre as quais as recentes pesquisas trouxeram
novas luzes, muito antes do ano 1000 da Era Crist. Se integrarmos tambm o
estudo das fontes no malgaxes, cujo manejo  obviamente muito delicado, j
que nelas Madagascar jamais se encontra citada por um nome transparente, o
perodo do sculo VII ao XI, apesar de sua parte de escurido, no deve mais
ser considerado, na histria malgaxe, o dos primrdios do povoamento. Chegou
a hora de abandonar definitivamente, no que a concerne, todas as discusses
advindas da insuficincia dos conhecimentos relativos ao mundo austronesiano.
Parece-nos que a ilha pode ser situada, sem solicitar o conjunto das informaes
de que dispomos, em um contexto ocenico amplo.
    A histria da navegao no Oceano ndico ainda tem que ser escrita. At
o momento apenas houve abordagens parciais das quais  difcil extrair uma
sntese incontestvel. A expanso martima do mundo rabe-muulmano, ao
menos a partir do sculo XI, provavelmente tenha velado, sob a abundncia
das fontes e dos estudos, a parte desempenhada por outros povos e zonas nas
navegaes mais antigas. Talvez fosse o caso de prestar mais ateno do que
antigamente ao grau de aperfeioamento alcanado desde os primeiros sculos
da Era Crist pelas tcnicas de navegao daqueles que os chineses do primeiro


45   Ver J. POIRIER, 1965; P. OTTINO, 1974a e P. VRIN, 1974.
46   Ver, por exemplo, J. BERNARD, 1983.
816                                                                                  frica do sculo VII ao XI



milnio agruparam sob o nome de Kunlun, entre os quais os austronesianos
foram certamente majoritrios e, em todo o caso, muito numerosos. Ao que
parece, tratava-se principalmente de povos de navegadores da sia do Sudeste
continental e insular47. Esses austronesianos so considerados os construtores
dos grandes navios costurados destinados  navegao de alto mar e descritos
pelos autores chineses do sculo III ao IX sob o nome de kun lun bo. Segundo
tais autores, esses navios de velas tranadas mediam aproximadamente 50 metros
de comprimento e podiam transportar de 500 a 1000 pessoas, bem como uma
carga de 250 a 1000 toneladas de arqueao48. Jangadas e canoas polinsias
(outrigger) talvez tenham continuado a conduzir alguns imigrantes austronesia-
nos do fim do primeiro milnio at Madagascar  a pobreza e a coragem, assim
como o gosto pela aventura, so de todos os tempos. Todavia, para os perodos
posteriores ao sculo III, e talvez mesmo antes49, no  mais possvel submeter a
data do povoamento da ilha s condies de navegaes nesses "frgeis esquifes"
que alguns partidrios da cronologia curta  ignorando tanto a advertncia de
Donque50 quanto o itinerrio rpido para a costa leste malgaxe por Ceilo, as
Maldivas e as ilhas Chagos estabelecido por Paul Adam51  ainda vem chegar
ao trmino de uma progresso multissecular pontuada por assentamentos mais
ou menos durveis ao longo das margens do Oceano ndico. Tais assentamen-
tos talvez tenham existido; porm, muito cedo, no foi necessariamente uma
necessidade inelutvel decorrente do grau de conhecimentos tcnicos que teria
levado  sua criao, mas talvez tambm a escolha e estratgia dos usurios de
um espao ocenico cujas rotas haviam sido reconhecida de longa data, e do qual
se conhecia a geografia econmica e poltica. Pensamos hoje que o povoamento
de Madagascar, e no necessariamente sua descoberta, j se inscreveu muito
provavelmente, para os austronesianos da Antiguidade, em uma situao em
que o acaso cessara de ser predominante.




47    Os mais conhecidos pelos chineses eram certamente os fundadores do futuro reino austronesiano india-
      nizado de Champa, que adveio de uma vitria kun-lun sobre a provncia chinesa de Je-Nan em +137 e
      que, mais tarde, frequuentemente manifestou sua turbulncia e seu esprito conquistador, inclusive contra
      a China, da qual teoricamente se tornara tributrio.
48    P. Y. MANGUIN, 1979.
49    Da mesma forma que os monges missionrios chineses viajavam, at os meados do sculo VIII (ver G.
      FERRAND, 1919, p. 245-246), nos navios dos kun-lun, os enviados chineses nos mares do Sul, a partir
      do Imperador Wu (-140/- 86), j viajavam nos navios dos mercadores "brbaros".
50    Ver G. DONQUE (1965, p. 58) dando "a prova que o determinismo geogrfico no existe".
51    P. ADAM, 1979.
Madagascar                                                                                             817



   Mesmo que admitirmos que os austronesianos fossem os primeiros a navegar
em direo a Madagascar  cujos povoamento, lngua e cultura conservam sua
marca (nesse ponto, nenhuma dvida surgiu no decorrer das recentes pesquisas)
  possvel examinar com ateno, em virtude dos indcios acima estudados,
a hiptese de uma insero da ilha a um comrcio inter-regional em busca
de alguns produtos preciosos52. Madeira de construo, goma de calafetao,
armatas e especiarias poderiam ter sido fornecidas muito cedo pela colheita
na ilha. Entre estas, a canela parece ter sido um dos produtos mais lucrativos
desse comrcio, cuja explorao e colheita eram uma especialidade do antigo
Champa53.
   No podemos ignorar que essa hiptese se choca com numerosos preconcei-
tos, que ela contm elementos solidamente estabelecidos e outros ainda muito
frgeis. Ela repousa, em primeiro lugar, na provvel participao de austrone-
sianos, no incio do primeiro milnio, ao transporte de pessoas e mercadorias
no oeste do Oceano ndico. Diversos indcios levam a considerar possvel a
presena dos "navios dos homens negros"54, os kunlun bo, prximo  frica: a
aluso feita pelo Priplo do Mar Eritreu aos navios costurados de velas tranadas
da costa setentrional da Aznia55 e os grandes "etopes antropfagos" de suas
costas meridionais evocados por Ptolomeu56, bem como os navios costurados de
leme nico, provavelmente pertencentes aos cham57, presentes no Mar Vermelho
no sculo VI58. Podemos completar a lista com os fatos levantados por Miller.
A antiguidade do cultivo de bananeiras da sia do Sudeste na frica Oriental,
a exportao de leo de coco por Rhapta na poca do Priplo, a presena de


52   B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA e J. P. DOMENICHINI, 1983 e 1984.
53   Comunicao pessoal de G. CONDOMINAS baseando-se na documentao juntada por Louis Con-
     dominas sobre "os mo do alto Son-Tran".
54   Ver a expresso Kolando phonta que, no Priplo, "designa os navios navegando entre a ndia e a sia do
     Sudeste (Chrys)" (P. Y. MANGUIN, 1979). Nessa expresso, que alguns autores j aproximaram de
     kunlun bo, o primeiro elemento aproximar-se-ia de Kuladan ou Koladya que, segundo Xu Yun-qiao,
     baseando-se notadamente em um artigo de Chen Ching-ho consagrado aos antepassados fundadores
     do reino do Lin-Yi (antigo nome de Champa), significaria "pas dos homens negros" e estaria ligado s
     migraes dos kun-lun.
55   Todavia, esses navios poderiam tambm derivar dos navios egpcios.
56   Ver H. N. CHITTICK, 1968b, p. 103. O livro das maravilhas da ndia, no sculo X, ainda falava dos
     "zandj comedores de homens" do pas de Sofala (ver A. MIQUEL, 1975, p. 172). Mas a antropofagia, de
     acordo com Pierre Alexandre, s diz respeito a uma minoria de grupos africanos e mais se encontraria
     na frica Central.
57   P. Y. MANGUIN (1979) diz "aos continentais", mas o mesmo autor (1972, p. 44) alegou que os viet-
     namitas "nunca foram um povo de navegadores".
58   Ver N. H. CHITTICK, 1979b.
818                                                                                 frica do sculo VII ao XI



elefantes de guerra conduzido por seres59 no exrcito "etope" j antes do sculo
III60, a participao dos mercadores navegadores cham ao trfico dos escravos
zandj61, tanto para a sia quanto para o Oriente Mdio62, e a conscincia aguda
da unidade e do peso do mundo negro atribuda aos negros por al-Djhiz63 so
todos elementos testemunhando da antiguidade e da permanncia dos contatos.
    H uma segunda srie de elementos cuja importncia qualitativa e quantita-
tiva dever ser avaliada no futuro: a parte de Madagascar nesse eventual trfego
dos navios austronesianos para o oeste. Em uma obra bastante criticada, Miller
situava muito cedo a insero da ilha nesse comrcio64.
    Para ns, em funo dos indcios encontrados nas fontes orais e na arqueolo-
gia, Madagascar no foi apenas, como o acreditava Miller, uma fachada servindo


59    Embora esse nome designasse habitualmente os chineses e embora J. H. NEEDHAM (1974, p. 140),
      de acordo com PELLIOT e levando abusivamente em conta a China do Sul e do Sudeste, no exclusse
      que possa ter existido, na Antiguidade, uma navegao ocenica "chinesa" alcanando o porto de Adoulis,
      esses seres no eram chineses. Com efeito, estes ltimos, cujo imperador recebia elefantes domsticos ou
      domados, a mesmo ttulo de tributo dos brbaros do Sul do que os tecidos de seda, armatas, especarias,
      etc., no possuam elefantes de guerra; e aqueles dos cham, que podemos alis vislumbrar atrs desses
      seres e que usavam esses "carros-de-combate" tanto quanto os indianos, ainda provocavam o terror junto
      ao exrcito chins at meados do sculo V (ver G. MASPRO, 1928, p. 72).
60    Ver HLIODORE, 1960, vol. III, p. 59-61. A respeito desse comrcio de elefantes, ver UNESCO,
      Histoire gnrale de l'Afrique, vol. II, p. 185.
61    "A maioria dos cham, destaca G. MASPRO (1928, p. 34) traduzindo o Ling W(a)i Tai Ta (Lin Wai
      Dai Da em pin-yin) (vol. II, p. 11), exerce a profisso de mercador de escravos; seus juncos transportam
      homens em vez de mercadorias." Os escravos que os cham prendiam, compravam a preo de ouro ou em
      troca de "madeira-de-cheiro"  ver o Tchou Fan Tche (Zhu Fan Zhi) de Tchao Jou-Koua (Chau Ju-Kua)
      citado na mesma pgina por Maspro  eram em parte oriundos das ilhas austronesianas do Leste
      (Molucas, etc.); porm, o mesmo Ling Wai Dai Da, publicado em 1178 por Zhou Qu-Fei, atesta o fato
      de alguns provirem do Kun-lun Zengqi, ou "pas zandj de Kun-lun", "no mar do Sudoeste".
62    Muitos desses escravos zandj, cuja presena na China  atestada desde 724 (tributo oferecido  corte
      por prncipes nusantarianos de rvijya), eram destinados aos rabes que, de acordo com Zhou Qu-Fei,
      pagavam um preo elevado para eles e empregavam-nos principalmente como porteiros (ver a traduo
      de G. FERRAND, maro-abril 1919, p. 253).
63    Livro da superioridade dos negros sobre os brancos, traduo indita amavelmente comunicada por J.
      DEVISSE. O mundo negro evocado nesta obra vai dos zandj da frica aos "chineses" da China do
      Sudeste, passando pelos austronesianos de Zbadj, que ali apareceram como nusantarianos (a esse res-
      peito, ver A. MIQUEL, 1975, p. 78, que, ao considerar al-Zbadj como decalque de Djvaga, tambm
      v nele o conjunto Sumatra-Java ou Sumatra s). Porm, Zbadj, que correspondeu ao Suvarnadvipa do
      snscrito (ver al-BRN citado por G. COEDS, 1964, p. 264), designado s vezes partes do conti-
      nente (ver. G. COEDS, 1964, p. 160), talvez possa ser ligado ao Za Bai de Ptolomeu, no qual alguns
      autores reconheceram o Champa (ver G. MASPRO, 1928, p. 2).
64    Contudo, J. I. MILLER (1969, p. 171), que situa o povoamento de Madagascar no segundo milnio antes
      da Era Crist, no  o nico a propor uma data to remota, as mais longnquas datas encontrando-se
      junto aos pesquisadores de antropologia fsica, de A. RAKOTO-RATSIMAMANGA (1940), que o
      situa por volta de 2500 antes da Era Crist, a R. FOURQUET e seus colaboradores do Instituto Pasteur
      (1974), que sustentam a hiptese de uma "origem proto-australode pr-dravidiana". Ver tambm nota
      9. Em seu livro, Miller no estuda o perodo tratado neste volume.
Madagascar                                                                                            819



 salvaguarda do segredo comercial relativo ao pas da canela e da cssia, menti-
rosamente situado no Chifre da frica. Pas rico em numerosos grandes produ-
tos do comrcio internacional da Antiguidade e da Alta Idade Mdia  inclusive
em madeira guia65, que Miller identifica com o tarum que chegava pela "rota
do cinamomo"  e ainda gozando da vantagem de estar no somente ao abrigo
das zonas sulcadas por marinhas rivais, como tambm prxima s principais
zonas de escoamento dos produtos, e especialmente aos portos africanos con-
tribuindo ao abastecimento do Egito e, a partir da, do mundo mediterrneo66,
a costa de Madagascar certamente exportou suas produes durante o perodo
que aqui nos interessa. A ausncia de algumas plantas de grande importncia
cultural, como o Calophyllum inophyllum, na costa da frica67 nos leva a pensar
que Madagascar, onde esta planta  presente, foi visitada antes mesmo da frica
Oriental pelos austronesianos, que ali levavam novos imigrantes e os produtos
inexistentes em Madagascar, fosse para o consumo local ou o comrcio externo.
    Evidentemente, tudo isso tem sua origem no perodo anterior ao que estuda
o presente volume. Se pensarmos que foi nesta poca longnqua que Madagascar
participou, j de forma intensa, ao comrcio do Oceano ndico, cabe agora ten-
tar acompanhar os episdios de tal participao entre os sculos VII e XI. Sem
esconder a ns mesmo e tampouco ao leitor que esta interpretao cronolgica
se baseia em um postulado prvio: nossa certeza, fundada nas pesquisas realiza-
das na ilha, de que a ilha participava do comrcio ocenico desde os primrdios
do primeiro milnio.
    As primeiras dificuldades encontradas pelos mercadores de Madagascar
parecem ter alguma relao com a ineficincia de Axum e Bizncio contra a
Prsia sassnida. Esta ultima, graas  conquista da Arbia do Sul (570), que
dominaria at a converso do ltimo governador ao Isl em 62868, certamente
conseguiu anexar parcialmente a herana dos rabes do Sul no comrcio mar-
timo do Oceano ndico ocidental, incluindo o Mar Vermelho. Depois ocorreu


65   . de FLACOURT, 1661, p. 131.
66   Ver por exemplo J. LECLANT (1976, p. 270), que cita a canela como um dos produtos a chegar da
     frica Oriental para ser reexportado rumo ao Mediterrneo pelo Egito da XXV dinastia (-664/-525).
67   O Calophyllum inophyllum Linn est presente em todas as regies costeiras indo-pacficas, com exceo
     da frica. Essa ausncia levou Perrier de la Bathie a situar sua migrao ocenica em tempos muito
     remotos (ver Y. CABANIS e al., 1969-1970, p. 280). Porm, a rvore, que tambm fornecia madeira
     de construo naval e goma de calafetao, fazia parte das plantas sistematicamente cultivadas pelos
     grupos indianizados para cumprir as necessidades do ritual religioso e da pompa real (ver A. G. HAU-
     DRICOURT e L. HDIN, 1953, p. 541). No que diz respeito ao importante posto por ele ocupado na
     cultura malgaxe, ver B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA, 1983, p. 483-486.
68   Ver J. I. MILLER, 1969, p. 220.
820                                                                    frica do sculo VII ao XI



uma certa integrao da Prsia derrotada, e rapidamente convertida  poltica
de expanso do mundo rabe-islmico, cuja conquista do Egito acabou com-
pletando a tomada de controle das rotas comercias do oeste pelos rabo-persas.
    Ativa ou passiva, a primeira adaptao da grande ilha a essa situao con-
sistiu manifestadamente em entrar em relao com os importadores de lngua
persa, explicando assim sua influncia perceptvel nos dados das pesquisas
malgaxes. Alis, alguns desses importadores provavelmente se encontravam
na costa africana. Porm, a mudana, ao menos parcial, de interlocutores e a
interrupo das rotas terrestres, que deram origem ao declnio do comercio
no s do incenso, mas talvez tambm de outros produtos submetidos  con-
corrncia daqueles do mundo rabo-persa, certamente atrapalharam tambm
o comercio do cinamomo, j em concorrncia com Ceilo, incentivado pelos
sassnidas desde o sculo IV. Quando os habitantes de al-Kumr (Comores
e Madagascar), aproveitando-se das turbulncias do fim do sculo VII e do
incio do VIII na Arbia do Sul69, se lanaram  conquista de den em suas
canoas, talvez se tratasse de uma tentativa bem-sucedida de reviravolta, j que
esses conquistadores, entre os quais alguns se fixaram no Imen e fizeram de
den seu porto de base donde saam sazonalmente, haviam conseguido esta-
belecer uma ligao martima direta entre seu pas de origem e a Arbia do
Sul, "navegando juntos em uma s mono"; segundo o testemunho de Ibn
al-Mudjwir, os rabo-persas do sculo XIII ainda faziam a mesma viagem em
trs mones. Assim puderam concorrer com seus rivais, pois os navegadores
rabo-persas, que parecem ter ignorado o conjunto Comores-Madagascar at
o sculo X  e apenas identificaram-no corretamente a partir do sculo XII ,
continuavam a receber os produtos malgaxes na costa leste-africana, ao longo
da qual cabotavam.
    Grandes turbulncias afetaram a vida do Oceano ndico ocidental no sculo
XI. At hoje  difcil conhecer em detalhes a situao das trocas durante esse
sculo. Nele e durante os sculos seguintes, se acreditarmos nas fontes rabes,
as viagens dos navegadores "malgaxes" teriam acabado, na maioria das vezes, em
den. Seu contato prolongado com os paises muulmanos provocou a converso
de alguns malgaxes ao Isl. Podemos at nos perguntar se algumas viagens de
al-Kumr at den e as portas do Golfo Prsico no acabaram por se inscre-
ver na organizao do comrcio rabo-persa. Todavia, h um fato que parece
quase certo: so os navegadores malgaxes convertidos ao Isl que poderiam ter

69    Seguimos O. C. DAHL (1951) e H. DESCHAMPS (1972) que entenderam "imprio dos faras" no
      sentido de "domnio romano no Egito".
Madagascar                                                                                            821



incentivado os navegadores de Om e Srf a usar a rota direta para o norte da
ilha, onde ainda podem ser encontradas as primeiras instalaes de Onjatsy70.
E tambm para a ilha de Kanbal que, segundo al-Mas`d, era "habitada por
uma populao mista de muulmanos e zandj idlatras". Alis, ainda no se pode
excluir que Kanbal fosse situada em alguma parte no Noroeste de al-Kumr71.
Porm, qualquer seja a posio exata dessa ilha, isso deixa bastante claro que
foi o mais tardar a partir do incio do sculo X que a rivalidade com os rabo-
-persas parou de ser vivida de forma to intensa por todos os malgaxes. E como
tudo isso aconteceu em um momento em que, aproveitando-se tanto da situao
criada pelo massacre dos muulmanos de Canto (878) quanto do crescimento
do poder de rvijya, o mundo kun-lun, graas ao controle dos estreitos, ganhou
uma real vantagem sobre as marinhas rivais (rabo-persa e indiana por um lado,
chinesa por outro), as coisas no ficariam paradas.
    Estendendo-se talvez at o da Sonda, tal controle dos estreitos conseguiu
fazer da pennsula de Malaca, no reino de rvijya, o ponto final de qualquer
navegao em direo  China, ou dela proveniente. Esta ltima tornara-se um
dos maiores mercados da poca e foi para ela que se voltou uma grande parte
do comrcio do conjunto dos paises do Sudoeste do Oceano ndico isolados do
Mediterrneo. Madagascar, da qual ao menos a parte oriental continuou a se ins-
crever no espao kun-lun, participou evidentemente desse comrcio. No que diz
respeito ao episdio do ataque de Kanbal, s vezes se admite que os assaltantes
chamados de wk-wk nas fontes rabes fossem de Madagascar72.  considerada
satisfatria a explicao dessa incurso dada por Ibn Lks nas Maravilhas da
ndia: a expedio estava  procura de escravos zandj, de produtos convenien-
tes a seu pas e  China (marfim, escamas, peles de pantera e mbar-gris). De
fato, sem precisar rejeitar esses motivos assumidos e cujo interesse consiste em
evidenciar o fato de existir na ilha um mercado alimentado por trocas com o
continente, donde vinham o marfim e as peles de leopardo  e provavelmente
cativos zandj , tal expedio se explicaria bem menos no quadro do desenvolvi-
mento das trocas malgaxes com a China que naquele de uma rivalidade entre o


70   Os onjatsy, cuja histria  pouco conhecida e que, nos momentos de tenso, eram rejeitados como "no-
     -rabes" e ento chamados de "gente vinda das areias de Meca", podem, contudo, ter chegado ao Norte
     antes dos zafi(n-d) raminia. A etimologia ligando esse nome quele dos azd, dado pelos marinheiros de
     Om, permanece atualmente a mais convincente.
71   A. MIQUEL (1975, p. 171-172) s descartou a possibilidade de situar Kanbal em Madagascar  mas
     preferimos usar al-Kumr, pensando tambm nas ilhas Comores  por no ter reconhecido interesse
     econmico a tal viagem.
72   Ibidem, p. 173. Contra essa interpretao: R. MAUNY, 1965.
mundo muulmano e o mundo kun-lun, chamado de wk-wk por Ibn Lks73.
Contudo, embora a pirataria e as incurses tenham sido frequentes ao longo
deste perodo, como tambm na histria mais recente de Madagascar, essa expe-
dio, que contava com um "milhar de embarcaes" vindas do Sul para atacar
Kanbal, no foi apenas travada por malgaxes da costa oriental, mas tambm
por wk-wk do Oriente Extremo, cujas expedies nessas regies do extremo
sul, atestadas por outras fontes74, no podiam ter por nico motivo a busca
de produtos, da qual eles podiam encarregar seus aliados de Madagascar. Tais
produtos abundavam em suas regies e faziam parte do comrcio multissecular
da ilha com a China. Tudo leva a pensar que para esses kun-lun, ou wk-wk,
se tratava mais de opor uma resistncia ao avano muulmano rumo ao sul,
favorecido por malgaxes islamizados, e de proteger o acesso s minas de ouro
e demais metais. Talvez pudssemos admitir que o ferro do sul de Madagascar,
to bem protegido por seus exploradores, podia por si mesmo constituir uma
riqueza merecendo que se lutasse para conservar o seu monoplio75.
    Expedies como a de 945 parecem ter contido a progresso da marinha
muulmana durante bastante tempo. Porm, a homogeneidade do mundo kun-
-lun j era abalada pelo proselitismo do Isl. Podemos pensar que foi naquele
momento que migraes como a dos zafi(n-d) raminia deixaram as margens
do Mar Vermelho. Enquanto isso a ilha desenvolvia suas relaes com a frica
Oriental  tambm islamizada, embora de forma diferente  exportando ali,
como o sugerem as importaes de Kilwa a partir do sculo X, os objetos de
cloritoxisto produzidos localmente76.
    Essa nova abordagem das relaes econmicas e navais entre, de um lado,
Madagascar e o mundo kun-lun, e, do outro, entre a ilha e o mundo rabo-persa,
leva-nos a novas indagaes, desta vez relativas  vida interiorana da ilha. As
observaes convergentes, com seis sculos de distncia, do Hudd al`Alm
e do almirante Sd `Al Celeb parecem demonstrar que as velhas estruturas
polticas e sociais do Sul resistiram bem s novas influncias. Isso deveria levar
os estudiosos da ilha a retomar o exame da questo da influncia "rabe", com a


73   Para um exame detalhado do que segue, ver B. DOMENICHINI-RAMIARAMANANA e J. P.
     DOMENICHINI, 1983 e 1984.
74   A. MIQUEL, 1975, p. 173.
75   Um tributo oferecido em 974 pelos cham comportava "quarenta libras de ferro" (ver G. MASPRO,
     1928, p. 121).
76   Ver P. VRIN (1975, p. 937) que concorda com a opinio muitas vezes expressa por J. DEVISSE na
     discusso sobre a hiptese de H. N. CHITTICK. Esse ltimo s defendia uma importao proveniente
     da Arbia do Sul.
Madagascar                                                                     823



qual se explicou por demais sistematicamente diversos traos da antiga cultura
malgaxe. Mas tal exame cabe mais ao estudo dos perodos posteriores ao sculo
XI. O nico fato ainda pertinente  o da mudana radical de tica a que estamos
convidados neste domnio constituir a consequncia da sntese do conjunto das
fontes atualmente disponveis para escrever a histria do perodo do sculo VII
ao XI. Isso suscita reflexes, caso pensarmos no s nas inmeras lacunas ainda
apresentadas pelo conjunto dos testemunhos relativos a esse perodo, como
tambm na extenso de nossa ignorncia a respeito do perodo anterior.
    Da mesma forma que a demasiada importncia at ento atribuda  influ-
ncia rabe se v hoje questionada,  provvel que muitos pontos da histria de
Madagascar no Oceano ndico do sculo VII ao XI, tal como emerge de nossos
trs panoramas, estejam sujeitos a revises ulteriores. Portanto  grande a tenta-
o de dizer  e ser a nossa concluso  que o essencial, de imediato, talvez se
encontre menos no reconhecimento de uma viravolta importante no passado da
ilha e nos fatos que parecem historicamente estabelecidos, ou prestes a o ser, que
no fato de ter "experimentalmente" estabelecido a igual importncia, raramente
reconhecida, das diversas categorias de fontes, e a necessidade de explor-las to
sistematicamente umas quanto as outras.
A dispora africana na sia                                                                      825



                                      CAPTULO 26


                   A dispora africana na sia
                                     Yusof Talib
                   (a partir de uma contribuio de Faisal Samir)




   Embora a presena dos africanos fora de seu continente fosse atestada desde
a Antiguidade, foi somente no curso do perodo aqui examinado que seu papel
se afirmou, em diferentes domnios da atividade humana, nos pases muul-
manos do Oriente Mdio, no subcontinente indiano, no arquiplago malaio
e no Extremo Oriente. Infelizmente, apenas dispomos de informaes ainda
insuficientes, alis dispersadas em um grande nmero de obras e de documen-
tos escritos em lnguas diferentes, principalmente orientais. Ademais, nunca foi
realizado nenhum estudo sistemtico autorizado sobre a dispora africana na
sia1. Tambm, a tentativa que  feita, no presente captulo, para reagrupar os
dados disponveis sobre as relaes antigas entre a frica e a Arbia, bem como
sobre os aspectos polticos, sociais, econmicos e culturais da presena africana
nas regies mencionadas acima tem um carter preliminar.




1    Aps a redao do presente captulo, foi publicada uma obra sobre a presena africana na sia na Anti-
     guidade; ver I. van SERTIMA (org.), 1985.
826                                                                                 frica do sculo VII ao XI



      Primeiros contatos entre a frica e a
      Arbia: poca prislmica
    As relaes comerciais entre o sudoeste da Arbia e a costa da frica Orien-
tal descritas pelo desconhecido autor do Priplo do Mar Eritreu, que data pro-
vavelmente do fim do sculo I ou do comeo do sculo II da Era Crist2, j
existiam vrios sculos antes da redao desta obra. Parece que o rico e potente
reino de `Awsn, no Imen, devia sua importncia comercial  intensidade de
suas trocas com a frica Oriental3. Sua enfeudao no Kataban, ao longo da
segunda metade do sculo V, antes da Era Crist, abalou sua prosperidade e sua
potncia, que, ento, declinaram de forma irreversvel.
    No dispomos de informaes suficientes para determinar com certeza a
poca em que tais ligaes comerciais se estabeleceram, nem sua extenso para
o sul, ao longo do litoral da frica Oriental, durante o perodo pr-romano.
A. M. Sheriff sugere, com argumentos convincentes, que, provavelmente, elas
remontavam ao sculo II, antes da Era Crist4. Na poca romana, parece que
os mercadores da Arbia haviam exercido um quase monoplio sobre todo o
comrcio costeiro da frica Oriental.
    A unificao econmica e a opulncia crescente do Imprio Romano deram
um novo impulso s atividades comerciais da Arbia do Sul. A expanso da
demanda interna por produtos exticos, como o marfim, inevitavelmente, inte-
grou "a regio da frica Oriental em um sistema de comrcio internacional
centrado no Mediterrneo, pelo intermdio do Estado de Himyar, a sudoeste
da Arbia"5. A "dominao poltica" e a "penetrao social" que acompanharam
esta evoluo favoreceram o avano de diversos povos marinhos e comercian-
tes mestios que, subordinados ao sistema comercial internacional dominante,
serviram-lhe de agentes locais6.



2     Ver G. W. B. HUNTINGFORD, 1980.
3     Sobre esse assunto, ver a detalhadssima obra de H. von WISSMANN e M. HFNER, 1952, p. 287-
      -293.
4     Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 22.
5     Ibidem, p. 561.
6     "Aps dois dias de navegao seguindo o continente, encontra-se o ltimo mercado da Aznia, Raphta,
      que tomou o nome dos barcos costurados, j mencionados, e onde abundam o marfim e as carapaas de
      tartaruga. Os indgenas deste pas so grandes e tm costumes de piratas. Cada cidade possui seu prprio
      chefe. O chefe mofarita governa a sua segundo uma conveno pela qual a cidade se submete ao reino
      que conquistar a supremacia na Arbia." Ver G. W. B. HUNTINGFORD, 1980, p. 30.
A dispora africana na sia                                                                             827



   A converso oficial de Axum ao cristianismo monofisita7, no comeo do
sculo IV da Era Crist,  um evento de grande importncia histrica. Liga-
es muito estreitas foram nutridas com a primeira potncia crist da poca:
o Imprio Bizantino. Os axumitas tornaram-se os artesos da poltica externa
bizantina, notadamente em matria de comrcio e de religio, de forma que a
Etipia encontrou-se estreitamente envolvida nos negcios da Arbia do Sul. A
manifestao mais importante destas ligaes foi a invaso da pennsula arbica
pelos etopes do sudoeste, em 5258.
   Os autores antigos, rabes9 e cristos10, supuseram que esta invaso do Imen
fora provocada pela persecuo geral dos cristos iemenitas, que levou ao massa-
cre total da importante comunidade crist monofisita de Nadjrn11, pelo rei dos
himyaritas, Dh Nuws12, convertido ao judasmo, que tambm era o chefe do
partido favorvel aos persas. Querendo vingar seus correligionrios e incentivado
a intervir pelos bizantinos, o rei axumita, Ella Asbeha, enviou uma expedio
punitiva ao outro lado do estreito de Bb al-Mandab. Dh Nuws foi derrubado
e substitudo no trono por um autctone cristo, de nome Sumayfa` Ashwa`13
   Na realidade, o motivo da invaso, atestado por inscries encontradas na
Arbia do Sul e pela narrativa de Procpio14, era de natureza econmica. No
mundo bizantino, a demanda por artigos de luxo era enorme. O comrcio dos
produtos raros e preciosos, em particular a seda, encontrava-se quase com-
pletamente nas mos dos persas, que no apenas mantinham os preos a um
nvel elevadssimo, mas exigiam serem pagos com ouro romano. Se as relaes
comerciais tivessem prosseguido segundo esse esquema, grande parte da riqueza
do Imprio Romano teria sido sacrificada em benefcio de sua rival, a Prsia.


7    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 16.
8    Segundo a inscrio encontrada em Husn al-Ghurb, fortaleza e posto de observao defendendo o
     antigo porto e a cidade comerciante de Kana', na costa meridional da Arbia. Para mais detalhes, ver K.
     Mlaker, 1927.
9    Ibn ISHK, 1955, p. 14-33
10   A. MOBERG, 1924; F. M. E. PEREIRA, 1899.
11   Sobre a histria da Arbia do Sul no sculo VI, pode-se consultar: D. S. ATTEMA, 1949; J. RYCK-
     MANS, 1956; S. SMITH, 1954; N. V. PIGULEVSKAYA, 1960, 1961.
12   A tradio rabe o designa pelo epteto de "senhor de cachos". Em outras fontes, ele  chamado Dunaan
     (A. MOBERG, 1924, p. xlii). No Livre des Himyarites (A. MOBERG, 1924), ele porta o nome de Mas-
     ruk, que aparece tambm em duas outras fontes. Ver D. S. ATTEMA, 1949, p. 7, nota 32. As fontes
     crists lhe do diferentes nomes: Dimnus, Damian, Dimianos, Damnus, e os textos abissnios chamam-
     -no Phin`has. Djawd `AL, 1952-1956, vol. 3, p. 190. Seu verdadeiro nome, aquele que tomou quando
     de sua converso ao judasmo,  Ysuf Ash`ar. S. SMITH, 1954, p. 456.
13   PROCPIO, 1954, p. 189. Nesta obra, este soberano  chamado de Esimiphaeus.
14   K. MLAKER, 1927, p. 60; PROCPIO, 1954, p. 193-194.
828                                                                                  frica do sculo VII ao XI



    Assim, um dos eixos da poltica estrangeira bizantina sob Justiniano (527-
-565) foi contornar o monoplio comercial persa, criando, atravs de agentes
etopes, uma rota martima meridional para o Oriente e se esforando para
impedir que ela casse nas mos dos persas ou dos elementos que lhes eram
favorveis na Arbia do Sul. Esta poltica estava condenada ao fracasso.
    Em 535, Sumayfa` foi deposto pela populao local em benefcio de um certo
Abraha15, antigo escravo de um mercador romano de Adulis16. Durante a maior
parte de seu reinado, Abraha conservou uma posio neutra na interminvel luta
entre as potncias rivais da poca, o que no deixou de decepcionar Justiniano.
Foi somente por volta do fim de seu reinado, em 570, que ele se voltou a favor
dos bizantinos e marchou para o norte, encabeando uma expedio contra o
Hidjz17. A empreitada malogrou. Seu exrcito foi derrotado e dizimado pelas
epidemias18. Este mesmo ano, chamado "do elefante"19 nas fontes rabes cls-
sicas, seria aquele em que nasceu Muhammad (Maom), o profeta do Isl 20.
Tambm foi o ano em que os sassnidas, comandados por Wahrz, colocaram
um fim na dominao etope no Imen21.


      O perodo prislmico e os princpios do Isl
      Os negros na Arbia prislmica
    Em razo da proximidade geogrfica da Arbia em relao  frica e das
ligaes seculares estabelecidas atravs do Mar Vermelho, muito cedo houve
uma numerosa presena africana na Pennsula Arbica. Estes africanos dos dois


15    A. F. L. BESESTON (1960) sustenta que os episdios da vida de Abraha contados pelos historiadores
      muulmanos so, em sua maioria, lendas extradas do folclore, que foram ligadas arbitrariamente ao nome
      de um personagem famoso. Encontramos indicaes mais precisas na relao de PROCPIO (1954,
      p. 191-194) e nas fontes epigrficas fragmentrias encontradas na Arbia do Sul. S. SMITH (1954,
      p. 431-441) fez uma anlise crtica das fontes existentes sobre a carreira de Abraha ou Abramos.
16    PROCPIO, 1954, p. 191.
17    As fontes muulmanas clssicas atribuem  causa desta expedio a inveja de Abraha para com o santu-
      rio de Meca e uma v tentativa que ele teria feito para substituir o referido santurio pelo seu prprio,
      o de San`, como lugar de peregrinao de toda a Arbia. A. F. L. BEESTON, 1960, p. 103. Ver tambm
      P. K. HITTI, 1970, p. 64.
18    Ibn ISHK, 1955, p. 26-27.
19    Al-TABAR, 1329 da hgira, vol. 30, p. 195; C. CONTI ROSSINI (1921) contestou tal narrativa da
      expedio dos abissnios com seus elefantes contra o Hidjz.
20    M. RODINSON (1971, p. 38) considera esta data improvvel. O ano de 571  mais correntemente
      admitido.
21    A. CHRISTENSEN, 1944.
A dispora africana na sia                                                                            829



sexos, originrios de diferentes regies, mas, sobretudo, da Etipia, da Somlia,
da Nbia e da costa oriental, chegaram  Arbia por diversas razes, mas a maior
parte deles foi levada para l como escravos. Por outro lado,  muito provvel
que muitos guerreiros etopes, vindos com o exrcito dos invasores, tenham
ficado depois na Arbia do Sul e em outras regies para finalmente se fundir 
populao de predominncia rabe.
    As fontes literrias rabes conservam aqui e acol narrativas diversas, men-
cionando que estes africanos de origem viviam na Arbia antes do Isl.
    Vrios poetas da era pr-islmica (Djhiliya) tinham herdado de sua me
uma tez escura que lhes valeu a alcunha coletiva de Aghribat al`Arab (os corvos
dos rabes). Dentre eles, os mais clebres so `Antara b. Shaddd22, Khuff ibn
Nadba23 e Sulayk b. al-Sulaka24. Esse ltimo pertencia s sa`lik25  clebres com-
panhias errantes de "cavaleiros-salteadores", renomados por seu comportamento
cavalheiresco e seu senso de honra, apesar dos saques que cometiam. Porm, o
mais ilustre dos "corvos" foi `Antara (Antar), da kabla dos `abs, nascido de uma
escrava abissnia, chamada Zabba.
    `Antara conquistou sua fama durante a guerra de Dhis-Ghabr26, que ops
a kabla de seu pai quela de Ab Dhubyn; ele se destacou por sua bravura e
sua fora fsica, graas s quais os seus se cobriram de glria. Mais tarde, ele foi
alforriado e tornou-se um membro venerado de sua kabla. Os rabes classificam
entre as mais belas criaes da poesia Djhiliya os versos que ele comps sobre
suas numerosas batalhas, suas venturas e seu amor por Abla, o que lhe assegurou
um posio honorvel entre os poetas de Mu`allakt27. Sua fama se estendeu a
tal ponto que, nos ltimos anos do Isl, suas proezas serviram de tema a uma



22   Sobre `Antara ver as seguintes obras: A. THORBECKE, 1867; H. DERENBOURG, 1905, p. 3-9;
     al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 8, p. 237-246.
23   Nascido de um pai rabe da kabla dos Ban Sulaym e de uma escrava negra nomeada Nadba. Acom-
     panhava o apstolo do isl quando este fez sua entrada em Meca, portando o estandarte de sua kabla;
     ver Ibn KUTAYBA, 1850, p. 126; al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 20, p. 2-9.
24   Al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 18, p. 133-139. Podemos citar tambm, dentre os "corvos", Thbit ibn
     Djbir, mais conhecido pelo nome de Ta`abbata Sharran, da kabla de Fahm, nascido de me africana.
25   Ver os detalhes dados por Y. KHALF, 1959.
26   "Estes conflitos nasceram de uma desavena sobre o resultado de uma corrida disputada entre dois
     cavalos, Dhis e Ghabr; a kabla dos `Abs acusou a de Dhubyn de ter recorrido a estratagemas para
     assegurar a vitria de seu cavalo." I. GOLDZIHER, 1966, p. 14.
27   "Ainda nenhuma explicao satisfatria foi dada sobre a origem deste termo, que significa literalmente
     "suspendido". Uma tradio apcrifa, relativamente recente, diz que ele designa os poemas coroados
     quando dos torneios de poesia da feira de `Ukz que, transcritos em letras de ouro, eram suspendidos na
     Ka'ba, em Meca". H. A. R. GIBB, 1963; J. BERQUE, 1979.
830                                                                              frica do sculo VII ao XI



gesta pica extremamente popular, intitulada Sirt `Antar (Histria de `Antara)28.
Ele  considerado um heri nacional pelos rabes.
    A cidade mercantil de Meca confiava a defesa e a proteo de seus itinerrios
caravaneiros a uma tropa de mercenrios conhecidos sob o nome de ahbsh,
termo que derivaria da palavra rabe designando os etopes  alHabash. Embora
parea que esta tropa tenha sido basicamente formada por etopes, compreendia
tambm outros escravos africanos e nmades rabes, originrios da Tihma
(plancie costeira que bordeja a costa do Mar Vermelho) e do Imen29. O papel
essencial destes mercenrios, que constituam a principal fora militar, formando
o squito e a escolta das famlias patrcias da cidade,  largamente atestado em
numerosas fontes rabes, que, por vrias vezes, sublinham a competncia militar,
a disciplina e as proezas destes soldados de fortuna.
    Esse frequente apelo aos mercenrios se explica principalmente pelo fato
de os curaichitas, dos quais faziam parte os habitantes de Meca, serem pouco
numerosos, o que os impedia de erguer entre eles um exrcito suficientemente
importante para defender sua cidade e proteger seus inmeros interesses comer-
ciais. Mais tarde, muitos dos ahbsh participariam ativamente nas expedies
militares contra o Estado muulmano nascente de Medina, e combater nos
campos de batalha de Badr e de Uhud30.

      Os negros no crculo de Maom
   A tradio diz que, em Meca, entre os primeiros convertidos ao Isl, houve
um grande nmero de escravos, dos quais alguns eram de origem africana31. Na
doutrina da nova religio pregada por Maom, as pessoas cunhadas de incapa-
cidade social, ou seja, esses escravos, enxergaram a possibilidade de ascender 
dignidade e ao respeito por si; poderiam fazer parte de uma comunidade nova,
em que o homem era principalmente julgado por seu fervor religioso, sua pie-
dade e seus atos, e no unicamente por suas origens sociais ou raciais. Desde os
primeiros e difceis anos da atividade do Profeta constituiu-se, assim, um ncleo
de convertidos negros ou mestios, que desempenharam um papel considervel
na vida da jovem comunidade poltico-religiosa islmica.


28    Ver G. ROUGER, 1923; B. HELLER, 1931.
29    Ver H. LAMMENS, 1916; W. M. WATT, 1953, p. 154-157; M. HAMIDULLAH, 1956.
30    Um destes Ahbsh, Wahsh b. Harb, o escravo etope, matou Hamza, tio do Profeta, na batalha de Uhud.
31    "Eu ouvi `Ammr (b. Ysir) dizer: `Eu vi o apstolo de Deus quando ele no tinha consigo nenhuma outra
      pessoa alm de cinco escravos, duas mulheres e Ab Bakr'" em: al-BUKHR, 1978, vol. 5, p. 24-25.
A dispora africana na sia                                                                831



    Um destes primeiros convertidos foi `Ammr ibn Ysir, cuja me, Sumayya,
era uma antiga escrava do cl curaichita dos ban makhzm; ele participou
das primeiras migraes para a Etipia e mais tarde retornou a Medina, par-
ticipando de todas as campanhas do Profeta. O califa `Umar (3/634-23/643)
o nomeou governador de Kfa, ou seja, um dos postos mais importantes da
administrao do recm-nascido Estado islmico. Em seguida, tornando-se
um zeloso adepto da causa de `Al, ele sucumbiu durante a primeira guerra civil,
na batalha de Siffin (37/617). Tambm contribuiu com a difuso dos hadth
(compilaes dos atos e das palavras de Maom)32.
    Todavia, o mais ilustre dos primeiros discpulos negros do Profeta foi Bill
b. Rabh, escravo etope cuja me, Hammah, e o irmo, Khlid, eram tambm
escravos em Meca. Ele  descrito nas primeiras narrativas muulmanas como
"alto, magro, de rosto fino, com bochechas cavadas, de voz muito forte". Antes de
ser comprado e alforriado pelo califa Ab Bakr, ele fora perseguido e torturado
por seu senhor, por causa de suas convices religiosas. Primeiro mu'adhdhin
(aquele que convoca  orao) do Isl, ele participou de todas as campanhas do
princpio da poca islmica, inclusive as da Sria, onde morreu devido  peste,
em Damasco, (no ano 20 ou 21/640-641)33. Como os outros mawl (clientes)
negros, os servios que ele prestou ao Isl, podem ser resumidos por estas pala-
vras de um moderno bigrafo do Profeta:
     "Eles tinham o modesto emprego, mas indispensvel, de simples fiis, de adeptos
     "de base", como diramos. Seu devotamento incansvel, sua total abnegao, sua
     absoluta falta de curiosidade e de inquietao de esprito, alm dos servios mate-
     riais insubstituveis por eles prestados, faziam deles modelos para os oponentes e
     questionadores".34
   Al-Mikdd ibn `Amr al-Aswad  um outro destes primeiros adeptos negros
do Isl que prestou eminentes servios no campo militar. Foi um dos primei-
ros companheiros do Profeta que ele assistiu em todas as suas batalhas. nico
muulmano a combater a cavalo na batalha de Badr, ele recebeu o ttulo de Fris
alIslam (cavaleiro do Isl)35.



32   Ibn KUTAYBA, 1850, p. 131-132; Ibn HISHM, 1936, vol. I, p. 279; Ibn SAD, 1904-1940, vol. 8
     (parte I), p. 165-176.
33   Ibn KUTAYBA, 1850, p. 88; Ibn SAD, 1904-1940, vol. 3 (parte I), p. 165-170.
34   M. RODINSON, 1971, p. 130.
35   Ibn KUTAYBA, 1850, p. 134.
832                                                                            frica do sculo VII ao XI



   Os escravos que abraavam a f muulmana eram alforriados, tornando-se,
ento, mawl (clientes) do Profeta ou de outros muulmanos notveis. Os
primeiros escritos muulmanos mencionam vrios deles, tais como al-Ra'ay
al-Aswad al-Habash36, que sucumbiu na batalha de Badr37; Ab Lakt, de
origem nbia, que sob `Umar b. al-Khattb, tornou-se conselheiro no dwn
(a chancelaria do Estado)38; Rabh39, um dos carregadores do Profeta; Ab
Muwayhibah40, que transmitiu vrios hadth41, e Slih ibn Shukrn, que era um
colaborador prximo do califa `Umar.
   A primeira comunidade muulmana tambm compreendia vrios escravos
negros emancipados: Umm Ayman Baraka42, a ama-de-leite do profeta e mem-
bro respeitado de sua casa; Fudda43, serva da filha do Profeta, e Naba'a44, escrava
pertencente a Ab Tlib, tio de Maom, que  tida por ter transmitido um hadth
sobre a viagem noturna (isr') de Maom a Jerusalm.

      As relaes do Isl com a Etipia
    Cinco anos aps a proclamao do Isl (615), um certo nmero de muul-
manos buscaram refgio na vizinha Etipia, a fim de escapar das perseguies
dos curaichitas de Meca45. Encontraram, junto aos ngus (nadjsh, nas narra-
tivas rabes)46 e de sua corte, uma recepo calorosa, que inaugurou uma era de
relaes cordiais entre as duas comunidades religiosas, da qual testemunha a
tradio islmica destes primeiros tempos.
    Uma narrativa afirma que o negus, chamado Nadjsh al-Ashama ibn Abdjar,
havia declarado acreditar na misso do Profeta47. Uma outra relata que Nadjsh


36    Ibn SAD, 1904-1940, vol. 3 (parte I), p. 33.
37    Ibn KUTAYBA, 1850, p. 78.
38    Ibn HADJAR AL-'ASKALN, 1970, vol. 7, p. 352.
39    Ibn KUTAYBA, 1850, p. 72; Ibn Hadjar al-'ASKALN, 1970, vol. 2, p. 452.
40    Ibn KUTAYBA, 1850, p. 73.
41    Ibidem, p. 72.
42    Ibidem, p. 70-71.
43    Ibn Hadjar al-'ASKALN, 1970, vol. 8, p. 75.
44    Ibidem.
45    Essa primeira emigrao (hidjra) compreendia onze homens e quatro mulheres, cujos mais eminentes
      eram `Uthmn e sua esposa Rukaya, filha do profeta (Ibn SA'D, vol. I, p. 136). Eles foram seguidos,
      alguns anos depois, por um grupo mais importante  oitenta e trs homens e algumas mulheres (Ibn
      HISHM, 1936, vol. I, p. 353).
46    Ibn HISHM, 1936, vol. I, p. 353.
47    Ibidem, p. 35, 359. HARTMANN traduziu seu nome abissnio por Ella Saham. Ver M. HARTMANN, 1985.
A dispora africana na sia                                                          833



enviou ao profeta Maom seu filho acompanhado de uma delegao de aproxima-
damente sessenta etopes48, mas que todos eles naufragaram quando da travessia.
Tambm  relatado que o Profeta ficou profundamente entristecido com a notcia
da morte de Nadjsh e que ele orou especialmente pelo repouso de sua alma49.
   Tal estadia dos primeiros emigrantes muulmanos na Etipia os marcou pro-
fundamente e influenciou a evoluo posterior da nova f. As fontes biogrficas
muulmanas (tabakt) mencionam um grande nmero de etopes convertidos
ao Isl, que emigraram para Medinampara juntarem-se aos companheiros do
Profeta. Elas os chamam de "monges etopes" (Ruhbn alhabasha)50. Quatro
deles portavam o nome de Abraha: um teria sido o neto de Abraha, o qual
conquistara Meca51. Entre eles havia uma mulher que era a escrava de Umm
Habba52(uma das esposas do Profeta), durante exlio dessa ltima na Etipia.
Uma narrativa coloca o filho e o sobrinho de Nadjsh entre os companheiros
do Profeta em Medina53.  interessante notar que muitos dos filhos desses
emigrantes muulmanos nasceram na Etipia.
   Tais tradies influenciaram muito a atitude dos muulmanos em relao
 Etipia. Da os panegricos, como o de Ibn al-Djawz (falecido em 1208),
em Tanwr alGhabash f  fadl alsdn wa 'lhabash (A luz sobre os mritos
dos negros e dos etopes), a obra de Al-Suyt (falecido em 1505), Raf sha'n
alhubshn (Melhora da condio dos etopes) e a de Muhammad ibn `Abd
al-Bk al-Bukhr (sculo XVI), Altirz almankush f  mahsin alhubsh (Bor-
dado policromo sobre os talentos dos etopes)54.


     O estatuto dos africanos na sociedade muulmana
     O ponto de vista cornico
   O Kur'n (Alcoro)  texto supremo do Isl  deve naturalmente estar na
base de toda a discusso sobre a atitude dos muulmanos no que concerne 



48   Ibn HISHM, 1936, vol. I, p. 366. Ibn Hadjar al-'ASKALN, 1970, vol. I, p. 300.
49   Ver al-WHID, 1315 da hgira, p. 103-104.
50   Ibn Hadjar al-ASKALN, 1970, vol. I, p. 22.
51   Ibidem, vol. 7, p. 476.
52   Ibidem, vol. 1, p. 21; vol. 2, p. 417.
53   Ibidem, vol. 4, p. 575.
54   Citado em B. LEWIS, 1971, p. 37, nota 45; ver G. DUCATEZ e J. DUCATEZ, 1980.
834                                                                               frica do sculo VII ao XI



raa e  cor. Contudo, como Bernard Lewis observou55, s existe no Alcoro, por
mais surpreendente que possa ser, duas passagens que se reportam diretamente
a tal assunto. A primeira encontra-se na sura XXX, no versculo 22, em que 
dito: "Um dos sinais (da presena divina)  ter criado os cus e a terra e a diver-
sidade de vossos idiomas e de vossas cores". Esta frase integra-se a uma longa
enumerao dos sinais e das maravilhas de Deus. A diversidade dos "idiomas
e das cores"  apresentada como um sinal, dentre outros, da onipotncia e da
universalidade do Criador.
    Outra passagem evocada por Lewis  sura XLIX, versculo 13   mais
precisa: "Homens, ns vos criamos de um macho e de uma fmea e ns vos
constitumos em povos e em tribos para que vs conheais uns aos outros. Mas,
perante Deus, o mais nobre,  o mais fiel, pois Deus sabe, ele  esclarecido".
    Portanto, no encontramos no Alcoro nenhum exemplo de preconceitos
relativos  raa ou  cor, nem mesmo uma meno denotando o conhecimento
da existncia delas. As passagens mencionadas acima traduzem a "conscincia
de uma diferena", pois que a segunda citao estabelece o primado da piedade
sobre o nascimento. Em todo caso,  evidente que a raa nunca foi uma questo
crucial no Alcoro56.

      Designao dos negros em rabe
   Em todas as fontes medievais rabes, os habitantes da frica Tropical so
geralmente divididos em quatro grandes categorias: os sdn, os habash, os
zandj e os nba.
   O termo alsdn (plural de alaswad [negro])  o mais geral; ele se aplica a
todos aqueles de pele negra, independentemente do lugar de origem. s vezes,
mesmo os indianos, os chineses e outros povos da sia eram includos nesta
categoria. Em um sentido mais restritivo, o termo sdn, progressivamente,
passou a designar os africanos negros no sul do Magreb, ou seja, os habitantes
do Bild alsdn (pas dos negros) por excelncia.
   Quanto aos habasha (etopes), a sua proximidade geogrfica e o fato de terem
sido associados  histria de Maom desde os primeiros tempos, fizeram deles o


55    B. LEWIS, 1971, p. 6-7.
56    Um certo nmero de hadth condenam expressamente os preconceitos raciais e a discriminao, insistindo
      no fato de a piedade ter o primado sobre "a nobreza do nascimento ou a pertena a uma origem rabe
      pura". Ver al-BUKHRI (1978, vol. V, p. 79), em que  contado que o Profeta confiou o comando de
      uma expedio a Usma Ibn Zayd, apesar das objees daqueles que censuravam a tez escura desse
      ltimo, herdada de sua me, Umm Ayman.
A dispora africana na sia                                                                                 835




figura 26.1 A batalha dos cls, de Khamsa de Nizm, um manuscrito datada de 866/1461. Bagd
(Fonte: Topkapi Saray Library, Istambul, H. 761, folio 115a, extrado de Basil Gray (org.); The Arts of the Book
in Central Asia, 14th16th centuries, UNESCO, Frana, 1979. Topkapi Saray Museum; foto Reha Gnay).
836                                                                              frica do sculo VII ao XI



mais conhecido dos grupos africanos. Todavia, certos autores empregaram este
termo em um sentido mais amplo, contando tambm entre os habasha, povos
habitantes de regies to distantes quanto o Nger ou os confins do Egito57.
   O termo zandj (ou zindj) designa basicamente os povos de lngua banta da
costa oriental da frica que, desde os tempos pr-islmicos, tinham sido trazidos
como escravos para a Arbia, Prsia e Mesopotmia58. Sendo os zandj muito
numerosos nesses pases, logo o nome tomou o sentido geral, simultaneamente
de "negro" e de "escravo".
   Os nba (nbios) foram conhecidos pelos rabes aps a conquista do Egito;
todavia,  bem provvel que esse nome designasse tambm todos os africanos
originrios das regies situadas no sul da Nbia propriamente dita, ou seja, os
grupos nilticos e orientais de expresso sudnica, que chegaram at os territ-
rios do califado, passando pela Nbia59.

      A provenincia dos escravos
   Os muulmanos rabes no foram os primeiros a praticar o trfico de escra-
vos africanos negros. A servido dos nbios e de outros africanos  atestada na
poca dos faras. Existem, em particular, numerosas representaes de escravos
na arte egpcia60. Os escravos negros estavam presentes tambm no mundo grego
e entre os romanos61. Segundo Maurice Lombard62, o trfico de escravos negros
praticado pelos muulmanos era um comrcio de primeira importncia:
      "No se podia achar escravos no interior do mundo muulmano; terminada a fase
      das conquistas, no interior das fronteiras apenas havia lugar para muulmanos ou
      sditos protegidos (dhimm), judeus, cristos ou zoroastrianos, sendo que esses
      no podiam ser reduzidos  escravido, com raras excees, como aquela que viu
      conduzir  servido os coptas revoltados do Delta. Portanto, era preciso se abas-
      tecer fora, em pases vizinhos ou longnquos, por meio da razia ou da compra,


57    Esta extenso da denominao habasha aos povos do Oeste e do Norte  talvez uma reminiscncia
      dos autores greco-romanos, que tambm colocavam muito longe ao oeste a fronteira da Etipia. Ver J.
      DESANGES, 1962, p. 16.
58    A etimologia e o sentido da palavra Zandj ainda no foram explicitados. Geralmente, aproximamos
      este termo da palavra egpcia Zink, que designava os habitantes de Pount. Para mais precises, ver P.
      PELLIOT, 1959, p. 589-603. Ver tambm o captulo 21 acima.
59    Ver Y. F. HASAN, 1967, p. 42-46. As fontes rabes no nos ensinam muito sobre as regies de onde
      provinham esses escravos.
60    Ver J. VERCOUTTER, 1976.
61    F. M. SNOWDEN, 1970, passim.
62    M. LOMBARD, 1971b.
A dispora africana na sia                                                                            837



     operadas junto a sociedades mais fracas, ainda inorgnicas e que no podiam se
     defender muito".
    Dentre as principais regies de provenincia dos escravos encontravam-se
as regies da frica habitada pelos negros, ou seja, o litoral oriental, a Nbia, a
Etipia, o Sudo Central e Ocidental63.
    O comrcio de escravos provenientes da costa oriental comeou bem antes
do advento do Isl64. Nos sculos VIII e IX, a demanda por mo de obra escrava
aumentou como consequncia do desenvolvimento da agricultura no baixo vale
do Iraque e da expanso do comrcio internacional no Oceano ndico. Os povos
bantfonos  cada vez mais designados pelo nome de zandj  eram capturados
durante as razias ou comprados aos reizetes do interior em troca de quinquilha-
rias. Em seguida, eram expedidos das feitorias da costa para a ilha de Sokotra
e para o emprio de Aden, pontos de concentrao de onde eram encaminha-
dos pelo Mar Vermelho e pelo Golfo Prsico para os lugares de destino final,
no Egito ou na Mesopotmia. A mais forte concentrao de escravos negros
encontrava-se no Iraque; o que levou sem dvida  revolta dos zandj, uma das
mais sangrentas e das mais destruidoras da histria do Isl65.
    A Nbia tambm era uma importante fonte de mo de obra servil para o
mundo muulmano. Segundo Ysuf Fadl Hassan:
     "Se os rabes penetraram em al-Mukurra e `Alwa nos primeiros sculos do Isl, foi,
     sobretudo, por razes comerciais. Os mercadores rabes traziam cereais, prolas e
     pentes, e partiam com marfim, plumas de avestruz, gado e escravos.  provvel que
     o trfico de escravos constitusse a principal atividade deles".66
   Certo nmero de escravos provinha do imposto anual (bakt) que a Nbia
pagava aos soberanos do Egito muulmano67. A maioria destes escravos era desti-
nada ao mercado egpcio, onde eles eram empregados sobretudo como soldados68.


63   Dado que no h nenhum estudo sobre o trfico de escravos na frica Ocidental, no podemos estar
     certos nem quanto ao seu volume nem mesmo quanto a sua efetiva existncia.
64   A. POPOVIC, 1976, p. 53 e seg. (sobre a denominao zandj); p. 62 e seg. (sobre a meno mais antiga
     de sua presena e de suas revoltas).
65   Ver M. LOMBARD, 1971b, p. 153.
66   Y. F. HASAN, 1967, p. 42.
67   A propsito do bakt, ver os captulos 7 e 8 acima.
68   A demanda por escravos "nbios" no emanava somente do Egito, embora este permanecesse o maior
     mercado. Podemos ler que, em 977, Ibn Ziyd, soberano de uma dinastia tendo por capital Zabd, no
     Imen, recebeu do soberano da ilha de Dahlak, entre outros artigos, "um tributo de um milhar de escra-
     vos, dos quais 500 eram mulheres abissnias e nbias". Ver al-HAKAM, 1892, p. 6.
838                                                                        frica do sculo VII ao XI



    As rotas de importao dos etopes no Egito ou na Arbia pelos vales do
Nilo Azul e do Nilo ou pelos portos de `Aydhb e de Zayl, na costa africana do
Mar Vermelho. Os somalis do pas de Berber eram expedidos, por Zayl', para
Aden e o importante centro distribuidor de Zabd, no intuito de abastecer, em
seguida, os mercados de escravos do Hidjz, da Sria e do Iraque69.
    A ltima fonte de abastecimento era o Sudo Ocidental. Os escravos pro-
venientes do Sahel (Gana, Gao, Knem e Zaghwa) ou eram enviados para
os grandes centros urbanos do Magreb e da Espanha muulmana, passando
por Nl Lamta ou Sidjilmsa, ou atravessavam o Saara Central para serem
conduzidos, por Wargla e Djard, para a Ifrkiya, o Fezzn, a Tripolitnia e a
Cirenaica, e da para o Egito e outras regies do Oriente muulmano70. O tr-
fico era consideravelmente facilitado pela presena de colnias de negociantes
muulmanos71 em vrios pases da regio subsaariana, notadamente Gana e Gao.
Tais mercadores comeavam com os soberanos locais e seus estabelecimentos
serviam de cabeas-de-ponte para o trfico transaariano de ouro, sal e escravos.
Outros grupos no islamizados, os zaghwa, por exemplo, tambm mantinham
relaes com os berberes islamizados de Hoggar ou do interior da Cirenaica, que
funcionavam como intermedirios nesse lucrativo comrcio por terra72.

      O mercado de escravos (Sk alrkk)
   Embora a organizao do trfico no mundo muulmano desta poca no seja
conhecida em todos os seus detalhes, algumas de suas caractersticas principais
puderam ser determinadas.
   Mercados de escravos ou, como eram chamados em certos pases, "locais
de exposio" (m'rid), existiam em todas as cidades importantes do Imprio
muulmano. No sculo V/XI, alguns encontravam-se situados geralmente na
sada das grandes rotas comerciais internacionais, onde desempenhavam o papel
de centros de distribuio. Os mercados de Bukhr, Samarkand, Nshpr,
Rayy, Balkh e Marw eram os pontos de chegada das caravanas de escravos esla-
vos ou turcos. Zabd e Aden, no Imen, e Basra, na Baixa Mesopotmia, serviam
de centros de trnsito dos escravos negros. Outros mercados eram implantados


69    M. LOMBARD, 1971b, p. 200.
70    Ibidem, p. 201.
71    Encontrar-se- uma descrio do papel comercial de tais colnias muulmanas em A. MEZ, 1922,
      p. 444.
72    Ver Ibn HAWKAL, 1938, p. 61 e 1964, p. 153.
A dispora africana na sia                                                                    839



no meio de zonas muito povoadas, onde a utilizao de mo de obra servil era
mais intensa, ou seja, em Bagd, no Cairo, em Crdova e em Meca.
    No sculo III/IX, al-Ya'kb descreveu Samarra, um dos mais clebres destes
mercados, como "um vasto quadriltero cortado por ruelas internas. As casas
compreendiam quartos em dois nveis e abrigos para os escravos"73.
    A compra e a venda de escravos tornaram-se um negcio complicado. Os
escravos deviam ser cuidadosamente examinados por parteiras e, s vezes, por
mdicos antes de serem apresentados aos eventuais compradores. As qualidades
e os defeitos, bem como os trabalhos aos quais eles estariam mais adaptados,
eram listados em cadernos. Um destes vade-mcuns do comprador de escravos
foi redigido pelo mdico cristo do sculo V/XI, Ibn Butln, e se intitula Risla
f  shir alrkk wataklb al`abd 74.
    O autor reuniu e vulgarizou, ao menos entre os compradores de escravos,
um grande nmero de ideias corriqueiras emprestadas principalmente da lite-
ratura grega e latina e, por vezes, de fontes medicais. A literatura, sobretudo
sob influncia dos fisionomistas do sculo V e dos sculos seguintes, tentou
estabelecer ligaes entre a aparncia fsica atribuvel ao meio e caractersticas
prprias os escravos. No relato de Ibn Butln sobre o valor dos jovens escravos
negros, encontramos numerosas observaes curiosas como aquela sobre as
mulheres zandj:
     "So inmeros os seus defeitos; quanto mais morenas, mais feias; elas no so capazes
     de fazer grande coisa (...). Tm a dana e o ritmo no sangue. Como seus propsitos
     so ininteligveis, elas se dedicam a soprar em instrumentos de msica e a danar.
     Conta-se que se os zandj tivessem cado do cu, ao carem soariam ritmos".75
    Retomando numerosos esteretipos dos fisionomistas, Ibn Butln escreveu
que "os lbios grossos so sinal de estupidez"76 e que "os olhos negros indicam
a covardia, e se o olhar assemelhar-se ao de uma cabra,  sinal de ignorncia"77.
    Um sculo antes de Ibn Butln, al-Mas'd reproduziu a clebre passagem em
que Galen atribui aos negros dez particularidades, das quais a ltima, ainda menos
lisonjeira que as outras, conferia-lhes "uma suscetibilidade excessiva". Ele acrescenta


73   Al-YA'KB, 1892, p. 259; A. MEZ, 1922, p. 156.
74   `Abd al-Salm Hrn, Nawdir alMakhtutt, IV/6, Cairo, 1373/1954. Ver o exaustivo estudo deste guia
     feito por F. SANAGUSTIN, 1980. Ver tambm H. MLLER, 1980.
75   F. SANAGUSTIN, 1980, p. 233.
76   Ibidem, p. 227.
77   Ibidem, p. 226.
840                                                                                  frica do sculo VII ao XI



que Galen interpretou a importncia dessa caracterstica como sendo o resultado
de uma m organizao do crebro e a causa de uma inteligncia muito fraca78.
    Este texto, com certas variantes, encontra-se entre inmeros outros autores.
Ele contribuiu com a expanso de uma ideia perniciosa  por vezes ainda em
vigor  a propsito da alegria dos negros, em razo de seu meio e da influncia
do sol. Entretanto, estes julgamentos baseiam-se menos na noo de discrimina-
o entre os homens do que nas diferenas provocadas pelo clima e pelo meio79.
Por muito tempo a teoria dos climas permaneceu corriqueira entre os autores
de expresso rabe e, mais tarde, entre os europeus tambm80.
    O Estado controlava estritamente os mercados de escravos, de modo a
proteger os compradores de prticas comerciais desleais. As transaes no se
desenrolavam exclusivamente em pblico. Podia-se tambm comprar escravos
por meio de agentes (dalll) que cobravam uma comisso. Esses traficantes de
escravos, chamados importadores (djallb) ou mercadores de gado (nakhkhs),
eram tambm, simultaneamente, desprezados em razo de seu trabalho e inve-
jados por causa de sua fortuna81.
    O preo dependia da provenincia, do sexo, da idade, do estado fsico e
das capacidades dos escravos. Em geral, os brancos custavam mais caro que os
negros. Aluses aos diferentes preos dos escravos encontram-se nas narrativas
rabes clssicas. Aproximadamente, na metade do sculo II/VIII, o preo mdio
de um escravo era de 200 dirham. Em Om, um bom escravo negro podia valer
de 25 a 30 dinares. Por volta de 300/912, uma moa graciosa podia custar at 150
dinares. O abissnio Abu' l-Misk Kfr, que mais tarde se tornaria regente do
Egito (334/945-356/966), teria sido comprado, em 312/924, pelo valor mdico
de 18 dinares, embora se tratasse de um eunuco. Uma escrava nbia comprada
por 400 dinares pelo vizir al-Shib b. `Abbd foi considerada superfaturada, pois
se encontravam lindas nbias, de pele escura, por 200 dinares82.


78    Al-MAS'D, 1962, p. 69.
79    Atribuam-se tambm traos bastante negativos aos povos do norte (turcos, eslavos, etc.) que viviam
      tambm em condies "anormais", do ponto de vista dos habitantes das regies temperadas.
80    Ver por exemplo, M. BERG, 1972.
81    F. SANAGUSTIN, 1980, p. 168-169.
82    A. MEZ, 1922, p. 153-154. Uma anedota sobre a estimativa do valor do clebre poeta negro Nusayb
      pelos peritos sob as ordens do califa umaiada, `Abd al-Azz ibn Marwan, fornece preciosas indicaes
      sobre o leque de preos praticados. Um escravo negro valia 100 dinares, e se se tratasse de um bom pastor,
      valia at 200 dinares. Um arteso sabendo talhar e empenar as flechas era avaliado em 300 dinares e
      um excelente arqueiro, em 400 dinares. Um escravo que recitava poemas podia ser vendido por at 500
      dinares e um poeta talentoso era estimado em 1000 dinares. Ver Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. 3,
      p. 626, nota 13. Encontraremos um estudo detalhado dos preos no notvel trabalho de E. ASHTOR,
      1969. F. SANAGUSTIN, 1980, p. 17-18.
A dispora africana na sia                                                              841



   Todavia, os escravos dotados de talentos excepcionais atingiam preos astro-
nmicos. As danarinas experientes eram colocadas a venda por 1.000 a 2.000
dinares. Em Bagd, no ano 306/918, quase todos os cantores eram de origem
servil. No ano 300/912, uma cantora foi vendida por 13.000 dinares na alta
sociedade83.

     O Isl e a escravido no Oceano ndico
    Visto o contexto poltico e social em que surgiu na Arbia, o Isl no podia
nem suprimir a escravido como instituio, nem aboli-la como doutrina. Toda-
via, ele se esforou para abrandar o sistema e lenir os aspectos morais e jurdicos.
Ao faz-lo, encorajou uma forma atenuada de escravido, fundada em um certo
respeito ao ser humano. O fato de os vencidos nas batalhas no serem mais
mortos, e sim feitos prisioneiros, representava uma inovao radical em relao
s prticas correntes at ento, e um real progresso.
    Hoje, a escravido nos choca sob qualquer forma que ela se apresente, mas
o mesmo no valia para as geraes que nos precederam, pois elas viviam em
uma poca e em um meio to completamente diferente, que mesmo a noo de
liberdade era praticamente desconhecida. Em um contexto lineal, a primazia
do grupo permanecia incontestada, tornando quase impossvel uma existncia
independente. Muitos indivduos isolados apenas existiam socialmente  medida
que dependessem de algum. Emitir um julgamento moral sobre a instituio da
escravido, na poca considerada, exige, por consequncia, certa circunspeo84.
    O Alcoro (IV, 36) prescreve aos crentes tratar os escravos "generosamente"
(ihsn) e considera a alforria como um gesto merecedor e uma obra de benefi-
cncia (II, 117; XC, 13).85
     "A tradio afirma repetidamente que a sorte dos escravos foi uma das maiores preo-
     cupaes do Profeta. Ela dispe de um repertrio assaz copioso de ditos e anedotas,
     atribudos ao Profeta ou a seus companheiros, no sentido de um tratamento muito
     benevolente dirigido a esta classe social inferior".86
   Os escravos deviam ser tratados fraternalmente. No era preciso falar-
-lhes com um tom de desprezo. Presumia-se que o escravo e o senhor se


83   A. MEZ, 1922, p. 154. Ver tambm S. D. GOITEIN, 1963; S. RASHEED, 1973; C. PELLAT, 1963.
84   F. SANAGUSTIN, 1980, p. 17-18.
85   R. BRUNSCHWIG, 1960; R. ROBERTS, 1908, p. 41-47.
86   R. BRUNSCHWIG, 1960; p. 25.
842                                                                               frica do sculo VII ao XI



sentassem  mesma mesa e se vestissem da mesma maneira. O senhor era
convidado a no sobrecarregar o escravo de tarefas demasiadamente pesadas
e, em caso do cometimento de uma falta, a no lhe infligir castigo penoso,
nem excessivo. A manumisso era exaltada como uma feliz soluo, e pro-
posta, contra o senhor, como a sano de excessivos castigos. Em contra-
partida, o escravo devia mostrar uma indefectvel lealdade87. Vemos que a
tica religiosa muulmana permanece totalmente na "linha do ensinamento
cornico; ela acentua, at mesmo sensivelmente, sua tendncia humanitria
na questo da escravido"88.
    Aps as conquistas e o considervel avano do comrcio, a importncia
da mo de obra servil no cessou de aumentar nos territrios muulmanos, a
ponto de surgir como um fenmeno social fundamental. Os juristas muulma-
nos das grandes escolas sunitas foram, portanto, levados a estudar a questo,
interessando-se, notadamente, pelos seguintes aspectos: a origem dos escravos,
seu estatuto em um novo contexto social, a natureza compsita do escravo 
coisa e pessoa, simultaneamente  e, por fim, sua alforria.
    R. Brunschwig observou que, a despeito da severidade professada por certos
doutores, o fikh nunca elaborou um sistema de sanes suficientemente claro
para reprimir o rapto ou a venda de pessoas, muulmanas ou no. Menos ainda
lhe foi visto punir efetivamente a castrao das jovens escravas, apesar da con-
denao de princpio que cunhava tal prtica89.
    Diferente das leis da Babilnia, as quais reconheciam vrios fundamen-
tos para a escravido90, o direito muulmano somente admitia duas causas
legtimas de escravido: o nascimento nessa condio e a captura na guerra 91.
No primeiro caso,  escravo aquele que nasceu de pais escravos. A criana
recebe em seu nascimento a condio livre ou servil de sua me. Isto vale
notadamente para a criana nascida de uma me livre, mesmo se o pai 
um escravo. Uma importante exceo  feita, todavia, em favor da criana
nascida de um homem livre e de uma me empregada por ele; nesse caso,


87    Sobre os hadth relativos aos escravos, ver al-Tahaw, 1950-1951, p. 368, 377 e 378; Ibn Hadjar
      al-`ASKALN, 1970, vol. 4, p. 320; al-GHAZL, 1861, vol. 2, p. 199.
88    R. BRUNSCHWIG, 1960, p. 25.
89    Ibidem, p. 26. A prtica da castrao  contrria aos ensinamentos do isl. Ver o Alcoro (IV, 18). A
      propsito dos eunucos, ver C. ORHANLU, 1978.
90    A saber: nascer na servido; vender-se como escravo por causa de insolvncia; ser vendido, no caso de
      menores; ser raptado, no caso de menores; ser preso na guerra. Para mais detalhes, ver I. MENDEL-
      SOHN, 1949, p. 1-23.
91    R. BRUNSCHWIG, 1960, p. 26.
A dispora africana na sia                                                  843



muito repercutido, a criana  tida como livre, pois, de outra forma, seria
escrava de seu pai92.
    Entretanto, o nascimento na servido no podia constituir uma fonte inesgo-
tvel de mo de obra servil, dado, por um lado, a liberdade da qual beneficiavam
de fato crianas nascidas de um concubinato legal e, por outro lado, a grande
frequncia das emancipaes que diminua ainda mais o nmero de escravos.
Portanto, a escravido, como instituio, apenas podia subsistir no mundo isl-
mico pela contribuio, constantemente renovada, de elementos perifricos ou
externos, diretamente tomados na guerra ou trazidos comercialmente  sob a
fico da guerra santa  dos territrios estrangeiros (dr alharb)93.
    Do ponto de vista jurdico-religioso, considerava-se que o escravo tivesse
uma espcie de natureza-mista: de coisa e pessoa, simultaneamente. Como coisa,
ele era submetido ao direito de propriedade (...), em benefcio de um homem
ou de uma mulher; e podia ser o objeto de todas as operaes jurdicas disso
decorrentes: venda, doao, aluguel, sucesso, etc.94
    Reduzindo o escravo  condio de "simples mercadoria", o direito cannico
islmico o coloca inevitavelmente em p de igualdade com os animais de carga
(dawbb)95.  o que sobressai em um grande nmero de passagens dos tratados
tericos de direito pblico da poca, concernente, em particular, s funes do
muhtasib, personagem encarregado de garantir que os senhores tratem conve-
nientemente seus animais e escravos96.
    Como pessoa, o escravo tinha a princpio certos direitos e certas obriga-
es, mesmo se esses no pudessem, evidentemente, ser comparados queles
do homem livre. Todavia, a escravido praticada no mundo muulmano tinha
uma caracterstica particular: apesar da sujeio quase total a seu senhor, o
escravo estava autorizado a administrar bens, a fazer operaes comerciais e
a economizar dinheiro. Este ambguo estatuto do escravo, simultaneamente
proprietrio de bens e propriedade de um senhor, era, contudo, uma constante
fonte de dificuldades.
    Ao escravo muulmano  permitido se casar, se seu senhor o consentir. Ele
pode construir uma famlia, mas no possui o direito de guarda de seus filhos.
So lcitas, no mesmo grau, a unio de dois escravos, a unio de um escravo com


92   Ibidem.
93   Ibidem.
94   Ibidem.
95   Ver al-MWARD, 1922, p. 257.
96   R. BRUNSCHWIG, 1960, p. 26.
844                                                                          frica do sculo VII ao XI



uma mulher livre, diferente de sua senhora, ou ainda, a de uma escrava com um
homem livre. Todavia, o casamento entre um homem ou uma mulher livre e
um ou uma de seus prprios escravos  proibido. A escola jurdica maliquita
confere ao escravo o direito de ter no mximo quatro esposas, tal como os seus
correligionrios livres. As outras escolas lhe conferem somente duas, no mximo.
Ele tambm possui o direito ao repdio (talak), habitualmente reconhecido ao
marido97.
    Contudo,  o sistema de concubinagem legal que ganha a maior importncia,
em razo de sua considervel extenso e de suas incidncias sobre a vida social
da poca. O direito do senhor de tomar suas escravas como concubinas  reco-
nhecido tanto pelos usos rabes pr-islmicos quanto pelo Alcoro; a escrava que
dava uma criana ao seu senhor era chamada umm alwalad (me da criana)98.
    A alforria e a legitimidade das crianas nascidas destas relaes de concu-
binagem dependiam inteiramente da deciso de seu pai, o senhor da escrava.
Parece que esse reconhecimento foi correntemente praticado.
    Ademais, o senhor possui o direito de castigar (ta'dhb) seu escravo. Se ele
o maltrata a ponto de lhe infligir graves leses corporais, recomenda-se que
ele o venda ou o alforrie99. Por fim, o escravo no podia ter acesso a funes
de comando (wilyt), pblicas ou privadas. Esta regra era, todavia, aplicada
com flexibilidade, sendo plenamente habitual o fato de homens de altos pos-
tos empregarem escravos em funes subalternas, delegando-lhes parte de sua
autoridade; os escravos de um califa ou de um prncipe podiam tambm obter,
na prtica, um poder bem superior ao de homens livres100.
    O escravo tem os mesmos deveres religiosos que qualquer outro muulmano.
Contudo, sua condio servil o dispensa da obrigao de observar escrupulosa-
mente certos deveres religiosos que necessitam de um deslocamento da pessoa:
a orao da sexta-feira, a peregrinao e o djihd. Ele tambm no  autorizado
a ocupar uma magistratura religiosa101.
    Em princpio perptua, a escravido podia, no obstante, ser objeto de modi-
ficaes e terminar em circunstncias excepcionais. A esse respeito, havia diver-
sos procedimentos: em primeiro lugar, a alforria (`itk), considerada uma obra pia,


97    Ibidem, p. 27.
98    J. SCHACHT, 1950, p. 264, Alcoro, IV, 3, 24; XXIII, 6, 50; LXX, 30.
99    R. BRUNSCHWIG, 1950, p. 27. Sobre o estatuto do escravo no direito penal islmico, ver ibidem,
      p. 29.
100 F. SANAGUSTIN, 1980, p. 23
101 R. BRUNSCHWIG, 1960, p. 27.
A dispora africana na sia                                                                         845



que era conferida unilateralmente pelo senhor e irrevogvel102. O senhor podia
tambm permitir a seu escravo uma liberdade que entraria em vigor quando do
falecimento do primeiro. Tal concesso pstuma  chamada tadbr e seu benefi-
cirio mudabbar103. Em terceiro lugar, o senhor e o escravo podiam acordar uma
alforria contratual (kitba), aprovada pelo Alcoro (XXIV, 33). Nos termos desse
tipo de contrato, o senhor oferecia ao escravo a possibilidade de comprar sua
liberdade a prestaes, com seu dinheiro. Ao cumprir com o ltimo pagamento,
o escravo adquiria todos os direitos legais de um indivduo nascido livre104. Por
fim, havia a disposio legal j mencionada, segundo a qual as crianas nascidas
de uma escrava (concubina) e de seu senhor eram alforriadas e legitimadas.
    Uma vez emancipado, o escravo possua todos os direitos cvicos do homem
livre, mas permanecia, bem como os seus descendentes paternos, ligado perpe-
tuamente a seu antigo senhor  tornado seu patro  e  famlia desse ltimo,
por uma "laos de clientela" ou wal'.
    "Patro" e "cliente" eram ambos designados pelo termo mawl, no plural,
mawl105.

    Emprego e situao social
    Como justamente disse Mez, a ausncia de preconceitos relativos  raa ou
 cor no sistema de valores islmico, a proteo legal acordada aos escravos e a
fortuna que, por vezes, os favoreceu, no devem levar a esquecer as obrigaes
ligadas  condio social do escravo negro muulmano, nos primeiros sculos do
Isl106. Na vida cotidiana e na prtica das relaes sociais, os preconceitos eram
correntes, mesmo se os africanos no fossem as nicas vtimas.
    Esta averso marcada pela cor negra da pele e, mais tarde, pelos povos de tez
escura,  caracterstica de um certo nmero de gegrafos muulmanos, de auto-
res de adab, de poetas, como tambm de pessoas comuns, como testemunham
as tradies populares da poca.
    Uma das primeiras explicaes desta condio inferior dos negros est ligada
 tradio bblica, segundo a qual Hm, um dos filhos de No, teria sido conde-
nado a ser negro por causa de seu "pecado". A maldio da negritude, e com ela

102 Ibidem, p. 30.
103 J. SCHACHT, 1950, p. 265, nota 8; ver tambm R. BRUNSCHWIG, 1960, p. 30.
104 Ver J. SCHACHT, 1950, p. 111-112.
105 R. BRUNSCHWIG, 1960.
106 A. MEZ, 1922, p. 161-162. Para um estudo mais detalhado da condio dos escravos negros na sociedade
    muulmana medieval, ver G. ROTTER, 1967.
846                                                                      frica do sculo VII ao XI



a da escravido, foi transmitida a todos os seus descendentes. Essa explicao,
particularmente difundida entre os contadores profissionais de lendas e histrias
(kussa) e mesmo entre eminentes sbios, tais como al-Ya'kb (sculo III/IX),
no alcanou a unanimidade. Al-Hamdn refutou explicitamente essa tradio,
que, segundo ele, encontrava suas origens entre os judeus, e afirmou, baseando-se
em um versculo do Alcoro (VI, 164): "Cada alma ganhar apenas de acordo
com seus prprios esforos; nenhuma dever carregar um fardo suplementar".
Ele termina seus apontamentos fazendo aluso  influncia do meio: "O fato de
um homem ter uma pele negra, branca ou morena no possui outra causa seno
a do clima, como temos atestado neste livro"107.
   Ibn Khaldn tambm rejeitou a maldio hereditria:
      "Os genealogistas, que nada conheciam da natureza das coisas, imaginaram que os
      negros so os filhos de Hm, filho de No, e que a cor de sua pele  a consequncia da
      maldio de No, que provocou a negrura de Hm e a escravido infligida por Deus
      a sua descendncia. Se a Tora conta que No jogou a maldio sobre seu filho Hm,
      por outro lado, ela no evoca a cor da pele desse ltimo. A maldio somente fez dos
      filhos de Hm os escravos dos descendentes de seus irmos. Atribuir a cor da pele
      dos negros  sorte de Hm testemunha uma ignorncia da natureza verdadeira do
      calor e do frio; bem como de sua influncia sobre o clima e as criaturas desta Terra".108
    Os escravos negros ocupavam diferentes funes na sociedade muulmana
medieval: eram principalmente domsticos, concubinas, eunucos  nos harns
, artesos, auxiliares de comrcio, serventes obrigados ao trabalho forado nas
empresas do Estado e soldados. Sua contribuio com a edificao dos fun-
damentos econmicos, polticos e sociais dos Estados islmicos medievais foi
considervel.
    A base da pirmide social era ocupada pelos zandj, que eram, sobretudo,
escravos da frica Oriental. Nas vastas plancies salinas da Baixa Mesopot-
mia, eles eram empregados, em grupos de 500 a 5.000, para livrar o solo de seu
revestimento nitroso (sebkh), no intuito de liberar terras arveis destinadas ao
cultivo (talvez da cana-de-acar), bem como para extrair e amontoar o salitre
da camada superficial do solo. Seu trabalho era vigiado por intermedirios e
contramestres. A vida nas salinas era particularmente penosa e as condies nas
quais tais "varredores" (kasshn) viviam e trabalhavam eram realmente lament-


107 Al-HAMDN, 1954, vol. I, p. 29-31; ver tambm B. LEWIS, 1971, p. 29-38; Ibn KUTAYBA, 1850,
    p. 13-14; al-Mas'd, 1861-1877, vol. I, p. 75-80; G. VAJDA, 1971.
108 Ibn KHALDN, 1967-1969, vol. I, p. 167-168.
A dispora africana na sia                                                                         847



veis. O grande cronista muulmano al-Tabar indica que tais infortunados eram
insuficientemente nutridos e com frequncia eram vtimas de paludismo e de
outras doenas. Tal situao, acrescidas aos maus tratamentos que eles sofriam
da parte dos vigias, engendrava um ressentimento latente que frequentemente
explodia em revolta109.
    O trabalho forado coletivo em grandes exploraes no era praticado somente
na regio do Shatt al-`Arab, no baixo Iraque, mas tambm na provncia de
al-Bahrayn110. Ali, no sculo V/XI, sob os kermatas, 30.000 negros eram sujeitados
a trabalhos penosos111. Segundo Ibn al-Mudjwir, o comrcio de escravos zandj
servia tambm para abastecer em mo de obra as pedreiras de Aden112.
    Todavia, a vasta maioria dos escravos era empregada em tarefas basica-
mente domsticas e militares, trabalhando e vivendo em condies muito mais
suportveis.
    Em muitos lares modestos ou abastados, os trabalhos domsticos eram exe-
cutados por um ou vrios escravos, por vezes alforriados113. Havia cozinheiros,
domsticas, amas de leite, porteiros, carregadores de gua, etc.
    As escravas mais sedutoras tornavam-se concubinas, para o prazer de seu
senhor. Nos ricos harns, as escravas dotadas de algum talento tinham a pos-
sibilidade de se tornarem cantoras, msicas, danarinas, poetisas, etc., e, assim,
encantar os lazeres de seu senhor.
    Os rabes se uniam a mulheres da frica Negra desde a poca pr-islmica;
tratava-se, em geral, de nbias e de sudanesas, mas as etopes eram tambm
muito procuradas. Esta prtica, que mais tomava a forma da concubinagem que
a do casamento114, tornou-se corrente em todas as classes sociais sob os umaiadas
e os abssidas115. Vrios poetas rabes apaixonaram-se por suas escravas negras


109 "Eram nutridos apenas com `alguns punhados' de farinha, de smola e de tmaras"; citado em B. LEWIS,
    1971, p. 66. As raras informaes que possumos sobre os estabelecimentos onde trabalhavam os zandj
    vm, em sua maior parte, das descries dadas por al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1747-1750.
110 A provncia de al-BAHRAYN compreendia a costa (e seu interior) estendendo-se entre o atual
    KUWAIT e o QATAR.
111 B. LEWIS, 1971, p. 66.
112 Ibn al-MUDJWIR, 1957, vol. I, p. 126.
113 Ver C. PELLAT, 1953, p. 234.
114 B. LEWIS, 1971, p. 93.
115 O poeta al-Riysh exprimiu isto em versos (ver al-MUBARRAD, 1864-1892, vol. I, p. 302);
                                     "Os filhos de concubinas
                                   Tornaram-se legio entre ns;
                                  Leve-me, Meu Deus, a um pas
                                   Onde eu no veja bastardos."
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 o poeta `Ash Sulaym, por exemplo, que viveu com uma escrava, cor de bano,
de nome Dannr116.
    Umm Mankkiya (a preta) foi esposada pelo clebre al-Farazdak (falecido em
114/732)117 e, aps isso, foram inseparveis. O poeta abssida cego Bashr ibn
Burd (falecido em 167/783) cantou os mritos da mulher de pele escura que foi
sua companheira por toda a vida118. Ab' l-Shs, outro poeta dessa poca (fale-
cido em 196/811), comparava a negra carnao de sua concubina ao "almscar
aromtico"119.
    Um clebre texto do sculo III/IX  a defesa dos negros, por al-Djhiz,
contra os seus detratores120  mostra bem a qual ponto os negros e os brancos
tinham o hbito de viverem juntos, em diferentes nveis da sociedade, sobretudo
em Basra. Por outro lado, o mesmo autor fornece inmeros exemplos da estima
reservada s pessoas vindas da frica e do Oceano ndico, pelo menos at o
momento em que houve uma mudana de atitude provocada pela revolta dos
zandj121.
    Tal prtica da concubinagem, favorecida, como dissemos, pelas instituies
islmicas, desencadeou a mistura das raas e desempenhou um papel importante
na evoluo das populaes rurais e urbanas. A despeito do permanente afluxo
de africanos nos pases muulmanos, a facilidade com que foram assimilados
no quadro social existente deixou uma marca distinta na estrutura demogrfica
destas regies, se compararmos a situao com a das outras regies que acolhe-
ram uma numerosa dispora africana. Uma das consequncias mais flagrantes
deste processo de assimilao  a ausncia de importantes grupos, radicalmente
diferentes do ponto de vista racial, tendo sua cultura e sua histria distinta, como,
por vezes,  o caso nas Amricas.
    Nas camadas superioras da sociedade medieval, a concubinagem com escra-
vas de origem africana nada tinha de excepcional. Certo nmero de prncipes
e califas, em particular da dinastia dos abssidas, nasceram de mes escravas,
das quais algumas eram negras africanas. Sabemos, por meio da literatura desta
poca, que o prncipe Ibrhm ben al-Mahd e o califa al-Muktaf (falecido em


116 Al-DJHIZ, 1964, vol. I, p. 214.
117 Ibidem.
118 Al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 8, p. 46.
119 Amn AHMAD, 1969b, vol. I, p. 86.
120 Al-DJHIZ, 1903.
121 O livro de al-DJHIZ, Kitb fakhr alSdn `al' lBdn logo ser editado e traduzido para o francs
    por A. MIQUEL, G. DUCATEZ, J. DUCATEZ e J. DEVISSE.
A dispora africana na sia                                                                    849



555/1160) tinham, respectivamente, por me uma "preta" e uma nbia122. Uma
bela escrava sudanesa, concubina de al-Zhir, deu nascimento ao futuro califa
al-Mustansir. Esta notvel mulher governou o Egito aps a morte al-Zhir,
durante a menoridade de seu filho123. Tal perodo da histria fatmida conserva
uma particular importncia. A me de al-Zhir favorecia os guerreiros negros,
cuja influncia na poltica egpcia aumentou em consequncia disso, o que pro-
vocou uma reao hostil da parte dos turcos, o segundo grupo de guerreiros
expatriados. Foi a partir deste momento que se tornaram frequentes as brigas
entre negros e turcos.
    Destas escravas negras, as menos afortunadas eram aquelas que eram entre-
gues  prostituio, apesar da interdio cornica.
    Os eunucos negros enchiam os palcios das grandes personagens, onde,
sobretudo, eram empregados como guardies dos harns124. Alguns deles alcan-
aram altas funes e desempenharam um papel determinante nos assuntos do
Estado na Idade Mdia. Podemos fornecer vrios exemplos: o eunuco negro
Kfr al-Ikhshd (356/966), que se tornou regente do Egito125, ou ainda Muflih,
"O Negro", favorito do califa al-Rd (falecido em 329/940), encarregado de for-
mular a poltica do Estado126. O prncipe buwayhida `Adud al-Dawlah (falecido
em 372/982) tinha por camarista um eunuco negro chamado Shakr ("acar"),
que foi a nica pessoa a alcanar a honra, disputada por todos, de ganhar a
confiana deste senhor desconfiado e tirnico.
    Inmeros eram os escravos negros que, fora da casa ou do palcio, assistiam
seu senhor na gesto do comrcio ou comerciavam, eles mesmos, com grande
autonomia. Al-Djhiz fez aluso a uma negra, de nome Khulayda, que alugava
casas aos peregrinos de Meca127. Outros escravos cultivavam os campos de seu
senhor ou vigiam seus pomares; um texto fala de um escravo negro que exercia
essa ltima funo por trs nacos de po por dia128. Al-Shfi', fundador de uma
das quatro escolas jurdicas (falecido em 204/819), possua vrios escravos, den-
tre os quais um nbio que trabalhava como padeiro129. Al-Baldhur menciona

122 Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. I, p.16-20.
123 M. LOMBARD, 1971b, p. 150.
124 O palcio do califa abssida al-MUKTADIR (295/930-320/932) no abrigava menos que 11.000
    eunucos, dos quais 7.000 eram negros e 4.000, brancos. Ver os detalhes dados por al-SBI', 1964.
125 Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. II, p. 524-528. Ver captulo 7 acima.
126 MISKAWAIH, 1914, vol. I, p. 104.
127 Al-DJHIZ, 1964, vol. II, p. 130.
128 Al-IBSHH, 1851-1852, vol. I, p. 140.
129 Al-SHFI', 1903, vol. 4, p. 48.
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um bairro de Kfa, ao qual `Antara, um negro aplicador de ventosas, teria dado
o seu nome. Alguns escravos eram alugados por seus senhores, que recebiam
dois teros de seu salrio. `Amr ibn Wabara130 (sculo II/VIII) fez desta prtica
um comrcio rentvel. O poeta Ab l-`Athiya (falecido em 211/826), que era
porteiro, fazia-se assistir por diversos negros131.
    O papel militar desempenhado pelos escravos  um dos traos em desta-
que na civilizao islmica; houve repercusses considerveis sobre a poltica
conduzida por muitos dos Estados muulmanos, tanto no interior quanto no
exterior132.
    "Os soldados negros apareceram esporadicamente no incio do reinado dos
abssidas, porm, aps a rebelio dos escravos do Iraque, na qual os negros rea-
lizaram estupendas proezas militares, foram recrutados em massa"133.
    Relatou-se que, sob o reinado do califa abssida al-Amn (falecido em
198/813), foi constitudo um batalho especial de guarda-costas etopes, cha-
mados "os corvos"134. Ao longo da luta acirrada pelo poder que ensanguentou o
reinado de al-Muktadir (falecido em 320/932), 7.000 negros combateram do
lado do califa135.
    Ahmad ibn Tln (falecido em 884), governador e mais tarde quase soberano
do Egito, recrutou um numeroso exrcito de escravos negros, principalmente
nbios. Conta-se que, quando de sua morte, entre outras possesses, ele deixou
24.000 mamlk brancos e 45.000 negros, os quais se encontravam organizados
em unidades distintas e alojados separadamente nos acantonamentos militares136.
    Segundo as crnicas rabes da poca, os regimentos negros, chamados `abd
alshir' (escravos comprados), tornaram-se um importante elemento dos exrci-
tos fatmidas. Eles conquistaram um papel principal no reinado de al-Mustansir
(1035-1094), graas ao indefectvel apoio que lhes foi conferido pela me do
califa, escrava sudanesa de muito carter. No apogeu de sua potncia, eles eram
50.000137.



130 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 6, p. 153.
131 Al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 3, p. 129.
132 Ver o estudo detalhado de D. PIPES, 1980.
133 B. LEWIS, 1971, p. 69.
134 Al-SBI', 1958, p. 16.
135 Ibidem, p. 8
136 B. LEWIS, 1971, p. 69; M. Lombard, 1971b, p. 195.
137 Ibn MUYASSAR, 1919, p. 16-17.
A dispora africana na sia                                                                     851



    A revolta dos zandj
    Por vrias vezes, os zandj pegaram em armas contra o califado138. A primeira
insurreio (70/689-690) ocorreu em Basra, sob o reinado de Khlid b. `Adb
Allh. Ela foi de pouca amplitude: pequenos bandos de escravos praticaram
saques e a atos de vandalismo na regio do Eufrates. Tal levante foi facilmente
dominado pelas foras do califa e certo nmero de seus chefes passou pelo fio
da espada139.
    A segunda rebelio, em 75/694, teve mais amplitude. Desta vez, os zandj
estavam melhor organizados e bem comandados por um chefe de nome Riyh,
mais conhecido pelo codinome "Leo dos Zandj" (Shr Zandj), que semeou o
terror em toda a regio do Eufrates, bem como em al-Ubulla. A julgar pela
srie de batalhas que tais insurgidos travaram contra as foras regulares, seus
efetivos deviam ser considerveis. Para reprimir esta rebelio, foi preciso reforar
o exrcito do califa incorporando voluntrios de Basra140.
    Em 132/749-750, sob o reinando do califa Ab l-'Abbs al-Saffh, um
exrcito de 4.000 soldados foi lanado sobre a cidade rebelde de Mosul, na
Mesopotmia Setentrional; mais de 10.000 habitantes  homens, mulheres e
crianas  padeceram no massacre141.
    Outra insurreio zandj seguiu-se  revolta fracassada dos lidas contra as
foras do califa abssida al-Mansr, em Medina (145/765). Membros do partido
vencido incitaram seus escravos e seus mawli (clientes) negros a atacarem a
guarnio abssida da cidade. Disso resultou um perodo de caos durante o qual
o governador foi deposto e os rebeldes negros se apoderaram dos depsitos mili-
tares. Temendo que a situao piorasse, os burgueses pacificaram seus escravos
e a autoridade abssida foi restabelecida. Todavia, os chefes dos bandos zandj
foram severamente castigados142.
    A revolta dos zandj de 255/869 foi, certamente, a mais grave das insurreies
organizadas por escravos africanos negros no Isl medieval. Ela durou mais de
quatorze anos e passou por duas fases distintas: 255/869-266/879 e 266/879-


138 O primeiro estudo detalhado da revolta dos zandj deve-se a T. H. NLDEKE. Ele foi seguido por
    vrios outros estudos em rabe e em lnguas europeias. O trabalho de F. al-SMIR (1971)  uma boa
    relao detalhada em lngua rabe. Todavia, atualmente, o estudo de Alexandre POPOVIC (1976)  o
    mais completo.
139 Ver. A. POPOVIC, 1976, p. 62-63; F. al-SMIR, 1971, p. 19; al-BALDHUR, 1883, vol. II, p. 305.
140 Ibn al-ATHR, 1885-1886, vol. 4, p. 188 e p. 314-315.
141 Ibidem, vol. 5, p. 340-341.
142 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 286.
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-270/883. A primeira fase foi um perodo de conquistas e de brilhantes xitos
para os insurgidos; a segunda foi marcada pelo desabamento do Estado zandj, no
fim de uma longa luta contra foras superiores. O palco das operaes englobava
a Baixa Mesopotmia e a Prsia Meridional143.
    O instigador da rebelio era um rabe, `Al ibn Muhammad, geralmente cha-
mado nos textos de Shib al-Zandj ("Senhor dos Zandj")144. Aps ter feito vrias
tentativas vs para sublevar diferentes cidades e provncias da regio, "inclusive
Basra, onde quase foi preso, ele foi s minas de salitre"145. A, aos 26 ramdn
de 255/7 de setembro de 869, ele persuadiu os servos zandj a se revoltarem146.
    No incio, para garantir sua legitimidade e conseguir a adeso de seguidores,
ele se fez passar por um descendente da famlia dos lidas. Todavia, em vez de
aderir  doutrina xiita, adotou aquela dos kharijitas, cuja doutrina igualitria
permitia at a um etope se tornar califa147.
    A rebelio comeou como uma luta de classes entre os escravos zandj e seus
senhores, mas, rapidamente, ela tomou a forma de uma guerra aberta e violenta
contra o califado. Mais do que um conflito racial, foi, portanto, uma luta poltica
e social148. As rarssimas fontes existentes do apenas poucas informaes sobre a
amplitude do movimento, sua composio, sua organizao, etc. Tal informao
 frequentemente pouco confivel e duvidosa. Uma segunda causa de dificul-
dade deriva do fato de os historiadores desta poca e dos sculos ulteriores se
preocuparem basicamente em retraar as campanhas militares e manifestaram
abertamente seu desprezo pelos insurgentes, descritos por eles como "inimigos
de Deus" vivendo na irreligio e na anarquia149.
    Nldeke observou justamente que:
      "O efetivo de 300.000 combatentes atribudo  insurreio negra  grandemente
      superestimado.  possvel que os zandj tenham sido mais numerosos que seus adver-
      srios, cujas foras foram estimadas em 50.000 homens, pelo menos no incio do
      conflito; mas, esses ltimos certamente se encontravam, no conjunto, muito mais
      equipados, mais nutridos e constantemente reforados por novas tropas"150.


143 A. POPOVIC, 1976, p. 83.
144 Para mais detalhes sobre `Ali b. Muh, ver ibidem, p. 71-81.
145 B. LEWIS, 1950, p. 104; ver tambm F. al-SMIR, 1971, p. 102-103.
146 A. POPOVIC, 1976, p. 79.
147 T. H. NLDEKE, 1892, p. 151; F. al-SMIR, 1971.
148 Ver F. al-SMIR, 1971, p. 59; L. MASSIGNON, 1929.
149 A. POPOVIC, 1976, p. 157.
150 T. H. NLDEKE, 1892, p. 167-168; Ibn al-ATHR, 1885-1886, vol. 2, p. 41.
A dispora africana na sia                                                 853



    Esses escravos negros estavam distribudos em uma zona muito extensa da
Baixa Mesopotmia e da Prsia Meridional, em grupos de 500 a 5.000 traba-
lhadores151. Os contingentes zandj de `Al ibn Muhammad eram compostos de
vrios grupos principais:
    Os zandj, escravos no falantes do rabe, provenientes da costa oriental da
frica, levados  regio em perodos indeterminados. Al-Djhiz distingue qua-
tro grupos dentre eles: os kunbula, os landjwiyya, os naml e os kilb152. Eles
apenas se comunicavam com seu chefe pelo intermdio de um intrprete.
    Os karmtiyya, de lngua rabe, formavam um grupo mal definido de escravos
africanos, muito provavelmente originrios do Sudo. No possuam nenhuma
ligao com o movimento karmita153.
    Os nba, que no compreendiam somente os nbios, mas tambm povos
nilticos, e falavam rabe154.
    Os furtiyya, escravos habitantes do vale inferior do Eufrates, no sul da
cidade de Wsit. Distinguiam-se claramente dos zandj e falavam rabe155.
    Os shridjyya, ou seja, os "varredores" (kasshn), empregados nas salinas
da Baixa Mesopotmia. Seu nome deriva da palavra shra, que significa solo
nitroso156. Este grupo tambm compreendia alguns homens livres e alguns
escravos alforriados, bem como os trabalhadores sazonais dos palmeirais e dos
engenhos de acar157.
    E, por fim, havia os bedunos, que habitavam as zonas alagadias do sul de
Wsit. Desertores negros dos exrcitos do califa vinham engrossar as fileiras
dos insurgidos.
    No temos a inteno de descrever em detalhes as diferentes campanhas
militares da revolta dos zandj; contentar-nos-emos em resumir as principais
peripcias do conflito.
    Em 256/870, o exrcito zandj se apossou do porto florescente de al-Ubulla
e o destruiu158. A queda de al-Ubulla amedrontou os habitantes do porto de



151 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1747-1750.
152 C. PELLAT, 1953, p. 41; al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1756-1957.
153 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1749.
154 Ibidem, p. 1745.
155 Ibidem, p. 1757.
156 Ver L. MASSIGNON, 1929.
157 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1753.
158 Ibn al-ATHR, 1885-1886, vol. 7, p. 94.
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`Abbadn, na margem oriental do Shatt al-`Arab, na Prsia159, que se rende-
ram. Tal conquista abriu aos zandj a rota da provncia do Khzistn, invadida
por eles no mesmo ano. Assim tomaram posse de Djubb e de al-Ahwz, a
capital160.
    O ano seguinte (257/871) assistiu  ocupao e ao saque de Basra, prin-
cipal porto do Iraque. Esta vitria, a mais espetacular dos zandj, foi uma
mordaz derrota para o califado abssida. Aps vrias geraes, a lembrana
da terrvel sorte de Basra ainda permanecia viva nos espritos161. As foras
zandj avanaram para o norte, tomando e saqueando no caminho as cidades
de Wsit (264/877 -878), Nu'mnya (265/878) e Djardjary, a cerca de
110 quilmetros a sul de Bagd. Esse foi o ponto mais setentrional do seu
avano162.
    Nos anos 267/881-270/883, al-Muwaffak, prncipe herdeiro da coroa dos
abssidas, tomou a ofensiva, rechaou os invasores para o sul e estabeleceu um
bloqueio total na capital dos insurgidos, al-Mukhtra163.
    No final de trs anos de cerco, a cidade foi assaltada aos 2 safar de 270/11
de agosto de 883. O chefe dos insurgidos e vrios de seus tenentes foram
mortos164.
    No h dvidas que esta longa revolta, com suas consequncias econmicas,
polticas e sociais, marcou profundamente o Isl em sua integralidade. Ao
mesmo tempo, ela tornou os muulmanos ainda mais reticentes para com a
frica e os africanos em geral. Assim, a importao dos escravos zandj parece
ter sido limitada ou regulamentada. A revolta teve tambm como consequncia
a propagao bastante larga de uma imagem desfavorvel dos negros nos pases
muulmanos, evocando tanto a maldio de No quanto as ideias propagadas
por Ibn Butln.




159 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1837.
160 Ibn al-WARD, 1868, vol. I, p. 234.
161 Al-TABAR, 1879-1901, vol. 3, p. 1847-1857; al-MAS'd, 1861-1877, vol. 4, p. 207-208. A sorte trgica
    de Basra foi imortalizada por Ibn al-RM (283?/896?). Ver Ibn al-RM, 1924, p. 419-427.
162 Ibn al-DJAWZ, 1938-1940, vol. 5, p. 45-50.
163 Segundo Nldeke, a capital dos zandj "cobria uma vasta superfcie, englobando importantes extenses
    cultivadas e palmeirais. Situada a pouca distncia ao sul de Basra, na margem ocidental do Tigre, era
    atravessada pelo canal Nahr Ab' l-khsb"; T. H. NLDEKE, 1892, p. 156.
164 F. al-SMIR, 1971, p. 151-152; A. POPOVIC, 1976, p. 152-155; T. N. NLDEKE, 1892, p. 174.
A dispora africana na sia                                                                  855



    O papel cultural dos africanos no mundo islmico
    Os africanos contriburam muito com a cultura islmica, quer se trate da
poesia, da literatura, da msica ou das cincias islmicas, tais como a exegese
cornica, a transmisso das tradies ou o direito cannico165.
    Segundo os autores rabes clssicos, os africanos tinham o dom da eloqun-
cia e os califados umaiada e abssida contaram vrios poetas negros eminentes.
Uma antologia das obras poticas de um certo `Irr b. `Amr, filho de uma escrava
negra, entrou para a posteridade no Kitb alAghn e no Hamas166. Este poeta,
que conheceu o renome no reinado de `Abd al-Malik (falecido em 86/705),
estava a servio do governador da provncia do Iraque, al-Hadjdjdj (falecido
em 95/714). Foi tambm nesta poca que viveu al-Haykatn, outro poeta negro
de talento e eloquncia excepcionais167. O mais clebre e o mais notvel destes
poetas foi, todavia, Ab Mihdjn (falecido em 108/726-727). Ele nasceu em
Hidjz, de pais etopes. Jovem cameleiro, sua ambio o levou a enderear uma
srie de panegricos ao prncipe umaiada `Azz b. Marwn; ele causou tamanha
impresso a Marwn que esse o comprou de seu senhor por 1.000 dinares e o
alforriou168.
    Encontramos tambm meno a um poeta negro de Kfa, Ab Dulma (fale-
cido por volta de 161/778), que viveu nos primeiros tempos do perodo abssida.
Ele era renomado por seu esprito, suas aventuras pitorescas, seu conhecimento
da literatura e seus talentos de poeta. O califa al-Mansr apreciava particular-
mente os versos e o chiste desse hbil poeta negro, comilo e frvolo bufo169.
    Realmente, o primeiro grande representante da arte rabe da prosa foi
`Amr ibn Bahr al-Djhiz ("que tem os olhos salientes"), de Basra, (falecido em
255/868-869), que viveu nesta cidade at os noventa e seis anos170. Seu av era
um cameleiro negro de nome Fazra, que era mawl de `Amr ibn Kila171. De
fsico pouco gracioso, como indica sua alcunha, al-Djhiz era dotado de uma
inteligncia e de uma sagacidade pouco comuns172.

165 Ver A. BADW, 1976; S. S. HAAS, 1942.
166 Al-ISFAHN, 1868-1869, vol. 10, p. 65-66.
167 Al-DJHIZ, 1964, vol. I, p. 182.
168 Ver U. RIZZITANO, 1938; D. SALLM, 1967.
169 Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. I, p. 534-539; al-ISFAHN, 1868-1869, vol. I, p. 199; vol. X, p.
    245; M. CHENEB, 1922.
170 I. GOLDZIHER, 1966, p. 81.
171 Ver C. PELLAT, 1953, p. 51-54.
172 Ibidem, p. 56-68.
856                                                            frica do sculo VII ao XI



    Seu saber era enciclopdico e a universalidade de seus conhecimentos apare-
cem nas numerosas obras escritas por ele sobre quase todos os assuntos. Uma de
suas maiores e mais belas obras  o Kitb alhayawn (O livro dos animais)173.
Igualmente clebre como pensador, comps um tratado sobre os fundamentos
da religio. Seu nome foi dado a um ramo da seita mutazilita, chamado de
"al-Djhizya"174.
    Os africanos tambm eram excelentes nas artes musicais e vrias virtuoses
dominaram a cena musical ao longo dos dois primeiros sculos da era islmica,
em particular no Hidjz, onde, "nos palcios e nas casas dos nobres e dos ricos,
a msica e a companhia dos msicos eram muito apreciadas"175.
    O primeiro e o maior msico desta poca foi o negro Ab `Uthmn Sa'id
ibn Misdjah (falecido aproximadamente em 715). Seu desejo de aprender as
tcnicas musicais exticas o levou at a Prsia e a Sria. Ao voltar para o seu
Hidjz natal, ele introduziu as melodias bizantinas e persas na msica rabe
vocal. Ibn Misdjah atingiu o apogeu de sua glria musical sob o reinado do califa
umaiada `Abd al-Malik (684-705) e foi proclamado um dos quatro melhores
cantores de seu tempo176.
    Um outro clebre msico, Ab `Abbd Ma'bad ibn Wahb (falecido em
126/743), era um mulato originrio de Medina, que exerceu sua arte durante
os reinados de trs califas umaiadas e foi aclamado pelo nome Prncipe dos Can-
tores de Medina. Entre seus alunos citaremos Sallma al-Kass, famosa cantora
mestia e favorita do califa Yazd b. `Abd al-Malik. Muitos outros msicos e
cantores negros conheceram a glria durante o califado abssida.
    As fontes biogrficas rabes (tabakt) mencionam um certo nmero de afri-
canos dentre os especialistas da tradio religiosa e os telogos. Um dos mais
eminentes foi o mawl negro Ab `Abd Allh Sa'd ibn Djubayr ibn Hishm
(falecido aproximadamente em 94/712). Ele  considerado uma autoridade
sobre o ritual da peregrinao, a exegese cornica, o direito do divrcio e as
questes de ritual177. Ab At ibn Rabh (falecido em 115/733-734) era descrito
como "negro de pele, caolho, nariz achatado, maneta, coxo e de cabelo lanoso"178.
Ele se tornou uma autoridade incontestada como tradicionalista e "foi investido


173 Edio do Cairo de 1323-1325/1905-1907, em dois volumes.
174 Ibn KHALLIKN, 1843-1871, vol. 2, p. 405.
175 H. G. FARMER, 1929, p. 43.
176 Ibidem, p. 77-78.
177 Ibn KUTAYBA, 1850, p. 227.
178 Ibidem.
A dispora africana na sia                                                                                857



das funes de muft de Meca". Isto no o impediu de viver de forma simples,
na piedade e no ascetismo179. O primeiro erudito do Egito islmico a se destacar
nos domnios do hdith e do fikh foi Yazd b. Ab Habb (falecido em 128/745),
filho de um prisioneiro de guerra nbio180. Al-Djhiz fez o elogio de um mawl
negro de Basra, chamado de Faradj al-Hadjm, que foi um irrepreensvel tradi-
cionalista181. O eunuco negro Ab l-Hasan al-Baghdd, mais conhecido pelo
nome de Khyr al-Nassdj (falecido em 322/934), foi um famoso asceta e um
grande doutor sufista. Empregado como tecelo, mais tarde alforriado, ele tam-
bm obteve a reputao de "justo", ou testemunha irrepreensvel (`adl)182.


    Os africanos na ndia, na sia do Sudeste e na China
    So raras as provas da presena de africanos na ndia nesta poca. Como
observou J. Burton Page, "possumos apenas algumas informaes (...) sobre o
nmero, o estatuto e as funes dos habsh no incio do perodo muulmano"183.
 provvel que um estudo minucioso e sistemtico dos arquivos nacionais india-
nos, bem como da massa das literaturas em lnguas vernculas da ndia meri-
dional e ocidental, pudessem produzir muitas indicaes teis. No momento,
estamos mais informados sobe a presena de escravos negros na Indonsia e
na China, graas a breves notcias histricas e a documentos paleogrficos e
iconogrficos.
    Os escravos africanos negros eram conhecidos no arquiplago malaio desde o
incio do sculo VII da Era Crist e, geralmente, eram chamados de zandj184. As
ligaes mantidas entre esta regio e a China tambm ocasionaram a introduo
de escravos negros na China.



179 Ibidem, p. 203.
180 I. GOLDZIHER, 1971, vol. 2, p. 77.
181 Al-DJHIZ, 1964, vol. I, p. 182.
182 Ibn al-DJAWZ, 1938-1940, vol. 6, p. 304.
183 J. BURTON-PAGE, 1971, p. 14.
184 " com o sentido de `preto' e, frequentemente, `de escravo preto' que a palavra zngi passou pela Indonsia,
    sia Central e pelo Extremo Oriente. O termo jng figura em uma inscrio javanesa datando do ano
    860; encontram-se as ortografias jangi e jni em inscries de 1135, 1140 e 1294. Hoje ainda, os negros
    so chamados jang ou jng, em malaio, e jong em batak". P. Pelliot, 1959, p. 598. Sobre a presena
    deste mesmo termo nas fontes chinesas, ver ibidem, p. 599-601. A denominao habsh, designando os
    negros ou os escravos africanos, foi usada mais tarde. Sobre isso, ver o exemplo extrado das compilaes
    de direito malaio do sculo XVIII, por R. J. MAXWELL, 1932, p. 254.
858                                                                               frica do sculo VII ao XI



   As crnicas da dinastia chinesa t'ang mencionam, entre os eventos do ano
724, a recepo de uma embaixada enviada pelo soberano do reino de rvijya,
cuja capital era Palimbo, em Sumatra. Entre os presentes exticos oferecidos
por esta embaixada havia uma jovem zandj185. Tal presente no era excepcional;
entre 813 e 818, um outro reino indonsio, o de Kalinga, em Java, enviou trs
misses  corte do imperador t'ang Hsien Tsung. Dentre as curiosidades ofer-
tadas como tributo a tal imperador figuraram vrios rapazes e moas zandj186.
Tambm  relatado, nas Crnicas da Dinastia Sung, que em 976, um mercador
rabe trouxe  corte imperial "um escravo negro de K'un Lun, de olhos profun-
damente enterrados nas rbitas e de corpo negro"187.
   Longe de ser "raridades destinadas a excitar por algum tempo a curiosidade
das cortes refinadas dos sculos VIII e IX, estes rapazes e moas negros" repre-
sentavam apenas uma parte do importante efetivo de escravos africanos impor-
tados na regio pelos mercadores rabes. Chou Ch'u-fei, funcionrio pblico
chins, em um livro intitulado Lingwai Taita, redigido em Kwee Lin, em 1178,
mostra que possua conhecimentos deste trfico de escravos africanos. Falando
de um indeterminado setor da costa da frica Oriental, chamado por ele de
K'unlun Ts'engchi', ele nota que "selvagens de corpos negros como o charo e
de cabelos crespos eram atrados pela oferta de alimento e capturados"188. Acres-
centa que milhares desses negros eram vendidos como "escravos estrangeiros"189.
Parece que uma parte desta mercadoria humana era expedida para a China
pelos traficantes rabes, atravs do arquiplago malaio. O principal porto de
importao e centro distribuidor era Canto190.
   Temos tambm alguns indcios do papel desempenhado pelos escravos afri-
canos no domnio social e econmico. Em outra passagem, "o P'ingchou k'tan
acrescenta que esses `escravos-diabos' eram empregados nos navios para calafetar,


185 G. FERRAND, 1922, p. 7-8; P. PELLIOT (1959, p. 599) menciona duas jovens sngch'i (zandj).
186 P. PELLIOT, 1959, p. 599.
187 Chou JU-KUA, 1911, p. 32.
188 P. WHEATLEY, 1961, p. 54.
189 Ibidem.
190 Isto  atestado pelo erudito chins Chu Yu, do perodo sung, que, em seu trabalho intitulado P'ing
    chou k'tan (1119) escreve: "Em Kuang-chou (Canto), a maior parte dos ricos possui escravos-diabos
    (kueinu), de uma grande fora fsica, capazes de levantar pesos de vrias centenas de cattys. Sua lngua
    e seus gostos so incompreensveis (para os chineses). De temperamento simples, eles no procuraram
    fugir. Chamam-lhes tambm de "selvagens" (yehjen). Sua pele  to negra quanto o nanquim (da China),
    seus lbios so vermelhos, seus dentes so brancos e seus cabelos enrolados e amarelos (sic). Entre eles
    h homens e mulheres (...). Eles vm das ilhas alm dos mares." Citado em P. WHEATLEY, 1961,
    p. 54-55. Ver tambm Chang HSING-LANG, 1930.
A dispora africana na sia                                                                               859



do exterior, as fendas das juntas situadas abaixo da linha de flutuao, pois eram
excelentes nadadores que no fechavam os olhos embaixo d'gua"191. Parece
tambm que, muito frequentemente, eles foram empregados como domsticos
em lares abastados das grandes cidades192. O papel que desempenharam como
msicos no reino de rvijya, em Sumatra (San-fo-ts'i),  mencionado por G.
Ferrand, que se apia em fontes chinesas clssicas193.
    A difuso da presena africana no mundo no comeou com o xodo forado
para as Amricas. Observamos que, j do sculo VII ao XI da Era Crist, um
grande nmero de africanos viviam em muitas regies da sia, onde ocuparam
posies sociais diversas e exerceram um importante papel nos domnios econ-
mico, poltico e cultural. No obstante sua fundamental importncia histrica,
 lamentvel que este aspecto da influncia africana na sia tenha sido tratado
apenas de forma fragmentria e baseando-se em fontes no africanas. Para fazer
uma apresentao completa e objetiva da questo, convm se debruar, sem
tardar, sobre a seguinte indagao: como os africanos, em suas terras de exlio,
se viam em relao aos outros?




191 Citado em P. WHEATLEY, 1961, p. 55 e em Chou JU-KUA, 1911, p. 31-32.
192 Chou JU-KUA, 1911, p. 32. "Muitas famlias (na China) compram negros para empreg-los como por-
    teiros; eles so chamados kuinu ou `escravos-diabos' ou ainda hei siau ssi (escravos ou serventes negros)".
193 G. FERRAND, 1922, p. 16. "Os escravos provenientes do K'ouenlouen fazem msica para as pessoas
    do pas, cantando e saltando no cho".
As relaes entre as diferentes regies da frica                     861



                                         CAPTULO 27


                 As relaes entre as diferentes
                        regies da frica
                                   Abdoulaye Bathily
                       (com a colaborao de Claude Meillassoux)




    O perodo que se estende do sculo VII ao XI da Era Crist foi marcado por
um forte desenvolvimento das relaes entre as diferentes regies da frica. O
fato de esse impulso ter coincidido com a expanso muulmana levou alguns
autores, como Raymond Mauny, a afirmar que foi graas  conquista rabe e 
islamizao que a frica Tropical saiu de seu isolamento e foi ligada ao resto
do mundo1. Todavia, apesar das considerveis lacunas da documentao, lacunas
estas parcialmente sanadas pelas descobertas arqueolgicas que se multiplica-
ram no decorrer dos ltimos anos, os dados atuais permitem afirmar, junto a
Catherine Coquery-Vidrovitch, que uma "das caractersticas das sociedades
africanas  de nunca terem vivido no isolamento. O continente africano sofreu
dois fenmenos maiores: a mobilidade das populaes e a amplitude das trocas
de longa distncia"2. Os trabalhos de E. W. Bovill3, C. A. Diop4 e T. Obenga5,
entre outros, mostraram a vitalidade das relaes, desde a Antiguidade, entre
as regies situadas respectivamente a norte e a sul do Saara6. Ademais, alguns


1    R. MAUNY, 1970, p. 138.
2    C. COQUERY-VIDROVITCH, 1974, p. 349.
3    E. W. BOVILL, 1933 e 1958.
4    C. A. DIOP, 1955 e 1967.
5    T. OBENGA, 1971; ver tambm R. C. C. LAW, 1967b.
6    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 20 e 22.
862                                                                               frica do sculo VII ao XI




figura 27.1   As relaes entre as diferentes regies da frica do sculo VII ao XI (Fonte: A. Bathily).
As relaes entre as diferentes regies da frica                                              863



estudiosos demonstraram de forma pertinente como o contexto socioeconmico
em que nasceu o Isl foi amplamente influenciado pelo desenvolvimento das
trocas entre a Etipia, o Mediterrneo e o Oceano ndico7. Contudo, convm
reconhecer que a integrao de algumas regies da frica ao Imprio rabe,
constitudo a partir do sculo VII8, deu um impulso novo s relaes inter-
-africanas. A influncia rabe-muulmana provocou fenmenos de reao em
cadeia em todo o continente. A partir do sculo VIII, tornou-se o elemento
determinante da evoluo do Magreb, do Egito e dos povos saarianos9. Alhures
desempenhou um papel externo mais ou menos importante, de acordo com a
posio geogrfica das diferentes regies em relao aos eixos de penetrao
seguidos pelos muulmanos10.


     O avano das trocas interregionais
    A descrio das rotas deixada pelos gegrafos rabes testemunha do desen-
volvimento das trocas comerciais entre as diferentes regies do continente a
partir do sculo VIII. A conquista rabe no somente acarretou uma profunda
transformao da geopoltica do mundo mediterrneo, dominado pelo Imprio
muulmano entre os sculos VII e XI, como tambm, e sobretudo, mesmo aps a
desagregao desse imprio, deu um dinamismo inusitado s trocas "internacio-
nais". Apesar das turbulncias permanentes que caracterizaram a superestrutura
do imprio (revoltas, xiismos), o mundo muulmano permaneceu, at o sculo
XIII, o centro do comrcio mundial. O artigo clssico de Maurice Lombard
trouxe  luz o papel fundamental do ouro africano na afirmao do poderio
muulmano11. At a expanso europeia do sculo XV, o destino da frica e o
do mundo rabe foram estreitamente associados12.
    Durante o perodo aqui estudado, trs traos fundamentais caracterizaram
as trocas inter-africanas: o progresso dos meios de comunicao, a expanso da
rede comercial e o aumento do volume de trocas.


7    E. R. WOLF, 1951; ver tambm M. RODINSON, 1969.
8    A respeito da expanso muulmana, ver R. MANTRAN, 1969, e os captulos 2 e 3 acima.
9    Ver captulos 7 a 12 acima.
10   Ver, por exemplo, os captulos 19 a 21 acima.
11   M. LOMBARD, 1947; ver tambm M. MALOWIST, 1966, e R. A. K. MESSIER, 1974. Porm, 
     preciso notar que a tese de LOMBARD provocou uma severa crtica de C. CAHEN, 1977, p. 323-357;
     1981.
12   E. F. GAUTIER, 1935.
864                                                                         frica do sculo VII ao XI



    Embora no existisse, pelo que sabemos, nenhum trabalho sistemtico sobre
a economia africana deste perodo, as indicaes esparsas fornecidas pelas fontes
rabes e a arqueologia confirmam amplamente o ponto de vista acima exposto.

      O progresso dos meios de comunicao
    Ao fortalecer as relaes permanentes entre a frica do Norte e a sia
Ocidental, a conquista rabe criou condies favorveis para o uso extenso do
camelo. De acordo com alguns autores, o camelo, animal providencial das regies
desrticas, teria sido introduzido na frica por volta do sculo I da Era Crist;
segundo outros, contudo, algumas espcies de camelos, desaparecidas na poca
histrica, teriam sido presentes no continente desde o fim do perodo neoltico13.
    Todavia, qualquer seja a origem do camelo, no conjunto, os pesquisadores
concordam em destacar o uso generalizado desse animal de carga nas trocas
transaarianas a partir da poca islmica. Assim, no Marrocos, cruzamentos
realizados entre o camelo da sia Central, com duas corcovas, e o da Arbia,
o dromedrio, com uma s corcova, bem como tcnicas de seleo, permitiram
obter duas espcies de camelos. Uma, de andar lento, mas capaz de transportar
cargas pesadas, era usada para o comrcio, ao passo que a outra, mais rpida
e leve, era empregada como portador de notcias (mehari)14. Assim se tornou
famoso o Saara Ocidental pela criao de camelos. De acordo com al-Bakr, o
rei dos sanhdja dispunha no seu exrcito de mais de 100.000 camelos de raa15.
Eram milhares de camelos a compor as diferentes caravanas que, o ano todo,
ligavam o Sudo ao Magreb e ao Egito.
    Um dos mritos da expanso muulmana foi de dar um considervel impulso
 navegao. Sob o estmulo dos aglbidas e dos fatmidas foi construda uma
poderosa frota que permitiu aos negociantes muulmanos assegurar a ligao
comercial entre a frica Oriental, os paises do Oceano ndico, do Mar Vermelho
e do Mediterrneo. Grandes portos munidos de arsenais de construo naval
foram erguidos no Magreb, como em Tunis (sculo VII), Bidjya (Bougie),
Mahdiyya (915), Argel (946), Or (902) e Arzila (sculo X). No Egito, o antigo
porto de Alexandria foi revitalizado. Entre os sculos VIII e XI surgiram, sob
a gide da marinha muulmana, grandes navios de comrcio, como a "nau"
mediterrnea de casco alto e o dois mastros de velas "latinas" que, no plano


13    Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 20.
14    N. PACHA, 1976, p. 49; ver tambm o captulo 14 acima.
15    J. M. CUOQ, 1975, p. 2; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 69.
As relaes entre as diferentes regies da frica                                              865




figura 27.2 De um acampamento ao outro. Transumncia de pastores no Sahel maliano, arredores de
Gumbu do Sahel (Fonte: C. Meillassoux).



tcnico, representava a sntese entre o navio mercante do mediterrneo antigo
e as realizaes do Oceano ndico16. Bem antes da introduo do compasso e
de outros instrumentos de navegao, os navegadores muulmanos foram capa-
zes de percorrer longas distncias ao usar o bem-conhecido mtodo da "rosa
sideral"17. O compasso de navegao e as tabelas astronmicas tornariam essas
viagens ainda mais seguras.

     A expanso da rede comercial
   Entre os sculos VII e XI, o trfego entre as diferentes regies do conti-
nente conheceu um vigoroso impulso. O crescimento urbano foi a mais notvel
manifestao desse desenvolvimento das trocas. No Tafillet, por volta de 757,
uma antiga feira de nmades cameleiros tomou as propores de uma cidade
 Sidjilmsa  que, at o sculo XI, desempenharia um papel central na rota
do comrcio transaariano, entre o Sudo Ocidental e o Magreb Ocidental18.

16   M. LOMBARD, 1971a, p. 67; A. R. LEWIS, 1951.
17   V. A. TEIXEIRA da Mota, 1963; ver tambm G. R. TIBBETS (org.), 1971.
18   Ibn Hawkal, em J. M. CUOQ, 1975; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 45, p. 64-66;
     al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 95.
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Kayrawn, que substituiria a velha Cartago, foi fundada nesta poca. Em meados
do sculo VIII surgiu Thert, no Magreb Central19. Por volta de 800, os idrsidas
transformaram Fez em cidade florescente. Sob os fatmidas, Cairo ocupava uma
posio chave entre o Oriente, o Ocidente muulmano e a frica sul-saariana.
No Saara Ocidental, Awdghust, capital poltica dos berberes sanhdja, ergueu-
-se como mercado entre o mundo negro e a Berbria20, a exemplo de Zawla21,
no Saara Central. Itinerrios variavelmente frequentados, de acordo com a con-
juntura poltica favorvel ou desfavorvel, ligavam esses mercados a outros do
sul do Saara. Assim, Gana/Kumbi, a capital do imprio de Gana/Wagadu, Sill
e Yaresi, no rio Senegal, e Kw-Kw, no Nger, asseguravam a juno entre
o mundo muulmano e os paises da savana e da floresta oeste-africanas. Na
costa da frica Oriental, mercadores muulmanos fundaram centros comer-
ciais como Mogadscio, Barwa (Brava), Malindi, Mombaa, Kilwa e Sofala no
continente, e nas ilhas de Pate, Kanbal (Pemba), Kizimkazi (Zanzibar), etc.22.
Desde o sculo XI, tais centros tornar-se-iam grandes mercados cosmopolitas,
especializados no trnsito dos produtos de troca provenientes da frica Oriental
(Zimbbue), da sia Oriental e Austral e do mundo muulmano.
    Deste modo, o novo desabrochar urbano, esboado a partir do sculo VII e
resultante do desenvolvimento das trocas, favoreceu a expanso da rede comer-
cial e logo aceleraria o processo de integrao das diferentes economias regionais
e locais.

      O aumento do volume de trocas
    O aumento do volume de trocas foi consequncia direta da forte demanda
provocada pelo desenvolvimento urbano, o crescimento demogrfico de algumas
regies (Magreb, regies bantas) e a expanso do mercado externo (ndia, China,
Imprio rabe). Os produtos mais trocados nesta poca podem ser divididos em
quatro grandes categorias: as matrias primas; os produtos de subsistncia; os
artigos de luxo de "uso social"; os produtos de consumo de luxo.
    Segundo as circunstncias e os lugares, um mesmo produto pode ter ocupado
diferentes posies nesta classificao.


19    Ibn al-Saghr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 55-56; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981,
      p. 121-122; T. LEWICKI, 1962.
20    Al-Muhallab, em J. M. CUOQ, 1975, p. 76; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 168;
      al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 81-82.
21    Al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 81-82.
22    Ver captulo 21 acima.
As relaes entre as diferentes regies da frica                            867



     As matrias primas
    Ferro, linho, algodo, goma e ndigo constituam as mais importantes mat-
rias primas. O ferro fabricado no imprio de Gana, provavelmente na zona entre
os rios Falm e Senegal, era exportado para outras regies da Senegmbia e do
Nger. Temos agora a certeza que a frica Oriental e Austral era quem fornecia
esse metal  ndia. Os paises nilticos sem dvida participaram desse comrcio
com a ndia e tambm com o mundo muulmano. No Magreb, as jazidas de
Ceuta e de Or, bem como as da regio compreendida entre Sal e Marrakech,
ainda estavam em atividade no sculo XI23.
    O comrcio do linho, do algodo, da goma e do ndigo esteve ligado ao
desenvolvimento da indstria txtil. O cultivo do linho foi praticado no Magreb,
o do algodo em vrias regies (Rio Senegal, Etipia, Egito, Magreb, etc.). A
goma usada na preparao dos tecidos provinha das florestas de gomeiras do
Saara Ocidental ou do Cordofo. O ndigo, talvez oriundo da sia (ndia), foi
cultivado a partir do sculo XI no Magreb, que certamente fornecia o Sudo
Ocidental.

     Os produtos de subsistncia
   A circulao dos produtos de subsistncia ocupou, em volume, o primeiro
lugar nas trocas inter-africanas. O trigo do Magreb era exportado por carava-
nas e passava por Sidjilmsa, rumo ao Saara Ocidental e o Sudo. Apesar da
importncia de seu mercado interno, o Egito podia, contudo, exportar exce-
dentes de cereais por caravanas, rumo  Lbia e  Nbia, e por navios, rumo
 Cirenaica. Segundo al-Bakr, no pas bdja, na Ifrkiya, a safra de trigo era
sempre garantida e, nos anos fartos, a cidade assegurava quotidianamente a
carga de mil camelos destinada ao abastecimento de vrias cidades, entre as
quais Kayrawn e Tunis24.
   O milhete, o sorgo, o arroz e a manteiga de carit do Sudo Ocidental, bem
com o azeite de oliveira do Magreb, eram exportados em todas as direes. O
peixe desidratado e defumado preparado no litoral e nas regies ribeirinhas era
enviado nas zonas do interior. O sal constitua o principal ramo do comrcio
de subsistncia. O sal-gema do Saara (Taghza) e o sal marinho estavam em
concorrncia no interior, sem nunca satisfazer a forte demanda, como testemu-


23   N. PACHA, 1976, p. 60; B. ROSENBERGER, 1970a.
24   Al-BAKR, 1913, p. 120.
868                                                                           frica do sculo VII ao XI



nha o valor muito elevado deste gnero que, de acordo com Ibn Hawkal, podia
alcanar 200 a 300 dinares a carga de camelo25.

      Os artigos de luxo de uso domstico
    Os artigos de luxo de uso domstico consistiam essencialmente em escravos
e cavalos. Como em todos os continentes nessa poca, na frica, a escravi-
do era uma prtica socialmente legtima. As fontes rabes insistem sobre a
importncia do trfico de escravos negros por mercadores muulmanos. Mas,
na realidade, tal trfico operava nos dois sentidos. Existiam escravos berbe-
res, rabes e at mesmo escravos de origem europeia nas cortes do Sudo26.
Podemos pensar que o crescimento econmico e seus corolrios (desabrochar
urbano, esplendor da vida da corte) acarretaram uma forte demanda por mo
de obra, tanto na frica Negra quanto no Ocidente e Oriente muulmanos,
da a intensificao do trfico de escravos que nos deixam vislumbrar as cr-
nicas rabes do perodo.
    Todavia,  bastante arriscado propor, como R. Mauny e T. Lewicki, estimati-
vas do nmero de escravos exportados pela frica Negra em direo ao mundo
muulmano. Com efeito, R. Mauny pensa que o nmero de escravos negros
situar-se-ia em torno de 20.000 por ano, isto , 2 milhes por sculo, durante a
Idade Mdia27, ao passo que, segundo T. Lewicki, 12 a 16 milhes de escravos
negros teriam transitado por Cairo somente no sculo XVI28. Tais estimativas
so manifestadamente exageradas. Ao menos trs razes explicam que esse
trfico tenha sido muito aqum dos nmeros apresentados:
         O baixo nvel de desenvolvimento da economia muulmana da poca,
          sendo impossvel ela absorver tal quantidade de escravos.
         Com exceo dos zandj (escravos negros) do Baixo-Iraque29, em nenhum
          outro lugar do mundo rabe se encontrava um ncleo importante de
          populao negra historicamente ligada  escravido transaariana.
         O custo elevado dos escravos, decorrente dos riscos ligados s condies
          de transporte atravs do deserto, no podia, portanto, permitir um xodo


25    J. M. CUOQ, 1975, p. 75; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 49.
26    Tal prtica, embora revelada pelas fontes do sculo XIV (Ibn Battta, em J. M. CUOQ, 1975, p. 316,
      390), j estava provavelmente em vigor nos sculos anteriores.
27    R. MAUNY, 1961.
28    T. LEWICKI, 1967b.
29    Ver captulo 26 acima.
As relaes entre as diferentes regies da frica                                                  869



          to importante de populao30. Nesse aspecto,  significativo que, na
          iconografia rabe da poca, o mercador de escravos tenha muitas vezes
          sido apresentado como "o homem de bolso furado".
    At as cruzadas, o mundo muulmano conseguia seus escravos junto a duas
fontes principais: a Europa Oriental e Central (eslavos) e o Turquesto. O Sudo
s vinha em terceiro lugar. Ainda  preciso acrescentar que os escravos negros
eram principalmente apreciados como empregados domsticos: eunucos, concu-
binas, amas, cozinheiras, etc.31. Os descendentes dessas concubinas e amas eram
integrados  sociedade muulmana como verdadeiros cidados, como mostra o
exemplo de Is ibn Yasd, o provvel chefe do grupo de emigrantes que fundou
Sidjilmsa32, e o de Ab Yasd, nascido em Gao de me negra e pai berbere,
que se tornou um famoso predicador aps ter levado os fatmidas  beira de sua
perdio (fim do sculo X)33.
    Em decorrncia do desenvolvimento das trocas entre a frica Negra e o
mundo muulmano, os cavalos rabes multiplicaram-se nos paises da savana,
nos quais a ausncia de tripanossomase tornava possvel sua sobrevivncia. O
trfico de cavalos rabes (cavalo barbo), monopolizado pelos estados sudaneses,
levou ao desaparecimento progressivo da raa local de porte menor, compar-
vel ao pnei, cuja presena ainda era mencionada no sculo XI por al-Bakr34.
A Numdia e a Nbia especializaram-se pouco a pouco na criao de cavalos
barbos para depois export-los no Sudo Ocidental e Central.

     Os produtos de consumo de luxo
   Os produtos de consumo de luxo eram essencialmente compostos de
txteis, metais preciosos, prolas e marfim. A literatura geogrfica da poca
insiste especialmente no florescimento do artesanato txtil no Magreb e no
Egito. Os artigos de seda de Gabes e de l de Kayrawn eram procurados em
todos os mercados. Awdghust exportava vestimentas tingidas de vermelho



30   No que tange aos preos praticados nos mercados do Iraque, ver E. ASHTOR, 1969, p. 88 e seguintes,
     361 e seguintes.
31   De acordo com al-Bakr, um excelente cozinheiro negro valia 100 mithkl, e mais ainda em Awdghust;
     ver J. M. CUOQ, 1975, p. 84.
32   Al-BAKR, 1968, p. 43.
33   No que diz respeito a Ab Yasd, ver R. Le TOURNEAU, 1954, e o captulo 12 acima.
34   J. M. CUOQ, 1975, p. 102; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 89. O conjunto da
     questo dos cavalos  tratado por H. J. FISHER, 1972, 1973a.
870                                                                        frica do sculo VII ao XI



ou de azul35. A cidade de Taranka, no mdio Senegal, era famosa por suas
tangas finas de algodo, chamadas de shakkiyyt, que os mercadores despa-
chavam para o norte e nas regies vizinhas36. Na esteira de Charles Monteil,
alguns historiadores consideram que os progressos do artesanato txtil e do
comrcio dos tecidos procederam da expanso do Isl. Na realidade foram as
transformaes sociais  desenvolvimento urbano, enriquecimento das classes
dirigentes pelo comrcio externo, crescimento demogrfico  que parecem ter
constitudo as causas profundas da implantao de um artesanato txtil cada
vez mais estendido em todas as regies.  claro que essas novas condies no
permitiam mais aos homens apenas dependerem, para seu vesturio, de meios
to reduzidos quanto peles de animais ou tecidos obtidos a partir do casco de
algumas rvores, como foi o caso nas pocas anteriores em que a populao era
mais esparsa, a organizao social menos avanada e, portanto, alguns valores
morais ainda no adotados.
    No que diz respeito aos metais preciosos, o ouro ocupava evidentemente
o primeiro lugar. Na poca que nos interessa, existiam diversas regies pro-
dutoras que abasteciam, em graus variados, as demais regies do continente
e os mercados externos. Por ordem decrescente de importncia, essas regies
eram o Bambuk/Galam e Bure, na frica do Oeste, a frica Austral e a
Nbia.
    O cobre era utilizado como matria prima na fabricao de objetos de arte e
outros artigos de luxo. Em algumas localidades (Sill, no Rio Senegal), cortado
em anis, ele desempenhava o papel de moeda37. Em todo caso, ele era objeto de
um trfico importante entre as zonas produtoras (Katanga, Ar, Saara Ociden-
tal), os territrios iorubas e a frica Setentrional, onde o desabrochar artstico
suscitava uma forte demanda38.
    O Sul magrebino e o Sudo Central eram reputados por suas prolas e pedras
preciosas (gata, amazonita, etc.). Deste modo, o pas bdja, situado entre o Nilo
e o Mar Vermelho, contava com jazidas de pedras preciosas e de esmeraldas
exploradas pelos muulmanos39.




35    Al-BAKR, 1913, p. 159.
36    C. MONTEIL, 1926.
37    Al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 97; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 78.
38    Ver captulo 16 acima.
39    Al-Ya`kb, em J. M. CUOQ, 1975, p. 50; al-MAS`D, 1861-1877, vol. 3, p. 43-50.
As relaes entre as diferentes regies da frica                                    871



     A difuso das tcnicas
    As trocas comerciais e a mobilidade correlata das populaes foram os ins-
trumentos da difuso das tcnicas. Porm, a esse respeito, a nossa documentao
 mais escassa ainda. Com efeito, os gegrafos rabes em que nos baseamos
interessaram-se mais pelos mecanismos de circulao do que pela produo dos
bens. Os dados arqueolgicos so ainda muito contraditrios para podermos
emitir opinies certeiras sobre a evoluo das tcnicas na poca em foco. O
estado atual de nossos conhecimentos permite destacar cinco ramos de ativi-
dades que parecem ter conhecido progressos e se propagaram no continente: a
extrao mineira e a metalurgia, a agricultura, o artesanato, as tcnicas comer-
ciais e as tcnicas de guerra.

     A extrao de minrio e a metalurgia
    A extrao de minrio e a metalurgia desenvolveram-se em todas as regies.
Segundo S. Gsell, a poca mais ativa da indstria mineira no Magreb  a Idade
Mdia, e no a Antiguidade40. No Ocidente muulmano, tentou-se aprimorar
a tcnica de tratamento dos minerais. Na Espanha muulmana, usava-se um
procedimento novo para separar a ganga da azurita, que consistia em embeber
o minrio de leo e jog-lo em um curso rpido. Deste modo, as partculas de
metal, deixadas leves pelo leo, so levadas pela corrente, ao passo que as mat-
rias terrosas se depem no fundo do lveo. Tudo indica que tal procedimento era
empregado no Magreb41. O debate sobre a difuso do ferro na frica prossegue,
mas a tese de L. M. Diop42 sobre uma origem autctone da explorao do ferro
deve ser preferida s hipteses de uma difuso a partir do exterior, sustentadas
por alguns historiadores. De todo modo,  hoje estabelecido que muitos povos
africanos passaram da Idade da Pedra  do Ferro no decorrer do primeiro mil-
nio da Era Crist. Tal parece ser o caso dos bantos43 e das populaes litorneas
do Atlntico, a oeste do imprio de Gana44. De qualquer forma,  muito pro-
vvel que os processos sociais em curso no conjunto do continente levaram 
intensificao e, talvez, ao aprimoramento das tcnicas de fabricao dos metais.

40   S. GSELL, 1913-1928, vol. 8, p. 16.
41   N. PACHA, 1976, p. 60.
42   L. M. Diop, 1968.
43   G. W. B. HUNTINGFORD, 1963; G. MATHEW, 1963; P. L. SHINNIE (org.), 1971b; ver tambm
     os captulos 6 e 23 acima.
44   J. M. CUOQ, 1975, p. 120; N. LEVTZION e J. F. P. HOPKINS (org.), 1981, p. 98.
872                                                           frica do sculo VII ao XI



      A agricultura
    No que tange  agricultura, o perodo se distingue pela difuso de algu-
mas tcnicas de cultivo e plantas novas. Assim, no Magreb e nos osis saa-
rianos, a adoo de um novo sistema de irrigao (uso das foggra ou ductos
de pedras) permitiu a expanso de novos cultivos como o arroz, o algodo e a
cana-de-acar45.
    O territrio agrcola gangara (assaba, na Mauritnia), formado de campos
com pequenos terraos cercados por muretes e cujas runas ainda so visveis,
data provavelmente da poca almorvida46. Na frica Oriental, a rizicultura
inundada teria sido introduzida pelos imigrantes asiticos.
    Sob o impulso das trocas inter-regionais, novas plantas e espcies difundiram-
-se fora de sua zona de origem. Deste modo, algumas espcies de arroz de
origem asitica chegaram at os osis egpcios e o sul do Marrocos. O sorgo,
oriundo da frica subsaariana, era cultivado no Alto Egito, na Cirenaica, no
Tell argeliano e mesmo na Sria e na Europa do Sul. O trigo, chamado de darma
yille (milhete do Adrr) pelas tradies orais dos soninqus do Wagadu, crescia
mais a sul, no Sahel.
    O cultivo da oliveira progrediu consideravelmente no Magreb, a ponto de
modificar completamente a paisagem da regio. A palmeira-tamareira, origi-
nria da Mesopotmia e do Golfo Prsico, estava presente no Egito na poca
faranica, mas foi entre os sculos VII e XI que seu plantio se intensificou.
O Sul tunisiano e o Saara Ocidental foram os principais focos de tamareira.
As comunidades mercantes muulmanas e judias introduziram nas cidades do
Sudo (Gana, Knem) legumes como meles, pepinos, etc., que eram cultivados
nos jardins. O cultivo da banana e do coco esteve ligado ao avano do comrcio
no Oceano ndico.

      O artesanato
   O processo de difuso das tcnicas artesanais  muito menos conhecido.
Dois fatos merecem ser mencionados. De acordo com al-Bakr, Sfax, que era
famosa por seus lenis, devia seus mtodos para brunir o tecido a Alexandria,
que j os usavam47.



45    N. PACHA, 1976, p. 46.
46    C. TOUPET, 1966, p. 19.
47    Al-BAKR, 1913, p. 46-47.
As relaes entre as diferentes regies da frica                                           873



   A fabricao de papel a partir do linho, e depois do algodo, segundo o
modelo chins, conheceu uma verdadeira revoluo a partir do fim do sculo X.
Enquanto o pergaminho e o papiro, at ento usados na transmisso dos textos,
no podiam garantir as condies de uma democratizao do saber, o papel
barato obtido graas ao novo procedimento deu um impulso geral  atividade
intelectual48.

     A evoluo das tcnicas comerciais
    O desenvolvimento das trocas e o crescimento correlato do volume de pro-
dutos acarretaram a adoo de formas de pagamento cada vez mais aperfeio-
adas. O trao mais marcante dessa evoluo foi a monetarizao progressiva
das economias regionais. O sistema monetrio magrebino era ligado quele
do mundo muulmano, baseado no dinar de ouro, mas em outras regies do
continente existia uma vasta gama de moedas. Diversas variedades de conchas,
como os cauris (Cypraea moneta) oriundos das Ilhas Maldivas, os anis de cobre,
as barras de sal e as peas de tecido desempenharam concorrentemente o papel
de equivalente nas trocas.
    Mas foi sobretudo no mundo muulmano que as tcnicas comerciais evolu-
ram de forma notvel. Os mercadores dessa regio j usavam o parcelamento, as
letras de cmbio (suftdja) e as promessas de pagamento posterior, chamadas de
cheque (shakk). Assim, aproximadamente no fim do sculo X, Ibn Hawkal afir-
mava ter visto em Awdghust um cheque que portava a meno de um direito
em benefcio de um dos habitantes de Sidjilmsa, pagvel por um negociante
de Awdghust, no valor de 4.000 dinares49. A partir desta poca, negociantes
engajados em empreitadas transaarianas implantaram uma rede extremamente
eficiente, organizada em torno de famlias ou de comanditas com correspon-
dentes em todas as praas importantes. Com os paises situados fora da influ-
ncia muulmana, eles negociavam com a ajuda de intermedirios (intrpretes)
contratados em centros de trnsito como Gana/Kumbi Saleh, como o destacou
Ykt de forma pertinente50. O "comrcio mudo", cuja existncia foi mencionada




48   A esse respeito, ver o captulo 1 acima.
49   J. M. CUOQ, 1975, p. 71; N. LEVTZION, 1968a; sobre o comrcio e a moeda no mundo muulmano,
     ver M. LOMBARD, 1971a, captulos 5 a 8.
50   J. M. CUOQ, 1975, p. 183; N. Levtzion e J. F. P. Hopkins (org.), 1981, p. 172.
874                                                                        frica do sculo VII ao XI



por inmeros cronistas depois de Herdoto51, aparece como sendo um desses
mitos persistentes, como o demonstrou Paulo Farias52.

      As tcnicas de guerra
    Nos pases da savana sudanesa, o crescimento das importaes de cavalos
rabes e os progressos da metalurgia do ferro, por um lado, e a evoluo interna
das sociedades da regio, por outro, levaram a uma profunda modificao da
ttica militar. A cavalaria comeou a desempenhar um papel preponderante nas
batalhas, em detrimento da infantaria. As tecnologias de armamento tambm
foram alteradas. O arco e a flecha, "arma democrtica" das sociedades igua-
litrias53 podendo ser fabricada por cada indivduo, foram progressivamente
substitudos por armas de ferro cuja fabricao suponha um contexto social
mais evoludo. A fabricao do escudo progrediu tambm muito na poca. Os
escudos lamta, fabricados por uma kabla saariana homnima, gozavam assim
de uma grande reputao at o Magreb54. Por conseguinte, graas a meios de
locomoo mais rpidos (cavalos, camelos) e ao aprimoramento do armamento,
a guerra desempenharia doravante um papel capital no desenrolar dos processos
sociais dentro das formaes sociais africanas.


      A expanso do Isl e seu significado social
    Do ponto de vista do movimento das ideias, o perodo do sculo VII ao XI
caracterizou-se pela difuso do Isl, em detrimento no s do cristianismo e do
judasmo, como tambm do politesmo. Ainda no fim do sculo VII, apenas uma
minoria constituda pelos conquistadores rabes professava o Isl no Magreb e
no Egito, mas por volta do fim do sculo XI, o conjunto do Magreb, o Egito,
o Saara Ocidental e importantes ncleos de populaes da frica Ocidental,
Central e Oriental haviam se convertido ao Isl. Essa extraordinria ascenso
do Isl foi atribuda a diversas causas. Para Mauny, os sucessos do Isl na frica
Ocidental deveram-se  converso pela violncia e  simplicidade de sua dou-
trina, "fcil de ser adotada por um negro"55.

51    HERDOTO, 1872, livro IV, p. 237.
52    P. F. de MORAES FARIAS, 1974.
53    J. GOODY, 1971, p. 43.
54    Al-Ya`kb, em J. M. CUOQ, 1975, p. 49; Ibn al-Fakh, em J. M. CUOQ, 1975, p. 54.
55    R. MAUNY, 1961, p. 520.
As relaes entre as diferentes regies da frica                             875



   Tais explicaes permanecem superficiais. Se o domnio de Roma, depois o
de Bizncio, e mais recentemente o colonialismo, como instrumentos do cristia-
nismo, foram acompanhados por violncias, a expanso do Isl na frica tropical
antes revestiu a forma de uma chegada cada vez maior de mercadores. Por outro
lado, a pretensa simplicidade do Isl em relao ao cristianismo fundamenta-
-se mais em um julgamento de valor baseado no preconceito do que na anlise
objetiva das duas religies.
   Podemos resumir dizendo que o Isl deveu sua expanso s novas condies
econmicas e sociais, direta e indiretamente criadas pela expanso comercial e
poltica do Imprio rabe, correlativamente aos mecanismos internos de evolu-
o das sociedades africanas56.


     Traos fundamentais da evoluo das formaes
     sociais africanas do sculo VII ao XI
   Trs traos essenciais caracterizaram as transformaes sociais do perodo: os
grandes movimentos populacionais, a acelerao do processo de diferenciao
social sob o efeito dos progressos da diviso do trabalho e o desenvolvimento
da luta de classes manifestado pelas revoltas e guerras civis em alguns Estados.

     Os movimentos populacionais
    Eles modificaram notavelmente a geografia humana do continente. Qual-
quer seja a concluso das discusses sobre as migraes bantas, constata-se que o
movimento desse povo atravs da frica Central, Oriental e Austral prosseguiu
no decorrer da poca que aqui nos interessa57. As turbulncias polticas que
marcaram os primrdios da conquista rabe e, sobretudo, o desenvolvimento
do comrcio transaariano levaram ao rechao para o Saara de vrios grupos
berberes. Foi talvez a presso desses recm-chegados que provocou o xodo de
algumas populaes negras como os proto-ulofes e os sereres do Tgant (Mau-
ritnia) para o sudoeste (Senegal Ocidental). Os dioula (negociantes) sonin-
qus de Gana, intermedirios do comrcio transaariano, fundaram uma srie
de metrpoles comerciais no Nger e em seus afluentes, cujas mais prsperas



56   Ver os captulos 3 e 4 acima.
57   B. A. OGOT (org.), 1974; ver tambm os captulos 5 e 6 acima.
876                                                                            frica do sculo VII ao XI



seriam Dia e Djenn58. A populao da costa oriental da frica e de Madagascar
cresceu em decorrncia da chegada de ondas sucessivas de migrantes vindos da
Arbia, da ndia, da sia Oriental e da Indonsia59.

      A acelerao do processo de diferenciao social
    Tal processo teve sua origem em uma diviso do trabalho maior decorrente do
desenvolvimento das trocas. Nesse mbito, o fato de maior destaque foi a emer-
gncia, no Magreb e no Sudo, de uma classe de negociantes profissionais espe-
cializados no comrcio inter-regional. Esses comerciantes conseguiram superar
suas diferenas raciais (berberes, rabes, judeus, negros) para constiturem-se em
verdadeira classe consciente de seus interesses. Os negociantes ocupavam uma
posio econmica dominante no seio das sociedades e chegaram a almejar o
poder poltico ou, ao menos, a usar os Estados como simples instrumentos de
polcia destinados a garantir a segurana das transaes.
    Quanto  aristocracia militar detentora do poder poltico, as trocas com o
exterior permitiram-lhe adquirir novos meios de dominao (armas e cavalos
para os Estados sudaneses, ouro para os Estados muulmanos) que tenderiam
a reforar seu domnio sobre o povo. Deste modo, na maioria desses Estados,
uma linha de demarcao cada vez mais distinta separava os beneficirios do
comrcio (aristocracia e negociantes) das camadas populares (camponeses, arte-
sos das cidades). A consequncia geral do desenvolvimento do comrcio foi a de
desbaratar as estruturas sociais fundadas no parentesco e na etnia em proveito de
uma nova ordem social baseada na propriedade dos meios de produo (a terra
nos Estados magrebinos) e de trocas.  provvel que a formao do Zimbbue,
a partir do sculo XI, a constituio do reino do Congo, que durou at o sculo
XIV, e a dos Estados haussas foram influenciadas, em diversos graus, pelas trans-
formaes em curso na costa oriental da frica, no Egito e no Saara, a partir
do impulso do comrcio do Oceano ndico, do Mar Vermelho e do Mediter-
rneo. Uma verso recente da lenda de Sunjata, o famoso imperador mande do
sculo XIII, atribui s expedies escravagistas dos prncipes malinqus, com o
conluio dos negociantes soninqus/saracols, o papel de estimulante na gnese
do imprio do Mali60. Porm, contrariamente a vrios autores, pensamos que o



58    B. A. OGOT (org.), 1974; ver tambm os captulos 4, 5 e 21 a 25 acima.
59    W. KAMISOKHO, 1975.
60    Ver Centre d'tudes et de recherche marxiste, 1974, notadamente o artigo de J. SURET-CANALE, 1974.
As relaes entre as diferentes regies da frica                             877



comrcio no foi o principal elemento  origem da constituio desses Estados61.
Apenas acelerou um processo baseado na dinmica interna dessas sociedades,
que haviam alcanado um grau de maturidade permitindo-lhes reagir favoravel-
mente s solicitaes externas. Em particular, o aparecimento de um excedente
devido aos progressos das foras produtivas constituiu a base sobre a qual se
desenvolveu o comrcio com as comunidades estrangeiras. Enquanto isso, os
fenmenos sociais deste perodo resultaram da dialtica da produo e da circu-
lao dos produtos. De qualquer forma, a expanso do Isl durante este perodo
foi a consequncia das interaes da mutao econmica e das transformaes
sociais que agitaram a maioria das regies da frica, e mais especificamente o
Magreb, o Egito, o Saara, a frica Oriental, o Sudo Central e Ocidental. O
Isl e sua doutrina universalista convinham melhor a essas sociedades do que o
antigo politesmo, submetido s particularidades tnicas, e do que o cristianismo
e judasmo, que no dispunham mais de uma fora favorvel  expresso dos
conflitos de interesses entre os diferentes grupos sociais. Assim, o kharijismo e
a revolta de Ab Yazd, bem como outros movimentos messinicos que deses-
tabilizaram os Estados magrebinos durante a poca em foco, representaram, do
ponto de vista social, a contestao da ordem estabelecida e, sobretudo, uma
vontade de pr fim s injustias sociais62. A violncia com que o movimento
almorvida atacou Awdghust, cidade de negociantes muulmanos, explica-
-se menos pelo fato de estes ltimos terem aceitado o domnio de Gana, fiel
 religio tradicional63, do que pela preocupao das massas berberes do Saara
Ocidental em expor a verdade, corrigir as injustias e abolir as taxas abusivas64.
    Nos Estados do Sudo Ocidental e Central (Gana, Gao, Knem), a posio
econmica dominante ocupada pelos muulmanos esteve  origem de seu dom-
nio progressivo sobre o conjunto da sociedade. Em Gana, o imperador escolhia
seus intrpretes e a maioria de seus ministros junto aos muulmanos. Em Gao,
ningum podia reinar sem antes converter-se ao Isl65. Da mesma forma, a
converso de um rei do Mali no sculo XI, sob a influncia de um muulmano
que, com suas oraes, teria acabado com a seca66,  uma indicao da influncia
ideolgica cada vez mais forte dos adeptos do Isl sobre as sociedades sudanesas.


61   C. A. JULIEN, 1952, p. 63.
62   Al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 92.
63   Ibidem, p. 86; ver tambm o captulo 13 acima.
64   Al-Bakr, em J. M. CUOQ, 1975, p. 109, e o captulo 3 acima.
65   Ibidem, p. 102-103.
66   Ibidem, p. 96.
878                                                                                  frica do sculo VII ao XI



O proselitismo de Wr Dyb, rei do Takrr67, constitui outra manifestao do
poder de atrao do Isl. O papel econmico e o prestgio social dos muulma-
nos foram, portanto, as causas determinantes do sucesso de sua religio.

      O desenvolvimento da luta de classes
    O desenvolvimento da luta de classes, e dos conflitos sociais em geral,
desencadeou-se com uma intensidade varivel em funo das peculiaridades
locais e do nvel alcanado pelas relaes de dominao e de explorao dentro
de cada formao social. No que diz respeito ao Magreb, C. A. Julien, A. Laroui
e, em menor medida, G. Marais analisaram as revoltas e os movimentos cis-
mticos do perodo como episdios da luta de classes68.
    Nos Estados sudaneses, o quadro  mais confuso. Mas  provvel que a queda
do imprio de Gana/Wagadu, no fim do sculo XI, foi a ltima consequncia de
um processo de apodrecimento interno. Segundo nossa hiptese, tal apodreci-
mento seria devido aos conflitos que opuseram dois grupos da classe dirigente
ganense: o primeiro, islamizado, estava aliado aos negociantes e o outro era fiel
 religio tradicional e  sociedade rural. As dissenses internas teriam logo se
agravado com a intensificao das contradies entre o conjunto do povo e a
classe dirigente69. Contudo, qualquer seja o valor dessa hiptese, ficou estabe-
lecido que as trocas inter-africanas exerceram influncias contraditrias sobre
as formaes sociais do continente. Em alguns casos favoreceram a integrao
poltica (imprios almorvida e fatmida, e mais tarde, Mali e Songhai); em
outros, ao contrrio, levaram  desintegrao de estruturas estatais herdadas das
pocas anteriores (Gana, imprio cristo da Etipia).


      Concluso
   O perodo do sculo VII ao XI marcou uma etapa singular na histria do
continente africano. O estado de nossos conhecimentos no permite abranger
todos os aspectos dessa evoluo. Todavia, podemos afirmar com certa segu-
rana que a expanso do Imprio rabe foi um dos principais elementos dessa
evoluo. O estudo das relaes de trocas e da difuso das tcnicas e das idias

67    C. A. JULIEN, 1952, p. 28; A. LAROUI, 1970, p. 91-92; G. MARAIS, 1946, p. 34-44.
68    Ver A. BATHILY, 1975, p. 34-44.
69    Ver as discusses a esse respeito em: Centre d'tudes et de recherche marxiste, 1974, e particularmente J.
      SURET-CANALE, 1974; C. COQUERY-VIDROVITCH, 1974.
As relaes entre as diferentes regies da frica                                                         879



acima proposto permite-nos fazer duas observaes fundamentais que podem
servir para caracterizar o movimento histrico das sociedades africanas da poca.
    Em primeiro lugar, a economia africana em seu conjunto permanecia uma
economia de subsistncia em que as normas de produo obedeciam quelas do
consumo. Os produtos eram trocados em funo no de seu valor de troca em
si, mas de seu valor de uso. As relaes econmicas entre as diferentes regies
baseavam-se na complementaridade entre suas respectivas produes, produes
estas mais submetidas do que hoje s condies naturais, em virtude do baixo
nvel das foras produtivas. Contudo, a comparao das diferentes formaes
sociais mostra que seu desenvolvimento se deu de forma desigual. Tal desen-
volvimento desigual  atestado pelo fato de algumas sociedades terem atingido
um processo muito avanado de diferenciao social, com uma estrutura econ-
mica bastante elaborada, tendendo  constituio de uma economia de mercado
(Magreb, Sudo), ao passo que outras comunidades ainda permaneciam no est-
gio da colheita ou da caa em bando. Da a dificuldade do historiador em definir
um modo de produo especfico  frica considerada em sua globalidade70.
    Em segundo lugar, a anlise das formaes sociais concretas esboada neste
captulo leva a uma constatao de maior importncia. Do sculo VII ao XI,
graas ao progresso da integrao econmica das economias regionais, a frica
foi capaz de sustentar a maior parte de suas necessidades, tanto em produtos
de primeira necessidade quanto em artigos de luxo. No quadro da economia
"mundial" da poca, formada pelo sistema mediterrneo e o do Oceano ndico,
a frica ocupava um lugar preponderante, principalmente em razo de suas
exportaes de ouro.




70   Ver as discusses a esse respeito em: Centre d'tudes et de recherche marxiste, 1974, e particularmente J.
     SURET-CANALE, 1974; C. COQUERY-VIDROVITCH, 1974.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                 881



                                       CAPTULO 28


                A frica do sculo VII ao XI:
                  cinco sculos formadores
                                   Jean Devisse e Jan Vansina




    Introduo
   A pesquisa histrica dos trinta ltimos anos ensinou-nos, especialmente
no que diz respeito  frica, que no se pode aplicar, sem perigo, mode-
los uniformes ou periodizaes automticas, principalmente no que tange
 poca aqui estudada. At os grandes limites escolhidos para o presente
volume  os sculos VII e XI da Era Crist  so legitimamente question-
veis. O primeiro possui obviamente um real alcance para a parte setentrional
do continente, onde surgiu o Isl, ao menos a partir da segunda metade do
sculo; para outras regies tambm, sem nenhuma referncia ao Isl, nas
quais os sculos VI e VII correspondem, no estado atual das pesquisas, 
emergncia de novos fatores que se desenvolveriam nos sculos seguintes,
como  o caso para a frica Central e Austral; vale tambm lembrar que
essa mesma data  o sculo VII ou o sculo I aps a hgira  era outrora
considerada muito significativa para a frica do Oeste; hoje no  mais o
caso, j que a pesquisa "ganhou" aproximadamente um milnio: os fundamen-
tos das grandes evolues estudadas neste volume situam-se, na frica do
Oeste, no primeiro milnio, qui no segundo, antes da Era Crist1. O mesmo

1    Trabalhos recentes mais significativos: S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b; J. DEVISSE,
     1982.
882                                                         frica do sculo VII ao XI



ocorre quanto ao sculo XI. Muito significativo para a frica do Oeste, onde
marca a radicao do sunismo maliquita e uma clara modificao das relaes
de fora entre muulmanos e no-muulmanos, provavelmente no tenha a
mesma importncia em outras regies do continente. Contudo permanece a
impresso de que aps 1100 um novo mundo criou vida em algumas partes
do continente, com a florescncia das cidades iorubas, das cidades da costa da
frica Oriental ou ainda com o surgimento do imprio do Mali, por exemplo.
Os sculos seguintes assistiram  consolidao de reinos na frica Central, ao
aparecimento de reinos novos na frica Ocidental e  expanso de pastores
como os khoi, os fulbes e os bakkra.
    Tentou-se muitas vezes encontrar alguns traos gerais para caracterizar o
conjunto da evoluo continental durante esses cinco sculos. Nenhum deles
resiste a um exame minucioso do conjunto do continente ou de qualquer uma de
suas partes. Nem a expanso muulmana, to caracterstica ao norte do equador,
nem o que foi chamado de "segunda Idade do Ferro", sobre a qual voltaremos
adiante, constituem marcos gerais indiscutveis.
    Essas simples constataes devem nos incitar  prudncia: a pesquisa avana
a passos largos e cada uma de suas descobertas pe em xeque o calidoscpio de
nossas certezas anteriores; no h dvida de que esse fenmeno ir se acentu-
ando nos prximos anos. Deste modo, as concluses que podemos hoje tirar da
anlise desses cinco sculos so no mnimo hipotticas e frgeis, e obviamente
provisrias. Convm, todavia, prop-las  reflexo dos pesquisadores e dos lei-
tores. Cabe tambm repetir que, durante esses cinco sculos e pela primeira vez
com tanta clareza, podemos acompanhar, com toda a cautela metodolgica e
as nuances regionais imprescindveis, uma srie de evolues comparveis no
conjunto do continente.
    Ao longo dos sculos, a distribuio geogrfica das principais configura-
es socioculturais da frica estabilizou-se e tomou forma. Vislumbramos o
amadurecimento de economias, de formaes sociopolticas e de representa-
es coletivas que formariam o substrato do movimento histrico posterior.
Durante esses sculos prosseguiu uma lenta germinao que explicaria a flo-
rescncia a seguir.
    A primeira caracterstica geral notvel, que por vezes teve sua origem bem
antes do sculo VII em algumas regies,  a organizao de espaos de seden-
tarizao onde a produo agrcola se tornou dominante. O desenvolvimento
das tecnologias constitui um segundo fato de maior destaque: ele acarretou
uma explorao aprimorada dos recursos, a diviso do trabalho e o crescimento
das trocas. A complexidade dos poderes torna-se legvel para o historiador, ao
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                  883



mesmo tempo em que se esboam as representaes coletivas, as religies, as
ideologias e o conjunto dos meios de expresso cultural que delas garantiriam a
reproduo e a transmisso para as geraes seguintes.


    A organizao sedentria do espao
    A sedentarizao no constituiu em si um progresso, como tambm no se
ops, como muitas vezes se afirmou,  liberdade dos pastores semi-nmades
ou nmades, nem  vida aleatria dos caadores-coletores. De forma geral, ela
resultou evidentemente de uma nova relao com o meio, tornada necess-
ria pelas mudanas climticas, quase sempre desfavorveis, pelo crescimento
demogrfico e pela crescente complexidade das sociedades que buscavam orga-
nizar seus territrios. Ao que tudo indica, a sedentariedade avivou a progresso
demogrfica e favoreceu a diviso do trabalho. Tornou tambm mais necessrio
o progresso da agricultura. Tal progresso, que corresponde a um aumento da
quantidade de trabalho necessrio para a produo de alimentos, constitui a
melhor estratgia de sobrevivncia inventada pelos grupos humanos, tanto na
frica quanto em outros continentes, mas no encontrou em todo lugar as
condies imprescindveis para permitir seu impulso. O estudo das transfor-
maes ocorridas nesta poca apenas est comeando e ainda no alcanou
resultados claros para todo o continente. Porm, em todos os lugares em que
estudos foram realizados (principalmente graas aos arquelogos), eles revela-
ram a importncia da pesquisa quantitativa quanto aos modos de alimentao
e o interesse  em quantidade, natureza e qualidade  das variaes observadas
nos vestgios alimentcios.

    frica Central e Austral
   A expanso banta findou-se verdadeiramente por volta do sculo VI2. Nas
regies em que o permitiam as condies climticas, o subcontinente foi desde
ento ocupado por agricultores. Complexos apropriados de produo de ali-
mentos implantaram-se. Nas florestas da frica Central foi desenvolvida uma
tcnica agrcola baseada em um campo arroteado por ano. Ali se cultivavam
inhames, bananas e legumes. O cultivo apenas era um dos elementos de um


2    J. VANSINA, 1984, D. W. PHILLIPSON, 1977a; T. N. HUFFMAN, 1982, p. 133-138 e captulo 6
     acima.
884                                                                                frica do sculo VII ao XI



complexo em que a armadilha e a colheita conservavam uma grande impor-
tncia. No sul da floresta, nas savanas onde incidia a mosca-ts-ts3, o sistema
agrcola era baseado em dois campos por ano: um, arroteado, na galeria florestal,
e outro na savana. Os cereais dominavam e o complexo era completado pela caa,
mais do que pelas armadilhas, ao passo que a colheita somente constitua uma
atividade complementar. Na frica Oriental e do Sudeste, bem como na parte
meridional frica Central, a produo de alimentos era fundada na criao de
gado e na agricultura de cereais cultivados na savana, os principais plantios sendo
o milhete, o sorgo e a eleusine, de acordo com as condies locais de umidade.
As atividades de caa, de armadilha, de colheita ou de pequena pesca eram
menos importantes do que na frica Central. Como em muitas outras regies,
a criao de rebanho prevalecia nas regies mais secas, como em Botsuana, na
Uganda Setentrional e no Sudo Meridional, bem como nas regies adjacentes
ao Qunia. Todavia, no sempre se tratou da perpetuao de velhos hbitos de
criao. Progressos espetaculares estavam em curso, aps 800, no que diz respeito
 criao de bovinos. Por volta de 600, modos de vida exclusivamente pastoris
usando bovinos apenas existiam no Chifre da frica, no Sahel, nas margens do
Saara (principalmente na Mauritnia?) e provavelmente em uma zona que se
estendia do Sudo Meridional ao leste do Nilo Branco, at a Tanznia Central.
Porm, a partir do sculo IX se desenvolveu no Botsuana uma nova variante do
complexo econmico4 da frica do Sudeste. A criao de rebanho tornou-se
primordial. Seria preciso alguns sculos para desenvolver um sistema pastoril
permitindo a ocupao pelos khoi, na Nambia e na provncia do Cabo, de todos
os stios favorveis  criao de animais. Acabariam conseguindo no decorrer
da poca seguinte.

      frica Oriental
   Na frica Oriental lato sensu, o movimento histrico de expanso pastoril
provavelmente fosse ligado  difuso das raas bovinas de cupim (zebu e sanga),
melhor adaptadas ao calor seco que as outras. Tais raas, conhecidas h muito
tempo no Egito e em Axum, encontravam-se tambm na Nbia crist. Porm,
no estado atual das pesquisas, somente foram atestadas na regio do Nilo Branco



3     Seria necessrio retomar em detalhes a pesquisa sobre a mosca-ts-ts, do ponto de vista histrico. Ver
      J. FORD, 1971.
4     J. R. DENBOW, 1979a, 1984.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                885



e do Chifre da frica aps 1200. Certo autor5 liga a expanso dos pastores nil-
ticos  aquisio desse tipo de bovinos aps 1200 e v tambm nisso o motor
da expanso, ainda aps 1200, dos massais na frica Oriental e dos bakkra de
expresso rabe no Sahel niltico. Mas a raa sanga, encontrada at na frica
do Sul onde deu origem a outra raa,  mais antiga do que a raa zebu6. Teria
se difundido no decorrer dos sculos aqui estudados e talvez tivesse a ver com
a expanso khoi. Toda essa questo ainda h de ser aprofundada e  de prima
importncia, j que, alm dos casos mencionados, essa raa teria desempenhado
um papel na instalao de pastores na regio dos Grandes Lagos ocorrida no
perodo em foco7 e, sobretudo, teria levado a um uso mais intensivo de todas
as terras ridas da frica do Leste. A frica do Sudoeste, seca demais para a
agricultura, no sofreu mudanas muito profundas, embora a criao de ovinos
tenha sido ali praticada desde o incio da Era Crist.

    frica Ocidental
    A frica Ocidental passou por uma evoluo ao mesmo tempo compar-
vel e diferente. Nas zonas florestais e nas savanas ricas ocorreram fenmenos
comparveis queles que acabamos de mencionar. O crescimento demogrfico
talvez j tenha sido acompanhado por uma perigosa destruio das coberturas
florestais. As poucas indicaes de que dispomos para a Serra Leoa e a Libria
permitem pensar que agricultores foram os primeiros ocupantes da regio. Nas
florestas do Benin (Nigria), o avano dos agricultores nas zonas florestais 
muito bem documentado8.
    Nas zonas de savana mais seca e na zona saheliana, a evoluo do clima j
comeara alguns sculos antes. Essa piora teve efeitos, localmente, durante o
perodo tratado pelo volume II da Histria Geral da frica e o que acabamos de


5    N. DAVID, 1982a, p. 86-87; 1982b, p. 54-55.
6    A respeito dessa raa, ver H. EPSTEIN, 1971. Vestgios de trax pertencentes  raa sanga e datados
     de aproximadamente +1000 foram descobertos em Tsodilo, no noroeste do atual Kalahari; ver J. R.
     DENBOW, 1980, p. 475-476. Algumas estatuetas representando um boi de cupim, provavelmente sanga,
     datam do stio de Klamomo (Zmbia) (aprox. 1000). Alegou-se tambm que o zebu estava presente em
     Madagascar bem antes do ano 1000. Ver planta Z1, fig. 1, em B. M. FAGAN E J. NENQUIN (org.),
     1966. Ver tambm J. O. VOGEL, 1975, p. 91, fig. 93, e comparar com as outras figuras da pgina; B. M.
     FAGAN, 1967, p. 65-70, ilustrao 67. A respeito do ANDROY (Madagascar), ver C. RADIMILAHY,
     1981, p. 63.
7    Se identificarmos sua chegada com a mudana de estilo na cermica, poderamos datar tal chegada no
     sculo VIII. Ver F. van NOTEN, 1983, p. 62; M. C. van GRUNDERBECK, E. ROCHE e H. DOU-
     TRELEPONT, 1983a, p. 44; 1983b.
8    P. J. DARLING, 1979.
886                                                                                frica do sculo VII ao XI



abordar. Embora no conheamos ainda em detalhes a maneira segundo a qual
as coisas ocorreram,  geralmente admitido que houve um lento deslizamento
do nordeste para o sudoeste ou o sul de povos em curso de sedentarizao e de
domesticao das plantas. Onde no existiam as reservas de gua constitudas
pelas bacias fluviais, elas tambm em curso de organizao desde milnios9, esses
povos seguiram as chuvas, em busca das condies necessrias a uma verdadeira
agricultura. A complexidade das formas de instalao nas plancies aluviais do
Senegal e do Delta do Nger est se contextualizando lentamente. Por mlti-
plas razes, no todas econmicas ou climticas, essas duas terras cercadas por
rios tornaram-se, antes da Era Crist, lugares de maior densidade humana e de
maior complexidade econmica10.  seca progressiva das regies situadas entre
a margem norte dos dois rios e o Saara, acompanhada pela seca dos poos11, o
recuo dos agricultores, sua substituio por pastores e, mais tarde, por cameleiros,
correspondeu uma verossmil "densificao" nas terras ainda bastante regadas ao
sul dos dois rios.
    Estamos hoje em condies de desenhar os contornos de algumas zonas
caractersticas. O Sahel era o domnio da criao de rebanho, onde as popu-
laes se alimentavam de leite e praticavam a colheita de gramneas e a caa
para completar sua alimentao; o cultivo s era possvel quando os lenis
freticos permitiam o uso de poos e a irrigao. A pesca, presente no Neo-
ltico12, sumira em toda parte, e essa mudana radical tirou das populaes as
bases mais constantes e abundantes de sua alimentao. Apenas reencontra-
remos a pesca nos vales dos rios. Talvez o "gosto pelo peixe" tenha levado 
compra, na zona saheliana, de peixe desidratado ou defumado vindo do sul,
mas nenhuma prova arqueolgica ainda permite afirm-lo. A prpria caa
provavelmente no fornecia recursos suficientes para populaes em expan-
so demogrfica13. As importaes tornaram-se necessrias quando diversos
imperativos econmicos obrigaram as populaes a viver em um meio insu-
ficientemente produtivo14.


9     J. DEVISSE, 1985.
10    Atlas national du Sngal, 1977, mapa 18 e comentrios.
11    No sculo XII, al-Idrs ( J. M. CUOQ, 1975, p. 147 e p. 152) precisa  alis, no se fala o suficiente a
      esse respeito  que ao norte do arco do Rio Senegal "existem rotas cujos pontos de referncia no so
      mais conhecidos e cujo traado se apaga em razo da escassez de viajantes. A gua adentra cada vez mais
      profundamente no solo (grifos nossos)..."; a arqueologia confirmou essa informao.
12    V. ROUX, 1980.
13    A. HOLL, 1983.
14    Al-BAKR (1913, p. 158) fornece informaes sobre tais importaes.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores         887




Figura 28.1 a a g As diferentes raas de gado na
frica (Fonte: Museu Real da frica Central).
28.1a Rebanho de vacas Afrikaander em Lubumba
(Lomami, RDC).
28.1b Touro pie-noir de raa lugware no campo de
Aru (RDC).
28.1c Touro de Ruanda, com sete anos de idade
e peso de 550 quilos (peso raramente alcanado na
regio).
28.1d Bezerra cruzada Devon & Afrikaander.
28.1e Touro ndama em Kisamba Kivu, RDC.
28.1f Bezerra Jersey em Kasese (Shaba, RDC).
28.1g Rebanho de vacas Friesland (Companhia de
pecuria e alimentao no Katanga), Shaba, RDC.
                                                         (a)




                                               (b)       (c)




                                               (d)       (e)




                                               (f)       (g)
888                                                                                  frica do sculo VII ao XI



    Os vales so espaos de organizao complexa, em faixas paralelas ao longo do
rio, onde os territrios foram provavelmente acirradamente disputados conforme
o crescimento do nmero de habitantes, da diviso do trabalho e da organizao
dos poderes. As guas eram o domnio de uma antiga e slida implantao de
pescadores15: no sculo VII, eles certamente j praticavam a desidratao  qui a
defumao  e a exportao do peixe16. As guas forneciam muitos outros elemen-
tos nutritivos: tartarugas, conchas, carne de hipoptamo e de crocodilo17. Depois
vm as longas faixas estreitas e complementares de cultivos de estiagem e de cul-
tivos mais difceis  medida que se afastam da gua, zonas estas de sedentarizao
por excelncia, desde sculos, no incio de nosso perodo18. Ao acompanharmos o
processo de instalao dos agricultores nas terras menos secas, constatamos que
ele constituiu um fator importante de destruio do meio ambiente, em razo da
prtica do arroteamento em grande escala19.
    Ao se afastar alguns quilmetros da zona privilegiada das bacias fluviais  em
particular do imenso delta interior do Nger , encontramos vestgios de formas j
muito elaboradas de organizao da agricultura, poupadoras de gua e capazes de
usar todas as plantas teis  vida. Embora todos os elementos dessa sbia agricultura
no fossem ainda implantados  ainda nos faltam pesquisas arqueolgicas a esse
respeito  antes do sculo VII, parece muito provvel que muitas dessas tecnologias
finas de explorao do solo, que mais tarde sustentariam "etnias" muito famosas,
como os sereres, j estavam em curso de organizao entre os sculos VII e XI.
    Na medida em que foram progressivamente abandonadas pelos agriculto-
res em razo da escassez das chuvas, as terras situadas a norte dos rios foram
transformadas em pastagens. A expanso dos peul nessas zonas a partir do atual
Senegal comeou verossimilmente no sculo XI ou, talvez, mais cedo; talvez
estivesse ela tambm ligada  aquisio de zebus.

      Saara
   Durante os dois ou trs milnios precedentes, aos poucos, o Saara e suas bor-
das setentrional e meridional foram abandonados pelos homens, que os recursos


15    G. THILMANS e A. RAVIS, 1983; J. GALLAIS, 1984; S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH,
      1980b.
16    S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b, para Jenn-Jeno.
17    Al-BAKR (1913, p. 173) descreve muito bem a caa do hipoptamo pelos ribeirinhos do Senegal.
18    O cultivo do arroz (Oryza glaberrima)  atestado pelas escavaes de Jenn-Jeno. Resta saber se se tratava
      de arroz irrigado ou de cultivo seco.
19    B. CHAVANE, 1985.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                      889



em regresso no conseguiam mais sustentar. A introduo do camelo nessas
regies constituiu, desde o sculo III da Era Crist, uma revoluo na rea dos
transportes, como tambm naquela da alimentao20.
    O espao geogrfico da imensido do Saara e de suas bordas foi totalmente
reorganizado. Os osis no eram mais os nicos pontos de ocupao. Eles se
tornaram pontos de apoio em sistemas de transumncia que usavam todos os
eixos ricos em poos. A adoo do camelo permitia o transporte de cargas pesa-
das em longas distncias, o que se deve levar em conta em qualquer discusso
referente ao impulso das relaes transaarianas que se deu a partir do fim da
poca bizantina.
    Os grupos de criadores de camelos e de senhores das estradas tomaram,
em alguns sculos, o controle do deserto. Os povos saarianos, em grande parte
berberfonos, comearam a desempenhar um papel ativo de um novo tipo,
aps alguns sculos de entorpecimento e a migrao de parte deles rumo s
margens do deserto. Esse novo impulso dos senhores do deserto, ao coincidir
com o crescimento da demanda de ouro pelos Estados muulmanos do Norte,
proporcionaria ao Saara, nos sculos X e XI, uma importncia histrica desde
muito desfalecida. Assim se esclarece, entre outras, "a aventura almorvida".

     frica Setentrional
   Na frica Setentrional, a evoluo dos espaos de produo no  to fcil
de explicar, provavelmente em razo, entre outras, das conseqncias durveis
da antiga implantao urbana colonial. A relao dos campos com essas cida-
des, em suas recusas e revoltas,  em geral mais conhecida que a organizao
das prprias comunidades produtoras. Por exemplo, no momento em que tais
comunidades so mencionadas pelas fontes rabes (sculos X e XI), no mximo
podemos inferir destas que os barghawta do Marrocos estavam dotados de uma
economia coerente, fundada no trigo e capaz de exportar; que o Ss produzia
cana-de-acar  desde quando e em que condies?  no sculo IX; que a
Ifrkiya, no sculo XI, poca pela qual possumos descries, era uma vasta zona
de produo, amplamente voltada para a exportao de seus produtos por via
martima. Porm, faltam escavaes arqueolgicas que nos permitam esboar
construes comparveis quelas de que doravante dispomos para outras regies
do continente.



20   R. W. BULLIET, 1975, p. 111-140.
890                                                                               frica do sculo VII ao XI



    Nas diversas regies dos vales do Nilo, desde muito organizadas, nada com-
parvel e espetacular pode ser assinalado. A, ao menos no Egito, os problemas
de nutrio no eram mais apenas os da produo, mas tambm aqueles do
consumo excessivo das zonas urbanas. A poca em foco viu surgir profundas
crises alimentcias marcando o incio de tempos econmicos novos: alimentar
uma aglomerao como Cairo que, no sculo XI, j possua algumas centenas
de milhares de habitantes, provocou problemas incomparveis com aqueles das
comunidades produtoras/consumidoras da frica Negra21. Essas crises foram
to graves que elas levaram  contestao das polticas do poder  qualquer que
fosse  que dirigia o pas e obrigaram a proceder a importaes de grande escala.
A alimentao dos habitantes do Egito tornou-se uma preocupao do Estado.
Ela acarretou na escala do pas inteiro a necessidade de se adotar uma poltica
de produo, de tributao e de importao: escapa, portanto, quase totalmente
da anlise que esboamos para o resto da frica.
    A descrio que deixou, aps sua viagem  Nbia (aproximadamente + 976),
o enviado dos fatmidas junto ao soberano de Dnkla (Dongola)22, al-Uswn,
mostra bem que se tratava de um espao delimitando duas regies muito dife-
rentes uma da outra. O norte da Nbia, a norte da segunda catarata e do Batn
al-Hadjar, participava da economia egpcia, embora estivesse firmemente domi-
nado pelo poder cristo de Dongola. Ao sul da segunda catarata comeava um
mundo econmico novo23. Os povoados eram numerosos e produtivos, nos diz
o viajante24. Aos poucos, ao se dirigir, no sul, alm das ltimas cataratas, rumo
ao mais afastado reino, `Alwa, entrava-se em uma zona da qual eram ausentes a
palmeira e a videira, mas onde se encontrava o sorgo branco, "que  parecido com
o arroz e com o qual fazem seus pes (?) e sua cerveja"25. A carne era abundante
em razo do grande nmero de rebanhos. O autor chegara s sociedades da
frica Negra, sem ter obtido, apesar de sua curiosidade e de sua misso, quase
nenhuma das informaes por ele desejadas26.

21    A respeito das fomes, ver, por exemplo, T. BIANQUIS, 1980, e o captulo 7 acima.
22    Adotamos aqui a forma rabe desse nome, muitas vezes grafada Dongola. Trata-se de um importante
      stio sobre o qual a arqueologia nos deu recentemente muitas informaes.
23    Al-Uswn (G. TROUPEAU, 1954, p. 282): "No se v mais nem dinar nem dirham (...). As moedas
      vigoram aqum da catarata para comerciar com os muulmanos, mas alm, os habitantes no conhecem
      nem venda nem compra" (sic).
24    G. TROUPEAU, 1954, p. 283: "... ali, ele v palmeiras, videiras, jardins e pradarias onde se encontram
      os camelos".
25    Ibidem, p. 283.
26    A respeito desse perodo, ver W. Y. ADAMS, 1977; sobre `Alwa e as recentes escavaes, ver D. A.
      WELSBY, 1983.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                               891



   No caso da Etipia e de Madagascar, nada nos permite saber, no estado
atual da pesquisa, se evolues comparveis ali se desenvolveram, e se elas foram
anteriores  no caso da Etipia  ou posteriores.

     Movimento das sociedades africanas
    Contraditrio em suas formas de acordo com o lugar e o momento, o movi-
mento geral das sociedades africanas do sculo VII ao XI era voltado, grosso
modo, para a consolidao das situaes anteriores, bem como para o ajuste e
aperfeioamento de complexos de produo de alimentos correspondentes ao
crescimento das necessidades. Durante esses sculos, certamente existiu um cres-
cimento demogrfico natural. Embora tenha sido muito lento e saibamos pouco
a esse respeito, no podemos negligenci-lo. Foi acompanhado por uma cres-
cente degradao, em vrias regies, das relaes com o meio ambiente. Os dois
fenmenos provavelmente se conjugaram para dar origem a lentos movimentos
populacionais, que no corresponderam a migraes, mas que as pesquisas vm
revelando aos poucos. Foi o caso do movimento de volta do Transvaal para o
Zimbbue, que comeou aparentemente no sculo VIII ou XI, e parece ligado aos
efeitos do superpovoamento. Foi tambm o caso, no delta interior do Nger, da
ocupao, nos sculos X e XI, das banquetas altas do vale do rio at ento inex-
ploradas27. Neste domnio, um estudo mais fino das oscilaes climticas acres-
centaria ao nosso conhecimento preciosos complementos: mudanas, mesmo que
moderadas e de curta durao, provavelmente provocaram fenmenos de relativo
superpovoamento ou, ao contrrio, criaram condies momentaneamente mais
favorveis28. Nos ltimos anos, tentou-se, sem resultados decisivos, explicar a
migrao dos ban hill e dos ban sulaym por consideraes ambientais29.
    As novas dinmicas de produo levaram obviamente a mudanas sociais.
Em certa medida, podemos dizer que os principais processos de integrao dos
grupos em sociedades coerentes encetaram nesta poca. Foi, sem dvida, uma
poca de "etnogenia", de absoro de antigos grupos por outros mais amplos e
de relativa integrao lingustica, ao menos localmente, tudo isso provocando
dramas e lutas.



27   R. M. A. BEDAUX, T. S. CONSTANDSE-WESTERMANN, L. HACQUEBORD, A. G. LANGE
     e J. D. van der WAALS, 1978.
28   A explicao climtica foi muitas vezes escolhida para o planalto central do Zimbbue do sculo VIII
     ao XI. Ver captulo 24 acima.
29   Bibliografia em J. DEVISSE, 1972, p. 67-69.
892                                                                               frica do sculo VII ao XI



    Na floresta da frica Central, a especializao de caador-coletor subsistiu e
os caadores mantiveram seu tipo fsico pigmeu. Porm, eles viveram em estreita
simbiose com os agricultores, adotaram suas lnguas e foram absorvidos social
e culturalmente para se tornarem uma "casta" dentro de conjuntos mais amplos.
Na maioria das regies, as populaes autctones foram totalmente absorvidas
antes do fim do sculo XI, como foi o caso no Zimbbue e na Zmbia30. Tal
absoro foi mais lenta em Angola Oriental e nas partes adjacentes  Zmbia,
onde se encontrava, ainda no sculo XV, uma Idade da Pedra Tardia. Nessas
regies, os caadores-coletores recuaram aos poucos, mais especificamente 
medida que as crescentes densidades de populao comearam a influir sobre a
distribuio da caa. Encontrvamo-nos ainda intocados no sul de Angola, nas
terras onde os agricultores de lngua banta no penetraram.
    Na frica do Oeste, comunidades j complexas instalaram-se na borda das
florestas e nas zonas florestais. A organizao de seu territrio associou caado-
res, coletores e agricultores em sociedades mais complexas, onde se elaboraram
redes internas de parentescos fictcios e redes externas de alianas espaciais,
destinadas a garantir a sobrevivncia do grupo graas a um equilbrio regional
das foras. Na zona dos rios, a situao era ainda mais complexa: a produo
fornecia excedentes suficientes para permitir trocas em mdia distncia31, bem
como aumentava a diviso do trabalho entre produtores especializados, embora
se tivessem mantido as antigas complementaridades entre caadores, coletores,
pescadores e agricultores. A natureza dos poderes seria doravante mais complexa.
    Nesses grupos mais sedentrios, enraizados no solo, em meios melhor explo-
rados, at que a presso demogrfica condenasse os grupos a diversas formas de
segmentao, as sociedades africanas desenvolveram novas tecnologias, no s
no que diz respeito  produo alimentcia. A melhoria da moradia tornou-se,
naquele momento, um objetivo bastante claro: a arqueologia das moradias de
terra ainda no revelou muitas das informaes que ela poderia proporcionar. Ao
menos j podemos levar em conta, no que tange  frica Ocidental, as coloca-
es de B. Chavane32 e as de W. Filipowiak33, que pensa  erroneamente, a nosso


30    R. GERHARZ, 1983, p. 26; D. W. PHILLIPSON, 1977a, p. 247-252.
31    S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b. Desde a poca anterior  Era Crist. E, tambm, R.
      HLAND, 1980. Ver tambm, a respeito de Ife, o captulo 26 acima.
32    Por meio da anlise dos solos, B. CHAVANE (1985) demonstrou que o grupo humano cujo habitat ele
      pesquisou, situado na margem esquerda do Senegal, no longe do rio, e que se inscreve, sem dvida, nos
      sculos IX e X, construa casa com paredes de argila. Quanto ao uso da argila em Tondidaru no sculo
      VII, ver tambm P. FONTES e al., 1980, e R. HLAND, 1980.
33    W. FILIPOWIAK, 1979.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                    893




figura 28.2 Casa de tijolo cru: cmodo abobadado (Fonte:  CNRS. La prospection archologique de la valle
du Nil au sud de la Cataracte de Dal, fascculo 2, publicado pelo Centre national de la recherche scientifique,
Paris, 1975).
894                                                                              frica do sculo VII ao XI



ver  que o uso do banco (terra crua) apenas foi praticado em Nani, aps ter sido
introduzido pelos muulmanos, mas que afirma tambm que a partir do sculo
VI, a argila local era usada para preencher grades de madeira e, assim, construir
paredes. Mencionaremos tambm as pesquisas de S. K. e R. J. McIntosh, deci-
sivas no que diz respeito  arte da construo em argila em Jenn-Jeno, antes
de qualquer contato com o Norte34, as descobertas de R. Bedaux sobre a regio
de Bandiagara35 e as concluses de L. Prussin quanto s tcnicas de constru-
o na savana36. Outrossim, evocaremos a descoberta de estruturas construdas
com tijolos crus em Tegdaoust37 e em Kumbi-Saleh38, sendo elas contempor-
neas dos contatos com o Isl, embora existisse, junto aos pesquisadores que as
descobriram, a certeza de as tcnicas empregadas no terem sido importadas.
Nesse domnio como em tantos outros, resta muito a fazer para extrair do solo
africano as informaes de que necessitamos. Basta lembrar que a tcnica das
"abbadas nbias", conhecida desde o Antigo Imprio egpcio39, ressurgiu de
modo espetacular na cobertura de inmeras igrejas dos reinos cristos de Nbia,
nos sculos X e XI, para entender que o estudo da arquitetura africana ainda
h de ser feito, que ele  possvel e tem uma grande importncia histrica40.
As pesquisas sobre os modos de concepo dos espaos de vida representados
pelas moradias proporcionam-nos um acesso direto  histria das tcnicas, mas
tambm quela das sociedades.


      As tcnicas: o interesse de seu estudo
  Resta ainda escrever a histria das tecnologias africanas. Por isso levantare-
mos mais problemas do que respostas. Algumas tecnologias como a cermica, a


34    S. K. MCINTOSH e R. J MCINTOSH, 1980b. Ver tambm R. J. MCINTOSH, 1974.
35    R. M. A. BEDAUX, 1972.
36    L. PRUSSIN, 1981.
37    J. DEVISSE, D. ROBERT-CHALEIX et al., 1983, p. 85-93.
38    S. BERTHIER, 1983.
39    A tcnica, muito peculiar, de construo em "abbadas nbias"  claramente descrita em G. JQUIER,
      1924, p. 303-306. Para a poca crist, encontraremos exemplos em U. MONNERET DE VILLARD,
      1935-1957. Foram recentemente trazidas  ateno dos arquitetos pelos trabalhos de Hassan Fathy; ver
      H. FATHY, 1981, p. 60-61. Recentes escavaes, nos osis de Balat, realizadas pelo Instituto Francs
      de Arqueologia de Cairo trouxeram  luz vastas abbadas desse tipo, datando do fim do Antigo Imprio
      e do Mdio Imprio. A tcnica foi reempregada com xito nos sculos XI e XII para a cobertura das
      igrejas nbias em tijolo cru: Ver E. DINKLER (org.), 1970.
40    J. DEVISSE, 1981b.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                      895



cestaria, o curtume, o trabalho da madeira e da pedra, bem como, talvez, a extra-
o do sal, j eram milenares antes de 600. Nenhuma dentre elas permaneceu
parada, antes ou depois de 600: evidentemente, uma tcnica como a da fabrica-
o das redes de caa, obviamente muito antiga, evoluiu e seria preciso estudar
tal evoluo no Egito, na frica do Oeste e na frica Central, por exemplo, de
acordo com os animais caados, as tcnicas de caa e os tipos de sociedades e
de alimentao. De qualquer maneira, todos os estudos antropolgicos mostram
que existe uma relao entre os mtodos de tecelagem da rede, seu tamanho
e o tamanho das malhas, seu modo de conservao e de uso, de um lado, e as
estruturas socioeconmicas, de outro lado. Porm, somente conhecemos alguns
marcos dessa evoluo milenar, e no suas continuidades. Da mesma maneira,
no conhecemos nada da evoluo das tcnicas de produo do sal, tampouco
das quantidades produzidas e consumidas. Estas variavam certamente em funo
da presso demogrfica, mas tambm das formas de alimentao41.
    Umas das mais urgentes necessidades na historia e arqueologia africana
consiste no estudo meticuloso e detalhado das mudanas tcnicas e das circuns-
tncias que as provocaram ou incentivaram.
    A cermica, os metais e a tecelagem podem servir como exemplos, ainda
muito incompletos, do que esses estudos podem trazer  histria do continente.

     A cermica
    Em algumas regies da frica como o Ar, ao norte do Nger, a cermica tem
mais de nove mil anos42. Seu emprego era ligado a formas cada vez mais acen-
tuadas de sedentarizao, mas no sempre ao surgimento da agricultura. Costu-
mamos, em particular na frica Oriental e Meridional, designar alguns tipos de
cermicas pelo nome do principal stio onde foram descobertos. Quando foram
datadas pelos escavadores em condies satisfatrias, essas cermicas serviram
ento de indicadores para as cronologias sequenciais. Assim, muitas vezes se
ligou o aparecimento de tipos de cermicas ao surgimento das sucessivas idades
do ferro  voltaremos a essa noo  e, por demais vezes,  migrao dos povos
portadores tanto do ferro quanto da agricultura e dessas cermicas43. Hoje, a
tendncia est se invertendo. Os estudos de laboratrios vm completando as


41   Ver J. BERNARD (org.), 1982.
42   M. CORNEVIN, 1982; J. P. ROSET, 1983.
43   Boas informaes em D. W. PHILLIPSON, 1977a. Sobre o abuso de sistematizao a respeito das
     cermicas e da expanso dos falantes de banto, ver P. de MARET, 1980.
896                                                                             frica do sculo VII ao XI



observaes e classificaes formais44. A produo de cermica, qualitativa e
quantitativamente, tornou-se um indicador demogrfico, econmico  que d
informaes sobre a zona de circulao dos objetos45  e tambm cultural. A
srie de revelaes trazidas pela arqueologia nesses ltimos anos  um indcio
do que nos ensinar uma arqueologia mais sria da cermica africana: a desco-
berta das terracotas antropomrficas de Ife, de Owo, depois daquelas de Nok46,
aquelas tambm muito notveis do Alto Nger47, aquelas que comeam a apa-
recer no Nger48, as raras, porm interessantes, peas reveladas pelas escavaes
de Mauritnia49, bem como os vestgios de cmodos e de ptios pavimentados
com fragmentos de cermicas50, constituem os mais espetaculares elementos
de um domnio que a cada dia se enriquece. Tratada como marca da variao
dos detalhes das tcnicas (preparao das massas, cozimento, procedimentos de
impermeabilizao), como indcio das variaes do gosto, mas tambm como
indicador dos objetos disponveis para o enfeite no meio cotidiano dos produ-
tores, como bom indicador de riqueza  toda relativa  e como moblia essencial
cuja posio nos espaos habitados informa muito firmemente os pesquisadores,
a cermica tornou-se um objeto essencial para nosso conhecimento do passado
da frica, especialmente no que diz respeito  poca estudada neste volume. A
partir dela, com efeito, construmos sequncias quase certeiras at nossos dias.
De toda maneira, temos aprendido a tratar essa "mercadoria" de uma forma
diferente do que antigamente, sem esprito de sistema.
    A cermica Leopards Kopje, assim nomeada segundo seu stio-tipo no
Zimbbue, constituiu um dos elementos da criao de uma sociedade muito
mais complexa, levando  formao de um Estado por volta, ou antes, de 90051.
Por outro lado, no sculo VIII, o surgimento da cermica do lago Kisale, em
Sanga, no sul da Repblica Democrtica do Congo, no foi acompanhado por



44    J. DEVISSE, 1981a; D. ROBERT, 1980.
45    A. LOUHICHI (1984) provou, por meio de estudos laboratoriais, que as cermicas eram transportadas
      atravs do Saara, desde as atuais Tunsia ou Arglia at o Sahel. Ver tambm J. DEVISSE, D. ROBERT-
      -CHALEIX et al., 1983.
46    E. EYO e F. WILLETT, 1980, 1982.
47    B. de GRUNNE, 1980.
48    B. GADO, 1980, p. 77-82.
49    J. DEVISSE, D. ROBERT-CHALEIX et al., 1983, p. 188; D. ROBERT, 1980.
50    Sobre esses pavimentos, ver F. WILLETT, 1967, 1971, e G. CONNAH, 1981. Mais recentemente,
      outros exemplos foram trazidos  luz em Burquina e Benin.
51    Ver captulo 24 acima.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                 897




28.3 a e b A produo de estatuetas de terracota existia no territrio da atual Repblica do Nger entre os
sculos VI e X. Exemplo de descobertas feitas em 1983 e ainda no publicadas (Fonte: B. Gado, Diretor do
Instituto de Pesquisas em Cincias Humanas, Niamey).
898                                                                         frica do sculo VII ao XI




figura 28.4 Busto feminino de terracota (escavaes de 1972; sondagem de J. Devisse em Kumbi Saleh).
Engobo ocre (Fonte: IMRS, Nouakchott).
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                              899




figura 28.5 Pavimento em cacos: canto de um ptio trazido  luz em Ita Yemoo, na regio de Ife. A escala
est em ps (Fonte:  Frank Willett).
900                                                                                frica do sculo VII ao XI



semelhante fenmeno52. Pensa-se mais no surgimento de uma comunidade de
pescadores-agricultores de um novo tipo. A nova cermica de Ruanda do mesmo
sculo, ou do sculo seguinte, poderia ser o marco de uma mudana de pouca
amplitude, embora assinalasse o abandono da concentrao das fundies de
ferro. Mas poderia tambm assinalar uma transformao muito mais profunda
decorrente da instalao de pastores especializados na sociedade.




                                                     figura 28.6 Joia filigranada encontrada em Tegdaoust,
                                                     Mauritnia (escavaes Denise Robert; Fonte:    Ber-
                                                     nard Nantet).




      Os metais
   H algumas dcadas, escrevia-se muito sobre a produo dos metais na
frica. Havia discusses acirradas a esse respeito, repousando, contudo, em
informaes mais fragmentrias53.
   O ouro africano sempre foi acompanhado de lendas e de algum tipo de
magia histrica. Hoje sabemos um pouco mais a esse respeito e passamos, enfim,
do imaginrio a avaliaes mais quantificadas54. O atual Zimbbue entrou em
cena nesse momento, ltima das regies produtoras antigas depois da Nbia e
da frica Ocidental. Nesta ltima zona, o ouro aluvial certamente era explo-


52    F. van NOTEN, 1982.
53    No que diz respeito ao ferro, por exemplo, podemos fazer o balano dessas discusses: N. van der
      MERWE defende (1980, p. 500-501) uma histria da "pirotecnologia". Ver tambm o relatrio de J. E.
      G. SUTTON (1984), segundo o qual os fornos de Buhaya j eram diferentes daqueles de Ruanda nos
      primeiros sculos da Era Crist; tal variabilidade tecnolgica encontra-se tambm na regio dos Grandes
      Lagos. Ver tambm P. L. SHINNIE, 1971b; N. van der MERWE, 1980, e J. DEVISSE, 1985a.
54    Encontram-se elementos de informao em vrios captulos deste volume.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                              901



rado, como aquele da Nbia, antes de 600. A demanda talvez fosse local. Talvez
fosse tambm originria do norte do continente, o que, de qualquer maneira,
certamente foi o caso na poca bizantina55. As baixas quantidades indicam que
certamente no se recorria  extrao. Com a implantao dos Estados muul-
manos, um dos primeiros usurios deste ouro sendo, sem dvida, os aglbidas, a
demanda cresceu e, no decorrer de todo o perodo aqui estudado, as exportaes
de ouro foram mais fortes.  extremamente difcil afirmar que uma tecnologia
mineira implicando a escavao sistemtica de poos foi desenvolvida antes do
sculo X, mesmo no caso da Nbia. Podemos pensar que a descoberta cada vez
mais estendida de zonas de busca ativa do ouro nos rios bastou para satisfa-
zer a demanda por muito tempo: por volta de 1100, sabemos hoje que o ouro
das zonas florestais da frica Ocidental tambm era exportado para o Norte.
Temos certeza, graas ao testemunho das fontes escritas, que a escavao dos
poos existia no sculo XIV56; a arqueologia tambm forneceu a prova disso
para o planalto do Zimbbue57. Sendo que o crescimento real da demanda, em
termos de quantidades, data dos sculos X-XI e que ningum nunca mostrou
at hoje que as quantidades transportadas cresceram do sculo X ao XIV, no
 temerrio pensar que a escavao dos poos existia no sculo X. Sem dvida
nenhuma, a longa permanncia das lendas relativas ao ouro encontrado nas
razes das plantas corresponde a certo grau de realidade, se pensarmos na busca
do metal nos rios, mas tambm no desejo de nunca se estender demais sobre as
condies reais e os locais exatos de produo do ouro africano. A fundio do
metal era conhecida nas regies onde era explorado58. Permanece difcil e seria
provavelmente imprudente dizer que tcnicas de ourivesaria no existiam nas
regies produtoras. Podemos provavelmente pensar que a filigrana, to difun-
dida na Andaluzia e na frica do Norte a partir do sculo X, se alastrou pelo
sul a partir dessas regies: joias filigranadas datando do sculo XI ou XII foram
encontradas em Tegdaoust. A filigrana tambm foi usada para objetos em ligas
 base de cobre em Igbo-Ukwu, na Nigria59.



55   Ver T. F. GARRARD (1982), que se baseia na metrologia e numismtica.
56   Al-`UMAR, 1927, p. 81: "O sulto (Mansa Ms) (...) me contou tambm que em seu imprio havia
     populaes pags (...) por ele empregadas para extrair o ouro nas minas. Ele me disse tambm que as
     minas de ouro consistiam em buracos cavados de uma profundidade do tamanho de um homem ou
     quase".
57   R. SUMMERS, 1969.
58   No que diz respeito a Tegdaoust, ver captulo 14 acima.
59   T. SHAW, 1970.
902                                                                           frica do sculo VII ao XI




figura 28.7 Pingentes em cornalina, colares em prolas de cornalina e objetos de vidro provenientes da
cmara funerria de Igbo-Ukwu (Fonte:  Thurstan Shaw).




figura 28.8 Colares de prolas coloridas provenientes do depsito de objetos reais em Igbo-Ukwu
(Fonte:  Thurstan Shaw).
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                        903



    Ao sul do Saara, o cobre, muitas vezes e h muito tempo, concorria com o
ouro como metal apreciado e matria prima de objetos de luxo60. Tambm nesse
domnio, as surpresas multiplicaram-se durante os ltimos anos e a pesquisa fez
enormes progressos. Os locais de produo de minrio e de fundio do metal
eram, no sculo VII  e em inmeros casos muito mais cedo , mais numerosos
do que se pensava antes. A Mauritnia, o Nger  ainda o Ar , a Copperbelt
(cinturo do cobre) (Repblica Democrtica do Congo e Zmbia), o Transvaal
(Phalaborwa), produziram e exportaram cobre durante todos os sculos de que
trata esse volume61. O comrcio desse metal, atestado pelas fontes rabes dos
sculos X-XII e por algumas descobertas arqueolgicas, levava certamente ao
sul do Saara cobres e ligas  base de cobre vindos do Norte. Porm, a imagem
que hoje podemos ter desse comrcio  muito mais complexa do que antes. No
podemos mais admitir o que ontem constitua um dogma, isto , que os produtos
e tcnicas fossem exclusivamente oriundos do Norte. Na frica Central, o cobre
tornou-se uma moeda padronizada a partir de 900 e, embora no tenhamos
ainda encontrado joias ou emblemas em cobre no Transvaal, a mina de Phala-
borwa produzia esse metal e certamente no era a nica a faz-lo. As tcnicas
de extrao parecem ter se limitado  escavao de poos e galerias horizontais.
Os sistemas de galerias profundas eram raros, tanto para o cobre quanto para o
ouro, essencialmente em razo da subida dos lenis freticos aps as estaes
de chuva. Sabia-se fundir o cobre muito antes da Era Crist na Mauritnia e
no Ar e, nos sculos V-VI, na Copperbelt. Moldes usados na tcnica de cera
perdida foram encontrados em escavaes de Tegdaoust (Mauritnia) e datam
dos sculos VII-IX62. Procedimentos muito adaptados aos diferentes tipos do
metal forem reconhecidos em Igbo-Ukwu, onde a cera era substituda por ltex
de eufrbia63. Hoje, tudo nos permite dizer que a metalurgia do cobre e de suas
ligas era perfeitamente dominada na frica tropical dos sculos VI, VII e VIII.
Martelagem, repuxado, fundio por moldagem em cera perdida, todas essas
tcnicas eram praticadas com o metal apropriado: bronzes  base de zinco ou
chumbo, lato  o estanho provinha provavelmente do centro da atual Nig-
ria  forneciam uma gama conhecida e usada de forma apropriada de metais


60   E. HERBERT, 1984.
61   Importantes esclarecimentos recentes: N. ECHARD (org.), 1983. Consultamos tambm com muito
     interesse os recentes trabalhos de D. GREBENART. No que tange a Upemba, na Republica Democr-
     tica do Congo, ver tambm P. de MARET, 1981.
62   D. ROBERT, 1980, ser publicado. Ver D. ROBERT-CHALEIX, a ser publicado em 1989.
63   O que deixa supor uma pr-adaptao do mtodo na zona saheliana, rica em eufrbia.
904                                                                              frica do sculo VII ao XI



diferentes para a produo de objetos diferentes. At as soldas eram efetuadas
de acordo com as qualidades conhecidas dos diversos metais.  preciso notar
de passagem que alguns cobres e as ligas da frica Ocidental eram fortemente
arseniados, o que constitui provavelmente um importante indcio da proveni-
ncia dos objetos encontrados no decorrer das escavaes64.
    Contrariamente a todos os antigos preconceitos, a existncia de uma meta-
lurgia do cobre antiga e bem dominada hoje se impe. Ela no leva a excluir
tipos muito diversos de relaes com as metalurgias mediterrneas ou asiticas
e, sem dvida, muitas revises ainda se imporo aos nossos esquemas mentais 
medida que a pesquisa de laboratrio, em particular, tornar mais slidos nossos
conhecimentos.
    Com o ferro no  diferente. No passado, construiu-se uma cronologia, que
se esperava usar para todo o mundo negro, de duas idades sucessivas do ferro,
a "segunda idade" aparecendo justamente durante os sculos aqui estudados.
Tentara-se mostrar que diferenas significativas marcariam a passagem da pri-
meira para a segunda idade: em particular, um aumento das quantidades pro-
duzidas, uma melhoria e diversificao das qualidades, bem como o surgimento
de novos modos de instalao, que levariam  produo de cermicas "caracte-
rsticas". Pesquisas mais recentes mais uma vez derrotaram esse "modelo"65. 
provavelmente perigoso continuar falando dessas duas sequncias bem distintas,
sobretudo para o conjunto do continente, e mais uma vez ser preciso introduzir
nuanas nas anlises66 e admitir a heterogeneidade dos fenmenos, bem como
a diversidade das datas significativas segundo as regies. A histria do ferro na
frica permanece ainda muito pouco conhecida, apesar dos estudos aprofun-
dados a respeito de alguns stios metalrgicos da frica Ocidental e Oriental
e de Phalaborwa67. Diferentes tipos de ferro podiam ser produzidos, mas no
sabemos at que ponto a produo era controlada, nem como os diferentes
procedimentos, da extrao at o produto final, evoluram, comeando pela
fabricao dos fornos. As plantas mudaram, a maneira de us-los mudou, o com-
bustvel mudou, o produto bruto era trabalhado de maneira diferente e todas as
ferramentas necessrias tambm foram desenvolvidas. At a concentrao ou a

64    C. VANACKER, 1983a.
65    Trabalhos recentes muito significativos sobre as razes desse questionamento: P. de MARET, 1979; M.
      C. Van Grunderbeck, E. Roche e P. DOUTRELEPONT, 1983b; mais cedo: P. SCHMIDT, 1978.
66    Seminrio sobre a metalurgia do ferro pelo procedimento direto. Universidade Paris I, EHESS, Paris,
      1983. Atas no prelo. Importantes contribuies africanas foram trazidas nesse encontro. Ver tambm J.
      DEVISSE, 1985.
67    O stio de Phalaborwa situa-se no Transvaal, a sudeste de Mapungubwe e a norte de Lydenburg.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                   905



disperso da indstria so mal conhecidas. Sabemos que em Ruanda e Burundi,
um tipo de forno foi abandonado durante o perodo estudado e que a indstria
foi dispersa. Mas no sabemos bem qual tipo de forno lhe sucedeu, nem quais
foram os efeitos de tal disperso sobre a produo ou a qualidade do produto.
O fato de ter existido, no passado, uma importante atividade tecnolgica 
demonstrado pela distribuio cartogrfica dos tipos de fornos e equipamentos
(foles, martelos, marretas, bigornas, pedras de trefilao, etc.), bem como de
combustvel e de modo de uso68. Todas essas informaes permanecem pontuais,
mal coordenadas entre si, e por isso privadas de seu valor indicativo essencial
em relao  evoluo tecnolgica que adivinhamos, mas conhecemos muito
mal. Sabemos que o ferro era presente em inmeras regies a partir do sculo
VII e que ele forneceu a matria prima de ferramentas (machados, enxadas de
trabalho), de armas (sabres, lanas, armao de flechas, pontas de arpo, facas), de
utenslios diversos (tesouras, agulhas), mas tambm de objetos de adorno (cola-
res, braceletes, anis). Sabemos tambm que, por outro lado, havia uma busca
por acumulao: a prova  fornecida pela presena de barras de metais, muitas
vezes em forma de bigorna, s vezes encontradas em contexto, mas infelizmente
ainda no datadas. As constataes etnogrficas servem pelo menos para colocar
alguns problemas: pergunta-se a que servia o ferro, qual era sua importncia real,
como se situava em relao ao cobre e a outros valores ou joias ou matrias de
troca, regio por regio e poca por poca. Uma histria da metalurgia do ferro
e do uso de seus produtos  certamente destinada a abalar parcialmente muitas
das antigas interpretaes.

     Os tecidos
   H milnios que se pratica a tecelagem no Egito e na Nbia. Aps o incio
da Era Crist, as tcnicas coptas haviam atingido alturas jamais ultrapassadas.
Porm, o algodo, como matria prima, era recente. A planta fora provavelmente
importada em Mero69. Ningum contesta a importncia e irradiao da tecela-
gem egpcia, em particular entre os sculos VII e XI70. Os debates, mais uma vez
muito vivos, versam sobre o desenvolvimento da tecelagem, especialmente com




68   Ver, por exemplo, W. CLINE, 1937, ou L. FROBENIUS e R. von WILM, 1921-1931, por exemplo,
     planta dos foles Heft 1, Blatt 4.
69   W. Y. ADAMS, 1977, p. 331, p. 371 (tear).
70   M. LOMBARD, 1978, p. 151-174.
906                                                                              frica do sculo VII ao XI



a ajuda do algodo, no sul do Saara71. A esse respeito, as fontes e a arqueologia
trouxeram elementos decisivos. O algodo esteve presente nas aldeias do Arco
do Senegal a partir do sculo X72; tecidos costurados a partir de faixas estreitas
foram encontrados em Tellem e datados dos sculos X-XI73.  importante
saber que o algodo e sua tecelagem se difundiram na Etipia e, j por volta de
900, em Moambique Meridional e Mapungubwe74. O algodo foi cultivado e
tecido na frica tropical a partir dos sculos IX e X. Essa tecelagem requeria
elementos decisivos: as fusaiolas para a fiao e os teares. Em ambos esses dom-
nios, as descobertas arqueolgicas ainda so raras e de difcil interpretao. Em
relao aos sculos XIII e XIV, h abundncia de fusaiolas identificadas com
certeza75; no estado atual de nosso conhecimento, elas so muito mais raras nos
perodos anteriores. Quanto aos teares, eles eram diferentes em Moambique,
embora conheamo-nos mal, e na frica do Oeste. Neste ltimo caso, podemos
reconstitu-los graas ao que foi encontrado nas escavaes. O tear estreito de
duas lminas era usado como hoje. Ele permite tecer longas faixas de aproxi-
madamente 30 centmetros de largura e foi talvez introduzido antes de 1000,
certamente a partir do Vale do Nilo76. Durante os sculos seguintes, a tecelagem
e a venda dos tecidos alcanariam uma grande importncia econmica. Elas
geravam produes secundrias como a cultura do ndigo. Portanto  importante
descobrir as origens dessa produo, que fornecia no somente e muito rapida-
mente os novos elementos da vestimenta, mas tambm logo criaria signos de
distino social, bem como valores de troca e de entesouramento.
     importante destacar a fabricao de esteiras e tapetes que, a partir do sculo
IX, alimentou uma forte exportao para o Oriente desde a atual Tunsia, mas
cujas tcnicas de fabricao permanecem pouco conhecidas.
    Na frica subsaariana, no se tecia apenas o algodo77. A palmeira rfia
produz uma fibra que pode ser usada na tecelagem78. Nos locais onde cresce
essa palmeira, na frica Ocidental e Central, sua fibra  tecida em um tear
vertical ou oblquo, bastante largo e com uma nica lmina principal. Porm

71    R. BOSER-SARIVAXVANIS, 1972, 1975.
72    B. CHAVANE, 1980.
73    R. M. A. BEDAUX e R. BOLLAND, 1980.
74    P. DAVISON e P. HARRIES, 1980 (fusaiolas em Mapungubwe, sculos X e XI).
75    No existem diferenas formais evidentes entre algumas fusaiolas antigas e objetos destinados a usos
      totalmente diferentes.
76    M. JOHNSON, 1977.
77    J. PICTON e J. MACK, 1979.
78    H. LOIR, 1935.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                  907




                                                                                                 (b)


(a)




                                   (c)
Figura 28.9 a a c Tecidos descobertos nas grutas de Tellem, no Mali.
Figura 28.9a Desenho de reconstituio da tnica trapezoidal (Z9) proveniente da gruta Z, sculos XII-
-XIII da Era Crist (Fonte: F. Stelling, Institut voor Antropobioligie, Ryksuniversiteit Utrecht).
Figura 28.9b Tnica de algodo trapezoidal (C71-186-I) proveniente da gruta C (sculos XI-XII da Era
Crist (Fonte: G. Jansen, Institut voor Antropobioligie, Ryksuniversiteit Utrecht).
Figura 28.9c Crnio tellem (2337-N51), coberto por uma toca de algodo (C20-2) proveniente da gruta
C, sculos XI-XII da Era Crist (Fonte: G. Jansen, Institut voor Antropobioligie, Ryksuniversiteit Utrecht).
908                                                                               frica do sculo VII ao XI




figura 28.10   Fusaiolas descobertas em Tegdaoust (Fonte: J. Devisse, Tegdaoust III, foto n. 116, p. 508).




figura 28.11   Cuba de ndigo no norte da Costa do Marfim (Fonte: J. Devisse).
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                            909



no sabemos desde quando. No se pode excluir que esse tipo de tear seja mais
antigo que o tear oeste-africano, e tambm no se pode descartar que ele tenha
sido inventado mais recentemente79. Uma das estatuetas de Nok parece portar
um tecido no ombro, mas no temos absoluta certeza que se trate de um tecido.
    O tecido de rfia foi sobretudo importante na frica Central, onde se desen-
volveram, antes do sculo XVI, as tcnicas de seu ornamento em um grau muito
elevado, e onde peas de rfia serviam como moeda. Na zona florestal, mas no
se trata mais aqui de tecelagem stricto sensu, se desenvolveu muito a produo
do tecido de casca de rvore tratada por percusso. Na savana aberta, o couro
permaneceu a matria dominante para a vestimenta. Esses dados contrariam
o argumento afirmando que o avano muulmano teria difundido a prtica da
tecelagem do algodo, como consequncia da vontade de combater a nudez. Esse
raciocnio tornou-se pouco convincente, j que outras tcnicas de fabricao de
vestimentas eram conhecidas.
    Por enquanto basta a demonstrao da importncia de uma histria da
tecnologia e do fato de essa histria permanecer praticamente desconhecida.
Trata-se aqui de uma das principais lacunas da histria africana. Escavaes
combinadas com estudos etnogrficos podero preench-la.

     O sal
    Entre todas as produes cujas quantidades muito provavelmente aumen-
taram durante nosso perodo80, o sal representa um elemento particularmente
interessante. As tcnicas de sua produo e de seu consumo abrangem todos os
temas j abordados. Logo trataremos de sua comercializao. O sal era obtido
a partir das salinas sahelianas, etopes ou orientais, sob a forma de barras de
sal-gema;  abundante a literatura sobre esse ponto81. Ele era tambm obtido
por evaporao da gua do mar e de laguna82, por colheitas de eflorescncias,
como no baixo vale do Sine-Saloum no Senegal, e ainda por procedimentos
muito sofisticados usando as cinzas de plantas xerfilas para extrair o sal por
lixiviao83. Ademais, onde nem o sal-gema e tampouco o sal marinho eram


79   Seria talvez interessante comparar seu estudo com aquele, em curso, do tear de seda encontrado em
     Madagascar.
80   B. M. FAGAN e J. E. YELLEN, 1968; J. E. G. SUTTON e A. D. ROBERTS, 1968; J. DEVISSE,
     1972; D. W. PHILLIPSON, 1977a.
81   Ver, por exemplo, D. W. PHILLIPSON, 1977a, p. 110 e 150.
82   Estudo antropolgico evocativo: J. RIVALLAIN, 1980.
83   L. NDORICIMPA et al., 1981; E. TORDAY e T. A. JOYCE, 1910.
910                                                                           frica do sculo VII ao XI




figura 28.12 Produo de sal, Walata: caravana vinda da sebkhra de Idjl (Mauritnia), com uma carga de
barras de sal (Fonte:  Bernard Nantet).



disponveis, chegou-se a cultivar as plantas produtoras, especialmente nas zonas
pantanosas. Contudo, a superioridade do sal marinho ou do sal do Saara era tal
que ele era exportado em grandes distncias. Em algumas pocas e em alguns
setores, notadamente na Etipia, o sal chegou a ser usado como moeda. Mais
ainda que o peixe fresco ou desidratado e que os moluscos, o sal constitua uma
fonte de renda para os ribeirinhos do oceano; estes o trocavam contra produtos,
de todo tipo, de que necessitavam. Mal conseguimos imaginar a instalao de
populaes na parte salgada do Delta do Nger  e isso provavelmente ocorreu
durante o perodo estudado  sem o aporte de comida e ferramentas do inte-
rior, mas, graas ao sal, tal aporte no representava nenhum problema84. Da
mesma forma, os habitantes do Saara conseguiam os cereais de que necessitavam
trocando-os no Sahel contra o sal de suas jazidas. O exemplo do sal permite-
-nos, portanto, passar de consideraes tecnolgicas  distribuio desigual dos
recursos e ao comrcio que dela resulta.


84    Datas a partir do sculo IX: M. POSNANSKY e R. J. MCINTOSH, 1976, p. 170; O. IKIME (org.),
      1980, p. 68-72.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                        911



     As diversas formas de comrcio
    No que diz respeito a alguns produtos essenciais como o sal e os metais, mas
tambm a objetos de adorno, trocas locais de diversos graus certamente existiam
h muito tempo, e eles eram s vezes transportados em grandes distncias.
    Algumas zonas em que o desenvolvimento tecnolgico era intenso tornaram-
-se lugares de forte produo de matrias primas e de elaborao de produtos
finais, bem como escalas no transporte desses produtos ao longo das redes que
progressivamente se organizaram. Nesses ltimos anos, a arqueologia revelou
totalmente a existncia de tais redes ao sul dos rios Senegal e Nger, a respeito
das quais todas as outras fontes eram mudas85; assim se encontra melhor escla-
recida a gnese de conjuntos polticos como Takrur, Gana ou Gao. No decorrer
dos cinco sculos aqui estudados, o comrcio desenvolveu-se de forma espeta-
cular, destacando-se o comrcio transaariano. Antes do incio de nossa poca
existia certo comrcio interno ao Sahel e, sem dvida, ligaes com o Vale do
Nilo e a frica do Norte, sobretudo por uma rota entre o Lago Chade, o Kawr
e o Fezzn. Os indcios que possumos (metrologia, numismtica, achados na
frica Ocidental) permitem levantar a hiptese segundo a qual foi a adoo
dos transportes por camelo que tornou rentvel o comrcio de grande distncia
atravs do deserto. Mesmo assim, a partir de aproximadamente 800, ocorreu
uma expanso explosiva desse comrcio. O sistema saariano clssico, com as
exportaes de ouro e de vveres para o norte em contrapartida da importao
de sal do deserto e de produtos manufaturados do Norte, implantou-se na poca
em foco86. Esse comrcio estendia-se muito longe ao sul. A partir do sculo
IX, ele provavelmente inundou Igbo-Ukwu com milhares de prolas; esse stio
tambm tinha ligaes com o mar rumo ao sul87. Por volta de 1100, o comrcio
atingiu as bordas da floresta, na regio que mais tarde chamaremos de Costa
do Ouro (atual Gana). Tanto ao norte quanto ao sul do deserto, a expanso do
comrcio transaariano teve grandes consequncias. Entre elas, em primeiro lugar,
o desabrochar das entidades estatais, do Marrocos ao Egito, entre os sculos VII
e XI; o mesmo ocorreu no Sul, do Atlntico ao Chade, no decorrer dos mesmos
sculos. Em seguida,  claro, o comrcio provocou o desenvolvimento de grupos
de mercadores mais ou menos fortemente estruturados e mais ou menos depen-
dentes de poderes polticos.

85   S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1981 ; J. DEVISSE, 1982.
86   Ver captulos 11, 12, 13, 14, 15 e 27 acima.
87   T. SHAW, 1970.
912                                                                                  frica do sculo VII ao XI



    O papel da Etipia no comrcio internacional desmoronou com as impor-
tantes mudanas no grande trfego do Oceano ndico do sculo VI ao VIII:
Adoulis perdeu seu papel e Axum periclitou. A costa da frica Oriental, ao con-
trrio, comeou a se tornar muito mais importante, embora conheamos melhor,
no momento, as etapas de sua transformao depois do sculo XII do que antes.
    A partir do sculo VIII, encontramos rastros de importao da costa soma-
liana at aquela de Moambique Meridional88. Ali tambm o ouro desempenhou
um papel importante, principalmente no sul. Ali tambm o comrcio interna-
cional inscreveu-se no quadro de um comrcio regional vigoroso. Exportava-
-se ouro, marfim, madeira e escravos, bem como alguns produtos de luxo, as
importaes compreendendo por sua vez artigos de luxo como prolas e tecidos.
A troca j era desigual, mas permitiu o desenvolvimento das comunicaes
internas; tenta-se pelo menos comprov-lo para as regies do Limpopo89, onde
esse comrcio acelerou ou reforou a construo de grandes conjuntos polticos.
    Contudo, o avano econmico global e o desabrochar comercial no foram
comparveis em todas as sociedades do continente. Durante esses sculos, a
frica do Norte fez parte do centro de uma economia "mundial". As tecnologias
ali se desenvolveram por difuso de um lado ao outro do mundo muulmano
e, com elas, alguns sistemas de produo, como, por exemplo, a plantao de
cana-de-acar ou de palmeiras-tamareiras90. A criao cultural de um mundo
muulmano e rabe facilitou e intensificou os contatos, mais ainda sem dvida
do que as tentativas de unificao poltica. O Egito, a Tunsia e as primeiras
cidades muulmanas do Marrocos tornaram-se grandes centros de manufaturas
exportando, notadamente, para a frica Ocidental. A frica Oriental ligava-se
de forma ainda mais complexa  economia do mundo muulmano, mas tambm
s economias asiticas da China, da ndia91 e da Insulndia.
    Ao contrrio, existem regies que estiveram pouco ligadas ao comrcio
internacional. A frica Austral e a frica Central so bons exemplos disso,
embora na frica Central, uma zona comercial regional organizada em torno
da Copperbelt tenha se desenvolvido, entrando indiretamente em contato com
o Oceano ndico antes de 1100. Seu dinamismo repousava na troca de produtos

88    Ver captulos 22 e 26 acima, e P. J. J. Sinclair, 1982. A presena de zandj na China e na Indonsia pouco
      aps 700 indica a extenso do trfico, mesmo em uma data anterior quela das cidades encontradas at
      hoje.
89    Ver captulo 24 deste volume.
90    A. M. WATSON (1983) fez o mais recente balano, talvez exagerado.
91    No sculo XII, al-Idrs assinala que o ferro  exportado da costa do atual Qunia em direo  ndia.
      Ver captulo 21 acima.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                           913



dos diferentes meios e das jazidas de sal. Se julgarmos em funo de pocas
mais tardias, trocava-se sal e ferro, peixe e tecidos de rfia, leo de palma e leo
de mbafu, madeira tintorial vermelha, e o trfico geral ia sobretudo do norte ao
sul, atravessando as zonas ecolgicas. Sempre na frica Central, o rio Zaire e
uma parte dos afluentes j serviam certamente de meio de comunicao barato,
embora no tenhamos ainda encontrado a prova disso antes da poca que segue
aquela que nos ocupa.
    O interior da frica Oriental representa um problema. Ainda no encon-
tramos ali rastros de importaes e concluiu-se que no existiam ligaes entre
essas regies e a costa adjacente92. Porm,  difcil acreditar nisso. Talvez essas
importaes tivessem se limitado a sal e tecidos, os produtos exportados sendo,
alm do marfim, outros objetos de luxo, como esses grandes cristais de rocha
apreciados pelos fatmidas93. De toda maneira e na melhor das hipteses, as
relaes com o comrcio intercontinental eram indiretas. Ademais, esse setor
no constitua uma zona regional de comrcio nico. Podemos identificar alguns
pequenos centros de produo (principalmente de sal) que certamente atendiam
reas bastante reduzidas. Mais a norte, na Etipia, o comrcio regional certa-
mente sobreviveu e provavelmente se estendeu junto ao desenvolvimento das
fundaes monsticas e  transferncia do centro do reino em Lasta. A Etipia
Meridional, notadamente Shoa, viu se desenvolver suas ligaes com o exterior
e a implantao de mercadores muulmanos, exportando pela costa do Chifre.
Os reinos cristos do Nilo permaneciam tambm bastante isolados do comrcio
intercontinental. Duas economias muito diferentes ali coexistiam. A primeira,
de auto-consumo, concernia  grande maioria das populaes e no era obriga-
toriamente estagnada, como vimos acima. A segunda tem um duplo motor. Por
um lado, os complexos tratados de trocas com os muulmanos, que forneciam 
corte nbia e aos privilegiados produtos mediterrneos (tecidos, vinhos, cereais)
em troca de escravos94. A busca por esses ltimos tornou necessrio o segundo
aspecto das relaes comerciais com a frica chadiana e as zonas do continente
situadas ao sul da Nbia. A circulao de produes cermicas nbias em Darfur
e Koro Toro, ao nordeste do Lago Chade, comeou a trazer a prova que essas



92   Embora se coloque o problema dos parentescos constatados entre cermicas do interior e cermicas
     costeiras de produo local (ver, por exemplo, H. N. CHITTICK, 1974, sobre Kilwa).
93   Talvez proveniente do planalto de Laikipia, onde so comuns (comunicao pessoal de J. de VERE
     ALLEN).
94   Sobre esse aspecto do comrcio, ver L. TRK, 1978.
914                                                            frica do sculo VII ao XI



relaes existiam.  notvel que al-Uswn, no relato j mencionado,95 no tenha
falado disso, enquanto esse missionrio fatmida mencionou as relaes entre
Dnkla e o Mar Vermelho, a partir do grande arco formado pelo Nilo: "o
hipoptamo abunda nessa regio e da saem caminhos em direo de Sawkin,
Bd, Dahlak e as ilhas do Mar Vermelho96".
    Esse quadro comercial mostra que boa metade do continente j era implicada
em trocas de grande escala e que, na maioria das outras partes, se formavam
redes regionais. Uma verdadeira ausncia de rede, mesmo que regional,  rara,
embora isso tenha acontecido em alguns redutos: Nambia e regio do cabo,
floresta da Libria e, talvez, as regies adjacentes, interior da frica Oriental e
parte das savanas entre Camares e o Nilo Branco. Mas talvez essa impresso
apenas provenha de nossa ignorncia.
    De toda maneira, se comparada  poca precedente, a situao continental
renovou-se totalmente. A integrao do Saara, da frica Ocidental, da costa
oriental e do interior de parte do Zimbbue e do Transvaal em um comrcio
intercontinental era nova, como o era o desenvolvimento das redes regionais de
comrcio. Esse dinamismo comercial foi um primeiro fruto da sedentarizao
e do ajuste dos sistemas descritos. Apesar das incgnitas, sabemos doravante o
suficiente para afirmar que essa poca representa um ponto de partida, na base
do qual as economias e o comrcio, entre 1100 e 1500, desenvolver-se-iam ainda
em intensidade, volume e complexidade. As redes regionais desenvolver-se-iam
e juntar-se-iam, sempre em posio subalterna em relao s reas do comrcio
internacional e, por volta de 1500, quase no sobraria nenhum setor fora de uma
rea comercial regional. Portanto, na poca em foco, comunicaes em vastas
partes do continente construram-se e articularam as paisagens humanas ao
difundir ideias e prticas sociais com os bens trocados.


      As sociedades e os poderes
   Resta tambm escrever a histria social do continente da poca estudada.
No sabemos quase nada do nvel fundamental, aquele da regulao das ligaes
de sangue, da residncia comum e do trabalho comum. At a histria das insti-
tuies que organizam essas relaes, como a famlia, a grande famlia (muitas



95    G. TROUPEAU, 1954. Ver acima.
96    Ibidem, p. 285.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                           915



vezes chamada de linhagem)97, o lar, o casamento e os grupos de trabalho cons-
titudos, permanece desconhecida. Essas instituies deixam poucas marcas nas
fontes escritas ou arqueolgicas. Ademais, elas tm pouca visibilidade, por mais
fundamentais que sejam, em razo de sua prpria permanncia. Essa aparncia
 aquela de dados estveis ligados  natureza humana. Todavia, no  nada disso,
embora muitos pesquisadores tenham sido enganados, como se os cls, as linha-
gens e os casamentos sempre tivessem funcionado dessa maneira.
    As consequncias da diviso do trabalho foram mais visveis, mesmo que o
vocabulrio, aqui tambm, tendesse a nos enganar e a nos levar ao esquema-
tismo. No h dvida nenhuma que a diviso do trabalho progrediu de forma
espetacular do sculo VII ao XI, e que as sociedades se estratificaram. A anlise
e a classificao dos fenmenos ainda pouco avanaram.  relativamente mais
fcil, em algumas zonas do continente, mostrar que surgiram ento fortes dife-
renas de estatutos econmicos e sociais (classes) do que compreender, de outra
forma que pela aplicao de esquemas tericos abstratos, como funcionavam,
nos fatos, as relaes entre tais classes. Havia na frica Setentrional, na Nbia,
na Etipia, aristocratas cuja propriedade fundiria, qualquer seja dela a origem,
constitua a base de seu poder. Na frica do Norte, esta aristocracia agrupava
em torno dela numerosos clientes (mawl). s vezes protegia grupos de no
muulmanos e possua escravos, domsticos, trabalhadores, ou guerreiros. Ela
tinha um poder suficiente para obrigar s vezes os detentores oficiais do poder a
negociar com ela. A situao talvez fosse quase igual na Nbia e na Etipia. Mais
a sul, as coisas so menos claras; as discusses entre pesquisadores permanecem
acirradas quanto  existncia, na poca estudada, de classes bem diferenciadas, e,
mais ainda, quanto  realidade de castas fechadas comparveis quelas que exis-
tiram, em alguns casos, na frica dos perodos mais recentes. A aluso, muitas
vezes citada, de al-Mas `d queles que exortavam as multides e os prncipes a
viver em conformidade com os exemplos dados pelos antepassados e os antigos
reis98 no deve nos levar a pensar que se tratava de "gris" ou que eles estavam
"castados". A meno recorrente da presena de "gris" no squito de Sunjata,
no sculo XIII, s constitui uma prova de sua existncia na poca em que as
tradies que falam deles foram fixadas ou remanejadas: sobre as datas dessas
fixaes ou remanejamentos, a discusso tambm est longe de terminar.



97   O termo linhagem  mais um termo ideolgico do que um conceito que possa dar conta de realidades
     sociais. Ver A. KUPER, 1982b.
98   J. M. CUOQ, 1975, p. 330 (al-Mas`d).
916                                                            frica do sculo VII ao XI



    As mais recentes pesquisas, ao menos para a frica do Oeste, vo mais no
sentido de um surgimento recente das castas do que naquele de sua anciani-
dade99. Portanto, provavelmente precisara ainda trabalhar muito, e abordar com
lucidez todas as hipteses de pesquisas possveis, antes de fixar precipitadamente
uma descrio de sociedades em plena transformao e, segundo os lugares, em
estgios diferentes de tal transformao.
     Se voltarmos um instante s situaes verossmeis, entre os sculos VII e
XI, na frica Central, as coisas eram bem diferentes daquelas ento vividas no
norte e no oeste do continente. Na frica Equatorial surgiu uma certa diviso
do trabalho, em parte regulada pela simbiose em curso entre agricultores e
caadores-coletores. Em alguns casos, os habitantes da floresta incorporaram
alguns grupos de caadores (sobretudo pigmeus), fornecendo-lhes alimentos
(principalmente bananas) e instrumentos em ferro, e, tambm mais tarde, algu-
mas peas de equipamento, como as pesadas redes de caa, em troca de carne
de caa e mel. Essa simbiose requeria importantes excedentes de alimentos e
no poderia ter se desenvolvido antes de a banana se tornar o cultivo de base,
nem antes da poca em que a densidade dos agricultores crescera a ponto de
atrapalhar os caadores. Por isso pensamos que essas simbioses se desenvolveram
durante a poca estudada nesse volume.  preciso destacar que essa organizao
diferia totalmente das relaes comerciais regulares entre agricultores da floresta
e pescadores profissionais que lhe forneciam peixe, cermicas e sal vegetal em
troca dos alimentos vegetais. Essas relaes, mais antigas, teceram-se a partir
da ocupao dessas regies. Eram relaes igualitrias, o que no era o caso das
relaes simbiticas.  claro que as cidades, principalmente quando a arqueolo-
gia permite estud-las com preciso, representa o lugar em que melhor podemos
entender as transformaes sociais em curso. Isso  evidente em Tegdaoust100 e,
tambm, ao examinar os tmulos de Sanga, onde a desigualdade se l de forma
crescente, conforme o passar do tempo. A histria do processo de urbanizao
encontra-se tambm em plena reviso101. Pensou-se durante muito tempo que
ele era exclusivamente ligado  influncia muulmana e, de fato, os muulmanos
foram grandes fundadores de cidades em todas as regies onde viveram nesta
poca e durante as mais recentes. Porm, vemos hoje de forma cada vez mais
clara que aglomeraes urbanas existiram antes do Isl: a demonstrao foi



99    Pontos de vista interessantes em A. R. BA, 1984.
100 J. DEVISSE, D. ROBERT-CHALEIX et al., 1983.
101 J. DEVISSE, 1983, por exemplo.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                 917



fornecida de forma espetacular por Jenn-Jeno102, como tambm pelo caso do
sudeste do continente103. Esses exemplos so mais decisivos que aqueles relativos
s cidades onde a instalao dos muulmanos desempenhou um papel evidente,
como foi o caso de Kumbi Saleh104, Tegdaoust105 e Niani106.  da maior impor-
tncia para o futuro dessa pesquisa sobre a urbanizao que se prossigam e se
desenvolvam os trabalhos j to frutuosos conduzidos em Ife107, Igbo-Ukwu108,
Benin109, Begho e Kong110.
    Tambm ser preciso desenvolver as pesquisas sobre Nyarko, na borda das
jazidas aurferas da floresta do Gana moderno, que foi uma cidade a partir do
sculo XI111. Sem dvida encontraremos ainda outros centros proto-urbanos ou
urbanos fundados nesse perodo. Pensamos em Kano, Zaria e Turunku, bem
como nas cidades mais antigas do baixo Shari.
    Tal urbanizao da frica Ocidental coloca em questo uma srie de pre-
conceitos, notadamente aquele segundo o qual o fenmeno urbano foi mais ou
menos tardiamente implantado por mercadores do norte da frica. Contra-
riamente s impresses que deixam o conjunto dos trabalhos etnogrficos ou
aqueles dos antroplogos sociais at pouco tempo, a frica Ocidental no era
uma justaposio de aldeias reunidas em etnias, cujas culturas e lnguas distintas
e rurais se beirariam sem se influenciar. As cidades, a partir do momento em que
surgiram, tornaram-se centros culturais irradiando vastas reas em torno delas.
A complexidade dos espaos culturais e sociais constituiu-se antes do sculo
XI;  o que explica a difuso de lnguas como o manden, o ioruba e o haussa. A
escala dessa sociedade, seu dinamismo interno e sua evoluo permaneceram,
portanto, desconhecidos durante muito tempo.


102 S. K. MCINTOSH e R. J. MCINTOSH, 1980b.
103 Ver captulo 24 acima.
104 S. BERTHIER, 1983.
105 J. DEVISSE, D. ROBERT-CHALEIX et al., 1983, p. 169.
106 W. FILIPOWIAK, 1979.
107 F. WILLETT, 1967 e 1971. De forma geral, o desenvolvimento das aglomeraes iorubas  cidades e
    aldeias  merece que se prossigam os estudos j realizados. Ver o trabalho til e pouco conhecido de O.
    J. IGU, 1970-1980. O autor refere-se amplamente  obra conhecida de A. L. MABOGUNJE, 1962.
108 T. SHAW, 1970. Mais recentemente, ver o captulo 16 acima e E. EYO e F. WILLETT, 1980, 1982.
109 G. CONNAH, 1972.
110 Pesquisas conduzidas pelo Instituto de Arte, Arqueologia e Histria da Universidade de Abidjan, sob a
    direo de M. Victor T. Diabat.
111 J. ANQUANDAH, 1982, p. 97. De forma geral, a urbanizao em Gana merece tambm ser pesquisada:
    desde quando era viva a cidade de Ladoku, prxima a Accra e florescente no sculo XVI ( J. ANQUAN-
    DAH, 1982, p. 70)?
918                                                                                 frica do sculo VII ao XI



   Novas indagaes do mesmo tipo podem doravante especular sobre as fei-
torias da costa oriental e de Madagascar, seus substratos africanos e malgaxes,
bem como o lugar dos comerciantes muulmanos em seu desenvolvimento112.
J podemos nos perguntar se, na frica Oriental  mas at quais limites a
norte e a sul? , a cultura suali, com a qual a repartio das cidades parece
coincidir, no era desde seus primrdios uma civilizao urbana: o debate est
muito aberto113. As feitorias situadas no atual Moambique114 mantiveram
contatos com o vale do Limpopo e contriburam indiretamente com a criao
de um primeiro centro proto-urbano em Mapungubwe, centro administrativo
e primeiro marco de um desenvolvimento que levaria  criao da cidade de
Zimbbue no sculo XIII.
   Temos que ser muito atento tambm, no norte do continente,  criao, na
mesma poca, de cidades importantes sobre as quais as pesquisas so s vezes
ainda muito reduzidas. Se conhecemos bem a evoluo de Fez, Kayrawn, Mar-
rakech ou Rabat, por exemplo, existem, ao contrrio, muito poucos trabalhos
sobre Sidjilmsa ou Thert  criaes do sculo VII , sobre Sadrta e o con-
junto do Mzb, sobre Ghadmes ou, ainda, sobre as cidades egpcias e nbias
do mdio Vale do Nilo115.
   Esse perodo formativo foi tambm aquele de uma reestruturao dos
espaos por uma urbanizao nova. Esse fenmeno s alcanou metade do
continente, mas permanece, contudo, uma caracterstica tpica para toda a
frica.
   A conquista muulmana da parte setentrional do continente, aps um breve
perodo de unidade terica sob a autoridade dos califas orientais, levou a um
parcelamento poltico de grande importncia para o futuro. Estados nasceram
no Egito e na atual Tunsia, mas tambm em torno de cidades importantes como
Fez, Thert e Sidjilmsa. Tornaram-se cada vez mais consistentes nos sculos IX
e X. Usavam especialmente o ouro da frica Ocidental, na maioria dos casos
para garantir a qualidade de sua cunhagem. As bases territoriais dessa organi-


112 Ver os captulos 13, 14, 15, 21 e 25 acima. A expanso das feitorias at o sul do Sabi data do sculo VIII
    (P. J. J. SINCLAIR, 1982).
113 T. H. WILSON, 1982.
114 Ver captulo 22 acima. Ver tambm "Trabalhos de arqueologia...", 1980, e P. J. J. SINCLAIR, 1982.
115 A respeito de Ks, centro caravaneiro do Alto Egito, ver J. C. GARCIN, 1976. Sobre a importncia
    das estelas funerrias como documento para a histria demogrfica, econmica e cultural, ver M. `Abd
    al-Tawb `Abd ar-RAHMN, 1977. Sobre as cidades da Nbia e, especialmente, a importncia das
    escavaes polonesas em Faras Dongola, referir-se ao captulo 8 acima. Sobre as recentes escavaes em
    Sba, capital do reino nbio mais meridional, ver D. A. WELSBY, 1983.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                    919



zao estatal reforaram-se, em primeiro lugar, na Ifrkiya e, depois, no Egito
dos fatmidas116. Os episdios mais turbulentos do sculo XI no prejudicariam
um fato que pouco a pouco se impunha: a territorialidade de poderes dinsticos
muulmanos, especialmente na Tunsia e no Egito, e, no sculo XI, no Marro-
cos almorvida, tornara-se uma realidade mais ou menos estvel e permanente.
Estados muulmanos, com suas funes e organizaes, instalaram-se durante
o perodo, embora as dinastias mudassem e incidentes mais ou menos graves,
como a revolta de Ab Yazd117, "a invaso hilaliana"118 ou os ataques cristos
desde a Siclia, perturbassem, s vezes profundamente, as chances do controle
territorial estatal e da continuidade dinstica.
    Na frica Ocidental, a organizao de Estados provavelmente comeou
antes de 600, mas tornou-se evidente durante a poca aqui estudada. Gao, Gana
e Knem so hoje aparentemente bem conhecidos, embora precisasse ainda
muito trabalho sobre a gnese do Estado nesses trs casos. Mas existem muitas
outras zonas, at agora menos privilegiadas pela pesquisa, para as quais no h
mais dvida quanta  existncia de poderes estatais durante o perodo estudado.
Foi certamente o caso do Takrur, sobre as origens do qual uma recente tese pe
um novo foco119. A insuficincia de informaes conduziu-nos, alm desses
aportes, a considerar que os poderes africanos apenas eram "chefias" sem grande
consistncia territorial: seria legtimo abordar assim o caso de Ife? Deveramos
pensar que o poder de Sumaoro Kant, no Soso que rivalizou com Gana e os
mansaya mande at sua derrota diante de Sunjata no sculo XIII, ainda no era
um Estado? A pesquisa tem ainda muito a nos trazer tambm nesse domnio.
E que aconteceu junto aos haussas e aos iorubas?
    A presena de fortificao a oeste do baixo Nger, nas regies que se
tornariam o reino do Benin, indica uma concentrao do poder de carter
territorial, mas tambm uma luta acirrada para aumentar a base territorial
dos diferentes Estados em formao. Isso contrasta com a situao a leste do
baixo Nger, onde a ausncia de fortificaes poderia indicar uma unidade
territorial dirigida por Igbo-Ukwu ou, ento, a presena de uma forma de
ocupao das terras e de estruturas polticas totalmente diferentes: como

116 Ver os captulos 7, 10 e 12 acima.
117 A esse respeito, um novo estudo, realizado por uma pesquisadora argeliana, Sra. Nachida Rafa, traz  luz,
    a partir de uma nova traduo das fontes rabes, a aspereza da luta que ops Ab Yazd aos fatmidas.
118 A discusso permanece aberta quanto s consequncias econmicas, sociais e polticas desta "invaso".
    Uma recente traduo do texto fundamental de al-Idrs (M. HADJ-SADOK, 1983) traz novos ele-
    mentos de reflexo.
119 A. R. BA, 1984.
920                                                                                frica do sculo VII ao XI



deveramos interpretar politicamente a descoberta de um tmulo suntuoso
em Igbo-Ukwu?
   Na frica do Nordeste, assistimos ao apogeu dos reinos cristos formados
no sculo VI, em particular nas trs sees da Nbia, onde o desabrochar
econmico e cultural ainda era evidente no sculo XI120. A Etipia no se
portava to bem, mas a monarquia enraizou-se novamente a partir do sculo
XI, depois do desabamento de Axum, no Lasta; ao mesmo tempo, uma srie
de principados muulmanos constitua-se a leste e a sul, alcanando os lagos
etopes. A organizao de um poder dominante por cidade parece ter sido a
regra para a costa oriental. No atual Zimbbue, um Estado constituiu-se no
sculo X em torno de sua capital, Mapungubwe, e o Grande Zimbbue surgiu
no sculo XII. Na frica Central ou no interior na frica Oriental, desenvol-
vimentos territoriais de grande escala ainda no eram perceptveis. No mximo
poderamos dizer que, em Sanga, os dados mostram uma lenta evoluo para
uma organizao em torno da "chefia", evoluo esta que apenas se tornaria
pertinente a partir do fim do primeiro milnio121. Fora esses desenvolvimentos,
no temos nenhum dado direto a respeito de outros tipos de organizaes
polticas. Podemos arguir que na frica do Leste e do Sudeste, a organizao
espacial dos stios de habitao indicaria um governo coletivo, exercido por
chefes de grandes grupos e fundado em uma ideologia do parentesco. Porm,
muito recentemente122, essa linha de raciocnio foi questionada. Apoiar-se-ia
demais em analogias derivando da literatura etnogrfica dos sculos XIX e XX.
De qualquer maneira, no estado atual dos conhecimentos, constatamos logo a
perpetuao do poder de dominantes, sem dvida instalados antes do sculo
VII. No existe, em tais casos, nem preeminncia dinstica, nem hierarquias,
nem fortes diferenas do nvel de vida. O fato de se tratar de stios aglomera-
dos indica que um governo coletivo era provvel. Os dados indicariam tambm
que o territrio assim controlado seria exguo, talvez limitado a um territrio
correspondendo  aldeia. Exemplos bastante comparveis podem ser estudados
nas zonas florestais da frica Ocidental.



120 Basta referir-se s descries dos monumentos encontrados pelos escavadores em Dongola, especial-
    mente as igrejas e o palcio real, para entender que, perante um pas certamente bastante pobre, o Estado
    nbio possua importantes bens e desempenhou um papel internacional. Sobre Alwa e as recentes
    escavaes, ver D. A. WELSBY, 1983: esses trabalhos confirmam o dinamismo econmico e cultural
    nbio no sculo XI.
121 P. de MARET, 1977-1978.
122 Crtica de M. HALL, 1984.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                                   921



    As representaes coletivas: religies, ideologias, artes
    Parte importante do continente africano era dividida entre dois monotes-
mos. Um esteve em constante progresso do sculo VII ao XI: o Isl123; o outro,
o cristianismo, desapareceu de todo o norte da frica124, onde ele se implantara
na poca romana, e s subsistiu solidamente na Nbia e na Etipia; tambm
sobreviveu uma importante minoria crist no Egito. Ambos esses monotes-
mos construram uma civilizao de cunho universal, tendendo a substituir,
de uma forma mais ou menos ampla segundo os lugares e as datas, as culturas
anteriores. O cristianismo no pde superar as divises internas que, em ampla
medida, nasceram de sua unio ntima com os poderes ps-romanos. Os coptas,
os nbios e os etopes no se ligaram a Roma, tampouco a Bizncio. Por mais
brilhantes que permanecessem essas cristandades africanas, especialmente ricas
em monastrios, elas viviam sem muitos contatos com os mundos exteriores, ao
menos no que diz respeito ao Mediterrneo. Seria preciso estudar, notadamente
no que tange a poca aqui em foco, suas relaes com os cristos da sia, eles
tambm separados de Roma e Bizncio, especialmente com os nestorianos,
cuja organizao eclesistica se estendeu at a China; poucas indagaes foram
colocadas neste domnio.
    A influncia do Isl, como conjunto religioso e cultural atravessando o
mundo conhecido da sia at o Atlntico e separando, por muito tempo, os
negros da frica dos povos do norte do Mediterrneo, tornou-se cada vez mais
forte,  medida que se reforou sua unidade. Unidade esta que, no sculo X, foi
fortemente ameaada pelo triunfo momentneo do xiismo fatmida em toda a
frica muulmana. No sculo XI comearam os progressos do sunismo, atre-
lados, na frica, queles do direito maliquita. Foi um estilo de vida que pouco
a pouco se imps, feito de observncia jurdica e social e de respeito s regras
fundamentais do Isl. Pouco a pouco, nas terras profundamente islamizadas, as
normas muulmanas triunfariam dos hbitos culturais mais antigos. De forma
geral, podemos estimar que isso aconteceu em todo o norte do continente at
o fim do sculo XI125. O Isl progrediu tambm no Sahel e na costa oriental da
frica, mas seu triunfo cultural s se tornaria real, nestes ltimos casos, na poca


123 Ver captulos 3, 4 e 10 acima.
124 Suas ltimas manifestaes culturais e seus ltimos vestgios datam do sculo XI. Ver captulo 3 acima.
125 Ver captulos 2 e 4 acima. Sob a aparncia de unidade subsistem muitas sobrevivncias interessantes
    de cultos sincrticos, do cristianismo, do juadiasmo e do kharijismo. Aqui no  o lugar para tratar essa
    questo.
922                                                                              frica do sculo VII ao XI



seguinte. Certamente deveramos levar mais em conta, no futuro, situaes de
compromisso aos quais foram condenados os detentores do poder, quando de
sua converso ao Isl, no Sahel ou alhures, diante de sociedades cujas normas
religiosas de funcionamento ancestrais no eram compatveis com algumas exi-
gncias do Isl126.  o que explica tanto a lentido de alguns progressos quanto
o carter urbano, durante muito tempo, da islamizao e a violncia indignada
dos juristas pios contra os soberanos laxistas; violncia esta cujos efeitos se
estenderam durante sculos, principalmente a partir do sculo XIV; violncia
esta da qual um primeiro exemplo seria talvez a buscar na islamizao, pelos
almorvidas, de algumas regies da frica Ocidental no fim do sculo XI.
    Para os historiadores, seria muito mais importante conhecer o que era ento a
religio africana. Algumas lascas de informao apenas so interpretveis com a
ajuda de conhecimentos relativos a perodos muito mais recentes. Fala-se muito
de "fazedores de chuva", de "encantos", de "culto dos antepassados", de "dolos"
 essa palavra vem de fontes monotestas de "feitiaria". Uma abordagem desse
tipo esconde nossa ignorncia, ela insiste sobre continuidades reconfortantes
e elimina toda evoluo; ela permanece perigosamente vaga. Aqui, estamos
diante de uma outra grande lacuna da pesquisa sobre a frica antiga, lacuna esta
que s poder ser preenchida parcialmente com o desenvolvimento de novas
metodologias.
    A concepo que as culturas tm sobre os poderes aos quais elas confiam 
direo da sociedade , claro, ligada tanto s ideologias dominantes quantos s
estruturas econmicas. Vimos acima a diversidade provvel das formas concre-
tas do poder. Os monotesmos entendem o poder como um servio prestado a
Deus e uma delegao de autoridade por ele consentida: mesmo que o imame de
Thert no fosse parecido com o poder dos imames dos fatmidas, mesmo que
esses ltimos se considerassem mais estreitamente ligados a Deus e aos vicrios
do Profeta do que os amr aglbidas ou os prncipes idrissidas, em todos os casos,
foi em nome de Deus e de seu Alcoro que essas dinastias governaram. No
diferente era a relao com Deus dos reis nbios e dos negus da Etipia, embora
conheamos mal, para esta poca, a anlise terica dessa relao com Deus127.


126 Um exemplo em al-MAS`D, 1965, p. 330: "A partir do momento em que o rei (dos zandj) exerce
    um poder tirnico e se afasta das regras da equidade, fazem-no perecer e excluem sua posteridade da
    sucesso." A execuo do rei em razo de defeitos fsicos ou aps dado nmero de anos foi o objeto de
    uma vasta literatura. Nenhum caso pde se demonstrado, apesar da presena dessas regras como normas
    ideolgicas em vrios reinos.
127 Ao passo que essa relao  perfeitamente analisvel no caso do cristianismo romano. Ver, por exemplo,
    J. DEVISSE, 1985.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                               923



    Porm, na frica que permaneceu fiel a sua religio e s estruturas socio-
culturais correlatas, a situao foi diferente. O desenvolvimento de grandes
Estados fez surgir uma concepo do poder interessante e original, muitas vezes
impropriamente batizada "realeza divina". H mais de um sculo, os estudiosos
notaram que as ideologias da realeza eram muito parecidas de cabo a rabo da
frica do sul do Saara. O detentor desse poder era "sagrado", isto , respeitado
enquanto ele respeitasse as condies do contrato humano que o ligava a seu
grupo, e tambm temido, obrigado a transgredir  e s ele  as regras ordinrias
da vida social; o exemplo mais mencionado dessas transgresses  o incesto. Esse
personagem tem uma ao positiva sobre o meio e a fecundidade, sobre a chuva
e a gua, sobre os alimentos, a paz social e a vida da comunidade. Ele possui, por
consentimento tcito, poderes sobrenaturais inerentes a sua funo ou obtidos
por acmulos de encantos. A rainha me, ou as irms, ou at mesmo a mulher
do rei, desempenhavam um papel ritual importante. Alguns pontos de etiqueta e
de smbolos associados  realeza eram muito parecidos em toda parte. O rei no
podia ter defeitos fsicos. Seus ps no podiam tocar a terra nua. Ele no podia
ver sangue ou cadveres. Ele devia permanecer invisvel para o povo e esconder
seu rosto. Ele s se comunicava com outrem por meio de intermedirios. Ele
comia escondido e ningum podia v-lo beber. G. P. Murdock chegou a dizer
que todos os reinos africanos eram parecidos como feijes da mesma casca128.
Se faltasse gravemente com alguma de suas obrigaes, especialmente como
regulador das colheitas, na integridade de seu corpo ou por excesso de poder,
o personagem em questo era eliminado fisicamente de forma mais ou menos
sumria129. Aqui reside certamente a maior diferena concreta no exerccio do
poder em relao aos mundos mediterrneos.
    Antigamente, explicava-se as semelhanas entre poderes africanos por uma
comum e nica origem faranica. Essa opinio  menos aceita hoje. Insisti-se
mais sobre a antiguidade, a origem local e o enraizamento nos ritos e crenas
locais de algumas caractersticas desses poderes: suas relaes com a me terra,
a caa ou a chuva, por exemplo. Pensa-se tambm que esses poderes tomaram
emprestados uns aos outros os elementos mais sedutores e espetaculares: certa
uniformizao pde nascer desses emprstimos. Basta um exemplo: o dos sinos


128 G. P. MURDOCK, 1959, p. 37.
129 Um exemplo em al-MAS`D, 1965, p. 330: "A partir do momento em que o rei (dos zandj) exerce
    um poder tirnico e se afasta das regras da equidade, fazem-no perecer e excluem sua posteridade da
    sucesso." A execuo do rei em razo de defeitos fsicos ou aps dado nmero de anos foi o objeto de
    uma vasta literatura. Nenhum caso pde se demonstrado, apesar da presena dessas regras como normas
    ideolgicas em vrios reinos.
924                                                          frica do sculo VII ao XI



simples ou duplos de ferro com bordas soldadas e sem badalos. Esse tipo de
emblema desenvolveu-se na frica Ocidental, mas o encontraremos tambm
por volta de 1200 em Shaba e Katoto, para o sino simples, enquanto o sino
duplo surgiu no Zimbbue no sculo XV. Ora, o sino simples era associado
 autoridade poltica e, sobretudo, militar, e o sino duplo  realeza propria-
mente dita. Houve, portanto, difuso da Nigria ao Zimbbue (e ao reino de
Congo) antes de 1500 e da Nigria a Shaba antes de 1200, provavelmente
ainda durante os sculos aqui tratados130. Eis um sinal tangvel da difuso de
um elemento do complexo da realeza "sagrada", difuso esta que se deu por vias
ainda desconhecidas.
    Uma ideologia da realeza era certamente tambm associada  criao de um
reino em Mapungubwe. Acreditamos que, nesse caso, a conexo entre o rei e a
chuva foi crucial. O rei era o supremo fazedor de chuva e controlava o regime das
chuvas. Eis uma qualidade evidentemente crucial em um pas onde tal regime
era varivel, e onde todas as colheitas dele dependiam. Mas no sabemos quase
nada a respeito de outros elementos dessa ideologia. A do Zimbbue dela seria
descendente, e quando encontramos dados a seu respeito  mas cinco sculos
mais tarde , boa parte dos elementos que se encontram na frica Ocidental
tambm est presentes aqui.
    Deste modo, os fatores que favoreceram o surgimento de tal ou tal carter
dessa realeza "sagrada" foram muito variveis no tempo e no espao. Portanto 
preciso, aqui tambm, afastar-se de qualquer tentativa de sistematizao. Etique-
tas, rituais, crenas e smbolos variaram ao longo dos sculos e de acordo com
o local. Mesmo no sculo XIX, eles no eram idnticos de um reino ao outro e
a lista dos "traos da realeza sagrada"  uma lista compsita. Raramente encon-
tramos todos seus aspectos agrupados em cada um dos reinos, a semelhana de
Murdock , portanto, em parte fictcia.
    A complexidade dos aspectos do poder surgiu quase fisicamente durante o
perodo estudado. Nas regies em que o comrcio se tornou essencial, o poder
no mais podia permanecer alheio a uma forma ou outra de seu controle, mas
tambm ao domnio do ouro, do cobre ou do ferro, por exemplo. Assim surgiram
aspectos do poder que no existiam em uma sociedade de caadores-coletores ou
em um grupo agrcola simples. Os soberanos de Gana obviamente tinham que
ser, como os outros, fisicamente fortes: a dissimulao, mencionada por al-Bakr,
para esconder a cegueira de um deles basta para atest-lo131. De toda maneira,

130 J. VANSINA, 1969.
131 Al-BAKR, 1913, p. 174-175.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                        925



 o poder comercial desses mesmos soberanos que mais chamou a ateno dos
autores rabes.
    Deste modo, a histria dos poderes aparece, em definitivo, na frica como
em outros lugares, muito mais ligada s transformaes econmicas e sociais
do que  ideologia: esta ltima cria, conforme as necessidades, as justificativas
e os rituais necessrios  estabilidade e legitimidade das funes. O que acon-
teceu ento quando duas legitimidades se enfrentaram? Por exemplo, aquela do
rei submetido a Al e aquela, do mesmo rei, de mestre da fundio do ferro,
associado por uma longa aliana aos fundidores mgicos? Colocar a pergunta 
respond-la. Os poderes africanos conheceram, antes do sculo VII, depois do
XI e entre ambos, contradies, tenses e evolues como em qualquer outra
parte da Terra. O que  provavelmente o mais notvel e desconcertante para
os historiadores atuais desta rea,  a extrema elasticidade das adaptaes ide-
olgicas, redutoras das contradies e dos conflitos, pelo menos enquanto no
intervieram as exigncias do cristianismo ou do Isl. A religio e as ideologias
tratam da substncia cultural. As artes constituem a expresso desta substncia.
Neste nvel, distinguimos dois conjuntos de tradies diferentes: o do oikou
mene132 e o das artes de tradio regional. No que diz respeito a estas ltimas,
s temos conhecimento direto dos vestgios visuais.
    O mundo muulmano subordina a arte  vida da comunidade islmica. Os
monumentos coletivos, mesmo que edificados a partir de encomendas do poder,
so prioritariamente aqueles onde essa comunidade se junta para rezar e viver
os atos de sua f. A mesquita est no centro da arquitetura muulmana. Claro,
existem estilos, reconhecveis  primeira olhada, devidos  ordem soberana, 
moda do momento, s respectivas funes de tal ou tal parte do monumento;
claro, cada dinastia se esfora para imprimir sua marca em suas mesquitas. Nem
os tulunidas de Fustt, nem os aglbidas de Kayrawn, nem os fatmidas de
Mahdiyya ou do Cairo, nem os almorvidas do Marrocos ou da Espanha, nem
os almadas, escaparam dessa regra. Porm, alm das diferenas de detalhe, a
mesquita exprime a unidade da umma muulmana.
    Fora das mesquitas pde se desenvolver o luxo discreto de uma aristocracia
de governo, de guerra ou de comrcio. Essa classe nunca foi ostentativa, mas
desenvolveu, nesses sculos, um gosto pelo luxo tornado evidente pelas produ-
es de tecidos, de marfim e madeiras esculpidos, de cermicas, de mosaicas ou,
s vezes, de pinturas murais. Neste domnio como naquele da arquitetura, os


132 Ver captulo 8 (nota 94) acima.
926                                                                         frica do sculo VII ao XI



emprstimos passam, de acordo com as modas, de um continente para outro.
O gosto pelo luxo era to evidente que os "expatriados" instalados ao sul do
Saara para praticar o comrcio transportavam com eles as mais belas formas e
produes133.
    Antes do fim do sculo XI, o mundo muulmano conheceu uma produo
de grande luxo e de belos objetos que se vendiam muito bem: por exemplo,
j no fim do sculo X, imitava-se, em Fustt, os cladons chineses at ento
importados a grande custo.
    Mais voltadas para si mesmo, mas ainda inspiradas pelas formas da bacia
mediterrnea, as artes da Nbia e da Etipia foram evocadas nesse volume. O
lugar ocupado pelas pinturas murais na arte crist contrasta muito com a prtica
muulmana. Vale a pena sublinhar as poucas influncias mtuas entre a arte
muulmana e a arte crist, em ambos sentidos. Elas comprovam negativamente
que os estilos no se propagam automaticamente, mas seguem linhas de foras
religiosas e polticas. Neste sentido, a arte visual tambm  uma expresso da
ideologia e da viso do mundo dominantes.
    Durante muito tempo se acreditou e se escreveu que nada sobrava das artes
visuais da frica do sul do Saara, j que a madeira, material preferencial da
expresso artstica, no resistia ao tempo! De toda a maneira, se tivessem exis-
tido, essas artes s poderiam ter sido "tribais", segundo a expresso pejorativa.
O itinerrio, atravs do mundo, da magnfica exposio dos Tesouros da Antiga
Nigria134 clareou as ideias a esse respeito e conduziu, entre outras descobertas
e manifestaes recentes, a reabrir esse caso. Nok seduziu muito, desde anos135:
essa cermica figurativa, cujas produes, de estilos to variados, duraram quase
um milnio depois do sculo VII antes da Era Crist, revelou de vez a profun-
didade histrica do passado artstico africano. Depois houve uma tendncia a
passar diretamente para a produo de Ife, no sculo XII, Ife sendo a conse-
quncia de Nok. O erro consistiu em acreditar que no existia muita coisa para
o perodo compreendido entre essas duas manifestaes e que a arte da cer-
mica se limitava  Nigria. Hoje, tornou-se evidente que Nok no formou uma
unidade fechada, que a cermica figurativa se encontrava tambm fora de seus
limites e que se desenvolveu durante a nossa poca uma arte plstica encontrada




133 Recente trabalho notvel de um pesquisador tunisiano a esse respeito: A. LOUHICHI, 1984.
134 E. EYO e F. WILLETT, 1980, 1982.
135 Ver UNESCO, Histria Geral da frica, vol. II, cap. 24.
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                                         927



de Tegdaoust a Jenn na Nigria136, ao sul do lago Chade137, e certamente em
outros lugares, notadamente, tambm, em Igbo-Ukwu. As diferenas estilsticas
eram grandes. No estado atual das pesquisas, podemos falar de uma tradio
regional do alto Nger, que se expressou no somente na cermica, mas tambm
em pequenos objetos em metal e, por volta de 1100, em Bandiagara, tambm em
madeira.  provvel que muitas das obras em madeira esculpidas nesta poca
desapareceram. A preservao dos apoios de nuca em madeira e de algumas
estatuetas de Bandiagara deveu-se a condies excepcionais de conservao que,
alis, poderiam ser encontradas em outros lugares.
    Existe, em toda a frica do Oeste, uma expresso figurativa que usa o cozi-
mento da argila para conservar suas produes. Tal produo e suas tcnicas
estenderam-se durante sculos e remontam muito antes do sculo VII.  pre-
ciso agora coordenar e racionalizar seu estudo. Como no assinalar tambm, de
passagem, a excepcional qualidade artstica dos vasos de cermica encontrados
em Sintiu-Bara, no Senegal, datados do sculo VI e podendo ser considera-
dos como indicadores culturais em uma rea geogrfica bastante vasta 138? A
que correspondia essa produo artstica? O que  que ela representava como
necessidade esttica e projeo ideolgica? Quem a encomendava? Todas essas
questes ainda permanecem sem resposta at hoje.
    Na frica Central sobreviveram duas peas em madeira, uma mscara repre-
sentando um animal, e uma cabea esculpida em um pilar do fim do primeiro
milnio. Elas indicam ao menos que a prtica da escultura existia em Angola.
Pinturas rupestres abundam em Angola e, tambm, na frica Central: infeliz-
mente elas no so cuidadosamente compiladas, to pouco estudadas e data-
das139. Na frica Oriental, algumas estatuetas de bovinos desta poca foram
encontradas no Nilo Branco e uma estatueta humana na Uganda. Na frica
Austral, a poca das mscaras de cermica do Transvaal findou-se por volta de
800. Talvez tivesse uma ligao com alguns objetos cobertos de ouro encon-
trados em Mapungubwe. Esses objetos foram certamente os percussores da
escultura em pedra que se desenvolveria no Zimbbue. Mas Mapungubwe 
apenas um caso entre outros nessa zona. Tambm em outros lugares encon-
tramos, na nossa poca, representaes de bovinos em cermica, de outros ani-
mais domsticos e representaes femininas nos stios de tradio Leopard's

136 B. GADO, 1980. Outras descobertas foram feitas mais recentemente pelo mesmo pesquisador.
137 G. CONNAH, 1981, p. 136 e seguintes.
138 G. THILMANS e A. RAVIS, 1983, p. 48 e seguintes. Ver tambm o captulo 13 acima.
139 Sobre as pinturas rupestres, ver C. ERVEDOSA, 1980, com bibliografia completa.
928                                                          frica do sculo VII ao XI



Kopje. Outras tambm foram descobertas nos stios mais antigos do Zimbbue
(Gokomere). Na Zmbia Central (Kalomo), pinturas semelhantes, datando da
poca aqui estudada, eram muito diferentes do ponto de vista estilstico daque-
las do Zimbbue. No podemos esquecer, por fim, que a arte rupestre to rica
do Zimbbue extinguiu-se no sculo XI, ao passo que estilos rupestres menos
complexos se prolongaram na Nambia e na frica Meridional, certamente por
iniciativa dos san.
    Falamos o suficiente para demonstrar que uma arte plstica existia em toda
parte no sul do oikoumene, mas que dela ainda apenas encontramos rastros. A
extenso das provncias estilsticas ainda no  clara. Apenas temos vagas ideias
a respeito do papel desempenhado por essas obras e de seu objetivo. Mesmo
nos casos em que objetos foram encontrados, como na frica Austral, a pes-
quisa fez falta. Um dia, contudo, podemos prever que parte das lacunas estar
preenchida e que poderemos reconstruir uma Histria da Arte para as artes de
tradio regional, como foi feito para a arte do oikoumene. Contrariamente s
afirmaes tantas vezes repetidas, no temos nenhuma certeza que essas artes
africanas antigas tivessem sido to fortemente dominadas por necessidade e
noes religiosas, como foi o caso no oikoumene, a no ser, evidentemente, que
se chame de religio qualquer ideologia ou sistema de valores.


      Concluso
   Cinco sculos de estabilizao, de enraizamento da sociedade, de desenvol-
vimento, no sentido mais amplo da palavra. Cinco sculos marcados tanto pela
explorao mais coerente dos diversos meios quanto pelo surgimento do Isl,
que modificou paulatinamente os antigos equilbrios. Cinco sculos de desen-
volvimento desigual em que algumas zonas do continente saram totalmente da
sombra documental e permitiram restituir, graas a tanta pacincia e inventivi-
dade metodolgica, as transformaes tcnicas, sociais, culturais e polticas em
curso. Cinco sculos durante os quais algumas regies tambm permaneceram
muito insuficientemente conhecidas por ns, o que significa que no traba-
lhamos o suficiente. Na poca que nos interessa, a frica Central certamente
atravessava um perodo de intensa organizao sociopoltica: pressentimo-no
em toda parte, mas, em muitos casos, as provas ainda faltam.
   Quando medimos o caminho percorrido pela pesquisa, especialmente para
esses cinco sculos, durante os vintes ltimos anos, caminho esse do qual este
volume porta a marca, o reflexo e os marcos, apenas podemos considerar esse
A frica do sculo VII ao XI: cinco sculos formadores                      929



perodo como um daqueles sobre os quais deveriam versar enormes esforos, em
todos os domnios da pesquisa, para completar o conhecimento, to atrativo, mas
to incompleto, que temos adquirido.
   Um observador vivendo em 600 no poderia ter previsto, mesmo em gran-
des linhas, o que seria a frica por volta de 1100. Mas um observador vivendo
em 1100 poderia ter predito as grandes linhas do que seria a situao humana
deste continente em 1500 e, no plano cultural, at mesmo por volta de 1900.
Eis mesmo o significado desses cinco sculos formadores apresentados neste
volume.
                                                                            931




          Membros do Comit Cientfico
           Internacional para a Redao
          de uma Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa. Sr. Boubou Hama (Nger)  19711978 (Demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa. Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
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Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
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S. Exa. Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  19711981 (Falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat Ba (Mali)  19711978 (Demitido)
932                                                                     frica do sculo VII ao XI



Dr. I. S. ElHareir (Lbia)  1978
Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Codiretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  19711981 (Falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971
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Sr. D. Laya (Nger)  1979
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Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971
Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)  1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  19791980 (Falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  19711980 (Falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  19781982 (Falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  19761978 (Demitido em 1978;
falecido em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, Unesco, 1, rue Miollis,
75015 Paris
Dados biogrficos dos autores do volume III                                          933




                Dados biogrficos dos autores
                       do volume III




  Captulo 1         I. Hrbek (antiga Tchecoslovquia); especialista em Histria rabe,
                     africana e islmica, assim como em fontes rabes sobre a histria da
                     frica; autor de diversas obras e artigos sobre esses temas; pesquisador
                     do antigo Instituto Oriental, em Praga, e consultor cientfico da antiga
                     Academia de Cincia da Tchecoslovquia. Morreu em 1993.
  Captulo 2         M. El Fasi (Marrocos); autor de inmeras obras (em rabe e francs)
                     sobre a lingustica histrica e crtica literria; antigo vice-chanceler
                     da Universidade Karawiyyn em Fez. Morreu em 1991.
  Captulo 3         I. Hrbek / M. El Fasi.
  Captulo 4         Z. Dramani-Issifou (Benin); especialista nas relaes entre a frica
                     Negra e o Magrebe; autor de vrias publicaes e de uma importante
                     obra sobre o assunto.
  Captulo 5         F. de Medeiros (Benin); especialista em Historiografia africana; autor
                     de trabalhos sobre as relaes entre a frica Negra e outros povos.
  Captulo 6         S. Lwango-Lunyiigo (Uganda); especialista em Pr-Histria africana,
                     principalmente na frica da Idade do Ferro; autor de diversas obras
                     sobre o assunto.
                     J. Vansina (Blgica); especialista em Histria da Africa; autor de diver-
                     sas obras e artigos sobre a histria pr-colonial da frica; professor
                     emrito de Histria da Universidade de Wisconsin, Madison (E.U.A.).
934                                                               frica do sculo VII ao XI



 Captulo 7    T. Bianquis (Frana); especialista em Histria do Oriente rabe dos
               sculos X e XI, autor da obra Histoire de Damas et de la Syrie sous la
               domination fatimide; antigo diretor do Instituto Francs de Estudos
               rabes, em Damasco; no presente  professor de Histria e civilizao
               islmica na Universidade Lumire-Lyon II.
 Captulo 8    S. Jakobielski (Polnia); especialista em Arqueologia Crist; publicou
               obras sobre a escrita copta; professor de arqueologia da Nbia, na Aca-
               demia Catlica de Teologia, em Varsvia, membro do Centro Polons
               de Arqueologia Mediterrnea, no Cairo.
 Captulo 9    H. Mones (Egito); especialista em Histria Geral do Isl; publicou
               obras sobre esse tema; professor de Histria da Faculdade de Artes
               na Universidade do Cairo, membro da academia de lngua rabe, no
               Cairo.
 Captulo 10   M. Talbi (Tunsia); especialista em Isl, publicou vrios trabalhos e
               artigos sobre os diversos aspectos da religio e cultura islmica; antigo
               professor da Faculdade de Artes da Tunsia.
 Captulo 11   T. Lewicki (Polnia); especialista em Histria do Magrebe e Histria
               Medieval do Sudo; autor de inmeros trabalhos sobre o tema; pro-
               fessor da Universidade Jagellonne, Cracvia.
 Captulo 12   I. Hrbek.
 Captulo 13   J. Devisse (Frana); especialista em Histria do Noroeste da frica do
               sculo IV ao sculo XVI, arquelogo; publicou vrios artigos e obras
               sobre a histria da frica, professor de Histria da frica na Univer-
               sidade de Paris I, Panthon-Sorbonne.
               I. Hrbek.
 Captulo 14   J. Devisse.
 Captulo 15   D. Lange (Alemanha); especialista em Histria pr-colonial do Sudo
               central; publicou diversos trabalhos sobre esse perodo, antigo profes-
               sor da Universidade de Niamey.
               B. Barkindo (Nigria); especialista nas relaes entre estados pr-colo-
               niais e coloniais na bacia do Chade; autor de inmeros trabalhos sobre
               o tema; conferencista em Histria, Universidade de Bayero, Kano.
 Captulo 16   Thurstan Shaw (Reino-Unido); autor de diversos trabalhos sobre a
               pr-histria da frica Ocidental; professor de arqueologia; vice-pre-
               sidente do Congresso Pan-africano de Pr-Histria. Presidente da
               Sociedade de Pr-Histria.
 Captulo 17   B. W. Andah (Nigria); especialista em Histria, Arqueologia e Antro-
               pologia da frica;
Dados biogrficos dos autores do volume III                                                935



                     Autor de vrias obras sobre o tema; professor de arqueologia e antro-
                     pologia na Universidade de Ibadan.
                     J. R. Anquandah (Gana); especialista em Histria e Arqueologia da
                     frica, do incio da Idade dos Metais at cerca de 1700; publicou
                     diversas obras sobre o assunto; professor de arqueologia, Universidade
                     de Gana, Legon.
  Captulo 18        B. W. Andah.
  Captulo 19        Tekle Tsadik Mekouria (Etipia); historiador, escritor; especialista em
                     poltica, economia e histria social da Etipia, de sua origem at o
                     sculo XX, aposentado.
  Captulo 20        E. Cerulli (Itlia); etnlogo; autor de obras sobre o tema.
  Captulo 21        T. Masao (Tanznia); arquelogo; especialista em Idade da Pedra tardia
                     e em arte rupestre pr-histrica; autor de numerosas obras sobre o
                     tema; diretor do Museu Nacional da Tanzniza
                     H. W. Mutoro (Qunia); especialista em Arqueologia africana; autor
                     de diversas obras sobre o tema.
  Captulo 22        C. Ehret (E.U.A.); linguista e historiador da frica Oriental; publicou
                     vrias obras e artigos sobre a Histria pr-colonial e colonial da frica
                     Oriental; leciona na Universidade da Califrnia, Los Angeles.
  Captulo 23        D. W. Phillipson (U.K.); curador e arquelogo, especialista em Pr-
                     Histria da frica subsaariana com nfase nas regies Leste e Sul;
                     autor de diversas obras sobre esses temas e editor da African Archaeo
                     logy Review; professor da Universidade de Cambridge.
  Captulo 24        T. N. Huffman (E.U.A.); especialista em arqueologia social e cultural
                     antropolgica e na Pr-Histria da frica subsaariana; autor de obras
                     sobre o assunto.
  Captulo 25        (Mme) B. Domenichini-Ramiaramanana (Madagascar); especialista em
                     lngua e literatura malgache; autora de diversas obras sobre a civilizao
                     de Madgascar; vice-presidente da rea de Lngua, Literatura e Artes da
                     Academia Malgache; leciona literatura oral e histria cultural na Uni-
                     versidade de Madagascar; pesquisadora snior em cincias da linguagem
                     no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), Paris.
  Captulo 26        Y. A. Talib (Singapura); especialista em Isl, mundo malaio e Oriente
                     Mdio, particularmente no sudoeste da Arbia; autor de diversas obras
                     sobre o assunto; professor adjunto,;chefe de departamento de Estudos
                     Malaios, na Universidade Nacional de Singapura.
                     F. El-Samir (Iraque); especialista em Histria islmica; autor de diver-
                     sas obras sobre o assunto.
936                                                              frica do sculo VII ao XI



 Captulo 27   A. Bathily (Senegal); especialista em Histria do Sudo ocidental do
               sculo VIII ao XIX; publicou diversos trabalhos sobre o tema.
               C. Meillassoux (Frana); especialista em Histria econmica e social
               da frica Ocidental; autor de vrias obras sobre o assunto. Pesquisador
               snior do CNRS, Paris.
 Captulo 28   J. Devisse e J. Vansina.
Abreviaes e listas de peridicos                                               937




                                   Abreviaes e
                                listas de peridicos




AA -- American Anthropologist, Washington, DC
AARSC -- Annales de l'Acadmie Royale des Sciences Coloniales, Brussels
AAW -- Abhandlungen der Kniglich Preussischen Akademie der Wissenschaften, Berlin
AB -- Africana Bulletin, Warsaw: Warsaw University
Actes Coll. Bamako I -- Actes du 1er Colloque International de Bamako, organis par la
   Fondation SCOA pour la Recherche Scientifique en Afrique noire. (Projet Boucle du
   Niger), Bamako, 27 January - 1 February 1975. Paris: Fondation SCOA, 1976
Actes Coll. Bamako II -- Actes du 2 Colloque International de Bamako, organize par
   la Fondation SCOA pour la Recherche Scientifique en Afrique noire (Projet Boucle du
   Niger), Bamako, 16-22 February 1976. Paris: Fondation SCOA, 1977
Actes 1er Coll. Intern. Archol. Afr. -- Actes du Premier Colloque International
   d'Archologie Afrique. (Fort-Lamy, 11-16 Dcembre 1966), Fort-Lamy: Inst.
   National Tchadien pour les Sciences Humaines, 1969
Actes Coll. Intern. Biolog. Pop. Sahar.-- Actes du Colloque International de Biologie des
   Populations Sahariennes, Algiers, 1969
Actes VIe Congr. PPEQ -- Actes du Sixime Congrs PanAfricain de Prhistoire et des
   tudes du Quaternaire, Dakar: Cambry, 1967
AE -- Annales d'Ethiopie, Paris
AEH -- African Economic History, Madison, Wisconsin
AES -- Afrikanskiy etnograficheskiy sbornik, Moscow-Leningrad
AF -- Altorientalische Forschungen, Schriften zur Geschichte und Kultur des Alten Orients,
   Akademie der Wissenschaften der DDR, Berlin
938                                                                  frica do sculo VII ao XI



AFLSHD -- Annales de la Facult des Lettres et Sciences Humaines, Universit de Dakar
Africa (IAI) -- Africa, International African Institute, London
Africa (INAA) -- Africa, Institut National d'Archologie et de l'Art, Tunis
African Arts -- African Arts, African Studies Center, University of California, Los
    Angeles
AHES -- Annales d'Histoire Economique et Sociale, Paris
AHS -- African Historical Studies (em 1972, IJAHS), Boston University, African Stud-
    ies Center
AI -- Annales Islamologiques (anteriormente Mlanges), Cairo: Institut Franais
    d'Archologie Orientale du Caire
AIEOA -- Annales de l'Institut d'Etudes Orientales de l' Universit d'Alger, Alger: Facult
    des Lettres
AIMRS -- Annales de l'Institut mauritanien de Recherche Scientifique, Nouakchott
AION -- Annali dell' Istituto Orientale di Napoli, Naples
AJ -- Africana Journal, New York
AJPA -- American Journal of Physical Anthropology
AKM -- Abhandlungen fr die Kunde des Morgenlandes, Deutsche Morgenlandische
    Gesellschaft, Leipzig
AL -- Annali Lateranensi, Vatican
ALR -- African Language Review (atualmente African Languages), London: Interna-
    tional African Institute
ALS -- African Language Studies, London: School of Oriental and African Studies
AM -- Africana Marburgensia, Marburg
AMRAC -- Annales du Muse Royal d'Afrique Centrale, Sciences Humaines. Tervuren,
    Belgium
AN -- African Notes, Ibadan: University of Ibadan, Institute or African Studies
ANM -- Annals of the Natal Museum, Durban
Annales ESC -- AnnalesEconomies, Socitis, Civilisations, Paris
Ann. Rev. Anthropol. -- Annual Review of Anthropology
ANYAS -- Annals of the New York Academy of Sciences, New York
AQ -- Africa Quarterly, New Delhi
Arabica -- Arabica: Revue des tudes, Leiden: Brill
Ar. Anz. -- Archeologischer Anzeiger, Berlin
ARB -- Africana Research Bulletin, Freetown: Institute of African Studies
Archaeology -- Archaeology, Boston: Archaeology Institute of America
Archaeometry -- Archaeometry, Oxford: Research Laboratory of Archaeology and the
    History of Arts
Archeologia -- Archeologia, London
Archologia -- Archologia, Paris
AROR -- Archiv Orientaln, Oriental Archives, Prague
Abreviaes e listas de peridicos                                                    939



Ars -- Orientalis Ars Orientalis: the Arts of Islam and the East, Washington, DC: Smith-
   sonian Institution
AS -- African Studies (continua como Bantu Studies), Johannesburg
ASAC -- Archives Suisses d'Anthropologie gnrale, Geneva
ASR -- African Studies Review, Camden, New Jersey
Atti IV Congr. Int. Studi Etiop. -- Atti de IV Congresso Internazionale di studi etiopici,
   Roma 10-15 Aprile 1972, Roma: Accad. Naz. dei Lincei
Au -- Afrika und bersee, Hamburg
AUA -- Annales de l'Universit d'Abidjan, Abidjan
AUM -- Annales de l'Universit de Madagascar, Tananarive.
Azania -- Azania: Journal of the British Institute of History and Archaeology in Eastern
   Africa, London

BA -- Baessler Archiv, Berlin, Museum fr Vlkerkunde
BAB -- Bulletin Antieke Beschaving. Annual Papers on Classical Antiquity, Leiden
BASEQA -- Bulletin de l'Association sngalaise pour l'tude du Quarternaire africain,
   Dakar-Fann
BASP -- Bulletin of the American Society of Papyrologists
BCCSP -- Bolletino del Centro Camuno di Studi Preistorici
BCEHS -- Bulletin du Comil d'Etudes Historiques et Scientifiques de l'Afrique occidentale
   franaise, Dakar
BEO -- Bulletin d'Etudes Orientales, Damascus: Institut Franais de Damas
BGA -- Berliner geographische Abhandlungen, Berlin: Freie Universitt
BIE -- Bulletin de l'Institut d'Egypte, Cairo
BIFAN -- Bulletin de l'Institut Franais (mais tarde) Fondamental de l'Afrique Noire,
   Dakar
BMAPM -- Bulletin du Muse d'Anthropologie Prhistorique de Monaco
BMNV -- Bulletin du Muse National de Varsovie, Warsaw
BNR -- Botswana Notes and Records, Gaborone
BS -- Bantu Studies, Johannesburg
BSA Copte -- Bulletin de la Socit d'Archologie Copte, Cairo
BSARSC -- Bulletin des Sances de l'Acadmie Royale des Sciences Coloniales, Brussels
BSGAO -- Bulletin de la Socit de Gographie et Archologie d'Oran, Oran
BSOAS -- Bulletin of the School of Oriental and African Studies, London
BSPF -- Bulletin de la Socit Prhistorique Franaise, Paris
BUPAH -- Boston University Papers in African History, Boston: Boston University,
   African Studies Center
Byzantion -- Byzantion, Brussels

Cahiers du CRA -- Cahiers du Centre de Recherches Africaines, Paris
940                                                                 frica do sculo VII ao XI



CAMAP -- Travaux du Centre d'Archologie Mditerranenne de l'Acadmie Polonaise
  des Sciences, Warsaw
CCM -- Cahiers de Civilisation Mdivale
CEA -- Cahiers d'Etudes Africaines, Paris: Mouton
CHM -- Cahiers d'Histoire Mondiale, Paris: Librairie des Mridiens
CORSTOM -- Cahiers de l'Office de la Recherche Scientifique et Technique d'OutreMer,
  Paris
CRAI -- CompteRendu des Sances de l'Acadmie des Inscriptions et BellesLettres, Paris
CSSH -- Comparative Studies in Society and History, Cambridge
CT -- Cahiers de Tunisie: Revue des Sciences Humaines, Tunis: Facult de Lettres
CUP -- Cambridge University Press

EHA -- Etudes d'Histoire Africaines, Kinshasa
EP -- Etnografia Polska, Wroclaw
EUP -- Edinburgh University Press

FO -- Folia Orientalia, Krakow

GNQ -- Ghana Notes and Queries, Legon
GSSJ -- Ghana Social Science Journal, Legon

HA -- History in Africa: A Journal of Method, Waltham, Massachusetts
Hespris -- Hespris, Rabat: Institut des Hautes Etudes Marocaines

L'Homme -- L'Homme, Cahiers d' Ethnologie, de Gographie et de Linguistique, Paris
HT -- HesprisTamuda, Rabat: Universit Mohammed V, Facult de Lettres et des
   Sciences Humaines
HUP -- Harvard University Press

IAI -- Institute of African Studies, London
IC -- Islamic Culture, Hyderabad
IFAN -- Institut fondamental de l'Afrique noire
IJAHS -- International Journal of African Historical Studies, Boston
IJAL -- International Journal of African Linguistics, Chicago: Linguistic Society of
    America
IRSH -- Institut de Recherches Humaines, Niamey
Islam -- Der Islam: Zeitschrift fur Geschichte und Kultur des islamischen Orients, Berlin

JA -- Journal asiatique, Paris
JAH -- Journal of African History, Cambridge: Cambridge University Press
JAL -- Journal of African Languages, London
Abreviaes e listas de peridicos                                                 941



J. Afr. Soc. -- Journal of the African Society, London
JARCE -- Journal of the American Research Center in Egypt, Boston, Massachusetts
JAS -- Journal of African Studies, Los Angeles
JEA -- Journal of Egyptian Archaeology, London
JES -- Journal of Ethiopian Studies, Addis Ababa
JESHO -- Journal of Economic and Social History of the Orient, Leiden
JHSN -- Journal of the Historical Society of Nigeria, Ibadan
JRAS -- Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland, London
JSA -- Journal de la Socit des Africanistes, Paris
JSAIMM -- Journal of the South African Institute of Mining and Metallurgy, Johannesburg

KHR -- Kenya Historical Review, The Journal of the Historical Association of Kenya,
  Nairobi
KS -- Kano Studies, Kano, Nigeria
KSINA -- Kratkiye Soobcheniya Instituta Narodow Azii Akademii Nauk SSSR,
  Moscow-Leningrad
KUP -- Khartoum University Press
Kush -- Kush, Journal of the Sudan Antiquities Service, Khartoum

Likundoli -- Likundoli, Sr. B, Archives et Documents, Lubumbashi
LNR -- Lagos Notes and Records, Lagos
LSJ -- Liberian Studies Journal, Newark, Delaware

MAIBL -- Mmoires de l'Acadmie des Inscriptions et de BellesLettres, Paris
Man -- Man, London
MBT -- Madjallat albuhth alta'rkhyya, Tripoli
MHAOM -- Mlanges d'Histoire et d'Archologie de l'Occident Musulman, Algiers, 1957,
  2 vols
MLI -- MareLusoIndicum
MSOS -- Mitteilungen des Seminars fr Orientalische Sprachen an der FriedrichWillhelm
  Univesitat zu Berlin

NA -- Notes Africaines: Bulletin d'Information de l'IFAN, Dakar
NAA -- Narodui Azii i Afriki, Moskva
Nyame Akuma -- Nyame Akuma, Calgary: University of Calgary, Department of
  Archaeology
NC -- Nubia Christiana, Warsaw, Academy of Catholic Theology
NCAA -- Nouvelles du Centre d'Art et d'Archologie, Antananarivo, Universit de
  Madagascar
NUP -- Northwestern University Press
942                                                              frica do sculo VII ao XI



Odu, -- Odu, Ife
OH -- Orientalia Hispanica, Leiden: Brill
Omaly sy Anio -- Omaly sy Anio, Antananarivo
OUP -- Oxford University Press

PA -- Prsence Africaine, Paris-Dakar
Paideuma -- Paideuma. Mitteilungen zur Kulturkunde, Frankfurt
PBA -- Procedings of the British Academy, London
Proc. KNAW -- ProcedingsKoniglijke Nederlansche Akademie van Wetenschapen,
   Amsterdam
Proc. Preh. Soc. -- Procedings of the Prehistoric Society, Cambridge
PS -- Palestinskiy Sbornik, Moscow-Leningrad
PUF -- Presses Univeritaires de France
PUP -- Princeton University Press

RA -- Revue Africaine. Journal des travaux de la Socit Historique algrienne, Alger
RAC -- Rivista di Archeologia Cristiana, Pontificia Commissione di archeologia sacra,
  Rome
RAI -- Royal Anthropological Institute, London
Radiocarbon -- Radiocarbon, Annual Supplement to the American Journal of Sciences,
  New York
REI -- Revue des Etudes Islamiques

RFHOM -- Revue franaise d'Histoire d'Outremer, Paris
RHES -- Revue d'Histoire Economique et Sociale, Paris
RHM -- Revue d'Histoire Maghrbine, Tunis
RHPR -- Revue d'Histoire de la Philosophie religieuse. Strasbourg
RIE -- Revista del Instituto Egipcio, Madrid
RMAOF -- Revue militaire de l'A.O.F
RMN -- Rocznik Muzeum Narodowego w Warszawie, Annuaire du Muse National de
  Varsovie, Warsaw
RO -- Rocznik Orientalistyczny: Polish Archives of Oriental Research, Warszaw
ROMM -- Revue de l'Occident Musulman et de la Mditerrane, Aix-en-Provence
RPAR -- Rendiconti della Pontificia Accademia Romana di Archeologia, Rome
RPC -- Recherche, Pdagogie et Culture, Paris: AUDECAM
RS -- Revue Smitique, Paris
RSE -- Rassegna di studi etiopici, Rome
RT -- Revue tunisiense

SAAB -- South African Archeological Bulletin, Cape Town
Abreviaes e listas de peridicos                                                943



SAJS -- South Afriacan Journal of Science, Johannesburg
Sankofa -- Sankofa: The Legon Jounal of Archaelogy and Historical Studies, Legon
SE -- Sovietskaya Etnografiya, Moscow
SFHOM -- Socit franaise d'histoire d'OutreMer, Paris
SI -- Studia Islamica, Paris
SJE -- The Scandinavian Joint Expedition to Sudanese Nubia Publications, Uppsala,
   Lund, Odense, Helsinki
SLLR -- Sierra Leone Language Revue, Freetown
SNR -- Sudan Notes and Records, Khartoum
Sources Orales et Histoire -- Sources Orales et Histoire, Valbonne, CEDRASEMI
STB -- Sudan Texts Bulletin, Coleraine, New University of Ulster
SUGIA -- Sprache und Geschichte in Afrika, Cologne, Institut der Afrikanistik der Uni-
   versitat zu Koln
SWJA -- SouthWestern Journal of Anthropology (atualmente Journal of Anthropological
   Research), Albuquerque, New Mexico

Taloha -- Taloha, Tananarive
Tarikh -- Tarikh, Historical Society of Nigeria
THSG -- Transactions of the Historical Society of Ghana. Legon
TIRS -- Travaux de l'Institut de Rechersches Sahariennes, Alger
TJH -- Transafrican Journal of History, Nairobi: East African Literature Bureau
TNR -- Tanganyika Notes and Records (atualmente Tanzania Notes and Records), Dar
   es Salaam

UJ -- Uganda Journal, Kampala
UWP -- University of Wisconsin Press

WA -- World Archaeology, Henley-on-Thames, England
WAAN -- West African Archeological Newsletter, Ibadan
WAJA -- West African Journal of Archaeology, Ibadan
WZHUS -- Wissenschaftliche Zeitschrift der Humboldt, Universitat Ges. Sprachwis-
  senschaft, Berlin DDR
WZKM -- Wiener Zeitschrift fur die Kunde des Morgenlandes, Vienna
YUP -- Yele University Press
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                             ndice remissivo




frica Central: 171, 180,     Agricultura e pastoralismo:       502-3, 507, 515-16,
   193, 343, 636, 753-           21, 41, 130,144, 153,          537, 566-69, 581, 591,
   77, 781, 783, 786,            159, 165, 177, 179-181,        593, 599-600, 602,
   875, 881-84, 892,             183, 192, 207, 231,            604, 612, 645, 666-70,
   895, 903, 909, 912-           235, 238, 264, 272, 328,       688, 691, 710-11, 756,
   13, 916, 920, 927-28.         338, 358, 383, 400, 443,       813, 836, 855-56, 870,
frica do Leste: 51, 110,        498, 509, 515, 518, 521,       894, 921, 925-28.
   192, 195, 512, 687,           523-24, 538, 540-41,        Berberes e o Isl: 8-9, 15,
   713, 725, 727-28, 736-        543, 546, 557, 561,            22-3, 54, 66-7, 75, 77-
   38, 776, 786, 800, 804,       576, 578, 581, 585, 588,       81, 83-8, 93, 111, 118-
   885, 920.                     615-16, 619, 632-33,           22, 126, 132, 135,140,
frica Oriental: 11, 24,         635, 638, 650, 654, 687,       144, 148-62, 211-13,
   28-32, 35, 108-10,            711-12, 719, 722, 724-         215, 217-28, 220-24,
   120-21, 123, 126, 135-        25, 727, 730-31, 736,          267-91, 294-305, 307,
   36, 141, 179, 187, 190,       739, 751, 783-85, 787-         310-11, 316, 319,
   192-94, 235, 346, 676,        88, 791-92, 796-98,            328-52, 357, 358-68,
   685-720, 721-51, 755,         837, 871-72, 865, 882-         369-82, 386-94, 397-
   814, 817, 819-24, 826,        86, 888, 895, 900.             99, 401-50, 407-8,
   846, 858, 864, 866-67,     Arte e arquitetura: 86, 134,      417, 434, 436-37, 445,
   872, 877, 882, 884-85,        227, 230-31, 235, 241,         511, 518-19, 522,
   895, 912-14, 918, 920,        247, 257, 65, 284, 319,        525-36, 553, 633, 702,
   927.                          322, 388, 427, 487,            838, 866-69, 875-77.
1022                                                              frica do sculo VII ao XI



Cermica: 109, 179-80,           715, 719, 731, 762-69,         632-33, 635-37, 639-
   183, 230, 239, 246-47,        770, 772, 812, 870,            44, 648-49, 651, 653,
   304, 433, 458-59, 485,        873, 901, 903-5, 924.          693-95, 704, 715, 717,
   490, 500-1, 510, 541,      Dispora na sia, africana:       721, 727, 735, 742-44,
   576-77, 579-89, 591,          707, 776, 825-59.              746-47, 761-62, 765-
   598, 602, 614, 616,        Egito e o Imprio Bizan-          66, 769-70, 772, 776,
   636-38, 640-44, 649,          tino: 3, 7-8, 12-5, 59,        784, 791, 810, 812,
   656, 689-91, 693-98,          198-208, 244, 265,             822, 867, 871, 874,
   704, 709, 718-20, 725-        660.                           895, 900, 904-5, 912-
   26, 728-29, 734-35,        Escravos/trfico: 8,11, 18,       13, 916, 924, 925.
   743-44, 753-54, 756-          20, 22, 25, 28, 30, 35,    Governantes, governos:
   57, 759-68, 769-76,           36, 49, 54, 57, 79, 105,       54, 80, 82, 101, 208,
   779-84, 788-91, 794,          108, 119, 123, 139,            220, 233, 285, 291,
   808, 810, 813-14, 885,        141, 149-50, 160, 163,         322, 351, 376, 386,
   894-96, 900, 904, 913,        164, 201, 208-9, 216,          446-47, 676, 849, 920,
   925-27.                       222, 225, 234, 239,            925.
Classe/casta/status: 9, 11,      249, 296, 308, 314,        Guin/frica Ocidental:
   13, 35-6, 60-1, 72,           317, 337, 343, 345-46,         537-68, 569, 617, 619-
   79-80, 90, 94, 97-100,        354, 368, 378, 384,            52, 713.
   150, 157, 205, 211,           412, 420, 438, 449,        Idade do Ferro: 179, 181,
   289, 291, 318, 321,           526-28, 535, 555, 557,         183, 188-92, 195, 577,
   411, 498, 504, 575,           564-67, 583, 588, 593,         581, 586, 609, 614,
   611, 650, 701, 794,           594, 611, 672, 699,717,        616, 637, 641-42, 644,
   797, 841, 847, 852,           718, 818, 821, 828-29,         692-93, 695, 721, 727,
   870, 875-76, 878, 915,        830-32, 836-47, 849-           729-30, 733-34, 756-
   925.                          54, 857, 868-69, 912-          57, 759, 761-63, 765-
Clima: 152, 156-57, 223,         13, 915.                       72, 774, 776-77, 779,
   226, 268, 327-28, 429,     Falantes de bantu: 31,            781, 783-85, 788-90,
   479-80, 482, 509, 556,        169-70, 610-11.                794, 798, 882.
   568, 573, 621-3,686,       Ferro (minerao, meta-       Isl: 1-2, 4, 6-11, 14, 23,
   732-33, 740, 789, 811,        lurgia e comrcio): 10,        25, 27, 29-30, 36, 39-
   840, 846, 883, 885-86,        21, 30, 124-25, 159-60,        68, 69-112, 113-141,
   891.                          166-67, 179-81, 183,           147, 156, 161, 164-66,
Cobre: 312, 359, 361, 425,       247, 312, 418-19,425,          197, 200, 203-4, 218-
   427, 432, 440, 442-43,        427, 432, 440, 442,            221, 225, 229-31, 237,
   449, 453, 457, 471,           449, 510, 515, 520-21,         252, 267, 270, 273-74,
   473, 488, 493, 500-1,         543-53, 561, 566, 578-         278-95, 299, 318, 321-
   553-56, 566, 571, 579,        79, 581, 583, 585, 589,        22, 329-30, 332, 336,
   585, 603, 605, 608,           591, 593-94, 601, 603,         340-41, 351, 356, 358,
   612, 615, 639, 641-42,        605, 612, 617, 620,            362, 366, 369-70, 375,
ndice remissivo                                                                  1023



   379, 382, 393, 397,          luba, 169; malinke,         Moedas de ouro: 5- 6, 9,
   375, 379, 382, 393,          93, 96; mande, 588,            226, 384, 412, 426,
   397, 401-2, 406-7,           917; mongo, 169;               446, 450, 461-62,
   413-14, 417, 420-24,         monokituba, 177;               468-9.
   428-29, 461, 468, 471,       mpongwe 177; Nger-         Movimentos populacio-
   420-24, 428-29, 461,         -Congo, 573, 625, 628;         nais: 30, 99, 107, 143-
   468, 471, 483, 503,          nilticas, 743, 747;           67, 183, 593, 634, 721,
   507, 512,, 525-36, 658,      `Pahouin', 174; persa,         779, 782-83, 797, 875,
   660, 671-72, 674, 676,       820; saariana, 523-24;         891.
   678, 681-82, 701-72,         snscrito, 29, 803;         Ouro (produo): 5, 124,
   674, 676, 678, 681-82,       semticas, 105-6; serer,       163, 203, 208, 238,
   701, 707, 708-20, 803,       152; shona, 169, 192,          250, 332-4, 420, 438,
   809, 819-20, 822, 828-       781, 783; siraco, 670;        447, 564, 623, 715,
   33, 837, 841, 845, 851,      tuaregue, 358; wolof,          789-91, 822, 900-1.
   854, 863, 870, 874,-78,      629; ioruba, 563; zandj,    Ouro (comrcio): 9-11,
   881, 894, 916, 921-22,       699-700.                       109, 137, 220, 249,
   925, 928.                 Literatura: 28, 37, 61, 119,      299, 311, 315, 354-5,
Lnguas: afrikaans,             134, 136, 231, 321,            360, 365, 374, 379-80,
   177; rabe (contato)         417, 428, 664-65, 672,         384-85, 398, 419, 424,
   134; aramaico 60;            707, 839, 848, 855,            432-33, 436, 446, 450-
   bantu, ver falantes          857, 869, 909, 920.            58, 460-62, 466-73,
   de bantu; benou-         Metalurgia/minerao:             476, 482, 494-97, 553-
   -congo, 631; berbere,        160, 166-67, 187, 190,         55, 560, 641, 717-19,
   81, 338, 347, 401,           443, 457, 485, 493,            751, 794, 797-08, 838,
   434, 631; bira, 176-         510, 544, 546-47, 578,         879, 911-12, 924.
   -77; bubi, 174; copta,       581, 586, 602, 605,         Religio:1-2, 4, 9-12, 14-
   74, 204; cuchtica,          632-33, 636, 641, 743,         5, 40-2, 49, 52, 55-8,
   705, 749; dravdicas,        756, 812, 871, 874,            67, 69-70, 72-3, 75, 78,
   152; duala, 169;             903-5.                         80-1, 83, 88-94, 97,
   edo, 563; fang, 169,      Moeda corrente/cunho/             101, 103, 106, 108-10,
   174; fulbe, 90, 153;         monetrio: 5-6, 9, 12,         112-114, 116-18, 124-
   fulfude, 153-4, 629;         15, 28, 35, 204, 222,          6, 130-33, 135, 137-41,
   grego, 204; chamito-         249, 358, 384, 425-26,         150, 158, 164, 203,
   -semtica, 516; herero,      431-2, 445-46, 450,            210, 235, 273, 290,
   169, 756; kanembu,           454-57, 459-65, 467-           299, 318, 319, 329-33,
   518; khoisam, 722,           71, 479, 493, 504, 555,        363, 368, 389, 397,
   750, 756; kiswahili,         612, 615, 654,657, 668,        401-2, 459, 520, 534-
   699, 701-2, 706-7,           715, 719, 762, 794,            36, 602, 655, 658, 671,
   812; latim, 170, 314,        870, 873, 890, 903,            700, 707-8, 720, 749,
   319; lingala, 177;           909-10, 918, 921.              789, 797-98, 827, 830,
1024                                                              frica do sculo VII ao XI



    852, 856, 877, 878,          241, 243-44, 300, 361,        324, 337, 384, 387,
    922-23, 925, 928.            367, 417-18, 423, 440-        400, 413, 565, 604,
Saara: 6, 8-9, 11, 83-112,       43, 458, 462, 484-85,         705, 729, 791, 858,
    119, 135, 141, 144,          488-89, 493, 501, 510,        877.
    148, 150-2, 155, 157,        515, 537, 543-49, 554,     Trocas comerciais: 5, 9, 15,
    160, 165, 215, 268,          556-57, 560-61, 568,          17, 35, 111, 154, 160-
    272, 315, 327-68, 379,       573, 576-79, 581, 583-        63, 165-66, 187, 299,
    397-404, 412, 417,           91, 602, 610, 614-15,         312, 315, 420, 432,
    431, 433-6, 444, 448-        638-42, 644-45, 649,          438, 442, 444, 454,
    9, 454, 480, 483, 488,       654-55, 669, 688-98,          457, 488, 510, 522,
    494, 501, 503, 504,          728, 735, 751, 754, 757,      525, 527, 547-48, 562,
    509, 511-12, 519, 525,       761-72, 780, 784, 788,        567, 587, 608-9, 613-
    535-38, 555, 608, 618-       790, 797-78, 808-14,          14, 616, 654-55, 700,
    19, 838, 861, 864, 866-      884-85, 890, 895-96,          716-17, 719-20, 734,
    67, 870, 872, 874-77,        904, 911, 920, 928.           739, 743, 750-51, 789-
    884, 886, 888-89, 896,    Taxas/tributos: 26, 65, 72,      90, 797, 803, 809, 820-
    903, 906, 910, 914,          78, 132-33, 163-64,           21, 826, 861, 863-69,
    923, 926.                    205, 209, 220, 225,           871-3, 876, 878, 882,
Stios arqueolgicos: 179-       234, 237-38, 249-50,          892, 911, 913-14.
    80, 183, 229,, 239,          252, 270, 274, 310,
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
